A LIBERTAÇÃO NO TEATRO DE FANTOCHE
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
João 8:32
Não há dúvida de que a verdade é libertadora! Mas, às vezes pode acontecer de, ao conhecer a verdade, passarmos por um processo de solidão e até de desprezo, onde ficamos em uma clausura de luta constante, uma verdadeira batalha interna onde nosso “eu” nos confronta com constantes interrogações.
— Será?
Mas conhecer a verdade não é simplesmente ouvir falar sobre ela de forma vaga e superficial, o conhecimento é incontestável e nele não há espaço para dúvidas.
Em 1975 eu era uma criança e tinha seis anos de idade, eu sempre tive problemas de bronquite, (os antigos falavam bronco pulmonal) a gente tinha se mudado de pouco para Campinas, acho que não tinha feito nem um mês ainda, então minha mãe procurou ajuda na igreja onde a gente congregava, com a ajuda de uma irmã que nos acompanhou, eu fui internado em um hospital pediátrico da cidade, era um bom hospital e além dos recursos médicos eles tratavam humanamente as crianças. Havia lá uma sala de recreação para as crianças, com uma televisão e muitos brinquedos, várias entidades prestavam serviços sociais ali naquele hospital davam muitos brinquedos e proporcionavam aos internos muitas diversões trazendo sempre atrações diferentes nos variados dias da semana.
A gente adorava e se encantava com tudo! Mas tinha uma equipe que era a nossa favorita, tratava se de uns jovens que apresentavam um teatrinho de fantoches onde os personagens, os bonecos Zico, Zoca e Maroca brincavam, cantavam e contavam histórias, muitas das vezes eles interagiam com o público.
Era muito emocionante quando saiamos da sala comentando uns com os outros.
— Você viu? O Zico falou comigo! A Maroca falou comigo! — e a animação era grande! éramos crianças inocentes e não só acreditávamos “piamente” que os bonecos realmente falavam, como também que eles tinham...
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A LIBERTAÇÃO NO TEATRO DE FANTOCHE
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”
João 8:32
Não há dúvida de que a verdade é libertadora! Mas, às vezes pode acontecer de, ao conhecer a verdade, passarmos por um processo de solidão e até de desprezo, onde ficamos em uma clausura de luta constante, uma verdadeira batalha interna onde nosso “eu” nos confronta com constantes interrogações.
— Será?
Mas conhecer a verdade não é simplesmente ouvir falar sobre ela de forma vaga e superficial, o conhecimento é incontestável e nele não há espaço para dúvidas.
Em 1975 eu era uma criança e tinha seis anos de idade, eu sempre tive problemas de bronquite, (os antigos falavam bronco pulmonal) a gente tinha se mudado de pouco para Campinas, acho que não tinha feito nem um mês ainda, então minha mãe procurou ajuda na igreja onde a gente congregava, com a ajuda de uma irmã que nos acompanhou, eu fui internado em um hospital pediátrico da cidade, era um bom hospital e além dos recursos médicos eles tratavam humanamente as crianças. Havia lá uma sala de recreação para as crianças, com uma televisão e muitos brinquedos, várias entidades prestavam serviços sociais ali naquele hospital davam muitos brinquedos e proporcionavam aos internos muitas diversões trazendo sempre atrações diferentes nos variados dias da semana.
A gente adorava e se encantava com tudo! Mas tinha uma equipe que era a nossa favorita, tratava se de uns jovens que apresentavam um teatrinho de fantoches onde os personagens, os bonecos Zico, Zoca e Maroca brincavam, cantavam e contavam histórias, muitas das vezes eles interagiam com o público.
Era muito emocionante quando saiamos da sala comentando uns com os outros.
— Você viu? O Zico falou comigo! A Maroca falou comigo! — e a animação era grande! éramos crianças inocentes e não só acreditávamos “piamente” que os bonecos realmente falavam, como também que eles tinham vida própria como nós!
A gente ficava sempre na expectativa de quando aquela equipe viria, para assim poder assistir ao show dos bonecos.
Em um certo dia, depois que terminou o show, nós fomos para nossos quartos, mas eu precisei voltar à sala de recreação, não me lembro por qual motivo, e foi ali que meu universo de fantasias ruiu feito um castelo de areia varrido pelas ondas do mar!
Ao entrar na sala eu vi nitidamente os artistas que faziam o show, guardando os bonecos nas bolsas juntos com suas parafernálias, e inclusive eu vi quando um dos moços pegou um boneco e se dirigindo a uma amiga de elenco, moveu sua boca e fazendo a voz dele, balbuciou alguma coisa para a colega que riu muito! E igualmente arrancou risos do restante do grupo ...era o Zico, o meu personagem favorito!
Qual não foi a minha decepção! Eu não via a hora de chegar o dia seguinte para que enfim pudesse contar aos meus colegas a “triste” novidade.
Uma vez reunidos no refeitório tomando o café da manhã eu já fui logo soltando.
— Eles são bonecos! Eles não falam! E são manipulados por pessoas, que falam por eles.
O riso foi geral! Todos me achincalhavam e zombavam de mim.
— Nossa que moleque burro! — diziam alguns deles.
— É logico que eles têm vida própria seu otário! — falavam outros.
A partir daquele dia eu passei a ser o idiota da turma! O menino que pensava que os bonecos de pano e plástico não falavam nem tinham vida própria! Eu passei a ser visto como bobo, os meninos e meninas zombavam de mim, e eu apesar de ter visto com meus próprios olhos, ainda assim me sentia um idiota.
— Mas eu vi! — dizia eu para mim mesmo, e minha confusão era grande!
O pior aconteceu no show que se seguiu após este episódio, eu entrei na sala me sentei em meu lugar e fiquei observando, quando o show começou, eu me senti o próprio patinho feio! Um verdadeiro ser de outro planeta!
As crianças sorriam e se divertia muito, enquanto eu as olhava pensativo, me perguntando.
— Do que estão rindo? Qual é a graça?
Dias depois eu havia perdido a graça com os bonecos de tal forma, que eu preferia ficar em meu quarto a ir para a sala de recreação, mas havia um grande problema, eu estava sozinho! Eu não consegui convencer nenhum dos colegas com meu relato, embora eu jurasse por Deus pelo céu e por minha própria mãe!!
Alguns amigos tentaram me convencer, dizendo que eu estava enganado, e mesmo eu tendo certeza do que vi e ouvi, eu decidi que não queria ser o bobo da corte, o idiota da turma, até porque eu estava cansado de ficar sozinho, tanto fisicamente como em meus pensamentos, então eu disse que eles estavam certos, eu havia me enganado! Na verdade, eu até tentei voltar a ser como era antes, fui em uma das atrações e tentei sorrir e fingir surpresa com as histórias e piadinhas, e quando um dos bonecos fez uma referência a minha pessoa eu sorri muito, e quando saímos eu fingi entusiasmo pelo fato de um dos bonecos ter falado comigo.
Eu tentei com todas as minhas forças, agir como os demais garotos, mas havia acontecido algo comigo que na época eu não entendia, eu tinha sido liberto pela verdade!
Os dias que se passaram foram estranhos, eu me via lutando entre ser popular e me enturmar com os meninos e meninas a mentir para mim mesmo, teve dias que eu desejei ardentemente nunca ter voltado àquela sala, odiei ter descoberto a verdade!
Descobri que a mesma verdade que te liberta também te isola! Paga-se um certo preço por ser parte integrante do minúsculo grupo que despertou do sono entorpecente da Matrix.
É difícil viver em um mundo onde os que vivem a mentira e a ilu-são, são, em número, infinitamente superiores aos que conheceram a verdade e foram libertos por ela.
Com seis anos de idade eu tive que decidir se seria um idiota para todos ou se o seria para mim mesmo, uma criança de seis anos não está preparada para tomar decisão alguma! Por isso sofri muito ao longo de minha vida pois minha fé nunca teve forças para me fazer transpor as muralhas que cercavam minha razão!
Ainda assim eu relutei por anos a fio contra mim mesmo e contra meus ideais, claro que eu era obrigado por meus pais, a abraçar uma crença que eu não escolhi, mas eu nunca consegui enxergar pelos olhos deles.
O incidente no teatro de fantoches foi um divisor de águas em minha vida aquilo despertou meu senso crítico, e aos seis anos eu já sabia distinguir entre ponto de vista crítico e ponto de vista analítico, no silêncio (obrigatório na minha época de infância) eu sempre questionei os pressupostos, e comparei os diferentes pontos de vista e tentava identificar os argumentos falhos.
Eu sempre respeitei a fé, o credo e a devoção das pessoas, se alguém quiser rezar para um boneco do Goku, dizendo que ele é um deus, eu super respeito a crença dessa pessoa e até admiro! Mas se esse alguém me pedir para fazer o mesmo eu não vou fazer, afinal eu super respeito meus próprios conceitos também!
Eu me sentiria um idiota fazendo (sem fé) as mesmas coisas que meus semelhantes fazem (com fé).
O século XXI trouxe a tona o teatro de fantoches e hoje eu revejo aquela mesma história se repetindo, nas religiões, na política, nas ideologias e filosofias, ...nunca vivemos uma inversão de valores tão grande como estamos vivendo hoje!
Eu não vejo grande diferença entre muitas pessoas nos dias de hoje com aquelas crianças, entorpecidas pelo que queriam acreditar, da época de minha infância.
Hoje já não se pode mais falar no que existe e no que não existe, pois tudo é uma questão de interpretação e até de aceitação! É como se os loucos dissessem.
— Existe o que eu quero que exista e deixa de existir o que eu não quero que existe!
Paulinho do Guetto
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