Diário de uma pessoa molecular
Capítulo 1: O Tempo do Plantio
O desespero cega o futuro. Lembre-se: o tempo da colheita respeita o tempo do plantio.
Essa analogia da semente e do grão resume o que significa crescer pra mim. Mudar dói, mas é o único caminho para não virar uma cópia do que os outros esperam de nós.
As memórias da minha infância e adolescência são flashes distantes. Guardo com carinho as lembranças simples de brincar na rua em São Paulo. Era muito frio e meus dedinhos doíam. Eu queria brincar, só que sempre acabava tropeçando nas outras crianças e às vezes isso era interpretado como um empurrão.
Da minha família de origem as lembranças são mais complexas. Somos uma família grande, mas sempre fomos separados por valores. Por muito tempo me senti a ovelha desgarrada. Eu fazia de tudo pra me encaixar na vida deles, até que o amadurecimento me trouxe uma visão clara: o problema nunca foi pessoal.
Olhando de fora, percebo uma disputa constante pra ver quem tem mais. Enquanto eles medem o mundo pelo patrimônio, eu sinto uma gratidão profunda pelo pouco que tenho. Eu não sou apenas o que eu possuo.
Hoje mantenho uma relação estável com a minha mãe. Convivo com as manias dela e com o hábito de fazer comparações, mas já não permito que isso balance a minha estrutura. Aprendi uma lição que protejo com unhas e dentes: não dou mais brechas pra ninguém me diminuir. Quem me mede por valores materiais não faz questão da minha presença, e eu, sinceramente, não faço mais questão de estar lá.
Se hoje não vou aos encontros, não é por falta de capacidade. É por falta absoluta de vontade. A minha paz não tem preço.
*A escrita e o vão*
Essa falta de sintonia ficou ainda mais clara com a minha escrita. Nunca tive estímulo da parte deles. Pelo contrário, o que vinha eram críticas. Mas a escrita cura, liberta e abre portas.
Quando participei de uma antologia e estive na Bienal do...
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Capítulo 1: O Tempo do Plantio
O desespero cega o futuro. Lembre-se: o tempo da colheita respeita o tempo do plantio.
Essa analogia da semente e do grão resume o que significa crescer pra mim. Mudar dói, mas é o único caminho para não virar uma cópia do que os outros esperam de nós.
As memórias da minha infância e adolescência são flashes distantes. Guardo com carinho as lembranças simples de brincar na rua em São Paulo. Era muito frio e meus dedinhos doíam. Eu queria brincar, só que sempre acabava tropeçando nas outras crianças e às vezes isso era interpretado como um empurrão.
Da minha família de origem as lembranças são mais complexas. Somos uma família grande, mas sempre fomos separados por valores. Por muito tempo me senti a ovelha desgarrada. Eu fazia de tudo pra me encaixar na vida deles, até que o amadurecimento me trouxe uma visão clara: o problema nunca foi pessoal.
Olhando de fora, percebo uma disputa constante pra ver quem tem mais. Enquanto eles medem o mundo pelo patrimônio, eu sinto uma gratidão profunda pelo pouco que tenho. Eu não sou apenas o que eu possuo.
Hoje mantenho uma relação estável com a minha mãe. Convivo com as manias dela e com o hábito de fazer comparações, mas já não permito que isso balance a minha estrutura. Aprendi uma lição que protejo com unhas e dentes: não dou mais brechas pra ninguém me diminuir. Quem me mede por valores materiais não faz questão da minha presença, e eu, sinceramente, não faço mais questão de estar lá.
Se hoje não vou aos encontros, não é por falta de capacidade. É por falta absoluta de vontade. A minha paz não tem preço.
*A escrita e o vão*
Essa falta de sintonia ficou ainda mais clara com a minha escrita. Nunca tive estímulo da parte deles. Pelo contrário, o que vinha eram críticas. Mas a escrita cura, liberta e abre portas.
Quando participei de uma antologia e estive na Bienal do Rio, publiquei algumas fotos discretas. Nunca fui de querer aparecer. Foi curioso ver o orgulho e a curiosidade surgirem de onde menos se esperava, inclusive com elogios das pessoas querendo entender como aquele mundo funcionava.
Ser simples nunca foi uma doença. Foi a minha escolha de vida. E o meu maior prêmio é deitar a cabeça no travesseiro sabendo que criei filhos honestos, trabalhadores e ricos daquilo que o dinheiro não compra. Não somos ricos, mas somos únicos e principalmente unidos. É a frase que sempre uso nos momentos de dificuldade.
*O pilastre preto*
Hoje acordei cedo pra organizar a casa e ir pra mais uma batalha em busca do meu direito de descansar um pouco depois de tantas lutas. Estou a passos largos na rua, indo em direção à estação do VLT, meu pensamento cheio de ideias novas e antigas pra escrever no meu diário.
Tropeço num pilastre pintado de preto no meio do caminho. Durante anos eu fiz esse percurso e não me aconteceu nada. Agora, com a modernização do bairro, surgiram algumas mudanças, e eu percebo que preciso mapear novamente o mesmo caminho.
Não foi grave. Me recompus e continuei ao som de uma indagação: "Caraca, tia, negócio grande, se não viu, não?" Eu sorri e respondi: "Não, eu não vi!"
De hoje em diante, irei prestar mais atenção. Não adianta explicar a forma de um molecular enxergar a vida se até hoje eu mesma não entendo.
Capítulo 2: Vestida de Coragem
Silenciosa como a semente, forte como o fruto. Eu olho pra trás e percebo o quanto progredi. O medo ainda existe aqui dentro, mas a coragem me vestiu pra que eu pudesse sobreviver.
Durante muito tempo, não entendi por que as coisas eram mais difíceis pra mim, por que eu me sentia diferente. Faltou suporte na infância e na adolescência pra compreender que eu não enxergo o mundo como todos. Eu tenho apenas a visão direita, e havia sempre um vão invisível que me impedia de avançar.
Passei anos em busca de ver um mundo melhor, até que, aos 33 anos, descobri que a minha situação era irreversível. Foi uma decepção dolorosa, mas, ao mesmo tempo, a minha maior libertação. No meio daquela tristeza, eu finalmente entendi: eu não nasci pra fazer as coisas com pressa. A vida me exigia prudência, e os meus olhos me ensinaram a ter paciência.
*A avaliação social*
Cheguei pra uma avaliação social em Copacabana. Fiquei quatro meses esperando pelo atendimento. Estava marcada para 13h. Como é de praxe, eu sempre chego com antecedência. Odeio chegar atrasada aos meus compromissos.
Fiquei sentada aguardando minha vez e notando que as cadeiras de atendimento estavam todas vazias. Ninguém na recepção. Fiquei ali por duas horas esperando e fui finalmente chamada. Me fez algumas perguntas desnecessárias e eu educadamente respondi.
Quando me perguntou o que eu gostava de fazer pra distrair, eu obviamente iria dizer que é escrever. Fiquei empolgada, falei sobre minhas participações em antologias e sobre meus passeios em eventos literários. A mulher ficou me olhando com interesse e me perguntou se eu tinha algum lucro. Eu prontamente respondi que não era um meio de trabalho e sim um lazer, um momento de descontração e desabafo, tipo uma auto terapia.
Fez algumas perguntas necessárias, anotou sua avaliação e me dispensou. Me lembro de ter me perguntado se eu vivia na miséria e eu repreendi e disse que não. Graças a Deus o pão de cada dia não me faltava. A minha necessidade era notória, porém ela gostaria de ver alguém mais miserável. E eu acredito que ninguém deva ser chamado ou tratado assim num país tão rico como o Brasil. Porém sabemos que somente os escritores famosos ou até mesmo os estrangeiros vivem somente da sua escrita no Brasil, onde a arte e a cultura são tão pouco valorizadas.
Fui embora cansada, desanimada e decepcionada com a raça humana. Eu já pressentia que não seria nada fácil, porém é muito mais desgastante do que eu pensava.
*A blusa do Brasil*
Estava chovendo e eu havia prometido pro meu neto uma blusa do Brasil, pois estava na época da Copa de 2026. Passei no calçadão de Copacabana e comprei uma camisa do Brasil com exatamente o troco que eu tinha na conta. Uma senhorinha muito simpática me atendeu. A alegria voltou ao meu rosto. Realmente não tem preço poder fazer uma criança feliz.
Cheguei em casa cansada, fui tomar banho e fazer um chá. Dormi cedo. O dia foi muito cansativo.
Acho que meu pensamento foi ouvido por Marte, pois acordei assustada às 1:23 com um alerta geral ofendendo a humanidade: misantropia 4. Logo corri pra pesquisar e não discordei do significado. Então me lembrei que ainda sou humana, mas às vezes tenho aversão dos humanos.
Pela falta de humildade que estou sendo tratada, já não basta ter que lidar com uma deficiência você ter que se humilhar por um direito que deveria ser tranquilo e compreensível e não uma luta cheia de frustrações!
A empatia e amor ao próximo só existe nas redes sociais.
Capítulo 3: O Milagre da Visão que Resta
Teve um dia em que a esperança me levou a acreditar que eu poderia ser curada. Entrei na consulta médica achando que encontraria a cura milagrosa pra mancha cega do meu olho esquerdo. Saí de lá desolada.
A médica, com muita gentileza, me disse que a medicina não tinha o que fazer por aquele lado, e que eu precisava focar todas as minhas forças em cuidar do olho direito, que já carregava o peso de um mundo imparcial.
Peguei o transporte de volta pra casa sem saber direito como caminhar. Minha vista estava completamente embaçada pelo colírio e pelas lágrimas que eu havia guardado por anos, esperando por aquele milagre.
Foi ali, naquele vagão, que percebi uma coisa: meu anjo da guarda é muito bom. Ele me trouxe pra casa tantas vezes quando eu não conseguia enxergar o caminho. Ele me fez escritora quando ninguém acreditava que eu poderia ser algo bom na vida.
Hoje, eu escrevo nas madrugadas, às vezes com um olho aberto e o outro fechado. Pode parecer difícil, mas não importa o que pensem: eu tenho um orgulho imenso da minha trajetória, porque só eu sei o quanto é difícil ser eu.
Decidi que não vou mais reclamar do que perdi de vista. Eu vou agradecer, todos os dias, por tudo aquilo que eu ainda consigo ver.
*Capítulo 4: O Peso de Ser o Suporte*
Por fora, muitos acham que sou uma rocha inflexível, mas por dentro eu me sentia destruída. Estou em um processo silencioso de restauração. É doloroso desabar quando você precisa ser o suporte e o espelho pras pessoas que mais ama. Por isso, escolho viver minhas dores calada, nas madrugadas, sem demonstrar fraqueza pra não preocupar meus filhos. Sem eles, nada disso teria sentido.
O começo deste ano me trouxe uma enxurrada de decepções vindas de pessoas em quem eu depositava a minha confiança. Acabei me fechando, desenvolvendo um receio profundo de me socializar e me isolando no meu canto. O lugar onde moro hoje perdeu o encanto, e as situações ao redor me tiraram o ânimo de ir pra rua.
Mas eu não desisti. Estou pedindo forças a Deus e desenhando um plano estratégico pra mudar de vida junto com a minha família. A vida não é fácil pra ninguém, mas sei que esse isolamento é apenas o casulo. Eu vou melhorar, vou recuperar o meu espaço no mundo, no tempo certo e com a prudência que os meus olhos sempre me ensinaram a ter.
Há dias em que o casulo aperta, mas a vida insiste em me chamar pra fora. Hoje, eu me arrumei, ensaiei uma caminhada na praia, mas o medo me fez voltar após comprar algumas frutas. E tudo bem. Cada passo no seu tempo.
Afinal, no último sábado, eu fui ao cinema com o meu caçula assistir He-Man e vi que meu coração se encheu de uma alegria que há muito tempo não sentia. Lembrei que eu tenho força. Estou me esforçando pra voltar, me cuidando de dentro pra fora, porque a restauração da minha alma também passa pelo cuidado com o meu corpo.
*As raízes*
Estive questionando minha mãe sobre os cuidados com a minha visão na infância e ela me respondeu que me levou uma ou duas vezes no oftalmologista na Santa Casa de Misericórdia. Eles colocavam um tampão no meu olho direito. Isso eu lembro. Eu ficava na imensa escuridão. Eu deveria ter uns 5 ou 6 anos. Então eu retirava o tampão pra poder brincar um pouco com meus irmãos e levava aquela surra básica dos anos 70.
Então aprendi a ficar mais quieta no meu canto pra não cair no buraco negro que eu via à minha frente. Com o tempo veio a superação e aceitação. Eu cresci e me casei, fui mãe muito cedo e aprendi a me virar sozinha.
Durante anos eu me limitava a andar pelos lugares que eu conhecia. Você vai aprendendo a mapear seu caminho e algumas vezes você até cai nos buracos públicos que nunca têm sinalização. Acho que o mundo não se prepara pra receber uma pessoa molecular. Até outro dia eu também não me preparava pra lidar com esse mundo.
Eu cresci vendo o lado bom da vida. Faço algumas piadinhas no meu percurso pra descontrair a minha mente. É assim que eu cheguei até agora. Ontem foi diversas vezes difícil e de tombo em tombo eu fui aprendendo a me desviar dos vãos. Às vezes sorrir da própria dificuldade faz ela ficar mais leve.
Quando criança eu chorava muito, apanhava pra parar de chorar. Era difícil ver todas as crianças correndo naturalmente e eu com aquele medo que eu não entendia o real motivo.
*Sumário: Minhas Memórias em Flashes*
Estou encolhida num canto da creche. As crianças correndo e brincando e eu ali parada feito uma estátua. A tia chega perto de mim e parece me compreender. Eu sinto um frio de tremer os ossos. Me lembro que em SP era muito frio e meus dedinhos doíam. Eu queria brincar só que sempre acabava tropeçando nas outras crianças e às vezes isso era interpretado como um empurrão.
Eu olho no espelho e aquela criança de cinco anos deu lugar a uma mocinha de quinze que já escrevia à sua maneira e gostava de cantar as músicas da Rosana achando que era uma deusa do universo.
O tempo passou rápido demais e o buraco escuro sempre esteve ali. A diferença é que eu aprendi a conviver com ele e a ultrapassar os obstáculos com calma, sem muita cobrança, porque eu já não aguentava mais os tombos que a vida me dava.
*Posfácio: O meu legado dos Valores Sentimentais*
Quero que este livro seja mais do que folhas impressas. Quero que ele seja uma referência pros meus netos quando eu não estiver mais aqui. Meu maior desejo é que eles cresçam em um ambiente de união e, acima de tudo, cercados por valores sentimentais.
É óbvio que o dinheiro é maravilhoso e traz conforto, mas ganhar o mundo e não ter as pessoas que amamos por perto não vale a pena. O pouco com Deus é muito. E, quando um dia tivermos muito, nunca devemos menosprezar o pouco. É preciso sempre lembrar das raízes e de onde viemos.
A vida me ensinou isso da forma mais dura. Não se trata de mágoa. Trata-se de reconhecer a inversão de valores do mundo. Quero que meus netos saibam que a verdadeira riqueza não está no que ostentamos, mas na mão que estendemos nos momentos de dificuldade.
Que eu seja os olhos de muitas pessoas que passam pela mesma dificuldade que eu e não têm voz pra explicar o quanto é difícil se enquadrar no mercado de trabalho, se posicionar em um transporte público lotado e principalmente atravessar uma passarela dessas tipo Avenida Brasil. Que pra quem tem os dois faróis funcionando já é um grande desafio, imagina um só. As oportunidades são muito poucas.
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*Dedicatória e Agradecimentos*
Agradeço muito a Deus pela minha vida e principalmente pelo dom da escrita que me acompanhou nos dias tristes e felizes. Agradeço à minha família que me deu ânimo pra continuar e coragem pra lutar por um mundo melhor.
A vida é um ciclo constante que devemos apreciar cada passo.
*Por que decidi eternizar o silêncio*
Essa história é real. Pode até ter algum ponto ilusório, mas a trajetória foi o meu longa metragem pra escrever este diário hoje. E continuo a minha busca pela paz interior.
*O Valor da Solitude*
Eu aprendi no silêncio a ser meu próprio barulho quando resolvi colocar no papel os meus sentimentos e comecei a gostar de desabafar na escrita. Escrever pra mim é um dom maravilhoso. É o que me torna gigante mesmo sabendo que sou apenas mais uma formiguinha.
Reflexões são os melhores ditados que nossa mente cria. O auto-respeito e a proteção da sua paz são desenhos de uma rotina comum ou talvez apenas um sonho que você um dia irá realizar.
Escrever entre metáforas é uma mistura de ficção com realidade.
É meu desabafo minha cura e principalmente meu agradecimento pela vida.
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