ENGOLE O CHORO
Acredito que, um dos meus grandes desejos seria, estar agora escrevendo uma história linda sobre minha vida e sobre minha família, sobre uma vida tranquila e uma família “normal” e feliz.
Mas a realidade é dura e cruel, chegando até a ser perversa, e em algumas ocasiões ela não só nos desvia dos nossos desejos, como também nos faz tomar direção oposta.
Carrego em mim uma dor da qual não encontro palavras para exprimir, é claro que por muitas vezes choro escondido, os fantasmas que me assombraram no passado sempre voltam.
Ocultos por detrás de outras faces, ainda vejo os mesmos monstros me olhando com ódio sádico enquanto repetem a frase que meus pais sempre repetiam após terem me espancado com violência.
— ENGOLE O CHORO!!
Cito como os motivos que me moveram a escrever, o desabafo ou talvez um alívio para ombros débeis que já não suportam mais a carga que lhe foi imposta.
E no vasto jardim do universo talvez eu encontre algumas flores que se identifiquem com minha história, e quem sabe, unindo as dores, possamos verter algum balsamo para tantas feridas.
Humildemente me dirijo a esse grupo e peço que permitam lançar da alma aflita, o homem a quem a própria vida já não mais lhe pertence, talvez seus últimos lamentos, e como um último desejo deixem me expressar, falar sobre a adaga que me acomete o peito e o punhal que me crava entre as costelas.
Não peço que me deem razão ou que concordem comigo, compreensão é tudo que desejo, alguém que entenda ser razoável minha angústia.
Acredito que faço parte de um grupo do qual o choro não acabará tão cedo (e talvez nunca acabe) somos feridas abertas e mau curadas pois nos vemos cercados por juízes que nos julgam pelo fato de sermos tão frágeis, crianças vítimas em potencial, os...
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Acredito que, um dos meus grandes desejos seria, estar agora escrevendo uma história linda sobre minha vida e sobre minha família, sobre uma vida tranquila e uma família “normal” e feliz.
Mas a realidade é dura e cruel, chegando até a ser perversa, e em algumas ocasiões ela não só nos desvia dos nossos desejos, como também nos faz tomar direção oposta.
Carrego em mim uma dor da qual não encontro palavras para exprimir, é claro que por muitas vezes choro escondido, os fantasmas que me assombraram no passado sempre voltam.
Ocultos por detrás de outras faces, ainda vejo os mesmos monstros me olhando com ódio sádico enquanto repetem a frase que meus pais sempre repetiam após terem me espancado com violência.
— ENGOLE O CHORO!!
Cito como os motivos que me moveram a escrever, o desabafo ou talvez um alívio para ombros débeis que já não suportam mais a carga que lhe foi imposta.
E no vasto jardim do universo talvez eu encontre algumas flores que se identifiquem com minha história, e quem sabe, unindo as dores, possamos verter algum balsamo para tantas feridas.
Humildemente me dirijo a esse grupo e peço que permitam lançar da alma aflita, o homem a quem a própria vida já não mais lhe pertence, talvez seus últimos lamentos, e como um último desejo deixem me expressar, falar sobre a adaga que me acomete o peito e o punhal que me crava entre as costelas.
Não peço que me deem razão ou que concordem comigo, compreensão é tudo que desejo, alguém que entenda ser razoável minha angústia.
Acredito que faço parte de um grupo do qual o choro não acabará tão cedo (e talvez nunca acabe) somos feridas abertas e mau curadas pois nos vemos cercados por juízes que nos julgam pelo fato de sermos tão frágeis, crianças vítimas em potencial, os juízes que nos condenaram são os mesmos advogados que defendem e absolvem nossos algozes e sempre trazem frases de efeitos justificando seus abusos.
— Pode até estar errado, mas é seu pai!
— Como pode falar assim da própria mãe!
— É seu próprio sangue!
— Pai e mãe, mesmo errados estão certos!!
Esta última é a mais clássica, e em pleno século XXI, ela ainda serve como base para todos os tipos de abusos, amparados nela, pais abusadores reprimem seus filhos de os denunciarem de qualquer tipo abuso.
Por muito tempo eu relutei para escrever, pois tinha medo de ser julgado por aqueles que me cercam, mas hoje já não importo mais.
Acredito que meu sofrimento não pode ser mais redimensionado e não há julgamentos que possam adicionar mais dores a minha dor.
Quero em um simples relato, apenas relatar alguns fatos que aconteceram comigo, pretendo fazê-lo, sem rancor, sem ódio e sem ressentimentos!
Minha intenção é; acima do desabafo, tirar das masmorras, crianças que como eu foram aprisionadas, e auxiliar os adultos que tem uma dor inexplicável em seu peito e uma certa repulsa a um ente que deveria ser querido e amado.
Sei que serei julgado severamente por centenas de pessoas, mas em uma porcentagem expressiva eu diria que; se em cada uma centena de pessoas, uma... apenas uma, for desencarcerada pelo meu depoimento, ou simplesmente se identificar com minha história e decidir tomar uma atitude a respeito da situação, eu acredito que terei atingido meu objetivo.
O quarto de oito filhos (6 meninos e 2 meninas), eu nasci em junho de 1969 e fui criado no seio de uma família evangélica, (meu pai na época estava afastado da igreja, mas retornou antes que eu completasse 6 anos) gostaria muito de pular essa parte, mas ela se faz necessário para dizer por qual razão meus irmãos e eu sofremos todos os tipos de restrições.
Na época não se usava o termo “evangélico” então éramos chamados de “crentes” naquele tempo tudo era pecado, e quando eu digo tudo, eu me refiro a quase tudo mesmo! E a gente era sumariamente castigado sempre que quebrava qualquer regra.
Quantas surras tomamos por ver televisão na casa do vizinho porque era pecado, a gente não podia, também, jogar futebol, bem como qualquer outro tipo de jogo, uma simples bolinha de gude que a gente levava para casa era motivo para ser castigado.
A gente não podia ter gibis, nossos amigos escondiam revistinhas de sexo debaixo dos colchões, e meus irmãos e eu escondíamos gibis, os quais quando eram encontrados por meu pai eram violentamente despedaçados, e algumas vezes éramos agredidos com eles.
O terror psicológico era o maior monstro que nos assombrava.
— Jesus vai voltar para arrebatar a igreja, e você não vai subir com ele para o céu, vai queimar por toda a eternidade no inferno com o diabo e seus demônios.
Outro terror psicológico que nos era infligido era; após sermos castigados com violência a gente sempre ouvia.
— Você está chorando por quê? Você nem apanhou direito! Mas eu ainda vou te dar a surra que você merece daí você vai ver, aí sim você poderá chorar com gosto!
Toda vez que a gente era apanhado em alguma “infração” a gente logo pensava “meu Deus, será que vai ser hoje a tal surra?” a tensão era enorme!
Os pesadelos eram constantes com a volta de Cristo, aonde ele vinha e arrebatava a igreja, e logico a gente sempre era deixado e em seguida ia para o inferno no final!
Meus irmãos e eu não fomos educados para sermos bons cidadãos, fomos educados para sermos cristãos.
A gente nunca ouviu de nossos pais que éramos cidadãos e como tal, tínhamos deveres para com a sociedade.
— Você não pode fazer isso, porque você é crente! — era a frase que diariamente ouvíamos, acredito que por essa razão, quando a gente deixava a igreja (o que passou a acontecer com frequência na adolescência) acreditávamos que não devíamos satisfação para ninguém! A final a gente já estava mesmo condenado ao inferno nada mais importava, isso nos levava a usar drogas, roubar e cometer delitos.
Já ficamos reclusos e perdemos um irmão, assassinado em consequência de dívidas de drogas.
Tenho lembranças de minha infância (pasmem) desde os meus três anos, e em nenhuma de minhas lembranças eu me vejo recebendo carinho de meus pais, mas me lembro que éramos chamados de moleque horroroso, macaco, pau de fumo, negro à toa, assombração, fantasma, olho de boi e outros adjetivos pejorativos que até então achávamos que era normal os pais chamarem assim os filhos.
Me lembro de uma surra que tomei de minha mãe, acredito que eu ainda não tinha cinco anos na época, a gente estava na casa de minha tia minha mãe conversava com ela e com minha avó paterna, meus irmãos e eu brincávamos ali por perto.
Minha avó falava sobre um conhecido nosso que batia na esposa, depois de contar a história e elas todas comentarem sobre o assunto, minha avó segurou meu primo que tinha uns três anos e brincou com ele, perguntando.
— Você não vai fazer isso quando crescer e se casar, não é mesmo meu anjinho? — meu primo respondeu que não, então minha avó se virou para mim e fez a mesma pergunta, então eu respondi.
— Sim, eu vou bater sim! Vou beber muita cachaça e sentar o coro na minha mulher!
Ninguém viu uma criança com menos de cinco anos falando, inclusive falando coisas que tinha uma referência em casa, alguém em quem se espelhar e seguir o exemplo, meu pai, que embora nunca agrediu fisicamente a minha mãe, mas o fazia psicologicamente, repetindo sempre essas palavras quando chegava em casa embriagado.
— Mulher melhor que você eu vejo aos montes na zona aonde eu vou.
— Eu não tenho mulher em casa, isso aqui é um monte de m*r#a!
E houve uma noite chuvosa em que ele humilhou tanto minha mãe, até que ela não suportou mais, abriu a porta dos fundos e saiu para o quintal da casa então ele fechou a porta deixando-a na chuva, depois que ele dormiu, minha irmã abriu a porta e ela entrou, toda molhada (ela estava grávida)
Ainda assim minha tia, minha mãe e minha avó ficaram horrorizadas em me ver falado aquilo, embora eu tivesse só quatro anos de idade, minha mãe não fez nada na hora, só me fez sair e brincar com meus irmãos lá fora da casa ...mas quando chegamos em casa ela me levou para o quarto e me deu uma surra!
Ao longo de minha infância eu apanhei de vara, de fio do ferro de passar roupas, de sapatos, de cinto, de pedaço de madeira e (pasmem) até com uma faca tipo peixeira!
Quando eu tinha sete anos minha irmã, uma amiguinha nossa e eu sofremos abuso de um irmão da igreja, mas isso era muito comum na época e meus pais sequer conversaram com ele, aos 14 anos fui assediado por um pastor que me perturbou por uma noite inteira (ninguém na minha família sabe desse episódio e todos o tem por um santo homem de Deus) Mesmo com essa carga de tragédias e acontecimentos tristes eu ainda destaco um fato que mexeu mais comigo e me deixou marcas ainda mais profundas, eu nunca consegui contar essa história, mesmo depois de quase 45 anos, meses atrás eu comecei a contar essa história para minha própria esposa foi muito difícil, eu chorei muito e tive que fazer várias pausas, e ainda assim não consegui contar a história por completo.
Trata se de um fato que aconteceu quando eu tinha 12 anos, a gente morava em Franca SP, em 1981 o bairro São Joaquim era um bairro novo, pouco desenvolvido e com poucas casas, em uma noite como outra qualquer, um cachorro apareceu em nossa casa e ninguém conseguiu expulsá-lo.
A gente nunca havia tido um cachorro antes ou qualquer bicho de estimação, minha mãe tinha ódio declarado por cachorros! Dizia que eles eram promíscuos, cruzavam em qualquer lugar e disseminavam a luxuria e a perversão por onde passavam.
Por mais que meus pais tentassem enxotar o cachorro, ele era jogo duro já havia feito sua escolha, ele nos escolhera e agora era o nosso cachorro de estimação! Apesar de ser um cão já adulto, ele abandonou seus tutores e escolheu morar com a gente.
Meus irmãos e eu ficamos radiantes e felizes, aquele foi o nosso primeiro cachorro, ele era tão especial que convenceu até meus pais e eles não tiveram escolha, o cachorro venceu!
Só havia um problema, a gente não sabia o nome dele! Sendo assim a gente tentou chamá-lo por vários nomes, Leão, Tarzan, Hulk e todos os nomes de cachorros que se usavam na época, mas ele não atendia por nome nenhum.
Teve um dia em que a gente estava reunido no quintal de casa e o cachorro dormia debaixo de um banco, meu irmão mais velho contava um fato ocorrido com um amigo nosso que tinha um cachorro chamado Duque, no meio da história meu irmão gritou o nome.
— Duque! Duque!
Então o cachorro, de imediato deu um salto e veio correndo em nossa direção, então nós nos calamos e ficamos todos olhando aquela cena, o cachorro saltava em meu irmão chorava feliz e abanando a cauda parecia dizer com alegria.
— Você descobriu o meu nome cara! Que legal! É isso aí, eu me chamo Duque, muito prazer!
Tinha uma matinha perto de casa e a gente brincava muito nela, o Duque sempre nos acompanhava correndo e brincando com a gente.
Depois de um certo tempo a gente se mudou do São Joaquim para um outro bairro bem próximo, com menos de um quilômetro de distância, a vila Santa Helena era um bairro mais desenvolvido havia várias casas, então a gente tinha muitos vizinhos.
Havia ali muitas galinhas que os vizinhos criavam soltas, e não demorou para que o Duque começasse a persegui-las, os vizinhos ficaram enfurecidos e diziam
— Se seu cachorro matar uma dessas galinhas vocês terão que pagar!
Embora o Duque nunca tivesse matado uma galinha sequer, ele só corria atrás delas e latia, mas meus pais decidiram que havia chegado a hora de dar um fim no cachorro.
Primeiro tentamos doar o Duque para outra pessoa, e na empresa em que meu pai trabalhava, tinha um encarregado de setor que se interessou por ele (pois era um cachorro bonito) o moço levou o Duque para casa em um dia e no outro dia o Duque apareceu em nossa casa com uma coleira no pescoço e uma corrente enorme ligada a ela, quando fomos falar com o moço que havia levado o Duque, ele nos disse.
— Olha, não se desfaça desse cachorro, ele ama vocês demais, eu o amarrei em uma estaca que estava enterrada a mais de um metro no chão, pois ele escavou em torno dela até que ela se soltou e uma vez livre ele saltou o muro que tem quase três metros de altura! Só para voltar para vocês, isso é muito amor!
Meus pais continuaram a oferecer o Duque para pessoas que conhecíamos, mas ninguém se interessava por um cão já adulto.
Foi então que eles chegaram a conclusão de que, só a morte iria separar o Duque de nossa família!
É claro que ficamos muito tristes! Mas a justificativa de meus pais era a de que a gente não tinha dinheiro para pagar uma galinha, caso o Duque matasse uma, e como na nossa casa nunca houve jogo democrático nem diálogo, pois fomos todos tratados debaixo do jugo da submissão e subserviência, então concordamos com a ideia.
Várias propostas foram feitas para várias pessoas diferentes para dar um “fim” no Duque, mas graças a Deus sempre surgia um empecilho e no final não dava certo.
Minha mãe fez amizade com uma senhora vizinha nossa, ela tinha problemas mentais e fazia tratamento médico no INPS (este era o nome na época, e também havia atendimento médico) ela sempre pedia para que minha mãe me permitisse acompanhá-la até a unidade sempre que ela tinha consulta, a princípio eu fiquei muito chateado, mas no caminho de volta, ela batia de casa em casas por onde passávamos pedindo alguma coisa de comer, e como a gente vivia sempre em dificuldade financeira, eu comecei a gostar da ideia pois a gente ganhava muitas coisas.
Um certo dia, na véspera em que eu a acompanharia, ela veio até nossa casa trazendo uma infeliz ideia
— No caminho para o INPS a gente passa por um pontilhão, amanhã a gente podia levar o Duque e jogá-lo lá de cima, eu acho que com a queda, com certeza ele morrerá.
Minha mãe concordou.
Na hora um frio me percorreu por toda a espinha! Pois eu seria o encarregado de acompanhar aquela senhora naquela missão tenebrosa.
Na minha casa não se perguntava “porquê” não se dava palpites ou opinião, não se questionava e diante de uma ordem, JAMAIS se mencionava a palavra “não”.
Passei a noite toda perturbado e demorei a pegar no sono, o Duque dormia no alpendre da casa e na hora de me deitar eu não fui lá fora para vê-lo apenas fui para a cama.
Confesso que passei a noite toda me firmando nas palavras de minha mãe.
• Cachorros são imundos.
• Comem o próprio vomito.
• São promíscuos e depravados.
Por fim, como maior combustível para essa fogueira de ódio eu acrescentei a ideia de que.
• Se o Duque matasse alguma galinha meu pai seria cobrado, e como a gente nunca tinha dinheiro, ele entraria em confronto com os vizinhos e poderia ser morto por algum deles.
Estava pronta a minha lista de “razões” para odiar aquele cachorro, e assim como o homem que lançou a bomba sobre Hiroshima matando centenas de milhares de pessoas, eu estava apenas “cumprindo ordem” seria o Duque ou seria eu.
No meu caso eu tomaria uma surra severa! Surra que hoje eu escolheria sem pestanejar! Mas na época não se tratava só de uma surra que tomávamos de pais sádicos a surra era sempre seguida de injuria, terrorismo psicológico, pânico e humilhação exacerbada!
Então no dia seguinte, levantei cedo me arrumei e fiquei esperando a vizinha me chamar, assim que ela me chamou eu amarrei uma corda no pescoço do Duque e a gente saiu.
Eu procurava não me comover com a atitude do Duque o qual inocentemente, andava todo feliz, saltando e abanando a cauda como se fosse fazer um belo passeio matutino.
Quando nos aproximamos do viaduto a vizinha me disse.
— Quando a gente chegar no meio do viaduto a gente o pega de uma vez e o atira para baixo.
Eu apenas assenti com um movimento de cabeça e prosseguimos, quando chegamos no meio do viaduto nós paramos subitamente e agarramos o Duque...
Ele não resistiu, não emitiu som algum... não se debateu e nem relutou.
Mas eu nunca mais esqueci aquele olhar... olhar que eu tentei evitar, mas foi impossível era como esconder a luz do sol do meio-dia! Ele me olhou nos olhos com olhar assustado, parecendo me perguntar – o que você vai fazer comigo carinha? - mas era muito tarde para desistir, a vizinha o segurou pelas patas traseiras e eu pelas dianteiras e numa fração de segundos nós o atiramos do alto do viaduto.
Assim que nós o atiramos, eu disparei em uma corrida desenfreada até o fim do viaduto e fiquei parado esperando a vizinha que caminhava sorrindo em minha direção, enquanto perguntava.
— O que foi? Tá com medo? Ninguém viu nada! — ela pensava que eu estava correndo por medo de que alguém pudesse ter visto o que eu acabava de fazer.
Mas na verdade eu corri porque não quis ouvir o som do corpo do Duque caindo na BR que passava por baixo do viaduto.
Assim a gente seguiu para nosso destino, lá no INPS a vizinha entrou na fila para ser atendida enquanto eu fiquei sentado em uma das cadeiras.
Todas as “razões” que eu havia amealhado para nutrir um ódio mortal pelo Duque começaram a se desmoronar como um castelo de areia varrido pelas ondas do mar, a final de contas eu era uma criança de 12 anos, uma criança que nunca havia possuído um bicho de estimação na vida, quando o Duque surgiu em nossas vidas foi como se um anjo caísse do céu em nossa casa, e eu havia acabado de jogá-lo do alto de um viaduto, as dúvidas fervilhavam em minha mente.
Em uma cidade desse tamanho, por que no nosso bairro? Por que em nossa casa? Havia outras casas ali, casas com muitas crianças, por que o Duque escolheu a nossa casa?
Mesmo assim eu não chorei! Fiquei sim muito triste, mas não chorei minha confusão mental era enorme!
No retorna para casa a vizinha sugeriu que a gente passasse na casa da mãe dela onde a gente almoçou, depois do almoço um irmão dela que estava lá, nos deu uma carona até nossas casas, passamos por um caminho diferente então não deu para saber se o Duque havia morrido na queda.
Ao chegar em casa, minha mãe perguntou se o cachorro tinha morrido, eu não soube responder com precisão, apenas falei que tudo levava a crer que sim, contei que voltamos de carro e passamos por um caminho diferente.
Depois de algum tempo eu dormi, e assim que acordei perguntei com voz triste, para minha mãe, se o Duque tinha aparecido, então ela respondeu.
— Não, graças a Deus, não apareceu!
Meu restante de tarde foi horrível, todo latido de cachorro que eu ouvia já imaginava que fosse o Duque, o sol se pôs, a noite chegou e meus irmãos brincavam na porta de casa.
A gente não tinha TV então o tempo parecia não passar e as nossas brincadeiras eram diversas, mas naquele dia nada me animava para brincar, eu queria parecer durão e fiquei na sala com meu pai ouvindo discos.
O sofá da sala parecia imensamente pequeno para mim, e minha inquietação era visível, em meu interior os sentimentos pareciam travar uma batalha, eles iam de tristeza e angústia, até uma estranha sensação de dever cumprido! Mal sabia eu que o que me consumia mesmo era ódio e revolta, ódio de mim mesmo e revolta com a vida miserável que a gente levava.
Aquele misto de sentimentos variava, entre me preocupar, amar e sentir pena do Duque e a odiá-lo a ponto de desejar a morte dele, não pode haver atrocidade maior do que obrigar uma criança a praticar uma crueldade dessas!
Em uma das vezes que eu saí na porta eu vislumbrei um vulto escuro correndo em direção da nossa casa, tinha a estatura do Duque, andava como o Duque e correu na direção de meus irmãos como costumava fazer o Duque ...era o Duque! Correndo sem mancar, ileso e integro!
Já se passaram mais de 44 anos... alguém pode não acreditar, mas nem a eternidade me fará esquecer aquela cena ...o Duque passou por todos os meus irmãos e veio até onde eu estava, ele parou cerca de um metro de distância de mim e me olhou nos olhos eu fui até ele e ele se encostou em mim como em um abraço.
Não suportei e sai para o quintal da casa me escondi atrás do tronco da mangueira, sempre seguido pelo Duque o qual eu abracei e chorei copiosamente! Ele me olhava com um olhar de compreensão e eu li em seus olhos a mensagem que parecia dizer.
— Eu te entendo carinha! A culpa não é sua! Você é só uma criança de doze anos! Mas eu nunca vou embora, não vou abandonar vocês de jeito nenhum.
Abraçado ao Duque eu chorei de dor, e lhe pedi desculpas inúmeras vezes, sequei as lágrimas do rosto e voltei para o interior da casa onde ouvia meus pais irritados e xingando por causa do cachorro que havia voltado, assim eu fui dormir e dessa vez a noite foi mais suave.
Nos outros dias seguintes as coisas voltaram ao normal, tentamos (do nosso jeito) educar o Duque, mas seu instinto era mais forte e ele voltou a fazer aquilo que, na mente dele, era a coisa certa a fazer, perseguir as galinhas latindo.
As ameaças dos vizinhos também eram constantes, assim as consultas com “exterminadores de cães” voltaram, teve até um “irmão” da igreja em nossa casa o qual disse que emprestaria o caminhão, se algum de nós tivesse coragem de asfixiar o Duque com monóxido de carbono, pois ele não tinha coragem de fazer isso.
Quando vi que não teria mesmo outra saída, o Duque seria cedo ou tarde, sacrificado, então eu resolvi me afastar dele aos poucos, foi uma batalha grande, mas todo filho que foi criado por pais rígidos e sob o rigor de uma religião fundamentalista tendem a ouvir muito os pais e tudo o que eles dizem se torna a mais pura verdade e o medo de desobedecer aos pais e sobretudo às doutrinas da igreja era um terror enorme, o medo de queimar eternamente no inferno era um pesadelo aterrorizante, resolvi seguir de uma vez por todas, os pensamentos de minha mãe.
Como defesa eu adotei uma postura diferente, passei a me anestesiar para tudo que viesse a me causar dor, acredito que foi depois desse episódio somado a tantos outros traumas de infância que me levaram a tomar essa atitude involuntária (acredito).
Eu sentia sim inveja, quando via um menino passeando com seu cachorro, dando banho nele e brincando juntos, mas eu afastava logo esse sentimento sempre que surgia em minha mente.
Eu moldei minha mente assim; se eu perder um cachorro que amo vou sofrer muito! Mas se perder um cachorro que eu odeio, na verdade eu me livrarei de uma coisa que odeio!
Minha criança interior clamava por amor, mas ainda assim eu preferi odiar o Duque a odiar minha mãe e meu pai, pois o Duque aceitaria meu ódio e devolveria ele em amor, não me amaldiçoaria, não me lançaria nenhuma praga e nem me submeteria a terror psicológico.
Depois de certo tempo, após meu pai ficar desempregado e ter muita dificuldade para pagar o aluguel da casa onde morávamos, a gente se mudou para a vila São Sebastião (a famosa vila Tião) meu pai alugou de um irmão da igreja um cômodo comercial (aonde fora, no passado, uma sorveteria) na rua Virgílio Polo.
Eu não sei exatamente as medidas do cômodo, mas era bem pequeno (hoje eu imagino que fossem uns 4 metros de frente, por 6 ou 7 de fundos, com um banheiro compacto no final) não tinha quintal e minha mãe tinha que lavar roupas nas casas dos irmãos, mas o valor era bem baixo.
Nem será preciso dizer que o Duque acompanhou o caminhão com a mudança! Mas na casa não tinha quintal então ele dormia na porta de casa, que era aquelas portas de comercio (portas de enrolar ou portas de rolo).
Em menos de uma semana que morávamos ali, em um certo dia, a carrocinha passava pelas ruas do bairro recolhendo cachorros de rua, então minha mãe deu logo a ordem.
— Entreguem o Duque para a carrocinha!
A muito contragosto nós pegamos o Duque e o entregamos para os homens da carrocinha que o colocaram na carroceria da caminhonete, que era toda cercada por uma tela de arame grosso, a última imagem que tenho do Duque em minha mente foi a de um cachorro, assustado em meio a tantos outros cachorros, olhando para nós com olhos tristes e desaparecendo na rua Batista Milani a medida em que o veículo se afastava do grupo de crianças estáticas na esquina.
A partir daquele dia eu criei uma espécie de bloqueio, como um sistema de defesa contra o sofrimento, eu decidi odiar cachorros com ódio mortal! Não teria pena ou compaixão deles e assentei em meu coração, que jamais teria um cachorro em toda a minha vida!
Faram tantas coisas que nos aconteceram! Carrego tantas lembranças tristes e comoventes, eu acredito que se fosse escrever a nossa história completa, daria um livro com mais 300 páginas.
Eu tenho uma história para cada surra que me foi aplicada, pois me lembro perfeitamente as “razões” para que elas fossem aplicadas!
Meus pais justificavam seu sadismo com o argumento de que eles foram “educados” assim e que passariam a “boa” educação que receberam para os filhos.
Meus irmãos e eu nunca concluímos os estudos, não temos sequer o ensino fundamental, (nota se pela debilidade de meu português) nunca plantamos nossas raízes em cidade alguma!
O único incentivo que recebíamos era para ser crente, ser fiel a Deus e as doutrinas da igreja.
Me casei aos 22 anos e logo no início eu comecei repetindo os mesmos erros de meu pai, nunca agredi fisicamente minha esposa, mas o fazia psicologicamente, cometi vários erros e fui um péssimo marido, bebia muito chegando a ficar, por várias vezes, em coma alcoólico.
Depois que minhas filhas nasceram, após várias reviravoltas na vida, eu deixei a bebida e voltei para igreja onde, em pouco tempo eu cheguei ao cargo de Diácono, assim como meus pais, eu também quis passar às minhas filhas a “boa” educação que recebi e também queria instruí-las no mesmo rigor religioso em que fui instruído, no começo eu era muito rígido e fanático, mas depois comecei a questionar várias regras em que eu não via fundamento algum, me aprofundei em estudos sistemáticos da bíblia e tive alguns embates teológicos com o pastor.
Minha mudança radical começou em um dia em que minhas filhas me desobedeceram, então eu as “corrigi” usando um cinto, ...quando as vi tristes e chorando, eu vi minha própria imagem nelas, aquela criança indefesa, acuada em um canto, reprimida e amedrontada ...me senti um verdadeiro monstro! Pois era isso mesmo que eu era! Então eu montei em minha bicicleta e saí para uma mata que ficava nos arredores da cidade, me embrenhei nela e fiquei lá por várias horas, onde chorei amargamente!
Já era bem tarde quando retornei para casa, nunca vou me esquecer daquela cena de quando cheguei! Minhas filhas vieram em meu encontro sorrindo e me abraçando, a felicidade delas, por me verem, era bem visível naqueles rostinhos doces e inocentes, para mim que já andava muito revoltado com a igreja e com suas doutrinas sem fim, aquela situação foi a gota d’água, pareceu me ter tido uma epifania então comecei a pensar “é isso que eu, realmente, quero para minha vida? Qual será o futuro de minhas filhas vivendo assim?”.
Naquele momento eu vi o quanto mal aquela religião havia me causado e eu, por minha vez, estava causando as minhas filhas! Assim eu fiz uma terrível constatação “se você açoita alguém com um cinto e não for impelido a chorar e lhe pedir perdão, é sinal de que você não ama essa pessoa” como é possível amar alguém e depois dar uma surra nela com um cinto?
Então eu tomei uma decisão naquele mesmo dia e naquela mesma hora, eu disse para mim mesmo.
— Hoje eu quebro aqui o elo da corrente dessa maldição! Não vou passar para frente essa “educação” que recebi, esse círculo vicioso terá fim em mim, ele morre em mim e jamais será passado a frente por minha linhagem, adotarei um sistema de diálogo e diplomacia, vou estabelecer uma democracia dentro de minha casa onde todos serão iguais, minhas filhas me reconhecerão por provedor, mas terão uma voz e direito a opinar e dar suas ideias, hoje quero me despir do ser ditatorial e desfazer a imagem de autoridade suprema dentro dessa casa e seremos “realmente” uma família onde todos terão voz.
Assim eu fiz uma coisa que, em toda minha vida, eu havia aprendido que JAMAIS se deve fazer, abracei minhas filhas e pedi perdão a elas, reconheci e confessei que errei, disse a elas que, com violência não se resolve nenhum problema, disse também que estaria aberto ao diálogo e que qualquer problema que tivessem podiam trazer, que a gente colocaria tudo sobre uma mesa redonda e juntos com a mãe delas a gente resolveria da melhor forma.
Minha esposa levou as meninas ao salão de beleza onde elas cortaram os cabelos, se maquiaram, passaram em uma farmácia furaram as orelhas e colocaram brincos (coisa que nunca tinham feito) e ficaram ainda mais lindas! Adotei um cachorrinho (Barrabás) e ensinei minhas filhas a amar e respeitar os animais.
Hoje minhas filhas são casadas, seus maridos são homens de bem, trabalhadores e de boa índole, elas são funcionárias concursadas do município e tem uma situação financeira estabilizada, Amanda, a minha primogênita, com seu marido Vinicius me deram dois netinhos, dois principezinhos lindos o Kalel e o Gabriel, Ariane a mais nova, ao lado de seu marido Antônio me deram uma netinha, uma linda princesinha a doce e encantadora Elizabete.
Hoje eu faço um resuma de minha vida assim, eu já passei por tantos lugares de convivências variadas, aos 56 anos eu já passei por balcão de boteco, roda de maconheiros, repúblicas e até em cadeia, convivi com todos os tipos de pessoas nesse mundo, mas nunca fui tão ofendido, tão magoado e até insultado como nas igrejas evangélicas por onde passei! Acredito que me afastar da igreja foi muito libertador! Foi como tirar uma tonelada dos ombros, uma vida livre, servindo a Deus de forma livre, sem intermediários, sem atravessadores e sem essa liderança oportunista e aproveitadora!
Eu ainda relutei por muitos anos! Pode se dizer que tenho mais de 40 anos nesse meio, acho que foi tempo suficiente para aprender a fazer uma distinção entre Jesus de Nazaré e denominação religiosa.
Se desprender de uma religião que te causou tantas feridas, de uma educação na qual viveu por quase meio século e quebrar aquele paradigma de que pais nunca erram e que mesmo errados ainda estão certos, me fez um bem incalculável!
Não posso negar que ainda sou assustado com alguns fantasmas do passado, mas são apenas sustos, quando eu os encaro, logo vejo que não são reais, de vez enquanto ainda tenho algum pesadelo, mas também são coisas que não me assustam mais.
Meu pai faleceu em 2004, minha esposa e eu cuidamos de minha mãe, idosa de 79 anos, que mora com a gente, padecendo com o mal de Alzheimer, ela me chama de irmão me cumprimenta com a “paz do senhor” e não me reconhece como filho.
Embora eu tenha outros irmãos, eu acredito que o universo colocou minha mãe, justamente, na minha casa para que eu prove, não para ela, mas para mim mesmo, que eu não sou igual a ela,
Hoje ela se tornou uma pessoa meiga, carinhosa, afetiva e muito educada!
Eu deveria ficar muito feliz com isso, mas confesso que às vezes esse comportamento me assusta e me deixa inseguro, ainda não aprendi a lidar com isso e talvez nunca aprenda! Não sei se alguém pode me entender, mas quem nunca viu a versão real dela pode até ficar encantado, inclusive eu já ouvi muitas pessoas dizerem.
— Nossa, que gracinha! Ela é tão meiga! Tão educada!
Mas para mim que a conheço desde que nasci é muito estranho! É como se de repente o Darth Vader começasse a falar como a Barbie ou como se o Esqueleto (do desenho He-man) me oferecesse alguma gentileza.
Esse comportamento dela faria uma diferença astronômica na minha infância! Mas hoje, isso não importa mais.
Hoje eu entendo perfeitamente que:
Uma mãe que amarra seu filho com cordas e o açoita como um cavalo, que bate com a cabeça da filha na parede da casa de forma que até as vasilhas vibram no armário, que aplica uma surra de cinto em uma criança com menos de dois anos, que bate em uma criança com uma faca, que pisa no pescoço de outro como um se abatesse uma galinha, que xinga os filhos de assombração, de macaco, de fantasma, de olho de boi e outros tantos adjetivos... essa mãe nunca soube o que é amar!!!
Meu maior assombro não é com o fato de minha mãe ter tido coragem de fazer todas essas atrocidades, mas sim na forma como ele sempre lidou com tudo isso, até hoje quando ela é interrogada se era uma mãe muito severa, ela conta com todas as letras que batia mesmo! Inclusive cita a surra que deu em minha irmã quando ela tinha menos de dois anos de idade, sem a menor sombra de arrependimento ou remorso.
E se eu aparento ser um filho que se distanciou desde a adolescência, não fui eu quem o fiz, mas eu simplesmente fui excluído.
Hoje entendo que minha maior superação pode ser as flores que cultivei e colhi entre o espinheiro.
O que me tornei na vida talvez não seja tão importante, meu trunfo não se trata do que eu me tornei, mas sim do que eu deixei de me tornar! Eu não me tornei, por exemplo um sociopata, ou um matador em série que replica suas dores em outras pessoas.
Acima de vencer as loucuras da religião e da educação doentia que recebi eu venci várias crenças retrogradas, destruí tabus, quebrei paradigmas e desmitifiquei aquela imagem imaculada dos pais (inclusive a minha).
Sou uma pessoa que tem dependência de álcool (alcoólatra) em constante recuperação, minha luta é diária e travada com frequência extrema!
Não posso dar uma referência de legado que recebi, e digo com extrema tristeza, que meus pais nunca foram figuras de exemplos a serem seguidos! Talvez eu também não o seja, mas o simples fato de reconhecer isso já me deixa a um passo à frente, entender que como pais, as vezes temos nossos deslizes sempre nos deixará na dianteira de quem apenas se senta em um trono imponente e se acham “proprietários” dos filhos.
Não quero que minhas filhas sejam minha imagem e semelhança, isso significa respeitar as vontades delas de seguirem seus próprios caminhos, eu não as criei como um investimento para o futuro, elas não são caderneta de poupança, elas são livres! Elas não têm obrigação nenhuma para comigo como eu tive para com elas.
Paulinho do Guetto
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