Entrevista de João Inácio da Silva Filho (Veera Yawanawá)
Entrevistado por Jonas(P/1), Xinã (P/2), Erica(P/3), Vinnya (P/4), (P/5) Mayna, (P/6) Naykana, (P/7) Rafa ;
Amparo, 28 de julho de 2025;
Projeto Conta Sua História, PCSH_HV1493;
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Mestre, a gente ia falar para você falar o seu nome e o local onde você nasceu.
R- Meu nome... Primeiro, boa tarde.
R- Boa tarde.
R- Meu nome... Meu nome na língua portuguesa me chama João Inácio. Mas nunca me chamaram de João, só me chamam de Inácio. Na língua Yawanawá, que é a língua do meu povo. O meu pai, ele me deu o nome do irmão dele, o Rurá.
R- Eu me chamo Rurá na língua portuguesa. Na indígena, na língua do meu povo.
R- Eu nasci em 1969, na década de 60.
R- É uma longa história de vida. A gente conta tudo que a gente viveu. A gente tem muita coisa para descobrir. Eu acredito que a vida da gente tem uma grande importância, porque a gente viveu com coisas boas e coisas ruins, também no nosso passado. Quando eu me compreendi, entendi como gente, a gente morava num Seringal Kaxinawá.
R- Meu pai e minha mãe me falaram que eu não nasci no Seringal, na sede do Seringal. Eu nasci num centro onde eles cortavam seringa, na época do seringalista, no centro chamado Marim, que deram o nome desse centro. E eu me nasci e me criei lá, no Seringal Kaxinawá, na época não era aldeia, os seringueiros conheciam … o lado que o nosso povo morava, que o pessoal, o seringalista morava do outro lado do rio e a gente morava, nossos pais, meus avós moravam do outro lado do rio. E era considerado como uma ____ , não era considerado como aldeia e nem comunidade, era uma ____ . Então, fui crescendo, fui crescendo acompanhando meu pai, minha avó, minha mãe.
R- Na verdade, o meu pai, ele é um indígena, ele vem do povo Yawanawa. E meu pai também, ele não tem sangue só de Yawanawa, mas como ele tem sangue de outros povos, como Hutianawa, Shawanawa, ____ . Ele tem...
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Entrevistado por Jonas(P/1), Xinã (P/2), Erica(P/3), Vinnya (P/4), (P/5) Mayna, (P/6) Naykana, (P/7) Rafa ;
Amparo, 28 de julho de 2025;
Projeto Conta Sua História, PCSH_HV1493;
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Mestre, a gente ia falar para você falar o seu nome e o local onde você nasceu.
R- Meu nome... Primeiro, boa tarde.
R- Boa tarde.
R- Meu nome... Meu nome na língua portuguesa me chama João Inácio. Mas nunca me chamaram de João, só me chamam de Inácio. Na língua Yawanawá, que é a língua do meu povo. O meu pai, ele me deu o nome do irmão dele, o Rurá.
R- Eu me chamo Rurá na língua portuguesa. Na indígena, na língua do meu povo.
R- Eu nasci em 1969, na década de 60.
R- É uma longa história de vida. A gente conta tudo que a gente viveu. A gente tem muita coisa para descobrir. Eu acredito que a vida da gente tem uma grande importância, porque a gente viveu com coisas boas e coisas ruins, também no nosso passado. Quando eu me compreendi, entendi como gente, a gente morava num Seringal Kaxinawá.
R- Meu pai e minha mãe me falaram que eu não nasci no Seringal, na sede do Seringal. Eu nasci num centro onde eles cortavam seringa, na época do seringalista, no centro chamado Marim, que deram o nome desse centro. E eu me nasci e me criei lá, no Seringal Kaxinawá, na época não era aldeia, os seringueiros conheciam … o lado que o nosso povo morava, que o pessoal, o seringalista morava do outro lado do rio e a gente morava, nossos pais, meus avós moravam do outro lado do rio. E era considerado como uma ____ , não era considerado como aldeia e nem comunidade, era uma ____ . Então, fui crescendo, fui crescendo acompanhando meu pai, minha avó, minha mãe.
R- Na verdade, o meu pai, ele é um indígena, ele vem do povo Yawanawa. E meu pai também, ele não tem sangue só de Yawanawa, mas como ele tem sangue de outros povos, como Hutianawa, Shawanawa, ____ . Ele tem sangue de ____.
R- Então, eles vêm dessa origem, porque o povo Yawanawa, eles eram muito, assim, eles casavam muito com outras, com as mulheres de outros povos. Então, essa mistura de povos.
R- Então, a gente, eu também sou, eu vim de lá também, dessa raiz. A gente viveu muitos anos nesse seringal.
R- Meu pai vivia cortando seringas. Meu pai vivia cortando seringa e também trabalhava em agricultura. Meu pai foi um caçador também, então eu acompanhei toda essa convivência de vida que ele viveu. Na época da minha adolescência, como criança, eu acompanhei muitas coisas difíceis na vida da gente, a convivência familiar que nós vivíamos no período desse tempo. Principalmente a questão de a gente não ter o nosso direito como indígena.
R- A gente vivia uma vida de escravo. A gente cortava seringa, fazia borracha, era trocado, na época chamava de pele, de borracha, fazia de fumação. Eu me criei, desde oito anos de idade, eu passei a cortar seringa para poder sustentar a nossa família junto com meu pai. Caçava junto com ele, pescava junto com ele, trabalhava na roça para poder plantar, os legumes para se alimentar, como o arroz, as batatas, todo tipo de batatas, banana, milho e outras agriculturas que serviam para a alimentação da nossa família.
R- Então, eu fui crescendo assim.
R- Caçava junto com ele.
R- A gente... Meu pai foi um bom caçador, aprendi com ele, caçando. Aprendi com ele no trabalho, a fazer as construções das nossas casas.
R- Antigamente não tinha madeira serrada, era paxiuba. Você carrega aquela estoura de paxiúba para poder fazer uma casa. As linhas, tirava as linhas da mata, madeira da mata bruta para poder trabalhar. E tudo isso, eu me lembro da minha adolescência, o meu pai sofreu um problema de saúde muito seriíssimo e deixou a gente com há um ano.
R- E no período deste ano foi onde a gente se dedicou a cuidar da nossa mãe, Eu e meus irmãos cuidando da nossa mãe. Nós não tínhamos experiência de trabalho, nós não tínhamos condições nenhuma.
R- A gente, como criança, a gente caçava com nossos tios, com nossos irmãos mais velhos, com nossos primos para poder sustentar. Principalmente eu para poder sustentar, trazer um pedaço de carne, para poder trazer um quilo de sal para casa, porque meu pai não tinha condições, ele estava sofrendo problemas de saúde. E quando ele saiu, eu fui um dos filhos e a gente se dedicou para cuidar da nossa casa. Então, no período de todo esse tempo, a gente viveu cortando seringa, plantando nossos legumes para poder se alimentar, vivendo numa maloca. Nós cortávamos seringa no centro, fazíamos uma casa, abríamos uma colocação chamada Colocação, para poder cortar seringa, para o nosso sustento.
R- Não dava nem para o sal, não dava para nada. Enquanto mais para a gente comprar um calção, comprar uma blusa para vestir. E a gente trabalhou, eu trabalhei, vivendo essa vida.
R- Uma vida que, na verdade, não foi um sofrimento, foi um aprendizado. Porque se eu não tivesse passado por esse processo, eu acredito que hoje eu não seria esse homem que eu sou hoje. Por ter passado por esse processo, por ter passado por esses momentos, por ter passado por essa dificuldade, eu não sofri, eu aprendi muita coisa na minha vida junto com meu pai, quando ele era novo, jovem, né? Trabalhador.
R- E eu convivi com esse tempo.
P/1- Nessa infância, o que vocês se alimentavam? Qual era a comida de vocês?
R- Na época nós se alimentava com peixe, com a carne, com a banana, com a macaxeira. Na época também, na época do seringalista, que eles também vieram com a confeitoria de farinha, farinha, e a gente se alimentava com esses.
R- E na época também era muito difícil você comer fritado com óleo, não existia óleo. De jeito nenhum, você comia assado, comia cozido, comia amonquinhado, comia enrolado, peixe enrolado, a carne enrolada na folha. Então era uma alimentação muito sadia, mesmo dando trabalho para fazer a alimentação, mas era uma alimentação muito natural, não tinha química nenhuma, comparando com o dia de hoje, hoje … existe uma situação muito difícil, porque a alimentação de hoje tem muita química, trazendo muitos problemas de saúde. A maioria dos problemas de saúde hoje é exatamente isso, que é o caso da alimentação.
R- Na época não existia frango, não existia, não existia bolacha, não existia essas massas. que chega pra cá o leite, leite industrializado.
R- Não existia leite.
R- Nós ____ , eu me criei tomando caiçuma de banana, tomando caiçuma de macaxeira.
R- Porque a minha avó, eu me criei, bem dizer, na mão da minha avó. Ela que cuidava de mim, porque minha mãe era uma parceira, uma companheira do meu pai que não deixava ele, todo canto que era pra caçar, era pra pescar, pra trabalhar no roçado, para trabalhar, fazer casa, então a minha mãe me via mais com ele trabalhando.
R- E eu vivi mais na companhia da minha avó dentro de casa, então eu me criei com ela.
R- E ela fazia tudo isso para a gente.
R- Fazia caiçuma, quando não tinha nada para comer, ela pisava macaxeira, cozinhava macaxeira. Então a vovó criou muito isso.
R- Muitas das vezes eu ia pescar com a minha avó, papai não tinha tempo porque tinha outros trabalhos para fazer. E a vovó levava para a gente, eu pequenininho. pra pisar o tingui, a gente plantava tingui, a _____ pra pescaria.
R- E ela judiava muito com a gente, pegar de vocês tem que pisar, porque quando vocês forem homens, vocês aprendem a trabalhar. O papai também era do mesmo jeito. Papai nunca poupou a gente, dentro de um a casa, deixou a gente dormindo, brincando, passeando. Como acontece muito hoje essa juventude, essa nova geração, tem deles que não sabem nem manusear um ___ .
R- E eu, como era um filho, na época era eu e o ____ , que eramos dois irmãos, que se criamos juntos, e o papai colocava a gente pra trabalhar. E nós fomos crescendo com essa convivência de vida, com esse regimento do papai. Papai não deixava a gente para sair pra num canto. E a gente foi se criando.
P/1- Você lembra da sua primeira caçada?
R- Me lembro. A primeira caçada que eu dei, eu matei um periquito. Dois tiros. O papai me deu com medo danado. Tipo, você tem que fechar um olho e abrir o outro, porque senão tu não vai acertar. Aí eu peguei a espingarda e mirei mesmo. Digo, será que eu vou acertar?
R- Aí quando eu fiz o ponto, eu fechei o olho. Ainda bem que eu acertei o tiro. Enchei os dois olhos.
R- E daí, pra cá eu me animei, né, de atirar. Eu não queria mais deixar a espingarda. Só que só tinha uma espingarda, que era pra mim, pro ________, que é meu irmão, e pro papai. E aí, quando um pegava espingarda, os outros ficavam com raiva, porque tinha que caçar, né? E quando a gente tá começando a fazer as coisas, a gente sente aquela vontade, sente aquele incentivo de fazer. E aí eu comecei a caçar.
P/1- Você comeu essa primeira?
R-Eu comecei a caçar e na mesma caçada a gente matava. Quando a gente chegava com a caça, o papai dizia, não, você nem olha, você não pode nem comer. Aí o papai chamava as pessoas, meu tio mais velho, rapazes, não comia caça que eu matava. Eu comia outra coisa, eu preferia comer macaxeira com sal do que comer a caça, ver a caça, a carne cozida e não podia nem tocar, porque o papai me deixava. Porque ele dizia assim, não, você não vai comer porque você vai ____ , eu não quero, você está começando a matar agora. Quando você se acostumar, você pode começar a comer. Então ele não deixava a gente comer, principalmente eu.
R- Até no anzol de linha, quando eu pegava um peixe, a robal não deixava, não. você não vai comer não, você vai ficar panema. E o que a gente quer não é que você fique panema, o que a gente quer é que você continue pegando peixe e matando a caça para você comer.
R- Então a gente, eu me criei dessa forma desde lá para cá em 1969 e fui crescendo. E cheguei minha adolescência também.
R- E aí melhorou mais um pouco, né? E fui conhecendo mais as coisas. Quando cheguei minha adolescência, né?
P/1- E... Ainda mais na infância, só perguntando. Você trabalhava na seringa já criança, né?
R-Já criança, a partir de oito, seis anos de idade, oito anos de idade.
P/1- Mas você ainda tinha tempo de brincar? Tinha brincadeiras Yawanawa?
R- Muito pouco. Na época não tinha brincadeira Yawanawa. Até porque a brincadeira Yawanawa, a gente não tinha tempo de brincar, porque era muito serviço.
R- Papai trabalhava na seringa, papai trabalhava na roça, às vezes a gente estava junto com ele ou então a gente estava pescando. Ou então a gente estava fazendo alguma coisa. Se o papai estivesse fazendo farinha, a gente estava ali carregando uma batata de macaxeira. Se o papai estivesse limpando dentro da... debaixo da roça, a gente tava ali carregando água para ele, a mamãe dizia, olha, tem que levar água pro seu pai, eu tô fazendo isso aqui, eu tô fazendo essa comida, então vocês tem que ajudar a gente. A gente não tinha tempo, a juventude dessa época, a adolescência dessa época, não tinha, da minha geração, não tinha espaço pra brincadeira, só para dormir.
R- Quando você acordava, quando dava quatro horas da manhã, a gente tinha que acordar, o papai levantava, a mamãe levantava, ia para a cozinha, fazia comida, fazia caiçuma. Aí você acorda, tem que acordar porque lá vamos para o serviço. A gente ia para o roçado fazer outras atividades.
R- Então, nós, eu na verdade, eu me criei dessa forma. Então, eu não tive essa liberdade de tantas brincadeiras. Papai nunca aceitou as modinhas, corte de cabelo, pintura de qualquer jeito, roupa de qualquer jeito.
R- Por isso que hoje vocês veem o meu cabelo, cabelo normal, só tá ficando branquinho, mas é um cabelo normal, não tem um corte de cabelo. Hoje você vê corte de cabelo tão assim que pra gente que não viveu esse tempo, a gente ignora esse tipo de corte de cabelo, pintura de cabelo, sabe? Pinta cabelo, fica igual cabelo de paca de rabo, vocês não conhecem um animal chamado paca de rabo? E pra nós, que não vivemos isso, a gente já diz assim, ó, lá está, o bandido, o marginal.
R- No tempo desse, eu falando, fugindo um pouco da história, só uma comparação. Veio um rapaz pra cá, pra vivência, pra nossa vivência. A minha sogra, a minha tia ficou, porque ele veio com o cabelo pintado, colorido. Ele disse que não queria ir na casa dela não, porque ele era bandido, marginal.
R- Aí ele foi obrigado a dizer, não, não sou bandido, não, não penso nada, não. Mas assim, né? Então a gente veio se criando, a gente veio viver nessa vida, né? E isso foi muito importante pra gente, porque eu também criei meus filhos dessa forma, né? Criei meus filhos assim.
R- Mas nós vivemos, eu vivi muito tempo, desde da minha, de quando eu nasci, né? Eu morei no Seringal Coastal até oito anos de idade.
P/1- Aí você foi pra onde?
R- Depois, o papai, na época, a gente não tinha terra limitada, a gente tinha que sair pra poder melhorar a sua condição de vida, trabalhar, porque os patrões, eles faziam, escravizavam muito eles. Então, o papai levou a gente aqui. Morei uns anos aqui também, na Vila São Vicente, também, no tempo dos patrões, no tempo dos fazendeiros. Morei dois anos, estudei lá também, lá foi onde eu frequentei a primeira vez a escola, aqui na Vila São Vicente, hoje. Era um movimento grande ali.
R- E daí, papai não se sentiu que não estava muito seguro aí. Ele tem um irmão, que Bruno, hoje não é mais vivo, era o Bruno, convidou ele para morar lá em Feijó, lá no ______, que lá tava bom, era bom de viver. Eu fui para lá também, morei em Feijó mais três anos. Depois de tudo, quando a gente saiu, foi a época que foi feita a demarcação da terra,
R- E eu já tinha 12 anos de idade nessa época, 12 anos de idade, um jovenzinho, um adolescente, já trabalhava, já ajudava bem o papai. E foi na época que nós voltamos e a gente voltou, eu voltei. E foi aí que a gente começou o processo de trabalho. Começamos a trabalhar, começamos a ter a continuidade de cortar seringa novamente. E lá a gente estudava, a gente trabalhava a diária. Mesmo com 10, 11 anos, a gente trabalhava a diária. Quando um diarista, um homem ganhava... Na época era tempo do cruzado, ainda. Não sei se as pessoas se alcançaram ainda do cruzado.
R- Um homem trabalhava o dia inteiro, ganhava… Ganhava dois cruzados, a gente ganhava cinquenta cruzados. Era a época, muito dinheiro também. E a gente conviveu. Todos esses tempos que eu vivi, que eu andei. Então foi uma grande experiência.
P/1- E de fruta? O que vocês comiam de fruta na floresta? Qual a lembrança que vocês têm?
R- A fruta, a gente consumia muita fruta, por exemplo. O açaí, ela tem época. A gente consumia muito açaí na época do açaí. A pama. Aliás, na época de todas as lutas, sapota... A gente tirava o dia pra poder comer essa porta. Juntava toda a família e a gente ia pra mata, passava o dia todinho comendo fruta, tirando o alimento dos macacos lá, deixava os coitados sem alimento, aí a gente tinha que comer. Então, as frutas que era pra gente se alimentar, a gente comia. A gente nunca deixou de se alimentar com as frutas. E isso era muito bom, até porque se juntava toda a família.
R- No final de semana, juntava todas aquelas rapaziada, aquela juventude, junto com seus pais, saia pra mata, procurava frutas pra comer. É uma festa mesmo, o que a gente fazia na época. Então… É uma vida tão assim, tão... Hoje dá saudade, sabia? Dá uma saudade tão grande.
R- Às vezes a gente tá num cantinho ali pensando aquilo que a gente viveu de tão bom e hoje não dá mais pra você ficar tranquilo, sentado no canto, pensando pra... como é tua vida, como você viveu tua vida no passado, que era uma vida tão tranquila, não tinha violência, não tinha nada. Eu sei que era uma vida muito difícil para mim, na minha visão, como jovem naquela época. Uma vida de muito trabalho, uma vida de muito sacrifício para sua própria sobrevivência. Mas era uma vida tranquila, uma vida saudável. Você dormia e acordava sem nenhum susto, pensando que alguém daqui a pouco vem ali querer te ofender. Então, eu trabalhei muito dessa forma.
P/1- Muito preservação das carnes, do peixe, pra não estragar.
R- A preservação melhor, melhor do que a frise hoje, era a munquinhar.
R- Você fazia um espaço com as varinhas, com os pedacinhos de pau, fazia o fogo debaixo e colocava os bichos pra assar só na fumaça. Ali você passava um ano com aquele dali e não ficava ruim de nada. Precisava nem estar abrindo o vaso não, deixava lá. Você passava um ano para poder, se você quisesse passar até um ano para comer, você deixava lá preservado. O peixe do mesmo jeito.
R- Então existia a preservação. Então para a gente poder se alimentar, guardar para não se estragar era isso.
R- Sal tinha também sal, mas sal era muito pouco, porque na época, mesmo na época dos patrões, mas o sal já era como se fosse uma coisa iniciante. Muito alcancei ainda, muito como muitos dos mais velhos não comiam sal não, só comiam com pimenta. Sal deles era pimenta, não tinha sal. Então, para a gente poder preservar uma carne, um peixe, a gente tinha que ser assado na fumaça, não assado na brasa. Se você assado na brasa, ela não tinha segurança de você guardar ela para algum dia. Mas se você assar ela na fumaça, só com a quentura, aí você preservava ela para meses. Então, a nossa alimentação para guardar para amanhã, para depois, para daqui a uma semana, a gente tinha esse processo de fazer para poder preservar ela para comer por vários dias.
P/1- E nas caças e do próprio peixe, tinha alguma caça que na época tinha e hoje, por exemplo, já não acha mais?
R- Tem muitas. Tem muitas caças hoje, por exemplo, o jacaré hoje não existe mais. que era bem caçado pelos caçadores de jacaré. Eu acho que só o jacaré, a capivara que era muito caçada também, hoje é muito raro você não ver mais capivara na terra indígena, muito pouco.
R- Enquanto outros como o anta, como o macaco, o veado e o porco, hoje ainda tem muita caçada.
P/?- Continuando na floresta, falando em caça, o senhor já se perdeu com a cena?
R- Já me perdi. Me perdi que eu me arrependi não sei quantas vezes, porque ao invés de eu procurar alguma coisa pra mim comer na mata, os ______ que me comeram . A noite, todinha sem dormir.
R- Mas não é bom, eu já atirei em uma anta, rastejei a anta, mais o meu irmão, que ele mora lá em cima, acho que você conhece o ________ o ______ também. Nós atiramos na anta, nós saímos rastejando essa anta, nós fomos parar na cabeceira do outro rio, do outro lado. E nós voltando, não deu tempo pra gente chegar. Aí nós tivemos que... eu tive que fazer uma tocadinha, né, ficar dentro. Tinha o dia todinho chovendo na gente, né, o dia todinho. Até umas duas horas da manhã a chuva cair e nós lá debaixo de um ________. de uma tocadinha e quando foi no outro dia nós saindo era 10 horas do dia, quando nós saímos, mas não é fácil. Eu não sei o que ______ ,jogar uma praga em alguém é dizer rapaz, vai se perder e dorme na mata para tu ver que tu não dorme não, você passa a noite com o olho sem grudar, não tem jeito. Mas não é bom, mas isso acontece com os caçadores, todos os caçadores. Para nós, principalmente para mim, como homem, já vem nessa luta, já vem com essas atividades todas. Eu gosto de caçar, eu sou um bom caçador. Mas agora a gente já está meio cansado, a gente não caça muito. Mas é uma atividade que eu sempre gostei, porque meu pai me ensinou a fazer isso. Meu pai foi um bom caçador e ele me ensinou a caçar bem.
R- Então, tudo isso, e depois quando começou já homem, já casado, né? Quando começou esses projetos da... Antes era assim, aí a... Na época quando se houve a demarcação da nossa terra, nessa época, a FUNAI era muito forte. A FUNAI foi uma das órgãos federais que ajudou muito, ajudou muito, muito mesmo, principalmente aqui o povo Yawanawa, ajudou dando mercadoria, comprando as coisas.
R- Foi quando a Funai deu umas espingardas para a comunidade, foi quando o papai disse, agora eu vou comprar uma espingarda nova para você. E aí o papai comprou essa espingarda e quando eu fui caçar, olha, mais pra mim que eu, que nunca mais eu ia morrer porque eu tava com espingarda nova pra caçar.
R- E foi quando eu arrumei a família também, comecei, filho, trabalhando, foi onde a gente começou cada vez mais a se desenvolver no serviço, adonde também eu comecei a me envolver na política interna da nossa comunidade, dos projetos também, comecei a participar das ações dos projetos, ainda cortando seringa. Mas mesmo assim, como membro também da época, nós tínhamos uma associação, porque a primeira associação, depois ela se faliu, depois veio a cooperativa.
R- A cooperativa veio depois que eu já... já homem, né? A gente, todo o povo Yawanawa, tiveram uma assembleia, uma reunião para poder montar um projeto pela cooperativa. Foi quando, por conta do acesso de transporte, lá no Seringal Kaxinawá, era muito difícil. Foi quando a gente veio abrir o Nova Esperança. Eu também fiz parte, já trabalhando, fazendo parte da associação, como membro da associação. Trabalhei muito ali, morei sete anos, sete... Não, acho que eu morei dez anos ali. Dez anos que eu morei ali. Nova Esperança, né, comecei a trabalhar ali, e em 97 foi quando eu fui convidado para poder, para eu começar a dar aula para na época era pré-alfabetização. Aquelas criancinhas, bem pequenininhas. Eu fui convidado para trabalhar no dia 21 de abril de 97.
R- Comecei a trabalhar. Hoje eu me lembro onde comecei a trabalhar.
R- E trabalhei. Trabalhei pelo... E fui contratado pelo Estado também, nessa mesma data. E continuei trabalhando como membro da associação, como professor, como membro da comunidade. Eu já crescido, eu já era casado com... Com a Shaya, né? E a gente começou a trabalhar junto. E de lá pra cá eu vim trabalhando, construindo. E… Construir aquele... Tem um lugar lá, um.. Um lugar lá acima do Nova Esperança também, que eu trabalhei muito ali. Né? Já... Já homem. E pensava no futuro, né?
R- Pra… Os projetos de vida minha. E... Foi quando a gente... Não deu mais certo pra mim morar lá no Nova Esperança, né, em 2006.
R- Foi em 2006, não deu mais certo pra mim morar no Nova Esperança. quando me planejei para vir embora para cá. Foi nessa época que a cooperativa estava em processo de pedir a homologação dessa terra que nós estamos morando hoje aqui. E aí a gente veio.
R- A gente veio para cá.
P/1- Antes de você contar a história da origem daqui, em 97, quando você começou a ser professor, você pode contar como foi isso? Como você virou professor? Como foi o seu começo, o desafio, como foi essa jornada como educador?
R- Porque na época não tinha muitas pessoas que tinham seu grau de escolaridade.
R- E eu, o papai foi muito isso, o papai sempre se dedicou pra gente estudar. A ida minha e nossa pra sair fora daqui da maloca, que antigamente era maloca, pra sair aqui pra Vila São Vicente, era exatamente pra mim, pra mim estudar, meu irmão também estudava, o papai. Então, o pensamento dele era tirar a gente daqui, porque não tinha escola aqui, para estudar.
R- E a gente estudou e se dedicou. Infelizmente, a gente não deu para concluir, para se formar, mas a gente já tinha um pouco de conhecimento quando a gente voltou. Quando eu voltei, já tinha escola, eu continuei estudando e eu fiz o quarto ano na época, quarto ano de alfabetização. Então, aí eu fui convidado, porque não tinha ninguém para poder dar aula, para poder trabalhar na educação. Como eu tinha mais um pouco de conhecimento na escrita, na leitura, porque na época era muito raro você encontrar alguém que sabia ler e saber escrever.
R- E aí eu fui convidado e aceitei. Aceitei e comecei a trabalhar. Comecei a trabalhar com as crianças, aquelas criancinhas bem pequenininhas. E aí… eu também eu fui, como eu estava começando a trabalhar na sala de aula, eu fui convidado para fazer os primeiros cursos também pelo município, daqui do município de Tarauacá. A gente começou a fazer os cursos e começou a tomar uma experiência.
R- E eu comecei a trabalhar, sabe? E foi um sonho, porque nunca na minha vida eu imaginava que eu ia receber um salário contratado pelo Estado. E eu fui contratado, para mim aquilo já foi um alívio muito grande. E já pensei no passado meu, como eu vivia antes, quando eu comecei a trabalhar. Então aquilo me aliviou muito, porque na época do meu passado, da minha adolescência, eu pensei naquilo que eu vivia. E eu me dei valorizado com aquilo porque era uma chance que a gente tinha de poder trabalhar e era uma grande importância. Aí eu virei membro também da cooperativa, trabalhei também como secretário da cooperativa, trabalhei como vice-coordenador da cooperativa também. E eu fui me adaptando, adquirindo mais conhecimento, que a coisa mais importante para mim era aquilo, adquirir conhecimento. E nós viemos, eu vim viver nessa vida e trabalhando ainda na Nova Esperança. E quando eu me casei com a Shaya, eu ampliei aquele lugar onde o pai dele, foi ele que abriu aquele lugar, o pai do ______, que é o lugar dele lá. E depois o pai dele faleceu, quando eu me casei com ela.
R- E eu dei continuidade cuidando da família, eu já maduro cuidando da família. Aí eu virei líder dali. Já comecei a ser líder, já comecei a tomar experiência. Eu cuidava dos meus cunhados, cuidava dos meus sobrinhos. Todos os meus cunhados olhavam pra mim como uma pessoa responsável de lá. Me respeitaram como me respeitam até hoje. E comecei a trabalhar dessa forma, comecei a cuidar deles.
R- Então, trabalhei em 92, até 97 sem nenhuma profissão como professor. De 97 até 2006 eu trabalhei como professor do Nova Esperança. Então eu trabalhei 10 anos em Nova Esperança como professor e depois não deu mais certo, não tinha como e a gente precisava também ocupar o pedaço desta terra que estava sendo homolongado. A gente teve que descer de lá para poder ocupar esse pedaço de território que tinha necessidade.
R- Então, eu desci de lá e no dia... No dia 16 de maio de 2006, desci para cá. Nessa época, o pai da Shaya, da menina que mora comigo, eu criei ela, era vivo ainda, morava aqui na aldeia _______ , aí eu passei para lá. Eu passei aqui, olhei esse lugar aqui e eu não queria ficar aqui não, porque era um lugar muito feio, eu estava sem coragem de trabalhar. Então a Shaya disse, não, nós vamos ficar aqui mesmo.
R- Então, vamos embora. Nós deixamos nossas coisas, comecemos a trabalhar aqui. Eu comecei a trabalhar aqui, né, e… Essa aldeia Amparo hoje aqui, ela tem o nome de Amparo, porque tem um Igarapé chamado Amparo aqui, né, afluente do Gregório, aqui do lado.
R- E eu queria que essa aldeia fosse reconhecida pela FUNAI, porque tem que ser reconhecida pela FUNAI. Como era de emergência, eu digo, rapaz, vai ser amparo mesmo, não tem jeito. E nós colocamos a Aldeia Amparo e a FUNAI registrou essa aldeia como amparo, até hoje é amparo.
R- Mas o primeiro dia que eu dormi aqui foi 28 de maio de 2006.
R- 28 de maio de 2006, não tinha nada aqui, só tinha capoeira. Morava um morador aqui do lado, que era a casa da minha sogra hoje, e eu tive que expulsar ele porque aqui não era o lugar dele, não era o terreno dele, e eu mandei ele embora. Expulsamos mesmo, chegamos aqui expulsando, nós chegamos de mansinho. Chegamos do lado dele aqui, embaixo, aqui do lado do garapézinho. Depois nós fomos empurrando ele, ele sentiu que a pressão estava chegando nele.
R- Esse não é meu lugar não. Ele foi embora.
R- Então assim... E a gente começou a trabalhar, não foi fácil a gente trabalhar aqui. Quando eu vim pra cá, foi muita pressão pra mim.
R- Muita pressão pela parte do _____ , pela parte do ______, pela parte das lideranças que estavam liderando as outras aldeias. Não fui aceito para fazer esse lugar, mas, mesmo assim, eu não briguei com eles, não discuti com eles. guiei minha cabeça, abaixei minha cabeça.
R- O que eu queria era trabalhar, e foi isso que eu fiz. No decorrer todos esses anos, comecei a trabalhar. Quando foi… Eu comecei a trabalhar também, no primeiro ano que nós viemos, eu comecei a trabalhar pra... pra gente conseguir construir uma escola aqui. Registrar uma escola, que não foi fácil também.
R- Tudo que eu ia fazer, tudo que eu... que eu andava para onde eu ia, em todos os setores públicos, tanto a Prefeitura como o Estado, que eu ia para lá, as outras lideranças interferiam, chegavam lá e disseram, não pode atender, não pode fazer isso. É só que também, nessa época, eu também já conhecia um pouco do meu direito, o direito de pessoas como ser humano e também como sobrevivente. E quando eu cheguei aqui, só era a minha sobrinha, a ______, o _____, que é o ______ , tem ______, que é o Abraão, tem o______ , que é o Jonathan, só tinha esses quatro.
R- E eu não queria tirar, e eu tirei ele da escola de lá, que já estavam estudando. Aí tinha uns moradores, quando eu cheguei aqui, tinha muitos moradores aqui que não indígenas. Tinha uma escola, ainda bem que eu fiz amizade com eles, matriculei esses quatro meninos lá e eles foram estudar, estudaram um ano ainda. E depois de um ano, em 2007, eu corri atrás de uma sala. Como eu não poderia registrar uma escola própria para cá, eu trouxe um anexo da Sete Estrelas, que na época era a Escola Francisco Lessa, eu trouxe pra cá.
R- E fui trabalhando, eu fui trabalhando, infelizmente, aí não deu pra mim trabalhar com eles mais. Porque os materiais que vinham para cá, ele não queria dar mais para os alunos daqui. Foi fora que eu tive que brigar pela secretaria e brigar com o _______ . É brigar na porrada não, nós brigamos no papel. Ele mandava o documento dele e mandava o meu. Teve uma vez que eu mandei um documento para a Secretaria de Educação para poder montar a escola aqui, no ano seguinte que eu cheguei aqui, cheguei lá. Ele já tinha passado lá que não era para a Secretaria contratar ninguém daqui do Amparo, que inclusive tinha nosso contrato.
R- Quando nós saímos, eles cortaram nosso contrato. Mandaram tirar. Aí eu... Eu disse, olha, nós temos um problema interno nosso. Vocês têm o direito de aceitar a reivindicação pela necessidade de cada um grupo que vem pra cá. Vocês não têm direito de interferir em nenhum momento na vida pessoal da gente, não. De jeito nenhum.
R- E eles foram lá e vieram cá, e aceitaram a contratação dela. Ela começou a trabalhar em 2007, já de setembro para lá. Ela começou a trabalhar e eu ainda nada. Fiquei, mas… O importante era a gente trazer uma escola pra cá porque não tinha só mais os quatro, já tinha 15. Que foi na época que eu, minhas irmãs vieram com as crianças e a gente, mais pessoas, em 2007, e a gente teve essa necessidade. Aí já não dá mais pra mim mandar ou então levar os alunos daqui pra ali, num barco, que era muita gente já. Então eu me sentia obrigado, de correr atrás da secretária para contratar um professor e trazer uma sala.
R- Aí eu trouxe essa sala para cá, comecei a trabalhar e depois de um… de um ano já morando aqui, aí nós fomos convidados novamente para trabalhar com o ensino médio lá na escola Iva Estêvão, que é lá em Nova Esperança. Nessa época o Vinnya era o coordenador de lá, que trabalhava pela coordenação da escola. E aí, na época, o próprio Bira passou aqui convidando que ele queria que a gente trabalhasse lá, porque os únicos professores formados eram a gente. Então, lá não tem professor formado, né? E era a gente, então a gente foi trabalhar. Nós voltamos pra trabalhar.
R- Aí, quando eu voltei pra trabalhar, eu e a Shaya voltei pra trabalhar lá e foi a época que abriu essa brecha que eu digo, porra, agora nós vamos querer uma escola. Aí nós pedimos uma escola. Foi muito fácil, foi de repente. Porque nós já trabalhávamos lá e aproveitamos a brecha.
R- Eu já estou na mata, agora vou ter que matar o porco, agora mesmo. Aproveitei e foi rapidinho mesmo. E a gente conseguiu registrar a escola, criar uma escola aqui. E a gente conseguiu criar uma escola aqui, uma escola de alfabetização, um ensino fundamental. E a gente criou.
R- E antes, também a gente precisava de um agente de saúde, e nós fomos negado também, atendimento de medicação. Aqui, porque aqui é o meu cunhado, ele era agente de saúde, ele atendia a gente, mas o chefe dele, que era o sogro dele, que era o cacique dali do ____ , ao pedido do nosso cacique ______ e outros caciques, que não era para atender a nós com medicamento.
R- Ah mais meu compadre Biro disse que não é para mim aqui atender você.
R- Digo, Tu escolhe, o que é que tu vai fazer. E pensa bem pra você poder dizer que você não vai atender a gente aqui, fazer o pedido nosso. Como que você vai fazer? E eu quero a contratação do agente de saúde. Porque nós estamos precisando, nós já estamos com 40 e poucas pessoas morando na aldeia, tem necessidade de um atendimento de saúde e um cuidado. E outra coisa, vou dizer a mesma coisa que eu disse pra secretária, vou dizer pra você também. Não mistura as coisas não, porque o problema interno nosso é um problema interno, e vocês têm que fazer o dever de vocês. E é isso aí. E olha que se você brincar comigo, eu não tô mais de brincadeira não. Você é meu amigo, mas você... Ah, mas... Espera aí. Digo, pois é. Aí foi, ele disse assim, disse, então espera aí que eu vou… Eu vou averiguar aqui todinho. Aí se tu quiser voltar pra tua aldeia, tu volta quando... Vou ver por aqui, qualquer coisa eu te aviso. Aí no terminei de chegar aqui em casa, nós tínhamos... Nessa época não tinha telefone, não tinha internet, não tinha nada. Era radiofonia. Aqui. Radifonia.
R- Aquele microfonezão, o bichão parecia um caranguejo desse tamanho aqui. Pegava um pé de bacaba inteiro e o mais alto você botava lá em cima, uma antenazinha lá em cima, para poder se comunicar. Aí, terminando de chegar aqui, ele disse assim, Inácio, pode vir, qual é o nome que vai assinar para ser o agente de saúde aí da aldeia aqui, pode vir assinar. E ___ , tá melhorando. Aí eu mandei uma Lídia, minha irmã, assinar o contrato como agente de saúde. E assim a gente foi vivendo, isso ainda era em 2008, 2007 para 2008. E a gente veio trabalhando, enquanto isso, eu estava fazendo o curso. Pela CPI, pela Comissão Pró- Índio. E quando eu estava no curso já terminando o magistério, quando eu chego lá para fazer o curso, ela tinha uma carta na minha frente, a pedido do Bira para tirar nós do curso.
R- Na nossa formação. Na nossa formação. Aí quando eu, como é que é? Eu disse, como é que é? Disse, tá aqui a carta. Aí um coordenador lá do... lá da... que era a OPIAC na época, né? O coordenador da OPIAC, da... da... a Organização dos Professores de Indígena do Acre. Eu disse, rapaz, Inácio, tu e Alderina tá aqui um documento que o Bira mandou aqui pra CPI. Aí ele vai ler, exatamente pedindo para excluir a gente do curso, que ele não queria que nós ficássemos no curso.
R- Eu digo que ele vai escolher duas coisas, porque se existe a lei, porque você não pode tirar um aluno da escola à força, expulsar o aluno da escola à força. Ou eu vou continuar, se não for, ele vai ter que pagar pelo ato que ele está cometendo aqui. Porque agora eu já conheço mais um pouco do meu direito. Eu ia processar ele? Ia mesmo, não tinha perdão, não. Eu fiquei assim, sabe indignado mesmo.
R- Aí tinha mais perdão, mas não. Porque ele já tinha feito muita coisa já. Agora eu não tenho mais perdão, não. Eu vou processar ele. Aí o Isaac, que era o coordenador na ______ , disse, rapaz, tu tem todo o seu direito, se você tem o apoio da UPIAC. A CPI disse assim, você tem o apoio da CPI.
R- Porque isso não existe. Você estando na formação, alguém vem por um motivo próprio, por uma coisa interna, tirar você da escola. Então não existe, você tem todo o apoio. Então se você me apoiar, eu vou processar ele, amanhã já. Eu não sei quem ligou pro ______ , pro Joaquim.
R- O Joaquim veio como um cachorro bom de paca, ele veio me rastejando, velho. O Joaquim disse, rapaz, o que é isso, meu irmão? De o quê? Não, rapaz, eu soube que você ia me ligar, eu ia processar o Bira amanhã. Pelo amor de Deus, meu irmão. Não faça isso, não. Não faça isso. Tô pedindo, pelo amor de Deus, não faça isso não, porque você vai acabar com a reputação do homem e vai acabar com ele. Aí o Joaquim, ódio, fiquei com muita raiva e vou fazer e não faço isso não. Não faço isso não, irmão. Tô pedindo pra você. Tô te implorando porque você não vai fazer isso, correto? Eu pensei um dia, dois, e chamei o Joaquim. Joaquim, meu irmão, obrigado. Mas eu ia acabar com ele porque ele não tá respeitando. Não tá respeitando a gente. Ele não sabe me respeitar. E eu não quero. Eu vou… Isso é muito ruim. Então, por tua causa, eu vou voltar a minha palavra atrás e não vou fazer isso não.
R- E aí eu não fiz isso. Então eu sofri muita coisa. E eu estou aqui hoje por causa dele, por causa do Bira.
R- Vivi minha vida… sem trabalhar, ajudando ele, trabalhando com ele, fazendo de tudo. E uma palavra que o próprio ele me disse, é uma coisa interna, mesmo o nosso balcão, ele me disse que eu não poderia cruzar o caminho dele, então eu vou embora.
R- O que eu estou fazendo aqui, se eu não posso cruzar o caminho do homem? Foi por isso que eu abri esse lugar. Tem outro detalhe aí que eu também não vou contar, nem quero falar, que é uma coisa interna da gente, falando da minha vida, do que eu vivi. Algumas coisinhas que eu estou falando aqui, porque eu vivi essa vida.
R- Mas hoje, graças a Deus hoje, e a gente veio vivendo, veio trabalhando, a gente veio batalhando. Eu vim batalhando, sofri, passei fome, passei sede. Tinha dia que eu comia, tinha dia que eu não comia, tinha dia que eu dormia, tinha dia que eu não dormia. a minha casinha, sabe, um tapirizinho, que eu vivi a minha vida. Pesquei muito nesse rio, peguei muito peixe para comer. A coisa mais importante da minha vida, que eu vivi, construí nessa aldeia, fui pescando, caçando, junto com minha família.
R- Pegaram uns enormes de peixe, de 80, 100 quilos de cada um peixe que eu pegava. Essa construção aqui foi uma vida de devestimento, foi uma vida tão saudável hoje que me dá saudade de eu fazer isso de novo. mas, infelizmente, aquilo que passou você não pode mais voltar atrás. Mas essa aldeia foi uma aldeia de fartura, de muita felicidade, de muitas coisas boas, principalmente a parte da alimentação.
R- Quando eu cheguei aqui, construindo essa aldeia, eu desci aqui pro rio, trazia dois,três jaú grandes, que cada um pesava 60 quilos. muito peixe, muita fartura. Hoje, quando eu cheguei aqui, eu contava de 30, 40 o quelônio, chamado quelônio, que é o tracajá, em cima daqueles pauzinhos, né, esquentando o sol.
R- Hoje você anda nesse rio, eu não vejo mais nada. Que tristeza que eu tenho quando eu não vejo mais nada desses animais aqui, quando eu cheguei a ter uma fartura.
R- Então hoje, nós temos tudo isso construído que nós temos hoje. Nós construímos várias coisas, construímos o nosso bem-estar, para a nossa aldeia eu construí, isso tudo trabalhei. Eu pensei, planejei para que eu pudesse fazer uma aldeia para toda a nossa família.
R- Hoje eu sou tão feliz com a vida que eu vivo hoje, com o tempo que eu vivi, com a vida que eu passei. Hoje eu estou vivendo uma vida muito tranquila aqui na aldeia Amparo. A aldeia Amparo tem 18 anos de vida, completando 19 anos. É, aqui, construindo tudo isso aqui que eu construí, tudo isso aqui foi um pensamento, foi um plano, né, que eu tive, foi um projeto que eu tive, né, que eu pensei de construir e hoje eu estou vivendo essa vida, né, uma vida tranquila, uma vida em paz, uma vida que, sabe, que e talvez quando eu, talvez não, quando eu tiver mais velho, que eu não vou poder mais fazer isso que eu tô fazendo, eu vou sentir saudade, eu vou sentir vontade de fazer, mas infelizmente o meu físico não vai mais me oferecer aquilo que eu fiz no meu trabalho, no meu passado. Eu fiz, construí tudo isso aqui hoje.
R- É uma aldeia que eu tenho orgulho de dizer que eu construí essa aldeia. Com o meu suor, não tive aqui apoio, de associação, não tive apoio de instituição, não tive apoio de governo, projetos de governo, não. Isso aqui foi com trabalho, foi pensando, foi derramando suor isso aqui. Aqui não foi roubado, tudo isso aqui, doutor, não foi roubado nada para se construir isso aqui, não. Foi uma vida tão saudável que a gente fez, uma construção boa, que nós temos hoje, construindo essa aldeia . E todas, todas as coisas na minha convivência, de minha vida, eu tenho feito por aqui, né, na nossa aldeia Amparo. E eu tô bem, eu espero envelhecer aqui, morrer aqui. Quiserem me enterra, me enterra, se não for jogar aí mesmo, para minhoca, comer, eu quero viver minha vida.
P/?- Antigamente, quando o senhor via o rio, a floresta, como o senhor navegava, deslocamento aqui ou para a cidade?
R- Na verdade, não gosto nem de falar nisso, porque para mim isso parte do meu coração lá de outro. Porque antigamente, como eu falei, antigamente a gente tinha uma vida tão saudável, tão feliz, vendo as paisagens da nossa floresta, vendo o nosso rio, navegando o tamanho da embarcação de barco, muito peixe, muitas coisas que nós tínhamos antes, que nó não temos mais hoje e está se acabando.
R- Nossos peixes hoje estão subindo, como eu acabei de falar, antes eu pegava peixe aqui de 60, 70, 80 quilos. Hoje, ou anteontem, eu fui atrás de uma piracema, atrás de uma piracema aqui, que eu peguei um peixe, talvez não dava 10 gramas. Imagina só o quanto ela reduziu, o peixe reduziu de 2006 para 2025. Quando eu pegava peixe de 80 quilos em 2007 e hoje em 2025 eu estou pegando um peixe de 5 gramas. Então a diferença a gente está vendo parece que uma coisa ela está … imprensando de um jeito e se acabando com aquela beleza que nós tínhamos antes. Dois mil, três mil, tracajazinho pequenininho, chocava, mandava chocar na areia.
R- Mandava juntar, tirar, fazer um cercado. Chocava ali...Ou senão os bichinhos saíam um monte, sabe? Aquela quantidade. E mandava jogar no rio, mandava jogar nos lagos. Hoje você não vê mais nenhum tracajazinho, ________ _____. Antes o _____ botava de maio pra junho. Hoje o ______ tá começando a botar alguns ovos agora quase em agosto. Fora de época.
R- Por quê? É 24 horas o motor aqui. Eu sei que a questão do transporte melhorou muito. A questão do transporte ela se desenvolveu que você hoje vai na cidade e volta.
R- Mas essa questão que eu tô falando dos animais, dos bichos, aquático, tá acabando. E vai se acabar. Se a gente tiver cuidado, vai se acabar. A gente vivia essa beleza, vivia essa riqueza. É uma diferença muito grande, como eu falei, Nós andava de Varejão, essa aqui, dois dias e meio pra descer do Nova Esperança ali pra Vila São Vicente e mais três dias para subir de Varejão.
R- Hoje você sai de Nova Esperança, vai em Tarauacá e volta em Nova Esperança. Mas você não pega mais um peixe com você para alimentar sua família inteira.
R- Não vê.
R- Imagina como é que tá o rio.
R- Eu fui ontem, lá pro Escondido. Ó, daqui pro final de agosto não vai andar mais barco aqui nesse rio não. Pode ter certeza, tá dizendo. Vai andar mais arrastando por cima dos paus. Porque não tem mais. E há uns três anos, quatro anos atrás, esse rio ainda navegava de barco. Nessa época, um barco de três, quatro toneladas, hoje não sobe mais não. Esses barquinho de 400 quilos de alumínio sobe, mas é bem aperreado e imprensado. Grande diferença.
R- A diferença da minha juventude, quando eu vivi, da minha geração, eles eram um bom caçador, um bom trabalhador, e eles faziam de tudo. A diferença que eu estou vendo hoje, dessa juventude, pergunta a ele. Se ele vai no roçado buscar banana. Um cacho de banana.
R- Pergunta a ele. Se ele vai. Ele não vai. Não anda. Não tem mais coragem. Até pra jantar ninguém, até pra comer, até pra gente se alimentar numa mesa, todo mundo junto como era antes, não tem mais. Porque vai de um por um comer. Porque tá lá no WhatsApp, Tá lá na internet, Seu pai chama pra comer? Oi? Um não levanta mais, dizer senhor ou senhora? O que o senhor tá precisando? Se o filho tá lá na sala e a mãe tá lá na cozinha chamando pra me lavar um prato, eu tô aqui ainda na internet, mas não tá falando, tá falando aqui. Eu digo isso porque eu tô presenciando isso todo o tempo aqui na nossa aldeia. Olha a diferença. as mulheres hoje não tão indo mais pro roçado buscar macaxeira, olhar seu roçado. Algum homem, algum homem ainda tá fazendo roçado e ainda tá indo pro roçado.
R- E ainda reclama que não tem macaxeira em casa pra comer.
R- E não vai não. De jeito nenhum. Nossos filhos, eu não tô mais... É porque meus filhos já estão crescidos. Não tenho mais filho homem. Os pais não estão mais levando seus filhos pra caçar.
R- De jeito nenhum. Não vai.
P/?- O mestre, é, e assim, como é a história do seu casamento?
R- A história do meu casamento... A história do meu casamento foi que eu pedi a mulher e fiquei com ela e pronto, me casei.
P/1- Como foi que você se encantou por ela?
R- Corrado, me encantei por ela, namorando pela capoeira, né? Andando atrás do toco da banana, trabalhando pra ela escondido, né. Fiz muita coisa que hoje não fiz. Pode perguntar pra minha esposa que essa ela garante. Eu carreguei Várias vezes, na época não era pra carregar a tábua assim não, carreguei bica de paxiúba de 30 metros, quase. Bica de paxiúba, nas costas, pra poder namorar.
R- Hoje em dia é pelo WhatsApp. Não sai do WhatsApp ali, namorando. Eu plantava arroz, eu... eu... eu... eu... eu brocava banana, eu fazia casa pra eu não poder namorar com minha esposa. Se eu quisesse, menos encostar nela. Não era pra beijar, não. Era só pra encostar. Hoje em dia, só tem sem vergonha. Não existe mais casamento. Não existe mais namoro, de moral, de respeito. Hoje em dia, só tem aproveitamento. Tanto a parte dos homens como da parte das meninas que não sabem se valorizar você. Eu me casei com ela, mas não foi fácil. Eu trabalhei muito. Hoje em dia, o homem pra poder ficar com a mulher, tô falando dia de hoje, é só ali, dá só um puxão de orelha nela ali, pega no cabelo dela e já tá casada. Mas amanhã, já estão separadas. Porque as coisas estão tão fáceis, facilitaram tanto, é que se ele deixar uma mulher aqui, mais tarde ele tem outra, que são vagabundos, de primeiro não era assim não, porque de primeiro a gente trabalhava, ninguém tinha tempo de estar correndo atrás de mulher não. Porque a gente trabalhava. Só tinha tempo de noite, escondido. Pra você poder namorar com a mulher e dormir com a mulher, você tinha que esperar até meia-noite. O pai dela dormir e a mãe dela dormir pra tu ir pra lá. Ai que se não tivesse um cachorro valente pra te morder. Então nós, sabe, o meu casamento foi esse casamento que eu tô falando.
R- E hoje eu tô quase com 29 anos casado. Então por isso que o casamento, né, de antigamente era bem respeitoso. E hoje não, virou uma brincadeira e uma bagunça.
P/1- O senhor podia contar aquela história que você contou do bebezinho, do casamento, como era antigamente o casamento Yawanawa, e essa história que te contaram?
R- Essa história, a história de casamento, antigamente, eu não tenho muito conhecimento porque eu já não sou mais dessa geração, mas contado as histórias pelas pessoas mais velhas, pelo meu pai, pela minha avó, Pela minha mãe, que não era indígena, mas a minha mãe, ela foi muito rígida. Viveu muitos anos. A mamãe viveu 40 anos com o meu pai, muitos anos. Então, antigamente, o casamento era assim.
R- Era igual, eu estava acabando de falar. Me casei com ela porque eu trabalhei para ela. Ela não olhava para mim de graça, não. Tinha que pagar. Como se eu estivesse dando dinheiro.
R- Quando era de tarde, o pobre do ombro aqui tava descascado de carregar, ou então a mão toda calejada de tá brocando. Ela fez eu apanhar o arroz todinho, cortar o arroz todinho pra poder colocar no coisa, no paiol.
R- E o casamento de antigamente não era diferente, não. Só que eu também não fui besta, não, pra casar com ela. Eu já estava vendo ela, não ia esperar pela barriga, não.
R- Por isso que eu trabalhei, porque se fosse eu não ia fazer isso não. Porque antigamente o casamento, quando a mulher saía grávida, se alguém se interessasse em se casar com a filha de alguém, quando soubesse que a mulher estava grávida, ele já começava a trabalhar para ela.
R- Só um exemplo, eu vou dizer aqui para vocês que meus avós , um dos meus avôs, ele... numa pescaria, numa pescaria, ele pegou peixe, pegou peixe, aí pegou o marido da mulher, né? Ele pegou o peixe e deu para a mulher. E o marido dela viu. O marido dela viu, aí terminou a pescaria. Aí o marido dela chegou perto dela e disse... Por que aquele fulano te deu o peixe? Ele pensava que ela não ia falar nada, com medo dele. Aí ela disse... Tu não tem vergonha, não? Tu não tá vendo que nós temos filha? Será que tu tá pensando que ele me deu o peixe por causa de mim? Nós temos uma filha, nossa filha que ficou em casa. Mas ele perguntou por curiosidade. Aí ele disse, ah, tá certo. Desculpa. Quando ele chegou na casa dele, ele disse pra filha dele. Vai chamar ele pra vir comer. E ele criou essa relação e findou-se casando com a menina. Até o gesto, antigamente o gesto de respeito, se você, por exemplo, esqueci o nome dele. Até o gesto, se ele tem uma filha e e eu começo a trabalhar, fazer algum trabalho para você, você já fica de olho.
R- Por que está fazendo isso? Não é por causa de mim. Então, assim era o casamento. E quando ele sabia que a mulher estava grávida, que ele tinha que se interessar, porque antigamente não tinha muitas mulheres, ele começava a trabalhar. Primeiro ele pegava um resto de lenha o maior que tinha e jogava lá, abria todo dia e deixava debaixo do fogão dela, dos pais.
R- E a mulher grávida. Um mês de gravidez. Um mês! Deixava lá, abria a lenha todo dia. Ia caçar quando ele chegava com o porco, com o veado, com qualquer negócio, ia deixar na casa deles. E a mãe e o pai, a mulher tá grávida, né? E ela dizia, olha... Não falava nada.
R- Ele continuava. Começava a respeitar ele. A mãe, o pai, da filha, né? Da criança, estava na barriga. E ela começava a dizer, olha, chamou aquele rapaz pra dar uma _______ pra ele, dar uma macaxeira cozida pra ele, já começava. Era o respeito, antigamente se casava por respeito, não por aparência.
R- Era respeito. E ele trabalhava nove meses, tirando lenha, caçando, fazendo, carregando banana, até água, carregava água, tudo, limpava tudo ao redor do terreiro. No dia que a mãe ganhasse o neném, se fosse o macho, ele ia abandonar o serviço dele e ficava de graça. E se fosse uma menina, ele ia trabalhar mais 10, 12 anos pra poder. E era dele.
R- Os pais não descartavam. Era dele.
R- Ia chegar uma data, quando ela já estivesse, já a mocinha entregava para ele. Aqui, é seu.
P/?- Fala sobre as suas primeiras viagens para a cidade.
R- A primeira viagem para a cidade? Eu não vou contar aqui não, porque a mulher está aí perto .
P/1- Vou levá-la para longe.
R- (Risos)
R- Então, assim… Eu nunca tinha andado na cidade. Nunca tinha visto um avião.
R- O carro... Primeiro de tudo, eu vi o carro e andei para a cidade. Eu fui para a cidade e... De 70 em 80.
R- Foi 80. Na década de 80 fui pra cidade. Já faz uns anos.
R- Primeira vez que eu vi um avião, eu olhava assim pro avião, pra mim que era um animal tão grande que me fazia medo. Era eu e o _______ , meu irmão, nós caímos dentro de um capinzal e fiquemos só mesmo ali quietinho, vendo o avião passando por cima.
R- Digo, ele vai comer nós. E só éramos nós dois. Vai comer nós. E depois a gente foi se acostumando. Primeira vez mesmo pra cidade. Eu fui pra cidade, fiquei muito admirado com os carros. Eu chamava aqueles carros de jabutizão, tinha aqueles carrão, aqueles carros de jabuti, primeiro tinha aqueles carrinhos bem... bem bonitinho assim, parecia um jabuti, né, e... eu me admirei muito, me admirava com tudo, saia apontado por todo canto que eu ia vendo.
R- Mas foi… A partir desse momento que a gente foi para a cidade, a minha vida começou a mudar, começou a ter outra visão. Tinha as coisas com mais fácil, com mais facilidade.
R- Andei de carro.
R- Eu não queria mais sair dentro do carro porque era tão bom andar de carro, tranquilo. Você não cansava. Então, a primeira vez que eu andei para a cidade, foi uma experiência muito grande em mim. Eu era criança, eu tinha uns 9 anos de idade, ainda era criança, quando eu fui para a cidade. Fui com meu pai e minha avó. Primeira vez que meu pai foi para aposentar minha avó, foi a época que eu fui para a cidade, não sabia nem o que era, não deu nem uma noção do que era uma cidade. Muita casa.
R- Aí... Aí o… Quando eu cheguei, aí o meu irmão _______, ______ perguntou pra mim, rapaz, por minha cidade? Aí eu falava pra ele, meu irmão, na cidade só tem galeria e cachorrada. Madrugada mesmo você escuta galo cantar, cachorro latindo, por todo canto é lado. Só galo e cachorrada.
R- É mesmo, cê... Um dia tu vai ver. Pois é, no dia que o papai for agora, acho que tu vai mais ele pra tu ver como é que é a questão da cidade. Então foi uma coisa assim, sabe, ninguém sabia, muitas poucas pessoas sabiam o que era cidade na época. Acho que a minha geração nunca tinha andado na cidade. Nunca, nunca, nunca mesmo.
P/1- Ia falar também para você contar um pouco como foi o nascimento dos seus filhos, como você criou seus filhos?
R- Na verdade, eu sou… Eu fiz três casamentos... Três casamentos meus. Três casamentos. Primeiro casamento meu, eu me juntei e passei mais ou menos um ano, foi dois anos com a mulher. Eu tive uma filha com ela.
R- Enquanto eu fui trabalhar, eu fui cortar seringa e quando eu cheguei ela tinha ido embora. Me deixou e foi embora e eu fiquei sozinho. Tinha vontade de chorar, gritar, mas… Chorei, gritei, mantinha jeito e ela foi embora, grávida de mim. E a gente não conviveu muito tempo. E a minha filha se criou junto com ela, com o tio dela. E hoje ela é a mulher do ____. Elizabeth, minha filha. E ela se criou com os filhos, com os filhos não, com os tios dela, com a mãe, com a avó, se criou com ela. Depois tive outro casamento, que é a mãe do Jonathan, do Joãozinho, da Lia, com meu filho, e outros.
R- Esse daí, depois nós tivemos um problema, sabe como é que é casamento? Tem hora que dá certo, tem hora que não dá certo. Aí a gente se separou, E aí meus filhos também. O único que se criou comigo foi o Jonathan, que mora hoje aqui do meu lado. O resto tudo se criou com a mãe. Quando ela se separou de mim, ela não quis que meus filhos frequentassem a minha casa.
R- É o único que... e decidiu frequentar a minha casa, foi o Jonathan. Então, não tenho muita experiência assim de como... e eles eram pequenos ainda. Paguei, paguei uma pressão também pra eles. E eles se criaram longe de mim.
R- Eu criei o Abraão, que é o filho dela aí. E criei também o filho do meu cunhado, _________ , criei estou criando esse Abraão . Mas a experiência de criar um filho, para quem não sabe como é que é a responsabilidade de criar um filho, não é fácil não. Só o pai sente como criar um filho. Então foi nesse casamento. E com ela aí, a gente criou esses meninos aí que eu estou falando, mas não é fácil ter a responsabilidade _______ .
R- E eduquei eles do meu jeito. O jeito que eu eduquei eles hoje, cada um dos meus filhos que eu criei, hoje estão vivendo a vida deles. Já são maiores, são adultos, criaram uma família e estão vivendo a vida.
P/?- Tio, a gente quer saber uma boa história de caçada.
R- Boa história de caçada?
P/? Teve algum perigo nas suas caçadas por causa dos animais que atacou, que correu atrás?
R- Têm! Um jabuti correu atrás de mim (risos)
R- Mas assim, a caçada, olha, para quem não sabe de uma caçada, a caçada é uma atividade muito perigosa. Muito perigosa. Perigosa sim, mas é uma atividade que quando você faz, você gosta de fazer. É a caçada. Mas o perigo que eu falo é de inseto, né?
R- Cobra.
R- A onça é muita traiçoeira na mata. Por isso que eu disse que eu matei muita onça. Eu sou muito traiçoeira. Uma vez eu fui caçar uma rua meu irmão, _________ , e... Sereno, de manhãzinha, mais umas sete horas da manhã.
R- Aí nós chegamos assim num barreiro, subimos o barranco, aí o banheiro ficou mais ou menos como daqui, perto da caixa d'água lá. Eu fiquei sentado no toco de um pau, debaixo de chuva, e ele ficou assim, de cima, no cipó. Aí eu fiquei.
R- Aí eu tava ali, debaixo de chuva, aquela zoada, não dava pra ouvir nada. Eu sentado.
R- Aí eu pensei que não era… A onça esbarrou como daqui, mas acho que não dava dois metros direito. E na época que eu cortava seringa, minhas facas eram ______ assim, ó.
R- E eu tava com espingarda também. Só que quando ela bateu, eu só fui levantar a espingarda aqui, eu maiei três vezes a espingarda, maiei três vezes na cara dela.
R- Ela ficou só com o rabo dela assim, ó. Aí eu pulei de trás do pau, pulei de trás do pau e arrastei minha faca. Aí quando eu arrastei minha faca, eu disse, _____ , você está aqui. E a minha espingarda maiou. Quando eu disse isso, ela pulou para trás. Não sei como essa onça deu um pulo para trás assim, para trás assim. Eu só vi o rabo dela balançar.
R- Cobra também, muito perigosas. Vejo de muita cobra, muita cobra. E como eu falei, dormir na mata, dormir na mata não é bom, é muito difícil; muitas das vezes você sai sem nem tomar nem o café, quando você vai, e chega em casa sem nada.
R- O dia todo sem comer. Então a vida, a vida de sobrevivência de um homem que mora na floresta, que depende da alimentação de caça e pesca, que depende da alimentação do seu suor, Ele é muito sacrificado, mas vale a pena. Vale a pena porque… Quando você envelhece, quando você chega à idade, você tem história para contar para o seu filho, para os seus netos. E é importante, porque aí... Porque meu pai contou isso para mim, o que os abodes, o que o pai deles viveram. E eu vi a presença do meu pai. Eu me criei com ele trabalhando, eu me criei com ele fazendo todas as atividades.
R- Eu convivi com ele a vida inteira.
R- E eu já conto para os meus filhos como eu vivia.
R- Então se cria uma sequência de história tão bonita, que a gente nunca vai esquecer na vida da gente. Então as histórias da convivência, da nossa vida, ela vai passando geração em geração. Então é uma história que nunca se acaba, uma história que nunca vai ter fim. Então vale a pena, mesmo sendo perigoso.
R- Eu passei por muita situação na minha vida. Uma vez eu fui mergulhar aqui em cima, eu fui mergulhar, eu tava mergulhando devagarzinho, aí eu olhei assim pra cima, que é um pau atravessado.
R- Aí eu digo, aí eu digo, vou pegar aqui e vou subindo. Quando eu peguei, mas não era o pau, era um ______ . Gente! Essa minha cabeça pra mim tinha estourado, explodido.
R- Pum! Eu não tive ação nenhuma, aí eu buiei devagarzinho. Aí eu botei minha cabeça fora, tonto, tonto da cabeça. Aí eu digo, meu Deus, que situação, para não poder me alimentar eu ando pegando choque de ________ baixo de água. Então não é só, não é só a raia, né?
R- A dor da raia são três horas de dor e dor mesmo, né. Então não é fácil a vida de um caçador. Não é fácil a vida de alguém que vai para alimentar sua família.
R- Feliz daquele homem, principalmente, que vai sair para a mata para caçar, enquanto quando você chega, sua mulher está te esperando com uma macaxeira cozida. Mas graças a Deus, todo o meu casamento foi abençoado.
P/1- O senhor já passou por alguma cura forte de alguma doença, algum problema que teve que algum pajé, algum curandeiro curar?
R- Não, nunca passei.
R- Sempre… Não, nunca passei, não. Nunca, nunca.
R- Eu fui mordido de cobra duas vezes. Fui mordido de cobra duas vezes e fui curado pela erva medicinais. Porque nunca existiu na nossa história que... Não tem na nossa história que um Yawanawa foi mordido de cobra foi amputado a perna, o braço. Tem agora um rapaz recente que fez isso, mas por conta da desobediência da própria família. Porque quem é mordido de cobra, ele tem uma dieta, tanto você, seu pai e sua família. Seus irmãos têm que fazer a dieta. Então, hoje, nós temos a medicina que combate tudo isso.
R- Mas então, para não dizer que eu nunca sofri isso, eu fui mordido de cobra e passei por esse processo de tratamento da erva medicinal. Eu fui mordido de cobra duas vezes e graças a Deus hoje sou um homem perfeito.
p/1- A gente já está fechando . Queria saber se você nota na sua vida, na sua convivência, as mudanças climáticas. Se você sente que o tempo do rio está diferente, o tempo da fruta. Se você observa alguma coisa assim.
R- Tem muita coisa, muita mudança ultimamente.
R- Há dois anos atrás, a gente via tudo no seu tempo. Hoje não existe mais. Eu tava... Eu tava falando pra algumas pessoas aonde isso foi ontem. Eu estava falando que... Que muitas frutas hoje tão dando fora de época. Às vezes eu me pergunto por quê.
R- Não sei se é muita chuva, se é muito sol, se é muita quentura. Pois é, então assim, as coisas estão tão mudadas do jeito que a convivência do ser humano também está havendo uma mudança tão grande.
R- Também a mudança dos animais, a mudança da floresta, das plantas, a forma como eles estão florescendo hoje. Muitas plantas dando fora do seu tempo. Tem planta que dava fruta no mês de janeiro, que era no mês da chuva, no mês do inverno. Estão dando já no começo do verão.
R- Tem planta que dava em dezembro, no final do verão, tá dando no começo, no final do inverno. Então, todas essas mudanças. Eu tô falando isso porque eu... Quem é caçador, ele sabe de tudo. Quem é caçador, a época que a Biorana dá, quem é caçador, a época que a Pama dá, a época que a Sapota, o Cocão, aliás, o Maracujá, a época que eles dão fruta. E você que caça, você entra na mata, você já vê a diferença. Porque muitas das vezes os caçadores, os caçadores mesmo, antigamente, quando iam para a mata, eles já sabiam, hoje eu vou para a mata, não vou comer nada, porque na mata eu tenho aquilo para comer.
R- Aí você sai para a mata, quando você chega lá, hoje, não é mais aquilo, é diferente. O tempo que você, a época que você comia uma sapota, hoje, por exemplo, no mês de dezembro, hoje você não vai ter mais sapota no mês de dezembro, você vai ter a final de janeiro. Então existe uma mudança tão grande, está sendo uma mudança tão grande, do jeito que o ser humano também, estão se mudando em sua própria convivência, as florestas também estão.
R- Os animais, tem época que os animais, a gente sabe qual é a época, por exemplo, o veado para em meio de dezembro, é o filhote, essa é a época.
R- Hoje você já vê um rastrinho do veado na mata no meio de abril, março, março, abril, olha a diferença. Então são tudo isso que está acontecendo, essas mudanças. Por que é isso?
R- Muitas vezes eu me pergunto por que está acontecendo isso. Será por causa dessa mudança? Hoje a gente vê muita desmatação, a mudança da própria convivência de vida dentro do próprio nosso território. Aquilo que eu falei para vocês, muitas aldeias sendo construídas, e de primeiro não era assim, todo mundo morava junto, comia junto, trabalhava junto, pescava junto, caçava junto. A mudança que eu estou vendo hoje também é que não existe mais as caçadas tradicionais que a gente fazia de antigamente. que saia pra mata com um monte de macaxeira, milho, banana nas costas, levava filho, mulher pra ir pra caçada, passava dois, três dias matando caça, muquinhando macaco, pegando peixe e matando anta, muquinhando anta.
R- Hoje não está existindo mais, porque as coisas estão mudando. Ninguém tá comendo mais milho torrado, tem gente comendo a _______ _______. Ninguém tá torrando mais o milho pra comer. E sentava boquinha da noite, hoje é uma pipoca, uma meia _____ _____. Porque ninguém vai dar mais trabalho pra ficar na beira do fogão, pra torrar milho. Não vai.
R- Nós não estamos tomando mais uma caiçuma de macaxeira. Nós estamos tomando energético. Então, as mudanças, se você vê, parece ser brincadeira, parece ser uma coisa, sabe, brincadeira, uma piada, mas as coisas estão mudando de um jeito. Hoje você não vê mais alguém sentado aqui ouvindo, te olhando para a tua cara, olhando o que é que tu está falando, está no celular sentado. Então, eu estou falando, sabe, parece ser uma piada, mas é isso que acontece, gente. É isso que está acontecendo.
R- Então são coisas, então essas mudanças, se nós queremos saber de como há mudança, de como ela está sendo transformada, ela está dessa forma. Não é só na floresta, não é só no peixe ou na água, então nos animais não, em nós está tudo isso. E quem é que está fazendo isso? Nós!
R- Porque nós somos o maior destruidor e o maior transformador da natureza. Não existe outra. A gente diz, ah, por que o animal está ali? Por que o animal está parindo fora da época? Ou então, por que a árvore está dando fruta fora de época? Ou então, por que a água está secando? Nós somos culpados disso. Nós estamos transformando ela. Então, nós precisamos estar prestando atenção no que está acontecendo. Eu sou uma das pessoas que presta atenção em muitas coisas, mas infelizmente eu sozinho não vou poder fazer nada, que diz que uma andorinha sozinha não faz verão.
P/?- Agora o senhor poderia falar da dieta que o senhor fez?
R- A dieta na verdade não é tão uma dieta, é uma preparação para ser um bom caçador. Como eu falei no começo, o papai ele fazia muito isso. Ele, na verdade, muitas das vezes, a mamãe dizia, você está judiando com seus filhos.
R- Aí ele dizia, não, é para ele ser trabalhador, para ele ser matador de caça.
R- Aí empurrava a _____ . Não comia nada não, empurrava ____ em mim. Vamos embora para a mata, ninguém vai comer nada não. Passava o dia todo sem comer. A dieta era isso aí.
R- Quando chegava, pensava que eu ia comer banana, se eu comer esse banana, ó, o cinturão, nada de doce. Tinha que comer macaxeira cozida, que não tinha doce, outras coisas. E isso eu fui me adaptando com isso, né? E pra mim ser um bom caçador, porque muitas das vezes quando você é caçador, a gente sempre tem esse costume de dizer. Ah, eu matei uma caça, mandei um pedaço pra tal casa e a gente foi lá que me _______ .
R- Bora tomar _____ . Bora passar o ______ e fazer a dieta. E mexer também as folhas para mata-caça. Deixar as ervas medicinais. E aí ter mais dieta.
R- O ______ a gente fazia… Eu tomava o _____ e eu passava uma semana sem comer doce. E nem ter relação com a mulher, sexo, nem pensar.
R- Se mexer em folha é um mês. Tinha que ser um mês, todinho.
R- Porque senão corria o perigo do inseto te picar, cobra. Não pode cortar a dieta porque tem cobra. E aqui muitas das vezes quando alguém está fazendo dieta que ele fura a sua dieta pela metade, você está falando que a cobra mordeu alguém.
R- Aí o outro vai lá, come e morde alguém. Então, alguém foi fazer a dieta, não cumpriu com sua dieta. Então, já tem as experiências. E eu fui muito isso, eu fiz muito essas dietas para mim poder ser um matador de caça. Quando era só o _____ , era uma semana. Enquanto estivesse tomando... passando o ______ e no mínimo três vezes o ________ tem que tomar para você ser um bom caçador. Aí você é um bom caçador, é para tirar a preguiça, é para você se alertar e você tem que fazer dieta. E a mudança de hoje é isso aí. A diferença que eu estou vendo hoje, muita gente toma ________ e vai dormir, vai deitar, ou termina de tomar ______ , aí vai pegar um litro de refrigerante, pega uma caiçuma, um café com doce e leite.
R- Eu nunca fiz isso na minha vida. Sempre quando eu tomava, eu só tomava ____ para me matar a caça e tirar a minha preguiça.
R- Eu descia embaixo para me tomar o ____ , já deixava a minha espingarda já no esteiro, no barrote. Não subia. Por quê? Porque eu me adaptei dessa forma.
R- Papai me criou assim. Eu só chegava, tomava banho, pegava minha espingarda. Só chegava de tarde. E chegava com porco, com veado.
R- E a dieta.
R- Chegava nem encostava na mãe. Daí dizia pra mulher do filho, fica longe. Eu tô na dieta.
P/1- E a ____ , você contou um pouquinho dessa sua do ______. E como é que você observava que era a dieta dos antigos, né? Pensando hoje, como é que os antigos faziam as dietas dele, do que você observava?
R- Os antigos, eles eram muito sérios naquilo que eles faziam, né? Eles tinham muita seriedade. Então, hoje não tem mais isso. Até falando na dieta dos antigos, falando aqui só sobre mais uma coisa, das dietas, por exemplo, por isso que hoje eu me criei dessa forma, e hoje é muito difícil eu tomar o ____ . O papai sempre dizia para mim assim, meu filho, não toma o ____ , porque além de tu não saber de nada, você toma o ____ , você não pode deitar com sua mulher no dia que você tomou o ___ . Você tem que passar pelo menos dois ou três dias, porque senão ou você ou ela adoece.
R- Ou você ou ela pega ______ . Você pega uma roncaria no peito, ou você ou ela.
R- Então você não pode, tem que fazer dieta.
R- Você tomou o — , você não pode comer doce nenhum. Nenhum! Porque senão você adoece. Então você não pode.
R- E eu me criei assim.
R- E hoje eu vejo, faz uma rodada de ____ , no outro dia já tá com um copo de café, dois litros
de refrigerante ali tomando, não pode,sabe. Então são situações, por isso que eu tô falando. Você me pergunta nessa situação da... Como eu vejo a dieta dos mais velhos, então os mais velhos tinham esse regimento.
R- Ele botava duro mesmo, por exemplo, o tio Vicente, quando ele era vivo, se você tomasse _____ com ele, se... Tu inventa aquilo que tu não aguenta. Eu cansei de …. ele dizer isso com os meninos que tomavam ___ com brincadeira. Então tudo isso, por isso que essas mudanças de hoje virou tipo um... Uma fantasia, uma brincadeira, sabe porque os mais velhos respeitavam muito o ____ . O ____ era uma coisa sagrada deles.
R- Ninguém podia mexer, não, de jeito nenhum, uma coisa intocável. Porque ali é onde estava toda a sabedoria deles.
R- Então, do mesmo jeito, essas dietas que eu tô falando, que não era brincadeira. Se ele visse alguém furando a dieta, de alguma coisa que tu fez, e se você não cumprir com as regras, aquele dali podia descartar dele, porque ele não queria mais nada com ele, não. Então o regimento era tão forte que eles tinham essas coisas como uma coisa privada deles. Não dava pra ninguém, não.
P/?- Um segredo, né?
R- Segredo.
P/1- Teve algum sonho que você teve marcante na sua vida?
R- Só quando eu fui pra namorar com a mulher.
Não, eu acho que um sonho, um sonho marcante mesmo é... Nunca tive, não. Se eu já tive, não estou me lembrado.
P/1- E algum sonho que você tem de realizar alguma coisa? Algum sonho pra você?
R- Sim. Essa aí, às vezes, a gente sonha, né? Em alguma coisa. Porque a gente que já tem um pouco de experiência na vida, você tem sonhos que você já espera acontecer e tem outro sonho que você, eu acho que é só um sonho mesmo.
R- E tem muita coisa, muito sonho que eu sonho que eu já espero do dia de amanhã acontecer. Eu não vou dizer o que é. Mas existe, eu tenho um sonho, às vezes eu tenho um sonho que acontece para acontecer o dia de amanhã.
P/?- Falando sobre o ___ , antigamente os velhos tomavam só para momentos de cura ou ________ deles? Ou era, tipo, só mais velho que tomava ou era também para a juventude?
R- Boa pergunta. Antigamente, só quem tomava o ___ eram as pessoas mais velhas que tinham seus conhecimentos espirituais. Porque eles tomavam ____ para eles fazerem uma cura, buscar força, buscar conhecimento dos altos. Eles sempre falavam que eles tinham que buscar o poder espiritual maior. Então eles tomavam ___ para viajar. Eles tomavam ___ para descobrir que tipo de doença o paciente tinha.
R- E só tomavam ___ para quem era convidado deles, e eram as pessoas mais sagradas deles, que eles respeitavam, que tinham conhecimento da medicina.
R- Criança, nem pensar. Criança, eu me lembro, quando eu era criança, quando o tio Vicente, eles iam tomar _____ , ele dizia assim, bota os meninos para dormir, não quero ver nenhum tipo de zoada, nem coxixo, para não existir zoada, porque eles iam trabalhar, iam trabalhar numa cura.
R- E eles tomavam.
R- E todos nós, criança, eu, nós íamos deitar cedo.
R- Não era, queria brincar, mas não podia, porque ele ia trabalhar. E só eram as pessoas mais velhas. Criança, nem pensar de tomar.
R- Mulher, nem pensar de tomar o ____ . Porque diz eles, na percepção deles, no pensamento deles, o ___ tem muitas coisas ruins. Pode causar vários problemas de saúde, porque as pessoas que tomam ___ só por tomar, podem se prejudicar para o dia de amanhã.
R- Então, eles que tomavam, mas eles tinham como se fossem... Eles tomavam o ____ , mas eles tinham como se estivesse um produto, e depois de tomar o ___ , eles se banhavam para se limpar. Eles tomavam o ____ para se limpar. E tomavam e faziam outros processos para eles se limpar. Então isso, quem é que sabe fazer isso? Ninguém sabe.
R- Então por isso que eles não queriam que as crianças tomassem o _____ .
R- Não era permitido. E quem desse o ____ à criança, ele era chamado a atenção.
P/? - Outra coisa, o que você observou do passado para hoje, quando a juventude passou a tomar ____ ? E se é permitido às mulheres que quando ficam grávidas para tomar o ____ ?
R- A diferença do passado para hoje é que é exatamente isso. Acabei de fazer essa primeira pergunta, já respondi.
R- A diferença de hoje é que hoje o que eu vejo pela forma do que viveram os nossos avós, meus avós antigamente, né, de antigamente, é que pra mim hoje o ___ , ele virou uma festa, virou um carnaval, né. Simplesmente o carnaval como hoje tem o carnaval do homem branco, que vai algumas pessoas de outras cidades participarem, então do mesmo jeito.
R- Por exemplo, a vivência é isso, porque ele não vem para escutar história, ele não vem para saber de alguma coisa da sua cultura, da cultura de um povo, ele não senta.
R- Não vem pra como nós estamos aqui conversando pra saber como é que a gente vive o povo. Eles não vêm pra saber como é que é a história do povo. Eles não vêm pra saber como que se cura uma doença. Eles não vêm saber,eles vêm simplesmente pra uma festa. Porque uma vivência é assim.
R- Toma _____ passa a noite todinha bailando, aí é dia e noite bailando.
R- Nunca sentam. Não tem um planejamento de saber como é a convivência do povo, nem a convivência de um povo. Muitas das vezes, quando eles já vêm programados de lá, o que é que eles vêm fazer, não é a programação, não é a aldeia que faz não, é eles que fazem a programação. O que é que eles querem aprender a fazer é fazer rapé, e eles querem aprender a fazer ____ . São duas coisas que eles querem aprender.
R- Mas, na minha percepção, não é para eles. Eles vêm para aprender, para levar, porque hoje tem muitos que não estão mais precisando. Por exemplo, não tem mais ninguém comprando mais pulseiras aqui dos povos indígenas. Muito pouco estão comprando pulseira.
R- Porque já sabe. Tem gente hoje montando o seu terreiro, tem gente hoje montando, fazendo própria sua vivência lá fora. O Renato, quem conhece o Renato? Marido da... Ricardo. Marido da... da Renata.
R- Renato mesmo... Renato mesmo me falou assim, estou dizendo isso só pra responder a pergunta dela. Ele mesmo me disse que ele tinha vindo pra cá com o grupo só de estar trazendo, mas ele não tinha mais necessidade, que ele tinha tudo lá. Ele mesmo me disse. Eu quase mandei ele embora. Quase mesmo. E ele veio com o papai e com o tia Ná.
R- Porque lá ele tinha tudo. Ele não tinha necessidade de estar aqui comprando. Porque ele queria vender um artesanato para ele ali. Aí ele disse que não ia comprar artesanato, que tinha necessidade de comprar artesanato, porque ele tem uma loja de artesanato.
R- Então, aquilo me assustou.
R- Então, eu perguntei, então o que você veio fazer? Que necessidade tu vem vim dentro de uma terra indígena pra você dizer que você não precisa de nada daqui?
R- Então eles vêm pra isso, aprender, ir embora e fazer tudo isso que estão fazendo lá fora.
R- Porque eles não... Então, essa diferença, né, o que eu tô vendo é isso.
R- Eles não vêm aqui pra aprender a caçar. Por exemplo, nós temos muita coisa pra oferecer. Nós temos que oferecer uma comida típica nossa, uma sopa de paca, um enrolado de peixe. Nós podemos oferecer, mostrar para eles uma caçada tradicional. Nós podemos levar eles para o acampamento e lá caçar, mostrar para eles como é que a gente caça, como é que a gente vive.
R- Eles não querem saber isso, eles só querem saber tocar violão, cantar, e o dia todinho tomando ___ . E é essas as diferenças que existe.
R- _____ era proibido, eu também acho que eu respondi isso. Criança era proibido ____ , não era permitido criança e mulher _____ i.
R- E hoje não, por isso que eu digo, virou um carnaval todo mundo. E ninguém nem antes, no Nova Esperança, nós passava a noite todinho, cantando na roda. Todinho! cantando e brincando, anoitecia, amanhecia o dia, nós cantando ali, rodando, brincando, gritando. Voz das mulheres, linda, bonita, aquela beleza, sabe? Dava emoção de você assistir de você ouvir, de participar. Hoje não tem mais isso.
R- Depois passa uma meia horinha ali cantando, só disfarçando, aí pega no violão, pega no tambor. Cadê as vozes? Cadê aquelas vozes naturais? Cadê aquelas vozes tradicionais que não existem mais? O som do tambor e do violão tomaram de conta. Não tem mais aquela beleza que tinha antes. É umas músicas que elas estão sendo transformadas, inventadas, que ninguém sabe mais nem o que é, enquanto a beleza da nossa música, o som das mulheres cantando, o som da voz das mulheres, dos homens ali, elas se conectando, os dois sons. Eu estive agora no Mariri, eu me sentia assim tão mal.
R- Caixa de som, ali só uma pessoa ouvindo, só ouvindo o som da caixa de som do cara cantando lá, enquanto o resto estavam lá rodando. Ninguém nem ouvia o cântico dela, nem
ouvia o som daquela roda. Nós estávamos ouvindo o som da caixa de som debaixo do pé de Samaúma.
R- Eu me senti mal com aquilo, porque no meu tempo não era assim não. Eu brinquei muito, muito, o cara que mais brinquei nos nossos festivais, nos nossos eventos. A Erika não conheceu, não. Eu tinha um grupo pra nós brincar quando nós tínhamos festival.
R- Era uma brincadeira tão sadia. Então as mudanças, elas estão aparecendo e estão se acabando. E estão engolindo a nossa própria cultura, a nossa própria convivência, e a nossa beleza da nossa festa, da nossa música, aliás, de tudo. E se não tiver o ____ , não tem dança, não tem rodada. Por isso que eu digo, muita coisa mudou hoje. Eu sei que o som tá bonito, mas nós não podemos perder. É igual eu fazer uma casa coberta de alumínio, de telha, e dizer que eu tenho uma casa boa, mas eu tenho a minha cozinha grande, que ainda é tradicional ainda, só _______ não é tradicional, coberto com palha, onde eu escapo ali meio dia quando o sol tá quente. Eu ainda tenho um fogão pra mulher assar, cozinhar pra mim na lenha, sentir o gosto, sentir o aroma da lenha, da fumaça, de como meu pai me criou, coisa mais linda, mais bonita. E tem gente hoje dizendo, dentro do nosso povo, dizendo que não dá mais para comer com uma comida cozida com a lenha.
R- Está mudado, gente.
R- Está se mudando cada vez mais. Eu não sei se eu respondi.
P/1- O que o senhor achou de contar sua história hoje?
R- Olha, não achei porque eu pudesse contar tudo detalhe por detalhe, mas infelizmente não dá pra gente contar tudo. Mas assim, eu sou muito grato por estar aqui falando um pouco de como eu vivi no período todo esse tempo, desde quando eu nasci.
R- Felizmente a gente não pode contar tudo porque é muita coisa. Se você for contar a sua história todinha, com todos os detalhes, a gente não consegue contar em uma hora, em duas horas ou em minutos, porque é muita coisa. Mas contar um pouco da história daquilo que eu vivi, daquilo que eu vi, que continuo ainda presenciando e pensando no futuro de amanhã. Eu sei que as coisas da nossa convivência de vida não são tão fáceis, mas se expressar um pouco daquilo que eu vi quando eu Quando eu era pequeno, quando eu nasci, quando eu cresci, hoje já estou ficando velho e vendo as coisas cada vez mais, essa mudança, sem a gente poder encontrar uma solução. Mas eu acredito que essa entrevista, que essas minhas palavras, essa informação, ela pode também se tocar no coração de cada um, principalmente essa nova geração que está aí, vendo no passado e vendo no presente, hoje, o que está acontecendo, o que foi no passado e o que está acontecendo hoje no presente, e também o que pode acontecer no futuro.
R- Mas para mim, eu acho que, infelizmente, não pude detalhar, mas algumas coisas que vieram na minha mente, no meu coração, eu pude expressar aqui, nesse momento.
P/1- O senhor autoriza essa gravação para a Pesquisa Yawanawá e para o Museu da Pessoa?
R- É muito bom.
R- A gente pode autorizar, mas pedir aqui para que essa pesquisa seja autorizada, mas que todos pudessem ter acesso e também levar isso em consideração para que para essa nova geração que hoje está aí não presenciar o passado, mas estão presenciando o presente para que eles possam também repensar no futuro.
P/1- Obrigado.
P/? Pesquisa foi. Agora, só aproveitando, o senhor já está aí. Eu só queria que ele entregasse uma mensagem. Então, pensar que esse vídeo vai ser assistido daqui a 20 anos. Uma mensagem para essa geração daqui a 20 anos.
R- Deixar também aqui o meu recado de coração para essa nova geração, para a futura geração que estão vindo aí pela frente. Hoje eu estou com essa idade, uma idade jovem ainda, mas daqui 20 anos, 10, 20, 30 anos, eu já posso estar com 80 anos de idade, para que eu possa alcançar a nova geração com um futuro melhor e pedir aqui para todos, para a futura geração, para que elas possam aproveitar em todos os momentos, tudo isso que está sendo falado, para que eles possam colocar no coração, acreditar, tudo aquilo que nós vivemos, o que eu estou falando aqui é uma coisa real, que aconteceu no meu passado, tempo da seringa, quando eu nasci, quando eu me criei, e hoje eu estou aqui me expressando um pouco daquilo que eu que eu convivi, eu espero que cada um dessa geração hoje que vem aí pela frente, aproveite o máximo, escuta as pessoas que têm sua experiência de vida, que viveram no passado, e coloque isso no fundo do coração e comece a procurar, comece a pesquisar, comece a ser orientado pelas pessoas mais velhas, que tem muita coisa para ensinar, tem muita coisa para aprender. para que não venha deixar que todas essas coisas que nós estamos trazendo do mundo lá de fora possam engolir nossos costumes, nossa cultura, nossa convivência de vida.
R- Dizer para todos que valoriza sua verdadeira identidade, sua língua, nossa língua. Nossos costumes tradicionais. Então tudo isso, eu queria deixar aqui a minha mensagem, o meu recado para toda essa futura geração que está vindo pela frente, para que eles possam aproveitar o máximo e zelar pelo que nós ainda temos hoje. Que vocês possam ter tudo isso no fundo do coração de vocês e trabalhar para a outra geração que está vindo pela frente.
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