Entrevista de Shaya ( Alderina Pequena)
Entrevistada por (P/1) Jonas, (P/2) Erica, (P/4) Xinã Yura, (P/5) Rafa, (P/6) Vinnya
Projeto Conte Sua História
Entrevista Nº PCSH_HV1496
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Shaya, ia pedir pra senhora falar o seu nome completo, o local onde você nasceu, o ano.
R- Bom, meu nome na língua portuguesa é Alderina Pequena Luisa da Silva.
R- E na língua Yawanawa me chamam de Shaya. Eu amo mais esse nome, Shaya. Eu sou do povo Yawanawa. Eu nasci no Seringal Kaxinawá, que hoje me chamam de Aldeia Sagrada. Eu nasci e me criei lá.
R- E durante a minha juventude tudo foi pra lá.
R- Eu vim morar aqui na Aldeia Amparo. Então, é isso.
R- Eu nasci em 1975, hoje eu tenho 51 anos.
P/1- E você, o que você sabe sobre os seus avós, a história deles?
R- O que eu sei do meu avô, eu sei um pouco da história do meu avô, que a minha mãe sempre fala, né? E também as pessoas mais velhas, como ia lá, e demais outras pessoas, como o meu ______, falava como é que era o pai dele.
R- E meu avô era um velho, não tão velho, né?
R- Mas meu avô, ele era uma pessoa que conhecia a medicina, meu avô sabia rezar. Então, meu vô tinha um conhecimento bem amplo da nossa cultura. A minha mãe fala que meu vô não falava português.
R- Ele só falava na nossa língua, ele não falava português.
R- Ele foi um grande homem que cuidou do seu povo também. Nunca deixou o seu povo espalhado para outro lugar, mas ele sempre juntou, morava só, só no Seringal Kaxinawá. Esse é o nome que os seringalistas deram, né? Seringal Kaxinawá.
P/1- Ele já trabalhava como seringueiro?
R- O meu avô?
P/1- Sim.
R- Ele já trabalhava, já. Fazia um tempo que ele trabalhava. Minha mãe fala que eles cortavam seringa na época e tiravam o leite de _____, né, pra vender. Então, é... Eu não sei contar bem a história do meu avô. Porque eu também nunca procurei saber, né?
R- Agora, com a idade que eu tô agora, que eu tô me...
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Entrevistada por (P/1) Jonas, (P/2) Erica, (P/4) Xinã Yura, (P/5) Rafa, (P/6) Vinnya
Projeto Conte Sua História
Entrevista Nº PCSH_HV1496
Revisado por Estfani da Costa
P/1- Shaya, ia pedir pra senhora falar o seu nome completo, o local onde você nasceu, o ano.
R- Bom, meu nome na língua portuguesa é Alderina Pequena Luisa da Silva.
R- E na língua Yawanawa me chamam de Shaya. Eu amo mais esse nome, Shaya. Eu sou do povo Yawanawa. Eu nasci no Seringal Kaxinawá, que hoje me chamam de Aldeia Sagrada. Eu nasci e me criei lá.
R- E durante a minha juventude tudo foi pra lá.
R- Eu vim morar aqui na Aldeia Amparo. Então, é isso.
R- Eu nasci em 1975, hoje eu tenho 51 anos.
P/1- E você, o que você sabe sobre os seus avós, a história deles?
R- O que eu sei do meu avô, eu sei um pouco da história do meu avô, que a minha mãe sempre fala, né? E também as pessoas mais velhas, como ia lá, e demais outras pessoas, como o meu ______, falava como é que era o pai dele.
R- E meu avô era um velho, não tão velho, né?
R- Mas meu avô, ele era uma pessoa que conhecia a medicina, meu avô sabia rezar. Então, meu vô tinha um conhecimento bem amplo da nossa cultura. A minha mãe fala que meu vô não falava português.
R- Ele só falava na nossa língua, ele não falava português.
R- Ele foi um grande homem que cuidou do seu povo também. Nunca deixou o seu povo espalhado para outro lugar, mas ele sempre juntou, morava só, só no Seringal Kaxinawá. Esse é o nome que os seringalistas deram, né? Seringal Kaxinawá.
P/1- Ele já trabalhava como seringueiro?
R- O meu avô?
P/1- Sim.
R- Ele já trabalhava, já. Fazia um tempo que ele trabalhava. Minha mãe fala que eles cortavam seringa na época e tiravam o leite de _____, né, pra vender. Então, é... Eu não sei contar bem a história do meu avô. Porque eu também nunca procurei saber, né?
R- Agora, com a idade que eu tô agora, que eu tô me preocupando em procurar mais saber como é que era a vida do meu avô, da minha avó.
R- A minha avó, eu sei um pouco porque ela me criou. Na verdade, ela me criou e quando a minha avó faleceu, eu já tinha um filho.
R- Eu não era mais criança.
P/1- Como foi essa criação com a sua avó? Como é que ela fazia essa criação contigo?
R- A minha avó, ela criou cada um de nós, morando com a minha mãe. Nós morávamos na mesma casa. Ela cuidava de nós como nós fôssemos filhos dela. Não cuidava da gente como se fôssemos netos. Até porque na cultura Yawanawa hoje é assim, né? A gente criava um neto. Sempre foram assim.
R- Minha avó...
R- Minha mãe, eu, hoje estou criando meus netos. Então a gente se criou com a vovó. Eu aprendi um pouco da minha língua também convivendo com ela, porque ela não falava português. Na época minha mãe era nova, meu pai, a gente morava todo mundo junto.
P/1- Na mesma casa?
R- Na mesma casa.
R- A minha avó só chegou a se separar de nós quando ela morreu. Mas a vida toda era viver com ela. Ela cuidando de nós. Ela criou o último filho da minha mãe, que é o _______. Quando o _______ tinha um aninho, ela morreu.
P/1- Você sabe a história do seu nascimento? Como é que você nasceu? Quem que pegou você?
R- Não sei.
R- A minha história, o meu nascimento... A minha mãe conta que... Ela teve o primeiro filho, né, homem. Ela teve três filhos homens. Depois de três filhos homens, ela achava que não ia ter uma mulher. Aí ela engravidou e não sabia, porque na época não existia pré-natal, essas coisas todas, né?
R- O pré-natal que tinha na época era a erva medicinal que tinha que tomar a partir dos oito meses, pra mulher ganhar neném logo, pra não ter complicação no espaço. E quando ela engravidou de mim, aí ela descobriu que era uma mulher quando eu nasci. E foi... meu pai queria muito uma filha.
R- Então, foi quando eu nasci e ela conta que meu pai gostava tanto de mim …que ela ia fazendo resguardo, porque quando a mulher ganha neném, aí não pode comer paca, porco, até completar um mês. E ela já tinha comido. Tinha tido eu e ela já tinha comido, a partir de 15 dias.
R- Aí o meu pai não tinha comido ainda.
R- Fazendo resguardo por medo de eu ficar doente. Aí ela falou assim, eu já comi a carne, por que você não quer comer? Não, nós não podemos comer não, nossa filha está pequena ainda. Aí ela disse, ah, mas eu já comi. Por que você fez isso?
R- Você não está querendo criar nossa filha? Está com medo? Quer matar ela? Então, a minha avó que fez o parto, né, da minha mãe, quando eu nasci. A minha avó e a minha tia. A primeira irmã dela, mais velha.
P/1- Como é que é esse resguardo que você falou?
R- Resguardo que eu falo é quando a pessoa ganha neném, ela não pode comer certas comidas.
R- Como porco, paca, mandim.
R- Então não pode, porque a criança pode pegar febre, ou então ficar chorando, sentindo dor.
R- Aí tem que fazer a dieta certinha.
R- A mulher também, quando ganha neném, ela não pode estar bebendo água, tem que tomar carcinho. Então essas coisas todas, é um resguardo que nós chamamos de dieta. Para vocês é dieta, nós chamamos de resguardo. Então a dieta tem que ser até completar um mês.
P/1- Você tinha irmãos?
R- Tinha.
P/1- Quantos irmãos?
R- Antes de mim eram três irmãos.
P/1- E depois?
R- Depois de mim, minha mãe teve mais filhos. Depois de mim, foi outra minha irmã. Depois dessa minha irmã, minha mãe teve outro filho.
R- Aí, ao todo, minha mãe teve 14 filhos, de mulher, somos só três.
R- Sou eu, a Xayá, tem a _____ e tem a ____, que mora na _____ . Acabou a ______ foi embora pra lá.
R- Tá morando lá.
R- Aí, o resto foi homem.
P/1- Como era essa infância de vários irmãos? O que vocês faziam? Como era o dia-a-dia de vocês?
R- Bom, a gente, nós, os irmãos, nós trabalhávamos.
R- Minha mãe nunca deixou a gente ficar sem trabalho. A gente trabalhava…. de manhãzinha, a gente tinha que levantar, de madrugada, carregar água, ir pro roçado, pegar macaxeira. E o __________, nós gostava de bem cedinho ir pro roçado.
R- Nós ia pro roçado pegar macaxeira pra cozinhar, pra fresco. A gente ia fazer outros trabalhos. A gente nunca dormia até tarde.
R- Sempre nós tinha uma tarefa.
R- Quando a gente não podia trabalhar no roçado, nós tínhamos água pra carregar.
R- Pra levar pro roçado, pra carregar, deixar com a nossa avó em casa, pra ela fazer a comida. E... E assim, os meus irmãos, mesmo sendo pequenos, mas o meu pai levava pra caçada, pro roçado, pra ele começar a aprender a trabalhar.
R- E as mulheres tinham que ficar em casa pra lavar roupa, cozinhar.
R- Então, no trabalho, desde criança, nós começamos a trabalhar desde criança. As meninas com as mães, os homens com os pais. Então a gente nunca foi... de ficar em casa.
R- Hoje, as coisas mudaram. Quem dizia dos rapazes hoje, né? Ficou na internet tudo. A internet que a gente tinha, era o roçado.
R- Pra plantar.
R- Nessa época, quando meus irmãos tavam brocando o roçado, aí tinha que levar ________. Hoje ninguém faz mais _____ lá, mas aqui nunca faltou _______ na minha casa.
R- A minha avó e a minha mãe faziam.
R- Então nós temos assim.
R- A nossa alimentação era diferente de como é hoje.
R- A gente só comia cozido, assado, moquinhado. Além de moquinhar, a gente chama _______, a gente corta e cozinha de novo.
R- Então, desde pequeno, a nossa mãe tem repassado pra mim essas coisas.
R- E hoje eu continuo trabalhando assim. Hoje eu tô repassando pra minha filha também.
P/1- Você pode contar um pouco mais sobre essa alimentação que você falou? Todos os alimentos que vocês comiam, o que que hoje tem e na época não tinha? O que, que, na época tinha e hoje não tem mais?
R- Bom, o que não tem mais hoje são as espécies de roça que tinha, né? Que é o _____.
R- Antes nós tínhamos ______, ________, _______. Então isso tinha antes e hoje tá se acabando. E hoje nós temos pouca roça ainda, mas... Hoje as pessoas plantam mais roça pra fazer farinha.
R- Antes não, nós não tínhamos farinha. A gente comia mais macaxeira, só cozido e ralado para fazer o biju.
R- Nós que tomávamos de conta, as crianças que tomávamos de conta, vai ser formiguinha plantando.
R- Então, essa época de grande trabalho que os pais nunca deixam seus filhos em casa.
R- As crianças, o que faz o trabalho acontecer no roçado. Um carregando ______, o outro cavando, e outro fechando os buracos. E assim, a gente toda a vida plantamos muito. Roça, macaxira, a banana, cari, iuvi, puá, xiri.
R- Tudo isso a gente plantava.
R- E nessas coisas assim, como eu falo, a nossa comida é diferenciada, é falar que a gente não comia muito fritado. O nosso fritado é assado, é enrolado da carne, podia enrolar carne de paca ou de veado, de porco, mas tudo a gente fazia naturalmente.
R- E a gente não tinha muita doença como é hoje.
R- A gente tinha muito, muito doce natural. A cana, a banana.
R- Não tinha muito açúcar. Não tinha muito café. A gente não tinha essas coisas. Hoje a gente tem. Essas coisas estão presentes na nossa casa. E antes não tinha isso. Então as coisas mudaram, nossa alimentação mudou.
R- Hoje nós temos freezer para guardar a carne, conservado e tudo.
R- A conservação que nós tínhamos, a nossa frisa, era muquinhar a carne. Era muquinhar todinha e guardar.
P/2 - Explica o que é muquinhar a carne.
R- Então, muquinhar é você pegar a carne, tratar ela benzinho, né?
R- Aí você coloca, faz um giral por cima do fogo, aí vai assando devagar, não é assar queimando assim não.
R- Tem que assar devagarzinho, virando e cuidar.
R- E fazer o enrolado também da carne, que é o _____, que nós chamamos. Então, tudo isso é o que nós comíamos antes.
R- Assim que a nossa avó fazia, ela fazia tudo isso pra nós. Então, todas essas coisas eu aprendi com a minha avó.
R- E a vovó, ela repassava.
R- Ela sempre dizia, ó, tem que fazer assim. Vem aqui, eu tô cortando aqui a carne, senta aqui pra tu ver como é que é pra fazer, tu vai crescer.
R- Tu vai crescer, tu vai construir família. Aí tu vai, daqui a pouco tu não aprende essas coisas? Vão falar, ela não aprendeu nada. O que que a avó ensinou? O que, que, a mãe ensinou? Então, pra que isso não venha a acontecer, senta aqui pra tu ver o que que eu tô fazendo.
P/1- E de fruta, como era de fruta?
R- Antigamente não, já tá um pouco mudado agora, né? E antes, a fruta a gente procurava lá.
R- Porque a gente não plantava como a gente planta, assim, ó, agora aqui no meu lugar tá cheio de planta, a gente não plantava.
R- A gente ia buscar a fruta na mata mesmo, como _____ , né, _______ , né, _____.
R- _________ é uma fruta desse tamanho, bem gostosa.
R- Esse ________ , ela tem leite.
R- Quando você come demais, gruda assim, no teu beiço .
R- Por essa época, tinha muita pama.
R-Quem está procurando pama para comer?
R- De primeira, as pessoas encontraram pé de pama e convidavam…ia um monte de gente só pra comer pama.
R- E a gente comia muito.
R- Hoje ninguém tá fazendo, essa coisa tá se perdendo.
R- Quando era época de Abaiurana, onde vinha cair na Abiurana, a gente ia lá buscar, pegar pra fazer o suco.
R- Então, tudo isso a gente fazia.
R- E hoje as coisas, a gente nem procura mais as frutas, a época da fruta a gente nem tá preocupado. Por que hoje a gente não está preocupado?
R- Porque hoje tem internet.
R-Na época ninguém sabia fazer pulseiras. Vou contar aqui um exemplo pra vocês.
R- O ______ falou, né? O ________, meu primo falou.
R- De primeiro, as mulheres, a gente chamava as mulheres lá atrás da casa, dentro do mato, as meninas que a gente assobiava, as meninas olhavam, a gente chamava, as mulheres iam. Aí hoje, tu assobia, assobia, mas as mulheres não, nada.
R- Só de cabeça abaixada, olhando miçanga.
R- Então, as coisas mudaram.
R- Hoje dá pra gente namorar com as mulheres mais, não.
R- Ele falou, né? Porque de primeiro que a gente assobiava, a gente já, as mulheres olhavam logo.
R- A gente chamava, as meninas iam onde a gente tá.
R- E hoje não, você pode cansar de assobiar, você pode ficar rouco.
R- Mas as mulheres não olham pra gente mais, só de cabeça abaixada. As mulheres não ligam pra ninguém mais, as mulheres não pensam em namoro mais. Então, as coisas mudaram, né? Hoje a gente não dá nem muita atenção mais de poder sair.
R- Principalmente eu, de primeiro, gostava de trabalhar muito no roçado. Quando tinha fruta, essa época de fruta, eu chamava, convidava.
R- ________ vamos atrás de fruta.
R- Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo.
R- Hoje não.
R- Hoje apareceu a miçanga, nós aprendemos e a gente dá muita atenção.
R- Muita mesmo, às vezes você esquece até da própria casa, até de comer. Então, as coisas mudaram. Eu vejo assim, eu estava falando para as minhas mães, essas coisas tão importantes de a gente repassar para as nossas filhas, para os nossos filhos, de juntar as crianças.
R- Vamos procurar frutas.
R- Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo, vamos pescar.
R- Às vezes, ia só as mulheres pescar. machucava lá no igarapé, pegava aquece piabinha, trazia pra comer junto com os filhos. E nós fazíamos isso, as crianças não tinham tempo de pensar em fazer coisas ruins, de ser vagabundo dentro de casa.
R- Porque a gente tinha o tempo suficiente para levar os filhos pra mata, levar os filhos pra pescaria. Os homens faziam caçada de dois dias, três dias, a gente ia pra mata.
R- E hoje, tudo isso está sendo mudado.
P/1- Você podia contar uma dessas caçadas que você acompanhou, de passar dois, três dias na mata, assim?
R- Nossa, é muito bom.
R- Hoje eu sinto falta.
R- Eu falei pro ______ anteontem, eu disse, quando tudo acalmar, vamos pra caçada, inventa uma caçada pra nós passar dois, três dias. É muito bom, os homens vão pra mata, atrás das caças, a mulher fica no acampamento, aguardando.
R- Às vezes vão tirar a cipó, pra aprender a fazer o paneiro. Então, isso fazia com que os homens incentivassem o próprio filho a caçar.
R- Hoje tem jovem que não sabe nem atirar.
R- Hoje tem jovem que não sabe fazer nada.
R- Porque eles não têm culpa, quem tem culpa são os pais, são as pessoas mais velhas, que estão deixando de lado. E hoje também as mães e os pais estão dedicando mais o estudo. Estão se dedicando mais, querem que os filhos estudem muito.
R- Quando fala, ah, que não tá estudando ... ah, que não está fazendo isso…
R- Porque a visão, hoje, que eu pude observar, que muito pai quer que os filhos se formem. Quer que o filho estude, quer que o filho... seja dentista, ou enfermeiro, ou médico. O sonho dos pais é assim, mas muitas vezes dá ao contrário.
R- Tira o seu filho da aldeia, para colocar na cidade e lá não é como na aldeia. Então ele leva um rumo totalmente diferente.
R- E isso antes não era assim.
R- Os pais tinham mais tempo de levar seus filhos pra mata, pra caçar, pra pescar. Então, nessas caçadas, a gente aprendia muita coisa… lá de madrugada, a pessoa até seis horas não vai ficar dormindo. De madrugada, as pessoas acordam, vão conversar, vão contar casos, vão contar histórias. Então, a caçada, assim, no meu ponto de vista, era um momento muito especial, muito importante.
R- E as mulheres estarem ali juntas para conversar, para compartilhar um pouco de conhecimento. Uma tá ali cortando a carne, outra tá pelando alguma coisa, outra tá maquiando, fazendo giral ali, pra muquinhar. Então, a caçada faz com que a pessoa se junta em um trabalho de coletividade.
R- Passa dois, três dias, você mata a caça, você moquinha.
R- Você cuida tudo, volta pra casa, quando chegar aí você vai fazer um trabalho, ou então divide com as famílias.
R- Então, a caçada é uma coisa muito, muito especial. É uma cultura que a gente não pode deixar ela se acabar.
P/1- E quais eram os tipos de caça? E se tem caça que tinha naquela época e hoje, por exemplo, não encontra?
R- Não, continua tendo ainda. A caça que tinha é veado, é porco, é anta, é o macaco, é a queixada. Muitas vezes topa a queixada na mata, eles matam. Às vezes dá sorte, traz muita caça. Muitas vezes não dá sorte, traz pouca caça.
R- E a caçada que nossos pais faziam muito, era mais no inverno.
R- E aí, você encontra a caça, né? Fácil, e você vê o rastro pra poder rastejar e ir atrás e pegar elas. No inverno, assim, ninguém consegue matar a caça, dificilmente. Então no inverno mais é o peixe. E no inverno é a caça.
P/1- E as pescarias? Como é que acontecia a pescaria?
R- A pescaria, acontecia muito a pescaria de lago.
R- E hoje não tá acontecendo isso mais. A pescaria de lago é uma coisa também muito, muito bonita. Na pescaria é um lugar que você encontra suas famílias. Tem família que você nunca mais viu, né?
R- Passa três meses, cinco meses, até de ano você se aproximar da família. E quando faz a pescaria é convidado toda a família.
R- Toda a família. Não fica ninguém. Só não vai pra pescaria quem tá doente ou mulher ou mulher menstruada.
R- Mas na pescaria todo mundo tá presente, é um encontro familiar.
R- É uma alegria ver tua família novamente. A pessoa que você não havia dito e você tá vindo. Aí você se encontra, as famílias conversam. Às vezes tem casamento, menina começa a conhecer o primo e começa a namorar, chega até casar, ou pessoas que já namoravam sem ninguém saber, ali é feito o casamento.
R- A pescaria de lago é uma coisa muito bonita e muito importante.
R- Ali é repassado os conhecimentos.
R- Quem tem filha, os primos, o pai que ensina seu filho, vê teu tio pescando. Quem tem filha e quem é o rapaz que é primo da menina, pega o peixe e dá pro tio ou pra tia.
R- Se você pegar peixe na frente da pessoa que tem filha, dá um peixinho pra ela.
R- Ali é um momento de você ensinar, de você repassar o conhecimento, a cultura, como que tem que ser feito. Então isso é muito importante. Na pescaria, não é só uma pessoa cozinha ali pra você comer, não.
R- Cada acampamento que tem ali ao redor, todo mundo se junta pra fazer uma comida só. Uma traz uma coisa, outra outra. Junta os homens, depois junta as mulheres, as crianças, todo mundo. É muito bonito. Até hoje, essa é uma coisa que a gente não perdeu. Quando fala em pescaria, quer convidado.
R- Todas as aldeias, não fica ninguém. Convida as aldeias e vão pescar.
P/1- Você pode contar como é essa coisa da piracema? Como é que vocês identificavam?
R- A gente identificava a piracema, quando ficava subindo muito peixe, como você viu lá, né? O peixe.
R- Lá quando nós vimos ali no barranco.
R- Olha, a piracema subindo! A tia mãe disse, ah, onde que eu não tô vendo? A gente vê como se fosse um motor subindo.
R- Aquele rebolho d'água já vai subindo quando os peixes . E a gente... Pegava muito. Eu me lembro que lá no Kaxinawá, que hoje o pessoal chamava de Aldeia Sagrada, né? Mas tava subindo tanto peixe, tanto peixe que a gente pegava até com a mão, aquele bodezão grande.
R- Isso aí, mas essas coisas mudaram.
R- Também, acabou porque a gente pescou muito __ _ . Foi uma coisa que foi acabando, mas agora a gente... Um tempo aí os meninos se reuniram e falaram que ninguém queria plantar
__________ mais.
R- E foi parando, né?
R- O que hoje tá acabando com o nosso rio, que eu vejo, é o desmatamento na beira do rio. E peixe não tem nada pra comer na beira do rio. Quer cair e subir pra comer o quê, né?
R- Então tem que ter planta na beira do rio para que as plantinhas, na época que dá fruta, tem que cair dentro d'água pros peixes que... Então, hoje, o nosso próprio, o nosso povo, o povo meu, estão fazendo. Vocês viram, né? Aqui na virada do rio, muitos desmatamentos, muito raçado. E deixa o rio… sem peixe, porque só vem mesmo. Vem quase nada e subiu. Mas agora, esse ano, é o que tá dando mais ______, que vocês estão vendo. Então, antigamente tinha muito peixe, o nosso rio era fundo. E hoje tá bem rasinho. Por falta de quê? Do peixe.
P/1- E você sente que os tempos também mudaram? O tempo da piracema, o tempo das frutas, da época pra hoje?
R- Sim, mudaram. Sempre a gente via piracema mais no mês de outubro. Setembro, outubro. Mas a piracema quando dá um pouquinho de o rio que enche, né? Muito seca aí sobe a piracema.
R- Hoje não, agora. Deu tempo de eu encher um pouquinho. Aí começou a subir as piracemas.
R- Os parentes ali pra cima já estão acabando. Não dá tempo nem chegar. Aí pra poder vir a piracemas lá de cima, tem que descer pra cá pra poder pegar. Então, o tempo mudou. As frutas não estão dando frutos na estação própria.
R- Mudou o tempo, o clima. Tu vê que hoje é mais quente, antes não era assim.
R- Então, tudo mudou. Como diz o _______ no livro Costume e Tradição do Povo ________, tudo mudou, tudo tá diferente. E cada vez tá se diferenciando mais ainda.
R- Se a gente não cuidar, se a gente não começar a prevenir, né, pra que esse desmatamento pare um pouco, aí vai continuar sempre assim.
R-O rio cada vez secando.
R- E o rio Gregório é um rio que tem muito _____, muito _______. E isso, cada dia que passa, mais prejudica. Prejudica pra nós mesmos. Porque o peixe vai ficar escasso, né? Vai estar se acabando, vai parar de subir e pirar sempre.
R- Porque a gente subiu e pirou sempre pra comer o que? Não tem as plantas, não tem as frutas, e os peixes comem.
R- Então a gente, o ________ falou que vai reunir esse pessoal pra ter uma conversa com todo mundo. Não sei quando isso vai acontecer, mas a gente tá lendo, a gente tá...
R- O grupo do conselho de liderança, disse que vai reunir todo mundo. Ele quer que todo mundo tenha a sensibilidade e a conscientização da importância do nosso território. Principalmente o desmatamento da beira do rio.
R- O nosso rio pode acabar. Ele pode secar.
R- E nós somos… os culpados disso, porque a gente não está preocupado.
R- Então... Mudou muito.
P/1- E já que você tá falando de rio, é... Como era sua relação com esse rio, Gregório? Como é que era a navegação também? Como é que vocês andavam no rio?
R- Bom, até no meu conhecimento, subiam os batelões. Os batelões subiam e hoje nem um bote está podendo subir. Um bote grande de 12 metros já não consegue ir pra cima. Pode subir um bote de 9 metros, 8 metros, Então as coisas mudaram.
R- O rio tá secando.
R- Se a gente não cuidar, se a gente não se preocupar, se a gente não começar a conscientizar o nosso povo... Antes a gente tinha muito peixe no rio e o que ajuda, todo mundo fala que ajuda também o rio são as feras, né? Hoje não tem mais, jacaré mais no nosso rio. É raramente encontrar um jacaré.
R- Você encontra a jibóia ainda. E muito pouco, porque estão matando também a jibóia. Quando encontram, já vão matando. E onde tem jacaré, onde tem a cobra, o rio sempre fica cheio. Quem não vai ficar, não sei. Então, as coisas mudaram muito. A gente... O motor...
R- Nós estávamos falando um tempo desse, que o motor é o que faz muita zoada. Acho que está se espantando com os peixes do rio. Aqui no nosso rio também é que fica todado. Não é porque tá enchendo, é porque é muito motor.
R- Tem vezes, que a gente escuta passando doze barcos subindo aí direto, um atrás do outro, um atrás do outro. Como que os peixes não vão sumir? Ouvindo esses barulhos, sendo jogado óleo no motor, que eles colocam na rabeta, né, pra... pra não acabar com a murcha. E tem que descer no rio.
R- Então isso faz com que os peixes também se afastem. Então as coisas mudaram. E a gente tinha muito peixe. Até quando eu vim morar aqui, aqui na frente da minha casa, aqui do rio, aqui o rio era muito tipo um lago parado, assim. Mas, em compensação, tinha cobra. Nesse estirão aqui.
R- Tinha jacaré grande, que quase acaba com o barco de______ ________. Depois que mataram o jacaré, depois que a cobra foi embora, olha como é que ficou. Hoje as crianças atravessam de um lado para outro.
R- Ficou só aquele canalzinho de passar o barco.
R- Então, até quando eu vim morar aqui, o rio era grande. Quando deixavam o barco no porto, no outro dia tu encontrava o barco alagado. Acho que era a fera que fazia isso.
P/1- E você contou, estava contando ontem, sobre os causos do rio, de pessoas que desapareciam, de bichos que apareciam.
R- Bom, o rio era grande. Ali no sete, aquele estirão que você vê ali no sete, que é bem rasinho, que você procura canal, para subir, ali parecia um depósito nosso, tudo _________
R- Depois sumiu criança dali e acabou.
P/1- Você pode contar essa história?
R- Eu não sei contar muito bem, não, mas o menino falou que... Muita gente fala porque os __________ pegaram um boto, deram uma pisa no boto. Aí o _________do boto disse que enquanto não vingasse, ele não sairia dali. Ele tinha que fazer a vingança mesmo. E a vingança que teve, ele levou lá a criança.
R- O rapaz que tinha 12 anos, 12 anos, 10 anos, foi assim, sumiu. que ele abaixou, o outro viu ele abaixando assim pra pegar um gato e caiu. Tava caindo ali, abaixando. Aí não sei o que foi abaixando assim, aí ele só viu quando deu o rebojo.
R- Esse rebojo que ele deu levou a criança até a urna e ele nunca foi onde a criança escondeu, nem sabe onde esse menino foi. O pessoal procuraram, procuraram e nunca encontraram. Nunca viram nem ele morto.
R- Não chegaram nem a encontrar o corpo dele. Não sei o que aconteceu com as crianças.
R- E depois que essa criança sumiu dali do sete, acabou também o remanso dali. O remanso desde o porto ali, do outro rio que sobe, até lá embaixo. Então, as coisas mudaram. As feras foram embora e os rios se acabaram cada vez mais.
R- E aqui no meu porto era assim. Ninguém deixava o barco.
R- Chegava no outro dia, o barco estava alagado. Toda vez que escutava, era igual um boi berrando. Batia na água, assim, como se alguém estivesse batendo, se brincando. E hoje é todo silêncio. Hoje não faz mais nem medo mais. A gente tomava banho com canecas.
R- Com ________, né, _______?
R- Tomava banho com vaso, porque o rio aí era fundo. Porque se meu pai viu alguém sentado, meu pai descendo pra ir tomar banho, meu pai viu alguém sentado na ponta da canoa. Aí o papai olhou, olhou, meu Deus, quem que tá ali? O pai ficou olhando, olhando, olhando.
R- Quando ele olhou de novo, viu só, mandaram se mexer. Uma pessoa de cabelão, bem compridão, sentada. Aí ficou com medo. O papai falou, olha, por favor, falou pra minha mãe, minha velha, não deixe as crianças pularem na água não. Porque é que não é de brincadeira mesmo.
R- Por favor, não deixe as crianças pularem na água. Se Deus quiser pode subir criança. Hoje já vi. Já vi com os próprios olhos. Ninguém me falou. Eu vi uma pessoa sentada. E essa pessoa caiu dentro da água e saiu. Foi desse jeito. Nosso rio antes era perigoso, mas hoje não.
P/1- A primeira vez que você foi na cidade foi... Pode contar como foi?
R- Ah, eu nunca sabia o que era cidade. A primeira vez que eu fui para a cidade, eu fui mais a minha avó. A minha avó me levou. Ela era aposentada, me levou.
R- Foi nessa época.
R- Mas foi a minha avó, meu pai, meu irmão, que é o pai dele. Toda vida eles criaram o boi, né? Aí o meu irmão tinha muito boi.
R- Meu irmão, ele estava com o meu vestido. Aí ele ia vender o boi e me levou, mais ou menos. Aí cheguei lá na vila São Vicente, hoje é vila, antes não era vila. Aí ele vendeu o boi dele.
R- Foi montado no boi dele, até a cidade. Ele vendeu pra um boi bem mancinho. Aí a primeira vez eu fui.
R- Quando cheguei na vila, aí o primeiro que eu vi foi um escutei o zoado. Era carro. A minha avó dizia, escuta meu filho, daqui Nós chegamos bem lá embaixo, a um local chamado Bebedouro. Aí lá, minha avó disse, aqui não se usa carro. Aí eu disse, não quer, avó, porque é carro. Ela disse, carro?
R- Tu vai ver, não vou te explicar não, mas tu vai ver.
R- Quando nós chegamos lá, tinha um caminhão em cima da balsa. Aí ela disse, aquele lá que é carro. Aí o meu irmão chegou, aí eu disse, aí ele pediu a carona pra mim, pra minha avó e meu pai.
R- Aí eu cheguei na cidade, fiquei admirada, vendo num prédio, vendo rua. Aí eu quase me abdiquei de olhar, assim, que eu vim preocupada de cair. A minha vó riu de mim. A minha avó disse, eu nunca vi nada igual a tu, que é cair, eu disse. Admirada com as coisas. Pra mim foi uma coisa assim que...
R- Foi uma coisa que eu nunca tinha visto, né? Me dá vontade de comer só pra olhar as coisas. Minha avó levou pra loja pra comprar e eu ficava só olhando.
R- Olhando. E eu acho que eu tinha o pior, né? Dezoito anos. Primeira vez que eu fui pra cidade.
R- Já tinha ido outras vezes, mas quando eu era novinha, como minha mãe falou, né? Ela me levou lá, que eu falei que eu queria comer beiju, comer bolacha, que meu tio me deu. Aí eu tive pra... Minha mãe não queria comer beiju. Então eu conheci a bolacha, conheci o beiju, né?
R- Mas não conhecia a bolacha. Então, o meu conhecimento mesmo, primeira vez que eu fiz as casas, eu tinha dezoito anos.
P/1- Eu queria que você contasse um pouquinho mais da sua mãe, assim, como era o aprendizado que você tinha com ela, o que ela te ensinava. Como era?
R- Bom, a minha mãe, ela foi uma mãe e um pai pra nós. Porque nós toda a vida tivemos pai. Mas o meu pai nunca sentou, ele não foi um pai, assim, pra conversar com nós, bater em nós. Nunca ele foi esse tipo de pai. E a minha mãe, ela fez o papel de mãe e de pai.
R- Meu pai, como ela falou, meu pai não trabalhava, só caçava. Então, ela ensinou meus irmãos a trabalhar, minha mãe. Ela levava meus irmãos quando ele foi crescendo. A única coisa, assim, que meu pai tinha muito interesse, mas ele não fazia, e fez meus irmãos fazerem, foi passar a seringa.
R- Meus irmãos, ele, logo cedo, acho que a gente tinha uns nove anos, minha mãe disse que já começaram a cortar seringa. Tinha que cortar seringa pra poder manter a casa, né? Nós era muito. Então, meu pai ensinou logo cedo meus irmãos, que eram o Chico e o ______.
R- Nós chamava de __________
R- O Chico, o nome dele é Francisco, nós chamava de Chico. E o _____ , nós chamava de ______. Eles eram como se fossem gêmeos, os dois, aí o meu pai colocou eles para cortar seringa. E eu era para ficar em casa mesmo.
R- E quando eles foram crescendo, porque na verdade quem sustentava, fazia casa, quem fazia roçado, tudo pra nós não era meu pai, era meu tio. Meu tio que fazia isso pra nós. Tio Chicó.
R- Ele, como irmão, cuidou muito da minha mãe. E cuidava de nós também.
R- Aí, quando meus irmãos foram crescer, eles começaram a trabalhar. Meu pai não trabalhava, nós mandava. Ó, tem que fazer isso, tem que fazer aquilo. E nós trabalhávamos juntos. E a minha mãe foi uma mãe toda a vida presente. Ela ensinou meus irmãos a brocar.
R- Ela ensinou meus irmãos a derrubar palmo no roçado.
R- Ela ensinou meus irmãos a plantar.
R- Porque o trabalho do meu pai era caçar.
R- Meu pai caçava pro patrão, pra poder comprar um sal pra nós. Comprar umas frutas , essas coisas. Então, o trabalho do meu pai era caçada.
R- Meu pai foi o homem mais caçador, acho que _______________ no Rio Gregório. Meu pai matava anta como se fosse matar um porco, matar um veado. O meu pai criou nós como se fôssemos de onça, só vivia de caça. Ele matava a caça e vendia pros patrões. E nunca faltou caça dentro de casa, porque ele caçava.
R- Ele caçava hoje e passava dois dias sem caçar, não. Era todo dia, todo dia meu pai caçava. E todo dia que ele ia, nunca chegava sem nada. Ele matava uma anta, quando o pessoal ia buscar, ele ia mostrar, né? Onde ele tinha matado. O pessoal trazia e ele ia mostrar.
R- No que ele ia mostrar lá, matava outro e o pessoal ia buscar no outro dia de novo. Parecia brincadeira, meu pai. A história do meu pai foi isso. Foi um grande caçador. Um grande caçador mesmo. Então, por ele fazer isso, ele não tinha tempo de trabalhar na roça.
R- Então, quem começou a trabalhar, quando meus irmãos começaram a crescer, e a minha mãe disse que ela não ia pedir pra dar de comer nós. Então ela começou a trabalhar. Antes dos meus irmãos crescerem, ela mesma arrancava os ______ de banana, levava pro roçado, plantava. Só ela mais minha avó.
R- Aí meus irmãos foram crescendo.
R- Quando meus irmãos começaram a crescer, eles começaram a trabalhar. Eles davam conta de casa. E quando eu fui crescendo também, eu não trabalhava só em casa. Eu trabalhava no roçado junto com a minha mãe.
R- Nós limpamos a roçada, nós plantávamos tinguim, nós plantávamos a cana, nós plantávamos a banana, plantávamos debaixo da roça. Nós fazíamos isso. Eu junto com a minha mãe. E junto com meus irmãos. E aí meus irmãos foram crescendo. E a minha mãe incentivou.
R- Ó, vamos trabalhar, já tão grande, hoje não precisa tá trabalhando e tá pedindo pra dar de comer vocês. Vocês têm que dar, dar quantidade de trabalho. Porque o pai não faz, mas vocês fazem. Então, assim ela criou cada um de nós. E por isso, nós também nunca nos separamos. Mas sempre morávamos juntos, na mesma casa.
R- Aí o meu irmão, que é o pai do _______, casou com a mãe dele. Aí fui morar com o tio dele. Aí ela ficou com outro meu irmão. Aí esse outro meu irmão também casou com a filha dele, né? Aí ele foi morar com o sogro dele.
R- Aí ficou só eu e o Vinnya.
R- O Vinnya, logo cedo, a vovó entregou ele pro ____ . O ______morava no Rio Branco na época, levou o Vinnya para estudar. Quando o Vinnya estava estudando por lá, aí com pouco tempo, O ________ também me levou, mas eu fiquei pouco tempo, eu tinha 10 anos quando eu fui morar com o ________.
R- Eu tinha 10 anos, eu morei em Rio Branco.
P/1- Como foi esse período pra você?
R- Em Rio Branco?
P/1- É.
R- Pra mim foi difícil, porque eu era muito criança, né? E eu não saía, eu fui pra estudar, mas aí ele tinha uma esposa, ele tinha a esposa dele, e a esposa dele não tratava a gente muito bem. A gente sofreu muito também, _________.
R- Porque o ________ era uma pessoa que trabalhava na época, o ________ trabalhava na FUNAI. E ele levou a gente pra morar com ele, pra dar o estudo pra nós. Mas ele não vivia em casa. Ele tinha que trabalhar para sustentar a casa. Porque a gente ficava com a esposa dele.
R- Nós sofremos muito eu mais Vinnya para poder estudar.
R- Para hoje a gente tá contando a nossa história. Aí eu fui com 10 anos, com 14 anos eu vim embora. Eu vim passar férias. E... E eu não voltei mais. Eu não quis voltar mais nem. Eu tava grande já. Aí meu irmão também queria que eu casasse.
R- Eu casei com 14 anos.
P/1-Antes de contar do seu casamento, será que você podia contar a sua primeira menstruação? Como foi? Teve resguardo?
R- A quê?
P/1- A sua primeira menstruação.
R- A minha primeira menstruação eu não tive junto da minha mãe. Eu morava com o _________. Eu morava com a esposa dele, e ela nem ligou pra mim.
R- Por isso que eu vim embora. Foi na minha primeira menstruação. Cheguei para _____ da minha mãe.
R- Aí a minha mãe mandou, na segunda menstruação, a minha mãe mandou tirar a folha pra mim. Ela tinha que fazer tudo na dieta.
R- E eu logo cedo saí de casa. Aí depois, com 14 anos eu voltei e eu não fui mais, nada a fazer mais não.
R- O Vinnya deu continuidade…
R- Vinnya morou com ele até, acho que até 18, 20 anos.
P/1- E a dieta da menstruação era como?
R- Ela mandou tirar a folha pra mim, né? Aí durante a menstruação eu tava tomando um chá e também eu não comia, bebia água e não comia _______ grande. E eu fiquei um mês em dieta.
R- Sem beber água, só tomando ____ , tomando chá da folha e sem comer doce, sem comer caça grande, só com um boletimzinho ou um ______ , até completar um mês. Minha mãe fez isso comigo.
P/1- E o casamento? Como é a história do seu casamento?
R- A história do meu casamento não foi porque eu era danada que eu quis casar, não. Foi o meu irmão, o negro. O negro que anunciou o casamento pra mim. Aí, ele e o ________ . Eles falaram que era pra mim. Porque, na realidade, a família é bem pobrezinha, bem humilde.
R- Todo mundo olhava pra gente que era bem daquela... como o pessoal chama, da... bem humildezinha, a gente não tinha nada, na época. Tudo criança, tudo crescendo, querendo ter as coisas. Aí meu irmão falou. Aí ele veio caçar uma vez, né? Aí viu o primo trabalhando. Ele disse que quando ele passou, estava trovejando.
R- Aí viu... nosso primo trabalhando sozinho. E a mulher dele tinha mãe, tinha avó.
R- Era junto com a_____ . Aí a mãe dela tomou o vento. Aí eles vivem trabalhando. Quando chegou ele disse, quando eu passei lá no... Lá Nova Esperança, que é hoje, né? Tava abrindo
R- Estava abrindo lá… e disse que também passou o viu. Aí ele disse assim, eu vi meu primo lá sozinho, trovejando, trabalhando. plantando banana sozinho. E eu pensei, eu sei muitas coisas que ele pode nos ajudar. Eu pensei em ajudar ele pra ele ajudar a gente. Aí a minha mãe perguntou.
R- Aí eu pensei de dar a _____ para ele.
R- Pra ele poder nos ajudar, porque o Raimundo, ele vai nos ajudar nós. Aí ele falou comigo, né? Disse, eu vou falar com ele. Mas acho que ele já tinha falado, né? Que quando ele vinha pedir, eu pedia que sim. Mas dizia que não, não, ele disse.
R- Eu disse, ah, mas eu não quero, não.
R- Eu falei pra ele, não, eu pedi que sim. Aí, quando o rapaz foi lá, ele pediu. Eu falei que sim, que eu queria. E a minha mãe estava grávida do meu irmão, desse meu irmão caçula, o ______.
R- Minha mãe tava com um _______, aí ele me pediu. Aí eu disse que eu queria.
R- Acho que é porque eu não pensava direito. Aí ele me trouxe. A minha mãe chorou. Minha mãe não queria que eu me juntasse. Aí eu me juntei e saí de casa. Ela disse, ó, tá fazendo o que foi feito, vai sofrer. Você vai se arrepender por me abandonar. Aí assim mesmo me juntei e fui embora.
R- Deixei ela sozinha. Aí eu fiquei com ele e tive meu filho com 15 anos. Aí, quando eu completei 15 anos, eu fui deixando o meu menino. Aí, com 15 anos mesmo, eu não aguentei, eu me separei.
R- Ele me judiava também, me batia muito.
R- Era muito mulherengo, que não aguentava. Eu apanhava muito dele aí.
R- Nós chegamos a separar. Aí, pronto, eu não queria mais me casar mais. Aí, eu fiquei até 22 anos solteira .
R- Aí que eu achei o _____ , me casei dele, estou com ele até hoje.
P/1- Como foi que se deu essa junção de vocês dois? Como vocês se conheceram?
R- A gente se conheceu porque a gente era muito danada.
R- A gente se conheceu, nem eu nem me lembro mais como é que a gente se conheceu, eu mais ______ . Eu era nova na época. E ele também era novo na época. Não tinha... Na verdade, ele tinha uma família, né?
R- E eu não, eu era solteira. Eu morava com o meu irmão, com _____________. Desde então, eu me juntei, me separei, e ele nunca me abandonou, ____________ . Me trouxe de volta pra morar com ele. Aí eu ajudei a cuidar do menino dele, aquele Dionísio.
R- Dionisio eu cuidei desde que nasceu, até os seis anos.
R- Seis anos, quando eu me juntei com o ______ , eu abandonei o Dionísio. Eu criei o filho de________ . Eu criei porque eu tinha o filho dele. E quando eu achei o Rurá... O Rurá foi um... Foi sem pensar mesmo. Eu não queria ele não, mas acabei casando com ele.
Eu sempre falava que eu não queria envolver ele com a família dele. Mas acho que a pessoa que você tem mais raiva, você um dia fica com ele. Acho que a minha vida foi assim, com o _ _____. Aí ele falou assim, agora tu tem raiva de mim? Eu disse, não, agora eu tenho.
R- Pois é, e eu via ele viver com a família dele, com a outra esposa que ele tinha. Mas ele disse que o sonho dele era um dia viver comigo. Não sei por que ele não queria. Porque, na verdade, eu nunca fui uma mulher que vivia escondida. Eu aprendi a viver. Hoje eu converso, faço tudo.
R- Não é igual a gente falar com ninguém. E na época também eu trabalhava como agente de saúde. Durante a minha vida eu nunca dependi dos meus pais.
R- Coloquei pra trabalhar mesmo.
R- Pra poder sobreviver, dar o que meu filho precisasse.
R- Eu trabalhava como agente de saúde. Trabalhei por nove anos.
R- Eu desisti, passei pra escola. E continuo até hoje na escola. Não foi uma coisa assim que eu tive que ajudar meus pais. E o Vinnya também, estudando fora pra poder se formar. O Vinnya com 22 anos, ele foi embora. Voltou pra trabalhar na escola também, né? E hoje tá aí.
P/1- E como você começou a ser agente de saúde? Também contar as causas, as histórias que você vivenciou?
R- Eu comecei a ser agente de saúde porque não tinha gente pra trabalhar. Na época, essa era a Mariazinha, a Nany, que morava _____ . Só ela que trabalhava como agente de saúde. É por essa época, eu acho. A gente ia mariscar o lago, aí aconteceu lá um problema que... O rapaz forou o ___ , né?
R- Aí ela tava sozinha. Aí ela disse assim... O rapaz tava desmaiado, ela disse... Negona, vem me ajudar aqui. Por favor, vamos me ajudar aqui. Vamos... Eu vou te ensinar como é que faz. Ela disse. Eu tô sozinha, ninguém tem interesse. Vamos me ajudar, ela disse. Então tá bom.
R- Na época eu era nova, ela tinha muita força de poder trabalhar. Aí ela disse... Aí ela levou o rapaz, né? Ele pegou um corte assim, colocou aqui e outro assim na bunda dele, que tinha furado. Aí ele perdendo tanto sangue assim que ele desmaiou. Aí eu comecei a cuidar mais dela.
R- Ela disse, bora fazer a sutura? Ela disse, bora. Ela disse, tu que vai fazer.
R- Primeiro trabalho que eu fiz. Tu que vai fazer a sutura. Eu vou só te ensinar e olhar. Ela achava que eu não tinha coragem. Eu fiz a sutura do rapaz. Eu fiz a cintura do braço, daqui, assim. Nós duas levamos ele desmaiado.
R- Trocamos ele, trocamos a roupa dele e começamos a cuidar. E eu gostava muito. Minha nossa senhora! É um trabalho que eu sempre sonhava. Um dia eu vou me formar em técnica de enfermagem. Meu maior sonho era trabalhar com a Agência de Saúde. E eu trabalhava. E eu fazia... E nossa, hoje...
R- Porque eu desisti, mas eu fazia a estrutura, aplicava soro, remédio, tudo, tudo eu fazia. Tudo. E até hoje eu faço. Quando não têm a Agência de Saúde aqui, eu que comando. Eu fazia uma estrutura muito boa.
P/1- Qual foi o caso mais grave que você já pegou?
R- Quando foi pra mim fazer a cintura do rapaz que tava cortado. E era a primeira vez? E era a primeira vez. Nunca tinha pegado uma pinça. Quando a minha prima disse, você vai fazer a cintura. Eu disse, pô, eu vou fazer. Até a agulha aqui, eu achava que era pra fazer com agulha de costura.
R- Aí ela disse, não, passa. Ela só deu o primeiro ponto. Ela disse, agora é contigo. Nem tinha luva, nem nada, a barca ia sair. E eu fiz. Daí pronto. Aí eu não perdi mais o ritmo. Aí eu fui fazer curso em Rio Branco, fui fazer curso lá no _____ . Na época era aquela organização chamada UNI.
R- UNI… União das Nações Unidas. Acho que era assim.
R- Isso aí, eu fiz um curso por eles.
R- Me convidaram, convidaram Mariazinha, né? Aí ela disse que, não, ela te coloquei, eu vou te mandar. Aí ela me mandou. Qualquer curso que tinha, ela me mandava. Qualquer curso que tinha, ela me mandava.
R- Porque ela via que eu tinha interesse também, né? Aí ela... Aí eu fui trabalhando, trabalhando, e eu... E eu nunca perdi pra ninguém, não. E quando eu via um corte assim, nossa, eu achava tão bom. Uma parte do corpo assim que eu achei mais difícil também de poder fazer a sutura, foi a cabeça.
R- Que é uma pele muito dura. Dura, dura mesmo. Então... E da gravidez também, eu fiz vários partos. O parto mais difícil, meu Deus do céu, que hoje eu pensei que eu nunca sabia fazer, eu fiz. Foi tirar uma criança. Eu tirei a criança assim, tirando o braço, tirando as pernas.
R- Deixei só o tronco mesmo da criança. A minha tia, que era acostumada de fazer o parto, que era a _____, e a Helena. A Helena é parteira _____ . A Helena nunca teve coragem, não. Eles estavam fumando. Eu nunca fumei, na verdade. Nunca, não sei, nem gosto de tem … .
R- Uma vez eu fiquei bêbada com um cigarro. Aí a minha tia pegou, começou a fumar e tinha uma mulher que morava na América. Ela estava grávida lá, começou a sentir dor. Aí só saiu o braço da criança.
R- Aí trouxeram.
R- A _____ mandou buscar, né? Até resto de Natal. Acho que esse ano vai ser de quantos anos?
R- Aí mandaram buscar a menina. Aí quando chegou, a minha tia me chamou porque era de saúde, né? Aí a minha prima também disse, vai lá.
R- Aí eu fui. Era na minha casa ainda mais. Lá onde mora o Sarará. Aí levaram ela pra minha casa, deixaram ela lá. Aí a Helena e a minha tia Ciria, chamava ela de Ciria.
R- Aí ela foi…. Mnasou eu me chamar, eu fui. Aí a tia disse, ela disse, minha filha, E o braço da criança estava preto, preto já. Tava com um dia que tava só sem o braço. Aí, a minha tia chamou a Helena. Helena, minha____ , minha agente de saúde. Venha aqui, eu quero ver aqui como é que tu vai fazer.
R- A Helena disse. A Helena foi lá e disse ´´ ah não tenho coragem não``.
R- Aí ela disse ´´ Alderina vem aqui, vem aqui´´ . Eu disse oi, tia. Tem coragem? Tenho. Ela pegou um gilete, novinho o gilete. Puxei o braço da criança e tirei. Aí eu virei a criança. Aí eu puxei a criança.
R- O momento mais difícil, difícil mesmo na minha vida foi fazer essa parte. Ela estava sentindo dor. Que dor, negócio? Espera aí que eu vou buscar o remédio. Eu fui lá, peguei o remédio e dei pra ela. Ela disse, não, maninha, tô com dor, tô com dor, acho que eu vou ganhar neném, ela disse. A Zelinha.
R- Ela disse, acho que eu vou ganhar neném, negona. Né, tô com diarreia não, tu me deu remédio, não tô com diarreia não. Eu disse, agora pronto. E agora, como é que nós vamos fazer? Aí, como é que nós vamos fazer?
R- Ela te deu remédio, você não tá com dor, agora eu vou ter que esperar tu ganhar neném agora. Aí eu peguei uma corda, joguei assim, amarrei, joguei e mandei ela segurar. Eu seguro, tu faz força. Não tem ninguém pra te ajudar. Eu vou poder te ajudar a amarrar aí como é que vai pegar a criança. Aí eu amarrei a corda, joguei, amarrei e mandei ela segurar com a força. Ensinei pra ela como é feito. Aí eu fiz, eu apertei ela assim. Aí eu disse, bota força que eu vou te ajudar. Apertando devagar assim por trás, segurei ela assim. Aí a criança nasceu, caiu no chão mesmo.
R- Aí eu deitei ela, aí eu fui cuidar da criança. Eu nunca tinha cortado o umbigo de criança. Eu disse, como é que faz? Aí eu me lembrei que eu vi a minha avó fazendo os quartos.
R- Criança, né, curiosa, eu olhei assim de novo e vi a minha avó fazendo os quartos.
R- Aí eu fui lá, via minha avó, escutei a minha avó, eu mede assim, em quarto dedo, do umbigo, aí tu amarra, amarra com a linha.
R- Aí, do jeito que eu escutei minha vó falando, eu fiz. Aí eu cortei com tesouro. Eu limpei a criança, deitei. Não teve nenhum problema. Nada não. O primeiro parto que eu fiz.
R- Aí o parto mais difícil, difícil mesmo, foi o da situação mulher. Nós tiramos a criança. Mas, infelizmente, ela não resistiu. Nós tiramos a criança às cinco da tarde. Quando foi oito da noite, ela morreu. Eu fiquei triste, cara. Muito triste mesmo. Ela é uma pessoa boazinha, assim, se acabando.
R- Esse foi triste, triste, foi o momento mais difícil da minha vida. Todo trabalho como agente de saúde que eu fiz, quando eu vi essa mulher se acabando. Ela pedindo socorro, me ajudando.
R- Ela dizendo pro marido dela assim, tu nunca abandona as nossas filhas, tu cuida das nossas filhas, porque eu não vou estar contigo mais. Desse jeito. Aquilo me deixou tão triste assim, eu vê-la. Ela pegou na mão do marido dela assim, ela disse, ___ banho, Zé. Ela disse,______
R- O marido dela disse, _____ que não pode aguentar não. Aí quando a sogra dela viu que ela tava se acabando, ela correu lá, e colocou a vela assim na mão dela, ela fechou o olho.
P/3- Isso foi na Aldeia Nova Esperança?
R- Foi na Aldeia Nova Esperança. Na Aldeia Nova Esperança. Aconteceu isso.
P/1- E a senhora pode contar um pouquinho dos seus partos? Dos filhos que você teve, como é que foi?
R- Eu tive um filho só. E esse filho que eu tive, eu tive na aldeia, não, eu tive na cidade. Porque a minha primeira gravidez, eu abortei com cinco meses. Eu fui pro Roçada arrancar macaxeira lá, eu caí. Abortei com cinco meses.
R- Aí eu engravidei desse meu menino aí com quatro meses, eu ia abortando de novo. Aí me levaram pra cidade. Aí o médico disse que minha gravidez era de risco. Eu não podia vir pra aldeia. Eu tinha que ser acompanhada pelo médico até eu ganhar meu menino. Porque qualquer coisinha eu já queria abortar.
R- Qualquer coisinha, qualquer esforço que eu fizesse, já estava sangrando. Aí o médico disse que a minha gravidez era de risco. Aí fez eu ficar na cidade até eu ganhar meu menino. E eu sofri na cidade, não é como na aldeia, que alguém pode te visitar, te ajudar, fazer alguma coisa.
R- Só com a parteira no hospital. Minha mãe não podia ir lá não visitar. E eu passei dois dias sofrendo. Quase não tinha meu filho. 15 anos, né? Minha mãe já tava... Tinha 15 anos, quando tinha meu irmão. E foi isso.
P/1- Você estava contando que ele também fez uma faculdade, né? Fez uma formação.
R- Fiz.
P/1- Como é que foi isso?
R- Bom, a faculdade para mim foi uma experiência muito boa. Eu, quando eu falei que ia para a faculdade, na verdade eu estava terminando meu magistério, na Comissão Pró Índio. A Comissão Pró Índio foi um órgão que formou muitos professores.
R- E, em compensação, a Comissão Pró Índio, além de formar os professores, fez com que a gente pudesse nunca perder nossa cultura. A gente fortalece. Ela não foi um órgão que fez com que a gente esquecesse aquilo que nós somos.
R- Não desvalorizar a nossa cultura, mas valorizar e fortalecer cada vez mais. Quando eu entrei pra escola foi em 98. Na primeira vez que eu fui pra escola, nunca tinha dado aula. Fui trabalhar com jovens e adultos. E era um programa chamado Eja. Eu fui trabalhar com eles.
R- O Vinnya tinha vindo de Rio Grande para trabalhar na coordenação. Na época, existia a Escola João de Souza Carioca, mas só era o nome. Não tinha prédio, não tinha aluno, não tinha nada. Só o nome. E o professor era ____ .
R- Então, quando o Vinnya veio, foi com uma coisa assim que o Vinnya descobriu tudo que estava debaixo de uma lona. Quando o Vinnya trouxe o _____ pra trabalhar, trouxe o ______ pra trabalhar, trouxe a _____ pra trabalhar. Esse era o professor que o Vinnya colocou junto com ele.
R- E quando teve esse programa Eja, aí o Vinnya disse... Aí eu também briguei com o meu colega de trabalho na saúde, né? Porque nós era... nós era junto, eu e Antônia. Aí ele queria mandar em mim. Eu já tinha casado com o Rurá. O Rurá estava doente. Aí eu demorei em chegar lá no trabalho.
R- Aí quando eu cheguei, ele gritou comigo. Aí eu falei pra ele que ele não era meu pai. Aí a gente teve uma discussão e ele disse, a partir de hoje, nunca mais eu piso aqui mais. Para trabalhar com você, não. Eu posso voltar a trabalhar se um dia você sair. Porque olhar pra tua cara, nunca mais.
R- E eu compri.
R- Aí eu tinha saído já da saúde, aí o Vinnya disse, olha... Aí eu queria que tu trabalhasse. Eu disse, em quê? Na escola. Porque não tem professora. Professora só tem a Júlia. E de professora tem o ____ , tem o ____ , e tem eu. Que tal tu trabalhar? Tu é tão inteligente, irmã.
R- Eu vejo que você é capaz de poder trabalhar. Eu queria te convidar, ele disse. Eu disse, tá, eu aceito então. Aí eu fui. Aí ele me levou pra Taraucá. Lá eu participei de um curso, uma semana. Aí eu comecei a trabalhar na educação. Eu fui gostando devagar mesmo.
R- E até chegar a fazer a minha faculdade. Então aí, quando eu fui fazer a faculdade, foi uma experiência muito bom. Eu achava que eu ia estudar outra coisa. Mas quando eu cheguei na faculdade, quando eu fiz a minha inscrição, quando eu fui ver, o trabalho que era pra mim fazer foi diferente.
R- Coisa que eu não dava valor, eu fui passar a valorizar. Foi a minha cultura, foi o meu costume, foi a minha língua. Então, a faculdade foi com que eu caísse para trás e dizia assim, você já sabe o teu mundo? Você conhece? Se você não conhece, você vai passar a conhecer. Então, eu me esforcei muito.
R- Eu fui fazer pesquisa sobre culinária, coisa que eu nunca pensei de fazer. Na minha formação, para conclusão do meu curso, eu tive que correr atrás. Da minha mãe, eu tive que correr atrás da ______ , que ela se acabou. Eu tive que fazer uma pesquisa com ela.
R- Eu procurei o ____ eu procurei o vovô João, Eu procurei a minha mãe, que eu não valorizava ela, não sentava, não perguntava pra ela. Mas a partir daquele momento, eu fui ver a importância que tem. Como os outros rapazes, como o Máximo. Ele disse que... Ele falou pra mim.
R- Quando você me dava aula, você dizia, gente, você tá na faculdade, você vai estudar a sua cultura. Você vai procurar entender a sua verdadeira identidade. Tudo que você falava pra mim, tia, hoje tá caindo pra cima de mim. Hoje eu tô vendo que isso é verdade.
R- Eu fui pra faculdade estudar o mundo de fora, mas eu tô estudando o meu mundo. Estudando a minha cultura, estou estudando a história do meu avô, estou estudando a história do meu pai. Coisa que eu nunca valorizei.
R- Então, a faculdade, desde a comissão Pró índio, foi quando eu fui começar a entender, a valorizar o mundo do costume Yawanawa . Porque até aí eu não pensava. Porque eu soube que eu participava pelo município, pelo estado, mas... Outra coisa, até em 2000 eu fiz o curso da Secretaria de Educação.
R- Em 2001 não fui mais. A Secretaria selecionou vários professores para fazer a formação na Comissão Pró Índio. A Comissão Pró Índio fez com que nós enxergássemos o quanto é importante a nossa cultura, a nossa história, o nosso valor.
R- Ela fez com que a gente já começasse a abrir os olhos e até terminar a faculdade valorizando aquilo que nós realmente somos. Quem somos nós? Por quê? Porque a gente... Eles fizeram com que... Acho que mesmo o professor da Comissão Pró Índio, acho que passaram para a faculdade também.
R- Então, foi muito importante, muito valioso eu poder estudar culinária. E hoje eu repasso para os meus alunos também. Eu disse, gente, valoriza os pais de vocês que têm o conhecimento. Porque eles são biblioteca viva. E pode repassar o conhecimento que vocês não têm ainda. Então vamos valorizar, vamos buscar. Vamos buscar mais um pouco do conhecimento que temos dos nossos velhos. Porque eles são muito importantes. O conhecimento que ele tem e você não tem e eu não tenho. Então vamos correr atrás.
R- Para a gente ter esse conhecimento, para a gente passar para a nova geração, para a gente colocar em registro, para que quando eu não tiver, o meu neto lê o que a Shaya fez, o que a Shaya valorizou. Então, isso é importante, muito importante. Eu fiz essa conclusão do meu magistério indígena.
R- E hoje eu sou muito feliz de poder ter, porque eu não pensava que eu ia estudar um dia a minha cultura, o meu valor, Os valores que a gente tem. Então, isso foi muito rico. E a gente poder... Quando a gente entrou na faculdade, a gente foi muito discriminado. Tinha um colega que batia [ imitando macaco} ______ igual macaco. Foi... Muitas... Tivemos um impacto bem forte, com os jovens da faculdade que são ____ . Há algum tempo, eles já procuraram a gente para pedir desculpas.
R- Já querendo conhecer quem era nós, como eles queriam pesquisar a cultura de um povo, se eles estavam desvalorizando a gente que tá na faculdade, junto com eles . Então, foi uma coisa assim tão forte que às vezes eu penso.
R- A minha sobrinha, a Edna, ela era briguenta com esses pessoal que fazia isso com a gente. Depois de dois anos, eles já foram se aproximando de nós. Foram pedindo desculpa. Uns já foram querer pesquisar a gente.
R- Aí a gente recusou. Mas a gente terminou. E no final, a gente já era amigos.
R- Estavam começando a trabalhar com a gente, fazendo a pesquisa.
P/1- Você disse que estava pesquisando a alimentação de Yawanawa, né? O que você descobriu nessa pesquisa, que você não sabia antes?
R- Eu descobri muitas coisas novas. Como era a nossa comida bem no passado. Como fazer ____ com umas lagartinhas bem gostosas.
R- Aneti. Não sei se vocês conhecem.
R- Aneti, uma vez, fez o ____ . E eu mais mariazinha,, danada, nós fomos roubar a comida da Aneti.
R- Quando nós chegamos lá, nós estávamos com fome, gente nova não procurava fazer comida, só quer comer e tu tá pronto.
R- Aí nós vimos a Aneti danadinha fazendo. Aí eu estudei isso aí. Quando chegou na hora, eu fui ver, ela estava fazendo lá o mingau, moru, quer dizer. Não era mingau, era moru.
R- É a macaxeira ralada. Você deixa três dias aí, você vai misturar com caldo de peixe.
R- É muito gostoso, minha nossa senhora.
R- Chega da água da boca.
R- Aí quando eu fui ver, na pesquisa que eu fiz, que tinha que fazer uma comida, é tirar uma lagarta do pé de árvore, e você cozinhar ou então torrar.
R- E eu só ouvia na história. Aí, isso aí me impressionou muito, né? Aí quando eu fui lá na Aneti, ela estava fazendo essa comida.
R- E eu pude ver.
R- Isso aí me trouxe muito assim, dizia assim, será que eu como? Será que eu não como? Porque eu já tinha visto na história.
R- Na história não, na verdade o que tem.
R- Aí, e outra coisa também, que eu pude observar que é uma comida que eu queria experimentar, mas não tinha experimentado, é você colocar o milho ralado pra eles criarem aquela lagartinha e você depois comer ela.
R- Colocar no milho ralado para fazer a pamonha.
R- Essa aí eu nunca vi. Essa é uma coisa que eu não sabia também. Na pesquisa que eu fiz, eu descobri isso aí.
R- Que deixa, tipo assim, uma água pra crescer a lagarta, aí depois você pega ela e faz a palmonha com ela. Essa aí eu queria um dia experimentar, mas não cheguei a ver, não.
R- Só mesmo na pesquisa que eu fiz.
P/1- O que mais você descobriu?
R- Ai, _______ , muita coisa importante.
R- Muita, muita coisa.
R- Você for pesquisar, conversar com a Aneti, você encontra muita coisa que você nunca nem sonhou. Quantos conhecimentos ela tem. A dona nega também tinha, podia passar essas coisas.
R- Então, isso aí.
R- Você cria uma lagarta para depois colocar na comida e comer. Isso aí me impressionou muito. Eu queria experimentar um dia. Mas as pessoas com desconhecimento já não estão mais comendo.
P/4- A senhora sendo professora, a gente tem só uma forma de falar no ______ ?
R- Como assim, Xinã?
P/4- Uma linguagem que é Yawanawá, ela tem essa mistura de... do _____ .
R- Meu filho, ser professora e dar aula em sala de aula, a gente... Eu como professora já tenho várias experiências de poder trabalhar com um aluno que não entende a sua própria língua, que é a língua Yawanawá.
R- Então, a gente, como professora, a gente tem que dar o máximo da gente pra poder fazer essa criança entender. Porque hoje, na nossa escola, os pais só pegam as crianças e jogam lá. A responsabilidade é do professor. O que eu tenho falado? A melhor escola que tem é essa na casa dos pais.
R- A escola só é pra dar uma complementação. A melhor escola é a casa dos pais, que vivem toda hora, todo tempo com seus filhos. A nossa língua pode ser fortalecida a partir do momento que os pais tiverem consciência de ensinar, de repassar para os seus filhos.
R- Porque na escola eu falo a língua portuguesa e falo na nossa língua também. Eu pergunto para eles se eles estão entendendo, se não estão. Eu não sou professora de língua, mas eu faço esse papel. Às vezes eu pergunto, vocês estão entendendo o que eu estou falando? Não. Eu trabalho com geografia.
R- A geografia para mim é um papel muito importante. De eu poder não trabalhar a geografia do outro mundo, mas trabalhar a geografia da minha terra indígena. Do pouco conhecimento que eu tenho, fazer as crianças observarem o que está sendo mudado na nossa terra. O que precisa ser fortalecido?
R- E dentro, a língua. Nós trabalhamos equilibrados. Todo mundo, todo professor nessa escola em ______ , ele tem que trabalhar as duas línguas.
R- Todos.
R- Seja qualquer matéria que for. Mas nós temos que trabalhar. Nós não podemos só colocar a língua portuguesa e deixar a língua Yawanawá de lado, .
R- Nós estamos vivendo os dois mundos. Então é importante que o professor possa colocar isso para os seus alunos e fazer com que os alunos entendam. Porque já chegou o pai nessas escolas assim, eu estou colocando o meu filho para estudar, não para estudar a língua. Chegou gente a dizer isso para mim.
R- Quando eu tive que deparar, dizer assim, gente, não é assim. Você vai também partir com a agressão não, né? Você tem que ter a forma de conversar. Você tem que ter a forma de fazer o pai entender. A importância. Por que hoje nós somos Yawanawá ?
R- Por que nós temos que fortalecer a nossa identidade, a nossa língua, a importância que ela tem? Eu falo assim para os meus alunos e para os pais. A nossa língua tem o mesmo valor que a língua portuguesa. A diferença é que a nossa língua não está escrita, ela está na oralidade.
R- Ela é repassada, sim, oralmente.
R- E a língua do ________ é a escrita. Ela já tem vários documentos, vários registros. E hoje nós não temos isso. Eu sempre falo para os meus alunos. Então, gente, a dificuldade, o mesmo valor que essa língua portuguesa tem, a nossa língua tem.
R- Ela tem o mesmo material que essa outra língua tem, a nossa também tem. Agora, só que ela não está em registro. A gente tem que trabalhar para colocar a luz. Pra que daqui cinco anos, três anos, você chegar a morrer, hoje eu falo pra você se chegar a morrer, você não tem registro de nada.
R- E a gente vai batalhar pra poder colocar no registro. Pra que daqui cinco, dez anos, meus netos possam ver. Meu bisneto, meu tataraneto vão poder conhecer.
R- Essa luta que nós estamos tendo hoje, que nós estamos tentando buscar, estamos correndo atrás para poder sobreviver.
R- Com tantas coisas que, como a minha mãe falou naquela entrevista que teve com você, ela disse que o patrão dizia assim, o pai está cortando a gíria? Por que não fala direito para mim entender? E isso eu perguntei para que o nosso povo esquecesse. Porque o nosso povo vivia praticamente com os brancos.
R- O lado do rio era do branco, o lado do rio era Yawanawá. E a escola que nossos filhos frequentavam era do branco, não era do Yawanawá. Então, hoje, nós estamos lutando. É isso que nós temos que falar. Tem que falar cada professor. E tem muita gente que está perdida aí. Vamos lutar.
R- Vamos cada vez fortalecer. Juntos podemos fazer. Vocês viram aquele projeto político-pedagógico? Nós trabalhamos em cima daquelas matérias, mas nós temos que trabalhar a nossa vida. Nós temos que passar o conhecimento que temos pros alunos entenderem.
R- Porque se não entender, ele vai ter como eu tive no passado. Eu fui pra estudar outra coisa, mas eu fui estudar o quê? Fizeram que eu voltasse pra trás pra me conhecer quem eu era, quem eu sou, na verdade, qual é a minha identidade, qual é o meu valor. Através de estudar da CPI que eu comecei.
R- Abrir um pouco a mente e conhecer o valor que eu tinha. E se eu nunca tivesse ido pra CPI, se eu tivesse ido pra escola do branco, eu tinha esquecido totalmente a minha língua. Eu tinha esquecido. Quanto preconceito eu não ia ter?
R- Eu ia ter vergonha de fazer, mostrar pras pessoas quem realmente eu sou. Então, por isso que hoje, nessa escola em ______ , nós temos conversado muito com os alunos. Com os alunos e também com o professor. O professor tem um papel importante, de ele repassar. Essas coisas pros alunos.
R- Conta pra gente a história aqui da Aldeia Amparo. A Aldeia Amparo é uma aldeia que a gente criou, né? Na verdade, a gente não queria fazer uma aldeia. A gente só veio pra morar. Sem ter aldeia, sem ter nada. A gente passou por muita dificuldade, pra poder chegar como estamos hoje.
R- Pra gente conquistar o que conquistou. A luta foi muito grande. Continua a nossa luta ainda. Não parou por aqui.
R- Mas... em... acho que foi em 2007 que eu vi... 2007, 2005, 2007 que nós viemos pra cá. Aconteceu um problema por lá e a gente teve que vir pra cá.
R- O Rurá não queria morar aqui não, na verdade. O Rurá queria ir embora. Agora ele queria morar lá nos Arara. Eu tenho um primo lá chamado Anchieta. O Anchieta convidou ele.
R- Rapaz, primo, vamos embora. Fica aqui na tua terra não, vamos embora, lá em cima tinha uma estrutura grande já.
R- Criava muito gado, tinha 30 cabeças de gado. Tinha a minha casa, tinha os roçados. Tinha tudo, tudo, tudo mesmo. Abandonei tudo e vim pra cá. Aí o Anchieta queria levar a gente pra lá, pro Rurá. Aí eu falei pro Rurá, disse, a nossa terra está sendo ampliada, acho que eu não vou te acompanhar não.
R- Eu tenho pai, eu tenho mãe, eu tenho irmãos, irmã, todos precisam de mim. Deixa meu pai e minha mãe morrer, pra me te acompanhar, aí eu te acompanho. Mas por enquanto eu não vou te acompanhar não, porque eu tenho família. E vão precisar de mim. Assim como eu tenho família, você também tem.
R- Você tem pai, você tem mãe, tem irmão, tem irmã. E eu disse pra eles, vamos pra baixo, vamos... Vamos escolher um lugar pra nós ficar. Mas também eu nunca abri a boca pra ninguém. Elas vão sair, eu vou... Ninguém nunca soube, né? Aí eu fui pra Tarauacá receber o pagamento.
R- A gente foi lá, e lá a gente comprou umas coisas e deixamos ali no _______ , que meu irmão morava lá. Aí ainda fomos pra cima. Aí chegamos lá. Aí eu falei pra minha mãe. Mãe, eu vou embora. Mas eu não vou embora longe não. Eu só saio daqui mesmo e vou pra baixo. A minha mãe não acreditou não.
R- Ela disse, você fica aqui. Eu vou pra baixo. Ela disse, não pode fazer isso. Eu posso. Não dá pra ficar aqui, então a gente vai passar a barra. A barra de poder tá aqui. A gente vai sair. Aí vim. Aí tinha um morador morando ali, pertinho da casa da minha mãe. Aí eu cheguei e falei...
R- Eu saí lá da Nova Esperança, no dia 16 de maio.
R- Eu lembro como hoje. Na época era verão, né? Aí saímos, venhamos pescando. Peguei muito peixe. ____________ na praia, dormimos na praia, e o outro dia nós viemos e chegamos aqui. Aí eu falei pro rapaz, eu disse, olha, eu vim ser teu vizinho.
R- Aí ele falou, ah, pois não, como dia de domingo, né? Eu vim tomar café aí, eu não cheguei no outro dia e não vim aqui. Aí eu disse, vamos gastar ali, naquela capoeira ali, começar de bem, e é onde é a igreja, aqui do lado.
R- Aí ele foi lá me mostrar. Aí nós começamos a trabalhar.
R- Desde o domingo bem, começamos a trabalhar, construir as casas. E foi muita luta mesmo. A gente sofreu muito pra poder manter esse lugar.
R- Batalhamos muito.
R- Muitas críticas do próprio parente, da própria família, mas a gente não perdeu a cabeça não, né? Seguimos em frente.
R- Olhamos pra trás, não. E hoje tá aí, quando tá ali, não para. Aí, como o garapela era ali, né? O Saulo queria que eu colocasse aqui o nome da aldeia, Shaya, porque eu era mulher guerreira e eu tinha enfrentado o ________, eu tinha enfrentado demais pessoas, queria colocar o nome da aldeia Shaya.
R- Aí eu falei, não, eu vou fazer, eu vou colocar o nome do Porto das Pedras. Você tem muita pedra aí na frente, né? Aí eu falei, não, acho que eu vou colocar Amparo. O igarapé é bem pertinho e onde eu me amparei foi aqui. Então, eu vou colocar o nome de Amparo.
R- Aí o Saulo falou assim, porque na época ele era chefe de posto da Funai. Aí eu falei, me ajuda. Me ajuda a fazer o reconhecimento do lugar onde eu tô morando. Aí ele disse, ah, eu te ajudo. Te ajudo, primo. Vou fazer isso pra você.
R- Aí ele fez um documento lá, mandou pra toda organização, que aqui seria uma aldeia. Eu não vim pensar em aldeia, mas pela necessidade, né, tive que transformá-la em aldeia. Aí, quando eu vim morar com... Com seis meses já fui pegar a minha mãe. Fui buscar a minha mãe pra vir perto de mim.
R- Afinal, fui buscar as irmãs, tudinho. E tá como tá hoje.
P/1- Qual foi o seu grande desafio como liderança que você sente?
R- O grande desafio como liderança é de você enfrentar as pessoas. Pra tentar buscar recursos, o reconhecimento. Quando você chega lá, ser barrada,por alguém, ter um documento na sua frente e dizer que você não pode fazer isso.
R- Essa aí foi uma dificuldade que eu passei, mas eu não fiquei triste porque eu estava vendo o documento. Eu não chorei porque eles estavam fazendo isso comigo.
R- Cada vez que eu chegava lá, que eu encontrava uma barreira, eu dizia assim: Eu vou te mostrar como eu também sou uma mulher, mas eu vou lutar e eu vou conseguir o que eu quero. E eu não vou baixar as cabeças porque você tá fazendo isso comigo. E ser liderança também é um desafio.
R- Primeiro porque você não vai lutar com seus filhos. Você vai lutar com o sentimento de várias pessoas. Você tem que aprender a conversar. Você tem que aprender a olhar para as pessoas. O desafio maior, para mim, é quando alguém chega e diz assim, eu tô com problema. Como é que você vai me ajudar?
R- Então isso, mais um tempo eu penso, o que é que eu vou fazer? Qual é a solução? Vamos sentar, vamos conversar, vamos ter uma conclusão. Como que nós vamos resolver esse problema? Então, é um desafio muito grande.
R- Como minha mãe dizia, a minha avó, ser liderança é ser ignorante, é ser valente, é ser miserável, é ser estúpida com alguém, é ser mentirosa. O que, que é uma liderança? É um desafio essa pergunta para você ser liderança. Então, a gente tem que pensar para poder viver com um grupo de pessoas.
R- Pra você chamar, conversar, pra você dizer como tem que ser feitas as coisas. Esse foi o maior desafio, mas hoje eu tô lutando ainda.
P/1- Como é a sua relação com a espiritualidade? Você já teve alguma vivência que se considera espiritual?
R- A minha relação com a espiritualidade, ela, assim, eu... Eu gosto muito de poder estar tomando ______ , estar na roda da cerimônia. Já recebi cinco grupos. Nós paramos também assim um pouco, a partir do momento que eu fiquei doente. Eu passei a ter esse problema da diabetes, me fragilizou muita coisa, mas eu tenho cada vez, toda a vivência que tenho, eu tenho tudo junto, eu gosto de estar, eu tomo o ______, eu tomo meu rapézinho, eu tenho ficado com meus irmãos, meus irmãos como o Vinnya, como o _______, as filhas ________, a minha filha que eu estou ensinando um pouco, então a gente está tentando fortalecer cada vez mais.
R- é passar o conhecimento que nós temos para os rapazes, para as meninas. Então, a gente tem lutado muito também para isso.
P/1- E o artesanato, como foi que você começou a desenvolver?
R- O artesanato eu comecei a desenvolver porque eu via as pessoas fazerem e eu comprava. Aí teve um momento que eu pensei, eu vou ter que começar a aprender a fazer. Eu não vou gastar o dinheiro que eu tenho comprando, pois eu vou fazer. Não é nada difícil.
R- Pior, eu aprendi a ler e escrever, que foi o mais difícil que eu encontrei. Mas fazer um artesanato acho que é fácil. Eu comecei a fazer brinco de pena, eu comecei a tecer as miçangas. O Vinnya que me ensinou a tecer miçangas. Eu não sabia, não. Inclusive, o Vinnya mais Anedina .
R- Anedina trouxe esse trabalho de miçangas para a Xanica, quando ela era junto com o Moisés. Aí o Vinnya também, toda a vida o Vinnya teve interesse de aprender essas coisas. Aí o Vinnya aprendeu, repassando pra mim, repassando pra outra e hoje a gente trabalha.
R- Então foi assim, quando eu vejo alguém fazer uma coisa, eu tento fazer. Eu vou lá, eu pelejo, eu pergunto quem sabe. E eu aprendi, um pouco de tudo eu aprendi.
P/1- Você podia contar algum sonho que você já teve que foi marcante na sua vida?
R- Ah, um sonho bem marcante pra mim foi quando eu fui aprender a fazer a pulseira. Que no sonho eu ficava perturbadinha. Pra fazer eu não conseguia, aí eu ficava com raiva e cortava. Aí até que a minha avó disse assim, você lembra? Quando a gente vai fazer as coisas, a gente tem que ter paciência.
R- A gente não faz de qualquer jeito. Você tem que fazer as coisas com muita paciência. Do jeito que é o teu coração, que não tem paciência com nada... É. Aí, a minha avó disse, do jeito que é o teu pensamento, que você fica _________ fazendo as coisas, assim vai ser a sua vida.
R- Por isso você tem que ter paciência. Lembra como você aprendeu a pisar na máquina? Escrever? Você teve paciência. Então, assim você vai aprender as coisas. Se você não começar a ter paciência, com nada você não vai aprender nada.
R- O sonho que eu tive com a minha avó, Às vezes, quando eu quero estar estressada, eu lembro da palavra da minha avó. A paciência é acima de tudo. Para você vencer, você tem que ter humildade e paciência.
P/4? Hoje está toda a família da parte da _______ aqui no território? Ou está faltando mais pessoas?
R- Não, estão todos aqui.
R- Ela tá faltando, assim, que é a tua tia. A ______ , ela mora lá na _______. Ela é da nossa irmã, a única que tá lá, né?
P/4- Quantos irmãos a senhora tem agora?
R- Eu tenho, acho que é cinco. Tem o Vinnya, o ______ , _______, o _______, cinco.
R- Irmã sou eu, ____, _______.
P/1- Você poderia pra gente fazer um canto?
R- Se eu lembrar, eu sei que não tenho voz bonita pra cantar não.
P/1- Pode ser.
{ Canto}
R- Só isso aí. Só pra não passar em branco.
P/? - Agora a senhora deixa um registro de uma mensagem. Pensa que esse vídeo vai estar sendo assistido daqui a uns 15, 20 anos. Não é só pra geração de agora, mas fala pra eles alguma mensagem.
R- Bom, eu quero dizer assim, que pra mim, essa experiência que eu pude contar pra vocês agora, foi a coisa que passou por mim. Uma coisa que eu vivi.
Não foi uma coisa que eu inventei, mas uma coisa que eu presenciei. Então, dizer assim pro jovem e quem vai assistir esse vídeo, dizer que a gente buscando o conhecimento sempre é valioso. e você também colocar ela em prática. Jovem que vai assistir.
R- Quando você for ao Yawanawá, luta pelo objetivo que você quer. Principalmente pela nossa língua, o fortalecimento dela. Ela é a nossa identidade. Ela é a nossa cultura. Então, vamos valorizar, jovem. Jovem, homem, mulher, valoriza aquilo que você tem. Que é a nossa cultura. É o nosso costume.
R- E para o jovem que vai assistir O Branco, ajuda a conscientizar.
R- Olhando para esse vídeo, valoriza também o teu cultural, que é importante. Cada um de nós tem uma cultura. Nós, seres humanos, ninguém pode dizer, aquele fulano não tem cultura. Todos nós temos cultura, então vamos fortalecer.
R- Jovem como Vinnya, luta para você falar nossa língua. lutem, busquem conhecimento enquanto é tempo, valorizem, que é muito bom. Porque se você não valorizar agora, quando você for atrás vai ser tarde. Então vamos fortalecer, vamos buscar o conhecimento e principalmente a nossa língua.
R- Porque hoje os nossos jovens estão cantando muito bonito, com instrumentos, estão fazendo
R- Nossa, eu não tenho nem o que falar, a beleza que tá tendo no nosso canto, na nossa cultura. Mas tá faltando uma coisa, que é a nossa língua. Então, pratiquem, busquem, lutem pra você conhecer a nossa língua.
R- Então, eu quero deixar esse meu recado. Jovem, Yawanawá e demais pessoas, por favor, valorize o que é seu. não despeça, não jogue fora. Vamos juntos em busca desse conhecimento e lutar para a gente fortalecer.
R- Então, essas são as minhas palavras.
{ fim da entrevista}
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