Entrevista de Oriana Maria Gonzalez Hernandez
Entrevistado por Lucas Torigoe (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 13 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV008
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:07
P1 - Primeiro, eu queria fazer uma pergunta só para contextualização, que é o seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento, sítio de nascimento.
R - Ok. Meu nome é Oriana Maria Gonzalez Hernández, sou venezuelana, nasci em 20 de fevereiro de 1989 no Hospital José Gregório Hernández, na cidade de Cabimas, na Venezuela.
00:00:36
P1 - Seu pai, sua mãe, alguém da sua família te falou como foi a sua gestação? Como foi o dia em que você nasceu ou não?
R - Minha mãe trabalhou até às 3h da tarde e às 6h eu já estava fora, foi cesariana. Não foi planejado, ela inclusive não parou de trabalhar antes, como falei, ela trabalhou até às 3h da tarde e às 6h eu já estava fora, o médico foi o Doutor Duque com quem eu tive contato até os 20 anos de idade. Me disse que eu sempre fui uma bebe muito calma, inclusive ela era professora, e estava na classe dando aulas, me colocava perto da mesa dela, no chão, e eu ficava lá... ela me dizia que eu sempre fui muito calma, ficava na minha, nunca fui uma criança que desse trabalho. Bom, dava sim, mas porque fugia do berço naquela época, inclusive, por isso um tio me apelidou de “Saltamontes” (Gafanhoto), porque pulava do berço para a cama, da cama para o chão e saia... risos isso quando eu já tinha crescido um pouco. E que eu não era de fazer bagunça, era na minha, não era de dar muito trabalho, isso é o que eu me lembro que ela contava para mim. Minhas irmãs lembram, que quando me viram, eu tinha o cabelo todo faz sinal dizendo que tinha cabelos espetados, não sei como se diz em português, parecia um gusano peludo (taturana peluda), porque tinha os cabelos todos, eu nasci com o cabelo...
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Entrevistado por Lucas Torigoe (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 13 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV008
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:07
P1 - Primeiro, eu queria fazer uma pergunta só para contextualização, que é o seu nome completo, data de nascimento e local de nascimento, sítio de nascimento.
R - Ok. Meu nome é Oriana Maria Gonzalez Hernández, sou venezuelana, nasci em 20 de fevereiro de 1989 no Hospital José Gregório Hernández, na cidade de Cabimas, na Venezuela.
00:00:36
P1 - Seu pai, sua mãe, alguém da sua família te falou como foi a sua gestação? Como foi o dia em que você nasceu ou não?
R - Minha mãe trabalhou até às 3h da tarde e às 6h eu já estava fora, foi cesariana. Não foi planejado, ela inclusive não parou de trabalhar antes, como falei, ela trabalhou até às 3h da tarde e às 6h eu já estava fora, o médico foi o Doutor Duque com quem eu tive contato até os 20 anos de idade. Me disse que eu sempre fui uma bebe muito calma, inclusive ela era professora, e estava na classe dando aulas, me colocava perto da mesa dela, no chão, e eu ficava lá... ela me dizia que eu sempre fui muito calma, ficava na minha, nunca fui uma criança que desse trabalho. Bom, dava sim, mas porque fugia do berço naquela época, inclusive, por isso um tio me apelidou de “Saltamontes” (Gafanhoto), porque pulava do berço para a cama, da cama para o chão e saia... risos isso quando eu já tinha crescido um pouco. E que eu não era de fazer bagunça, era na minha, não era de dar muito trabalho, isso é o que eu me lembro que ela contava para mim. Minhas irmãs lembram, que quando me viram, eu tinha o cabelo todo faz sinal dizendo que tinha cabelos espetados, não sei como se diz em português, parecia um gusano peludo (taturana peluda), porque tinha os cabelos todos, eu nasci com o cabelo grande, inclusive as enfermeiras brigaram para pegar minha placenta, porque falavam que eu tinha o cabelo muito bonitinho, e que era uma coisa que as pessoas procuravam nessa época... Então aí nasceu mais um apelido que é “gusano peludo”, porque eu também nasci com as pernas com formatos diferentes (faz movimento com as mãos sinalizando arqueadas), - depois descobrimos que é uma coisa normal. E por essa razão me enrolavam num cobertor e eu ficava parecendo uma taturana cabeluda, porque tinha o cabelo em pé e estava sempre enrolada e ficava como uma minhoquinha, e eu tentava fugir com esse movimento (como uma minhoca). Então por uma coisa ou outra, sempre tive apelidos diferentes de criança.
00:03:22
P1 - Me fala um pouquinho da sua mãe, da família da sua mãe antes, eles são de onde? O que eles fazem? Enfim, quem você conheceu, claro.
R - A família da minha mãe é assim, meus avós vieram da costa da Venezuela, por parte do pai dela, da área oriental da Ilha de Margarita, vem de Cubagua (Ilha de Cubagua), são ilhas de pescadores, meu avô foi cozinheiro de barcos, então ele conheceu muitas praias do mar do Caribe, ele viajava por todo o mar Caribe. Minha avó, por parte de mãe, foi professora, ela também era professora, esse tema de ser da educação vem desse lado, ela também é da costa, me lembro muito de uma característica dela, as comidas dela sempre foram comidas gordurosas: porco, coisas assim, e principalmente a sopa de peixe, que eu não gostava, eu odiava a sopa de peixe. Até hoje eu só como a sopa de peixe de uma pessoa, que ainda mora nas praias da Venezuela, e somente dessa pessoa. A família de minha mãe, a maioria deles, são todos educadores, todos têm esse tipo de profissão, os primos, em sua maioria, são engenheiros, porque as pessoas nasceram no estado de Zulia, em Cabimas, e todos são engenheiros, de petróleo, mecânico, tudo o que tem a ver com a indústria petroleira, porque a base da cidade é a indústria petroleira. A cozinha é uma coisa que tem muito na família da minha mãe, a cozinha deles é muito gostosa, isso sim é algo que diferencia a família da minha mãe.
00:05:23
P1 - Tipo o que eles fazem?
R - A comida em geral, a família da minha mãe se reunia para cozinhar, principalmente para fazer a comida de Natal, que são as Hallacas (prato venezuelano, tradicionalmente natalino, no preparo lembra o curau mas recheado com guisado), isso sempre acontecia e as mulheres da família competiam na cozinha sobre o recheio, que tem que ter sabor e tempero específico, e obviamente, a matriarca, porque a família zuliana é matriarcal, a mãe da minha mãe é quem decidia, e dizia: “Ok, este é o sabor das Hallacas”, porque ela tomou essa decisão. É assim em todas as famílias venezuelanas, quem tem a posição mais elevada é quem decide; inclusive me lembro de uma viagem em família que fizemos todos juntos, éramos umas 60 pessoas, e lá, a gente conta que meu avô perdeu totalmente a moral, porque preparou um cabrito que não deu certo, ficou ruim, ruim, ruim e acabou sendo jogado no mar porque não dava...
P1 - Não ficou bom?
R - Não ficou bom... e eu lembro que a gente escreveu nos carros, em graffiti: “Cabrito 1”, “Cabrito 2”, “Cabrito 3”, “Cabrito Louco”, em todos os carros em que a gente estava viajando na ocasião. E meu avô, meu avô, essa é outra coisa que caracteriza a família da minha mãe, eles têm a risada solta, dão muitas risadas e muito alegres. São pessoas que gostam muito de dançar. Meu avô teve um AVC, e quando eu o conheci, ele já tinha meio corpo paralisado, e mesmo assim estava sempre fazendo piada das pessoas que iam visitá-lo; ele já estava separado da esposa há muitos anos, e ele estava sempre brincando: “Olha aí, ela acha que está bonita!” Ele estava sempre fazendo alguma piada e as piadas assim eram muito comuns na família. Hoje em dia, as pessoas falam muito sobre bullying, mas era comum, era normal na família, e não era bullying, porque não tinha a intenção de ser maldoso, na verdade era engraçado, eram as piadas da família, muito comum. Então esse meu avô tirava sarro dos meus tios por parte de pai, quando minha avó materna ia visitá-lo na casa dele, porque afinal nós todos morávamos na mesma região; e ele falava assim para o meu tio: “Vou fazer um irmão para você”; e o meu tio ficava corado (sem saber o que fazer, ou falar), coisas assim... Meu avô, apesar da idade, dava tanta risada que até se engasgava... a gente não chamava ele de avô, mas de Alejo. E eu dizia: “Alejo, sossega, não faça isso...” E ele ficava meio assim... Ele chegou a morar conosco, eu tinha muito carinho pelo meu avô, ele era muito... Ele nunca foi de se meter muito na minha vida, mas eu me recordo que quando tinha que escolher o que ia estudar, as opções eram Veterinárias, Naval e Biologia Marinha, que eram as coisas que eu gostava, e como cozinheiro de barco ele conhecia a área Naval, e ele me “sacou” e disse: “Minha filha, a Naval não é pra você”. Ele nunca tinha se metido na minha vida antes; essa foi a única vez que ele me disse algo nesse sentido. Daí eu olhei para ele e perguntei: “Alejo, por quê?” e ele respondeu: “Porque você não segue ordens a menos que sejam justificadas e na Naval você vai ter que seguir ordens sem justificativa”. Aí eu compreendi e disse: “Ok, vou seguir seu conselho”, e foi aí que decidi pela Veterinária e fiquei. E o fato de ter visto minha mãe e seus irmãos dançando, eu trouxe para mim também, eu gosto muito de dançar e fazer piadas para mim é algo natural, saem naturalmente, qualquer coisa que acontece, eu solto uma piada... às vezes preciso me controlar, mas é coisa de família.
00:09:44
P1 - E você é mais próxima da família da sua mãe ou do seu pai?
R - Do meu pai, com meus primos. Por incrível que pareça, dos meus primos por parte do pai.
00:09:54
P1 - E como é essa família do seu pai?
R - A família do meu pai é muito mais tranquila, porque também ele vem de uma região na Venezuela que fica nos Andes Venezuelanos e as pessoas lá são mais sossegadas. O pai do meu pai é colombiano, ele não era venezuelano. Inclusive meu pai era colombiano, mas a família morava na fronteira e então registravam os filhos na Venezuela. Isso foi uma coisa... E era diferente, e com meus tios não foi um relacionamento tão forte, tão unido, porque como eu disse, no Sul as famílias são mais matriarcais, as relações são principalmente com a família da mãe, tudo é com a mãe, inclusive os filhos moram ao redor da mãe. No entanto, com a família do meu pai não foi assim, o pai do meu pai já tinha falecido quando eu tinha idade para entender, não soube muito dele, não tive muito contato. Mas minha avó era a que cuidava de mim, essa sim, eu digo que é minha avó — Avó, porque ela me mostrou o que é ser uma avó, eu era muito mimada, ela costurava minha roupa, roupas bonitinhas de criança que eu dizia que gostava, meus vestidos, com ela era legal. E tinha meus primos, sempre estávamos pra lá e pra cá, brincando, fazendo tudo. Inclusive eu tenho uma piada com um primo, eu disse para ele: “Você apareceu sozinho, porque eu não lembro de quando você nasceu; de repente você apareceu com 4 anos e eu perguntei: ‘E este aqui, quem é?’” E até hoje eu brinco com ele: “Não lembro de você, lembro de cada um que veio depois de mim, mas de você eu não lembro”. Então com eles é muito diferente a dinâmica, eles também têm as suas piadas, mas é muito mais calmo, não é no nível da família da minha mãe que é..., eles são muito mais calmos. Mas eu acho que com eles eu tenho mais “grude” do que com a família da minha mãe. Com minhas primas do lado da minha mãe, tudo bem, mas não tanto como com eles.
00:12:16
P1 - Você sabe como é que seus pais se conheceram?
R - Minha mãe estudou com o irmão do meu pai. O que eu me lembro é que ela foi na casa dele para estudar, e ela conta que ele ficava escondidinho olhando para ela estudando, sempre e tal... E que nas baladas onde eles iam, meu pai aparecia com um livro embaixo do braço, nas baladas... E ela falava: “Que absurdo...”. Ou seja, que para ele, isso era (como uma coisa sem sentido)... e foi assim que eles foram se conhecendo, e foram se enrolando... E uma vez, meu tio, irmão da minha mãe, me contou que ele ajudou minha mãe a viajar em segredo para se encontrar com o meu pai quando morava no outro extremo do país. E que minha avó descobriu e viajou para buscar a minha mãe, meu tio contou que isso foi um drama familiar, e acho que foi depois disso que eles se casaram. Inclusive no dia do casamento deles, ficaram sem eletricidade. E eles tiveram que colocar um carro para iluminar a igreja. Eu falei para minha mãe: “Você não percebeu os sinais da vida te dizendo para não se casar?” “Menina, não fala isso”. E o engraçado é que minha avó, a mãe do meu pai, falou para ele esse dia: “Você tem certeza de que você quer se casar com ela?” Não foi 1 aviso, foram 2! Risos, e ele se casou. É o que eu me lembro da dinâmica quando eles se conheceram, o que eles comentaram, que se conheceram através de um tio.
00:13:59
P1 - Você então mal se lembra do seu pai?
R - Não, não, da história, de como eles se conheceram.
P1 - Mas você conviveu muito tempo com seu pai e sua mãe?
R - Sim, eu cresci com as 2 figuras, com a dinâmica deles. Em 2016 minha mãe morreu e em 2021, quando eu cheguei aqui, meu pai morreu, eles faleceram em um intervalo de 4 ou 5 anos. Mas sempre estiveram juntos.
00:14:34
P1 - Quais são as primeiras memórias que você tem, que você consegue puxar?
R - Memórias... As primeiras memórias que eu tenho são do meu pai e minha mãe dançando, eles faziam muitas reuniões, eu me lembro que eles revezavam as casas para fazer reuniões sociais, dançar, serviam uma bebida, uma coisa, e eu lembro que eu ficava debaixo da mesa, olhando eles, só olhando, eu não lembro de outras crianças comigo nesse momento, eu ficava sozinha olhando eles dançando e tal e vendo a alegria deles. Quando eu era maior, já grande, quando eu morava em Caracas (Capital da Venezuela), uma das coisas que eu gostava de fazer, era ir a um lugar no centro da cidade, onde pessoas maiores se reuniam para dançar, e isso pra mim, ficava olhando e pensando: “Olha, como dança!” Porque tem um jeito de dançar específico da salsa venezuelana e isso era o que eu gostava de ver, isso é uma memória para mim, minha mãe era muito boa dançando, meu pai não muito, mas tentava. Com meu pai, gostava de dançar o Passo Doble simples, isso é uma coisa que eu gostava muito, é uma dança muito forte. É uma dança que é elegante e forte ao mesmo tempo, porque é um movimento algo rígido, mas ao mesmo tempo tem um passo firme. Eu gostava muito de fazer isso com ele. Tenho outras memórias com ele, como a gente estar dirigindo em um caminho e ele dizer: “Vamos ver pra onde leva essa rota?” A gente não sabia para onde estava indo, e falava: “Vamos que vamos”; e acabava conhecendo algum canto novo da Venezuela. Às vezes as pessoas me falavam: “Nossa, Oriana, mas você conhece coisas!” E eu dizia: “Porque meu pai me trouxe aqui e eu acabei conhecendo”, porque meu pai tinha dito: “Ah, vamos entrar aqui? Vamos por aqui?” ou “Ah, vamos por ali?” Então essas são as memórias que eu tenho, que eu ainda mantenho, porque às vezes até aqui em São Paulo, se eu não sei o que tem pra lá, eu arrisco e vou por lá, é uma coisa que eu ainda faço. Outra coisa da qual me lembro muito é da minha mãe fazendo bolos, eu já falei muito da comida com eles, eu gostava muito, eu sempre pedia para ela fazer bolos vermelhos, depois eu entendi que era só jogar corante! Então isso, e quando ela dirigia, porque às vezes ela trabalhava indo de um canto ao outro, e eu ia com ela, ela começava a cantar e cantava e perguntava: “Que tal?” E eu respondia: “Não! Horrível!” E ela falava: “Mas eu posso ser cantora?” e eu, criança, dizia: “Não!” Eu, criança, falando para ela não cantar. Me lembro que fui com ela na Embaixada Americana, estavam pedindo o visto e ela dizendo que tinham casa própria e falando coisas para (conseguir o visto). E eu não acreditava, e falei, meio baixinho, para o meu pai: “What? Não, vocês não têm nada disso!” E meu pai me cutucando como que me dizendo: “Fica calada!” E obviamente não deram o visto, porque eu disse que eles não tinham nada do que haviam dito, mas na inocência de alguém que escuta e diz: “Não! Isso é mentira, a gente não tem isso...” E eu me lembro da minha mãe (com as mãos na cabeça) contando assim: “A Oriana falou lá, eu não pensei que ela fosse falar nada”. São memórias que eu tenho, e tenho muito mais com a minha mãe. Com o meu pai eu lembro que era sempre o meu pai quem me levava para a escola, porque minha mãe já estava trabalhando. E eu sempre ia chorando porque eu não gostava de acordar cedo, eu gosto que me deixem dormir. E eu sempre estava com uma trança mais baixa do que a outra, porque era meu pai que me penteava, então eu era conhecida, as pessoas diziam: “Lá vai a Oriana com suas tranças, uma em cima e outra embaixo”, e era porque meu pai fazia assim, ele me comprava uma empanada de batata com queijo, que é uma comida específica da região de Zulia, como a Malta que é uma bebida típica da Venezuela. Então para mim isso sempre traz lembranças, inclusive, inclusive essa amiga que é de Zulia, que mora aqui perto, me ligou no domingo e me perguntou o que eu estava fazendo, e eu disse: “Nada, estou aqui em casa”, e ela disse: “Fiz empanadas de batatas com queijo”; eu saí correndo para ir comer, não dá! Então são coisas do cotidiano em que a gente fica... Quando nasceu minha primeira sobrinha, meu pai falou: “Não, tudo tem que ser bem natural...” e eu olhei para ele e disse: “O quê? Você sempre me comprava pastel de batata com queijo!” Ele: “Não, não...” E eu: “Lembro, sim”. E quando cheguei na idade em que se pergunta como se fazem os bebês, eu já sabia como se fazem os bebês, porque eu desde pequena sempre peguei os livros de saúde que tinha em casa e ficava olhando as coisas. Sempre tive interesse pela área de saúde. Quando perguntei para o meu pai, ele veio com uma história: “Aí, não, porque...” umas coisas, que eu falei: “Ah, tá bom”. Aí eu perguntei para a minha mãe e ela também me contou uma história que não tinha nada a ver... E eu disse para eles: “Não, isso não é assim”, e eles me olharam e perguntaram: “Então como é?” E eu respondi: “Acontece uma coisa, um homem com uma mulher”, eu era uma criança que tinha uns 7 anos nessa época. E me perguntaram: “Então por que perguntou?” E eu disse: “Porque eu queria saber o que vocês iam responder!” Eu não fiz porque tinha dúvidas, fiz porque eu queria saber se eles iam me falar a verdade ou se iam inventar outra coisa. Sempre fui um pouco diferente como criança.
00:20:42
P1 - E você tem irmãs?
R - Tenho, tenho 3 irmãs mais velhas, com 13, 10 e 9 anos de diferença, elas são muito mais velhas que eu.
00:20:57
P1 - Antes da gente começar a entrevista, você falou que você e a sua família viveram durante muito tempo em uma casa específica, né?
R - Sim.
P1 - Onde que era? Qual era o nome da rua? Em que cidade?
R - A casa que meus pais construíram, eles construíram a casa junto com a empresa deles, que era uma escola, aí eu aprendi que eu nunca vou fazer isso. Nós moramos lá, não lembro, já faz muitos anos. Eu lembro que eu estava no 4º (corresponde a 4ª série do ensino fundamental), eu era muito pequena. Inclusive, eu tive um Chow-chow (Raça de cão de guarda), eu lembro que uma vez minha mãe me levou junto com esse cachorro para tomar conta do material de construção durante a noite. A gente dormia lá, cuidando dos cachorros que faziam guarda para que não nos roubassem o material de construção. A gente morou ali durante muitos anos, o nome da rua eu me lembro, era “Calle Manaure”, na Ciudad Ojeda, que fica perto de Cabimas, onde eu nasci, fica a 20, 30 minutos de carro. Eu cresci lá, nasci em Cabimas, mas na realidade cresci em Ojeda, na “Ciudad Ojeda”. Por isso quando me falam: “Ah, você é cabimera” e eu digo: “Eu sou mais ciudadojedense”. É uma cidade de petroleiros, toda a minha vida cresci com petróleo, tudo sobre petróleo, perfuração, tudo, tudo. Sempre convivi com muitos estrangeiros, porque sendo uma cidade petroleira sempre tinha italianos, árabes, portugueses e principalmente chineses, que era a maior população de estrangeiros que tinha lá. Essa casa, bom, foi uma casa planejada para abrigar toda a família e todas as coisas que todo mundo tem. Uma casa onde eu cheguei a ter muitos animais, 5 cachorros, 2 gatos e 2 coelhos ao mesmo tempo, tinha espaço para isso; e era um lar de que eu me lembro muito, um lar onde eu descia um domingo e minha mãe já estava na cozinha, a primeira coisa que ela fazia era ligar o rádio para começar a música, ela sempre tinha que ter música, e meu pai estava deitado perto da janela olhando alguma coisa, então sempre teve um quintal como muita floresta, porque era uma floresta, não era um jardim, era uma floresta, meu pai tinha uma mão muito boa para isso, qualquer coisa que ele colocasse na terra brotava.
00:23:52
P1 - O que ele fazia? Sua mãe era professora, mas e ele?
R - Meu pai também chegou a ser professor, ele começou como metalúrgico, era técnico, nessa época tinha esses técnicos, ele trabalhava na metalúrgica em Ciudad Bolívar, inclusive foi onde minhas irmãs nasceram, na região do Oriente, em outra cidade. Isso foi engraçado porque a primeira nasceu lá, a segunda nasceu em Cabimas, e a terceira nasceu lá, eu nasci também em Cabimas, então foi como se eles estivessem alternando. E lá ele trabalhava em empresas metalúrgicas, e minha mãe tinha uma loja, quando eles decidiram, por alguma razão que para mim ainda é meio estranha; inclusive eu encontrei uma carta do meu pai, ele gostava muito de escrever... Eles se mudaram para Cabimas, imagino que porque minha mãe queria estar perto da família, porque é normal, sempre procurando estar com a família e lá meu pai decidiu investir em uma escola com a minha mãe, e ele também se torna professor de História e Geografia da Venezuela. Ele sempre foi muito bom em geografia, inclusive quando a gente viajava, ele sempre começava a contar a história: “Olha, isto aqui é tal, tal e tal...” e às vezes eu ficava... (entediada). Mas agora sou eu quem faço isso com São Paulo. Se me perguntam: “Que história é essa?” eu explico para os paulistas o que é aquilo. Ou aqui na região: “Este parque foi feito, foi fundado por isto, por isto”. E muitos ficam assim: “Eu não sei... e você como sabe?” (respondo:) “Eu comecei a pesquisar e a ler”. E quando viajávamos para a praia, tinham muitas refinarias e ele começava a falar da história dessa refinaria. Íamos para lá e começava a história, tal. E ele tinha também uma análise geopolítica muito forte. Então, sempre nos incutiu: “Ah, sempre têm que saber por que a Venezuela está aqui, por que isto, tudo isso e a história da Venezuela.” Ele acabou sendo professor, entre os 2, se mantinham fazendo uma... minha mãe gostava mais de psicologia e fazia literatura ou castelhano, e meu pai História e Geografia, ele também era muito bom para matemática, mas não para explicar.
00:26:12
P1 - Qual foi o nome do seu pai e da sua mãe?
R - Minha mãe, Nieves Coromoto, e meu pai, José Rafael, as pessoas chamavam ele de Rafael.
00:26:24
P1 - E a escola eles administravam juntos?
R - Juntos, minha mãe como diretora e ele como administrativo.
00:26:34
P1 - Eles davam aulas dessas matérias: Gramática, Literatura e História e Geografia.
R - História e Geografia. E havia uma literatura que a gente percebia que era como psicologia. Não era psicologia como tal, mas havia essa psicologia que a minha mãe gostava muito. Porque, na verdade, a minha mãe sempre quis estudar Psicologia e não Educação. Mas, na época, achavam que psicólogo não era uma boa profissão. Então ela ficou com esse desejo de estudar Psicologia.
00:27:06
P1 - A sua casa, eu imagino que ela fosse animada, porque tinha muita criança da família e da escola e muitos animais também.
R - Olha, assim, sempre animada quando a gente se reunia, e quando a gente convivia entre nós, criança não tinha muita, como falei, tenho muita diferença de idade com minhas irmãs maiores. Então, quando chegou um ponto, todas foram estudar fora. Fora que eu falo é para as capitais, ou trabalhar fora. Então, sempre tive essa migração de todas para seus cantos, porque também a criação da minha mãe foi: “Vá para fora”. Ela sempre falava: “Os filhos são da vida, não são meus, são da vida, não são para ficar aqui”. Ela tinha esse conceito, e dizia: “Não quero ter filhos para que me cuidem. É para que avancem”. Não vou dizer que não, sim era muito animada, ou seja, sim tínhamos momentos que eram bastante... Inclusive, eu tenho um tio por afinidade, mas não é tio, não é nada, mas é uma pessoa que sempre esteve lá, que desde que eu nasci, que estava lá, eu me refiro a ele como um tio, que é uma pessoa inclusive de pele preta. E a gente sempre estava com ele, sempre também nos convidava para todas as reuniões. Sempre estava aí. “Ah, e o Edgar, onde está o Edgar?” O Edgar sempre estava por ali. Então, por isso, quando aqui eu cheguei aqui e vi que tem uma diferença com problemas de pele, para mim isso é algo esquisito, porque para mim é normal isso, ou seja, é indiferente.
00:28:51
P1 - Normal.
R - Minha mãe era mulata, posso dizer assim, meu pai era branco, inclusive na minha casa tinha uma piada que faziam com meu pai, dizendo que ele sujou o sangue da família se casando com minha mãe... eram piadas que as pessoas faziam. Meu melhor amigo na escola também era uma pessoa preta, e quando a gente visitava museus dos tempos da Colônia, quando as classes sociais eram definidas pela cor da pele, eu brincava com ele dizendo: “Anda atrás de mim”, porque era assim, ele (resmungava)... Olha, a gente fazia piada com coisa assim porque não era algo com o que nos identificássemos... as pessoas têm que conhecer a história? Sim, mas para não repetir o que aconteceu e não para dizer: “Ah, sou preto, tal...” Sim, conheci, tinha gente que possivelmente era racista, sim. Mas era uma coisa muito difícil de encontrar. Lá não tínhamos isso instaurado.
00:29:52
P1 - Agora, desculpe interromper, mas na sua casa vocês conviviam com os alunos dos seus pais também?
00:30:00
R - Em alguns momentos sim, se faltava um professor de alguma matéria específica, minhas irmãs que já eram formadas ajudavam, faltou algum professor, que se fizesse alguma coisa. Quando eu me formei também, em biologia, se precisassem de alguma coisa eu também ajudava. Principalmente na cantina onde também fazia muitas atividades, e eles nos conheciam, sabiam que nós éramos filhas da professora, da diretora.
P1 - Mas a escola era na casa de vocês? É isso?
R - Embaixo, sim. Totalmente embaixo, e eles ligavam: -”Ó, desce um momento…” A gente sabia que tinha que trabalhar, eu cheguei, inclusive, a pegar um menino pela camisa e falar para ele: Eu vi como ele falou com a minha mãe, de um jeito totalmente desrespeitoso. E aí eu peguei ele e falei: “Você vai falar assim com a sua mãe! Aqui você tem que respeitar…” Aí minha mãe falou: “Oriana solta ele”. E eu escutava as coisas que aconteciam embaixo (na escola), o que eles falavam, o barulho, tudo isso, quando chegavam, quando saiam, quando tudo. Eles conheciam a gente, já sabiam que: “Ah que, eles moram aí”. E em uma cidade pequena, todo mundo se conhecia e perguntavam: “Ah, qual é o seu sobrenome?” Você dizia, e eles: “Ah, você é dali” (de tal família, tal casa), então era assim. Minha mãe ajudou alguns estrangeiros a aprender espanhol no começo, porque eles começaram como uma escola para adultos, ou seja, para pessoas que não tinham terminado o ensino médio, e queriam estudar à noite, esses cursos normalmente eram no período noturno. E esse foi o começo deles, depois eles passaram para o ensino médio e mantiveram também a educação de adultos.
00:32:00
P1 - E na sua casa quem gostava dos animais? Quem chamava os cachorros, os gatos, os coelhos? Era ideia de quem adotar esses animais?
R - Eu.
P1 - Sua? Então antes de você eles não tinham animais?
R - Tinham, mas para vigilância e segurança. Então eles tiveram umas experiências muito ruins. Eu lembro que eles me contaram que quando moravam, antes de eu nascer, em uma fazenda, inclusive eu fui concebida em uma fazenda. E eles me contavam que eles tinham um ganso e que não conseguiam sair de casa, porque o ganso ficava solto, era um temor que eles tinham, e tinha uma cachorra que era uma mestiça de dog Alemão com dálmata, que também mordia todo mundo, inclusive ela deu cria e comeu os filhotes. E quando minha mãe ficou grávida estava traumatizada, porque dizia que ia ser igual à Estrela, essa cachorra, e não teve nada a ver. Então a projeção deles com os animais foi muito diferente da minha, porque para eles era para produção, porque a granja tinha animais para produção e para segurança, para que não roubassem nada, então começou a ter animais como Pet e tal foi quando eu cheguei: “Ah, que a Oriana gosta dos animais”, sempre pegava um gato na rua, lembro disso, e me lembro um pouco de uma gata. Sim, eu lembro que peguei a gata e depois lembro que estava em um armário, em uma casa onde morávamos, a gata estava parindo e eu estava assistindo o parto, mas não me recordo muito do parto, só me lembro de depois, quando os filhotes já estavam lá. E na minha mente comecei a pensar: “Por quanto tempo pode viver um filhote sem respirar? Por quanto tempo um filhote pode nadar?” E eu comecei a fazer meu Darwin com meu Mendel de seleção natural. E minha mãe depois percebeu que os gatinhos começaram... mas era minha mente pensando e comparando quem sobrevive mais do que quem? Depois ela me contou isso, que eu não sabia: eu tive muitos coelhos, mas morriam toda semana, anos depois descobri que estavam doentes. E ela me contou que eu sempre os enterrava na terra, atrás da casa, e me contou depois que depois de um tempo eu procurava esses cantos, desenterrava os coelhos e ficava olhando os ossos. E eu não me lembro disso, não me lembro. Ela disse: “Não, Oriana, você ia e procurava esses ossos, olhava, contava, pá, pá, pá... deixava lá e ia embora”; parece algo que eu faria, mas não lembro.
00:35:12
P1 - Então desde pequena você...
R - Tinha curiosidade? Sim.
P1 - Cultivava essa curiosidade.
R - Possivelmente por isso que a pesquisa para mim é algo que tenho muito, gosto tanto quanto a clínica.
00:35:31
P1 - Quais foram os primeiros Pets que você teve? E como você conseguiu trazer eles para cá?
R - O primeiro Pet que eu tive foi uma poodle negra, pretinha, essa foi uma poodle que entregaram para minha mãe porque iam jogar fora, porque nessa época pensavam que o cachorro preto era ruim, e para mim ela foi a melhor cachorrinha que eu tive. Eu acho que o fato de terem me entregado uma cachorra que foi rejeitada me trouxe que eu sempre sou muito mais grudada com os animais que são rejeitados. Ou seja, quando alguém me fala de um animal que é agressivo, é esse que eu vou pegar, é nesse que eu vou prestar atenção. Ah, que é Pitbull, Rottweiler, Chow-Chow, são raças que eu gosto, raças que eu procuro, e se são pretos mais, então acho que foi algo que me deixou muito mais ligada ali.
P1 - Como era o nome dela?
R - Muñeca (se pronuncia: munheca), em português significa Boneca. Era Muñeca e nessa época tinha o Gusein, que não era meu, ele era... Ah, ele foi o único filhote da Estrela que sobreviveu, então ele era dog alemão com dálmata, e lembro que como ele era tão grande e eu pequena, eu montava nele e falava: “Hei, hei...” como um cavalo, e eu lembro que eu gostava muito dele, mas levaram ele para a fazenda e lá ele morreu, comeu um sapo, uma rã e se intoxicou. Depois dela tive os coelhos, que eu sempre gostei, coelhos, mas fiquei traumatizada porque morriam sempre, como falei, depois descobri que tinha uma doença, onde pegavam eles, estavam todos doentes e iam morrer sim. Depois dos coelhos não tivemos mais cachorros. Foi quando moramos em Cabimas, de lá nos mudamos para Ojeda, em definitivo. Aí me entregaram o Chow-Chow. Me lembro bem que foi em uma cesta branca, com uma bolinha preta, que não se via nada, e um laço verde. E eu me lembro bem que não dava para ver como ele era, o que era, até que ele abriu bem a boca, porque tinha a língua roxa. Mas era muito bonitinho, era fofinho, era um ursinho. E ele ia comigo para cima e para baixo, para todos os lados, dormia comigo, vamos para lá, para cá. A única coisa foi que me deixou sem bonecas. Eu tinha muitas dessas bonecas Barbie, na verdade eu colecionava essas bonecas Barbie! E ele destruiu todas, destruiu todas.
P1 - Esse era o Black?
R - Black, esse era o Black. Nossa! Esse cachorro era legal, e eu lembro que ele não deixava qualquer um encostar nele, ele era tão assim que a gente estava reunido na casa, ele passava e soltava um pum, e ia embora, mas era um pum tão fedido que todo mundo começava... “Nooosssa”, tão fedido que todo mundo tinha que sair, ele ia embora como se não tivesse acontecido nada, ele passava... Ele era muito engraçado, esse cachorro era muito bom.
00:39:11
P1 - E você tinha quantos anos quando você ganhou ele, mais ou menos?
R - Eu ia completar 7 anos, entre 6 e 7 anos quando ganhei ele, entre 6 e 7 anos, dali até 11 aproximadamente, 11 ou 12 anos. Não, mais, porque estava meu cunhado, sim, eu sei que esteve comigo 11 anos. E foram 11 anos juntos, pra cima e pra baixo…
00:39:41
P1 - Foi seu único cachorro durante esse tempo todo? Ou teve outros?
R - Não, ele esteve a maior parte do tempo sozinho, somente ele. Tivemos mais alguns nos últimos anos dele, sim tive outros cachorros. Teve uma coisa que a gente queria, um filho dele, mas não era filho nada. Depois eu descobri que esse cachorro era hermafrodita, ele tinha uma má formação no pênis, não é hermafroditismo, mas para resumir é isso. E eu levei ele com uma cachorra, que era para ter filhos, me deram um filho bem bonitinho, eu gostava muito desse filho e me roubaram. Então, depois esse não saiu dali. Aí chegaram 2 poodles, que morreram por diferentes causas durante uma época e um Pitbull também, o primeiro Pitbull que eu tive, que era muito... Eu gostava muito desse cachorro, eu dizia que esse cachorro era feliz. A cara dele era feliz. Esse cachorro foi comprado, e depois dele, eu não me lembro se tinha chegado o Leônidas, Leônidas Javier, um vira-latas.
00:40:55
P1 - Mas aí você já era maior de idade?
R - Não, estou falando adolescente ainda.
00:41:02
P1 - Enquanto tinha o Black?
R - Eu acho que ele durou, é que eu não tenho certeza, eu já tinha 15 anos e ainda estava com ele. Porque ele foi crescendo, por isso que eu te falei, ele esteve uma parte entre minha infância e adolescência, ele esteve todo esse tempo comigo.
00:41:21
P1 - E o Leônidas?
R - O Leônidas também durou uns 2, 3 anos, que foi quando ele teve essa doença do carrapato. E aí já tinha chegado o outro Pitbull, que é o Junior, que é o outro que me durou... Junior Mamute, saiu pra ele. Ele durou uns 11 anos, mas ele sim, conviveu com o Salsicha, com Marta, Cristal, que é outro vira lata, Picasso e com a Gorda que era Beagle, eles sim, já foram um grupo maior juntos, já tinham sua hierarquia, ou seja, o Salsicha, ninguém se metia, com o Pitbull a Marta não se metia, mas Marta dominava os outros 2 vira-latas e assim começou a demonstrar que era dominante. Mas com o Salsicha e com o Pitbull ela nunca se meteu, porque chegou depois dele. Eles se davam bem, todo mundo era de boa. E nessa época eu já trabalhava, e me lembro que quando eu chegava às 6h ou 5h da tarde, eu chegava e todo mundo começava a olhar, a fazer barulho, e minha mãe já sabia e falava; “A Oriana chegou”, porque os gatos na frente da casa começavam a olhar, os únicos que não faziam barulho eram os coelhos, os cachorros todos já começavam a latir, au au, au..., a Gorda que é uma Beagle, eu peguei, lembro que eu estava na faculdade ainda e não tive a aula de pequenos animais, por alguma razão fui para casa, quando chego no prédio em que morei em Maracaibo, vejo a vizinha que eu conhecia e que tinha cachorros e eu vejo uma cadela atrás dela e eu pensei: “sei lá, pegou outra cadela…” e quando nos encontramos no elevador, eu perguntei: “Ah, você tem outra cachorra?”. Ela: “Não é minha”; tinha outro vizinho junto, eu olhei pra ele e ele: “Não é minha também”. Então de quem é? Não era de ninguém, vi que ela estava toda assim... dava para ver que era uma cachorra que usavam para crias. E eu a peguei e levei para a faculdade com uma professora e pedi para castrar, pensando: “Vou devolver, porém castrada” . Aí, tudo bem, mas o dono não apareceu e eu levei a cadela para minha casa, para o meu pai? E eu chego uma vez na casa deles, da faculdade, em alguns finais de semana eu viajava para minha casa. Eu chego e vejo que eles estão fazendo um hambúrguer, mas estranhei que era um hambúrguer pequeno. E eu perguntei, por que você não misturou esse com algum outro? E ela respondeu: - Não, esse é para a gorda; foi primeira vez, e eu já tinha 24 anos, que minha mãe fazia uma comida assim para um cachorro! Aí aquela cadela começou a viver! As vezes quando eu chegava, ela estava no quarto da minha mãe em frente ao ar-condicionado! E minha mãe: “Não, é que está muito quente…” E eu: “e os outros?!” E ela: “É que a Gorda é gorda, então estou deixando ela ficar aqui”. Aí, o que aconteceu? A Marta e a Gorda não podiam ficar juntas, eram brigas, brigas, brigas, que eu acabava tendo que suturar a Gorda. E minha mãe sempre implicou com a Marta: “Aí, essa cachorra... não sei…” e tal. Na realidade minha família não era apegada à Marta, ela foi sempre rejeitada por ser vira-lata. Eu disse: “Mãe, eu acho que essa Gorda ofende a Marta falando que ela é um vira lata” “Porque eu sou raça pura e você não; alguma coisa ele fala, porque é uma briga entre elas, somente entre elas, ela não se mete nem com o Pitbull, nem com o Salsicha, é com a Marta!”. Canito morre no 1º de junho, depois, Picasso, chega um momento em que eu ia migrar dentro da Venezuela, aí eu tomei uma decisão: “Opa, tenho que distribuir, procurar casas, não vou deixar eles aqui, tipo virem-se, não!” O Picasso apesar de ser vira-latas, tinha um porte muito bonito, não chegava a Doberman, mas quase e um cara gostou e o levou. Fiquei triste, ele me contou, eu tinha contato com ele, e ele falava: “o cachorro é muito bom, ele protege a casa, era muito bom”, e eles cuidavam dele, davam comida de gente! Arepas (pão de farinha de milho pré-cozido, plano e redondo, que comem recheado) comida de gente, Arepa é uma comida comum, e davam para o cachorro! E aí o envenenaram porque foi a única casa que não conseguiram roubar... eu fiquei assim... A Gorda ficou com minha irmã, e depois de um tempo ela também deu em adoção para uma casa em que possivelmente essa cachorra foi para os Estados Unidos, então não foi tão ruim para ela, conseguimos um canto que foi bom para ela, e aí ficou só a Marta, e eu já estava morando em Caracas, e eu pensei: “Poxa a responsabilidade, da Marta é minha, não do meu pai, porque quem decidiu assumir essa responsabilidade fui eu, não ele, é muito fácil pegar um cachorro, e depois jogar a responsabilidade em alguém que não a pediu”. Aí, tomei a decisão, vou viajar para Zulia, aproveitar que uns amigos estavam se mudando do IVIC (Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas), é um instituto de pesquisa como o Butantã, na Venezuela, e eu aproveito esse carreto, e trago minhas coisas, ou seja, fazemos o carreto, ele paga a ida e eu pago a volta, e assim fiz. Quando eu cheguei lá, eu nem tinha dito para meu pai que eu estava indo, e quando ele me viu perguntou: “O que você está fazendo aqui?” E eu só disse que ia pegar a minha cachorra e ia embora; ele falou: “Mas como assim vai levar a cadela?” E eu respondi: “Porque a cachorra fui eu quem trouxe para esta casa”; e levei comigo; lembro que foram 6h, 7h de viagem com ela aqui, no meu colo, tínhamos que ir os 3 na cabine do carreto. E ela veio no meu colo, a ideia era viajar atrás, mas choveu desde que saímos até que chegamos, e não deu. Ela viajou aqui, enrolada, eu lembro que levei ela para o Instituto, onde não podia ter cachorro! riso, e ligo para minha amiga às 6h da manhã, pedindo para ela ir me buscar porque eu precisava tirar a cachorra de lá. Aí começou a nossa vida em Caracas e passamos a conviver juntas, começamos em Caracas, tem uma montanha e eu gostava muito, fazia muita trilha e levava ela, eram caminhadas de mais de 10 Km, e ela ia, a convivência dela com outros cachorros, difícil porque ela avançava nos outros. Daí, eu comecei a namorar, com meu atual namorando, e ele me ajudou um pouco com a socialização, começamos a (treinar ela), ela começou a sentar, começou a virar, tudo isso, então tivemos a ideia de morar juntos e deu certo, ele tinha uma cadela, Rottweiler.
P1 - Caracas!
R - Caracas! Tomasa. Lembro da primeira vez em que eu a vi, eu estava dando um passeio na rua com a Marta e ele também, com a Tomasa, porque ele também tinha esse costume, e a cachorra (dele) pegou lixo... e eu sem pensar, peguei a cadela pelo focinho, meti a mão, abri a boca dela e tirei o que ela havia pegado. E depois fiquei pensando... “Eu não conhecia a cachorra, uma cachorra desse porte, eu nem prestei atenção”, só pensei: “Ela está comendo algo que eu não sei o que é”, e eu só olhei para a cachorra e só vi a cadela nos pés dele, olhando para ele, como quem diz: “Você viu?” Ela acabou de tirar o que eu peguei! Imagina, ela era muito boazinha, essa cachorra era um amor.
00:50:25
P1 - Vocês se conheceram assim?
R - Não, nos conhecemos através de amigos desse Instituto de Pesquisa, ou seja, eu tive um amigo lá, que me apresentou uma namorada, que eu dizia que era uma namorada fantasma, e quando eu finalmente conheci essa namorada, ele estava junto e eu lembro que não prestei atenção, só falei, “nossa ele é alto!” E é difícil encontrar pessoas altas. Mas a gente começou a conviver e tal, e virou uma coisa, e a gente começou a namorar, e com o tempo ele começou a conhecer a cachorra, eu comecei a conhecer a cachorra dele. Quando fomos morar juntos, foi uma dinâmica forte, porque a Marta voltou com essa briga, que às vezes eu tinha que sair correndo do banho para ajudá-lo a separar as cachorras, porque a Marta procurava, procurava. As pessoas falavam: “E a Rotweiller!” e eu falava: “Não”, porque, às vezes eu encontrava a Rotweiller na porta do quarto, e dizia: “Tomasa, entra!” E quando eu via era a Marta que estava olhando fixo para ela... para que ela não passasse. Então essa cadela me deu uns problemas que eu nunca tive com cachorro macho. Aí, a convivência entre nós começou assim, e ele começou a ter esse trabalho com as duas. Passear com as duas por aí, é uma coisa que nós 2 gostamos de fazer e as pessoas sempre nos perguntavam: “Como é que vocês conseguem sair com as duas ao mesmo tempo, soltas e vão juntas?” E eu respondia: “Dinâmica, começamos a adestrar elas, com constância, frequência”. E assim começamos a ter uma vida juntos. Aí, chegou o momento de emigrar para fora da Venezuela, já antes de namorar tínhamos planos. Nós 2 estávamos cientes, era claro: “Eu tenho estes planos, e eu tenho estes e vamos nos respeitar”. Eu fiquei um pouco nervosa nessa hora, porque eu disse: “Como eu faço com a Marta?” Porque a Marta não é uma cachorra que possa ficar com qualquer um, por causa do comportamento dela, não tem jeito, “ela vai comigo”. Aí, pensando junto com amigos e colegas me deram a ideia: “Leva como um cão de suporte emocional”, e foi a melhor coisa. Só veio a pandemia... Aí ficou aquele estresse, eu falei: “Nossa”, trocaram as normas de viagem em cabine com animais maiores de 10 kg e ela tinha 20 e foi estresse, mas tudo deu certo. Tudo deu certo, e ela se comportou de um jeito que eu fiquei feliz. Parabéns. A melhor parte de lembrar é que, na alfândega, saindo da Venezuela, a gente tem que tirar tudo, deixar passar no Raio X, inclusive as coisas dela, e quando eu tiro tudo e olho em volta: “Cadê a Marta?” Quando vejo, ela já tinha passado pelo Raio X e estava sentadinha, olhando para mim, já do outro lado, perto da policial que estava toda apaixonada dizendo: “Olha como é bem adestrada!” E eu que não queria trazê-la na viagem. Ela dormiu a Viagem toda, só quando a gente foi pegar as malas aqui em Guarulhos as pessoas perceberam e perguntaram: “Ela viajou aí?” E eu: “Sim, ela estava aí”.
00:54:08
P1 - Mas por que você veio para o Brasil? Qual foi o plano?
R - O plano era entrar no Instituto Butantan, eu tinha, inclusive, participado (de um processo de admissão, talvez como orientanda), mas entre a pandemia, problemas pessoais que aconteceram justamente nesse momento, não consegui passar em uma das provas, não deu; Mas eu já tinha a passagem, porque em teoria eu teria que ter feito essa prova aqui, presencial, e tinha comprado a passagem, ei eu falei: “Já tenho a passagem, o que eu vou fazer? Eu vou para lá e vou tentar novamente!” E foi assim, e quando cheguei aqui disse: “Bom, eu vou trabalhar, se eu não estudo, eu trabalho, ou um ou outro…” E como eu estava dizendo hoje cedo, eu parei de trabalhar fixo em um lugar, porque a ideia é tentar novamente, e para poder fazer isso, atender em casa me dá maior flexibilidade para poder continuar com os estudos superiores, porque, na Venezuela eu parei uma pós-graduação em Imunologia que estava fazendo naquele instituto.
00:55:31
P1 - Então a ideia era fazer uma Pós-graduação no Instituto do Butantan?
R -. Sim porque eu tenho, não sei se chamar de um amor ou paixão pelos venenos. Quando eu fiz a graduação, tive que fazer um semestre de estágio, e eu fiz no México, trabalhei com produção de soro antiofídico junto com o doutor Alejandro Alagon na UNAM (Universidade Nacional Autônoma do México) e lá eu me apaixonei pelos venenos. É um mundo diferente e trabalhar com cavalos foi o máximo, eles têm um comportamento completamente diferente. Tive contato com muitos cachorros lá também, inclusive quando voltei de lá, trouxe peitorais mexicanos para o meu Pitbull, quando eu vi, logo pensei: “Não, este é para o Junior!” Trouxe coisas para todos eles. E lá comecei no mundo da pesquisa, eu gostei muito da área de pesquisas e ao mesmo tempo percebi como eu gosto da clínica também e pensei: “Tem que ser híbrido”, porque os dois mundos me atraem, eu gosto de fazer análise com animais, e com o tempo percebi, que ter experiência com pesquisa me deu um olhar diferente para a área clínica. Isso tem a ver com o que eu estava contando sobre minha infância, que quando eu era menina, eu sempre queria saber o porquê, se alguém me dizia sim, ou não, eu queria saber por quê? e eu perguntava, por quê? Por quê? por quê? Minha mãe sempre dizia: “A Oriana precisa de uma justificativa, uma base, não adianta só responder, sim ou não... Precisa explicar”.
00:57:43
P1 - E você chegou no Brasil em 2000 e...?
R - 2021, no dia 29 de outubro de 2021.
00:57:52
P1 - Quase no final da pandemia. E você aqui no Brasil, você já veio morar aqui nessa região?
R - Não cheguei na casa dessa mesma amiga que me apresentou meu namorado, já estava aqui há 2 anos, 1 ano, ela está no Sul do Brasil; E ela tinha um amigo aqui em São Paulo que nos recebeu em (no aeroporto de) Guarulhos. Eu morei em Guarulhos no começo, perto do aeroporto, por uns meses até encontrar onde morar. Inacreditavelmente, desde que cheguei aqui nunca fiquei sem trabalho, isso é verdade! Eu falei: “Opa!” que apesar de não poder trabalhar como médica veterinária, posso trabalhar com como auxiliar como monitor em creche, e eu achei que isso foi vantajoso porque trabalhar em creche me ajudou muito com a parte comportamental dos cachorros, trabalhei como como banhista, e gostei, não vou dizer que não, porque também me ajudou na clínica, muitos tutores dizem: “Isso aconteceu no banho…” e eu digo que não, não foi no banho, e explico que eu tenho experiência em todas essas áreas e então eu sei quando foi e quando não foi. Morei em Guarulhos, de lá me mudei para o Horto Florestal, e lá a Marta e eu tivemos que fugir de uma manada de Quatis, isso foi a coisa mais louca da minha vida, eu pensei: “Uau!” Corri de Quatis. Gostei muito do Horto Florestal, por causa do clima, eu gosto muito de áreas verdes, dali passamos a morar em Aldeia da Serra, em Barueri, é um canto bem para lá... Mas eu também gostei muito, porque era uma área rural, verde, e lá a gente encontrou um camping com uma lagoa onde ela aprendeu a nadar, nadou pela primeira vez, eu até tenho um vídeo dela nadando ali. Aí, saí de lá porque já podia trabalhar como médica veterinária, e por lá o mercado de trabalho era limitado e já comecei a conseguir trabalhos em São Paulo e finalmente terminei morando nesta região, morei em vários lugares, mas sempre na Zona Norte de São Paulo.
01:00:35
P1 - Você ainda busca esse sonho de trabalhar, de estudar no Instituto Butantan? Como é que está isso?
R - Olha, isso ainda se mantém, sempre se mantém, nunca deixei de lado, talvez não tão ativo, mas me mantenho atualizada, a FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) mantém algumas atualizações, os trabalhos anuais, eu me informo das técnicas e atualizações que são feitas em pesquisa. O Instituto oferece também alguns cursos, por isso faço atendimento domiciliar, porque muitos cursos são presenciais, tipo disponibilidade de 6 meses para o presencial, com uma bolsa que não é compatível, por isso trabalho fazendo atendimento domiciliar, dessa forma, e eu vou atrás, não me desatualizei. Apesar de que na América Latina, porque é uma coisa latino-americana, vê como desvantagem o tempo em que estou longe da pesquisa e a minha idade, é incrível, mas é assim, em uma das tantas entrevistas que eu tive com pesquisadores, teve um para quem eu perguntei: “Se você tem uma pessoa mais velha precisando de oxigênio, e você sabe que ela vai morrer, você não dá oxigênio porque ela vai morrer?” e ele me falou: “sim, exatamente isso”. Esse é um assunto mais profundo, e eu sou um pouco contra dessa visão, esse tipo de perspectiva, por que, se nós analisarmos como é na Europa, os estudantes da Europa, USA e Canadá vão fazer Pós-graduações, Mestrados, Doutorados, quando já estão com mais de 40 anos, por quê? Porque já têm experiência na profissão, no estudo e agora têm uma base para se especializar na área onde ele acha que é bom, aqui na América do Sul é o contrário, aqui já tem quase que sair do ensino médio com uma especialização nas mãos. Pelo menos o Dr. com que eu trabalhei no México, eu lembro que pedi para ele me deixar ficar aqui com você, ele falou: “Oriana, eu quero que você primeiro trabalhe na sua área para que você saiba depois se realmente quer ir para a pesquisa”. E isso foi a melhor coisa do mundo, porque eu entendi que na realidade eu quero as duas, ou seja, não quero escolher uma, porque uma complementa a outra, ou seja, a visão que eu tenho da clínica me auxilia na pesquisa, tanto quanto a pesquisa me ajuda na clínica. E eu percebo muito isso com os clientes, não sei também se tem a ver com a influência dos meus pais com educação, porque a minha forma de tratar os clientes é muito educativa, é de ensinar, não é somente de tratar, é de ensinar, e por isso gosto da pesquisa também, e quero tentar, porque uma coisa que eu gostaria muito de fazer é dar aulas em universidades, ao fim e ao cabo, gosto de ensinar, não nego, então sim, é uma coisa que eu procuro, vou atrás.
01:04:17
P1 - Vamos voltar um pouquinho no tempo, eu gostaria que você me falasse um pouco sobre a sua relação com os cachorros, os gatos, os animais. Com a vida não humana, né? Por que você pensa que você tem essa relação? O que você gosta deles?
R - O que eu mais gosto é que eles não têm máscara, os animais são totalmente... têm uma energia limpa, limpa que não tem influências, são como são, e dá para perceber. Por isso eu sou apegada com os que não são, e muitos animais não são compreendidos, eu gosto dos venenos porque também gosto das serpentes, a serpente é um animal que não é compreendido; eu ouço muito falar: “ah, porque você tem esse logo com uma serpente, e você atende e tal...” Cara, como é o logo da medicina? Tem uma serpente, não é porque seja uma serpente, é porque os animais muitas vezes não são entendidos. E eu me identifico com isso porque eu também fui e ainda sou uma pessoa que não sou entendida por muitos, porque ajo de forma diferente e quando criança eu sentia isso como um ruído, inclusive dentro da minha família. Dentro da minha família sempre me falaram: “É que você é diferente”; sempre me disseram que eu tinha que ter um comportamento que os agradassem, e eu comecei a falar não; e aí você começa a ser a pessoa ruim da família, porque você começa a ser uma pessoa que fala o que pensa, e eu não gosto disso. “Ah, mas é família!” Ainda que seja família, ainda é um indivíduo que tem que respeitar o outro indivíduo. Com os animais ainda não acontece, o animal é instintivo, “Aí, porque ele morde, que tal...” Muitas vezes por medo; e já me aconteceu algumas vezes que eu, sem saber, estou acariciando um cachorro e me falam: “Nossa, Oriana, esse cachorro mordia!” E eu: “Sério? Eu não mostrei medo para ele porque eu não estava sabendo, e ele ficou calmo, também porque foi algo que fluiu entre nós”. Por exemplo, eu sempre fui uma pessoa a quem não entendiam muito, o cachorro Chow-Chow, Black, era um cachorro que eu me recordo que eu chegava a abraçar e chorar pela frustração que eu às vezes sentia porque não me entendiam. Por isso me apeguei muito a ele, porque era um cachorro que viveu uma etapa, uma etapa onde eu tive muitos problemas com a minha família, pela minha forma de ser, eu tive muitos embates com eles, porque queriam me dizer como eu deveria agir, ainda mais eu sendo a caçula... e eu cortei aquilo e disse que não, não, não, e a Marta também carrega isso porque a Marta também estava em um período onde eu também fiz um corte e falei: “Se você não aprender a respeitar minha forma de ser”, porque não é impor, é respeitar, “eu só vou até aqui com você, acabou”. E com os animais eu não tenho isso, e eu fui inocente no começo, pensando que na veterinária eu não teria contato com humanos. E isso foi a primeira coisa que me falaram na faculdade: “Se você está aqui pensando que não vai precisar ter contato com humanos, está errado”, e eu: “Putz...” Inclusive eu sinto nojo quando são fluidos humanos, eu posso lidar com qualquer fluido animal, mas se for humano, não dá, e por essa razão eu sempre preferi estar com os animais, de uns anos para cá eu comecei a pensar diferente, porque as pessoas que moram com esses animais também precisam de orientação, não só pelas pessoas, mas principalmente pelo bem-estar dos animais, ou seja, minha preocupação é sempre com eles. Às vezes o cachorro do vizinho está latindo e fico frustrada, e digo, pela forma como ele late, que esse cachorro está sofrendo; com os gatos também foi assim, com os gatos não tenho tanto relacionamento porque não tive tanta experiência com eles, tive gatos em casa, mas eles ficavam fora, não dentro da casa, mas ainda assim, aprendi a gostar deles até certo ponto, a dizer: “Opa, esse gato é bonito”. Inclusive, até hoje em dia, às vezes penso: “Nossa, eu gostaria de ter um gato assim grandão, um gato assim bonitinho”.
01:09:43
P1 - Você falou dessa falta de compreensão com os humanos, né? Mas você acha que você compreende os animais? Sim ou não? Como é que você se comunica com eles? Como você percebe os sinais deles?
R - Muito pelo comportamento, comportamento e a postura, o animal te fala muito com a postura, o comportamento dele, o olhar dele. É uma coisa que eu tenho é que sou muito dominante com eles, eu não sou positivista, adestramento positivo, e dependendo de como o animal reage a mim, eu já percebo: “Ok, esse animal não tem limites, não gosta de limites”, porque são os que mais reagem a mim, o tutor possivelmente é uma pessoa que não se deixa orientar. É assim, ou seja, são coisas que me orientam, também porque eu estudei essa área de antropozoologia, eu quero também ser especialista nessa área, no futuro, que é trabalhar as dinâmicas humano-animal. E aprendi com todos os meus animais, porque cada um é diferente, Black tinha seu jeito, Júnior tinha o seu, Comandante tinha o seu, Hugo tinha o seu, Mateo tinha o seu, e isso também me orienta, para dizer: “Opa, eu tive cachorro que fazia isso, possivelmente esse cachorro faça isso”. “Ah, como eu tive um cachorro que fazia isso, possivelmente ele faça isso”. “Ah, conheci uma gata que fazia assim”, ou seja, também trouxe o conhecimento das experiências que vivi com eles. Uma coisa que, por exemplo, a castração, eu nunca fui a favor da castração, porque para mim a castração só retira a responsabilidade de um humano que não consegue manter o animal sem se reproduzir, e sempre briguei por isso desde que me formei. Hoje em dia saíram estudos que dizem que não é todo cachorro que precisa ser castrado. Eu sempre disse que são hormônios, algo natural do organismo, e por que você vai tirar? Também, como mulher e como pessoa humana, nunca estive de acordo com o uso de hormônios. Eu disse: “Colocar isso no organismo prejudica”, eu vi acontecer muito com bois, porque eu fazia inseminação artificial de vacas, para isso fazia uso de hormônios, uso de hormônios, e depois eu olhava como ficavam esses ovários. Inclusive, por exemplo, com cavalos, os cavalos são animais muito sensíveis, eu observava eles e o comportamento e dizia: “Esse cavalo não está bem”, com os bois, eu percebia quando o boi ia atacar, eu já estava do outro lado do portão, fugindo, e o boi já estava correndo atrás de todo mundo e as pessoas perguntavam: “Oriana, como você sabia que ele ia atacar?” E eu respondia: “Algo me dizia, algo me dizia...” Mas esse algo, provavelmente algo dentro de mim, é alguma experiência, algum estudo, que eu tenho na minha memória e que diz que tem algo ali, naquele comportamento, que está me falando, é o que a gente chama de instinto, mas não é um instinto, é um conhecimento que vocês têm, só não reconhecem, mas está em vocês e te diz: “Ele vai atacar”. Foram poucos os pacientes a quem eu me neguei a atender, poucos. Porque tem algo que me diz: “Vai me morder”, então é uma mistura tanto da experiência pessoal com tantos animais que eu tive e os estudos que eu fiz, como estou sempre estudando, lendo, buscando informações sobre eles, como posso compreendê-los mais e melhor. Eu também nunca disse que eles são seres superiores, sempre disse que são iguais. É um ser vivo, igual às árvores, sou uma pessoa que posso chorar porque estão derrubando uma árvore. Porque eu digo: “Cara, isso é uma vida”. Ou seja, o egocentrismo humano pra mim não cola... Teve um dia que, batendo um papo com alguém, perguntei: “E se o ser humano desaparecesse?” “Seria bom para o planeta Terra”. “Não! Como poderia ser bom?” Pesquisa aí: “O que vai acontecer se o ser humano desaparecer?”... Nada. E se desaparecem os mosquitos? Desaba tudo... Agora, se o ser humano desaparece, não... A vida toda fui mais ligada aos animais, me lembro de que com 5 anos, menos de 5 anos, eu falei: “Vou estudar veterinária”, só que naquela época eu não sabia por quê, e depois eu entendi que era porque eu precisava saber como eles funcionam, saber como eles funcionam do macro ao micro, e do micro ao macro, para mim, significa entendê-los, e o meu raciocínio vai por aí; e é isso que eu faço na clínica, pensando: “Mesmo que eu administre essa medicação, vai acontecer aquilo”. E a minha mente vai viajando... e é sobre conhecê-lo, como ele se comporta: “Ah, ele me mordeu, ele está... E eu não sei o que está acontecendo”, mas eu preciso pensar: “O que eu estava fazendo quando ele me mordeu?” Aí me concentro mais no comportamento e penso: “Não, ele estava deitadinho” e tal, e eu cheguei assim: “Ah, ele se assustou!” ou me dizem: “Ele estava acordado, peguei ele assim, de repente, e ele me mordeu”. Eu penso: “Ah, isso já é dor!”
01:25:01
P1 - Pra quem não conhece a Marta, como é que você a descreveria, o corpinho dela? E o jeito dela?
R - O corpinho dela, para mim, ela é um porte-médio, é uma cachorra que sempre foi atlética, eu sempre puxei ela para fazer atividade física, ainda faz, quem não conhece ela, a maioria, fala que ela é muito calma, boazinha, tudo. Ela tem personalidade! É uma cadela que precisou aprender muito, melhorar. Inclusive meu namorado brinca que ela se parece com a Dona, porque também não é muito sociável; eu posso dizer que na vida toda ela só brincou com 4 cachorros, tanto que quando ela está brincando eu falo: “Deixa ela brincar”, como essas mães de crianças que não são muito sociáveis e que se emocionam quando veem a criança brincando. Porque ela não é uma senhora muito sociável, e sim, eu aceito o fato de que ela seja muito parecida comigo nisso! Ou seja, não todo mundo, somente algumas pessoas... De resto, é uma cachorra que aprende muito, para o bem e para o mal, é muito assim. E muito boa mãe, isso sim, mesmo com filhotes que não são dela, quando se encontram na rua, ela ensina como deve se comportar. E é uma cadela que eu agradeço por ter sempre comigo, desde o primeiro dia em que estamos juntas.
01:26:45
P1 - Você acha que ela sofreu um pouco com tanta mudança de lugares ou não? Como é que ela se adaptou?
R - Todas as vezes que nós mudamos, com a mudança de país não teve problema! Ela não se estressou nesse momento, não. Ela teve mais problemas para mudar de casa, porque, no começo, ela ficava procurando o canto dela. Mas, de país, ela nem prestou atenção. Inclusive, na primeira vez que ela tomou banho em um Pet Shop, na primeira vez na creche, quando pegou um voo pela primeira vez, nem se estiver num carro e essas coisas todas. É uma cadela que teve uma experiência que nenhum outro cachorro meu teve, exceto a salsicha. Ela também foi para a praia com a gente, ela teve experiências totalmente diferentes e não ficou mais estressada por isso, ela inclusive aprendeu uma coisa, porque eu não gosto quando os cachorros lambem, e ela aprendeu. E, quando está com medo, ela se aproxima e me dá uma lambidinha muito suave... e aí, tudo bem... Mas, na verdade, ela não se estressa com as mudanças; ela se estressa quando eu estou estressada, por isso, quando eu vejo que ela está com sintomas de estresse, eu penso que eu preciso me acalmar, eu tenho que relaxar porque senão ela começa a ter sintomas.
01:28:25
P1 - E como é que é o seu dia a dia com ela? O que ela gosta de fazer, o que você percebe que ela gosta de fazer?
R - Se eu acordo depois dela, ela tenta me acordar, se eu estiver escondida debaixo do cobertor, ela puxa o cobertor para que eu me levante. Aí, a primeira coisa que ela faz é ir pegar a bolinha dela e traz a bolinha pra gente brincar. Aí a gente toma o café da manhã, ela toma o café dela, ela espera até que eu traga alguma coisa para ela, daí a gente vai para o parque, que é o que deixa ela mais emocionada, tipo: “Vamos sair, vamos sair!” E vamos para o parque para ela fazer seu xixi, seu cocô, tudo isso, depois, se eu saio para trabalhar, se faço alguma coisa, ou estou aqui em casa, ela dorme, dorme o dia inteiro, mas, quando chegam às 4h ou 5h da tarde, ela começa a ficar ativa. E, se eu estou aqui em casa, ela começa a me puxar como que dizendo que já acabou o tempo, ou, se estou na cama, ela também começa a latir, tipo: “Vamos, está na hora, e me dá atenção”. E, à noite, a gente sai de novo para passear, fazemos toda a sua rota. Às vezes troco de rota, encontra outros cachorros que ela já conhece, outros cachorros que não conhece. Durante a rota, ela me ajuda a mostrar para outras pessoas como dirigir seus cachorros, como apresentar o seu cachorro a outros cães, porque, às vezes, a pessoa simplesmente não sabe... e eu falo: “Olha, deixa ela se aproximar, deixa ela cheirar assim”; ela me ajuda com isso, a pessoa muitas vezes não sabe... então ela me ajuda também nessa parte profissional, através dela eu tiro as dúvidas das pessoas, é como um cartão de apresentação que eu tenho.
01:30:40
P1 - Você se lembra de algum dia que você achou especial que você passou junto dela? Alguma situação te marcou? Não precisa ser uma só...
R - Um dia especial. Bom, eu acho que tem vários momentos em que fizemos coisa especiais, como ter passado um 31 de dezembro na montanha com ela, acampando; lá eu descobri que ela é friorenta, eu tive que colocar um gorro nela, tive que vestir ela com minhas coisas, porque ela, literalmente, saía da barraca, fazia xixi e voltava; e, às 6h da tarde, ela arranhava a entrada da barraca e começava a latir, como que dizendo: “Me deixa entrar que a temperatura está caindo e não dá!” Esse foi um momento muito especial que eu passei com ela, olha, foi o melhor. Depois a vez em que ela nadou naquela lagoa comigo, quando ela aprendeu a nadar, e quando fomos para a praia, o engraçado foi que foram uma amiga e o meu namorado que disseram: “Vamos levar para a praia”, e foi quando surgiu todo o assunto de vir para cá, que não ia dar para fazer a prova, foi uma forma de espairecer; levamos ela para a praia e descobri que ela se queima: “Então você se queima...” São todas experiências boas que tivemos durante esse tempo todo, e, entre todas, a que eu mais gostei foi, provavelmente, ter acampado com ela, pra mim foi uma das melhores.
01:32:28
P1 - E você imagina o seu dia a dia sem ela? Como seria?
R - Olha, uma vez, por exemplo, convidaram ela para uma creche, eu deixei ela ir e fiquei o dia todo sem ela, e foi esquisito, porque ela não estava e eu ficava pensando: “A Marta não está aqui...” Eu já me acostumei com ela e não é igual, não é igual. Tem gente que me pergunta por que eu não pego outro cachorro, para que se acostume com ela, e ela, o duque, e eu digo que nenhum cachorro vai ser igual, sim, talvez fosse bom para que os 2 se acostumem, mas agora, neste momento, não. Pensar em estar sem ela, eu sei que é uma possibilidade e que vai ser duro, eu digo que eu vou desmontar, vou cair totalmente, só de pensar que ela não está.
01:33:31
P1 - E você conversa com ela?
R - Sim, por exemplo, quando eu decidi que ia começar a fazer as coisas por minha conta, eu peguei e disse para ela: “No começo vai ser difícil, mas nós duas vamos juntas...” Às vezes ela está assim, meio... e eu falo: “Calma, vamos juntas”, ou seja, sim, eu falo com ela; dizem que eles são nossos totens, e eu falo para ela: “Eu preciso da tua ajuda”. Ela é meu talismã, então é difícil pensar que ela não esteja, ou que esteja em uma situação mais vulnerável... é difícil porque tem muitas coisas que eu quero fazer com ela, às vezes eu não consigo fazer, mas eu quero fazer com ela, por exemplo ir em um desses passeios com atividades para cachorros, que fazem em Vinhedo, eu gostaria de poder ir, mas sempre precisa de carro para viajar, então eu disse: “Bom, por enquanto não podemos”; o máximo que eu consegui fazer até agora foi levar ela no Ibirapuera e na Avenida Paulista completa, e ela não gostou, porque foi muito cansativo; ela gostou do Ibirapuera, porque encontrou um monte de cachorros, gostou, mas, quando chegamos na Paulista, definitivamente não é o lugar dela! Então é dar uma melhor qualidade de vida para ela, não é comprar roupa para ela, não, o que eu sempre procuro fazer é dar a melhor comida possível, para que ela se alimente bem, fazer atividades físicas para que se mantenha em forma, fazer um check-up anual, que sempre faço com ela, e que ela esteja bem, é isso que eu desejo para ela, e sempre procuro fazer com ela atividades físicas, e não atividades tipo ir no shopping, a creche era uma atividade para ela, mas ela não gostou... ficou estressada... me disseram: “Dra., ela não gosta”. Eu disse: “Eu sei que ela não gosta”.
01:36:21
P1 - Você tem sonhos junto dela?
R - Sim, eu gostaria que a Rottweiler também estivesse conosco, mas ela faleceu, lamentavelmente. Essa também foi uma coisa com a qual ficamos mal. Mas a Marta foi quem ganhou tudo, tanto de mim como do meu namorado, que ele está sempre perguntando como ela está e tudo. Há pouco tempo tive a oportunidade de pegar outros 2 cachorros, bons cachorros, mas eu: “Agora, agora não posso...” Ela está acostumada à minha rotina, e eu à dela... eu posso passar o dia inteiro fora, e minha mente está: “Tenho que voltar porque a Marta não fez xixi”. Às vezes me falam: “Você pode vir e fica aqui”. Mas não dá, porque ela não faz xixi.
01:37:26
P1 - Preciso de tempo para fazer duas perguntas só, pode ser?
R - Pode.
P1 - A primeira que é a penúltima, né? Você acha que vale a pena passar a vida com os animais, com a Marta? Tem valido a pena? Vale a pena? É bom?
R - Vale, vale a pena, de qualquer jeito, posso falar tanto do ponto de vista profissional como para a imunidade de uma pessoa, que dá uma boa imunidade, como posso falar de socialização também. Ou seja, isso ajuda muito. Por mais que uma pessoa seja fechada, socializar com outro ser vivo te oferece outras perspectivas. E, como falei no começo, eles nos ensinam muitas coisas, então vale a pena, totalmente.
01:38:21
P1 - Como foi contar um pouco da sua história e da história da Marta pra gente hoje? Passou rápido, né?
R - Passou rápido. É muita história pra contar, obviamente foi um resumo muito condensado. Foram muitas emoções, porque foi lembrar coisas que eu tinha esquecido, mas me lembrei de uma boa maneira. Obviamente outras que sempre mexem um pouco com o coração, mas foi legal. Gostei.
P1 - A gente adorou. Obrigado, Oriana.
R - Obrigada a você.
P1 - Obrigado a você, obrigado por ter aberto a sua casa.
R - Obrigada a vocês, por ter vindo.
01:39:02
P1 - E a gente vai... Podemos cortar, né? A gente vai fazer o melhor para que essa história saia o mais rápido possível, pra você ter notícia disso.
R - Sim, quando eu fiz a história foi um ponto de vista, foi referente a isso que aconteceu com a imigração venezuelana, muitas famílias jogaram fora os animais, ou seja, os animais ficaram literalmente nos quintais. E eu queria trazer essa história, precisamente por isso. Eu sei que é difícil, mas não é impossível manter uma família junta. Porque eles são família, ao fim e ao cabo são família. Então eu queria contar a minha história para que as pessoas não tenham mais desculpas, essa justificativa de que é difícil, que é muito caro. Sim, é, mas não é impossível, e que dizer que mudou de casa não justifica. Eu me mudei de país sem ter para onde ir na chegada, e trouxe a minha cachorra. Esse era meu objetivo principal, trazer um pouco de conscientização para as pessoas de que quando pegam um animal é uma responsabilidade que se assume por no mínimo 10 anos. Então esse é o meu objetivo de participar desta exposição.
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