Entrevista de Rafaela Fernandes Azevedo
Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 11 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV006
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:08
P1 - Rafa, para começar, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - Meu nome é Rafaela e nasci dia 1º de fevereiro de 1993 em Foz do Iguaçu (PR).
00:00:44
P1 - E me conta qual é a primeira memória que você tem da infância?
R - A Primeira memória da infância? Acho que é... O que eu mais lembro na verdade é o que eu tenho vídeo, então eu assisto o vídeo e lembro de algumas coisinhas, não tem algo fixo, o que eu lembro é o meu aniversário de 3 anos. Lembro que minha mãe comprou um vestido azul e ela estava com um vestido azul, então ela comprou um vestido pra mim, pra ficar igual. E acho que era até um coelhinho a vela, alguma coisa assim. Então eu lembro de pegar aquele pacotinho do vestido e ver (falar) “- Nossa, é igual ao seu e tal”. Então essa é a memória que eu tenho mais firme na minha lembrança, uma das primeiras na verdade, eu acho.
00:01:26
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Minha mãe é Dirlene e meu pai é Joaquim.
00:01:31
P1 - E como você descreveria eles?
R - Ah, Meu Deus, como eu descreveria eles? Ah, eu acho que pais que adotam, eu acho que eles colocam amor, à frente de tudo, até porque é uma responsabilidade você cuidar de crianças que não vieram deles, então, às vezes até crianças que vieram de situações complicadas como eu, por exemplo, então acho que a gente coloca amor, em primeira instância. Então, primeiro coloca amor, depois veio umas situações complicadas, mas isso já é, acho, que da relação deles, que foi meio que complicando, mas no início eu coloco o amor mesmo.
00:02:10
P1 - E você chegou a conhecer os seus...
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Entrevistado por Bruna Oliveira (P1) e Nataniel Torres (P2)
São Paulo, 11 de janeiro de 2026
Projeto A Vida Que Compartilhamos
Entrevista PRE_HV006
Realização Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revista por Nataniel Torres
00:00:08
P1 - Rafa, para começar, eu queria que você começasse se apresentando, dizendo seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R - Meu nome é Rafaela e nasci dia 1º de fevereiro de 1993 em Foz do Iguaçu (PR).
00:00:44
P1 - E me conta qual é a primeira memória que você tem da infância?
R - A Primeira memória da infância? Acho que é... O que eu mais lembro na verdade é o que eu tenho vídeo, então eu assisto o vídeo e lembro de algumas coisinhas, não tem algo fixo, o que eu lembro é o meu aniversário de 3 anos. Lembro que minha mãe comprou um vestido azul e ela estava com um vestido azul, então ela comprou um vestido pra mim, pra ficar igual. E acho que era até um coelhinho a vela, alguma coisa assim. Então eu lembro de pegar aquele pacotinho do vestido e ver (falar) “- Nossa, é igual ao seu e tal”. Então essa é a memória que eu tenho mais firme na minha lembrança, uma das primeiras na verdade, eu acho.
00:01:26
P1 - E qual é o nome dos seus pais?
R - Minha mãe é Dirlene e meu pai é Joaquim.
00:01:31
P1 - E como você descreveria eles?
R - Ah, Meu Deus, como eu descreveria eles? Ah, eu acho que pais que adotam, eu acho que eles colocam amor, à frente de tudo, até porque é uma responsabilidade você cuidar de crianças que não vieram deles, então, às vezes até crianças que vieram de situações complicadas como eu, por exemplo, então acho que a gente coloca amor, em primeira instância. Então, primeiro coloca amor, depois veio umas situações complicadas, mas isso já é, acho, que da relação deles, que foi meio que complicando, mas no início eu coloco o amor mesmo.
00:02:10
P1 - E você chegou a conhecer os seus avós?
R - Os avós biológicos, não, mas os avós adotivos, sim, hoje eles já não estão entre nós, mas eu conheci. Minha avó morava justamente próximo daqui onde eu moro, minha avó por parte de pai, minha avó por parte de mãe, ela morava numa região próxima também, eu conheci bem pouco ela, e eu sentia muito carinho por ela, apesar de não ser muito presente. Mas eu acho que ela era avó por parte da minha mãe, a mãe da minha mãe, era a avó que eu tenho mais... até sonho com ela, mas não era tão próxima dela fisicamente, mas é a que eu sinto mais carinho.
00:02:46
P1 - E você sabe por que você se chama a Rafaela?
R - Boa pergunta. Acho que eu já fiz essa pergunta para os meus pais, mas eles devem ter me respondido uma vez ou outra, mas eu não me lembro, o motivo. Não sei se é porque não foi tão importante ou porque eles queriam, não sei, não me lembro, não me lembro por quê.
00:03:07
P1 - E tem algum cheiro, alguma comida, alguma festa na sua infância que tenha uma memória afetiva pra você?
R - Algum cheiro, alguma festa…
P1 - Comida?
R - Ah, eu lembro que minha mãe fazia muito, quando era família reunida, família grande, na época, minha mãe fazia um bolo que chamava Chiffon (Bolo Chiffon) e ela disse que a única pessoa, depois dela, que fazia mais, com mais insistência era eu. Hoje eu não faço mais esse tipo de comida, porque eu não quero, mas antes eu era a próxima que fazia mais esse bolo, então era da mãe dela, que era da minha avó, ela fazia e ela passou a receita pra mim e eu comecei a fazer. Mas isso quando eu tinha 15, 16 anos eu fazia, hoje eu não faço mais, mas fala no bolo de Chiffon, eu sei que lembra da minha mãe. E do meu pai, eu vou falar um negócio muito, que é mais sério, meu pai, se você falar Itaipu Binacional (Usina Hidrelétrica de Itaipú), que é onde ele trabalhava, é isso que lembra do meu pai, não lembro de outra coisa, eu acho que é porque ele trabalhava bastante.
00:04:15
P1 - E como foi a sua primeira infância, foi lá em Foz do Iguaçu?
R - Eu nasci em Foz do Iguaçu, eu fui adotada, eu lembro que a minha primeira casa foi uma casa de madeira, anos depois eu lembro que meus pais passavam na frente dela e tudo, e eu lembro da minha casa, casa de madeira, tinha um carpete verde e tal, a maior lembrança que eu tenho vem dos vídeos que eu tenho, eu assisto e falo: “Ah, lembrei disso, lembrei daquilo”, então, não tenho algo na minha cabeça, alguma coisa que me chamou tanta atenção na primeira infância... eu lembro que tinha esse carpete e tal, a gente brincava ali e tudo, acho que é mais isso que eu tenho, não tenho tanta memória da primeira infância dentro de mim, não lembro, (lembro) mais assistindo os vídeos mesmo, essas coisas.
00:05:07
P1 - E você é filha única?
R - Não, tem mais 3 irmãos, tenho mais 1 irmã e 2 meninos, já todos mais velhos que eu.
P1 - E como é que era a relação de vocês na infância?
R - Então, eu com o meu irmão mais novo, como ele era adotado também e a gente tinha uma idade próxima, nós éramos criados como se fossemos irmãos gêmeos, aonde eu ia, ele ia, aonde ele ia, eu ia... Lógico que se fosse algo particular dele, um esporte, uma coisa, ele ia sozinho, eu não ia, mas a gente era sempre ligado, eu ia no shopping, ele ia junto, a gente ia na piscina, ele brincava junto, então ele estava mais sempre junto com a gente. Agora, os irmãos mais velhos já tinham uns 16 anos quando apareci em casa, então eles já tinham uma idade maior, já estavam na escola, fazendo trabalho, indo na casa dos amigos. Eu acho que a pessoa que eu mais tenho afeto é minha irmã, o meu irmão já era um pouco mais bravo, tinha um pouco de agressividade e tudo..., mas a minha irmã era a que mais protegia a gente caso acontecesse alguma coisa, mais cuidava da gente.
00:06:06
P1 - Tem alguma história, de algum momento que você lembra que ela estava junto com vocês e foi importante?
R - Até tem, mas isso eu não poderia... agora... Eu vou lembrar de outro aqui, então vamos ver se tem algum outro momento.... Ah, tem um momento que foi muito... não sei se é bom ou ruim e tal. Eu lembro que a minha irmã ia viajar, ia embora para Fortaleza, ia estudar, acho que ela tinha 17, 18 anos, ela ia fazer a faculdade em Fortaleza, a gente morava em Foz, e ela ia para Fortaleza para estudar, e eu lembro que eu estava sentada na sacada do prédio, eu estava brincando de Barbie e tal, e todo dia eu chamava ela pra brincar, eu (falei): “Vem brincar e tal”; e nesse dia ela falou assim: “Não”. Eu falei: “Não?” Eu era criança e tal. E minha mãe (falou): “Não, ela não vai porque ela tem que arrumar as coisas dela, de adulto”.
E eu pensei: “Mas como assim? Não vai brincar mais comigo?” Eu desse dia em diante, eu derreti, não quis brincar mais... não nada... Porque era só eu de menina ali, tinha meus irmãos, mas eles ficavam fazendo outras coisas, desde esse dia até hoje eu fico com essa memória na minha cabeça, que ela não quis mais brincar comigo e depois ela foi embora e acabou pronto! Fiquei eu ali brincando sozinha com as bonecas, quando eu queria ainda, quando eu tinha vontade, mais essa lembrança das coisas importantes, eu nem sei se ela sabe disso, mas... Eu tenho isso comigo.
00:07:21
P1 - E quais brincadeiras que você gostava de ter, de fazer na primeira infância?
R - Ah, eu gostava de dançar, muito... gostava de dançar, naquela época lá, nos anos 2.000 e um pouquinho, pra trás, o pessoal tinha aqueles (aparelhos de) som grandes, aquelas coisas, então meu pai colocava música lá, eu ficava dançando e adorava ficar mexendo no rádio, ficar mexendo nessas coisas, então eu gostava de dançar mesmo, eu tinha boneca, tinha... Barbie, essas coisas, mas acho que se colocasse música ali, eu preferia dançar, cantar e todas essas coisas.
P1 - E tinha alguma música específica?
R - Não, não tinha nenhuma específica. Eram musiquinhas meio de criança e tal, era mais isso que eu gostava, de dançar e tal. Até na adolescência eu colocava as músicas e ficava no quarto fazendo show, e era música mesmo, assim mais...
00:08:09
P1 - E como é que era o bairro em que você passou a infância?
R - Era muito tranquilo, porque Foz de Iguaçu é uma cidade muito... Era uma cidade muito tranquila, então dava pra gente até passar na rua, na frente da minha casa... Até hoje tem uma pista, da primeira casa, da primeira infância, tem uma pista de barro, ela é toda ondulada, que é pro pessoal andar de bike lá, tudo. Então até hoje tem essa pista, então ela era tão tranquila que a garotada ia lá andar de bicicleta na terra, lá tudo. Então era bem zen, dava pra andar na rua de boa, se eu quisesse, era bem... meus pais chamavam uma amiguinha, que também foi adotada na época, e chamava pra ficar brincando, pra gente fazer reunião, fazer festinha ali.
00:08:48
P1 - Você brincava na rua?
R - Não brincava na rua. A gente tinha um dia que meus pais chamavam essa amiguinha, ou os amigos deles, chamavam eles, a gente abria o portãozinho, que era aqueles portões de madeira pra rua, então eles abriam e eu ficava brincando ali enquanto meus pais estivessem ali, mas eu não era aquelas crianças de brincar na rua, tipo, os coleguinhas, meus pais não deixavam, (se eu falasse) “Ah, os colegas estão chamando pra jogar bola…” Não, a gente não podia, era mais restrito a isso, mais só quando eles estivessem ali por perto mesmo.
00:09:15
P1 - Como você ia para a escola, como que era, você ia a pé?
R - Não, ia de perua, que chama perua aqui, mas lá a gente chama de van, a van escolar mesmo, até os 14 anos, até os 13, 14 anos eu ia de perua, de van...
00:09:32
P1 - E como é que era na escola? Você gostava de ir?
R - Eu não gostava das férias, porque nas férias eu ficava em casa, eu tinha que fazer coisas que eu não gostava, obviamente... Então eu gostava muito de ir para a escola, apesar de eu não ser uma pessoa, uma criança muito estudiosa, eu gostava de ir pra escola pra não ficar em casa, mais por isso. Tá, eu estudava, tinha as amiguinhas e tudo, mas eu preferia não ter férias. Eu rezava para as férias acabarem logo, para eu ficar na escola.
00:10:00
P1 - E tem algum professor, alguma professora, alguma matéria que tenha sido marcante pra você na escola?
R - Se você me perguntar uma professora, é uma professora chamada Gisele, que é a minha professora de jardim III, que foi a primeira professora da minha vida. Todas as outras foram amorosas, carinhosas comigo, mas eu acho que essa por ser a primeira, eu tenho essa coisa de ser a primeira, é ela, eu tenho contato com ela até hoje e tal, então ela é a... Primeira que... Foi a professora de jardim III, ela dava todas as matérias, estava... tudo bom, dava aulas lúdicas também.
00:10:35
P1 - Rafa! E nessa primeira infância, até os 10 anos, mais ou menos, você tinha contato com outros animais, ou não?
R - Meu pai tinha um cachorro da capa preta, esqueci agora, fugiu a raça, ele tinha, mas é aqueles cachorros criados no quintal. Ele ama animais, só que tinha dois lados, meu pai amava e minha mãe detestava, então ele ficava no canto dele com os cachorros dele e minha mãe do outro lado não queria nem limpar a sujeira, nem nada. E ela obrigou meu pai a doar aquele cachorro, quando a gente apareceu, porque era muita criança, era muita coisa pra ela cuidar, e então ela chegou um dia e falou pra ele se livrar daquele cachorro. E ele amava ele, eu não lembro muito como foi a situação, mas eu sei que meu pai ficou bem chateado, ele teve que doar o cachorro que ele amava demais, e um tempo depois, acho que com uns 9, 10 anos, meu pai insistiu: “Vamos ter outro cachorro e tal…” e a gente teve outro cachorro, era a Lara, ela era (um cruzamento entre) Mastim Napolitano com Dog Alemão, então ela tinha 4 meses e ela passava do meu joelho. Então ela tinha hérnia de disco, tinha muitos problemas e minha mãe... Ficou brava de novo, não quis ter mais um cachorro pra cuidar e pediu pro meu pai dar o fim, e ele doou pra um outro lugar. Então, mais uma vez, ele perdeu a batalha. Mas foram os únicos animais que eu tive contato. Ah, já fui em zoológico de lá, e aqui de São Paulo, eu vinha nas férias, eu já fui em zoológico também, mas nada... Não era tão próximo, minha mãe não deixava encostar, tudo. Como ela não gostava, a gente tinha que não gostar também, digamos assim, por dentro eu gostava muito, entendeu? Eu queria até fazer biologia, eu queria ter feito veterinária, só que lá no Paraná ela dizia que lá não tinha visibilidade essas áreas, que eu não poderia nem pensar nisso. Mas olha aí! Agora eu tenho um cachorro e um gato.
00:12:24
P1 - Mas nessa época, mesmo você não tendo, você tinha vontade?
R - Então, tinha vontade, e a minha casa quando eu tinha 9, 8 anos, acho, a gente morava do lado do Rio Paraná, onde tinha floresta, mata, então entrava macaquinho, entrava aranha, tarântula, entrava cobra, e a primeira coisa que a mãe falava era matar... E eu: “Mas não pode matar, eu não quero matar”. Tipo, a tarântula você pode até pegar na mão hoje, e eu pedia pro meu pai pegar, eu chamava meu pai, escondia o animal, deixava quieto ali e esperava meu pai chegar do trabalho (e falava): “Pai, você pode pegar e por lá no mato? Porque senão a mãe vai matar e tal, você pode pegar tal bicho?” Aparecia cobra, eu varrendo o quintal, na frente, (eu tinha uns) 10 anos, apareceu uma cobra lá, não lembro qual, eu liguei pro guarda, pra ele vir tirar a cobra pra jogar do outro lado do rio, pra minha mãe não vir e matar, então é um dos contatos que eu tinha mais com animal.
00:13:14
P1 - E era uma relação mais de cuidado mesmo, não de ter medo?
R - É mais cuidado mesmo. É porque, meu irmão mais novo, ele é fissurado, era fissurado, hoje não tanto, mas ele era fissurado em animais, então tinha uma TV pra nós dois. A gente tinha outras TVs, mas a gente só podia assistir uma TV e ele ia assistir o canal de animal e eu (falava): “Ai, que chato!” Mas com o tempo eu fui gostando, eu fui gostando daqueles programas de animal, eu ficava assistindo. Contanto que tivesse um comportamento de cachorro eu assistia, sem ter cachorro, eu assistia e tal, e fui pegando gosto.
00:13:49
P1 - Entendi. E... Em que momento você se muda para São Paulo? Foi bem mais tarde?
R - Na verdade, eu ia fazer 15 anos, aí 15 anos tem aquelas (perguntas) “Você quer festa ou você quer viagem?” E a minha irmã teve festa de aniversário, debutante, essas coisas, e como minha mãe não queria que eu fizesse festa, porque eu não tinha contato com as minhas amigas, porque eu não podia ser igual a minha irmã, entendeu? Só porque minha irmã teve festa, eu não teria festa. Ela já me dava essa certeza, então ela falava, “você quer ir pra uma festinha? Uma festinha assim, ou você quer viajar?” Eu falava: “Se não for pra ter uma festa de debutante, então eu prefiro viajar!” Só que a viagem era me mudar para Fortaleza, que é onde a minha irmã já estava morando. Eu mudei pra Fortaleza, fiquei 6 meses lá estudando, mas não deu certo, eu acabei não estudando direito. Mas o propósito da minha mãe me levar pra lá é porque ela tava se separando, meus pais estavam em conflito, então ela preferiu que eu viajasse mesmo pra eu não ficar nessa situação. E eu acabei reprovando lá, voltei para o Paraná, fiquei mais 6 meses, eu não estudei, reprovei esse último ano de ensino médio, no terceiro ano, e minha mãe falou: “Traz ela lá pra cá, pra São Paulo”; minha mãe já estava aqui, “Traz ela para São Paulo, porque ela não vai estudar”. Então eu vim pra São Paulo, fiquei na casa da minha outra tia, que aqui mora meu tio (aponta para cima). Eu vim pra casa da minha outra tia, a gente ficou 1 ano e tal, e depois eu comecei a faculdade.
00:15:08
P1 - E essa decisão de voltar para cá foi uma decisão da sua família, de você voltar, e retornar para São Paulo, foi uma decisão da sua família?
R - Foi. Na verdade, como não estava me dando bem em Fortaleza, não estava estudando bem lá e tal, não estava me dando bem na escola, minha mãe já falou: “Não, tira ela daí, traz ela de volta para Foz”; Só que eu cheguei em Foz e minha mãe já não tava lá, estava só meu pai, só que como eu falei, meu pai trabalhava o dia inteiro, ele trabalhava o dia inteiro, chegava à noite e ele saia pra fazer as coisas dele, então não ficava ninguém em casa. E eu era uma pessoa muito iludida com as coisas, então eu chorava, ficava triste, “cadê todo mundo?” Eu tinha uma família grande e cadê todo mundo? Estava só eu, meu irmão e meu pai. E eu não consegui estudar direito, me concentrar direito durante o resto do ano. Minha mãe falou: “então traz ela pra cá, pra São Paulo, que ela vai estudar aqui comigo, comigo na marra”; e acabou, graças a Deus, eu vim e me formei no ano seguinte, acho que foi 2011, que eu vim pra cá, 2010/2011.
00:16:12
P1 - Voltando só um pouquinho na infância, você tinha sonho de ter alguma profissão específica quando você era pequena?
R - A profissão mais forte que eu tinha, era ser oceanógrafa, acho que é assim que fala, fazer oceanografia, mas lá no Paraná não tem esse tipo de (curso), é mais aqui em São Paulo que tem, na USP, descobrimos a que tinha aqui na USP e tal, mas já era meio que tarde, mas meu sonho era mergulhar, nadar, ver os bichos marinhos que não são tão vistos a olho nu, então (meu sonho) era fazer isso, mas minha mãe falou: “Não, não dá, aqui não tem…” Eu pensei: “Então vou fazer veterinária”, e ela disse: “Também não dá, não sei o que…” Como eu já fazia bastante esporte, fazia natação, basquete, balé, essas coisas, (pensei): “Então eu vou para a área de esporte, só que eu quero fazer parte do Circo de Soleil (Companhia multinacional de entretenimento, sediada na cidade de Montreal, Canadá) Eu quero ser ginasta do Circo de Soleil”, tudo coisa grande... E fiquei no esporte, e já entrei na faculdade de Educação Física, não para ser do Circo de Soleil, mas porque quando eu vim para São Paulo, mudou toda a estrutura da minha vida, eu já tinha me formado em balé, eu pensei que eu ia vir pra cá, que eu ia estudar balé, ia ser professora de balé, mas minha vida foi pra outro caminho, então fui estudando, fui tendo a minha casa, fazendo meus corres e acabei não caindo no balé, fui pra outra área.
P1 - E você gostava do balé?
R - Adorava, até hoje eu gosto, até hoje tenho minha sapatilha de balé também, a de ponta. Adorava, muito, muito mesmo. E a professora me selecionava para algumas coisas que eu me sentia importante, então gostava bastante.
00:17:36
P1 - E como foi esse momento da mudança? O que você sentiu quando você se mudou pra cá?
R - A mudança foi um ano bem... Acho que minha mãe tentou esconder ao máximo, mas pra mim foi um ano bem difícil, o ano que eu vim pra cá, porque eu ficava na cabeça, adolescente, eu não sei... eu ficava na cabeça (pensando): “Nossa, meus amigos estão pra lá, aqui ninguém me conhece, ninguém…” Porque eu sou daquelas pessoas que eu gosto muito da pessoa que já me conhece há muito tempo, eu sou assim, eu gosto firme da pessoa quando ela me conhece já há muito tempo. Não é só de conhecer, eu gosto, respeito todo mundo e tal, mas eu ficava assim: “Nossa, mas aqui ninguém me conhece, o que eu vou fazer aqui? Aqui não é a minha terra e tal”. Minha mãe conhecia muitas pessoas daqui, porque ela já era daqui, mas eu me sentia uma excluída: “Eu não conheço ninguém e tal” . Mas a gente tem que ir tocando a vida. Isso foi no primeiro ano, no segundo já comecei a trabalhar pra minha mãe, na empresa da minha mãe, numa casa alugada nossa, eu ficava até à meia noite trabalhando, então acho que era pra eu esquecer tudo isso, eu ser focada em alguma coisa. Então, fui levando... Foi isso. E aqui em São Paulo eu fui aos meus primeiros shows, eu comecei a ter liberdade de sair, que lá no Paraná não tinha essa liberdade. “Ah, Mãe... Me leva no show do Teletubbies”, não, não podia. Me leva... não, não podia. Então a gente era muito, vivia muito numa bolha, e aqui em São Paulo foi quando ela falou que eu podia ir ao primeiro show, eu me senti tipo assim: “Nossa, isso existe, eu posso, entendeu?” Foi louco. Acho que foi com 18 anos, 19 anos.
00:19:02
P1 - E qual que foi o primeiro show, você lembra?
R - Foi o da Miley Cyrus, lá no Anhembi, e na verdade não foi ela que falou: “Você quer ir?” Foram as minhas primas que ficaram falando na orelha dela: “Nossa, eu vou no show, vou no show!” E um dia eu escutei e fiquei amuada, tipo, eu já estava trabalhando e ela falando na orelha da minha mãe. As minhas sobrinhas mais novas que vão poder ir no show e eu até hoje nunca fui em nenhum, não posso, não sei o quê; Não era por conta de dinheiro, era porque a minha mãe não queria mesmo. E quando minha mãe me viu assim, passou uma semana, ela falou: “Quer ir no show? Mas você vai com o seu salário, que é o salário que eu te pago”. Eu disse: “Tá bom, então vou”. Eu fui e foi bem bacana. Eu já trabalhava pra ela, então acho que era o mínimo que ela podia me oferecer, pelo menos ir num show, e foi legal. Então eu fui me acostumando a ficar aqui na cidade por conta de tudo isso.
00:19:49
P1 - E teve algum outro show que foi marcante pra você? Que você foi?
R - Eu fui em outros, mas eu acho que esse, por ser o primeiro, foi o mais marcante, o da Miley Cyrus, o mais marcante. Não por conta do show, da estrutura... Não, porque eu fui, saí um pouquinho da minha casa, sair um pouquinho da minha bolha, porque eu saí do Paraná, vim pra São Paulo, fui estudar e no outro ano já fiquei trabalhando com a minha mãe, já tinha que pensar na faculdade. Fui, não fui, não tive tempo pra me divertir, eu não fui daquelas antigas adolescentes que ia na balada e o pai buscava e tal. Eu sempre fui e tive que ir fazendo as coisas pra sair do lugar então, ir num show pra mim era algo livre, tipo libertador. Então foi mais por isso, foi esse show mesmo.
00:20:30
P1 - Eu ia falar que parece que foi um momento de liberdade?
R - Foi. Exatamente, porque, como meu pai trabalhava em uma empresa boa, então para minha mãe, a gente tendo roupa boa, coisa boa, estava tudo bem. Mas não é só isso que uma criança, que uma adolescente precisa, ela precisa de atenção, essas coisas. Faltou um pouco pra gente disso, então eu se eu pudesse voltar atrás eu falava: “Não quero coisa de marca, vamos dar uma voltinha no shopping, vamos dar uma voltinha no parque”, se eu tivesse língua para falar antes, para abrir mais a boca, eu falaria isso. Hoje eu pensaria, voltaria pra falar isso, entendeu? Mais e eu me senti mais liberta. Então foi muito bom isso.
00:21:12
P1 - Passado esse primeiro momento que foi muito difícil, você contou que seus amigos estavam em outro lugar. Você se adaptou aqui? Como que foi?
R - Quando estava me adaptando, nessa primeira casa da minha mãe e tal, na separação dos meus pais, eu não entendo muito isso até hoje, tá? Eu não gosto de me envolver porque é questão financeira dos pais… Mas até onde eu entendo, acho que meu pai, pra não ter separação, documentos, sei lá, essas coisas, meu pai deu um apartamento pra minha mãe. E esse apartamento não era só pra minha mãe, era pra mim, pro meu irmão e ela, pra gente ficar ali, só que a gente ficou num primeiro momento, sei lá, alguns meses nesse apartamento, eu tinha meu quarto, meu irmão também e tal, só que quando a gente estava se adaptando, a minha mãe sentou a gente no sofá e falou: “Você já estuda, você já tá na faculdade, seu irmão também já fez 500 vezes o cursinho da Poli na época. Seu irmão já foi pra Santa Catarina fazer a faculdade federal e não passou até hoje, eu quero que vocês se virem.” Quando a gente estava bem... Eu falei: “Nossa, mas estou começando a faculdade agora”, eu já comecei a pensar o que tinha de errado comigo, já fiquei na minha cabeça: “Nossa, o que eu fiz de errado, minha mãe está expulsando a gente de casa? A gente está trabalhando, fazendo as coisas…” E até tirar isso da minha cabeça demorou uns anos; mas começou a nossa vida a mudar de novo, procurar um lugar, uma casa pra mim e pro meu irmão morar. Só que o meu irmão sumiu, ele foi viver as questões dele, e eu fiquei… Sabe quando você chega em casa e minha mãe já tá com um namorado, com alguém que ela gosta, você chega e você tá segurando vela, digamos assim, então eu comecei a me sentir muito desconfortável, e acho que ela percebeu isso. Um dia eu cheguei em casa, com a minha bike e ela falou: “Ó, já arranjei um lugar pra você”, e eu (perguntei): “Mas como assim um lugar pra mim?” Eu voltando do trabalho, voltando de bike... “Como assim?” (Ela disse): “Não, eu já arranjei um pensionato pra você, você vai lá semana que vem, você vai ver se gosta”. E eu ia falar que eu não gosto? Minha mãe que escolheu, ela quer que eu saia dali e vou falar que eu não gosto e era até na Lapa, esse pensionato, e então minha vida mudou de novo quando eu fui para o pensionato. Então foi um outro mundo, foi horrível...
00:23:19
P1 - E nesse momento, onde você morava antes?
R - Antes do pensionato, eu morava na Freguesia do Ó, aqui em São Paulo mesmo, na Freguesia do Ó, não lembro a rua, mas na Freguesia do Ó.
P1 - Era próximo aqui?
R - Era próximo daqui, era próximo daqui, era no outro bairro aqui do lado.
00:23:36
P1 - E você foi pra Lapa, e daí, o que se passou na sua vida nesse momento?
R - Nossa, no primeiro dia... Eu tive que me adaptar ao... Vamos supor, eu mudei na sexta-feira, eu acho, que no sábado, 4h da manhã já passou o ônibus, minha vida já estava um turbilhão, eu estava cansada... Aí, eu dormia num quarto, onde passava o ônibus, então quando ele passava e tremia tudo, eu acordava às 4h da manhã, chorando e (pensando) “Eu quero dormir e tal, tô cansada, quero refletir sobre a minha vida”. Eu quando acordo, não consigo dormir mais, e você... beleza, deu 8h, 9h. quando eu acordava, as meninas começavam a gritar, uma brigar com a outra, era uma patifaria nesse lugar, mas eu ficava rezando pra Deus, assim: “O que eu tô fazendo aqui? Por que, Deus? O que você quer que eu veja aqui? Porque está acontecendo tudo isso”. Então foi isso desde o primeiro dia até o último, que eu ficava pensando nisso: “O que eu tô fazendo aqui? O que eu fiz? Um castigo? Eu sempre fui uma boa menina e tal”. Então eu fiquei alguns anos... Eu não sei quanto tempo acho que foi 2 ou 3 anos, eu fiquei um tempo refletindo isso, foi... Pra sair de lá não daria, porque eu recebia R$300 no meu primeiro emprego, então não dava pra ser, tipo, pagava R$300 só a cama, pagava meio que só a cama, eu tinha que comprar minha comida, se sobrasse algum dinheiro, e eu pedi uma vez só a comida pra minha mãe, foi nesse começo, depois eu fui tentando me virar, eu fui tentando arranjar outro emprego, foi mais difícil, mas fui tentando arranjar outro emprego e fui levando a vida.
P1 - E você...
R - Não tô chorando não gente, é só remela.
00:25:05
P1 - E nesse primeiro momento que você estava contando, você ainda trabalhava com a sua mãe?
R - Não, quando eu consegui entrar na faculdade, eu já arranjei um estágio na minha área. Porque eu via todo mundo na minha sala (dizendo): “A gente trabalha com telemarketing”, então eu falei: “Nossa gente, mas eu quero tanto na minha área, eu não quero trabalhar, não é ruim, mas eu quero já ver na minha área”. Então eu já futricar, entrava na internet, nos sites, eu entrava enquanto eu trabalhava, às vezes eu entrava no site, e deixava meu currículo lá, porque eu já tinha experiência - nenhuma, né? - Mas o que eu tinha de experiência, que eu trabalhava com a minha mãe, mexia com internet e tal. É uma academia feminina no Tatuapé, eu não sei se existe hoje ainda, eles falaram: “A gente tá precisando, venha pra cá”. Então não era um estágio, porque eu estava no primeiro semestre, mas era tipo um aprendizado, mas eles me pagavam R$300, então, para mim, eu nunca recebi nada de fora assim, tão grandioso, eu: “pô…” Então foi um treino muito legal, porque eu aprendi a mexer com os aparelhos, tal, porque na próxima academia eu já precisava saber de tudo isso, então foi bem legal essa experiência.
00:26:06
P1 - E na faculdade, como é que foi? Como é que foi esse momento da faculdade?
R - A faculdade foi incrível, foi maravilhosa, porque eu via pessoas diferentes, pessoas que já tinham uma história, e que vinham de cantos pra cá e pra lá, foi muito legal e eu acho que eu era a mais palhaça da faculdade porque todo mundo ficava em silêncio e quando eu terminava de falar alguma coisa, que parecia o Chaves... Eu estava falando e do nada, um silêncio, todo mundo ria da minha cara. Então, eu achava divertido, que é como eu falei, uma época que eu comecei a me libertar, a ser eu, não era mais tratada como robô da minha mãe e tal. Eu estava mais liberta, podia sair mais de casa e tal. E eu acho que só o que pegava na faculdade mesmo pra mim era grana. Então eu vivia mudando de faculdade por conta do valor, por conta dos horários do meu trabalho, quando eu conseguia um emprego novo na área de academia eu tinha que mudar o horário de faculdade, quando eu mudava o horário da faculdade, mudava o trabalho. E tinha uma questão financeira também, eu saí da UNIP para a UNINOVE por questão financeira também, para ver se dava certo. E eu fui contratada numa grande academia, trabalhei por anos na ginástica, dando aula de natação ginástica também, só que eles começaram a fazer uma academia em escola, então meu salário foi caindo e eu não tinha acabado a faculdade ainda, até falir a academia, e eu não acabei a faculdade de educação física. Mas daí é outra história.
00:27:26
P1 - Mas você continuou trabalhando com educação física ou não?
R - Então, eu trabalhei acho que uns 4, 5 anos na educação física e quando a academia faliu eu entrei em contato com uma aluna da academia, essa aluna era dona de uma creche, que é na Brasilândia, é um outro bairro lá “pro fundo” da Freguesia do Ó; E eu aceitei porque eu estava sem emprego, só, que eu ia trabalhar na cozinha, lavando louça, essas coisas, - o que não é vergonha pra ninguém -, só que eu escondi da minha mãe, não sei se até hoje ela sabe ou não sabe, não sei... Eu escondi e falei só pra minha tia, porque minha mãe, pra ela, é uma vergonha trabalhar nisso, porque pra quem teve estudo, escola particular, balé, essas coisas, não era pra trabalhar na cozinha. Mas eu falei: “É o único jeito, eu não vou ficar desempregada, eu preciso trabalhar”. Então eu trabalhei na cozinha, eu fui muito humilhada nessa cozinha, mas porque eu era muito nariz empinado... tinha uma outra vida, antes de vir pra São Paulo, então ainda era muito certinha, então elas me humilhavam bastante ali. Peguei alergia de produto não original, peguei alergia, por essa alergia, eu fui pra parte da limpeza. E o pessoal insistia: “Estuda, faz faculdade de pedagogia, já que você parou a educação física”. Eu (dizia): “Não, não quero, não quero trabalhar com criança e tal”, até que eu aceitei, e quando eu estava no meu segundo ano de pedagogia a academia faliu por que eles não estavam pagando... A prefeitura pagava pro presidente, que era o meu chefe, e ele não repassava o pagamento... Repassava pra laranjas e tal, então faliu a creche e a gente teve que sair, sem eu acabar a faculdade de novo. Aí eu já tinha a Mel nessa época, e foi quando eu comecei com a galera dos cachorros, o grupo dos cachorros e uma moça me ofereceu o emprego que eu estou até hoje, que foi de 2020 até agora! E eu saí um pouquinho do esporte, da educação física, finalizei a pedagogia e me formei, só que eu não estou atuando na área, porque não é minha preferência, mas eu quis ter, pelo menos, uma formação ali pra, se caso, aparecesse alguma coisa, eu estar formada, pelo menos.
00:29:27
P1 - E hoje você trabalha com o quê?
R - Hoje eu sou recepcionista de um edifício de médicos, nada a ver com o que eu planejei a vida inteira, mas às vezes a gente tem que ir para outros caminhos para chegar aonde eu quero, estou aí, estou gostando, já estou há acho que 6 anos, tem um bom salário, a gente recebe benefícios, então pra mim isso é muito perfeito; Visando a questão financeira, eu prefiro ficar nele por enquanto. E eles me aliviam quando eu preciso gravar alguma coisa com ela durante a semana, então, o meu chefe é bem bacana. Por isso que eu não consigo sair ainda.
00:30:00
P1 - E me conta como é que foi sair do pensionato, a decisão de sair, conseguir sair?
R - A decisão de sair do pensionato foi quando eu achei outro pensionato na Freguesia, mas era um pensionato, não sei se chama pensionato também, mas cada um tinha o seu quarto, eu não convivia mais com 4, 5 mulheres no mesmo quarto, eu tinha só uma mala, que eu colocava no guarda-roupa e pronto, com as minhas roupas e tudo. Eu achei outro na Freguesia pesquisando, encontrei outro em que cada um tinha o seu quarto, tinha armário, tinha cama, tinha um banheiro, e eu falei: “Eu vou pra esse, é um valor um pouco mais alto, mas eu já estou trabalhando em 2 empregos, então, vou ficar nesse pensionato aqui. Cada um tem seu quarto”, e foi muito melhor, porque eu não queria ver ninguém, eu convivia com 32 mulheres, até hoje eu tenho isso, até os meus vizinhos passam aqui e falam: - Nossa, não quer falar comigo? Eu respondo: “Não, fecha a porta e quero paz, porque ninguém entende essa situação que eu passei”, então foi bom que nesse segundo pensionado eu podia entrar no meu quarto, fechar a porta e não queria ver ninguém, queria ficar em paz ali. Mas não tinha televisão, só tinha o computador em que eu montava minhas aulas de ginástica, não tinha nada, era só um armário rosa, cama e o meu computador. E por um tempo foi melhor, só que quando tinha outras moradoras em outros quartos, quando elas queriam limpar a casa, elas desligavam tudo, a geladeira, sem perguntar nada pra ninguém; Uma vez eu cheguei lá, estava meu leite, eu já nem tinha muito dinheiro, mas estava meu leite estragado, minha melancia grandona de estragada, então foi o dia, tipo, teve um estopim, eu fiquei muito chateada e comecei a orar, e rezar pra Deus: “Eu quero sair daqui, não é isso que eu quero, nunca fiz isso com ninguém”, nem desligava a geladeira sem perguntar antes, então por que as pessoas fazem isso comigo? Então acho que nesse começo que eu vim pra São Paulo, eu vivi muito tipo: “Por que que isso tá acontecendo comigo, essas coisas?” Graças a Deus já saiu um pouquinho disso, desse pensamento, mas no começo foi muito isso. Mas é igual aquela história, a gente tem que passar pelo perrengue para entender o que está vindo de bom depois, talvez. Mas é isso.
00:32:00
P1 - E em que momento que a Mel entrou na sua vida?
R - Vixe, nesse pensionato, nesse segundo pensionato que eu morei, eu já estava trabalhando na academia ainda, numa das academias, eu ainda não estava na creche, estava passando uma situação complicada na academia, mas eu ainda não sabia que ela ia falir também. E eu conheci um aluno, e esse aluno, a gente namorou uns 9 meses e tal. E ele que me fez sair desse pensionato, ele me fez sair desse pensionato e ia alugar uma casa com ele, só que na frente da mãe dele, que é onde começou outra vida, outra história. Ele falou: “A gente já tá 6 meses juntos, vamos morar, vamos morar numa casa alugada nossa?” (E eu disse): “Vamos!” Eu nem pensei... Quando eu fui falar com a minha mãe, ela falou: “Você é louca, você nem conhece o rapaz, você vai morar?” Falei: “Mãe, eu preciso sair da pensão, eu não tô aguentando!” Fui pela mente, eu acho que nem pela razão, nem nada, eu fui porque eu queria sair daquele lugar, porque já tá me dando ódio. E eu falei: “Vou!” Então eu saí e fui morar na minha primeira casa de aluguel com ele, com esse rapaz, e a Mel apareceu, acho que 9, 10 meses depois, que é quando eu tinha separado dele, eu continuava na mesma casa, que foi a minha primeira casa de aluguel e onde a Mel apareceu.
00:33:14
P1 - E como foi esse encontro? Como que ela apareceu?
R - Então, eu estava me separando dele, ele não fez nada comigo, mas era uma questão tipo, o meu namorado na época, tudo que a gente conversava, ele chorava e ia falar com a mãe dele. E eu já não estava aguentando mais isso, e teve um dia que eu peguei as coisas dele, joguei na casa da mãe dele, que era à frente da minha, e falei: “Tó, não quero mais, não aguento mais, não tenho mais paciência”. Ele falou: “Ah, mas como assim?” Eu disse: “É assim, pronto, acabou!” E eu morava na última casa, em cima, então eu tive que pegar uma escadaria pra chegar na minha casa, só que no meio da escadaria morava a dona da casa, uma senhorinha super gente boa. Não sei se ela já está viva. E eu parei e falei: “Olha, não sei se eu vou ficar muito tempo aqui, acabei de mandar as coisas do meu namorado para lá, eu não sei se vou ficar muito tempo, não sei pra onde eu vou, mas eu não posso pagar esse aluguel”. Ela falou: “Não, peraí, você é uma menina tão boa, você faz as coisinhas, você trabalha, não dá problema, não! Fica!”. Ela disse: “Eu já sei! Tem uma cachorrinha que meu filho tá cuidando, mas ele tá maltratando ela e tal, ele tirou da rua porque ela tinha sido envenenada, mas hoje ele não tá cuidando muito bem, ele está queimando cigarro nela e tal. Espera dar 7 horas da noite, você vai ver, conhecer, ver se você gosta dela, vai uma galerinha com você, uns rapazes aqui, eu mando junto…” E foi isso, eu fui lá, vi a Mel, ela estava num estado meio complicado, estava toda com buracos de bituca, marca queimadura, de buracos na pele, queimaduras da bituca e eu falei: “E ela pode ficar lá em casa?” (A Sra. me respondeu): “Pode, pode sim, porque a casa é grande, pode ficar, você tá pagando aluguel, vai dar certo, resolveu, tá bom”. Quando eu abri a porta lá da escadaria pra ela entrar, ela subiu correndo, ela não parou, ela subiu correndo, foi até a última casa, eu não sei como ela sabia disso, se ela já foi ali alguma vez... não sei. E eu abri a porta e ela se esticou no meu colchão, era só o colchão lá em casa, e uns porquinhos da Índia lá, e ela se esticou no colchão e ficou. E nunca mais ela saiu.
00:35:07
P1 - Nesse sentido, o que dá pra entender é que a senhora percebeu que você queria uma companhia?
R - Na verdade, eu não sei se ela percebeu, ou se foi algo de Deus, não sei, porque eu nunca tinha comentado de ter um cachorro, de não ter, a gente nunca falou sobre isso, quando eu parava pra conversar ela só perguntava como é que ia o relacionamento, como é que é meu trabalho, e eu sentia que aquele lugar dela era um lugar que eu podia sentar e conversar com ela, de puxar alguém ali, pra conversar, jogar conversa fora. E nunca comentei sobre pets, cachorros, mas eu acho que a casa era realmente grande, a que eu estava, então tinha essa parte embaixo e tinha mais esse pedaço em cima, então ela imaginou que teria espaço para ter um cachorro, e pra eu não sair de lá, ela falou: “Fica com o cachorrinho, a gente ajuda, mas fica aí, a gente tenta dar uma diminuída no aluguel”.
Então eu fiquei por alguns meses mais, depois eu mudei de novo de casa.
00:36:01
P1 - E como é que foi a decisão de adotar a Mel?
R - Foi assim, eu entrei lá e peguei, acabou e ficou, eu falei: “Meu Deus, nunca tive cachorro meu, é minha primeira, o que eu faço? Qual a ração que eu compro?” Eu ia nos pet shops da região para comprar uma raçãozinha pra ela comer e ficou. Então, tipo, ela foi se adaptando a minha realidade, porque eu não tinha móvel, tinha só o colchão no chão, tinha um fogão, que foi esse ex-namorado que deu, tô tentando puxar pela memória, tinha um cercadinho, onde tinha uns porquinhos da Índia, que era o bichinho que eu tinha no segundo pensionato, eu tive porquinho da Índia porque eu me sentia sozinha, porque não tinha televisão, não tinha nada... E eles foram também junto comigo, esses porquinhos da Índia, e fui levando essa vida, fui me adaptando, e eu tinha costume de ir no parque, no Villa Lobos, no final de semana, sozinha e eu falei: “Nossa, agora vou querer levar a Mel, o meu cachorro, pra brincar no parque, pra correr, pra eu conversar, pra ir comigo e tal, como é que eu vou fazer isso?” Então, já é uma outra história, porque eu comecei a fazer uma adaptação para poder levar ela.
00:37:01
P1 - Me conta um pouco de como foi essa adaptação.
R - Eu fiquei pouco tempo nessa casa, e eu mudei para uma outra casa, próxima da região ali também, na região da Brasilândia, e teve umas férias de final de ano da academia... não sei, não lembro. Eu sei que eu estava um período em casa, e eu estava assistindo um programa, acho que pode falar, né? da Fátima Bernardes: o “Encontro”, e estava passando um casal que andava de bicicleta, viajava de bicicleta com o cachorro Poodle, que tinha 15Kg, eu falei: “Nossa é igual a Mel, 15kg”, e na hora, eu acho que eles montaram, mostraram, só que eu não prestei atenção, eu acho que eu estava fazendo outra coisa na hora. E acabou, eu fui pra internet procurar esse casal, procurar o Programa, “Encontro”, que dia que era, quem são aqueles casais, e não encontrava... para eu poder fazer uma adaptação na minha bicicleta, para poder colocar lá a caixinha, e não achei, e falei: “Vou fazer do meu jeito, aproveitar que eu tô de férias, peguei uma caixa de feira, um caixote e comecei a montar”, falei: “vou montar com corda”, não deu, “vou montar com enforcador”, não deu... (falei): “Vou montar com enforcador e (também com) corda”, e fixou, coloquei a cachorra e fui pra rua, mas essa caixa foi pra um lado, a cachorra foi pro outro... ainda bem que era domingo, porque não tem movimento na rua! E é uma vergonha, eu falei: Meu Deus, pra qualquer lado que eu olho para as pessoas, as pessoas vão rir da minha cara... Beleza, eu entrei na minha casa. Aí já era segunda-feira que eu tinha que trabalhar, mas tipo 4h da manhã eu já estava acordada para arrumar essa bicicleta, você acredita? Antes de trabalhar, eu ia a pé, e eu montava (a caixa) as 4h, deu 5h. e ainda não estava na hora de entrar (no trabalho), deu eu pegava essa cachorra e ia lá pra rua às 5h. da manhã, pedalava pra testar, e começava a balançar, eu falei: tem que apertar aqui, tem que apertar ali, foi quando eu pensei: “Vou colocar uma madeira embaixo que fica mais reto”, eu coloquei a madeira, mas como é que eu vou prender a madeira nesse negócio? Eu fui para a creche trabalhar e tinha um engenheiro lá, ele pediu: “ó, faz esses furinhos aqui na caixa, que eu vou prender a caixa na bike e em tudo né…” Deu certo, prendi e tal, no outro dia, lá vai eu 4h da manhã acordar, enquanto eu não arrumasse eu não ia dormir direito... prendi na madeira, prendi na bike, prendi na caixa, tudo e deu certo, ela não caiu. Fiquei rodando às 4h, 5h da manhã, rodando, ali que não tinha movimento e ela não caiu. Eu falei: “Pronto”. Final de semana tá ganho, agora a gente vai passar o final de semana pedalando. E deu sábado, eu falei, eu acho que eu vou pro Villa Lobos, eu fui pro Villa-Lobos, levei ela pro Villa-Lobos, joguei ela no parcão, só que tipo, ela não saiu de perto de mim, tive que fazer essa adaptação para ela poder ficar livre de mim... ainda fazer adaptação para ir em lugares mais longe, então ela se sentava na bike, eu dava o petisco; ela se deitava, eu dava um petisco; então tudo que ela fazia quietinha ali na bike, eu sempre ia dando petisco pra ela ficar naquele lugar, pra não pular pro ar, ou na hora que eu parar a bike no farol, ela não querer sair andando pra lá e pra cá, entendeu? Então foi por isso que hoje ela tá acostumada andar nesse motorzinho que ela...
P1 - Foi um treinamento que você fez.
R - Foi o treinamento, e sem falar com treinador nessa época, porque eu não tinha conhecimento de adestrador. Só fui ter anos depois, quando ela começou a participar de eventos de cachorro.
00:40:06
P1 - Mas até então, todo esse treinamento foi da sua cabeça?
R - Foi o que eu assisti lá com o meu irmão nos programas de animais, foi tudo isso.
P1 - E ela se adaptou bem?
R - Se adaptou, eu acho que também foi a mão de Deus, porque ela se adaptou super bem, acho que se a gente caiu na bike, foi por algumas vezes, que eu lembro, foi da gente tentando subir no meio fio pra poder, sei lá, escapar da rua, ou eu não via que a rampa estava aqui e subia aqui e subia de uma vez, então a gente levava uns tombos, mas não dela ir muito longe, dela se ralar, não. Só dando uns “tropicão” e ela caia mais do lado da bike, porque ela estava presa com a guia... Então foi só, agora graças a Deus ela nunca tentou cair, nem nada, mas quando ela quer fazer alguma necessidade, ela começa a balançar, a chacoalhar muito, eu sei que ela quer descer, então a gente para e ela desce.
P1 - É uma comunicação?
R - Exatamente, exatamente, que eu vou te falar, que não é todo mundo que...
Eu já vi várias pessoas que andam com cachorro e tal, e as pessoas me explicam o comportamento dos seus cães, e eu falo, mas é isso... eu sei por que a Mel é assim, só que as pessoas não acabam se tocando, (falam) meu cachorro já fez xixi, meu cachorro morde tudo... Falei: “Porque você não está vendo os sinais que o seu cachorro está dando, o comportamento que ele está fazendo”.
00:41:14
P1 - E me conta como é a Mel no dia a dia, como é que é o comportamento dela?
R - Ah, comportamento em casa, ela, quando eu fico mais relaxada, ela fica mais relaxada. Ela se deita, agora quando sabe que vai sair, eu acho que é igual a todo cachorro, já fica eufórico... Eu já tento separar a guia e o peitoral primeiro, num canto, pra ela ver que a gente vai sair, mas que eu continuo tranquila. Então se for o dia, parece que ela sabe... eu acordo e eu nem falo nada para ela, mas parece que o cachorro sente, eu acordo, hoje eu sei que a gente vai em tal lugar... Parece que ela lê minha mente, ela já começa a ficar agitada desde cedo. Se eu estou igual ontem que eu não saí, eu fiquei um dia mais tranquila, ela estava super tranquila, não estava nem se importando de sair ou não sair, mas como ela é uma cachorra hiperativa que faz múltiplos esportes, ela é mais agitadona, costuma ser, não é um cachorro super tranquilo.
00:42:06
P1 - E me conta como é que foi esse momento de adaptação dela, se ela se adaptou também à sua rotina e ao que você estava passando, mas como foi esse momento da chegada dela na sua vida, o que você estava sentindo?
R - Ah, já saquei, eu acho que eu nunca recebi um, quer dizer, uma vez eu recebi uma coisa da minha mãe que foi... “Tô muito orgulhosa de você”. Eu acho que isso, todo mundo que vai morar sozinho, todo mundo que vai viver sua vida, espera sentir isso, escutar isso dos seus pais... e quando eu trabalhava na academia, tinha uns eventos e tal, pra levar os pais, e eu falava: “Nossa mãe, vai lá me ver, vai lá ver eu ganhar o tal diploma”, e ela nunca podia ir, ela dizia que é por causa da coluna, ela dizia que é por causa... Nunca foi, nunca foi... então, eu me sentia meio: “Por que eu?” Aquela questão de novo. E eu acho que quando a Mel apareceu... Eu falei: “Nossa, eu acho que eu vou ter alguma coisa de responsabilidade, acho que é isso que eu não tinha, e que eu vou provar para os meus pais que eu tenho responsabilidade”. Então, acho que é por isso que eu também aceitei a cachorra, falei, porque o cachorro... Gato é mais tranquilo, você deixa e ele fica ok, agora o cachorro quer atenção, tem os cuidados. Até hoje ainda tem essa questão, tipo assim: “Nossa, eu sou uma pessoa responsável, a Mel conseguiu chegar até os 10 anos aqui comigo”. Só que eu ainda tava nessa época nessa coisa com a minha mãe, com meu pai também, e tal, desse sentimento, e quando a minha mãe falou: “Você está sendo uma pessoa... Estou muito orgulhosa de você!” Então eu parei no tempo, e falei: “É a Mel, então”, ela me falou isso e eu estou me sentindo bem, então eu sei que eu sou uma pessoa responsável, uma pessoa legal, uma pessoa tudo bem. Já comecei a ficar mais confiante comigo, foi esse o sentimento que estava na minha questão com a Mel mesmo
00:43:53
P1 - E tem alguma história engraçada que você passou com a Mel nesses 10 anos? Devem ter várias, mas a mais engraçada...
R - Mais engraçada? Vixe Maria, mais engraçada, mais engraçada...
P1 - Ou inusitada também.
R - Acho que... peraí, deixa eu puxar um pouquinho, só rapidinho na memória.
P1 - Fica tranquila.
R - Não, engraçada tem, porque no começo, nos eventos de cachorro, a gente ia nos eventos, nas festas de cachorro, festas de pessoa também, e o pessoal adorava a Mel e tal, uma coisa que é engraçada nela, é que ela é uma vira-latas, e vira-lata adora comer, então toda festa que a gente ia, tinha que dar uma segurada nela porque ela gostava de comer tudo. Então acho que isso é o mais engraçado, o pessoal fala: “Pode deixar ela solta”. E eu digo: “Não, vocês não conhecem ela, o problema não é que ela vai morder, que ela vai bagunçar, é que ela vai comer”, e as pessoas: “Pode deixar ela solta…” (Uma vez eu) deixei solta numa festa, comeu quase a festa inteira, e ela comeu pirulitos de criança também, a gente estava preparando uma festa de aniversário dela, mas que envolvia crianças, envolvia gente e tal, então, uma das lembrancinhas seria o pirulito da Patrulha Canina (série de animação infantil americana-canadense). E eu falei: “Vou deixar no meu quarto, ela não vai entrar no meu quarto”, só que a burra aqui, esqueceu a porta do quarto aberta, e eu cheguei lá, e tipo, 2 pacotinhos, 1 pacotinho aqui, 1 pacote ali, cada um com 10 (pirulitos) estavam vazios, agora, sabe lá Deus se realmente ela comeu... Comeu, né! porque não estavam em lugar nenhum, eu procurei os pirulitos, só tinha uns pacotinhos de embrulhos dos pirulitos no chão... Eu falei: “Gente, eu não acredito que você comeu pirulito!”. E não passou mal, não passou mal! Essa bicha tem um estômago bom, de verdade, ela é... eu tive que comprar pirulitos novos, mas eu nunca vi um cachorro comer 20 pirulitos, nunca. E nem era costume de eu dar, eu nunca dei açúcar pra ela. Acho que era o aniversário de 4 anos dela.
00:45:40
P1 - E me conta o que apareceu primeiro na vida de vocês, os eventos ou a questão do skate?
R - Os eventos, porque quando eu pedalava, quando a gente ia de bike, como eu ia muito para o Parque Villa-Lobos, tinha uns eventos que ocorriam no Villa Lobos, que eram da Purina (marca líder mundial em nutrição de animais de estimação), e em um dos eventos eu fui de bike e tal, e ela já era conhecida como “A Cachorra Ciclista”, então todo mundo via na cidade, e tinha uma plaquinha atrás, tiravam foto e marcavam a gente no Facebook, na época teve um evento da Purina que ela participou e conseguiu o terceiro lugar, um evento de festa junina, ela foi (vestida) com um véuzinho e ganhou lá, ganhou um kit, essas coisas.
E quando você consegue participar de um evento, sempre tem gente que vai (e fala) pra gente: “Leva ela em tal evento”, sempre tem outra pessoa que fala: “Leva em tal evento”; “Ah, na semana que vem a gente vai estar em tal lugar, você leva ela?” E se eu conseguia ir pedalando, eu levava, e foram aparecendo os eventos, eu nem tinha um skate nessa época. Acho que foi em 2016, 2017.
00:46:38
P1 - E daí ela começou a ser conhecida também.
R - Começou a ser conhecida, o pessoal já sabia e falava: “Ah lá, lá vem a Mel de bike, lá vem a Rafa de bike”. Tudo, não sei o que… E nesses eventos, tinha a piscina de bolinhas, né, que eu já vou encaixar o skate… Tinha uns eventos que tinham uma piscina de bolinhas e tal, e no começo ela gostava, só que tem eventos que vinham aqueles trambolhos de cachorro, Golden, Labrador e eles pulavam em cima dela, era normal. Só que eu percebi que ela parou de entrar na piscina de bolinhas por causa disso. Então eu comecei a fazer o treinamento de novo em casa, dela ter (de novo) vontade de pular, de brincar na piscina de bolinha, na piscina com água também. Foi já nas férias de 2018, que eu fiz esse treinamento, - eu treinava meia hora e eu pensava: “Nossa, tá maçante isso, vamos dar uma volta”; e eu saia todo dia para dar uma volta. E teve um dia que eu fui dar essa volta e vi um skate numa loja lá, um skate de bebezinho de plástico e eu comprei, eu falei: “Vou comprar, vamos intercalar a piscina de bolinhas com o skate”. Só que com o skate, ela ficou muito mais, obviamente, animada, porque ela mordia, ela arrastava, ela jogava, jogava escada abaixo e voltava com ele na boca, igual ela pegou o ursinho aqui, pegava mordia, (eu pensei): “Ah, então ela tá se divertindo muito mais, então é algo que é dela…” No começo eu não tive que ensinar nada, eu só coloquei ali e vi se ela tinha alguma reação, jogava petisco e tal e deixei ela indo na reação dela.
00:47:56
P1 - E os petiscos ajudavam você a treinar ela, né?
R - Nessa época que ela participava de eventos, eu tinha uma noção de treinamento já. Por isso que eu treinava ela na piscina de bolinhas, porque o treinamento que eu entendia, que eram aulas gratuitas de treinamento, o pessoal falava que você tinha que dar o comando e se ela acertar, você tem 5 segundos pra dar o petisco, pra agradar ela e tal, senão ela dispersa. Por isso que eu treinava piscina de bolinhas, porque eu já tinha um conhecimento, e no skate, da piscina de bolinhas eu levava pro skate; “Tá, então se ela gostou, brincou, se divertiu, agora vamos para o treinamento”. Então pegava o petisco e (dava o comando): “Ah, Arrasta!”, - eu falava em português ainda na época - “arrasta” e ela olhava pra mim toda feliz, com a linguona de fora querendo petisco e arrastava, quando ela arrastava eu enfiava o petisco na boca dela, brincava, bagunçava, depois fazia de novo. Depois ela fazia sem eu pedir e eu dava um petisco e foi.
00:48:54
P1 - E daí você começou a participar de eventos de skate com ela, ou você começou a treinar ela?
R - É, depois esse skate de plástico, eu levei uma vez só pra rua, que era aqui na rua Parapuã, perto da na Freguesia também, eu levei lá, na rua não, na calçada, justamente para ver como ela se sairia, não com a atenção das pessoas, mas qual seria o nível de distração dela na rua, isso da minha cabeça, não é porque eu estava estudando, não é porque nada, mas porque eu queria entender isso. Então, quando chegava na rua, o pessoal via, as pessoas falavam: “Nossa, que bonitinha”, paravam pra tirar foto, e isso que eu tava no começo do treinamento, eu falava: “Gente, calma aí!” Mas eu falei: “Tem que deixar, porque a cachorra tem que ter essa coisa com humanos…” E quando o pessoal dispersava da rodinha e saia, eu ia para outro canto, ou eu pegava ela, escondia e ia para outro canto, isso foi uma vez só, depois, eu passei na frente da loja de novo, da mesma loja, e comprei um skate maior, que é onde ela conseguia apoiar as 4 patas e aí eu fiz a mesma adaptação em casa, fui pra rua fazer a mesma coisa, e nesses treinamentos na rua, uma loja de skate, na Freguesia do Ó, viu e falou: “Nossa, que legal! Eu tenho uma loja de skate, cola lá que eu vou dar um skate, vou dar um skate profissional, que é esse aqui o primeiro, eu vou dar um skate profissional, com Truck (eixos de metal em formato de "T" fixados embaixo do shape (tábua) do skate), com rodinha e tal”… Eu falei: “Jura?”. Eu fiquei (pensando): “Será que ele não vai pensar que sou eu que vou usar?” Na minha cabeça eu pensava: “Não, não vou usar, não. Isso é pra ela mesmo, eu nem ando de skate…” - na minha cabeça tava assim. Mas ele queria dar pra ela, e eu falei: “Tá bom”. Aí a gente foi na loja, tem até hoje os vídeos dela recebendo (o skate), eles fizeram essa arte dela e tudo. E foi quando ele foi falando para outras pessoas, outras pessoas, e as pessoas foram vendo, e explodiu o Instagram, veio o boom do Instagram. E comecei a publicar no Instagram e chamou a atenção.
00:50:37
P1 - E daí você começou a andar junto com ela ou não?
R - Não, eu só fui andar junto com ela em 2023, 24, final de 2023, por aí, quando eu levei o primeiro tombo, no primeiro treinamento, o primeiro tombo e luxei o meu pé. Mas primeiro eu fui levando ela nos eventos, porque eu andar junto com ela é mais complicado, porque eu tenho que olhar para ela, eu tenho que olhar para o skate, eu tenho que olhar para ela, e olhar para o que tem ao redor, se a galera tá andando, pra onde tá vindo os skates, quem tá olhando pra gente. Então, tem que fazer a segurança dela, não é só eu andar do lado dela e acabou. Então, eu comecei a fazer treinamentos, eu levava e ela ficava deitada, e eu ia andar um pouquinho e depois ela andava um pouquinho. Então eu fazia treinamentos pra eu ter essa minha segurança, pelo menos eu saber andar, de alguma coisa e poder ficar focada nela. E saber que meus pés vão fazer tudo, entendeu? E foi isso.
00:51:30
P1 - E como é que foi esses eventos? Você contou um pouco que vocês tiveram contato com a Raíssa Leal? (Skatista brasileira, Campeã Pan-americana, medalha de ouro em 2023, Medalha de prata nas olimpíadas de Tóquio 2023, de Medalha de Bronze nas Olimpíadas de Paris 2024, e tetracampeã na Street League Skateboarding (SLS).
R - Na verdade, o primeiro evento foi com a Pamela, que é a skatista da seleção, a Pamela Rosa (skatista brasileira medalhista de prata nos Jogos Pan Americanos de 2023). Eu acho que foi o primeiro evento? Não, não, o primeiro evento foi na nossa pistinha de skate aqui, - que a gente vai depois - E como ela é aberta, obviamente podia levar ela, e ela já estava adaptada a essa pista, porque eu comecei a treinar ela nessa pista depois que ela ganhou o shape... Eu comecei a levar na pista tipo às 5h da manhã, não tinha ninguém, então dava pra treinar. Então como ela já conhecia a pista, eu ficava mais tranquila. E a galera (dizia): “Não, traz ela para os eventos e eram uns eventos bem pequenininhos lá, só andar na boa, fazer umas remadas e acabou”, “então tá bom”. E surgiu o evento da Pamela, eu acho que ele era gratuito, pra assistir era gratuito, e era no interior de São Paulo, junto (patrocinado pela) com a Farma Conde, então a Farma Conde criou uma pista de skate lá pra Pamela e tal. E eu entrei em contato com a Pamela, não sei por que, nem lembro porque, nem sei como, acho que a Pamela já seguia a gente por algum motivo... não sei. E eu mandei mensagem no Instagram da Pamela, do nada, eu falei: “Pâmela, a gente quer ir, a gente viu que é gratuito, dá para eu ir. Você acha que dá pra levar pet? Você acha que é?” e ela respondeu: “Pode trazer a Mel e não sei o quê”. Eu disse: “Jura?”. Então foi o primeiro evento grande que eu falei: “Caracas!”. E esse evento é uma seletiva para a STU (Skate Total Urbe - principal circuito brasileiro de Skate) e depois para o Mundial (Campeonato Mundial de Skate), por isso que a gente tem que ficar mais receoso pela segurança. E eu fui, encontrei outros skatistas, que é a Pipa Souza (Skatista/fotógrafa brasileira), as outras meninas lá, eu não lembro o nome de todas, e o pessoal já conhecia ela (a Mel), do Instagram, que é onde deu o boom, e tem um vídeo que eu postei no Instagram que foi lá na ladeira do Ipiranga, viralizou “mega” esse vídeo dela descendo, não toda a ladeira, mas descendo um pedaço da ladeira, ela virando o skate, ela com a língua pra fora, ela abanando o rabo. E o pessoal do Ipiranga repostou, então já tava... a gente tinha viralizado um vídeo dela, do Ipiranga, então acho que algumas pessoas conheciam. Quando eu cheguei lá, até me arrepio, eu cheguei lá, a Pamela empurrou todo mundo (e falou): “A Mel! não sei o quê…” eu fiquei assim, tipo: “Nossa, ela conhece a gente!” Tudo bem, mandar uma mensagem é uma coisa, tá bom... poder vir a Mel e tal, mas você chegar lá, e a menina empurrar todo mundo! tipo: “Dá licença, quero (ver) a Mel e tal”, isso é muito… No começo foi muito gratificante, porque é um cachorro, um vira-latas, que veio lá da rua, que já foi envenenado, que já passou por uma situação complicada e tal. E pra uma pessoa importante ver um cachorro desse, ainda mais preto, pelagem preta, o pessoal ainda tem preconceito. Então, eu fiquei muito feliz, muito feliz, - Que legal, sabe? Então eu fiquei empolgada, assisti e tal, gravei, publiquei e tal, agradeci ela; e o pessoal da Farma Conde publicou um vídeo, porque ela faz parte também, o pessoal do Banco BV (Banco brasileiro, controlado pelo Grupo Votorantim e Banco do Brasil) também. vai da comunicação, uma coisa vai passando pra outra... E como o BV já era do STU de 2023, já era parceiro, eu conversei com o STU, e o STU já sabia dela, acho que o BV deve ter falado... (Eles disseram): “Não, pode trazer a Mel aqui!” Então foi o primeiro (Campeonato) Nacional de Skate que a gente foi, em 2023, que é onde estava a Raissa Leal.
00:54:24
P1 - E aí, como é que foi essa história? me conta.
R - No dia que a gente estava no STU estava muito quente, muito quente! e eu falei: “Nossa, o pessoal vai falar mal de mim, que eu tô com a Mel com (tempo) quente e tal…” E ela tinha um sapato, uns tênis, só que não era do tamanho exato do pé dela, mas era o único que estava vendendo, que era mais fácil pra ela usar pra não queimar as patinhas. E a gente foi assistir o Park, que é o Bowl (modalidade de Skate), fomos assistir, eu levei guarda-chuva até, pra ficar com ela, guarda-sol pra ficar com ela, ficar cobrindo e tal. E quando tava acabando, eu falei: “Eu vou sair, porque depois vai sair toda a multidão, eu vou sair, vou dar uma voltinha lá fora do evento e depois eu vou voltar pra outra arquibancada”, que era onde ia andar a Raissa Leal, que era o Sprinter (modalidade de Skate); Só que tava muito quente e as pessoas começavam a parar pra tirar foto, e eu dizia: “Eu tenho que andar que tá muito quente, eu não posso ficar parada aqui e tal”, e tirou foto, vídeo e eu fui correndo para arquibancada, não tinha quase ninguém, só umas criancinhas correndo e tal. Mas tava mais vazio, e quando eu fui subindo nas escadas, eu com a Mel, eu falei: “Mel, a gente vai ficar no cantinho aqui pra ficar mais fácil”; quando eu levantei a cabeça eu fiquei (surpresa de ver que era) a Raissa Leal! E tinha um monte de gente que tinha me dado uns negócios pra eu entregar pra ela, só que eu falei: “Gente, eu vou encontrar a Raíssa Leal, no máximo, na grade, pra eu dar (as coisas) para ela assim… Faz sinal de rápido, depressa”. Ela estava sentada lá com a família dela conversando e tal, e eu: “Ah, a Raissa Leal... e tinha uma mãe que já me conhecia” e falou: “Rafa, cuidado, hein? Cuidado que ela quer ficar mais privada”, eu falei: “Mas quer ficar mais privada, vai se esconder dentro de um bueiro, não vai ficar aqui junto com a família”; falei bem assim pra mãe... Cheguei perto e falei: “Raissa eu vou ser rápida, porque está quente, a Mel precisa sentar ali, a gente não pode ficar muito tempo, é rapidinho; tem um negócio que eu quero te dar, e eu queria saber se pode tirar uma foto”. Ela começou a desconversar, fingiu que não tava olhando pra mim, olhou pro irmão dela, ficou conversando com o irmão dela e eu... “Não, Raíssa, mas é rápido, Raíssa, pelo amor de Deus”, e ela falou: “Tá bom, tá bom”, ela foi abraçando a Mel, tirou uma foto. Eu agradeci a ela, por que ela tinha publicado um vídeo em nossa homenagem, eu agradeci e tudo. E ela (se) levantou super rápido e foi se esconder, porque ela não queria que o pessoal começasse a vir em cima dela; deu para tirar a foto, deu pra gravar, e depois a mãe dela no final do evento veio: “Ah, essa aqui é a Mel, essa aqui não sei o que, não sei o que…” Falei: “É ela mesmo”. A mãe dela ainda foi mais solicita do que a própria Raissa Leal, conversou, abraçou, brincou com a Mel e depois foi embora. Foi isso, nem deu tempo de ela andar com a Mel do lado, um pouquinho, mas tudo bem. Não tem problema.
00:56:44
P1 - E tem algum momento nesses eventos que tenha sido muito marcante?
R - Tem. Tem a frase... Não foi nesse STU. Foi num evento de encontro do Sandro Dias, que é um skatista bem conhecido no Brasil, na chácara dele lá, tem a pista de skate. E ele chama o pessoal dos skates “mais de 50 anos”, são das antigas e chamam o pessoal novo também. E faz uma competição entre eles lá e tal. E ele convidou a Mel, eu e a Mel, a gente foi lá. Nunca tinha ido a um lugar desses; meu, é um lugar muito longe, nossa, um lugar cheio de terra, mas foi bem legal, uma viagem bem legal. Eu cheguei lá, fui assistir o campeonato e tal, estava a Raicca Ventura (Skatista Campeã Mundial Skate Park 2024), que é uma grande amiga nossa, o capacete daqui é inspirado no dela; E ela falou: “Rafa, ainda bem que você trouxe a Mel!” (Eu perguntei): “Ainda bem?” (E ela): “É porque a gente fica num clima tão de tensão nos eventos que é muito bom quando ela aparece aqui, a gente alivia, todo mundo vem brincar com ela, mexe com ela…”Eu falei: “Nossa, acho que essa foi a melhor coisa que eu escutei, tipo, em anos!”, porque foi aí que eu comecei a focar no objetivo: - Pra que levar um pet para as competições? Porque eu acho que alivia a atenção dos skatistas, eu acho que traz essa visibilidade, porque é o que eu falei (antes) do vira-latas, (o fato de ela ser) uma cachorra que veio do nada, uma cachorra preta. Então, acho que essa visibilidade que os atletas estão dando para a Mel, acho que ajuda bastante. A gente poder ter mais respeito com os animais, não abandonar, abandonar menos, cuidar mais, e principalmente adotar os de pelagem preta, que são os menos visados, então, através dessa frase dela, eu comecei a ter esse objetivo, acho que foi em 2023 isso.
00:58:18
P1 - E em que momento que a Nala entra na história?
R - Entra 2017, só que eu tenho o sonho de ter um gato tricolor há muitos anos, até de infância eu acho que eu tenho o sonho de ter um gato tricolor. E eu já tive um gato tricolor quando eu morava no segundo pensionato, só que o dono inventou que os filhos tinham alergia e tal, que eu não poderia ter mais o gato, então eu tive que doá-lo e em 2017, ela estava na frente de uma academia que eu já trabalhei, e eu fiquei naquela, tipo: “Já tenho uma cachorra, como é que eu vou cuidar de um gato? Mas se ela ficar lá no sábado, que era durante a semana, se ela continuar lá no sábado e eu vou pegar ela”; e peguei, comprei ração e tudo pra ela. E ela ficou, só que ela estava bem magrinha, e eu falei: “Nossa, que bonita a gata que deixaram abandonada aqui e tal”. Comecei a publicar no Facebook (perguntando) se era de alguém, e tal... e ninguém apareceu. Uma semana depois, a barriga dela começou a crescer! Então ela tava com um monte de filhotinhos! E eu cuidei dos filhotinhos, comecei a publicar no Facebook, eu não poderia ficar com todos. E a Nala seria a última a ser doada, por ser mãe e tal, e não apareceu ninguém pra adotar ela, eu falei: “Então vai ficar”. Comecei a rezar mais uma vez pra Deus: “Deus, faz pra eu levar essas 2 para onde for, porque eu não quero me desfazer, uma vez que eu já tenho elas, eu quero ficar com elas, se aparecer alguém depois de 3 meses e quiser adotar ou pegar eu não vou dar”, e ela tá até hoje com a gente, isso de 2017 para cá, já tem 9 anos.
00:59:48
P1 - E como é que foi a adaptação das duas?
R - Então, tem o antes pandemia e pós pandemia, antes da pandemia era um terror... Tipo, a ração da gata não podia cair no chão, que a Mel ia lá e comia, e rosnava pra gata, então até eu fazer uma adaptaçãozinha do lugar pra ela comer, ou até treinar a Mel, demorou um tempo… era gata subindo a parede, cachorro indo atrás, por conta de comida mesmo, não é por outra coisa. E depois da pandemia, como eu estive mais em casa, mais próxima, eu consegui treinar melhor. Isso foi em 2019, 2020, elas pararam de brigar, de lá pra cá elas não brigam mais. Então eu tive que fazer uma adaptação, um treinamento que foi aumentar a ração da gata, a posição, pra Mel evitar comer, e toda vez que ela brigar com a gata, eu vou fazer um comando: “Não!” Para ela aprender que cada um tem seu lugar também.
P1 - E foi assim que elas começaram a...
R - Foi assim que elas começaram... E sair mais, comecei a passear mais com a Mel, para ela fica confortável, porque quando chega um cachorro aqui, ela vai ficar brava, mas se a gente for sair pra passear, dar uma volta, a Mel já entende que ele é parceiro, então aqui dentro ela já fica de boa, então eu comecei a levar a gata pra passear, e pra emagrecer também; para passear junto com ela, para uma se sentir segurança e confiança na outra, se não for isso.
P1 - E ela se adaptou bem aos passeios também?
R - A Nala se adaptou. Até hoje eu... Só quando muda de casa. Tem uns 4, 5 meses que eu tô aqui, então... Tô fazendo 1 vez por mês, passeando com ela, até ela se adaptar à região e tal, mas quando ela se adapta, ela anda bastante. Ela já sabe o lugar que ela vai, onde ela até... Quando o gato faz xixi na calçada, quando tá com você, é porque ele se sente confortável, então no começo ela segurava o xixi e tal. Hoje ela já começa a fazer xixi, em alguma terra, algum mato, alguma coisa assim, então, por isso você vê que o gato está confortável.
P1 - De novo, são sinais.
R - São sinais que os animais dão, exatamente. E eu fiz um estudo pro pessoal da USP, que era de comportamento, que era levar a Mel e a gente, e eu era o estudo, eu e a Mel éramos o estudo; então a menina ia lá e me falava pra fazer uns comandos e tal, o que eu tinha que fazer pra ver a reação da Mel. Então acho que eu peguei isso do estudo da menina, prestei atenção, e tentei ver no gato também, ver se dá pra ver isso com o gato.
01:01:59
P1 - E eu queria que você contasse um pouco da sua parede.
R - Essa parede aqui?
P1 - Isso.
R - Ah, então, esses são todos os shapes que a Mel usou em todos esses anos que ela começou a andar de skate. E de bicicleta também, porque eu ainda tinha uma bicicleta. Então a gente tem o primeiro, que foi o primeiro que ela ganhou, e tem os outros que a gente ganhou alguns eventos. E quando enche, quando o shape enche de adesivo, eu troco o shape, ou eu compro, a gente acaba ganhando de alguma loja, ou alguém presenteia a gente por aí. Então, esses adesivos não são só adesivos, o adesivo tem história, tem tipo as empresas, têm os skatistas que tem (adesivos), tem as empresas de Pet também. Em todos eles eu coloco adesivo pra me lembrar do momento: “Ah, esse daqui tem esse daqui, da capivara”, é uma corrida de capivara, de skate e tem uma capivara, que a gente foi, por exemplo, então eles todos têm uma história, nesse sentido.
01:02:52
P1 - E tem uma história desses adesivos que tenha sido muito marcante, que você queria registrar?
R - Hum. Olha, tem esse aqui que foi o primeiro, que foi o que a gente foi pro programa do Ratinho, que eu fui levar ela com esse shape aqui, e que era pra ganhar uma Scooter. Então a gente foi pro SBT, porque eles vieram pra contar uma parte da nossa história também, porque com a bike a gente pegava sol e a gente pegava chuva. Então, não tinha proteção pra cachorro e São Paulo é muito doido, a gente sai de manhã com o sol lascado e voltava com a chuva. Pedalando a gente demorava muito, porque com o skate era mais pesado ainda, então eu com minhas as pernas, demorava muito pra chegar aonde eu queria. E a gente foi para o programa para justamente ganhar uma Scooter para agilizar o nosso caminho; não pegar tanta chuva, não pegar tanto sol. Então acho que esse tem uma história legal porque é o primeiro shape com a imagem dela, é o que a gente foi pro Ratinho; mas tem o da Raíssa Leal também, que eu tinha um sonho de ter esse shape da Raíssa Leal pra ela andar, e a Raíssa curtiu, viu, tudo. Foi bem bacana, eu acho. Foi mais isso.
01:04:05
P1 - E essas medalhas, tem alguma mais importante?
R - Essas medalhas, no começo era tudo mais de corrida, então eu corria com a Mel, o Kenny Cross, e algumas delas a gente ganhou em primeiro lugar, então a maioria é participação. Tem a que a gente participou da novela também, e tem umas do skate. Agora, eu acho que é a que chama mais atenção é a da São Silvestre (Corrida Internacional São Silvestre), do ano retrasado; sempre foi meu sonho participar da São Silvestre, mas eu morando no Paraná, não tinha essa, não tinha como vir pra cá pra participar da São Silvestre, minha mãe não era tão fã dessas coisas de esporte, e eu falava: “Mãe, vamos pra a São Silvestre”, e ela falava que eu estava louca, e eu falei, no ano retrasado: “Agora eu vou, vou pra pegar medalha e vou com a Mel!” Então eu ia pela sombra pra não pegar muita insolação, e deu super certo, tem um momento que a gente chega na Brigadeiro (Avenida Brigadeiro Luís Antônio, SP) que é quase no final, então, só falta a gente se ajoelhar de chorar! Foi muito emocionante de eu estar lá, de eu assistir aquilo quando era criança, assistir na TV e estar lá, então, você assistir uma coisa (na tv) e você estar lá, é uma coisa muito mágica, é uma superação, digamos que é o que todo mundo imagina, o que todo mundo pensa, igual você falou: “libertação”, lá atrás, então é um negócio que eu falei: “Nossa, finalmente eu vim num negócio que eu assistia na TV”.
01:05:24
P1 - E me conta um pouco como é a rotina de vocês hoje.
R - Então, hoje durante a semana eu trabalho, eu entro no meu trabalho às 7h30 da manhã e saio umas 5h30, então eu chego em casa às 7h30 da noite. Então, a minha rotina na semana é essa, eu chego em casa, ela já tem um comando dela de comer, que ela aperta o botão e come, então é de praxe, então eu chego, a gente se cumprimenta e tal, e ela já tem que fazer o comando dela de apertar o botão, e ela comer. Então, sempre isso, que é uma rotina pra ela justamente não sentir falta de mim em casa e tal. E nos finais de semana, quer dizer, durante a semana eu já vou fechando alguns eventos para o final de semana, então, por exemplo, semana que vem a gente vai ter um evento de skate com aniversário. Na outra semana vai ter o STU, então já tem que ir organizando a mala, a roupa, as coisas que eu tenho que colocar pra ela e pra mim, pra gente poder participar. E tem os eventos de cachorro, que as pessoas fecham no meio da semana (e perguntam): “Ah, você pode trazer a Mel? Vai inaugurar um Pet Shop; ou vai ter o Estância Pet” - que é um evento bem grande de cachorro, vai ter no mês que vem - “você pode vir?”. Então, eu mesma sou o marketing dela, sou a empresa dela, vou fazendo tudo de acordo com se ela tá bem, se ela tá ok pra ir aos lugares. E é isso, e aí, final de semana é isso, eu acordo cedo ou, se for perto da minha casa, eu vou com a Scooter, senão eu já tenho que fechar um carro, um Uber Pet para levar ela.
01:06:42
P1 - E o que ela gosta de comer?
R - Acho que a Mel gosta de comer tudo, acho que ela gosta de comer tudo, carne, frango, a ração dela, o petisco, a gente tá com uma parceria com um petisco novo. Ela gosta de comer tudo, de verdade, tudo, só coisas gelatinosas que ela não gosta muito, mas o resto... come arroz, feijão, se deixar...
01:07:03
P1 - Você estava contando um pouco o que representou ter a Mel, mas eu queria saber também o que a Mel significa na sua vida e o que a Nala significa para você?
R - Eu acho que hoje é uma companhia, é uma distração, eu sei que pode ser muito forte, mas eu vivi anos, quando não tinha elas, depois que eu saí da minha casa, por anos eu ia sozinha no cinema, eu ia sozinha... quando eu comecei a ter a libertação, eu ia pro cinema sozinha, eu ia pro parque sozinha. “Ah, mas você não tinha amigas?”. Mas eu ia pra faculdade, eu estudava, e depois eu ia trabalhar, então no final de semana eu queria paz pra mim, alguma coisa sozinha, eu e tal, pra acalmar, e eu acho que elas vieram para ser uma companhia mesmo pra mim, uma coisa tipo assim, “eu vou no parque, eu vou levar a Mel e ter ela pra brincar, pra correr, pra distrair a minha cabeça”, é isso. A Nala também, acho que no mesmo... E aquela questão de responsabilidade também, eu sempre tive responsabilidade, eu acho, eu sempre fui uma pessoa certinha, eu nunca fiz bagunça em casa e tal, mas eu acho que você cuidar de alguém é uma responsabilidade muito, muito, muito, muito importante. Então acho que é isso que eu falei: “Nossa, eu consigo cuidar de alguém”, eu tenho essa questão de cuidar de alguém. Eu acho que eu sempre fui desmerecida com isso: “Você não cuida de nada, você não cuida nem das suas coisas”, então eu acho que ela veio pra provar que eu consigo sim. Isso pra mim, antes eu queria mostrar pros meus pais, mas acho que hoje eu prefiro mais deixar pra mim, mostrar que eu consigo cuidar dela, pelo menos por enquanto, porque não é fácil cuidar de uma criança ou um Pet, não é a coisa mais simples do mundo também, mas eu acho que isso me deu um senso de responsabilidade de uma ciência assim.
01:08:43
P1 - Eu queria saber se você tem sonhos?
R - Eu tenho um sonho, meu maior sonho é ir pra Califórnia, eu andar na pista de skate da Califórnia e levar ela também, ainda enquanto ela estiver bem, quase realizamos, mas não deu certo, mas eu tenho esse sonho ainda. Sonho... acho que esse é o maior sonho de alcançar, de sair do Brasil e ir pra um lugar assim... Para esse tipo de lugar, sabe? E não só por causa do skate, mas porque lá atrás eu assisti uma série que era sobre Hollywood, sobre Califórnia, então... quando eu era criança eu já tinha isso: “Nossa, eu quero conhecer esse lugar”, é isso meu sonho, de viajar, não precisa nem passar 1 ano, 1 mês, passar uns 3 dias lá, já tá bom, pra eu conhecer, tipo, “eu tô aqui”, sabe? É isso. É isso, pessoal.
01:09:26
P1 - E a gente tá indo para as perguntas finais, o que é importante para você hoje? Na sua vida.
R - O que é importante pra mim hoje? Eu vou ser bem, bem, bem direta: saúde. Porque se eu não estiver com saúde, a gente não consegue correr atrás de trabalhar, correr atrás de fazer as coisas que a gente gosta, acho que é a saúde, e saúde, física, mental, tudo, tudo, tudo referente à saúde. Porque não adianta você estar bem por dentro e o mental estar um lixo, você deixar as pessoas te diminuírem também é complicado isso, isso fere muito.
01:10:05
P1 - Tem alguma coisa que eu não te perguntei, que você queria falar, contar sobre a sua história?
R - Eu acho que, eu acho que não, acho que tá tudo aí, não me lembro não de nada, de momento não.
01:10:20
P1 - E tem alguma mensagem que você queria deixar no final?
R - Para as pessoas em geral?
P1 - Sim.
R - Eu acho que as pessoas, tem que viver, tem que viver, eu sei que é difícil falar isso, mas trabalhar menos, se surgir uma oportunidade de você... “Ah, você tá fechada com o trabalho com uma empresa, trabalha só aquilo que você precisa”, (a gente) tem que trabalhar, a menos que seja uma urgência, você vai lá, ajuda, faz um extra sei lá, mas se não (for isso)... trabalhou, (agora) vai ter uma experiência de viver, vai para parque, ou quer ficar em casa vendo Netflix? Então fica em casa assistindo Netflix, então aproveita esse tempo porque a gente pelo menos no Brasil, a gente tá trabalhando muito mais e vivendo menos. Então acho que as pessoas precisam viver mais, eu digo isso porque eu tenho colegas no meu trabalho que nunca foram ao cinema, nunca foram num parque aqui em São Paulo. Eles falam que falta de tempo, por causa da família, mas eu acho que eles também não querem muito, mas eu digo pras pessoas saírem mais, sabe? Viverem mais um pouquinho.
01:11:14
P1 - E em relação a adoção de Pets, você quer deixar alguma mensagem também?
R - Adoção de Pets, existe aquela intriga: comprar ou adotar? Eu não sou contra comprar, porque, tem aquelas pessoas que falam: “Nossa, você compra um animal…” Trabalham com isso. Mas, tem as empresas legais que tratam, tem cachorros de raça, que se você pensar na questão de extinção de animal, tem muitos extintos, mas tem gente que está procriando para justamente inserir de volta aqueles animais. Então, me referindo aos cachorros, às vezes tem até cachorro que está quase em extinção e as pessoas estão procriando para venda legal e tal, por esse lado, eu não acho ruim. Eu até teria um animal de raça, mas existem tantos, tantos, tantos cachorros que estão abandonados na rua que eu acho que se a pessoa… Eu passo em várias casas que o quintal está vazio, não tem nada, e que poderiam ter um Pet pelo menos, então, acho que as pessoas poderiam ter mais ciência de adotar. E as pessoas poderiam ter mais ciência de não abandonar também! Porque eu acho que a grande maioria está (mais) abandonando do que adotando, então, adotem, se possível. Deixa de lado o rancor, deixa de lado toda a trabalheira, porque um dia, todo mundo vai para o céu, então as coisas vão ficar aqui, dá um espacinho pra uma vida, principalmente os de pelagem preta, que são os que menos saem para adoção. É isso.
01:12:40
P1 - Como que foi contar sua história hoje pro Museu da Pessoa? O que você achou?
R - Eu achei que foi muito interessante. Até pra mim, tem coisas que a gente tem que puxar na memória, relembrar e saber como falar. E eu acho que tem situações de vida mais complicadas, eu acho que é libertador estar aqui contando uma história. E eu acho que as pessoas, eu acho que foi muito importante. Acho que foi muito importante e a gente se alivia também um pouco de coisas. E puxar na memória e tal, acho que foi muito, muito legal. Muito gratificante.
P1 - Então, em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, em nome do Natan, do Ali, da Yoko, eu agradeço muito. Muito legal. Muito legal.
R - Eu que agradeço.
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