Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Marcelo Raymundo Rodrigues
Entrevistado por Luísa Gallo e Taynara Barreto
Muqui, 24 de abril de 2026
Código: DCC_HV023
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Marcelo Raymundo Rodrigues, Boi Xodó. Entrevistado por Luísa Gallo e Taynara Barreto. Muqui, 24 de abril de 2026. Projeto Universidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV023. Marcelo, primeiro eu quero te agradecer demais por te receber aqui.
R – Eu que fico feliz.
P/1 – Por topar dividir um pouco dessa história com a gente. É isso, para ser gostoso, fique à vontade.
R – Obrigado.
P/1 – E para gente começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Meu nome é Marcelo Raymundo Rodrigues. Nasci no dia 23 de dezembro de 1992. E a gente é aqui de Muqui, Espírito Santo, Muqui, capital da cultura, né? Que fala, né, Muqui do Boi Pintadinho.
P/1 – E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R – Não, assim o dia, assim, não. O dia que eu nasci, né, no caso. Não, mas a minha mãe fala. Fala que foi perto ali do Natal, né? Então, chegando pertinho do Natal. Aí, já comemora já tudo junto, né? Aniversário, véspera e Natal.
P/1 – Era comemorado junto?
R – Não. A gente tem vez que faz uma festa direto, mas tem vez que dá uma pausa, porque ninguém aguenta, né, direto.
P/1 – E o seu nome? Tem alguma história por trás do porquê foi escolhido?
R – Então, a minha mãe, ela trabalhava na casa de família. Aí, tinha um menino lá, o Pedro Igor, ele era mais novo. Aí, minha mãe grávida, na época, ele falou: “Joana”, ele chamava a minha mãe de Joana, “Joana, é o que que é? Menino ou menina?”. Aí, minha mãe falou: “Pedro Igor, eu não sei ainda”. Aí, quando falou que ia ser menino, ele que escolheu o nome Marcelo. Agora, o porquê, eu não sei. Ele...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Marcelo Raymundo Rodrigues
Entrevistado por Luísa Gallo e Taynara Barreto
Muqui, 24 de abril de 2026
Código: DCC_HV023
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Entrevista de Marcelo Raymundo Rodrigues, Boi Xodó. Entrevistado por Luísa Gallo e Taynara Barreto. Muqui, 24 de abril de 2026. Projeto Universidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV023. Marcelo, primeiro eu quero te agradecer demais por te receber aqui.
R – Eu que fico feliz.
P/1 – Por topar dividir um pouco dessa história com a gente. É isso, para ser gostoso, fique à vontade.
R – Obrigado.
P/1 – E para gente começar, eu gostaria que você se apresentasse, dizendo seu nome completo, a data e o local de nascimento.
R – Meu nome é Marcelo Raymundo Rodrigues. Nasci no dia 23 de dezembro de 1992. E a gente é aqui de Muqui, Espírito Santo, Muqui, capital da cultura, né? Que fala, né, Muqui do Boi Pintadinho.
P/1 – E te contaram como foi o dia do seu nascimento?
R – Não, assim o dia, assim, não. O dia que eu nasci, né, no caso. Não, mas a minha mãe fala. Fala que foi perto ali do Natal, né? Então, chegando pertinho do Natal. Aí, já comemora já tudo junto, né? Aniversário, véspera e Natal.
P/1 – Era comemorado junto?
R – Não. A gente tem vez que faz uma festa direto, mas tem vez que dá uma pausa, porque ninguém aguenta, né, direto.
P/1 – E o seu nome? Tem alguma história por trás do porquê foi escolhido?
R – Então, a minha mãe, ela trabalhava na casa de família. Aí, tinha um menino lá, o Pedro Igor, ele era mais novo. Aí, minha mãe grávida, na época, ele falou: “Joana”, ele chamava a minha mãe de Joana, “Joana, é o que que é? Menino ou menina?”. Aí, minha mãe falou: “Pedro Igor, eu não sei ainda”. Aí, quando falou que ia ser menino, ele que escolheu o nome Marcelo. Agora, o porquê, eu não sei. Ele que escolheu Marcelo.
P/1 – E como você descreveria a sua mãe? O jeito dela...
R – Ah, minha mãe para mim é tudo. Ih, aquela dali é a minha segunda vida, aquela dali. Minha mãe é tudo para mim, porque hoje ela está trabalhando, mas tudo que eu preciso, na hora que eu preciso, aquela dali é tudo para mim. Não tem nem explicação do que que é a minha mãe para mim.
P/1 – O nome dela é Joana?
R – É Joana Raimundo.
P/1 – E tem algum, assim, ensinamento que foi muito marcante para você que ela te passou? Ou alguma conversa que vocês tiveram em algum momento da vida?
R – Ah, tem. Educação. Graças a Deus, com ela eu tenho tudo, educação, tudo. Você nunca deixou para lugar errado, caminho errado, sempre me guiando certo ali. Minha mãe é tudo. É que antigamente ela era, assim, era cozinheira, né? Até hoje cozinha, cozinha bem. Ela tem um pouco de conhecimento, mas, graças a Deus, é que ela criou eu e meus outros irmãos, tudo num caminho só. Então, eu só agradeço a ela mesmo.
P/1 – Você tem alguma comida favorita dela?
R – Todas. Todas, mas a favorita é o básico mesmo, arrozinho, feijão, carninha.
P/1 – No seu aniversário, tem alguma comida que não pode faltar?
R – Ah, tem. Ela sempre faz um salpicão, um feijão tropeiro, essas coisas que ela capricha bem, que ela gosta.
P/1 – E o seu pai? Que memórias?
R – O meu pai eu tenho pouca memória, porque eu não fui criado com ele, né? A gente é de casamento separado. Eu não posso te falar, assim, que eu tenho memória dele, pouco via ele. Hoje, ele faleceu. Hoje não, né, tempos atrás. Ele era policial. Aí eu te falar de lembrança dele, assim, eu tenho pouco dele, bem pouco. Tive pouco contato. Tive mais contato com ele no final da vida dele. Aí, eu me aproximei um pouco, mas dele mesmo tem pouco.
P/1 – Você teve um padrasto?
R – Hoje, eu tenho, mas, assim, te falar de criança até agora, não. Minha mãe sempre foi sozinha. Agora que tem um padrasto aí, praticamente é um pai, né? Praticamente é um pai. Gente boa, praticamente é um pai, mas assim, desde criança até hoje, até o dia um pouco passado, não tive, não.
P/1 – E a sua relação com seus irmãos assim? Quantos irmãos você tem?
R – No caso, a gente somos em oito. No caso, eu e mais sete. É tudo em relação boa. Tem alguns que moram de parte de pai, né, que moram mais para fora. E tem parte de mãe que fica mais perto aqui. É tudo em relação boa, aquela coisa de irmão, né? Sempre mais novo fica para trás, leva prejuízo.
P/1 – Você é o mais novo?
R – Sou. Assim, das duas famílias, eu sou o mais novo. Sou o mais novo.
P/1 – E tem algumas histórias, assim, de afrontos, brincadeiras ou até isso de ser caçula?
R – Tem. Tem, mas é voltado pro boi, né? A gente era criança, eu e meus primos. A gente via, né, o mais antigo brincado de boi na época. Aí, a gente não tinha… como é que fala? Não tinha pano, coisa igual era antigamente. Aí, a gente cortava o bambu e fazia uma cesta, até no formato do boi. Na época, a gente não tinha as cabeças de boi. Era bem difícil de arrumar essas latas de óleo antiga, aquelas de ferro antiga, né? Aí, a gente pegava ela, furava, colocava num pedaço de mangueira, fazia igual boi. Aí chegava na hora do pano. Não tinha o pano aqui, que eu falei: “Gente, nós vamos ter que arrumar pano”. Aí, eu pedi à minha mãe essa cortina de parede de casa. Minha mãe ficava brava, nós pegava as cortinas. Ela dava as mais antigas, né? Ela dava para gente, aí botava, estragava aquela cortina, pegava outro lençol, mas era aquela coisa de criança, mas era bem gostoso mesmo. Essas lembranças boas que a gente tinha. Aí, a gente, época de escola, festa de escola, sempre pedia, na época perto do carnaval, alguma coisa assim voltada à cultura, eles pediam um boi. Aí, a gente vinha no Bieza, como é que é o presidente. “Bieza, tem como você emprestar um surdão, um tarão, um repinique?”. Na época, eles choravam, chiavam com a gente, mas emprestavam. Aí, a gente levava o boi na escola. A gente tinha um boizinho pequeno, a gente levava na escola. A gente ia no asilo também, ali no asilo dos velhos, né? A gente levava o boi lá também. Então, a gente sempre estava assim perto da cultura, sempre voltado à cultura.
P/1 – Desde menino, já tinha um boi?
R – Desde criança.
P/1 – E como é que era chegar com o boi na escola?
R – Ah, era uma festa danada, todo mundo gostava, né? Que aqui em Muqui, todo mundo gosta. E quando a gente chegava, meu filho, aquela bagunça, era sempre no final da aula, né, na saída. A gente fazia um cortejo ali de rua afora, batendo boi, o dia inteiro. Chegava em casa, ainda batia boi na rua, lata, quando era assim, as baterias, era lata, balde, o que nós achasse era instrumento. Essas latinhas assim menor, o que achava era instrumento. Sempre. Era sempre no batuque do boi ali, o dia inteiro. Aí, chegava à noite, batendo boi também, o vizinho ficava bravo, a mãe brigava, mas não adiantava, não.
P/1 – Não parava?
R – Não parava, não.
P/1 – E você conheceu seus avós?
R – Eu tenho um avô só e tem um avó que está vivo, lá em Mimoso, no caso, que é a mãe do meu pai, e tem o meu avô que é o pai da minha mãe. Conheço.
P/1 – Você era próximo?
R – Mais o meu avô.
P/1 – E tem alguma pessoa assim na sua família ou algum amigo próximo que se destaca na sua criação?
R – Ah, eu tenho bastante.
P/1 – Um tio, primo?
R – Primo eu tenho, sim, não vou te falar um, mas tem uns dois, no caso, o Vinícius ali, tem o Júlio, que sou mais agarrado. Tem até mais de dois, o Biel, assim, que sempre está comigo ali. Sempre, sim, que se destaca, que, na hora que eu preciso, sempre está comigo ali.
P/1 – E brincadeiras de infância? Tinha o boi, o que mais?
R – Aqui em cima, que a gente brincava de pique, era polícia, ladrão, né, que fala. Tinha aquele negócio de pular a carniça também.
P/1 – Como que era?
R – Estava a carniça, aí ficava uma pessoa abaixada, a outra tinha que passar, pular por cima, mas sem botar a mão nas costas. Aí, tinha que pular assim do outro lado, que se errasse, você que ficava no lugar. Tinha negócio de boleba também, pipa. Sempre, era jogar bola, essas brincadeiras, assim, mais antigas, que hoje em dia quase ninguém lembra.
P/1 – Era na rua, né?
R – É, na rua aqui.
P/1 – E seus irmãos? Tem algum que você é mais próximo? Ou que você queria contar alguma história com eles?
R – Próximo, próximo sou deles todos, né, assim, dos quatro, por parte de mãe, mas é tudo uma relação só. Como é que fala? É o dia a dia nosso, né, tem uns que trabalham comigo, tem uns que moram para fora, mas é o dia a dia mesmo. História é o que tem, sempre quando eu passo mal, quando a minha esposa não pode ir, aí tem um irmão que vai, né? Sempre está brigando comigo também, me dá conselho também, pega um pouco no pé, né? Mas a gente corre junto, de vez em quando a gente participa de corrida também, de maratona, essas coisas. Ela sempre está comigo. Tem um que é mais, gosta de jogar bola, que é mais, mas é, como é que fala? Essa é a mais chegada, no caso é Jucilene. Essa é a mais chegada.
P/1 – E a casa de vocês de infância? Como que ela era? Vocês dormiam juntos?
R – Não, porque antigamente era só eu que ficava ali com a minha mãe. Aí, a minha irmã ficava, uma morava em Vitória, aquela que trabalhava lá, e meus dois irmãos, eles moravam na roça, lá com o meu tio. Eles foram criados lá com o meu tio. Aí, com a minha mãe, era só eu mesmo. A gente morava ali embaixo, perto do antigo Cabides Fraga ali embaixo. A gente morava ali.
P/1 – E aí, na escola, você foi logo cedo, logo menino?
R – Fui, para creche eu fui. Minha mãe falou que eu fui com uma semana de nascido, porque ela trabalhava, não tinha com quem deixar. Aí, eu fui para creche com uma semana de nascido. Aí, até hoje eu passo na rua, algumas mulheres daqui lá que cuidou de mim, mexe comigo, fala lá que eu era o bebê delas até hoje, fica... Fui para creche com uma semana de nascido.
P/1 – E já maiorzinho, que recordações você tem da escola? Teve alguma brincadeira muito marcante? Algum apronto? Algum professor, professora?
R – Mas era bagunça, né, na sala, bagunçada que sempre tem, que não falta na escola. Mas eu fui mais assim na minha também na escola, não era muito de bagunça, não. Ficava mais no meu canto quieto.
P/1 – E quando você era pequeno, você pensava que queria ser, quando crescer?
R – A gente... Toda criança tem um sonho. Vai tendo vários, né? O meu era de ser polícia, mas aí não consegui, né? Tentei, mas não consegui, mas a gente sempre tem um sonho. Sempre tem.
P/1 – Ainda é seu sonho ser polícia?
R – É, mas não é também, porque a idade já passou, né? O que no caso é militar é até 28. Eu já estou com 33. Então, não tem como mais.
P/1 – E aí, você foi crescendo e sempre aqui?
R – Sempre aqui.
P/1 – Nesse bairro?
R – Sempre aqui nesse bairro. Eu morava mais embaixo, mas eu não saía da casa da minha tia, que era mais perto daquelas pedras ali tinha um bairrozinho em cima, mas sempre estava aqui.
P/1 – E como que era assim, pensando no bairro que você cresceu, pequeno, até hoje, quais foram as transformações?
R – Mudou muito, né? Porque antigamente era mais novo, a gente brincava muito, era aquelas brincadeiras mais sadias. Aí, com o decorrer do tempo, as coisas já foram mudando, né? Também eles tiveram que mudar de lá, né? Aí, já foi mudando bem as coisas, mas tem muita coisa boa. Várias recordações boas.
P/1 – Você pode contar alguma que você se lembra?
R – Ah, eu tenho... Pique, a gente brincava à noite, o dia inteiro, né, de pique, a gente ia para Poço, que tinha, né? Poço, a gente rodava tudo. Chegava à noite, aí quando eu ia brincar de boi era pique também, brincadeira, a gente sentava na beirada da rua para ficar conversando, né? É, sempre aquelas coisas boas.
P/1 – E desde pequeno o carnaval já era um evento aqui?
R – Já, desde pequeno.
P/1 – E você se lembra, assim, de algum carnaval, pequenininho, que você ficou, sei lá, fascinado ou que você participou mais ativamente?
R – Lembro, lembro. A gente quando a gente era menorzinho, a gente não participava, né? Porque o boi xodó, antigamente, eles desciam tocando até no centro lá da cidade, começava daqui até lá. Hoje em dia, o caminhão, o carro leva. Aí, a gente, quando era mais novo, a gente ia acompanhando eles tocando até lá. Aí, chegava lá, a gente ficava, ou sentado olhando o boi lá passando a avenida, ou ficava num outro ponto. E ali para gente era tudo, né? A gente via os boi passando, vários boi passando e na hora que passava o xodó mesmo, aí ficava aquela alegria danada. Até a gente participar, né? Tinha uma vez que a gente ia lá um pouquinho no meio, brincava, porque as mulinhas, as mulinhas, ela fica lá para limpar o lugar lá pro boi passar, abre um pouco o espaço. Aí, a gente criança ia lá, implicava com o cara que estava na mulinha. A gente saía correndo de rua afora. Aquela brincadeira boa.
P/1 – E vocês já se imaginavam sendo mestres de boi?
R – Não. Assim, mestres, assim, quando a gente criança, a gente falava, né? Um dia eu vou montar um boi. A gente falou, a gente vai montar um boi. Só que eu não pensava que ia estar hoje à frente do boi xodó, mas a gente sempre, aquele sonho de criança, né, a gente sempre foi participando.
P/1 – Qual que é a história do boi?
R – Então, o boi xodó, ele começou em 1992. Ele era um boi, no caso era o boi Moleque. Era o de Bieza e de outro rapaz, de outro rapaz lá. Aí, acho que separou. Eles dividiram, né? Foi cada um pro seu lado. Aí, o Bieza foi e falou assim: “A gente vai montar um boi aqui no bairro”, porque não tinha nada. “Aí, vamos montar um boi. Vamos montar um boi. Qual o nome?”. Aí, a esposa dele, a Célia, no caso, ela falou assim: “José, por que a gente não põe o nome do boi de Xodó?”, que acho que tirou daquela música do “Meu chamego, meu xodó”, do Luiz Gonzaga. Aí, ficou o Xodó daqui, o Xodó dali, pegou o nome até hoje. Aí, a comunidade abraçou e todo mundo gosta. Naquela época, era a festa, todo mundo tocando, os mais antigos tocando da equipe lá embaixo. O Xodó, hoje em dia, na hora que chega, na hora do desfile, na hora que é o boi Xodó, meu filho, todo mundo para, para tudo. Aquela sensação boa.
P/1 – É um favorito de Muqui?
R – É um dos favoritos. É um dos favoritos.
P/1 – E com quem você aprendeu a tocar?
R – Com o Moacir. Aprender mesmo, a gente já vem pegando a mãe, desde novinho, batendo lata, você vai apanhando. É igual o passarinho na hora que vai aprender a cantar, né? Ele começa se embolando, se embolando, até desembolar. A gente foi assim. Mas aprender a tocar mesmo, a aperfeiçoar mesmo, foi com o Moacir. Foi com o Moacir. Ele foi importante na minha vida ali e não só assim da questão do boi, né, que conselho também, ele foi um segundo pai para mim também. Porque a gente ficava envolvido não só no carnaval, ia para lá, para a casa dele, ficava lá, aí dava conselho para a gente, para mim e os outros meninos, assim de questão, assim de coisa errada, assim de vida errada, né? Ele foi importante. Aí, com ele eu fui aprendendo as coisas até chegar onde a gente chegou hoje.
P/1 – E a juventude, assim, quando você estava começando a ficar maior, menino, o que vocês gostavam de fazer? Você já estava dentro do boi Xodó? Quando você entra?
R – Então, eu quando estava começando a ficar um pouco maior, sempre gostei, igual falei, de jogar bola, pescar também, essas coisas. Ficava mais em casa também, né, mais em casa. Quando era na escola, em casa. Aí, quando não tinha nada assim para fazer, a gente ia lá para a casa do Moacir e ficava lá conversando. Aí, quando estava chegando perto da época de carnaval, a gente ficava só envolvido com as coisas assim de carnaval, né? Era pintar as baterias, mexer nas coisas, porque o Boi antigamente era outra pessoa que pintava, né? Era a filha do Bieza, que era mais manchinha. Eu ia lá e fazia as manchinhas, o meu tio que costurava o pano. Essas coisas assim.
P/1 – Então, você começou a ajudar a pintar e separar desde quantos anos?
R – Ah, desde 13, 14 anos. 13, 14 anos, já estava no meio, já. Desde 13, 14 anos.
P/1 – Uma vida inteira dedicada ao Boi?
R – Uma vida inteira. Bastante tempo. É porque na época, na época lá que eu comecei, eu tocava chocalho, comecei no chocalho, porque antigamente era difícil de você conseguir uma vaga no Boi, para você tocar. Ou você sabia, ou tinha que esperar uma oportunidade. Aí, eu comecei no chocalho, depois eu fui pro tamborim, que era esse daqui, esse pequenininho. Fui pegando a manha, o Bieza me deu um tarol, assim, o mais antigo. Aí, ele viu que eu fui pegando, lá que eu levava jeito, ele foi pegando mais confiança, mais confiança em mim. Aí, ele comprou um para mim novo, um zerado para mim. Falou: “Ó, esse daqui é seu. Que eu tô vendo que você tem capacidade”. Aí, fui pegando jeito, fui pegando, falei: “Ó, já está na hora de mudar de instrumento”. Aí, fui para onde eu fui, pro surdão. Dali, já fui pegando uma pita aqui, nas vezes lá como assim não podia pitar, era eu, e fui pegando essa carga para mim.
P/1 – Eu vou querer muito saber da pita, mas quando você começou a tocar, tinha algum instrumento que você almejava, que você queria, “Ainda para tocar esse”?
R – Ah, era o surdão. Eu acho que todo menino que começa a tocar no Boi, ele sempre quer chegar no surdão, porque o surdão é o centro da... Tem o repinique, mas o surdão é o centro das atenções no Carnaval. É aquele que é mais... Ou é o surdão, ou é o repinique. É o que mais a galera quer, o mais cobiçado. E tem o apito também, que não é o instrumento, mas é o que você põe moral na galera.
P/1 – E quando você começou no surdão, como é que você se sentiu?
R – Ah, eu fiquei no meio, no meio dos pessoal que na época tocava bem. Eu ficava mais no meio, tinha que acompanhar. Se você errasse ali, você errava toda a bateria inteira. Então, você tinha que... Ficava ali meio com medo, mas depois fui pegando a manha. Aí, você se empolga. Chega na rua lá, você deixa a emoção lá te levar. O corpo vai arrepiando várias vezes no meio lá. É um troço diferente. Não tem nem como eu te explicar aqui. Eu posso te explicar um pouco, mas a sensação de estar no meio ali é outra. Na hora que você chega naquela rua, por mais igual a gente pinta, a gente que faz tudo, a gente já tá vendo, mas na hora que chega na rua, assim, você olha e fala: “Gente, é uma coisa muita raça de bonito”. O corpo arrepia todo. Você vê o pessoal pulando, a galera pulando, gritando o nome do boi, e você vê que o seu esforço está ali, né? E você vê que você fala assim, deu certo, dessa vez deu certo. Então, para mim, é gratificante demais, né?
P/1 – Já teve alguma vez que você falou que não deu certo?
R – Já. Já teve vezes que... Porque, assim, o Carnaval nosso, você tem contato com o pessoal, é no meio da muvuca, aquele pessoal está ali, aí você tem que atravessar com o boi até no destino dele. Então, muitas das vezes uma pessoa pode passar, esbarrar em um tocador seu e aí erra, acaba errando a bateria. Ou muitas das vezes pode ser uma confusão também, no meio, ele acaba entrando lá pro meio da bateria. Ou pode acontecer de um instrumento pocar. Isso aí é fato. O boi também já aconteceu de o boi cair, o chifre quebrar, a pessoa que está pulando às vezes pisa no pano, alguém empurra. Aí, foi em 2019 que o chifre quebrou. O menino pulando, sem querer, foi rodar bateu na perna de uma menina e quebrou o chifre. Aí, o boi ficou com o chifre quebrado. Ali, o coração chegou a doer na hora. O pessoal, todo mundo falando “Quebrou, quebrou”. Falei: “Vamos fazer o quê? Vamos seguir o caminho”. Aí, chegamos em casa, conseguimos fazer um jeito ali, arrumamos. Mas já teve vez de dar errado na rua. Chega na hora, não dá certo o que se ensaiou aqui. Muitas das vezes acontece.
P/1 – E teve algum que saiu tudo muito bom? Um carnaval muito marcante nesse sentido?
R – Ah, o desse ano. De todos que, assim, de lá para cá, o desse ano foi o mais, assim, que valeu a pena mesmo. Desse ano deu tudo certo para gente, desde o primeiro ensaio ao último. Desde o primeiro pano que teve o imprevisto lá de um pano que deu errado, mas, mesmo assim, a gente não desfocou, deu certo. Esse ano foi tudo certo, graças a Deus, que deu o título lá para gente lá esse ano. Deu tudo certo na rua. A bateria, 100%. Todo mundo certinho. Então, é que foi bastante, bem, assim, como é que fala? De zero a 10, foi 10. Só 10. Não tem negócio de nota baixa, não. Só 10.
P/1 – E como que vocês escolhem o tema?
R – Assim, é coisa de menino, né? Hoje em dia, um filme já que já te marcou, um desenho na infância. Eu, vira e mexe, tô aqui em casa aqui o ano inteiro, eu tô olhando negócio de carnaval. Para mim, escola de samba eu tô escutando onde eu tô, no serviço, em casa, na escola de samba, ou é vendo negócio de boi. Aí, bate uma ideia, igual desse ano, desse ano agora. A gente estava entre os cavaleiros lá do Zodíaco e o God of War. Aí, eu parei e falei: “Não. Os cavaleiros… Acho que foi esses cavaleiros”. Vai indo, vai indo. Aí, chega perto do dia lá da decisão, né, que a gente faz a reunião, eu, minha esposa, os outros meninos que me ajudam. Aí eu falei: “Ó, então, a gente vai fazer esse daqui”, “Do God of War não vai dar certo”, “Por que que não vai? Vai sim”. Aí, a gente pegou e focou nesse. Fizemos um pano vermelho, né, no caso ele. Aí, o do jacaré que saiu um pouco do tema, que a gente fez o jacaré, que era um pano que a gente já queria fazer bastante tempo. Aí, fizemos esse ano e ele desse que está ele com o cachorro ali de três cabeças, que é o do pano preto lá que deu errado. Aí, falei: “Não, a gente vai fazer esse pano de novo”. Fizemos que deu certo. Aí, o tema do ano que vem a gente já vai vendo.
P/1 – Já começaram a pensar?
R – Já, não para não. Acaba um carnaval e já começa com o outro. E tem uns eventos também que tem assim, no decorrer do ano. Assim, tem uma festa que a gente faz aqui no bairro aqui. Eu e minha esposa a gente faz. A gente convida os outros grupos. Tem nos outros bairros também. Aí, se caso assim, se der tempo, a gente faz outro pano também. A gente faz outro pano, mas só que é muito trabalho. É muito trabalho, bastante coisa. Mas o tema lá do ano que vem a gente passa um pouco na mente, mas chegando perto a gente foca.
P/1 – E quais foram os outros temas?
R – A gente fez do Pantera Negra, do Dragon Ball Z, do Godzilla. A gente fez o Lobisomem também. A gente fez o Shenlong do Dragon Ball. Quais mais? Tem o leão, a gente faz o leão, o tigre. Era mais focado assim nos animais. Era um leão, um tigre, uma águia. Aí, depois foi começando os personagens assim de filme. É porque é igual aqui. Aqui, é 24 grupos. Aí, cada ano um faz um diferente. Igual a gente fez esse agora. Aí, chega daqui dois, três anos, um vai lá e faz o mesmo que a gente fez. Ele faz assim diferente. Aí, a gente também pega e copia um que um fez lá, mas faz diferente. É pouco tema para muito grupo. Então, tem vezes que acaba saindo um grupo lá com o mesmo tema, mas só que é diferente.
P/1 – O tema da rivalidade, como que funciona?
R – A rivalidade começou de uns dois anos para cá. Sempre teve. Antigamente, mas aquela rivalidade boa, não era pegada, igual está tendo, não, porque antigamente, cada boi tem na sua torcida, esse tocador, porque o meu tocador, ele toca aqui, ele toca no outro grupo. Ele toca até em dez grupos, lá que se quiser. Não tem esse negócio de restrição, não. Eu mesmo sou um. Eu sou mestre aqui, mas eu sou mestre no boi de Tsunami ali em cima, que tem mais um boi ali. Aí, para os outros boi, eu toco, eu ajudo, mas a rivalidade mesmo, ela começou de uns dois anos para cá. Aí ficou entre mais entre Xodó e Chapado, que são os dois que estão hoje nas cabeças ali. Tem lá os outros grupos que estão vindo fortes também, mas os que estão mais na cabeça, ali em cima, que tem uma rivalidade bem pegada, é Xodó e Chapado.
P/1 – Mas dá treta? Dá briga?
R – Bom, esse ano quase que deu, mas de chegar a ter treta na rua, assim, não. Fica aquelas provocações boas na internet, aquelas provocações, assim: “Ah, o meu é melhor. Ah, o meu tem bateria boa”. Um faz o desenho melhor do que o outro, entendeu? Aí, fica essa rivalidade, assim, mas de dar briga, briga mesmo, não. É que chega na rua, que tem as torcidas, né, que fica aquela rivalidade boa.
P/1 – E sabe o que eu queria te perguntar? Daí eu não vou saber se faz sentido esse jeito que eu vou perguntar das funções, mas tem da espada, tem, queria saber, quem desenha? Como que vocês vão pensando sobre a cabeça do boi, que é de um boi? Se você puder ir contando.
R – Então, a cabeça do boi, assim, é um processo de... Antigamente, né, os antigos iam nos matadores que tinham antigo, né? Nesses matadores de boi antigo, aí pedia a cabeça lá, pegava ela, que tem aquele processo de tirar aquela carne, aquelas coisas. Aí, ele jogava ela no açude, os peixes comiam e ela ficava ali no osso. Aí, dali você largava um dia no sol, ela secava, sequinha, saia aquele cheiro, mau cheiro, né? Aí, você ia e colocava no boi, na cesta, né? Mas se fazia cesta, colocava ela. Daí, começa, chega perto do carnaval, vai lá e encapa ela com pano, pinta e vai para rua. Mas só que aqui a gente tem essa cabeça nossa aqui, ela tem mais de 30 anos, essa cabeça de boi nossa, ela já é bem velha. Aí, para não perder ela, eu passei uma massa ali, ela ficou até mais pesada no boi, os meninos até reclamam, os que pegam. Ela ficou até mais pesada, mas a cabeça, acho que eu morro e ela fica aí ainda. Aí, tem os meninos, os que me ajudam, né? O desenho é assim, a gente escolhe, pega um projetor e a gente joga no boi. Ele com pano, pula, a gente vai lá e risca por cima e começa a pintar. Aí, uns vêm pintando, outros vêm jogando a purpurina e vêm finalizando ele, até chegar o ponto de ir para rua. Aí, um mexe com o boi, outro mexe com o instrumento, mas eu tô em volta de tudo. Eu tô um pouquinho no boi ali pintando, aí na hora que der uma folga eu vou pro instrumento, quando tem que fazer alguma coisa, trocar uma pele. Essas coisinhas.
P/1 – Em que momento, que ano, quantos anos você começou a conduzir?
R – Acho que uns 16, 17 anos. Quer dizer, porque o Boi Xodó teve um ano, não sei se foi 2010, 2009, a gente saindo na rua, aí teve uma confusão. Acabando que um monte de gente na rua, que saiu uma confusão aqui no meio da bateria, a bateria foi inteira, aquela confusão, um brigarada. Aí, naquele ano, a gente foi penalizado, pelo júri lá. A gente foi rebaixado e tudo. A gente foi pro grupo B lá embaixo, aí fomos lá penalizados. Nesse ano, o José Roberto queria parar com o Boi, o presidente, porque muita coisa, o pessoal lá criticando. No último dia que a gente saiu, a gente foi até escoltado lá pela polícia, porque o pessoal começou a falar que a gente tinha matado o rapaz. A gente não, o pessoal que brigou tinha matado o rapaz, mas só que era mentira. A briga que deu, atiraram no rapaz, mas ficou aquele disse me disse. Aí, fomos escoltados e tudo. No outro ano, a gente foi lá penalizado. Aí, depois eles descobriram que não tinham matado ninguém, que era mentira as coisas que inventaram. Fomos penalizados. Aí, nesse ano, a gente foi lá para levantar o Boi um pouco, a gente teve uma participação, teve uma escola de samba de Vitória lá que contou a história da cultura de Muqui. Acho que é Santor 4. Aí, a gente foi para lá, a gente levou o Boi, a gente desfilou junto. No outro ano, o Boi subiu um pouco. Aí, o Biaza queria parar. Falou: “Vou parar, já estou cansado, já estou trazendo os problemas de fora para dentro de casa”. Aí, eu ali no meio, junto com o Moacir ali, escutando isso lá, falei com o Biaza. Falei para ele: “Peraí, parar o Boi, não vamos parar não”. Aí, vim aqui em casa rapidinho e falei: “Mãe, posso trazer o Boi para casa?”. Aí, minha mãe falou assim: “Pode”. O espaço aqui era pequeno. Falei: “Então, tá”. Aí, saí correndo, criança e menino novo. Falei: “Não, Biaza, não vai acabar com o Boi não. Se é questão de ter problema na sua casa, com a sua família, se tem questão que você não quer trazer, eu vou levar lá para casa”. Aí, trouxe. Veio para cá em 2011 o Boi, até hoje, em 2011. Mas não deixei que parar não. Aí, foi onde que eu comecei a entrar para dentro mesmo das coisas [pausa para hidratação e corte na gravação].
P/1 – Então, foi em 2011 que você recebe o apito?
R – É, foi em 2011. Comecei a pegar a frente ali. Aí, peguei o apito, comecei a apitar e foi indo, até hoje.
P/1 – Você consegue acertar esse dia, assim, de sair nesse carnaval? Deu frio na barriga?
R – Ah, deu. Sempre dá. Para mim, todos os dias, todo ano é como se fosse o primeiro. Chega naquela hora, aquela ansiedade, aquele frio na barriga. Igual que a gente está aqui, pintando, fazendo tudo, mas, na hora que chega na rua lá, parece que é o primeiro dia, assim, que eu comecei. Dá aquele frio na barriga, o corpo arrepia. Tem vezes lá de eu passar mal, de decorrer no carnaval de ansiedade, eu fico ansioso. Eu chego a passar mal. Não durmo direito, com medo, assim, das coisas sendo erradas. Uma coisa, assim, inexplicável, né? Mas, na hora que chego na rua lá, vejo que deu certo, aí só alegria, mas o primeiro dia que eu apitei lá, para mim, foi tudo. Era baixinho, baixinho não, né? Mais novo, aquela responsabilidade toda ali, mas, graças a Deus, deu certo. Deu tudo certo.
P/1 – E os simbolismos, assim, do espadeiro? Qual que é a história?
R – Então, no caso, o espadeiro é mais a mulher, né? No caso, que tinha a dona Érica ali, que foi uma das primeiras. Hoje, a gente tem a Ritinha. Ela tem um grupo dela também, mas ela participa aqui. Então, o espadeiro é aquilo. Ele é principal ali, ele vai guiar o boi, né? Que não deixa se machucar as pessoas. Aí, se tem uma criança, se tem um idoso, uma pessoa, assim, que está deficiente, pega o boi, leva lá. E fica brincando ali com o boi que chega. Corre para lá, corre para cá. Aí, ela vai, ela chama o boi, o boi vai. Fica aquela coisa ali. Mas só que tem uns espadeiros lá que é meio doido também, né? Que bate no boi. Aí, faz aquela brincadeira maneira também.
P/1 – E tem outras pessoas?
R – Tem, os outros bois tudo tem. Os outros grupos, a maioria tem, mas tem grupo aí que o bicho pega. Aí, tem que ter espadeiro mesmo. Dois, três espadeiros que o boi não é fácil, não. Que se deixar o pessoal passar mal na rua. Aquele calor, assim, o boi é mais agitado, né?
P/1 – E o Xodózinho sempre esteve presente?
R – Não, o Xodózinho começou de 2023 para cá. A gente, eu e minha esposa, a gente via as crianças sempre na hora dos ensaios, ficava ali olhando. Aí, eu falei: “Não, a gente vai montar um boi infantil aí”. Eu comecei a ensaiar eles, assim, desde novinhos, pequenininhos com os instrumentos, às vezes até maiores que eles, eles ali tocando. Aí, foi onde a gente começou com o Xodózinho. Estamos aí até hoje. É a base, né? Porque aí eles começam ali, vai com três, quatro anos, assim, depois eles já estão no boi adulto. Igual a minha filha, ela já participa. Aí já ano que vem, de antes, a gente já pode colocar ela no Boi Xodó grande, mas eles estão ali na base, ali. Sempre.
P/1 – E ela se vê sendo mestre de boi algum dia?
R – Ah, eu acho que sim, acho que sim. Acho que se vê, porque ela gosta, que ela ali gosta. Às vezes, eu tô aqui fazendo as coisas, ela tá olhando, ela tá me ajudando, pergunta. Às vezes, eu pego o apito dentro de casa, eu fico brincando. Ela gosta. Não só ela, né? Tem uma bichinha também que a gente cria lá. É prima, mas a gente trata ela como se fosse nossa filha. É outra também que gosta bastante, se tiver dois anos. O Antônio também. O Antônio, desde botar ele assim. A mãe dele grávida estava no meio do boi, ele pulando. Então, o bichinho já nasceu, já. Hoje, ele faz as paradinhas, toca a repinica. Já tem um boizinho dele também, eles estão criando aí. Mas o Antônio é o futuro mestre, eu acho que é ele. No meu lugar, no dia que eu falar que parei, o futuro mestre do Boi Xodó é ele, o Antônio. Aquele dali gosta bastante também.
P/1 – Você já pensou em parar?
R – Não. Só se aquele lá de cima falar “Chega”. Só se for por um motivo maior mesmo, mas, se depender de mim, vou até o final. Enquanto eu tiver força e puder, eu vou até o final. Tentar deixar esse legado aí para outras pessoas.
P/1 – E a sua filha? Você quer contar um pouquinho dela? Como foi se tornar pai?
R – Foi em 2016 que eu conheci a mãe dela. Não, em 2015, que eu conheci a mãe dela. Acabou que a gente se juntou e ela engravidou. Logo assim também já me separei da mãe dela. Passou um tempo, hoje ela mora lá com a mãe dela, mas aos finais de semana, de 15 em 15 dias, eu pego ela aos finais de semana. Ela fica lá. É tudo para mim, minha bichinha. Gosto muito. Ela vem para cá, a gente sai, a gente vai pescar. A minha esposa hoje trata ela como se fosse a filha dela também. Gosto muito. Fico com ela aí. Então, é tudo para mim.
P/1 – O dia que ela nasceu, você consegue se lembrar?
R – Consigo. Eu estava lá na porta do hospital nervoso, que eu não podia subir. Aquela coisa de pai, né? Fica ansioso. Na hora que eu vi, a chave da vida muda. Na hora que você vê um pedacinho de você ali, a chave da vida muda. Então, para mim foi tudo.
P/1 – E como é para você ver ela curtindo tanto o carnaval, se interessando tanto pelo boi? O que isso representa?
R – Ah, eu fico bobo lá na rua, igual esse ano mesmo. Ela pulando lá com as amiguinhas dela, com a camisa dela do boi. A gente fica imaginando longe já, né? No dia de amanhã, já pode ser ela. A gente fica assim: ontem era eu, agora já é ela. Então, a gente fica parado no tempo, assim.
P/1 – Você vê nela suas emoções de criança, vendo o boi? Como se você estivesse vendo você mesmo criança?
R – Vejo, porque tem hora que, às vezes, eu fico vendo a reação dela na hora que a gente tá tocando. É quase igual quando eu era criança também. Às vezes, a gente não pode ir, por causa do boi e as coisas. A gente fica de longe olhando. É as mesmas sensações lá que eu tinha antigamente.
P/1 – E como você conheceu a sua esposa?
R – A Laisa? A Laisa é que tocava aqui, né? Quando a gente começou a ficar em 2019, em 2020, em 2019 que eu conheci ela, mas a gente começou a ficar em 2020. Eu era mestre e ela vinha tocar. Aí, teve um dia a gente conversando no WhatsApp. Eu estava conversando alguma coisa, assim, no grupo lá. Ela foi e me perguntou, porque ela participava lá de outro grupo. Ela perguntou a questão do negócio de purpurina do boi, se tinha um pouco para arrumar ou para vender para o outro boi. Aí, começou dali. A conversa foi rendendo, foi rendendo. Aí, a gente começou a ficar. Está comigo até hoje, graças a Deus. Minha parceira aí, junta aí, agarrada comigo para tudo aí, a questão do boi e tudo. Não só do boi, né? Das outras coisas. É tudo ela que resolve para mim.
P/1 – E hoje ela está no Xodó?
R – Está. Hoje, eu passei o boi infantil para ela, responsabilidade para ela, porque só o Xodó para mim já é muito peso. Muito peso.
P/1 – O boi foi cupido, então?
R – Foi, através do Boi Xodó. Através do Boi Xodó.
P/1 – E a pandemia aqui? Como que foi?
R – Assustou. Assustou bastante. Parou tudo. Parou o carnaval, parou tudo. Aí teve um ano quando estava... Foi em 2021. Ela começou no finalzinho de 20, 21. Não teve carnaval, 22 que estava começando a normalizar as coisas, e começar a voltar, né? Aí, o pessoal até ensaiou em voltar ao carnaval. O pessoal foi e cortou. O governador cortou, não teve. Nesse ano que estava começando as coisas voltarem, que a gente fez em 2023, que a gente começou com uma festinha aqui, um carnaval aqui fora de época. Aí, foi onde foi voltando, mas o pessoal não está com pouco com medo, né? Porque daqui foi bastante gente também, pegou só um bocado. Diz que teve fatalidades também.
P/1 – Como você se sentiu não indo pro carnaval nessa época?
R – A gente ficava doido, né? Na época do carnaval, ficava em casa, não podia sair, né? A gente ficava vendo os vídeos mais antigos, as coisas, as lembranças, mas não podia sair, né? Mas foi bem ruim, uma sensação bem ruim.
P/1 – E aí, o carnaval depois da pandemia foi...
R – Aí, voltou em 2023. Voltou aquele carnaval que o pessoal que respirou mais aliviado. Aquele alívio. Você estar voltando a fazer as coisas, né? E aí, para gente, ia parar tudo ali.
P/1 – E daí que veio o Xodózinho?
R – É, aí que veio o boi das crianças, que começou o boi infantil.
P/1 – O que mudaria na sua vida, Marcelo, se não tivesse o boi? Se o boi tivesse que acabar, como seria a sua vida?
R – Se tivesse que acabar? Ah, a gente ia até se acostumar com outra coisa, né? Acho que, sei lá. Fica meio diferente. Mas sem o boi, assim, eu nunca pensei ficar, assim, sem essa cultura nossa. Até se abraçar outra cultura, né? Fica meio difícil, porque o boi, na hora que chega, você vai chegando na época, perto do carnaval, aquela euforia, você fica... Aquela coisa boa.
P/1 – E outros trabalhos? O que você faz?
R – Como assim?
P/1 – Na vida mesmo?
R – A gente trabalha na roça. Eu trabalho na roça, né? A gente toca lavoura de café, essas coisas assim. E eu, minha família, também minha mãe, eu tenho minha lavoura, essas coisas. Mas é focado isso, a agricultura, essas coisas.
P/1 – E como é seu dia a dia? Próximo do carnaval e longe do carnaval?
R – Longe é mais tranquilo. Agora, quando está chegando o finalzinho ali, aí fica meio corrido, né? Aí, você chega, às vezes eu chego cansado, quatro, cinco horas da tarde, já tem que engatar no boi. Mas, de uns tempos para cá, eu já estou parando umas duas semanas antes, eu foco mais no boi. Aí, você tem tempo, né? Porque tem vez da gente pintar boi até duas, três horas da manhã. Agarrado pintando boi, para dar tempo. Ou tem vez também que a gente pinta o boi até no dia do carnaval. O boi sai dez horas da noite, nós estamos aqui sete, oito horas, ainda estamos mexendo com o boi. A gente já chega na rua na hora. Correria.
P/1 – E como que é isso? No dia do carnaval, vocês sempre saem à noite?
R – Sempre.
P/1 – O carnaval todo aqui é à noite?
R – É à noite. Aqui, começa na sexta e termina na terça. A gente sai sábado, domingo e segunda agora. Três dias seguidos, mas em horário diferente, né? No caso, a gente sai nove, nove e pouca, meia-noite. Tem vez que sai uma hora da manhã.
P/1 – E quantas pessoas fazem parte?
R – De quê? Do boi?
P/1 – É.
R – Ah, igual eu falei, já está beirando uns 90 já. Todo ano já está chegando bastante gente. Um caso sai, um caso chega. Aí, a gente vai comprando mais instrumentos também, vai implementando mais umas as coisas diferentes. Mas já está beirando uns 90 ali.
P/1 – E, Marcelo, você como mestre tem uma responsabilidade de preservar essa memória dessa cultura?
R – Tem bastante.
P/1 – O que isso significa para você?
R – Ah, significa muito. Significa muito, porque como é que eu falo? É um fardo que você tem que manter sempre ali para não deixar acabar, né? Porque, se eu parar aqui, se eu desanimo aqui, o outro vai e desanima ali, a cultura só vai indo de decadência acabando, né? Então, a gente sempre tem que tentar manter. Incentivar também os outros meninos mais novos também que querem começar também. Sempre está incentivando para não deixar parar.
P/1 – E a importância para cultura do Espírito Santo assim? Você acha que as pessoas fora dessa cidade de Muqui conhecem a história do boi? Você gostaria que mais pessoas conhecessem ou não?
R – Eu acho que a maioria conhece assim. Que vê falar do sítio histórico de Muqui, dos casarões também que tem, Folia de Reis, o Boi Pintadinho. Mas eu acho que tem que ser mais divulgado, né? Até mais conhecimento, chamar mais turistas para cá, pro pessoal ver também bastante. Porque hoje a cultura nossa é uma cultura boa e forte, mas só que de um tempo para cá… Como é que fala? A gente está um pouco sendo meio que jogado um pouco de lado. Então, é bom ter mais reconhecimento para gente aparecer mais.
P/1 – Como assim? Jogado de lado?
R – Como é que fala? É pouco reconhecimento. Não fala assim, igual muitas coisas que vão aparecendo a gente não tem uma... Como é que fala? Uma pessoa certa que pode um edital, uma pessoa que pode ajudar, que sempre vai fortalecendo a gente. Então, a gente tem que ficar correndo aqui, correr ali e às vezes perde um edital importante, perde alguma coisa importante. Então, eu penso assim, a gente tem que ter mais reconhecimento.
P/1 – Vocês já sofreram algum preconceito por causa da tradição do boi?
R – Não. Até hoje não.
P/1 – E sua mãe?
R – Ela gosta, ela fica aqui, ela tem um barzinho ali, né? Ela gosta, mas de ir na rua, não. Ela gosta. Ela fica na varanda, fica pulando, a gente está ensaiando aqui em frente. Ela gosta bastante. Ajuda, participa na época do churrasco. Ela cozinha, ela faz as coisas. Ela patrocina o boi também. Ela gosta. Sempre está incentivando.
P/1 – Você acha importante falar mais alguma coisa do boi que a gente não tenha te perguntado? Que seria interessante ter esse registro.
R – Muita coisa já falei, mas sempre tem aquelas emoções boas, igual eu falei. Igual como que começou o desenho. O cara que começou foi o Jonathan, no caso é o Dude. A gente chama ele de Dude. Ele que teve as ideias de mudar, sair um pouco das manchinhas e voltar lá para o desenho. Foi em 2008, 2009. Ele teve essa ideia e falou: “Já está na hora de mudar um pouco. Não precisa ficar todo mundo só com manchinha. É a tradição, mas vamos mudar”. Foi onde começou aqui. Ele começou com uns desenhos tribal na época. As coisas ficaram maneiras. Depois de dois anos, outros grupos também gostaram da ideia e começou fazendo essas ideias aí.
P/1 – A gente viu um vídeo muito emocionante da troca do pano. Como é essa emoção com o público lá vendo isso?
R – A gente já começa a divulgar as camisas. Fica aquele mistério. Um posta uma camisa, outro posta. Só esse ano eu fiz umas 10 artes de camisa. Não gostava, então mandava mudar. Não, essa não. Às vezes, até a pessoa que faz a arte para mim fica até bravo comigo. Eu mando ela fazer uma coisa, um dia, outro dia “Não, não vamos colocar mais isso”. Chega na rua, na hora que se divulga uns dois ou três dias antes a camisa, o pessoal fica querendo saber o que está no desenho. Ele sabe o que é o tema. Igual do Pantera Negra. Sabia o que era, mas não sabia o jeito que estava. Na hora que chega na troca de pano, a gente pega a fumaça, começa a tocar a bateria, pega a fumaça, rodeia o boi. Na hora que baixa o pano, aí, minha filha, todo mundo fica doido. Aquela sensação boa mesmo. O pessoal fica todo doido. No outro dia, a gente bota o pano que vai ser, por baixo, e joga o que saiu primeiro por cima. Aí, faz o mesmo ritual ali. Puxa o pano, solta aquele monte de fumaça, troca o pano.
P/1 – E esse primeiro momento, que, quando vai começar, você sobe no banco, como é isso?
R – Ali, para mim, é tudo. Ali zera tudo, para tudo em volta. Foco só ali. Para tudo. Volta aquela lembrança desde o começo, de quando eu comecei, ao primeiro dia, até aquele ponto ali, o primeiro ensaio, até aquele ponto, a primeira gota de tinta no pano. Para tudo. Na hora que eu vejo que deu certo, o pessoal gritando, o pessoal vibrando, eu já vi gente chorando na hora ali. Eu mesmo já chorei. Ano passado, eu fui um. Na hora que chegou lá no final do trajeto que a gente tem que fazer e antes do trajeto, o pessoal começou a gritar, vibrando, viu que deu certo. Eu já cheguei chorando, o pessoal me pegando no colo. Falei: “Não, dessa vez não aguentei, não”. Você vê que valeu a pena.
P/1 – E você que inventou isso de subir no banco?
R – Foi. É porque eu fico vendo uns mestres lá das escolas de samba, é porque o ritmo deles lá é diferente um pouco daqui, mas a gente pega algumas ideias lá, uns toquinhos, umas paradinhas. Aí, eu vi lá que ele subia, que ele fica maior, né? Eu já sou grandão, praticamente eu sou maior da minha bateria. Falei: “Não, esse ano vou subir no banco”. Aí, comecei nos ensaios, pegar o banco, subir. Minha mãe até perguntou: “Esse banco você vai levar para rua, né?”. Ela: “Você vai perder meu banco”. Eu falei: “Não vou, não, mãe”. Levei o banco para rua, deu certo. Primeiro dia, subi no banco, no segundo, terceiro. Deu certo essa ideia do banco. Aí, até me zoaram no grupo da secretaria nossa lá. Até uma postagem lá que fizeram lá dos outros grupos que perderam, acharam meio... Aí, postaram: “Ué, mas com esse banco aí que ele ganhou o carnaval?”. Uma pessoa passando com o banco na hora e tiraram a foto. Aí, eu falei: “Vou fazer o quê?”. Os outros colegas até zoaram: “Ano que vem eu vendo banco, hein? Se vocês quiserem eu vou vender banco na rua”. Aí, ficou com essa brincadeira boa.
P/1 – Todo carnaval agora tem que ter o banco?
R – Tem que ter o banco. Tem que ter. Tem que ter o banquinho.
P/1 – E você, enquanto mestre, dentro da bateria, quais são os ensinamentos que vocês têm de troca entre os músicos? Teve algum dia, alguma troca, alguma conversa com algum dos músicos que foi muito importante para você? De você dar conselho? Ou de você ouvir algum conselho?
R – Tem. Do Moacir, né? Na época, igual quando eu comecei a tocar surdão, eu tocava num ritmo meio rápido, meio acelerado, dando bordoada mais forte. Ele chegou aí para mim. Isso foi o único conselho que eu carrego até hoje, passo lá pros meus meninos. Ele falou: “Ó, isso daí não é saco de pancada. Isso aí você tem que pegar num jeito com carinho. Assim que vai sair o som e nesse ritmo aqui”. Até hoje eu passo isso lá pros meus meninos. Eu vejo uns meninos meio acelerados, tocando forte. Não é assim. É com carinho. É você que tem que... Como é que fala? É você e o instrumento. Ela vai virar uma pessoa só. Aí, eu falo com eles: “É você que tem que sintonizar ela com o instrumento”. Eu sempre passo para eles. Aí, eu vejo os outros grupos assim, na hora que está desfilando. Os outros meninos tocando de um jeito e do outro. Aí, eu fico incomodado, que eu não posso me meter no meio da bateria. Tem uns até que eu dou um espetáculozinho. Eu vou lá, ajeito um pouco para eles, mas a gente fica meio incomodado vendo as pessoas se tocarem de um jeito diferente. Aquilo aí que não está no padrão, mas é porque a gente já cresce no meio, aprendendo. É igual quando você vê uma coisa errada ali, mas você não pode corrigir, né? É desse jeito aí.
P/1 – Encaminhando pro fim, queria te perguntar quais são os seus sonhos hoje.
R – Meus sonhos hoje? Falar de sonho, a gente sempre tem, né? Mas hoje eu acho que meu sonho é ver minha família bem, continuar bem. Minha comunidade bem, meus amigos, todo mundo bem. Sonho hoje é de poder chegar mais longe com a nossa cultura, bem além. Divulgar mais a nossa cultura. A gente vê que dá mais valor, né? E que portas novas abrem para gente no dia da manhã.
P/1 – Você gostaria de acrescentar alguma passagem que a gente não tenha te perguntado de algum momento da sua vida? Inclusive, fora do boi, assim, no boi?
R – Não. Acho que os momentos bons mesmo, eu falei tudo.
P/1 – O que te dá força para continuar?
R – O que me dá força? Uma é minha esposa. A outra é meus amigos que gostam junto, né, e as crianças. E eu gostar da cultura também. Eu gostar, porque, se você for olhar, sempre tem um lado bom e tem um lado ruim. Tem as críticas, sempre você não vai agradar a todo mundo, mas, se você for parar pensar nas críticas, você para ali mesmo. Ali, você já freia. Mas eu penso sempre no lado bom. Sempre no lado bom.
P/1 – De onde que veio esse encantamento seu com a cultura? Você consegue dizer?
R – Ah, isso é coisa de criança. Eu não consigo explicar, não. Quando a gente começou a entender o que era o carnaval, até hoje. A gente fala da onde que saiu. A gente gosta mesmo.
P/1 – O que você achou de contar um pouco da sua história para gente?
R – Ah, eu gostei bastante, porque é uma coisa única, né? É a primeira vez que acontece comigo, parar e sentar e contar, porque geralmente é o outro mestre lá que conta mais a história dele. Eu fico mais sentadinho ali, escutando, mas de eu parar e contar a minha história mesmo é a primeira vez. E eu gostei bastante. É uma coisa boa que fica guardado pro resto da vida ali.
P/1 – E que vai desde novinho.
R – Desde novo. É uma coisa boa. Nem com a minha esposa eu nunca parei para falar da minha vida inteira até hoje. Eu gostei bastante.
P/1 – Querido, muitíssimo obrigada. Que beleza. Nossa, a conversa foi maravilhosa. Conhecer mais essa cultura é linda. Aprendi muito. Posso te fazer um convite ousado que você pode recusar?
R – Pode.
P/1 – Se você pudesse tocar, não sei, em relação ao som, por exemplo.
R – Não, a questão é que um sozinho, sempre tem que ter mais alguém, né, para dar uma sintonia boa.
Lai (esposa de Marcelo) – Espera aí, cinco minutos, se vocês puderem. Os meninos estão aqui, porque são fominha e estão tudo doido.
P/1 – Você tocaria?
R – Eu posso. Você chama alguns para vir aqui? O Alexandre, os meninos. Se eles virem aqui, se eles não estiverem ocupados.
P/1 – Obrigada.
P/1 – Foi muito legal, Marcelo. Muito obrigada [corte na gravação].
R – A gente às vezes fica sabendo e já fechou para gente poder sair um pouco mais.
Lai (esposa de Marcelo) – A gente queria ter uma pessoa por nós, que conseguisse pelo menos ajudar. “Ah, Marcelo, vocês fazem um projeto bacana em cima. Vamos escrever um edital para vocês conseguirem uma verba, para ficar melhor a festa de vocês” ou “Vamos em tal lugar assim. Ver se a gente consegue uma emenda para voltar para isso paras festas de comunidade”. Porque não tem só a nossa. Tem aqui, tem no outro bairro, né? Mas a gente não tem infelizmente. Eu vou falar. Todo mundo hoje tem internet, tem acesso a edital, mas não é todo mundo que sabe escrever, gente. É igual o edital de 300 milhões. É tantas vagas. É 30 mil vagas. Mas entre essas 30 mil, é tudo bem elaborado. Aí, vai eu. Eu, de vez em quando, me dou admitida, né, Marcelo? Pego o computador, escrevo, mas do meu jeito. Aí, eu competi com uma pessoa bem mais experiente.
P/1 – Sua dor é compartilhada por nós. Então, queria que você pudesse explicar um pouquinho dessa festa, desse projeto que vocês criaram, você e sua esposa. Do boi, do boi cachorro, enfim, das crianças, da participação e o convite de outros bois poderem participar.
R – Então, a gente aqui foi assim, logo foi pós a pandemia, né, que a gente começou, que aí estava no meiozinho do ano ali. Todo mundo já com a mão coçando, querendo tocar, fazer uma bagunça de boa. Falei: “Então, vamos montar uma festinha aqui em cima”. Aí, convidei os outros grupos, uns 5, 6 grupos vieram também, que estava todo mundo naquela euforia, né? Que estava voltando as coisas normal. Aí, começamos uma festinha aqui que a gente chama ela de Juntos Somos Cultura, que foi uma ideia minha e da minha esposa. Aí, ficou bacana. Assim, lá que todo ano a gente faz, a gente chama os outros grupos. Alguns grupos não podem vir, né? Que tem alguns compromissos, mas sempre está tendo uma faixa de 8, 9 grupos. Aí, ano passado, na brincadeira, assim, com as crianças no grupo, eu falei assim: “Ó, esse ano vai ter o boi cachorro aqui na nossa festinha”. Aí, o pessoal: “Está doido. Que boi é esse? Que boi é esse?’. Não, vai ser uma surpresa aí. Aí, quando foi ano passado, agora eu e os meninos pegamos uma cesta de boi, um negócio, botei um pano, um pano até de cetina preto. Aí, fizemos umas manchinhas com umas patinhas de cachorro. E o pessoal, na hora que viu aquele boi, que é um ritmo até diferente, a gente toca, né? Os pessoal ficaram encantados com ele. Ficaram encantados.
P/1 – E aí, entra a madrugada também?
R – Vai, vai até 2, 3 horas da manhã, porque na hora que acaba os bois, sempre tem um forró, um pagode. A gente coloca também, né, para dar uma incrementada a mais. Esse ano, se Deus quiser, a gente vai fazer de novo. A gente não tem a data sempre certa, né? Mas a gente vai fazer de novo.
P/1 – Acontece fora do carnaval?
R – Fora. Fora do carnaval. Mas, assim, depois de julho, assim, né? Depois das festas que tem em volta aí das regiões, a gente sempre faz.
P/1 – E esse projeto tem essa festa ou tem mais também alguma outra coisa que vocês fazem?
R – Tem. Não, assim, tem outras festas que as outras pessoas...
P/1 – Na comunidade, né?
R – Não, por enquanto é só essa daí mesmo. E tem a dona Nega ali que faz a festinha das crianças, tem a outra prima minha que faz ali na outra comunidade, embaixo também, umas festas, assim, pras crianças. Mas sempre o boi está junto. Tem a festinha das crianças, o principal ali no final é o boi. Eles pedem, a gente leva o boi também. Aqui embaixo também a gente leva. As crianças gostam, né? Sempre está com o boi em volta de tudo aí.
P/1 – Quando as crianças viram o boi Cachorro, como é que foi?
R – Ah, esse cara ele um bocado fica rindo, um bocado gosta, pula, fica todo mundo doido. O pessoal gosta, né? Que é um ritmo diferente. O pessoal gostou da ideia e por causa do nome também, né? Porque é um nome engraçado, não tem nada a ver com... Ou é boi ou é cachorro, né? Aí, ficou maneiro.
P/1 – E o motivo para vocês criarem essa festa?
R – Tipo assim, porque aqui na comunidade que já não tem quase nada, né? Porque tem muita gente que não pode ir na rua. Igual a minha mãe mesmo, ela gosta e tudo, mas ela não vai na rua, ela assiste um carnaval. Eles vêm pintando aqui, mas não sabem como é que tá o pano na rua. Aí, a gente resolveu trazer um pouco do carnaval para cá. Faz um fora de época, a gente chama os outros grupos. E o pessoal aqui da comunidade vê o boi também. Ele participar aqui em cima, né? Porque tem muita gente que gosta do boi, mas não pode ir na rua, não vai. Aí, a gente optou em trazer para cá um pouco.
P/1 – Então, esses bois ainda vão sair?
R – Saem. Esse ano ainda, se der umas duas, três festas, tem umas duas, três festas previstas, a gente sempre vai.
P/1 – Ah, não é só uma festa?
R – Não. Não, aqui em cima é só uma, aqui na comunidade, mas tem outras comunidades que fazem e convidam a gente, a gente vai.
P/1 – E como que vocês levam isso?
R – No caminhão. Vêm, ganham os transportes, levam, leva as baterias, leva o boi. É tudo pertinho mesmo. Fica bacana.
P/1 – Querem contar algo mais da festa? Obrigada de novo.
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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