Projeto: Memória Oral Museu da Pessoa
Entrevista de Márcia Zoet
Entrevistada por Renata Pante e Alisson da Paz
São Paulo, 9/12/ 2025
Entrevista nº: MUPE_HV010
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada por Ane Alves
00:00:14
P1 - Bom, Márcia, muito obrigada por topar conversar com a gente hoje. Acho que você já viu muitas entrevistas do Museu, mas eu queria pedir para você começar falando o seu nome, local e data de nascimento.
R - Antes de começar, eu queria agradecer e falar que eu estou muito… é estranho estar desse lado, porque eu estou sempre na fotografia, estou sempre do outro lado, mesmo quando as pessoas estão dando entrevistas no estúdio, já fiz muita coisa, foto em estúdio. Mas legal! Vamos ver aí o que eu tenho para dizer. Bom, meu nome completo é Márcia Xavier Zoet. Eu nasci em 26/11,1961. Acabei de fazer 64 anos. Assim, na minha família todo mundo fala Zoit. Eu acho que só eu sou Zoet lá, então às vezes eu acho que não sou da família. E isso começou porque uma vez eu perguntei para o meu pai, eu queria saber a raiz do nome. Ela é holandesa. O meu avô era holandês. Eu perguntei para o meu pai, como é a pronúncia certa desse nome? Zoet. Aí eu comecei a introduzir Zoet, Zoet, Zoet. Mas ficava aquele conflito, Zoit, na minha família. E no Estadão eu tive, o editor de fotografia, acho que ele já tinha morado na Holanda, e ficou Zoet, Zoet. Aí a galera toda começou Zoet, Zoet. Então é Márcia Zoet, o certinho. Porque vem do zoet, quer dizer doce, em holandês. E aí ficou Márcia Zoet, Márcia Zoet, enfim. E é Márcia Zoet mesmo. Eu nasci em Juiz de Fora, Minas Gerais. Até eu cursei jornalismo, morei lá, fiz a Federal de Juiz de Fora, morei lá até me formar. Em 1984… Eu me formei em 1983, e em 1984 fui morar em Belo Horizonte, por conta da fotografia. Voltando um pouquinho, por que eu escolhi a fotografia? Meu pai já morreu, ele era engenheiro, e ele gostava muito de fotografar, e aquilo me interessou muito. Então, eu tinha uma máquina fotográfica em casa, coisa que nem todo mundo tinha. E eu pegava a máquina dele, ficava fotografando, fotografava, fotografava, mandava revelar os filmes, até que eu me interessei tanto que eu descobri quem era o laboratorista da cidade. E comecei a ampliar as fotos, a revelar as fotos também, aprendi a mexer ali no laboratório, de tanto que eu gostava de fotografia. Acabei montando um laboratório dentro de casa. Fui fazer jornalismo, eu gostava das histórias, gostava de falar com as pessoas, de entrevistar as pessoas. Mas a fotografia, ela me pegou mais, porque eu achava uma linguagem universal. E aí eu comecei já na universidade, quando entrei, já comecei a participar de movimento estudantil, já fotografar os movimentos estudantis. Mas fazia foto para a Associação dos Professores de Ensino Superior. Já comecei a ganhar, a me virar com a fotografia. E aí eu entrei num jornal lá em Juiz de Fora, que era o Diário dos Associados, fui lá, bati na porta, pedi emprego. E comecei a fotografar para o jornal, enquanto eu estava estudando. Então, de manhã, eu fazia o curso de jornalismo, ia anotando as pautas, o que eu precisava fazer, à tarde, eu ia para o trabalho. Tinha texto, e aí eu prestava atenção lá nas matérias, já fazia a redação para o dia seguinte, nas fotos que eu estava fazendo para o jornal. E fiquei trabalhando até me formar, no Diário Mercantil, da cidade. Só que o Diário Mercantil fechou também. Ele foi um dos jornais dos associados, que eles acabaram fechando, porque estava mal das pernas, o Diário dos Associados. E eu falei: poxa vida, agora eu me formei, o que eu vou fazer? Eu queria trabalhar no Jornal do Brasil, no Rio. Juiz de Fora, geograficamente, é muito pertinho do Rio. Só que aí eu tive uma oportunidade para Belo Horizonte, eu achei bem interessante. Uma amiga que trabalhava na Globo falou: “olha Márcia, tem que sair daqui de Juiz de Fora, é muito pouco para você. Eu te apresento algumas pessoas em BH.” E assim que aconteceu, eu comecei a freelar no Jornal O Estadão. O cara foi lá e falou: “ah, você tem máquina?” Eu falei: não, não tenho máquina, não tenho flash, não tenho nada.” Ele falou: não tem? Não tem problema. Está aqui a máquina do jornal, mas...” Eu falei: mas por quê? Não tem contratado aqui nessa sucursal?” Ele falou: “não, a gente mandou embora o cara semana passada.” Eu achei aquilo estranho. Eu falei: “olha, eu topo fazer freela, mas eu quero saber quem é o cara, porque eu não quero chegar de paraquedas. De repente está tendo um movimento, porque esse cara foi mandado embora.” Ele falou: “não, foi por causa de salário, não sei o quê, mas ele trabalha ali na ARFOC.” A ARFOC é a Associação dos Repórteres Fotográficos. Assim, todas as regiões tem, sabe? Em Minas, São Paulo. Aí eu fui lá, o cara era o Guinaldo Nicolaevesky, me apresentei. Ele falou: “não, você tem que trabalhar no Estadão, porque senão vão começar a comprar foto de agência, não sei o quê.” Eu falei: “ah, legal.” E era a época que tinha acabado as diretas, as diretas não tinham sido concluídas, não tinham passado no Congresso, tinham tido todo aquele movimento, mas estava tendo o movimento da primeira eleição indireta, depois dessa sucessão militar do golpe. Aí, Minas ficou sendo o polo político do Brasil, porque o Tancredo Neves era o governador, Aureliano Chaves era o vice do Figueiredo, então tudo, assim, as conchavas rolavam em Minas e eu estava ali naquele furacão. Eu tinha 22 anos, a mil por hora, freelando, usava um bipe. Eu acho que ele não conhece o que é o bipe. O bipe tocava e eu saía enlouquecida. Mas aí eu comecei a freela para o Estadão, para a Folha, para todos, para a Empresa Brasileira de Comunicação. Era a Folha, o Estadão, eram esses três. Que às vezes a máquina de um pifava… Não freelava para a EBC, eu pegava emprestada a telefoto. Telefoto é uma máquina, é interessante, porque a gente fazia foto em filme. Então você tinha que revelar o filme, ampliar a foto, aí você botava numa máquina, essa máquina tinha um leitor de luz que passava via telefone para uma receptora e a imagem ia formando lá na receptora. Então era tudo muito complexo. Eu tinha sempre que montar um laboratório de fotografia, às vezes pegava emprestado de algum jornal. “Me empresta aqui que eu preciso revelar meu filme rapidinho.” Ou então eu comecei a fazer as minhas parcerias, montar meu laboratório, fechava um quartinho lá na Folha, por exemplo, revelava o filme, passava na telefoto, chegava em São Paulo… Então, para a sua foto ganhar espaço, o processo era muito maior. Mas como eu estava no olho do furacão, as coisas estavam acontecendo, principalmente em Belo Horizonte, as pessoas começaram a dar as minhas fotos lá, capa, que era uma coisa que dava uma visibilidade interessante. E fiquei lá fotografando, Tancredo e conchavos políticos. Também rolava um pouco de futebol. Só que aí o Tancredo, ele foi eleito, ele foi indicado, ganhou do Maluf no colegiado. Só que eu sofri um acidente de moto. E aí eu não pude acompanhar todo aquele processo, que o Tancredo foi eleito, morreu e eu lá, braço quebrado, perna quebrada. Aí eu fiquei boa e falei: e agora, vou voltar para Belo Horizonte? Mas meu lugar já vai estar ocupado.” Aí eu fiquei observando. O Estadão realmente tinha contratado uma pessoa, porque precisava, as coisas estavam acontecendo lá. Só que eu saquei que a Folha, eles mandavam as pessoas de São Paulo para estar fazendo a cobertura. Eu falei: bom, hora de atacar a Folha de São Paulo. E a Folha tinha todo aquele estigma, jornal das diretas, não sei o quê, não sei o quê. Eu já fazia alguns trabalhos para a Folha, mas aí eu investi mais na Folha. E eu dei uma sorte incrível, que era a Copa de 1986, e o técnico era o Telê Santana. E ele escolheu Belo Horizonte, a Toca da Raposa, para ficar em concentração. E a Folha falou: “olha, você vai ser a nossa fotógrafa lá.” Eu falei: “ótimo!” Só que os meus colegas de profissão ali, os fotógrafos, vinham de São Paulo, do Rio, os caras tinham super equipamento, sabe? Tinha uma 300, máquina com motor, não sei o quê. E eu tinha o meu equipamento, que era uma, acho que era uma 180, e uma máquina que você tinha que virar o filme. Eu tinha que revelar, sair correndo com o filme. Só que quem veio para fazer essa cobertura foi o Cocho, o Ricardo Kotscho. E onde ele estava… É um repórter muito massa, muito experiente, então, onde ele estava tinha notícia também. E aí, onde eu estava, a galera já ficava também. “Ó, tem notícia ali.” Mas eu acabei me aperfeiçoando muito em fazer futebol. É uma coisa que eu adoro, é fazer foto de futebol, porque eu acho um balé, acho tão bonito. Acho o bastidor um saco, essa coisa, esse protagonismo que os jogadores têm, esses bastidores, cifras enormes, coisa e tal. Mas o futebol em si é uma loucura, você está em campo, você está no meio de uma arquibancada e aquele balé na sua frente, “uuuuh, uau,” não sei o quê. E quando eu comecei a fotografar futebol foi interessante, que foi até no Mineirão, em Belo Horizonte. E eu me lembro da primeira vez, eu cheguei atrasada, assim, eu entrei meio correndo no campo, aí a galera toda começou a gritar, “Xuxa, Xuxa.” Dei tchauzinho e continuei a fotografar o pessoal. Não tinha perdão mesmo. E até hoje eu gosto bastante. Até bem lá para frente, em 2014, quando teve a Copa aqui no Brasil, nos reunimos, 11 fotógrafas, mulheres, fizemos um time de futebol. Todas tinham mais de 50 anos, na época, e fotografamos as mulheres no futebol. Então, teve foto de freira jogando bola. O meu trabalho foi com periferias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Uma amiga foi para o Amapá para fazer o Marco Zero, futebol de lama, indígenas, quilombolas, futebol de várzea. Foi massa, foi muito legal. Clubes também de periferia, torcedoras. E agora a gente está com um projeto novamente, por conta da Copa ser em 2027, então reunimos essas mesmas fotógrafas e estamos fazendo essa segunda edição. Ponto, voltando lá para Belo Horizonte. E aí comecei a fazer futebol, não sei o quê. Contando bastante da minha vida profissional, porque ela permeia a vida da gente, pelo menos a minha. Não que a gente não namora, não faz mil coisas. Mas a profissão, ela vai te jogando. E aí, um dia a Folha me ligou, a Folha de São Paulo daqui, telefonou, o editor falou: “Márcia, estão querendo falar com você.” Eu falei: oi, tudo bem? Não sei o quê.” Falou: “a gente sabe que você fotografa muita coisa, futebol, política, e a gente está querendo que você venha trabalhar na matriz aqui em São Paulo. Você topa?” Eu falei: “lógico que eu topo. Quando?” “Amanhã está bom?” Eu falei: “mas amanhã?” Eu não conheço nem São Paulo. O meu negócio todo era com Belo Horizonte. Com Belo Horizonte, com o Rio de Janeiro. Juiz de Fora era muito próximo, eu não queria nem... Eu falei: “vou trabalhar na Folha? Poxa, eu queria trabalhar no JB.” Mas no JB eu já também fazia freela para o JB, lá em BH. Mas aí eu topei. Assim, em quatro dias eu estava morando aqui. Mas aí é aquela coisa, onde vai morar, o que vai fazer, não sei o quê. Mas o interessante foi que eu conheci São Paulo, eu adoro essa cidade, eu acho ela bem interessante. Eu achava mais interessante, era melhor, eu acho, um pouco para trás assim, tinha mais, sei lá, eu acho que tinha mais espaço, eu acho que as pessoas estão destruindo muito os parques, sabe? Está tudo meio sem verde. Não sei. E as pessoas estão meio de saco cheio também. Muita gente está morando aqui em São Paulo. Acho que eu estou sendo contaminada. Mas eu topei, vim para São Paulo, comecei a trabalhar na Folha. E interessante, porque comecei a conhecer São Paulo, por exemplo, ia para Avenida Paulista, mas eu ia, “ah, tem que fazer alguma coisa na Fiesp. Ah, tem que fazer alguma coisa no... Não tinha nem Sesc, nem o IMS. Mas… “ah, tem ali um prédio que precisa ser fotografado.” Então eu conhecia São Paulo fora e dentro dos lugares, os programas culturais, tudo. Fiquei na Folha de 1986, que eu vim para São Paulo. Vai fazer 40 anos, ano que vem, quero dar uma festa. Lógico. Festeira. Daí eu fiquei lá, e aí eu mudei para o Estadão. O Estadão estava montando um grupo de fotógrafos muito interessante, estava bem legal, tinha um editor de fotografia legal, esse cara, o Hélio Campos Mello, que sabia falar meu nome direito. E tinha um grupo de mulheres… Ah, porque o seguinte, na Folha, eu era a única mulher, lá na Folha, na época. Eu trouxe até uma fotografia… Tinha uma outra moça, tinha uma outra fotógrafa, mas ela fazia mais caderno 2. Caderno 2, não, mais ilustrada, mais coisas pontuais, casa e companhia, coisa e tal. E eu fazia tudo, e era uma luta também, uma luta, essa coisa dos caras, principalmente com futebol, sabe? Porque era a capa certa. Capa, quando você está num veículo de comunicação, tem uma visibilidade, sua foto, o futebol, no dia seguinte ia ser a capa do jornal. E a gente era, as mulheres, eram bem preteridas para fazer o futebol. Mas a gente ia, a gente sabia fazer. Fazia lá o futebol de domingo. Trouxe essa foto assim, eu no meio da equipe, eu fiquei como única fotógrafa lá na Folha, uns dois anos. Depois começou a entrar uma galera também. No Estadão já tinham mais mulheres, então era uma profissão também muito, assim, não tinham mulheres, quase, que fotografavam. Tinham mulheres, mas eram poucas. E a gente contava assim nos dedos, quem eram as fotográfas mesmo, que estavam na rua fazendo, e correndo atrás. Tinha que ter um pique também para fazer, porque o equipamento, eu pesava a minha bolsa assim, eram 10 quilos de equipamento, então era uma doideira. E era interessante também, porque, como eu falei, era filme analógico. Então, o tempo que você tinha eram 36 fotos. Quando você estava, por exemplo, numa manifestação, num quebra-quebra ou num jogo, de vôlei ou de tênis ou mesmo de futebol, você tinha que ficar contando, “nossa, estou com 34, será que eu troco o filme agora?” Não tinha essa coisa continua. Porque agora você bate, sei lá, mil frames e tudo bem, o negócio não acaba nunca. Mas você tinha o tempo de trocar o rolo, o filme. E era muito louco, porque você tinha que escolher mesmo, porque se você estivesse trocando o filme e acontecesse você sem o filme na máquina, ia ser ruim. Então você tinha que pensar muito também nessa coisa de quando você ia fazer a troca do filme. E não deixar o filme também estragar, porque se botava no bolso, não podia confundir, tinha todo um esquema, automático, mas que hoje em dia é diferente. Porque você faz infinitas fotos, você faz assim, assim, assim, assim. E o filme era uma coisa, não era super caro, mas era caro. Eu me lembro que a Folha, ele dava, tinha um senhor lá que ficava rebobinando. Rebobinando, e quando você compra uma lata de filme, coloca numa caixa vedada, coloca os tubinhos e fica rebobinando para ficar mais barato. E não era filme original, uma época, a gente usava na Folha. Aí, ele ficava rebobinando, e eu nunca sabia se tinha 36, 34, ainda tinha de fazer essa contagem. E aí a gente chegava com os filmes, tanto na Folha quanto no Estadão. Porque no Globo eu trabalhei na sucursal. Mas aí você dava para um laboratorista, ele revelava o teu filme, vinha um contato, aí você editava. E o filme era do jornal. O filme você não podia… Que nem agora, ah, eu faço na digital. Eu mando a foto, mas a matriz está comigo. Ela está ali comigo e eu posso fazer o que eu quiser, ou eu faço duas e mando uma. Eu não sei como é que é, porque eu não trabalhei no jornal com máquina digital. Eu não sei se tem que entregar, como é que é, como é que entrega o bruto, não sei disso. Sei que no analógico, você não podia cortar os frames. “Gostei dessa foto, que levar ela para mim.” Não tinha como, já era o filme inteiro que você deixava lá no jornal. Eu sei que depois de… Na Folha, foi bem interessante a experiência. Eu mudei para o Estadão em 1988, fiquei trabalhando lá até 1993. Aí foi interessante também, o Estadão foi uma escola incrível. Escola, não. A gente fez alguns projetos de livro, tinha uma equipe grande também, sabe? Era uma delícia trabalhar. O trabalho era bem interessante. Aí, em 1993, foi quando eu conheci o Museu da Pessoa. Chegou. Chegou a parte do Museu.
00:21:58
P1 - Antes de a gente entrar no museu, eu vou querer voltar muito no tempo.
R - Sim.
P1 - Você contou bastante da parte profissional e eu acho que a gente tem muita coisa para explorar dessa parte. Mas eu queria antes conhecer a Márcia criança. Você falou um pouco do seu pai, que foi essa figura que te influenciou, de certa forma, para a fotografia. Como é que era esse pai? Como é que era a sua família, a sua mãe? A família do pai era da Holanda, né? Eles vieram quando para o Brasil? Queria que você me contasse um pouquinho essa parte.
R - Legal, então vamos lá. Meu pai nasceu em São Paulo, ele não é holandês nem alemão. Ele é filho de um holandês com uma alemã. Eu conheço mais a história da minha avó, até chamava ela de oma, que é vovó em alemão, porque foi a única avó que eu conheci. O opa, que é vovô em alemão também, que é as linguas são meio ali, de raiz. Eu não o conheci, mas carrego o sobrenome. Meu pai era engenheiro, eles eram migrantes mesmo, meio que quando vem um navio, acho que minha avó vem em um navio. Ela nasceu em Nuremberg, eu sei que ela nasceu em Nuremberg, e meu avô nasceu em Haia. Eles se conheceram no Brasil. Eu não sei como eles se conheceram, mas eu sei que a língua, ela tem a raiz igual, só que tem umas nuances diferentes. Então, a comunicação, segundo minha mãe comentava, a comunicação deles era bem difícil. Mas, enfim, minha avó, ela vem num navio e vem um grupo também, junto com eles. Então, eles meio que se protegiam, sabe? Por causa da língua, por causa do país diferente. A minha avó chegou no Rio, que eu sei, e foi mandada ali para a Baixada Fluminense para trabalhar na área agrícola. Eu acho que ela veio com 18 anos. Ela veio depois da Primeira Guerra. Minha avó é de cinco, e ela veio depois da Primeira Guerra. A mãe dela já tinha morrido, veio com a madrasta e o pai dela. E foram lá para a Baixada Fluminense trabalhar com plantação. E depois começaram, sei lá, eu sei que eles ficaram juntos, porque eles moravam numa vila no Rio, ali na usina da Tijuca. E essas pessoas eram todas alemães, sabe? A Dona Mina, Dona Babette, Seu Fritz, todos se conheciam de muito tempo. Eu não sei se todos vieram de navio ou não. Minha avó era uma pessoa que eu a conheci assim, muito forte, mas não teve essa oportunidade de estudo, coisa e tal. E eles eram imigrantes. Aí meu pai, eu sei que ele fez a escola alemã, ele estudou português, geografia, história, tudo em alemão. Quando veio a segunda guerra, o Getúlio, ele não reconheceu, a Alemanha era inimiga, mas eles não eram... Por sinal, eles eram alemães. Meu pai tinha estudado na escola alemã, então o estudo dele todo foi por água abaixo, ele ficou no zero. Tudo que ele tinha feito até o segundo grau, sei lá, foi embora. Não valia nada. O MEC não reconhecia. Aí ele ficou pensando… Minha avó alugava quartos, alugava um quarto para um professor que gostava muito lá e deles e falou com o meu pai. Meu pai falou: “eu quero ser desenhista.” Ele desenhava muito bem. Ele falou: “não, acho que você deve fazer um curso superior, porque como desenhista eu acho que você não vai ter muita oportunidade.” Aí ele fez uma dureza, nos anos, para recuperar o tempo perdido, e entrou em engenharia. Acho que ele entrou em Curitiba e depois pediu transferência. Ele não tem nada a ver com o Juiz de Fora. Meu pai não tem nada a ver com Minas, com Juiz de Fora, mas foi a cidade que ele escolheu. E essa é a parte do meu pai. Aí tem essa coisa do machismo, porque esse professor, ele tinha uma bolsa de estudos, ele deu uma bolsa de estudos. Minha avó tinha dois filhos, meu pai e a minha tia. Ele escolheu quem? O homem. Por sinal, meu pai. Mas eu sempre fico revoltada com essa história, porque eu acho uma sacanagem, sabe? Poxa, caramba, coitada da minha tia, que acabou não fazendo curso superior, porque não tinha como. Não tinha o Fies, não tinha o nosso Lula maravilhoso, sabe? Para fazer isso. Então, a mulher já era ferrada ali. Por parte da minha mãe, minha mãe é neta de alemães também, a família da mãe dela, eles vieram também num navio lá, que o Dom Pedro acho que cooptou para ir para Juiz de Fora. E eles montaram uma fábrica de cervejas em Juiz de Fora. Eles eram mais abastados, bem mais abastados do que a família do meu pai, da família alemã. Montaram essa fábrica de cerveja e o meu avô, pai da minha mãe, ele é do Mato Grosso, de uma família militar, tanto é que ele ficou general. Eu não conheci também. Eu não conheci meu avô. Eu acho que ele morreu em 1956. Minha avó morreu antes. Mas a minha mãe gostava muito deles, contava as histórias dos filhos, porque todos falavam alemão também, era uma cervejaria chamada Cervejaria WeiB, que é o sobrenome da minha mãe. WeiB quer dizer branco. E aí tinha um choppinho da WeiB, não sei o que. Eu fui nessa fábrica algumas vezes, mas depois ela foi comprada por uma outra fábrica de Juiz de Fora e depois foi comprada pela Ambev. Aí eu já não sei mais de nada. Mas eu adoro tomar cerveja, deve ser por conta disso. E os meus pais se conheceram… Minha mãe é engenheira também. Minha mãe, olha só que interessante, ela se formou em engenharia em 1949. Ela se formou antes que o meu pai até, meu pai se formou em 1953. E ela foi uma das primeiras de Minas a ter essa profissão de engenharia, porque não tinha muita mulher engenheira, engenheira civil, sabe? E ela exerceu por muito tempo.
00:29:33
P1 - Qual o nome da tua mãe e do teu pai?
R - Meu pai chama Kurt. Kurtzut. É K-U-R-T. E minha mãe tem um nome bem diferente, que era o nome da avó dela, Amabeny. Eu sempre tinha que soletrar. “O nome dos seus pais?” Eu falava K-U-R-T-Z-O-E-T. “O nome da mãe?” “A-M-A-B-N-Y, Xavier com X, Z-O-E-T. Porque, meu, ninguém entendia. Minha mãe morreu recente, ela viveu até 95 anos, lúcida. Não exercendo a profissão, mas com autonomia, gerando a vida dela de boa. Meu pai morreu antes, teve um infarte, assim, do nada. Era até aniversário do meu irmão, morreu no dia do aniversário, numa festa. E foi em 2010. Mas também viveu bem, morreu com 85. Minha mãe viveu mais de 10 anos que ele. E eles se conheceram numa... Eles foram fazer estágio num escritório de engenharia em Juiz Fora. E minha mãe, parece que tinha um cargo maior que meu pai, e eu acho que ela... Mais esnobe assim, ele conta que ele falou: “não, agora eu quero conquistar essa mulher.” E aí, sei lá, se apaixonaram, fizeram um negócio, fizeram uma construtora e casaram depois. Então cada um tinha sua autonomia, sabe? Essa construtora existe ainda, uma construtora que constrói edifícios, pontes, enfim.
00:31:21
P1 - E você tem irmãos?
R - Tenho mais três irmãos. Dois engenheiros e uma economista. Mas a minha influência vem mesmo do irmão da minha mãe, que morava no Rio de Janeiro. Olha que história legal. Morava com dois amigos, uma pintora naif e um ator de teatro. Moravam os três juntos, eles foram morar no Rio, eles se conheceram pelo teatro. Eu não sei. Reza a lenda… As histórias vão se modificando, então você não sabe direito. Que a Sílvia, que é a pintora, alugava quartos ali na Rua Paissandu, que eu acho estranho, mas tudo bem. E que o Labanca, o ator e meu tio, Pedro, alugavam seus quartos. E em 1956 eles resolveram comprar um apartamento juntos. Bom, esse apartamento, pela herança, ele está comigo, eu fiquei com o apartamento. Mas olha que legal, eles moraram de 1956, até o primeiro morrer, foi o Labanca, foi em 1988. Três amigos, que até onde eu sei, assim, amigos. E na década de 1970, eles foram no cartório e fizeram-se herdeiros uns dos outros. Foram lá e falaram assim: “ó, quem morrer primeiro vai herdar tudo meu. Tudo. Minha roupa, meus quadros, não sei o quê, não sei o quê, e o apartamento.” E assim, foi rolando. Meu tio, era mais novo, ele morreu por último, e a minha tia e a minha mãe, herdaram essa herança. Minha tia morreu, minha mãe ficou com o apartamento. E agora, minha mãe morreu em 2022, a gente fez uma divisão lá em casa e eu falei: eu queria muito ficar com o apartamento do Rio, porque tem uma história, sabe? Até influência mesmo. Eu escrevia para o Labanca, eu tenho essas cartas, eu querendo ser jornalista e falando, escrevendo pecinha de teatro, e ele me corrigindo, falando: “ah, não, tem que ser assim.” Falava: “ah, hoje eu não estou inspirada.” “Como não? A inspiração, você tem que exercitar, você tem que escrever, você tem que ler.” E eles me influenciaram muito na escolha da minha profissão. E quando eu tinha oito anos, nove anos, eu tinha um jornalzinho. Um jornalzinho chamado “Jornal Tudo.” Que eu fazia entrevistas ali na vizinhança. Primeiro era a mão, eu ia escrevendo a mão, fazia um desenho da pessoa, e depois eu comecei a passar no mimeógrafo, o jornalzinho, eu devia ficar dopado com aquele álcool. Eu escrevia no extenso, era a mão, depois comecei, ganhei uma máquina. Ganhei não, tudo ia pegando assim, minha mãe tinha uma máquina de escrever. Aí peguei a máquina dela, aí eu ia para o Rio, ficava fazendo as entrevistas, porque o apartamento era assim, muitas pessoas passavam ali depois do teatro, atores, técnicos. Eu ia entrevistando as pessoas e botava no meu jornalzinho.
00:34:56
P1 - Você ia para o Rio de Janeiro pequena, sozinha?
R - Não, não, com a família. Mas eles estavam lá lanchando, eu estava lá enchendo o saco das pessoas. É um apartamento grande. Que a minha avó morava também. Minha avó morava na usina da Tijuca e esse apartamento ele fica no Flamengo. Meu, esse apartamento, ele está idêntico. Quer dizer, agora eu consegui pintá-lo, mas os quadros eu marquei, voltei com os quadros no mesmo lugar. E, nossa, é um xodó que eu tenho. Mas eu estou desgarrando, porque não dá. É bom circular energia. Eu botei no leilão algumas coisas também, porque, meu, é muita coisa, senão você se apega demais. E esse jornalzinho, eu adorava. Esse jornalzinho, o pessoal lá da escola ficava esperando o jornalzinho, o Jornal Tudo. Então, desde sempre eu queria ser jornalista, contar história, conversar, essa coisa toda. E aí, assim, meus pais nunca se opuseram de eu fazer jornalismo. Mas também eu acho que para eles tanto faz, sabe? O interessante era minha irmã ser engenheira, o meu irmão mais novo ser engenheiro, estava ótimo já. Então, o que viesse ali dessa parte de jornalismo. Na realidade eu me formei em comunicação social com formação em jornalismo. E é essa a minha infância. Então, a minha infância era bem dinâmica. Eu fazia esportes também, eu nadava, nadei durante muito tempo. Natação acho que era uma coisa que quase todo mundo fazia. “Vai para o clube lá nadar.” Era bom, interessante para desenvolver. Depois eu joguei tênis também um pouquinho, porque meu pai era um grande atleta de tênis. Aliás, meu pai era um ótimo atleta. Ele jogava tênis mais velho, mas ele gostava de salto em altura e distância. Ah, e lançamento de dardo. Ele tem o recorde até hoje da cidade nos Jogos Universitários. Ele é um cara, assim, de 1,83m. E minha mãe, bem mais baixa que ele, 1,53m, tinha uma diferença de 30cm. Os meus irmãos são bem mais altos que eu, fiquei ali, mais intermediário. Minhas duas irmãs também têm olhos claros e meu irmão, não, puxou mais a família da minha mãe. Mas a mãe da minha mãe tinha olhos claros também. Então, ali não tinha como fugir muito.
00:37:55
P1 - E além do jornalzinho que você fazia, você tinha outras brincadeiras na sua infância?
R – Olha, brincadeiras, porque eu morava numa rua que tinha… Cidade do interior. Não é tão do interior, Juiz de fora é uma cidade... Hoje em dia acho que está com 550 mil habitantes, mas sempre foi uma da segunda ou terceira cidade maior de Minas, que ali era tida Manchester mineira, cidade industrial, cidade das malhas, não sei o que, e é uma cidade universitária. Então passa muita gente por ali. É interessante assim, porque não tem… Eu não vejo a cidade assim como uma cidade provinciana. Eu acho ela uma coisa mais aberta, sabe? Por ter a Universidade Federal, que é bem interessante. Ah, tinha, sei lá, brincadeiras. Porque a gente morava num prédio térreo e a nossa casa era um pouquinho maior do que os outros apartamentos, porque tinha uma entrada independente e tinha uma garagem. E ali... Ah, tinha essa coisa, eu gostava de ser líder. Então, eu tinha um grupo de teatro, com o pessoal ali do prédio, com os meus vizinhos ali. Aí eu escrevi algumas peças. “Agora nós vamos ensaiar.” A primeira peça era o Detetive Sparrock. Era uma história de um detetive que tinha que descobrir um crime, não sei o quê. E aí tinha que ter um nome, a nossa companhia de teatro. Eu falei: “ó, Companhia de Teatro Unidos da Márcia, CTUN.” Ah não, não, o que é isso? Unidos da Márcia?” “Não, não, desculpa, é Mirim, Mirim. O M é Mirim.” E aí a gente fazia, montava o tablado lá na garagem. A garagem era muito… Gente, era uma coisa absurd, eu não sei como é que eu conseguia andar de bicicleta naquela garagem. Ela era estreita e comprida, dava dois carros assim, um na frente do outro. E o teatrinho a gente montava ali, meu pai fazia um tablado, e eu ia fazer a divulgação.” Porque tinha uma vizinha mais velha que a gente, que trabalhava na rádio já. E eu falava: “Berenice, dá para botar aí na PRB-3?” E ela botava o anúncio. “Hoje na Rua Belmiro Braga, número 12, a peça o Detetive Sparrock. Entrada pela garagem.” E fazia. Teve outras peças também, “O sonho e o pesadelo, A florzinha azul.” Ah, algumas coisas. Eu gostava, gostava dessa coisa. Por exemplo, sábado, que eu ia rodar o jornal de mês em mês, eu ficava assim, de manhã até a tarde, sabe, rodando lá. Meu pai tinha um amigo que tinha um mimeógrafo. E eu ficava rodando, aí tinha que cortar, tinha que grampear. E brincadeira também de polícia e ladrão, pique-bandeira, essas coisas. Uma infância legal assim, bacana.
00:41:13
P1 - Esse lado artístico, tanto da parte de fazer as entrevistas, de fazer o teatro, ele vem muito desse seu tio ou dos seus pais também?
R – Ah, dos meus pais também, dos meus pais. Acho que esse núcleo do Rio influenciou bastante, mas meus pais gostavam. Minha mãe, festa de aniversário, ela fazia um auê, assim, chamava uma bandinha para tocar, gostava de fazer teatro, gostava de estar ali, eles brincavam muito com a gente. Eles eram muito, apesar, eles trabalhavam muito, eles tinham essa consultora, estavam no auge. Eu nasci, meus pais não tiveram filho cedo, não. Casaram mais tarde. Eu nasci, meu pai já estava com 36 e minha mãe com 34. Então já tinha, assim, eu acho que 36, eu acho que é. É, exatamente, meu pai estava com 36. Porque eu fui tentar a minha cidadania, primeiro pelo lado alemão e depois pelo lado holandês. Pelo lado alemão, cheguei no consulado aqui em São Paulo. “Queria ver qual a minha situação.” Eu estava com toda a documentação, isso foi em 1990. “Ah, qual o seu sobrenome?” Eu falei: “Zoet.” “Ah, tá bom, espera aí. Quem é o alemão?” Eu falei: “meu pai é filho de uma alemã.” “Seu pai não é alemão?” “Não, meu pai não é alemão. Meu pai é filho de uma alemã.” “Ah, mulher. Mulher não, mulher não serve, não serve.” “Mas ele é homem, filho da minha avó, mas meu pai é homem.” “Não, não, mulher não serve.” Aí eu falei, então vou lá no holandês, vou tentar. Nessa época, eu não tinha nem 30 anos, eu falei, bom, pode ser uma experiência, eu morar fora, e indo com passaporte, com meu passaporte vermelho, seria melhor. Aí fui lá na Holanda. Estou contando isso por causa da idade. A primeira coisa que eles perguntam, qual o seu sobrenome? “Zoet.” “Ah, legal. Pode sentar aí, espera aí.” Aí ele falou: “o seu pai é holandês?” Eu falei: “não, meu pai nasceu em São Paulo.” “Mas seu pai se naturalizou holandês?” “Não, meu pai nasceu em São Paulo e deixou rolar, mas o pai dele era. O pai dele, homem, era holandês.!” “Ah, tá. Ó, você tem uma chance. Se você tiver nascido com o seu pai tendo menos que 32 anos, eu acho que você consegue o seu passaporte. Porque até os 21, ele tem a dupla cidadania mesmo, porque ele é menor, coisa e tal, e a gente dá uma carência de 10 anos pra pessoa escolher.” Eu falei: “não.” Já era. Não consegui. Tudo bem. E foi isso. Eu falei: ah, não consegui, de boa. Mas você perguntou essa influência. Então, minha mãe adorava fazer teatro também. Minha mãe, nossa, adorava declamar, até com 90 anos ela declamava, gostava de fazer discurso. Uma pessoa muito, muito interessante.
00:45:06
P1 - E a escola, como é que era para você? Onde você estudou?
R - Eu estudei num colégio de freira. Um colégio tradicional lá de Juiz de Fora, quase todo mundo estudava, mas eu tenho grandes amigos ainda dessa época. Chamado Stella Matutina, o colégio. A minha irmã pegou só, a minha irmã mais velha, que é engenheira, ela pegou só a parte de mulheres, a sala dela só tinha mulheres. Eu já peguei misto. Eram poucos homens, mas... Quer dizer, não eram poucos homens, mas a maior parte eram mulheres. E normal, tinha a parte… Era uma educação tradicional, então você tinha português, matemática, geografia e história. Eu gostava de todas as matérias. Eu gostava de estar na escola também, não achava ruim não.
00:46:18
P1 - Esses amigos que você tem até hoje?
R - Eu tenho alguns, eu tenho uma grande amiga que é dessa época, que a gente se conhece, olha, uns 50, eu acho. Eu estou com 64, a gente fez o infantil, desde sempre. Então, a gente estudou, a gente é amiga há 60 anos. É bastante. E depois eu troquei de escola, fui para um colégio, era um colégio maior até, porque eu também queria experimentar, ter uma outra experiência, que chamava Academia. E aí eu acabei fazendo o terceiro lá também, o integral, para fazer o cursinho junto com o terceiro ano, para fazer o vestibular. Eu sou uma pessoa muito feliz, eu nunca tive dúvida da profissão que eu queria ser. Eu nunca parei no meio do caminho e falei: ah, não, cara, eu não quero ser engenheiro, eu quero ser geógrafo. Sabe? Eu sou uma pessoa de muita sorte. “Eu quero ser fotógrafa.” Cara, eu sou muito feliz, sou fotógrafa até hoje. Eu não tenho dúvida. Não sei se isso é bom ou ruim. Deve ser bom. Pra mim é bom. Mas também, de repente, eu deixo de viver outras experiências. Bom, sei lá. Agora... Os meus pais morreram, eles fizeram um empreendimento lá em Juiz de Fora, que é um centro comercial. Então eu tive que aprender também a dar uma administrada naquele negócio. Mas olha, bicho, uma coisa que eu tenho é bom humor, isso eu puxei da minha mãe. Minha mãe tinha um bom humor, olha, com 95 anos ela falava: “eu sei que minha autonomia, meu joelho já não é mais o mesmo, coisa e tal. Então, vocês podem me levar aí, eu não vou encher o saco de vocês. Eu sei das minhas limitações.” Eu acho que é isso, a gente vai caminhando assim, vai vendo o que a gente pode ir indo, e o que você já viveu também, e não deixar também para muito depois, fazer as coisas. Eu adoro viajar. Fiz uma viagem muito interessante. Em 1995, eu fui para a Índia. O mundo não estava tão globalizado ainda. A Índia ainda tinha características muito locais. E eu combinei uma viagem, eu estava trabalhando no Globo, na época, em 1995. Aí eu pedi demissão, falei: “ah, não quero mais, não quero mais, cansei. Quero fazer uma carreira solo, coisa e tal.” E até me associei a um casal, a um fotógrafo e uma fotógrafa, e abri uma agência de fotografias. E eu fui para Nova York para até comprar equipamento, umas coisas. E lá eu, duas amigas moravam lá, e elas estavam planejando uma viagem para a Ásia. E falaram: “pô, agora que você não tem mais que bater ponto, coisa e tal, você não quer ir com a gente?” Falei: “não, porque eu acabei de montar uma agência de fotografia.” “Não, vamos, vamos.” Falei: “qual o último lugar que vocês vão?” Ela falou: “nós vamos para a Índia. Topa?” “Opá, para a Índia, caramba, é um lugar meio... Você tem que ter uma estrutura para ir para a Índia.” Eu falei: “não, mas eu topo, eu topo.” Eu falei: beleza. Então, elas estavam indo já viajar, ficaram seis meses viajando antes, foram para o Vietnã, para vários países ali da Ásia, para Hong Kong, não sei aonde, não sei aonde. E aí a gente combinou de encontrar no Nepal. Pegamos um guia, olhamos lá, Nepal, um restaurante e a rua. Ah, Restaurante Monalisa, rua Freak Street, Rua dos Loucos. Marcamos uma hora e um dia, hora local. “Então tá bom, tá combinado.” “Combinado.” Só que, cara, não tinha internet, não tinha celular, não tinha nada. Como é que a gente ia combinar? Eu recebi um cartão, assim… Eu recebi três cartões. “E aí? Você vem mesmo?” Mas eu ia responder pra quem? Vou, né? E eu também tava zerada de grana, porque eu tinha ido pra Nova York comprar. Comprei alguns… Eu já tinha máquina, essas coisas, eu nunca deixei de ter meu equipamento, por ficar com equipamento jornal. Mas eu tinha dado uma investida também, umas outras lentes. Só que aí aquela coisa, apareceu um trabalho maravilhoso. O Aquário de Santos estava fazendo aniversário, acho que eram 400 anos do Aquário de Santos, sei lá, uma data fechada, e um cara que tinha trabalhado comigo no Globo me convidou para fazer as fotos. E eu convidei um amigo meu, que ia ser meu futuro sócio daquela agência. E ali eu ganhei um dinheiro e falei, com esse dinheiro eu vou para a Índia. E lá fui eu. Primeiro para o Nepal, que a gente ia encontrar no Nepal. Eu fui 12 dias antes. Cheguei lá para ver se existia o lugar. Existe o Bar Monalisa, tudo certinho. Então agora eu vou lá para o... Como é que chama? Para a Cordilheira. Quero ver a Cordilheira do Himalaia, eu vou subir até Pokhara. E vou rápido, porque eu preciso desse encontro. Você acredita que no dia X, na hora tal, elas chegaram no lugar. Eu tremi, eu tive uma experiência assim, que eu tremia até. Porque eu falei, cara, que sorte! Que sorte! Depois elas contaram que foi um perrengue, porque elas estavam no Tibet. e o Tibet ficava aberto, fechado, e o ônibus tinha estragado, não sei o quê, mas elas falaram: “não, a gente precisa ir lá, a gente precisa encontrar. A gente marcou o encontro.” Só que elas estavam em duas, elas podiam desistir. E eu ia estar ferrada lá. Ferrada não, eu ia continuar a minha viagem, mas ia ser diferente. Mas foi muito interessante, porque é o tipo de encontro, sabe aquela coisa, o que você vai fazer no ano 2000? Que as pessoas falam: “ah, vou estar lá no Corcovado. Ah, vou estar na praia de Camburi.” Meu, em 1995 eu marquei um encontro, e deu certo, na Índia. Não, no Nepal, que a gente se encontrou no Nepal. E foi uma viagem incrível, incrível. Viajamos dois meses, sabe, uma mochila nas costas, ali, ficando em hotelzinho. Não era nada globalizado, como eu te falei. E não dava para ligar a cobrar para o Brasil, não tinha essa integração, Índia-Brasil. Então, eu tinha que pagar a ligação. Então, eu ligava pouco também. E às vezes passava um camelo, assim, sabe? Um elefante. Foi muito legal. Uma experiência bem bacana.
00:53:45
P1 - Tem alguma história, assim, dessa viagem? Você lembra, assim, algo que...
R - Não, a viagem em si. A viagem em si. Eu não conhecia ninguém que tinha ido para a Índia, assim, dos meus amigos. E eu não sou uma pessoa... não sou yogue, não sou nada. Eu fui porque coincidiu e foi muito bacana, sabe? E a gente viajou de ônibus, não era que a gente, sabe, não tinha as passagens antes. A gente ia descolando a viagem ali. “Ah, vamos lá.” Fizemos uma viagem de camelo, dois dias, pelo deserto de Thar, que é a divisa da Índia com Paquistão. Então, alugamos três camelos. E uma alemã resolveu ir junto. “Ah, vamos embora.” “Ah, então vocês levam a água.” A gente levou cada uma três litros d'água, não sei porque, era muita água. E lá em cima daquele camelo. Agora, descemos do camelo para dormir. Maravilhoso! Esse dia não tinha lua, o céu parecia que ele achatava em cima de você, porque não tinha uma referência. A gente dormia ao relento ali na areia mesmo. No dia seguinte pegamos nossos camelos de novo. Vambora, né? Cara, não chegava nunca, eu vendo naquela cidade, parecia uma miragem já, porque eu não aguentava mais a lomba, porque o camelo tem uma anca gigante. Eu estava já desesperada. Eu falei: “moço, dá para esse negócio galopar aí?” Ele falou: “dá, uai!” Aí o camelo começou a galopar. Eu falei: não, não, não, pelo amor de Deus.” Eu fiquei com medo. Você já viu como você monta no camelo? Ele desce tudo, aí ele põe a perna dianteira um pouquinho, ele sobe toda a traseira e depois ele sobe o resto da dianteira. Aí você fica lá em cima. É perigoso até. É alto o bicho. Essa parte foi bonita. Depois o Rio Gange também, que é o rio sagrado. A Índia é muito dividida entre os hindus e tem a parte muçulmana, que os hindus são pessoas delicadas, tudo, as pessoas… Gostei, muito delicadas, deu tudo certo nessa viagem. Foi muito legal. Mas eu estava falando isso porque eu tinha comprado equipamento, sei lá, esqueci agora.
00:56:36
P1 - Você estava falando que você gostava de viajar.
R - Ah, que eu gostava de viajar. É bom. Então, isso foi uma coisa boa com o museu. Mas deixa eu entrar aqui na parte do museu. Se você for lembrando, você vai falando. Até, assim, o Zé Santos, meu amigo de muito tempo, eu conheci o Zé em 1978, em Juiz de Fora, porque ele não é de Juiz de Fora, mas ele estudou em Juiz de Fora. O Zé que foi parceiro do museu há muito tempo, coisa e tal. E um dia ele chegou para mim, ele já estava morando aqui em São Paulo, e ele falou: Marcinha, conheci, eu fui fazer um curso, um workshop com uma mulher incrível, uma história oral. Ele me contou, ele estava fascinado com esse workshop que tinha feito com a Karen. E ele falou: “e parece que eles querem fazer alguma coisa com o São Paulo Futebol Clube. Vai ter um evento do São Paulo Futebol Clube. Vamos lá? Que eles vão estar lá, o Lima Duarte vai estar apresentando, vai ser lá no Morumbi.” Eu falei: “Zé, beleza, no caminho você vai explicando aí, porque eu não entendi nada que você falou.” Peguei o Zé ali no metrô e fomos lá para o Morumbi. Foi quando o Museu estava começando, acho que o Museu tinha feito um projeto, da história dos judeus no Brasil, alguma coisa assim. E o segundo projeto foi esse do São Paulo Futebol Clube. Não sei qual foi a negociação, como que eles chegaram até o São Paulo Futebol Clube. Eu sei que eu comecei… Conheci a Karen. “Preciso da parte de fotografia, a gente precisa fotografar os entrevistados.” “Mas o que é esse museu?” “É um museu de história oral, que as pessoas vão contar suas histórias a partir da sua vivência, da sua experiência de vida.” Falei: “pô, legal para caramba!” Mas eu imaginava assim, olha o que eu imaginava, que ia ser um grande computador, do tamanho dessa sala assim, que iam armazenando todas essas histórias, milhões de histórias, como hoje em dia tem, e que teriam palavras-chave, para você, por exemplo, temas, alegria, vamos supor, e que você ia apertar um botão e que ia fazer essa intersecção e aí ia ter todas as histórias que tivesse essas palavras, alegria. Era o Google. Então, o museu estava muito à frente. Mas o que me encantou mesmo eram as histórias de vida, era essa ótica, essa perspectiva das pessoas terem voz. Pessoas, eu aqui falando, outra pessoa, o atleta lá do São Paulo. E aí eu fui conhecendo, fomos fazer esse projeto. Esse projeto eles alugaram, eles fizeram uma parceria com a Oficina Três Rios, que todos os depoentes iam para lá contar as suas histórias. E, se não me engano, não foi filmado, ele era gravado só. E o gravador era gravador de rolo, com microfone daqueles de rádio. Eu me lembro disso, porque depois, para a Bifarma, o cara que foi comigo, o Luiz André, ele tinha que levar aquele aparelho, sabe? Era de rolo o negócio. Eu não sei quando começou o museu a gravar em vídeo as histórias, mas esse do São Paulo, ficamos ali uns dois meses, assim, dois, dois meses e meio. E os depoentes, eu me lembro de ter fotografado Adhemar Ferreira, pô, demais! Só que interessante, porque eu me lembro também que eu fui no Morumbi e fotografei algumas pessoas lá. Porque eu tinha essa veia jornalística. Eu queria ambientar as pessoas. Eu me lembro do seu Anésio, não sei, ele que cuidava do estádio. Eu me lembro dessa foto, que eu fiz uma foto dele assim de cima, com o estádio do Morumbi todo vazio. Eu me lembro que eu fotografei o Cafu lá, o Zetti. Tinha um goleiro chamado Poy, se não me engano. E esses negativos, eu que revelava. Eu tinha um laboratório, revelava as fotos, guardava, identificava. Esse material está todo comigo, viu? Fazia os contatos. E aí gerou o acervo, porque eu tinha que fazer as reproduções também, eu fazia as reproduções das fotos, porque não tinha scanner. Eu reproduzia as fotos que os depoentes levavam, para depois ampliar. E começou com esse projeto, que foi, nossa, foi demais. E aí é lógico, você quer mais. E aí o museu começou, o museu ficava ali na Cardeal Arco Verde, e nisso também eu fiquei bem amiga da Karen, eu já era bem amiga do Zé, aí nasceu o Jonas, eu sou madrinha do Jonas. Então assim, uma amizade bem legal. A mãe da Karen, a Suzana, também é uma pessoa demais, sabe? Conheci o pai da Karen também, o Diduch. Fantástico! Então, estava ali. A Márcia estava ali no circuito. E começamos a fazer as parcerias. Mas legal, porque... Bacana! Começamos um negócio, pegar uma fotógrafa, mulher. Estamos aí, estamos juntos. E aí eu me lembro que fiz depois a história do SESC, começou a parceria com o SESC. Eu acho que o museu deu aquela encorpada, fez aquela parceria com o Danilo, com os SESCs de São Paulo. Eu fiz o SESC São Paulo. Mas o primeiro projeto legal mesmo foi a Abifarma, que era uma expedição, isso foi em 1997. Que era a Ruth Cardoso, ela teve essa ideia de... Como é que era mesmo? Que eram os agentes de saúde. Deixa eu pensar aqui como é que era o negócio.
01:03:43
P1 – Não era os PACs?
R – Os PACs? Não, eram os agentes de saúde que... Ela cuidava da parte dessa... Bom, enfim. Que ela achava que tinha que ter alguma coisa preventiva. Então você tinha os agentes de saúde no Brasil inteiro para fazer essa prevenção para que você não chegasse ao extremo. Só que todas as... Por exemplo, no sul era uma demanda, no norte tinha malária, no centro tinha outra coisa. E a Abifarma patrocinou esse projeto. A Abifarma é um laboratório, uma associação de laboratórios, se não me engano. Ela tinha essa parceria com o governo, eu acho. Era o Fernando Henrique, o presidente. Eu me lembro que tinha esses agentes de saúde que a gente percorreu. A gente foi do sul… Sul, depois passamos ali, quer dizer, a gente ia e voltava, para Tocantins, Palmas, aí eu conheci Palmas. Palmas não tinha acabado de ser criada, mas estava bem recente ainda, porque as ruas eram de terra, sabe? Aí a gente foi para uma aldeia indígena, já tinha um indígena que era um agente de saúde, que levou a gente para a aldeia. Depois a gente foi para Belém, de lá a gente foi para a ilha do Marajó. Tudo atrás dessas histórias, dessas histórias de vida. E eu me lembro que, nossa, eu fotografei muito, e foi a primeira vez… Era cromo, que fazia, era aquela coisa, cromo é uma película cara, então eu tinha que pensar muito antes de clicar. Mas eu me lembro que eu trouxe um material lindo ali da Amazônia, do centro-oeste, maravilhoso. São fotos que eu uso até hoje. E esse material está comigo também. Está organizado em pastas. E eu me lembro que não foi filmado, foi só gravado. E o Luiz, que é um grande amigo meu também, ele que levou o gravador, que era um gravador de rolo, não era gravador de cassete, tinha um microfone. E nessas entrevistas, por exemplo, eu me lembro do São Paulo, eu acompanhei quase todas, eu gostava de ouvir, eu não chegava só para fazer a foto, sabe? Eu gostava de ouvir, depois bolar como fazer a foto. Sempre com muito respeito ao entrevistado.
01:06:37
P1 – Pensando um pouco nesse lado da metodologia do seu trabalho. Porque você vem de um campo do jornalismo e aí você vai para o Museu da Pessoa trabalhar com alguns projetos que também têm um lugar da entrevista. Como é que você pensava na hora de fazer as fotos? “Com respeito, com cuidado.” Você ouvia a história antes da pessoa, mas o que para você era importante de representar ali na hora de fazer as fotos de projetos, tipo, do São Paulo, da Abifarma?
R - Olha, eu sempre pergunto para a pessoa se ela tem uma ideia, como que ela quer ser fotografada, se ela está confortável. E eu dou uma sugestão também. Eu gosto sempre de ambientar a pessoa naquele universo que ela contou. Então, por exemplo, a gente está lá na Abifarma, o rapaz é um agente de saúde, eu me lembro dessa foto, ele pesando uma criança. É lógico que eu fazia ele pesando uma criança ou falando com uma grávida. Às vezes você consegue pegar esse momento espontâneo, às vezes você escutou. “Pô, dá para repetir.” Porque não é um flagrante, você quer uma situação para você mostrar que existe aquilo. E o museu, eu me lembro que muita gente mais de idade, eu me lembro desse projeto do São Paulo, tinham pessoas com muita idade já, pelo menos assim, de onde eu estava, da minha visão para aquelas pessoas. E eu sempre, com respeito à história delas mesmas. Não dava para ouvir todas, mas, enfim. Até aconteceu uma história engraçada, que eu estava indo viajar até para Nova York, de novo, e eu fui revelar o filme, um filme que eu tinha feito de uns dois, eram três personagens que estavam ali nesse filme. E eu estava sem laboratório, em casa, e eu pedi para um amigo o laboratório, falei: “ô, Cana, dá para eu revelar aqui rapidinho? Só que eu esqueci a fórmula do HC-110, como é que é mesmo?” Aí ele falou e eu fiz a fórmula errada. A hora que eu abri o filme, cadê as imagens? Tinha ali um chuvisquinho aqui, um negocinho ali. Falei, ih caramba, ferrous! E hoje eu estou indo viajar, e as pessoas estão muito velhinhas, meu Deus do céu, será que vai acontecer alguma coisa? Tive uma ideia! Eu vou pesquisar. Achei em Nova York um lugar que trazia a imagem. Fui num galpão super suspeito. Peguei uma química. Você acha que eu conseguiria viajar com essa química hoje no meu pé? Trouxe um negócio que… Gente, era uma loucura aquele negócio. Nunca tive coragem de usar. Eu fui atrás dos personagens. Sorte que estavam todos vivos. Mas eu trouxe no avião um negócio. Sei lá o que que era. Hoje em dia não passava nem a pau. Mas eu fiquei desesperada. Eu falei: e agora, meu Deus do céu! Mas deu tudo certo, fotografei as pessoas. De vez em quando você passava uns perrengues assim. E aí fui fazendo alguns projetos, pro Museu eu fiz “Qual é o seu Centro”, que foi bem legal. Foi quando o Centro Cultural São Paulo virou... Centro Cultural São Paulo. Centro Cultural Banco do Brasil, eles restauraram ali a primeira sede aqui de São Paulo e fizeram ali no cofre uma exposição. Ali que eu dei uma entrevista, rapidinho. Foi bacana também, porque eu pegava os personagens no centro da cidade. Eu também, essa parceria você acaba sugerindo muito. Eu deixo à vontade, o museu pode usar à vontade as minhas fotos, porque quando eu estou viajando, por exemplo, eu acordo às 5h30, 6h da manhã, eu não vou ficar dormindo, eu vou pegar a melhor luz. E depois eu vou pegar a luz da tarde também. Então eu não paro, fico elétrica e isso dá um suporte para um livro, sabe? As imagens de apoio, se ambientar, sabe? Isso não está nem dentro do escopo do trabalho, mas é uma coisa que está dentro de você ser fotógrafo, de ser jornalista, eu acho. Aí eu fiz “Qual o seu Centro”. Fiz depois um projeto que eu acho que foi promovido pelo West Plaza, sei lá. Eram umas pessoas, eu me lembro, e eu bolei uns fundos também. Você vai ver que as minhas fotos quase todas têm um fundo, quando eram personagens, eu montava um estúdiozinho com um fundinho azul. Mas esse eu fiz com um fundo amarelo, eu me lembro. Ficou interessante. Já era ali na Rua Delfino, o museu depois mudou para a Rua Delfino, e tinha um estúdiozinho lá, que eu montei esse fundo e fiz lá essa… Chamava “Imigrantes”, uma coisa assim. Mas aí começaram as expedições, aí que é uma coisa delícia de fazer. Eu não participei muito das Memórias dos Brasileiros, mas usaram fotos minhas, que já estavam lá, que foi quando foi feita uma expedição grande pelo Amazonas, Guaraná, aquela coisa toda. Mas eu fiz uma expedição grande, foi do Banco do Brasil, 200 anos do Banco do Brasil. Nós fomos para os cinco biomas, Pampa, Pantanal, Amazônia, Caatinga e Mata Atlântica. E a gente foi viajando por esses biomas. Nossa, que experiência, meu! Que experiência! A gente saiu ali de Recife e fomos até o Ceará, sabe? Mas por dentro, naquelas cidadezinhas, sabe? Conversando com as pessoas, passando por Orós, por Caicó. Que eu falei, nossa, aquela música do Milton, falando... “… todo sertão do Caicó….” Nossa, eu estou em Caicó, meu Deus do céu! Porque tem isso também. Essas experiências, essas viagens que eu fiz pelo museu, nossa, elas me fizeram uma pessoa muito melhor, sabe? Muito melhor, porque você conhece o Brasil, o Brasil profundo. Como é que você vai? Depois, uma vez, a gente foi para Laranjal do Jari. Quem é que vai para Laranjal do Jari? É uma cidade bem castigada, uma cidade toda de palafitas, ali no Rio Amapá. Interessantíssimo também. Ali a gente pegou um barquinho, a gente foi num quilombo, mas a situação precária dessas pessoas. Depois a gente foi também, a gente fez essa viagem pela Amazônia, que era transformações amazônicas, por conta também, a gente ficou uns 15 dias ali em Juruti, depois pegamos um barco, fomos até Óbidos, depois a gente foi para Alter do Chão. Mas nessas viagens que marcavam Juruti, Óbidos e Alter, a gente ia fazendo comunidades ribeirinhas, ia e voltava, sabe? De comunidades, entrevistava, ou então pegava um carro e ia lá para uma castanheira. Poxa, a Amazônia é uma coisa deslumbrante, deslumbrante. E aí você tem que estar com uma equipe legal. Eu acho que eu sempre dei sorte. Eu sempre trabalhei aqui no museu com pessoas incríveis, dispostas. Porque você tem que ter um pique. Não são nada preguiçosos e vamos que vamos. E vamos trocando ideias e vamos fazendo o material. Ah, então, que aí teve Rondônia, nesta “Transformações Amazônicas”. Tinha uma cidade que ia ser alagada, que era Mutum Paraná. E você quer conversar com as pessoas, qual era a proposta ali. A proposta que eles estavam dando para aquelas pessoas, para saírem ali do lugar, era muito ruim. No meu ponto de vista, ou você ia para Porto Velho, mas pessoas que estavam acostumadas a viver naquela comunidade de Mutum Paraná, que ia virar uma represa para abastecer Jirau, a Hidrelétrica de Jirau. Ou você ganhava uma grana e ia fazer o que quisesse, ou você ia mudar para o novo Mutum Paraná. Que aí eu fui lá ver, você não podia levar os teus bichos, ficava a 12 km do rio. Não dava, sabe? São situações que você fica pensando, o desenvolvimento, você tem que ter um equilíbrio ali. Aí depois teve também uma expedição que a gente fez bem legal, para os Correios, que a gente ficou sediado ali, não ficou em Laranjal, mas na cidade em frente, que é Dourado, que era onde tinha o projeto Jari, que foi um projeto bem louco que aconteceu na época, acho que foi na década de 70, 80, que um... Eu não sei a nacionalidade dele, do Daniel Ludwig. Ele trouxe uma fábrica de celulose e instalou lá na Amazônia, nesse lugar, em Dourado. E ali ficou funcionando essa fábrica de celulose. Mas foi na época da ditadura que fizeram essa concessão. E a gente fez uma base ali em Dourado, era um projeto dos Correios, e aí começamos a entrevistar as pessoas, quem estava ligado. O projeto era bem maior, que eu me lembro que eu fotografei colecionadores, eu fui para o presídio feminino também, que as meninas se correspondiam por cartas, foi uma experiência bem interessante. Eu já tinha feito o Carandiru, logo depois que houve aquela matança, daqueles 111. Eu fui no primeiro dia de visitas. E foi horrível, horrível mesmo. Que bom que aquilo lá foi implodido, porque era muito triste. Então, eu já tinha entrado em presídio algumas vezes, mas dessa vez eu conversei com as moças, e essa era uma parte do projeto, esse presídio por cartas, que as pessoas correspondiam. E tinha uma menina, que era romena, ela já estava até falando bem português. Olha a história dela. Ela vivia lá, não sei qual a cidade, e ela tinha levado um fora do namorado. E a irmã desse namorado, que deu fora nela, falou assim: “ah, por que você não vai para o Brasil? Carnaval, lá você vai encontrar o homem da sua vida, sei lá, se divertir.” Ela falou: “não vou! Sei lá, mesmo se eu quisesse, eu não tenho dinheiro.” “Não, não, você leva isso aqui, que você paga a sua viagem.” Ela estava fazendo um tráfico. Eu acho que ela até sabia mais ou menos, só que ela chegou no Brasil, pegaram ela aqui em Guarulhos, já levaram ela lá para a penitenciária, só que ela falava romeno e ninguém falava ali a língua. Aí tiveram que chamar um tradutor, coisa e tal. Gente, as histórias dessas meninas eram de chorar, de chorar. Essa estava para sair, ela já deve ter saído. E aí eu fiz questão, assim, eu não identifiquei nenhuma delas, lógico, até não poderia, mas por respeito. Mas eu fiz um retrato legal de cada uma, fui lá na penitenciária de novo, falei: “ó, entrega aqui, tá aqui o nome de cada uma. Dá para entregar.” Não sei se foi entregue. Mas isso eu sempre fiz também. Eu pegava as fotos, na época, porque agora você passa pelo Zap, todo mundo tem o WhatsApp, é a coisa mais difundida. Mas eu ampliava as fotos, eu mandava, pegava o endereço e mandava para aquela pessoa. Era uma forma de retribuir o que estava fazendo. E eu me lembro que, paralelo a isso, eu estava fazendo um projeto com o Zé Santos e o Rufato, que era “Nação Rubro-Negra”. Eu falei: “gente, onde eu vou tem torcedor do Flamengo. Vamos fazer um projeto.” Bom, o Zé, eu acho que é São Paulo. O Zé não é nada, não sei. Mas o Rufato… O Zé é São Paulino, mas ele gosta do Flamengo, eu acho também. Ele gosta de mim. E o Rufato, flamenguista total, “não, vamos fazer esse projeto.” Então, coincidiu eu estar na Amazônia e fotografando essa nação rubro-negra. Cara, às vezes tinha pessoas naqueles barcos, que estavam ali, lá no Rio Amazonas, ou naqueles rios menores, assim. Eu via que estava com a camiseta, achava legal a foto. “Ei, você pode me passar seu endereço, não sei o quê? Eu preciso da autorização.” Eu consegui a autorização, sabe? Nossa, de muita gente. Para fazer esse projeto. Aí, quando o pessoal apresentou, até onde eu sei, apresentaram o projeto no Flamengo. O Flamengo, eles queriam uma grana da gente, porque a gente ia usar a marca deles. Bom, eu estou com esse material maravilhoso. E não deu em nada. Um outro projeto que eu estava fazendo com o Zé também, que também ia usar bastante as fotos do acervo que eu tenho, com essa parceria com o museu, era um projeto chamado Brasil de A a Z. O Zé fazia uma trova, um verso, e entrava a minha foto. Mas nunca era uma coisa muito evidente. Então, você tinha que descobrir, pela foto, a letra, que era jacaré, água, casa. Era um livrinho de criança, mas também que está hibernado. Vamos ver se a gente consegue tirar do papel. O último projeto que eu fiz aqui com o museu, que eu me lembro. Que eu me lembro, não, que foi mesmo, foi o armazém, a zona cerealista. Que foi massa também, muito boa. Que eu acordava, que eu falava: não, quero pegar os caras de manhã, desembarcando as mercadorias. Porque de manhã é um corre lá, até organizar tudo, trazendo as coisas para colocar ali na zona cerealista. Então, eu acordava mega cedo, ia para lá, o pessoal já começou até a me conhecer. Eu fui várias vezes para pegar essas fotos de madrugada. Foi bem interessante.
01:23:26
P1 - Eu imagino que, nesses muitos anos de fotógrafa, você já passou muito perrengue na vida. Tem alguma história que você lembre dessas viagens?
R - Não, a história mais engraçada, que já é um fato, que quase todo mundo conhece, que é muito engraçada mesmo, não é um perrengue, foi uma situação engraçada. Eu trabalhava no Estadão e fui fazer o... Tem a Casa Cor, né? “Vai lá fazer o pessoal da Casa Cor.” Foi em 1992. Aí fiz lá algumas coisas, juntei os arquitetos que estavam lá e eu falei, eu vou fazer essa foto horizontal, vou dar mais uns passos para trás, vou fazer a foto vertical e depois vou ver o que eu faço. Aí o pessoal avisou, “ó, tem uma piscina aí atrás.” Eu falei: “não, eu estou vendo, eu estou vendo.” Só que a piscina, ela tinha uma forma de ameba. Quando eu estou vendo assim, eu caí com tudo dentro da piscina. Mas a piscina era funda, que bom! Eu caí com tudo assim, eu apareci, eu falei: “gente, está liberado, pode rir, pode rir!” Mas foi incrível, porque eu sumi do plano daquelas pessoas. A hora que eu levantei… Quer dizer, estragou tudo, máquina, tudo. Aí liguei no jornal, falei: “ó, caí dentro de uma piscina.” Ah, meu Deus do céu! Acontece, né! A sorte é que a máquina era do jornal, estava no seguro, estava tudo certo. Perrengues, assim, de... Não lembro. Só essa que ficou na história, porque quem conta um conto aumenta um ponto, e ficou essa história. Não dá nem um minuto lá no, “Que história é essa, Porchat?” Não dá nem para contar, porque acaba.
01:25:37
P1 - E dos entrevistados do Museu da Pessoa, você chegou a fazer alguma entrevista ou você mais ficava assistindo?
R - Não, nunca entrevistei, nunca entrevistei. Mas, por exemplo, um cara que eu adorava trabalhar é o Egypto, que a gente tem uma parceria, ele morou em Juiz de Fora também, então a gente se conhecia de muito tempo. Eu conhecia também a Rosa, que até morreu agora. Ela fotógrafa, o Egypto… Acho que o Egypto estudou engenharia, se não me engano também. Não foi? Não, não fez nada de engenharia. Eu acho que ele foi aluno do meu pai, se não me engano. Então, a gente se conheceu. A gente se conhecia. E essa coisa do jornalismo dele batia comigo muito, o jeito dele entrevistar, sabe? Eu pensava numa pergunta… Porque às vezes eu ficava pensando numa pergunta também. Pensava na pergunta e ele já estava fazendo. Porque você tem aquela experiência. Por exemplo, a gente fez a Fundação Bradesco. Fundação Bradesco, que até foi um calhamaço assim, de um livro gigante. E eu me lembro, na ditadura, Conceição do Araguaia, o pessoal ia lá, sabe? Eles falavam, os guerrilheiros estão em Conceição do Araguaia. E nenhuma daquelas pessoas perguntavam sobre isso. E eu ficava enlouquecida. Até que eu, não sei nem quem estava fazendo. “Vocês não vão falar sobre o que aconteceu? Conceição do Araguaia, que aqui tinha guerrilha, que aqui o pessoal perseguia as pessoas que concordavam com o governo.” Mas eu ficava na minha ali. Eu não vou interferir, isso era eu. Um outro projeto também muito, muito forte, foi o Vira Vida, que foi as histórias das pessoas que se prostituíam porque não tinham educação. Não é não tinham educação, não tinham uma orientação. E o abuso de muitas crianças por familiares, por pessoas próximas. Era cada história. Eara, era exausto, exaustivo. Eu me lembro de uma história, eu não lembro qual foi a cidade, mas a menina falou assim, a mãe começou a se prostituir. Ela falou: “puxa, eu queria ter um patinete.” A mãe sugeriu, “melhor você se prostituir para você ganhar um dinheiro.” E para tirar essas pessoas dessa… Esse projeto que o Sesi fez em parceria, nossa! Ele foi magnânimo, assim, ele foi de uma importância. O Meneghelli, que era na época o presidente do Sesi, eu tirei o chapéu para ele. Que ele falou que ele estava na Praia do Futuro, lá em Fortaleza, quando chegou praticamente um cardápio de meninas para ele escolher que menina ele ia querer. Ele falou: “o que é isso?” Mais ou menos isso, talvez eu esteja fantasiando um pouco, não sei mais. Era mais ou menos isso. Ele falou: “não, eu preciso fazer um projeto para tirar.” Então, você saía, porque a grana era muito maior você fazer um programa, você ganhava muito mais, do que fazer um curso técnico para sair da rua, porque você ganhava metade, ficava com essas pessoas, e metade você fazia uma poupança até acabar o curso. Você tinha que ter muita força, muita força, muita coragem para sair daquela vida. E as meninas também, e os meninos também, que eram abusados na infância, para conseguir expressar era… Meu, que projeto. Projeto legal demais. Legal, assim, no sentido da importância dele.
01:30:11
P1 - E teve todo um cuidado na fotografia deste projeto.
R - Total, total. Você não podia mostrar, lógico, obviamente, mostrar nada daquelas pessoas. Eu conversei muito com as meninas e com os meninos. Foi um projeto de três meses, de norte a sul, onde tinha o projeto Vira Vida, onde já estava implantado esse sistema.
01:30:48
P1 - E agora, antes de a gente voltar para a sua vida pessoal, uma última pergunta sobre o museu. Tem algum entrevistado que para você, que te marcou mais, alguma entrevista que ficou mais na sua memória?
R - Eu sabia que você ia fazer essa pergunta, e eu fiquei pensando antes de vir. Não. Todas foram muito, muito importantes. Lógico, tem algumas fotos, você lembra, por exemplo, o seu Albertino, lá na Amazônia, ele estava com o livro do Tiago de Mello na mão, assim, e estava, naturalmente, numa cadeira de balanço, atrás uma paisagem. Nossa, eu fiz aquele clique assim, eu me senti nas nuvens. Alguns cliques, você fala, poxa, eu captei realmente a alma dessa pessoa. Acho. Captei a alma dessa pessoa. Mas não teve, assim, meu entrevistado. O Seu Germano, queria contar a história do Seu Germano. O Seu Germano, eu acho que tem um vídeo que o museu até divulga, até usa. O seu germano é um senhor que tinha na época, foi em 1993. Desculpe, em 1995, eu trabalhava no Globo, 1994, 1995. E esse senhor, ele tinha dado uma entrevista no Jô, o Jô era do SBT. E aí o repórter do Globo falou: “Márcia, tem a história do Seu Germano, vamos lá? É em Diadema que ele mora, vamos entrevistá-lo, porque ele tem 122 anos, tem tantos filhos, não sei quantos netos, quantos bisnetos, parece que a história dele é bem interessante.” E lá fomos nós para Diadema. Eu trabalhava no Globo. Eu me lembro da rua, chamava Rua Navio Perdido. Chegamos lá na casa dele, o Milton, o repórter, entrevistou o seu germano, não sei o quê, e eu fiquei ouvindo a história, e aí eu falei: “Seu Germano, agora é a minha vez, eu queria fotografá-lo. Tudo bem?” “Não, eu quero um carro, eu quero um Fusca.” “Um Fusca? Mas Seu Germano...” “Não, esse seu patrão aí, o Roberto Marinho, tem muito dinheiro.” “Mas eu não sou o Roberto Marinho, eu trabalho para o Globo.” “Não, mas estão acabando com o meu negócio, está todo mundo achando que eu sou rico, eu já não consigo mais nada, nenhuma doação, porque todo mundo… Eu já apareci na televisão, todo mundo está falando que eu tenho dinheiro. Eu quero um Fusca, porque, na realidade, meu filho está precisando de um Fusca.” Eu falei: “Seu Germano, concordo totalmente, o senhor pede para o Seu Roberto Marinho, mas eu não tenho nada a ver com isso.” Ele me chamava de sinhazinha. Eu falei: “olha, não tem problema, não preciso fazer a foto.” Fui guardando o meu equipamento. E aí ele falou: “não, não, sinhazinha, não, não, gostei da senhora, pode fazer a foto.” Aí fiz um monte de foto lá do Seu Germano, não sei o quê, a gente publicou a matéria no jornal. E eu já tinha feito o projeto do São Paulo e a história do comércio de São Paulo para o museu. E eu conhecia há muito tempo o Zé, e o Zé é um videomaker maravilhoso. Aí teve o Festival do Minuto, ele falou: “Marcinha, abriu as inscrições do Festival do Minuto e o tema esse ano é personagens. Você tem alguma ideia?” Aí aquele negócio bateu assim, a noite eu falei, Seu Germano. Falei: “Zé, conheci um cara demais, chama Seu Germano, mora em Diadema, numa rua Navio Perdido. Vamos lá fazer?” Aí fiz o contato com o Seu Germano. E fomos lá fazer. O Zé teve a ideia, fez os cortes, e coisa e tal. Ele está com a criança no colo, fumando um cigarro, falando que estava bom de tudo, do fígado, do “estrombo”, não sei o quê. E só não sabe “o que está acabando comigo. Mas tem alguma coisa que está acabando comigo.” Aí até pergunta no final, ele fala: “1996? Isso tudo? Nossa, mas como passa rápido.” Eu acho que o vídeo termina assim. E aí entramos no concurso, não ganhamos nada, mas está aqui no museu, para quem quiser ver, a história do Seu Germano Araújo, de Vitória da Conquista. Legal, eu acho que eu tenho uma memória de datas, eu acho que ajuda bastante. Eu tenho até raiva disso com os meus amigos, porque eles não lembram muita coisa. Aí eu falo, olha, gente, mas aconteceu isso, teve as histórias... “Não lembro.” Falo, mas não é possível, não é possível. “Não, a sua memória é que é boa demais.” Sei lá.
01:35:54
P1 - Agora a gente volta um pouquinho no tempo, na parte da sua vida. Você fez faculdade na época da ditadura, não é?
R - Sim. Estava terminando. Assim, terminando não. Eu entrei em 1980. Em 1980 estava pegando ali.
01:36:16
P1 - Como é que foi esse momento da faculdade, toda a parte da repressão, mas também o próprio curso, como é que foi para você? Você disse que nunca teve dúvida de que era jornalismo e foi, né?
R – Eu fui fazer jornalismo, nunca tive dúvida. Os dois primeiros anos, a gente fazia junto com humanas, era o que se chamava ICHL, Instituto... era humanas e letras, era junto com história, geografia, ciências sociais. Então você fazia o básico. E aquilo lá abriu a minha cabeça, assim, vupt, sabe? Nossa, comecei a ler muitos autores, já me engajei no movimento estudantil ali, de cara, sabe? No diretório acadêmico. Não é que eu era uma pessoa, não é que na minha casa as pessoas…. Eram nada, sabe? Elas não eram de direita, não eram de esquerda, não tinha essa… Eu não tive essa influência. Mas a faculdade abriu a minha cabeça total. Eu sou uma pessoa de esquerda, de esquerda, que eu quero que todo mundo fique bem na fita, sabe? Que todo mundo fique feliz, que todo mundo faça o que está a fim. E tem como, cara. Eem como. Você ganha menos aqui, você ajusta aqui e vamos. Não é tão fácil. Eu sei que não é tão fácil, mas não precisa explorar. Não precisa também esse moralismo, essa hipocrisia que existe. Eu acho um horror. A faculdade, a universidade de Juiz de Fora, uma universidade, tem um campus universitário, então eu me lembro que eu ficava praticamente o dia todo lá. Ah, eu também tive um jornalzinho infantil chamado “O Mascote”, que era interessante. Eram matérias direcionadas mais para a criançada, mas com reportagens, assim como se fosse, a gente fazia… Essa parte e eu escrevia, reportagem na linguagem que a criançada pudesse entender. E era distribuído nas redes escolares lá de Juiz de Fora. Isso aí durou um ano, mais ou menos.
01:38:56
P1 - E o teatro, ele continuou te acompanhando ou ficou na infância?
R - Não, na infância não, até na faculdade eu fiz, eu participava de um grupo, um grupo de divulgação. Mas não atuando, sempre ali na coxia, sabe? Sempre fazendo ali, eu fiz luz… Eu nunca atuei, eu sempre dirigia, escrevia. Falava assim: sonoplastia, Márcia, não sei o que lá, Márcia…” E na época da faculdade, no grupo de divulgação, eu me lembro que eu fiz luz, fiz sonoplastia e depois larguei. Não, não. Acho que absorve muito quando você… Por exemplo, em Belo Horizonte eu não tinha tempo, eu tinha que estar sempre ligada… Aí eu falei: “puxa, eu preciso de um meio de locomoção aqui nessa cidade. O que eu posso ter? Uma bicicleta? Não, bicicleta não, acho que não vai ser tão rápida.” Aí foi interessante que coincidiu. Eu fui fazer um freela para uma revista chamada Revista Novo. Eu nem sei se existe ainda, acho que era da Editora Abril, da Editora Globo. Eram os homens solteiros. Como é que é? Os homens solteiros com grana. “Os bons partidos solteiros de Belo Horizonte.” E um deles tinha uma concessionária de motocicletas, e eu combinei com o cara eu falei: “ah, eu queria fotografar você ali na Cachoeira dos Macacos, que é ali perto.” Ele falou: “beleza!” Ele passou na minha casa, a gente foi de moto, fiz as fotos, coisas e tal. Aí ele me deixou. Eu falei: “poxa, o que eu queria mesmo era ter uma mobilete, porque eu não tenho carteira de motociclista.” Eu tinha tido aquele acidente da moto. “…uma mobilete seria interessante pra mim.” Ele falou: “ó, tem uma mobilete lá, se quiser passa lá na concessionária amanhã.” Aí fui lá, olhei a mobilete. Eu falei… Tipo assim, hoje em dia ele me vendeu por duzentos reais, a mobilete, e ainda me deu o capacete. E eu saí com a mobilete. Ele falou: “mas você tem certeza que você vai? Eu não sei, eu estou ficando preocupada.” O cara falou. “…acho melhor, não sei…” Eu falei: “não, não, vai ser ótimo eu com essa mobilete. Nossa, vai me dar um adianto danado. Que eu tenho que estar ali, tenho que estar aqui. Eu pego táxi, mas as coisas pequenas eu vou de mobilete, eu vou até a redação do Estadão, eu vou de mobilete, não preciso de um buzunga.” Aí saí de lá com a mobilete, aí cheguei na redação do Estadão, o editor falou: “nossa, não, isso não vai dar certo.” Eu falei: “vai dar certo!” Porque aí eu já estou aqui meio na matriz, porque as coisas, às vezes, aconteciam assim, coisas que você tinha que estar ali na hora. Coisas que não estavam dando nada, uma manifestação na Assembleia Legislativa, o negócio está pegando fogo. Corre para lá. Então, eu não tinha muito tempo para fazer o teatro. Mas é legal, é um bom exercício.
01:42:23
P1 - E deu tudo certo com a mobilete?
R - Eu vendi, eu vendi. Eu vendi não, eu acho que eu dei a mobilete, para o irmão de uma amiga minha que estava querendo. Eu nem troquei a documentação, porque tinha documentação. Eu nem sei se a documentação continua do cara lá da concessionária. Mas eu acho que você tem que ter muito bom humor. Eu tenho até uma foto que eu trouxe, que foi até no Pantanal, estava o Zaza. Tinha uma repórter muito legal também aqui, uma historiadora, a Nádia, que a gente fez algumas coisas bem legais. Todos numa árvore, sabe? A gente subiu numa árvore. Eu falei, cara, minha perna estava boa. Para fazer a foto. Então, a gente sempre tinha essa troca também, que eu gostava muito de trabalhar também com o Gabriel, com o Adilson, com o Eduardo. Com milhões de... Eu falei do Egypto porque ele tem essa formação jornalística, que é interessante. Mas tem outras pessoas, a Fernanda, que a gente fez o trabalho do Vira Vida. Muita gente legal aqui, que já passou no Museu. Eu ainda continuo.
01:43:46
P1 - E amores da vida, aconteceram?
R - Ah, sim, vai e volta, tá tudo bom. É, isso aí, deixa.
01:44:00
P1 - Agora, vamos começar o encerramento aqui. Pensando nessa sua participação de tantos anos no jornalismo, na fotografia, né? Você foi contando várias mudanças de tecnologia. Como isso foi acontecendo pra você, foi de forma natural ou foram mudanças drásticas? Essa coisa, porque você tá falando de ter que contar quantas fotos ainda tem na câmera pra trocar o filme e pra depois chegar num ponto que você pode apertar o botão infinitas vezes que tá tudo certo. Isso é uma das mudanças, e a gente tem outras.
R – Sim. Interessante que ano passado eu participei de um festival, chama Festival de Fotografia Analógica. E aí esse cara convidou quatro fotógrafos. Era eu, a Mônica Zarattini, a Iliara Andrade e a Lulu de Mello, para contar as nossas experiências na fotografia analógica. Que era isso, que é a questão da máquina, do filme, de você ter que levar um laboratório, fechar um banheiro num quarto de hotel, para você revelar a telephoto, que você sempre tinha que ter um aparelho telefônico que abrisse o bocal para você colocar o plug ali nos dois terminais para a sua foto passar. Então, isso mudou muito. Mudou pra caramba. É muito mais fácil. Mas o muito mais fácil, daqui a pouco vai ser mais fácil ainda, ou mais difícil, eu não sei. Por exemplo, questão do peso da máquina. Minha bolsa, eu falei, pesava 10 quilos. Ano passado eu troquei radicalmente de equipamento. Comprei um equipamento mirrorless, sem espelho. Então ela não faz barulho, a minha máquina, e ela é muito mais leve. Eu ainda estou acostumando, porque ela é muito tecnológica, sabe? Ela é muito sensível, então, às vezes, assim, eu perco o foco, algumas coisas, mas é uma questão de costume. Eu sempre fotografei muito futebol e as máquinas, as minhas lentes, elas não eram autofocus. Eu fazia tudo na mão com aquela 300. E não usava o monopé, era na mão. Eu tinha uma rapidez danada naquilo. Quando o jornal começou a dar as máquinas autofocus, eu tirava o autofocus da minha câmera, da minha lente, porque eu achava que eu era mais rápida. Mó mentira, né? Porque a lente é muito mais rápida, mas era uma questão de costume. Eu não usava o monopé, porque eu achava que negócio horrível, sabe? Mas a tecnologia, ela ajuda também, às vezes você é um pouco resistente, mas não resistência de manha, não, sabe? Mesmo na... Eu comprei a minha máquina digital, a primeira que eu tive foi em 2003. Era uma máquina que, assim, ela era legal. Eu fiz esses trabalhos da Amazônia, dessa expedição que a gente fez pelo nordeste, nos biomas, tudo eu fiz com ela. Uma qualidade incrível. Só que o ISO dela, você podia até assim, 200, porque senão já começava a dar grão. Então eu tinha que pensar muito mais do que eu penso hoje em dia, que a minha máquina vai a 64 mil. Eu nem preciso mais de flash. Eu vou te mostrar uma foto, eu estou dentro ali de uma entrevista, uma depoente do Pantanal, chamada Dona Maria, que é uma encantadora de jacarés. E eu tive que montar a minha luz lá dentro do cercado dela. Eu levei as luzinhas, a luz aqui assim, ela está encantando um jacaré, jacaré mesmo, com bocona, e eu estou aqui fotografando atrás. Olha a minha coragem de montar a luzinha. Mas se eu não fizesse isso, eu não ia ter a qualidade, porque o ISO era muito baixo. E com isso eu aprendi também a lidar com as dificuldades, lidar com as luzes. Eu levava dois flechinhos, com os tripézinhos, com o meu tripé, com a máquina, não sei o quê. Eu levava. Eu não queria ninguém me ajudando. Porque o equipamento era meu, sabe? Quem ia fazer a foto era eu. Eu nunca… É lógico, uma hora ou outra uma pessoa te ajuda ali. Mas não, eu sempre criei uma bolsinha para botar os flechinhos, um negocinho para botar os tripés, uns tripés mais leves. Mas eu sempre estava carregando o meu equipamento. Eu me lembro de uma viagem que eu fiz para a Austrália, que a gente foi em um cânion, a gente andou pra caramba, coisa e tal, o guia resolveu levar o equipamento e deixou meu equipamento, assim, porque era pesado. Eu falei, no problem, o equipamento é meu, eu que levo, sabe? De boa.
01:49:18 SPK_1
E hoje em dia você continua trabalhando com fotografia, certo?
R - Então, hoje em dia eu tenho uma produtora cultural, no qual eu tenho uma sócia, que é historiadora, e a gente se juntou. Então, chama Ilumina - Imagens e Memória. É a nossa produtora cultural. A gente já fez quatro livros, incentivados pela Lei Rouanet. A gente ganhou também alguns projetos de edital pelo ProAC. E agora tô fazendo essa nova edição, que é o proponente, é a Ilumina, que é essa nova edição das Donas da Bola, que é o do futebol. E tô aí desesperada pra fazer a captação. Não, tô desesperada não, estou tentando fazer a captação. Vai estourar agora, dia 31 de dezembro. Mas agora eu já vi que os aportes são trimestrais também, eu vou conseguir captar. Porque ainda tem esse negócio também. Porque o interessante é isso, como eu trabalhei também com poucos institucional, na hora de fazer os projetos, para quem eu ia pedir? Para quem eu tinha feito a foto institucional. Explicando o que era a Lei Rouanet, como você podia dedicar o seu imposto a um projeto cultural, sem pagar nada, ter essa visibilidade. Então, foi legal. O primeiro projeto que a Ilumina fez, foi sobre uma cultura imaterial lá de Aiuruoca, a folia de reis, no Vale da Pedra. Então, a gente escreveu o projeto, eu fui num cliente meu, expliquei como é que era, que era incentivado, os 4%, não sei o que. Eles toparam, eles não fizeram o aporte total. Mas aí, faz aquele rearranjo, coisa e tal. E ficou um livro lindo, lindo, com depoimentos. Porque aí você vai meio que aprendendo também. Eu aprendi muita coisa com o museu. A contar as histórias, recheando também, dando voz a todas aquelas pessoas da comunidade. E aí foi bacana demais, porque quando a gente fez uma edição, eram mil livros o projeto. Só que entrou uma editora, e resolveu imprimir mais dois mil livros. Eu falei, nossa senhora, meu Deus do céu, três mil livros. Tudo bem, mil, você dá aqui. Você tem que distribuir em biblioteca, não sei o quê, não sei o quê. E tudo que era excedente, a gente revertia para a comunidade, para a APAE, lá de Aiuruoca, para a comunidade do Vale da Pedra. E o excedente, eu falei, bom, a editora vai distribuir. A editora faliu. Um dia o cara me ligou e falou: “olha, eu estou com esses livros aqui, eu vou ter que entregar ao prédio. Você quer os livros? Senão eu vou ter que jogar fora.” Eu falei: “o quê? Não, estou passando aí.” Eu tinha um clio, eu enchi o carro. Só que eu tinha acabado de imprimir um outro livro, que era um outro projeto. Liguei para minha irmã engenheira, falei: “Renata…” Sua xará. “… como é que eu ponho esses livros aqui em casa? Não posso botar no meio da sala?” Ela falou: “não, vai encostando tudo na parede.” E eu fui encostando na parede. E você sabe que não tem mais um livro desse, da Folia de Reis, porque a comunidade, os turistas, é uma região um pouco turística lá, colocamos em alguns lugares, vendemos tudo. Todos os livros de Aiuruoca. Todos. Legal demais. E o pessoal super agradece, porque deu uma visibilidade, eles são chamados para tocar. É uma festa linda, linda, linda. Uma festa bem tradicional ainda lá.
01:53:28
P1 - E você trouxe um pouco, em alguns momentos da entrevista, uma questão de gênero, que você muitas vezes era das poucas fotógrafas, vocês fizeram esse projeto do futebol. Isso como foi para você durante a sua vida profissional e pessoal?
P1 - Você sabe que a gente… Eu achava natural, mas pensando hoje em dia, esses caras eram muito machistas. Nossa! Assim, eu achava que… Estava lá, os caras, “não, a gente que vai fazer o futebol. Não, a gente que vai fazer isso.” Aí você falava: “tudo bem!” Eu acho que se fosse hoje em dia. Eu acho que mudou muito, muito essa visão, esse pertencimento. É muito bom, é muito bom ter essa consciência. Eu acho que é você está numa profissão, você está ali junto com outras pessoas, mas você está trocando, mas você tem que está trocando de igual para igual. Tanto é que nesse projeto agora, das Donas da Bola, o primeiro projeto que foi em 2014, teve uma exposição no Centro Cultural São Paulo, depois foi para o Museu do Futebol. A gente mostrou que a mulher jogava futebol. Várias. A diversidade das mulheres jogando futebol. Hoje, o projeto que a gente escreveu, que até está na lei, estou fazendo a captação. A gente se aprofundou mais sobre empoderamento, machismo. A gente quer… Inclusive, vai ter parte de vídeo, de entrevista, a gente quer dar a voz, sabe? Como é que está, sabe? A questão da igualdade de salários, quando é um futebol profissional. Então, é um processo que a gente está andando, só que é um processo que tem que acelerar, porque tem muita gente ficando no caminho. Você vê essa manifestação, eu estava lá.
01:55:42
P1 - Agora, para a gente ir finalizando. Você falou que você aprendeu bastante com o museu, mas eu queria que você me contasse se tem alguma coisa que você sente que foi um impacto na sua vida causado por ter essa experiência com o museu.
R - Olha, o museu é uma ideia fantástica. Primeiro, essa ideia de você contar a história pela ótica, pela visão, pela experiência da vida daquelas pessoas, é muito legal, é muito legal. É um conjunto, não são só personalidades, são pessoas. Poxa, meu, a gente conversou com muita gente, muita gente, nesse caminho, histórias… Toda história, tanto é que tem aquele livro, Todo mundo tem uma história para contar. E essa questão também, assim, com o museu, eu consegui conhecer o Brasil, porque eu não iria para Bagé, por exemplo. O que eu fazia em Bagé? Como eu falei, algumas. Talvez a Amazonas, sim, se tem aquele vislumbre da floresta. Mas para Macapá, eu acho que não iria para Macapá. Isso é interessante. É interessante nessa ótica também, que você está conversando com as pessoas dali. Você pode também achar tudo lindo. Uma vez, só fazendo um parênteses, eu fiz uma matéria com a Niède Guidon. Eu estava no Estadão, e eu fiquei 15 dias, eu e uma repórter, quando ela fez aquela situação do Carbono 14, para detectar as pinturas rupestres. E fomos para a Serra da Capivara, e ficamos lá. E eu achei, nossa, fantástico o trabalho dela, fantástico. Corte. Deu cinco anos, eu vejo uma matéria na TV Cultura, falando da Niède, mas uma entrevista com aquelas pessoas que estavam lá, habitantes daquele... Que ali ia virar o museu do homem americano. E aquelas pessoas iam ter que sair dali, que elas iam ser desapropriadas. E falando que aquilo era um absurdo, porque elas estavam vivendo naquele tempo. Tudo bem, tinha que preservar, mas e elas que estavam naquele tempo? Para onde elas iam, já que elas estavam lá antes? Isso me fez pensar muito, assim, e me fez pensar muito… Por que eu contei isso? Por causa da Usina de Jirau, que eu pensei muito, foi uma coisa que me tocou demais. Para onde iam aquelas pessoas? O que a Dona Teodora, que fazia rede, que criava galinha, ela tinha optado e para Nova Mutum Paraná, mas será que ela sobreviveu aquilo tudo? E essas histórias, essa oportunidade de você estar escutando isso, às vezes até numa impotência de não ter o que fazer, mas ter o que fazer o quê também? É ir passando para frente e comunicando. Eu acho que o papel, você não vai interferir na vida daquelas pessoas que estão ali, mas você vai contar aquelas histórias, aquela história vai tocar alguma pessoa. Você é um fio condutor daquela história. Eu não posso pegar, não tenho esse dom, esse poder de pegar uma daquelas meninas do Vira Vida e transformar a vida dela. Mas você pode, num conjunto, virar uma política pública, você pode ser um fio, um fio condutor. Eu acho que o meu papel aqui, enquanto fotógrafa, eu tento fazer o meu melhor, sabe? Não por vaidade, “ah, a melhor foto!” Mas é ser fio condutor, ter essa oportunidade, ter uma estrutura que você está mostrando o seu trabalho de uma forma honesta, sabe? Sem inventar a história de vida daquelas pessoas. Só fazendo um outro parêntese. No Estadão, na época que eu trabalhei lá, foi o primeiro governo da Erundina. No Estadão, aquele jornal legal. Eles adoravam a Erundina. Então tinha uma chamada “Operação Portugal”. É quando você tinha que sair com uma determinada... Podia estar acontecendo um incêndio na sua frente, mas se o editor falasse, não está acontecendo incêndio, você não podia ver o incêndio. Você já saía com uma determinada pauta para realizar aquela pauta. E eu saí, eu nem sabia que era isso, depois que eu percebi, que no Largo do Arouche, estava com muito lixo, que a prefeitura da cidade de São Paulo era horrível, horrível porque não catava lixo, não sei o quê, não sei o quê. Lá fui eu e a repórter. E ela falava, você não vai fotografar? Eu falei, não, vou conversar ali com as pessoas, vou ver. “Mas por que?” “Porque o caminhão não passou ainda, o caminhão vai passar daqui a pouco.” Eu falei: “ó, o caminhão vai passar daqui a pouco, vamos esperar o caminhão.” “Não, não, a gente tem que fazer o lixo.” Eu falei: mas tem que fazer o caminhão.” “Não, não tem tempo, tem que fazer o lixo.” “Então, não vou fazer nada.” Uai! Então é isso, você tem que ser honesto, você tem que ser coerente, você tem que entender o que está acontecendo ali e tentar mostrar na sua imagem. E a imagem não é que nem o vídeo, a imagem é um fotograma, é um congelamento, que você tumm. E você tem que conseguir ali se expressar naquele único frame, naquele único clique. É isso.
02:02:01
P1 - E nesses muitos anos que você conhece o museu e acompanhou, às vezes mais perto, às vezes menos perto, mas sempre aqui. Teve alguma crise que você lembra, que você olhou e falou: nossa, esse é um momento difícil para o Museu da Pessoa?
R - Olha, eu tô tentando puxar aqui. Não que eu tenha percebido. Se eu tivesse percebido, eu teria falado, mas uma crise assim. Acho que o museu, ele foi galgando, foi melhorando, inclusive, assim, de espaço. Principalmente de espaço, a gente tem um estúdio, coisa que não tinha. Era tudo meio improvisado. Estou te falando, era aquele gravador de rolo. Mas tudo bem, muda. Hoje em dia, se você não tem imagem, você não tem nada. Você tem uma voz só. Eu nem sei, você sabe como é arquivado? Nem sei, esses rolos existem, essas fitas foram digitalizadas. Deve ter sido, né?
P1 – A gente mantém as originais.
R – Os rolos? Eu tinha um gravador lá, os meus pais tinham um gravador de rolo, que era engraçado, que tinha o dia da gente fazer as gravações. Então, você podia gravar qualquer coisa. Então, eu adorava cantar uma música ou fazer um comercial. Aí depois botava para a família toda ouvir. Era engraçado. E era um gravador de rolo também.
02:04:05
P1 - E como você vê o Museu da Pessoa daqui para frente?
R - Olha, eu não sei como está a estrutura do museu, se está sendo feito projetos… Eu sei que tem a parte de formação, que é muito grande. Eu espero que tenha algumas outras expedições e que eu esteja incluída nela, que eu adoro. Adoro. Expedições que eu falo de projetos, de conhecer as histórias de populações ribeirinhas, ou da periferia, ou de um determinado local. Isso é maravilhoso. Eu não sei, realmente, eu tive outro dia, acho que foi aqui, ou foi lá, acho que foi lá no Unibanco. Quando teve o lançamento das histórias dos indígenas. Achei aquele projeto demais, não sabia, fiquei surpresa. Ficou potente, muito potente. Então, acho que o museu está indo também muito nessa linha. E hoje em dia você… Qualquer um. Qualquer um não, porque a foto de um profissional é sempre diferente. Mas as pessoas, elas têm um celular, elas conseguem fazer uma captação. Então, também por conta disso, eu acho que diminuiu muito também o fluxo de trabalho, e isso transformou também muito, muito também no meu trabalho pessoal. Eu me lembro que você ia fazer a assinatura de um contrato, você tinha que chamar um profissional, porque não era máquina digital, você não via na hora, o negócio tinha que sair. Contrato de milhões lá, tinha que fazer a foto, você não estava vendo se saiu. Então, eles te contratavam para fazer isso. Isso mudou muito. Eu estava na Paulista, agora no domingo, na manifestação, todo mundo fotografa tudo, tudo, tudo, tudo ao mesmo tempo. É isso aí. Eu não acho que é uma competição, eu acho que é uma soma de olhares. Agora, é muita informação. Cara, é muita gente fazendo aquilo que você... Pelo menos as pessoas estão na Paulista nessa manifestação, não estão em outra. Eu acho que isso mudou um pouquinho, talvez, no museu, eu não sei. Eu não sei. Como eu te falei, o último projeto que eu fiz… Aliás, muito legal, fiz projeto da zona cerealista, que é um lugar que eu sempre frequentei como comprante, como compradora, e dessa vez… Nossa, é um trabalho daqueles caras. E eles querem tirar a zona cerealista dali, eles querem levar lá pro... Sei lá. Talvez ali mais que dê pra chegar o Rodoanel, alguma coisa assim.
02:07:32
P1 - E tem alguma história que você queria contar e que não apareceu durante a entrevista da sua vida?
R - Você tem mais alguma coisa que você queira perguntar? Que você sentiu falta? Não?
02:07:51
P1 - É só que, de repente, tem uma história que você fala, ah, nossa, isso daqui é muito legal, queria deixar registrado.
R - Não, acho que falei tudo. Acho que sim.
02:08:03
P1 - E como foi contar a sua história? Você tantas vezes ficou do lado de cá.
R - É, não, é estranho. É estranho, porque é legal, aquela coisa, todo mundo tem uma história para contar. Mas eu falo bastante, as coisas vão fluindo ali, você vai pensando. Eu acho toda história legal, toda história de vida, você vai botar outra pessoa aqui, você vai ter outra experiência, outra visão, não é uma pessoa que nasceu em Minas, que veio para São Paulo, é uma pessoa que nasceu em Pernambuco e veio para São Paulo, ou que foi para outro canto, que se formou em arquitetura e hoje trabalha no Museu da Pessoa. Sei lá, são várias experiências. Eu acho que vale a pena. Eu não sei se é a minha história… É legal. Legal. São 64 anos, sendo que desde os 18 eu fotografo. Então está valendo. E até agora, não perder o eixo.
02:09:17
P1 - Eu queria agradecer, Márcia, para você ter vindo aqui e compartilhado sua história.
R - Eu que super agradeço de estar aqui, como eu agradeci de estar sentada aqui. Não estou me sentindo numa forca, estou me sentindo aqui em uma cadeira bem confortável. E espero que essa história as pessoas curtam ou não, sei lá, seja mais uma história. Tamo aí, tamo junto.
P1 - Obrigada.
R - Falou.
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