Meu nome é Márcio Ricardo Marinho e aqui o nome de guerra é Ricardo Marinho. Local de nascimento é Morretes e a data de nascimento é 22 de junho de 1967.
Eu prestei concurso para a Petrobras em maio de 1986, fui chamado dois anos depois e estou trabalhando aqui desde 21 de dezembro de 1988. E era um sonho antigo.
Eu sempre trabalhei na área de mecânica, tenho curso de mecânica e, como eu disse, prestei para mecânico aqui, mas acabei sendo chamado para trabalhar na área de caldeiraria, exercendo a função de Caldeireiro. Depois, prestei concurso interno para contramestre de caldeiraria, que hoje seria o caldeireiro especializado. A minha função hoje é de fiscalização de contratos das empresas que prestam manutenção para a Repar. Hoje é um pouco diferente do que eu vim trabalhar. Antigamente a gente era executante, hoje nós fazemos fiscalização, ajudamos na supervisão da parte de manutenção, a parte operacional do setor de caldeiraria, o Emied, e a tendência é cada vez ir abrangendo mais coisas.
Hoje um funcionário Repar/Petrobras tem a multifuncionalidade, ele não fica mais, pelo menos no meu setor, só naquela função específica que ele prestou o concurso para fazer. Hoje ele tem que chutar com os dois pés, cabecear, correr, se virar.
É muito diferente de quando entrei. Na época em que eu entrei, você pegava uma caixinha de ferramenta, ia para a área, resolvia o problema que tinha ali e ia embora. Não que não houvesse responsabilidade, havia e muito. Hoje essas atribuições aumentaram, você deixou aquela caixa de ferramentas e agarrou outras. Hoje o nosso sistema de trabalho é bem diferente, a pessoa tem que estar bem consciente do que está fazendo, tem que ter uma visão abrangente que consiga ver tudo o que acontece na periferia do setor de manutenção, não só da área dele. No caso da caldeiraria, que é o meu setor, ela interage com toda refinaria, então tem que estar atualizado.
Um evento recente foi o nosso...
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Meu nome é Márcio Ricardo Marinho e aqui o nome de guerra é Ricardo Marinho. Local de nascimento é Morretes e a data de nascimento é 22 de junho de 1967.
Eu prestei concurso para a Petrobras em maio de 1986, fui chamado dois anos depois e estou trabalhando aqui desde 21 de dezembro de 1988. E era um sonho antigo.
Eu sempre trabalhei na área de mecânica, tenho curso de mecânica e, como eu disse, prestei para mecânico aqui, mas acabei sendo chamado para trabalhar na área de caldeiraria, exercendo a função de Caldeireiro. Depois, prestei concurso interno para contramestre de caldeiraria, que hoje seria o caldeireiro especializado. A minha função hoje é de fiscalização de contratos das empresas que prestam manutenção para a Repar. Hoje é um pouco diferente do que eu vim trabalhar. Antigamente a gente era executante, hoje nós fazemos fiscalização, ajudamos na supervisão da parte de manutenção, a parte operacional do setor de caldeiraria, o Emied, e a tendência é cada vez ir abrangendo mais coisas.
Hoje um funcionário Repar/Petrobras tem a multifuncionalidade, ele não fica mais, pelo menos no meu setor, só naquela função específica que ele prestou o concurso para fazer. Hoje ele tem que chutar com os dois pés, cabecear, correr, se virar.
É muito diferente de quando entrei. Na época em que eu entrei, você pegava uma caixinha de ferramenta, ia para a área, resolvia o problema que tinha ali e ia embora. Não que não houvesse responsabilidade, havia e muito. Hoje essas atribuições aumentaram, você deixou aquela caixa de ferramentas e agarrou outras. Hoje o nosso sistema de trabalho é bem diferente, a pessoa tem que estar bem consciente do que está fazendo, tem que ter uma visão abrangente que consiga ver tudo o que acontece na periferia do setor de manutenção, não só da área dele. No caso da caldeiraria, que é o meu setor, ela interage com toda refinaria, então tem que estar atualizado.
Um evento recente foi o nosso vazamento de óleo no rio Barigüi. Eu cheguei numa segunda-feira de manhã cedo, era dia 17 de julho de 2000. A gente chegou e notou que alguma coisa de diferente tinha acontecido, o setor de caldeiraria é o setor que, em quase 90% das vezes, quando acontece alguma coisa assim ele está lá na frente. Os primeiros 15 dias foram como um acidente de carro, que é aquela coisa do primeiro socorro que você presta, que eu acho que é o mais importante, o mais relevante. O nosso setor rapidamente se subdividiu. Nós paralisamos todas as atividades do setor de manutenção na parte de caldeiraria e nos dividimos nos diversos pontos que foram colocados no rio, nas barreiras de contenção. Eu lembro que fui embora eram 2 ou 3 h da manhã do dia seguinte, e 7 e pouco da manhã a gente estava de volta e a gente tocou nesse ritmo.
Foram assim os primeiros 10 ou 12 dias. A gente só entrando às 7 e 45 e não tendo mais horário para sair. Eu e os colegas mais próximos atacamos aí no ponto dois e posteriormente estive no ponto cinco, que foi onde realmente a gente conteve todo o óleo. Foram cerca de um milhão e trezentos mil litros que atingiram o rio, que foi para frente do Guajuvira, numa localidade chamada General Olindo, onde a gente conseguiu conter e onde ficou o foco da coisa. Então era comum estarmos todos pretos de óleo, sujo mesmo. Aquela coisa que você vê em televisão nesses acidentes que normalmente acontecem com navio no outro lado do mundo. Era comum entrarmos colocando barreira. Quando a gente começou no primeiro dia, o pessoal que chegou e foi rápido, a gente entrar no rio colocando barreira, ninguém mediu esforços. Eu mesmo vi colegas aí que não mediram esforços, às vezes até quanto à própria segurança.
Mas foi uma coisa de naquele momento conter o vazamento. E a própria comunidade. As pessoas que estiveram com a gente, no primeiro momento fazendo isso daí, a gente via e não tinha idéia ainda do que era o vazamento. Mas sabia que era alguma coisa grande, algo que aconteceu e poderia prejudicar muita gente, não só o meio ambiente, mas a própria população que estava vivendo ali. Eu achei a consciência, principalmente dos colegas do setor, uma coisa extraordinária. Ninguém mediu esforços, ninguém. Do pessoal, um já se colocou na parte de contratação, outro na parte de distribuição, outro na parte de logística. Nós ficamos espalhados em diversas áreas. Ninguém se importou se iria estar dirigindo um caminhão ou se ia estar carregando um big bag. Eu mesmo tentei fazer uma barreira com sacos de big bag de areia no ponto dois, que até um certo momento conseguiu conter as coisas, conter o óleo, mas ele sempre ia passando prá frente. A gente estava numa corrida contra o tempo. Eu acho que em síntese essa foi uma batalha.
E o pessoal da comunidade participou. A gente via que não tinha só empregados da Petrobras, mas tinha pessoas que moravam ali, os ribeirinhos que moravam próximos. Alguns naquela coisa, como acontece sempre, contrariados, irritados por acontecer um vazamento daquele tipo. Mas outros não, outros já resignados, com as mangas arregaçadas e pegando junto, não importando: "Olha, eu não sou empregado da empresa mas é o meu rio, é o meu habitat, se eu não fizer alguma coisa eu não sei!" E a pessoa se colocou e ajudou. Acho que foi superlegal essa posição. A gente via também que teve muita gente que estava ali só no ôba-ôba, ou para pegar o lanche, aquela coisa. Mas muita gente séria, muita gente preocupada.
A imprensa estava em todos os lugares, às vezes até antes da gente e querendo que as coisas acontecessem muito rápido: "Vocês têm que conter, vocês vazaram, você sujaram" Algumas coisas ficaram até encobertas, por exemplo, eu pude ter uma visão do rio com que eu convivo há quase 15 anos e que eu não sabia que era daquela maneira. Mas eu cheguei em partes do rio, lá no ponto cinco, que você anda e se a gente for lá hoje você anda 100, 150 metros do leito do rio pela margem, numa curva, só em cima dessas garrafas PET colocadas ali. Você encontra uma série de coisas, encontra pedaços de carro, encontra sofás velhos, coisas que a própria população jogava. Isso aconteceu, foi ruim, mas por outro lado deu para conscientizar todo mundo. Até a própria população pelo mutirão que foi feito e as pessoas que estiveram ali trabalhando, que estiveram olhando, puderam realmente ver como o rio Barigüi estava castigado, pelo menos nessa época. Na realidade ele estava sendo um latão de lixo.
Têm vários casos diversos desse período e um de um senhor que mora no ponto cinco, para frente do Guajuvira. Um senhor já de bastante idade, criador de vacas e de outros bichinhos ali, que disse que a Petrobras sujou o rio, mas estava correndo atrás de fazer uma limpeza, estava sendo imediata, por outro lado ele via ali não só esses lixos, mas ele via espuma, produtos químicos mesmo sendo despejados no rio e ninguém mostrando, assim, um interesse, mostrando uma vontade de limpar. A gente viu também, eu achei também coisas que deixavam você revoltado, alguns aproveitadores querendo aparecer naquele momento. "Temos que fazer isso. Temos que fazer aquilo!" Mas você sabe que era uma coisa só de momento.
E mudou muito a minha vida depois que eu entrei na Petrobras e depois desse acidente, a minha consciência. Porque eu entrei aqui muito novo também, trabalhava em uma outra empresa já uns seis anos. Trabalhei em umas seis empresas até que eu vim para cá. Mas a consciência desse pessoal, que é um povo, assim, um pessoal mais esclarecido de uma série de fatores. Em algumas coisas a gente sabe que são um pouco bitolados, mas nessa parte de meio ambiente, se todo mundo fizesse 50% do que a Repar faz, nós teríamos um mundo bem melhor, um país melhor, uma conscientização melhor das pessoas, pelo menos nessa parte ambiental. Que não é só o caso do rio Barigüi, mas a gente teve afluentes dele, teve outros rios, e você vê que as pessoas não estão muito preocupadas com essa parte de higiene. Às vezes nem com a higiene pessoal, quanto mais com a higiene ambiental. Para mim, eu acho que ajudou bastante nisso também, de tomar esse conhecimento, tomar essa consciência. Claro que também erro, também falho, às vezes a gente ainda continua fazendo alguma coisa que não é da maneira correta, mas agora, se faz, pelo menos está consciente.
O cuidado com a segurança no trabalho é uma questão do dia-a-dia aqui, que é todo voltado para essa parte. Esta preocupação é uma constante no nosso dia-a-dia, é uma coisa corriqueira. Seja uma simples tarefa de manutenção ou qualquer coisa que a gente vai fazer aí, fazemos análises preliminares. Não fazemos nada sem fazer essas análises. Então, tudo é colocado aonde vai o resíduo, o que vai ser gerado daquele trabalho que vai ser feito, o que vamos fazer com aquilo ali, de que maneira será feito. Então, essa consciência existe com todas as pessoas envolvidas no trabalho.
Eu achei que se a gente vem trazer alguma coisa neste projeto de memória dos trabalhadores da Petrobras é porque você acha que viveu alguma coisa interessante e que de alguma maneira pode estar contribuindo lá na frente para que outros vejam, para que outros também se conscientizem, tenham essa idéia do que cada um pode fazer para termos um mundo melhor, alguma coisa um pouco diferente, com mais paz, com mais amor, com mais tranqüilidade, com mais Deus, com menos violência, com mais amor pelas pessoas. Vontade de que outros que ainda estão aí vindo, pessoas que nem nasceram ainda, mas que eles tenham um mundo melhor. Que a gente consiga fazer mais, que a gente tenha menos fronteiras, como dizia o John Lennon: Mais vida, mais alegrias, mais tranqüilidade, menos armas. Então, eu acho que com esse depoimento, com essa experiência, com essas coisinhas que a gente viu a gente consiga contribuir um pouco.
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