Eu me chamo Júlio Lins de Albuquerque Filho, nasci no Rio de Janeiro no dia 28 de janeiro de 1959.
Eu trabalhava numa empresa contratada, a MacLaren. No ano de 1986, foi aberto um concurso. Eu estava aqui desde 1985, já em Macaé. Fiz esse concurso, passei e trabalho até hoje na Petrobras. Entrei no dia sete de julho de 1987.
Eu entrei na Petrobras para exercer a função de Programador de Serviço de Caldeiraria no flotel Songa Star, que foi transformado em plataforma, a SS-29. Estava prestando serviço em Namorado, na plataforma de PNA-1, depois essa plataforma foi deslocada para Cherne-1. Passei também um período na DIMAN / SEPLE que era meu setor de origem. A DIMAN/SEPLE – Divisão de Manutenção /Serviços Complementares – envolve caldeiraria, montagem de andaimes, pintura, limpeza industrial etc. Eu passei um tempo ali e logo depois eu fui transferido para o SEPROM [setor responsável pelo planejamento e programação da manutenção nas plataformas da Bacia de Campos, no final dos anos 80 e início dos anos 90], que fazia o planejamento de parada de produção das plataformas semi-submersíveis, as plataformas SS. Porque as plataformas fixas eram de competência de um outro setor que trabalhava com o flotel. O Songa Star já tinha saído, mas continuava o flotel Safe Jasminia. Eu fiquei nesse setor, no SEPROM, durante alguns anos, fazendo paradas de produção em diversas Plataformas SS, principalmente na área sul. Logo depois foi criada a GECOM, que era Gerência de Construção e Montagem, que envolvia exatamente a parte de construção e montagem. Eu fiquei alguns anos ali fazendo uma acessoria ao gerente desse setor, que era o Paulo César Silva. Depois retornei para as atividades de parada de produção num grupo formado pela GECOM. E quando houve a mudança das gerências, houve uma reavaliação das gerências da Petrobras, foram criados núcleos independentes para cada ativo, eu fui designado para o Ativo Nordeste onde estou...
Continuar leituraEu me chamo Júlio Lins de Albuquerque Filho, nasci no Rio de Janeiro no dia 28 de janeiro de 1959.
Eu trabalhava numa empresa contratada, a MacLaren. No ano de 1986, foi aberto um concurso. Eu estava aqui desde 1985, já em Macaé. Fiz esse concurso, passei e trabalho até hoje na Petrobras. Entrei no dia sete de julho de 1987.
Eu entrei na Petrobras para exercer a função de Programador de Serviço de Caldeiraria no flotel Songa Star, que foi transformado em plataforma, a SS-29. Estava prestando serviço em Namorado, na plataforma de PNA-1, depois essa plataforma foi deslocada para Cherne-1. Passei também um período na DIMAN / SEPLE que era meu setor de origem. A DIMAN/SEPLE – Divisão de Manutenção /Serviços Complementares – envolve caldeiraria, montagem de andaimes, pintura, limpeza industrial etc. Eu passei um tempo ali e logo depois eu fui transferido para o SEPROM [setor responsável pelo planejamento e programação da manutenção nas plataformas da Bacia de Campos, no final dos anos 80 e início dos anos 90], que fazia o planejamento de parada de produção das plataformas semi-submersíveis, as plataformas SS. Porque as plataformas fixas eram de competência de um outro setor que trabalhava com o flotel. O Songa Star já tinha saído, mas continuava o flotel Safe Jasminia. Eu fiquei nesse setor, no SEPROM, durante alguns anos, fazendo paradas de produção em diversas Plataformas SS, principalmente na área sul. Logo depois foi criada a GECOM, que era Gerência de Construção e Montagem, que envolvia exatamente a parte de construção e montagem. Eu fiquei alguns anos ali fazendo uma acessoria ao gerente desse setor, que era o Paulo César Silva. Depois retornei para as atividades de parada de produção num grupo formado pela GECOM. E quando houve a mudança das gerências, houve uma reavaliação das gerências da Petrobras, foram criados núcleos independentes para cada ativo, eu fui designado para o Ativo Nordeste onde estou até agora.
Eu exerço a função de Coordenador de Paradas do Polo Nordeste. Atualmente, eu estou ficando mais em Garoupa, mas tenho atividades tanto na Sede quanto nos canteiros das empresas contratadas, fazendo contato com essas empresas, tentando novas tecnologias e passando algum tempo embarcado também. Eu coordeno um grupo de elementos da contratada, da empresa prestadora de serviços Techint. Agora, no caso aqui, estou reunindo recursos para planejar as paradas de produção. Nós pegamos uma carteira de serviços emitida pela Empresa, pela plataforma, para avaliar os serviço que ela precisa, que só podem ser executados com a planta parada, sem estar produzindo. E nós fazemos um planejamento em cima dessa carteira. Então juntamos todos os elementos, recursos materiais, pessoal, para poder executar esse trabalho. É marcado um prazo pela gerência, uma data e um prazo. Nós temos que nos adequar e executar o serviço.
Sou sindicalizado, mas nunca exerci nenhum cargo não. Acho muito importante que haja essa parceria do Sindicato com a Empresa, até mesmo para mudar o enfoque que nós temos hoje do Sindicato como inimigo da Empresa e da Empresa como inimiga do Sindicato. Pelo menos, a meu ver, isso já vem de muitos anos. Está na raiz da formação, da história dos sindicatos no mundo, onde sempre houve essa briga. Se, no momento, como nós estamos vivendo agora, nós temos um Presidente que já foi sindicalista e há essa abertura, nós temos que aproveitar. Esses momentos são importantes pra que nós façamos realmente essa parceria e não uma guerra de interesses.
A Petrobras não foi o meu primeiro emprego. Eu já havia trabalhado em outras empresas, até mesmo em plataformas. Trabalhei quase dois anos em plataformas através dessa outra empresa. Mas a Petrobras, para mim, foi um excelente aprendizado, aprendi muita coisa, e tenho uma relação de amizades enorme no nosso grupo: o grupo Petrobras e o grupo de petroleiros. Porque petroleiros não são só aqueles da Empresa não, são todos que trabalham junto com a gente. Nós temos uma relação de cumplicidade, uma relação de companheirismo muito grande, em plataforma principalmente. Por exemplo, fiz um embarque uma vez na Plataforma de P-21, e eu não subi com o grupo, fui sozinho. Nesse primeiro embarque sozinho, era para fazer uma avaliação dos serviços, eu entrei em depressão, porque a plataforma era pequena e trabalhavam poucas pessoas. Você não tinha muito contato humano, porque as pessoas jantavam, almoçavam, iam para o camarote ou iam dormir. Ninguém se reunia num cinema, não havia ninguém na sala de jogos. Eu durmo pouquíssimo, o pessoal até brinca dizendo que o Júlio não dorme. Em uma parada de Pargo, eu passei exatamente três dias sem dormir. Três dias sem tirar o macacão, sem entrar no camarote. Três dias. Normalmente, eu vou dormir duas, três, quatro horas da manhã. E, no outro dia, no máximo às oito horas, eu já estou em pé de novo. Enquanto tem planejamento, eu não tenho uma escala, não sigo uma escala. Eu mesmo faço o meu horário, é sempre assim. Então, vira até uma curiosidade, uma brincadeira, porque o pessoal diz que o Júlio não dorme. Eles vão dormir às 10, 11 horas, e eu estou ali. Quando eles chegam lá oito horas da manhã, já me veem de novo na área. “Você não dorme não, cara?”. Eu ouvi muito isso, ouvi bastante. Então, em Pargo, nessa plataforma P-21, eu tive isso. Eu entrei em depressão. Uma outra vez em que eu fui escalado para cobrir as férias de um companheiro na Plataforma de Carapeba-1, eu nunca tinha vindo pro Polo Nordeste, e não tinha nenhum referencial. Isso para mim é importantíssimo. Eu preciso muito desse contato humano, preciso muito me sentir bem, ter amigos perto de mim. E quando eu fui escalado pra embarcar, fiquei preocupado porque não conhecia ninguém na área. Não tinha nenhum ponto referencial. E, antes de embarcar, eu já estava entrando em depressão. Quando o helicóptero estava se aproximando da plataforma, eu olhei para o heliponto e vi um comissário da empresa Palheta, se não me engano, que tinha sido companheiro no flotel e, naquele momento, eu já relaxei. Eu preciso muito do contato humano, preciso muito de um referencial. Porque eu falo muito e sei ouvir também, então preciso ter essa relação. E a Petrobras me ensinou muito isso. Quando eu trabalhava em outras empresas, você cumpria o seu horário das sete horas da manhã até as cinco da tarde. Final de semana você não tem contato. Mas em plataforma você não tem isso, aqui é a nossa segunda casa, não tem jeito. Às vezes, a gente passa muito mais tempo numa plataforma do que em casa. E essa cumplicidade é importante.
Tem um momento que é crucial para quem trabalha embarcado: à tardinha, quando o sol está se pondo. Eu, particularmente, gosto muito de assistir ao pôr-do-sol da plataforma, é uma coisa linda. Eu paro várias vezes. Quando lembro, vejo a hora, eu corro para ver o pôr-do-sol, porque é lindo. Mas é nesse momento que costuma bater uma depressão. Eu acho que isso acontece com muita gente aqui dentro, porque é aquele momento que você está acostumado a sair do trabalho e ir pra casa e ver a família. E, nesse momento, começam a sumir as pessoas. Por mais que fique alguém, elas começam a desaparecer e você se sente sozinho. Então, é um momento importante. Um momento importante não. É um momento que causa essa depressão na gente. Isso é normal, mesmo tendo os amigos, mesmo tendo todo esse companheirismo daqui de Garoupa.
Eu estou embarcando em Garoupa desde 2002, fazendo parada de produção. Ia fazer uma parada em 2003, mas não ocorreu. Em 2004, fizemos o planejamento para executar agora em 2005. Então, aqui, nós fizemos amizades com o pessoal de todos os níveis. E isso também é muito importante em plataforma. Porque numa empresa você dificilmente vê o seu chefe. Você dificilmente dá atenção àquela pessoa que te serve o café, dificilmente você conversa com o garçom, dificilmente você conversa com o cozinheiro ou com o homem de área. E aqui não. Aqui você tem que conviver. Você conviver é assim, é inerente. Não tem para onde você ir. Você sempre esbarra com alguém e você conversa. Na plataforma, as conversas, as pessoas, os relacionamentos, tem que ser de igual para igual. Aqui não tem chefe, não tem subalterno. Existe muita uma responsabilidade, mas eu não vejo muita hierarquia em plataforma. No início havia. Quando eu comecei a embarcar, em 1984, 1985, havia essa disparidade, essa hierarquia, essa escala de poder. Havia pessoas de cargos mais elevados que eram truculentas, mas eram pessoas que não tinham respeito pelo ser humano. Isso mudou muito, mas muito, muito mesmo. Hoje as pessoas são parceiras. A palavra seria essa: parceiros. Porque a gente sabe que se houver um acidente e alguém cair no mar, quando te estenderem a mão para te resgatar, você não vai poder perguntar: “Você é chefe ou é peão? Você é da Petrobras ou é de contratada?” Não. O cara que está do teu lado, que está ali durante o seu trabalho, se você se sentir mal é o cara que vai te dar o apoio. Se você passar mal à noite lá no seu camarote, são os seus companheiros que trabalharam o dia inteiro com você que vão perceber, que vão te dar um primeiro socorro. Isso já aconteceu. Eu estava na Plataforma de P-9 e um companheiro nosso começou a passar mal, passar mal, passar mal. Parecia que ele estava tendo alguma coisa como uma apendicite. Aí eu saí pra chamar um enfermeiro e um outro companheiro ficou dando uma atenção a ele. Nós voltamos, aí foi feito todo um trabalho. O enfermeiro levou e tal, e ficamos acompanhando, ajudando o enfermeiro lá com ele, e no final das contas não era apendicite. Ele estava com uma crise renal. Então é essa relação que eu preciso. Acho que essa falta é o que me causa essa depressão, quando eu me sinto sozinho, mas que aqui em Garoupa não acontece. Ou seja, quando estou envolvido com o pessoal não acontece. Em plataforma não tem um cara de macacão e outro de terno, aqui é todo mundo de macacão. Eu até vi umas fotografias da gravação dessa novela – eu não assisto novela – mas vi as fotografias. Aí tinha um ator descendo uma plataforma de terno e gravata. Eu achei aquilo ridículo. Eu falei: “Gente, não é a realidade” E havia dois seguranças ao lado dele, descendo as escadas numa plataforma, e ele de terno. Acho que era o Marcos Paulo, se não me engano, o cara que descia na plataforma de terno. Isso não existe, não é a nossa realidade. Não é a nossa realidade.
Eu gostaria de lembrar alguma história. Estava até enrolando um pouquinho para ver se eu conseguia lembrar de algum fato que pudesse enriquecer essa entrevista de vocês, mas infelizmente vocês nos pegaram de surpresa. Fui praticamente recolhido na área, o Geplat (Gerente de Plataforma) me chamou: “Vamos lá para dar uma entrevista”. E eu vim para cá e não tive tempo nem de pensar, não sei. Realmente eu não sabia qual era o foco dessa conversa, fui surpreendido. Olha, dificilmente eu sou voluntário para algum tipo de coisa que foge um pouco do trabalho. Eu me envolvo demais com o meu trabalho, por isso fico até muito mais tarde trabalhando. Eu me envolvo muito, mas acho que é importante. Existe uma coisa que é importante. Tem uma fotografia aqui de Garoupa que já vi em vários documentos. Em vários folders da Petrobras, aparece essa fotografia, ela foi tirada aqui no heliponto. Tem mais ou menos umas oito pessoas que vêm caminhando no heliponto, alguém fotografou para fazer uma ilustração de um trabalho desses. E algumas daquelas pessoas ainda estão trabalhando aqui em Garoupa, um deles é o meu concunhado. Acho interessante você ter essa relação, você não ser simplesmente um número, como éramos na época da truculência. Eu era apenas um número, o outro lá era apenas um número. Hoje nós somos reconhecidos como pessoas. Hoje existe o Júlio Lins, não existe a matrícula do Júlio Lins. Existe a parte de RH, de Recursos Humanos, que é aquela coisa funcional, mas no trabalho em si, nós quando somos chamados para esse tipo de trabalho, nós nos sentimos parte da Empresa e não mais um número.
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