A infância nem sempre é sinônimo de cuidado.
Para alguns, ela chega como um lugar de abrigo. Para outros, como no meu caso, ela foi um campo onde aprendi cedo demais sobre dor, silêncio e sobrevivência.
Crescer não foi leve.
Não havia segurança, nem palavras de proteção. Havia ausência — mesmo quando alguém estava presente.
Aprendi a observar tudo em silêncio.
Aprendi a sentir antes de entender.
E, principalmente, aprendi a me virar sozinha dentro de um mundo que, para uma criança, deveria ser acolhedor… mas não era.
Entre negligência e abandono, fui moldando uma versão de mim que precisava ser forte sem nem saber o que era força.
Houve momentos que marcaram mais do que deveriam. Situações que nenhuma criança deveria viver.
Mas naquela época, eu não tinha nome para aquilo — só tinha a sensação de que algo estava profundamente errado.
E mesmo assim… eu continuei.
Porque, de algum jeito, mesmo em meio ao caos, algo dentro de mim nunca desistiu.
Capítulo 1 — Onde tudo começou
A infância nem sempre é sinônimo de cuidado.
Para alguns, ela chega como um lugar de abrigo. Para outros, como no meu caso, ela foi um campo onde aprendi cedo demais sobre dor, silêncio e sobrevivência.
Crescer não foi leve.
Não havia segurança, nem palavras de proteção. Havia ausência — mesmo quando alguém estava presente.
Aprendi a observar tudo em silêncio.
Aprendi a sentir antes de entender.
E, principalmente, aprendi a me virar sozinha dentro de um mundo que, para uma criança, deveria ser acolhedor… mas não era.
Entre negligência e abandono, fui moldando uma versão de mim que precisava ser forte sem nem saber o que era força.
Houve momentos que marcaram mais do que deveriam. Situações que nenhuma criança deveria viver.
Mas naquela época, eu não tinha nome para aquilo — só tinha a sensação de que algo estava profundamente errado.
E mesmo assim… eu continuei.
Porque, de algum jeito, mesmo em...
Continuar leituraA infância nem sempre é sinônimo de cuidado.
Para alguns, ela chega como um lugar de abrigo. Para outros, como no meu caso, ela foi um campo onde aprendi cedo demais sobre dor, silêncio e sobrevivência.
Crescer não foi leve.
Não havia segurança, nem palavras de proteção. Havia ausência — mesmo quando alguém estava presente.
Aprendi a observar tudo em silêncio.
Aprendi a sentir antes de entender.
E, principalmente, aprendi a me virar sozinha dentro de um mundo que, para uma criança, deveria ser acolhedor… mas não era.
Entre negligência e abandono, fui moldando uma versão de mim que precisava ser forte sem nem saber o que era força.
Houve momentos que marcaram mais do que deveriam. Situações que nenhuma criança deveria viver.
Mas naquela época, eu não tinha nome para aquilo — só tinha a sensação de que algo estava profundamente errado.
E mesmo assim… eu continuei.
Porque, de algum jeito, mesmo em meio ao caos, algo dentro de mim nunca desistiu.
Capítulo 1 — Onde tudo começou
A infância nem sempre é sinônimo de cuidado.
Para alguns, ela chega como um lugar de abrigo. Para outros, como no meu caso, ela foi um campo onde aprendi cedo demais sobre dor, silêncio e sobrevivência.
Crescer não foi leve.
Não havia segurança, nem palavras de proteção. Havia ausência — mesmo quando alguém estava presente.
Aprendi a observar tudo em silêncio.
Aprendi a sentir antes de entender.
E, principalmente, aprendi a me virar sozinha dentro de um mundo que, para uma criança, deveria ser acolhedor… mas não era.
Entre negligência e abandono, fui moldando uma versão de mim que precisava ser forte sem nem saber o que era força.
Houve momentos que marcaram mais do que deveriam. Situações que nenhuma criança deveria viver.
Mas naquela época, eu não tinha nome para aquilo — só tinha a sensação de que algo estava profundamente errado.
E mesmo assim… eu continuei.
Porque, de algum jeito, mesmo em meio ao caos, algo dentro de mim nunca desistiu.
Capítulo 1 — Onde tudo começou (continuação)
Antes mesmo de eu nascer, a minha história já vinha sendo escrita.
Minha mãe carregava dentro dela as marcas de um lar desestruturado. Cresceu em meio a conflitos, com padrasto, irmãos e uma vida que nunca foi estável. Era uma mulher bonita, daquelas que chamavam atenção, mas por dentro trazia dores que ninguém via.
Meu pai também vinha de uma história difícil, mas diferente. Uma família grande — dezessete irmãos — onde cada um precisava aprender a sobreviver do seu jeito. Ele era um dos mais novos. Nasceu prematuro, de sete meses, e por isso precisou de cuidados especiais. Minha avó era muito apegada a ele, talvez por medo de perdê-lo, talvez por amor que tentava proteger o que era mais frágil.
As histórias dos meus avós também não eram leves.
Do lado paterno, havia raízes italianas misturadas com o “bugre”, com relatos duros, vida simples e marcada por luta.
Do lado materno, eu sempre mantive distância. Nunca senti vontade de me aproximar. Sabia apenas que vinham de uma família humilde, com muitas dificuldades. Minha avó se separou do meu avô por causa do álcool e da violência — mais um ciclo de dor que se repetia.
Meus pais se conheceram muito cedo.
Minha mãe tinha apenas 13 anos. Meu pai, 17.
Ela fugiu de casa para ficar com ele.
Era uma decisão impulsiva, carregada de emoção e imaturidade. Meus avós não aceitaram. Diziam que ela era nova demais, que aquilo traria problemas. Mas meu pai não quis ouvir.
E assim, começaram uma história juntos… sem base, sem preparo, sem estrutura.
Aos 17 anos, minha mãe me teve.
Eu era a primeira filha.
E, de certa forma, também fui o começo de uma nova fase — não necessariamente mais fácil, mas mais real.
Foi nesse ambiente que eu comecei a crescer.
E, muito cedo, comecei a perceber que havia algo errado.
Antes mesmo de entender o mundo, eu já sentia.
Sentia o peso das coisas não ditas.
Sentia a tensão no ar.
Sentia que aquele não era um lugar leve para uma criança.
E foi assim que a minha consciência começou a despertar… cedo demais.
Capítulo 2 — Entre a simplicidade e o silêncio
Na minha infância, os conflitos já existiam.
Nem sempre eu entendia os motivos.
Na verdade, muitas coisas aconteciam ao meu redor sem explicação. Era como viver no meio de histórias que já estavam em andamento antes mesmo de eu chegar.
Do lado da família paterna, existiam muitas crenças.
Alguns seguiam a religião católica. Outros falavam de coisas diferentes… de trabalhos, de forças que eu não compreendia. Ouvi dizer, ainda pequena, que havia quem dissesse que sua alma pertencia ao “capiroto”.
Eu não entendia completamente, mas sentia.
E, de alguma forma, essas pessoas fariam parte da minha vida.
Com apenas um ano de diferença, nasceu meu irmão.
E muitas das minhas lembranças de infância também giram em torno dele. Não era só sobre mim — era sobre nós dois crescendo naquele ambiente.
Lembro da chácara onde morávamos.
Era uma vida simples, mas, dentro do possível, não faltava o essencial. Meu pai trabalhava com plantio, prestando serviço agrícola. A terra dava o que a gente precisava. Plantava, colhia… e assim a vida seguia.
A água vinha da fonte.
Os banhos eram no rio.
As roupas eram lavadas ali também.
Criavamos animais para consumo. Era um ciclo natural, parte da rotina. Nada vinha fácil, mas tudo tinha um jeito de acontecer.
Minha mãe ficava mais em casa, mas também ajudava no plantio. Cuidava de tudo — da comida, da casa, de nós. Levava marmita para o meu pai na roça, organizava o dia, mantinha tudo funcionando.
Eu lembro dela cozinhando.
Fazia cuca caseira, bolachas… era uma ótima cozinheira. Pelo que sei, aprendeu com minha avó paterna. Eram momentos simples, mas que ficaram guardados em mim.
Nessa época, eu não me lembro de ver meus pais brigando.
A casa era simples, mas sempre limpa e organizada.
Nos dias de chuva, minha mãe costurava cobertas com roupas velhas para mim e para o meu irmão. Fazia colchões com palha de milho. Era tudo feito com o que tinha — e, ainda assim, havia cuidado.
Eu ajudava como podia.
Ficava responsável por lustrar o assoalho, que era passado com cera toda sexta-feira.
Às vezes, meus avós paternos vinham almoçar.
Era um dia diferente.
Era alegria.
Meu pai também era conhecido na comunidade. Fazia açúcar amarelo, carnear porco para preparar carne, linguiça, banha. Era chamado para fazer churrasco em festas e casamentos.
Minha mãe o acompanhava.
E, olhando assim, de fora… parecia uma vida simples, até bonita.
Mas, mesmo em meio a esses momentos, havia coisas que não eram ditas.
Sentimentos que não eram explicados.
E, dentro de mim, algo continuava atento… como se soubesse que aquela calma não era tudo.
Capítulo 3 — Quando a infância se rompe
As mudanças não vieram de uma vez.
Elas chegaram devagar… quase silenciosas.
No começo, eram detalhes. Coisas pequenas que, para uma criança, ainda não tinham nome — mas já tinham peso.
Minha mãe começou a se afastar da rotina da casa.
Fez novas amizades, passou a sair mais, fazer viagens curtas. Em algumas dessas vezes, eu e meu irmão ficávamos na casa da minha avó paterna.
Foi aí que as primeiras discussões começaram.
Meu pai mudou.
Começou a beber.
E, aos poucos, deixou de levar minha mãe para os eventos onde antes iam juntos.
O ambiente dentro de casa já não era o mesmo.
Minha mãe também mudou comigo.
A paciência acabou.
O olhar mudou.
E o que antes era cuidado… virou dureza.
Essas mudanças ficavam ainda mais evidentes quando minha avó materna e as irmãs dela estavam por perto. Era como se algo dentro dela piorasse.
As agressões começaram.
Às vezes, no banho, ela batia com a escova nos meus dedos — e nos do meu irmão.
Em um episódio, me empurrou contra a quina da porta. Caí sobre a escada e não consegui levantar. Acabei com uma costela trincada.
Mas a dor física não era a única.
Ela começou a dizer que eu e meu irmão éramos um peso na vida dela.
E, naquele momento, qualquer vestígio de afeto parecia ter desaparecido.
As surras se tornaram frequentes.
As cobranças também.
Eu era só uma criança… mas já tinha responsabilidades de adulto.
Cuidava do meu irmão.
Depois, da minha irmã, que nasceu com apenas um ano de diferença dele.
Tinha que olhar as panelas no fogo, limpar a casa, manter tudo em ordem.
E, muitas vezes, apanhava por coisas que nem eram culpa minha.
Se meu irmão fazia algo errado, eu apanhava.
Às vezes, para evitar que ele fosse agredido, eu dizia que tinha sido eu.
Eu aprendi a proteger… mesmo sem proteção nenhuma.
Mudamos de chácara nessa época.
Comecei a ir para a escola. Era uma escola simples, de madeira, com turmas juntas — primeiro, segundo e terceiro ano na mesma sala.
Eu amava aquele lugar.
Mas, dentro de mim, algo já tinha mudado.
Fiquei mais quieta.
Mais fechada.
Passei a não falar muito com as pessoas.
Aos cinco anos, aconteceu algo que marcou um rompimento definitivo entre mim e minha mãe.
Ela disse ao meu pai que levaria minha irmã para consulta e vacina.
Eu fui junto.
Lembro que, naquele dia, ela já estava brava com minha avó materna.
Chegamos a uma farmácia, em uma cidade pequena.
Ela me pediu para ficar sentada do lado de fora e me deu algumas balas.
Entrei no meu mundo de criança… até as balas acabarem.
Quando levantei e fui até a porta, ela estava entreaberta.
Eu abri.
E vi algo que eu não entendia… mas que me assustou profundamente.
Assustada, pedi para que ele não machucasse minha mãe.
E saí correndo.
Na rua, encontrei meu tio, irmão mais novo do meu pai. Contei o que tinha visto. Ele me pegou e me levou para a casa da minha avó paterna, onde repeti tudo.
Depois desse dia, algo mudou de forma definitiva.
Minha mãe passou a gritar, sempre que podia, que eu tinha destruído a vida dela.
Eu era só uma criança… mas carreguei uma culpa que nunca foi minha.
Não me lembro exatamente do que aconteceu logo depois.
Sei que meus pais se separaram por um tempo. Depois voltaram.
Mas nada voltou a ser como antes.
Passei a ver minha mãe sair com mais frequência. Ir para a cidade vizinha, muitas vezes acompanhada de outros homens. Eram cenas que, mesmo sem entender totalmente, ficavam gravadas em mim.
Enquanto isso, meu pai passava noites trabalhando nas colheitas, no trator, na ceifa.
E, nesses momentos…
Eu ficava.
Sozinha.
Responsável pelos meus irmãos.
Responsável pela casa.
Responsável por tudo.
Menos por ser criança.
Capítulo 4 — Entre a ausência e o abrigo
Depois de muitas interferências dos meus avós paternos e dos meus tios, meus pais se separaram.
Foi um rompimento necessário… mas, para mim, foi mais uma quebra.
Eu fiquei com meus avós paternos.
Meu irmão e minha irmã ficaram com minha mãe.
Meu pai foi embora para trabalhar fora.
No dia em que se despediu de mim, disse que não ia demorar. Que logo estaria de volta.
Eu acreditei.
Todos os dias, no fim da tarde, eu sentava em uma pedra e esperava o ônibus chegar.
Ficava olhando, esperando ver ele descer.
Mas ele nunca vinha.
E eu chorava… por horas.
Quem me buscava era minha avó.
Ela me abraçava, me acolhia, me levava para dentro.
Ela foi meu conforto naquele tempo.
Com eles, eu tive algo que não conhecia direito:
um pedaço de infância.
Eu podia brincar com meus primos.
Colher frutas.
Brincar de casinha.
Por um tempo, a vida ficou mais leve.
Mas nem tudo dentro de mim estava em paz.
Havia momentos de silêncio…
momentos em que a saudade apertava.
Eu sentia falta dos meus irmãos.
E, mesmo sendo criança, eu já entendia uma coisa difícil de aceitar:
minha mãe não gostava de mim.
Eu não compreendia o porquê.
Não conseguia criar laços profundos com esse sentimento.
Era só uma dor que existia.
Mesmo assim, ainda havia espaço para pequenos afetos.
Eu brincava com meu avô.
Acompanhava minha avó para todos os lugares.
Sentava perto dela por horas, com um pedaço de carvão e folhas, rabiscando… escrevendo do meu jeito, mesmo sem saber exatamente o que fazia.
Era como se, de alguma forma, eu já estivesse tentando colocar para fora o que sentia.
Naquele ambiente, também existiam histórias difíceis.
Um dos meus tios tinha um passado marcado por coisas pesadas. Diziam que mexia com magia antes mesmo de eu nascer. Ele havia tirado a vida de outro tio, na frente dos próprios filhos. Um deles perdeu a fala depois daquele trauma.
Ele vivia sem rumo, aparecendo e desaparecendo.
Mesmo assim, lembro de tomar café com ele algumas manhãs.
Ele nunca me maltratou.
Diferente da esposa dele.
Ela era agressiva. Violenta. Chegava a usar um facão, aquecido no fogo.
Eu presenciei situações que, naquela idade, eu nem sabia como entender.
Lembro do meu avô ajudando no parto dela, enquanto eu observava da porta, sem compreender totalmente o que estava acontecendo.
Depois disso, meu avô fez meu tio se separar dela. Disse que, se era para haver agressão, que ela voltasse para a casa dos pais.
Mesmo em meio a tudo isso, eu seguia perto da minha avó.
Na escola, outra realidade me esperava.
Comecei a enfrentar rejeição fora de casa também.
Colegas me chamavam de “favelenta”, “pretinha”, “piolhenta”.
Meu avô era quem ia nas reuniões de pais.
Era ele que assistia às apresentações.
Os desenhos que eu fazia… eram para ele e para minha avó.
Mas nem tudo era aceitação.
Eu apanhava de crianças maiores.
Era constante.
Até que, um dia, algo mudou dentro de mim.
Eu reagi.
E, naquele momento, decidi que ninguém mais iria me bater.
Aprendi a me defender.
E nunca mais deixei.
Capítulo 5 — O que nunca deveria ter acontecido
Eu tinha sete anos quando minha mãe voltou.
Ela apareceu dizendo que eu iria morar com ela.
Eu não queria ir.
Pela primeira vez, havia algo muito claro dentro de mim:
aquilo não era seguro.
Mas eu não tive escolha.
Ela fez ameaças contra meus avós, e diante disso fui obrigada a ir.
Minha mãe já estava com outro homem.
Desde o primeiro momento, senti desconforto. Era um ambiente estranho, pesado, difícil de explicar para alguém da minha idade.
Naquela casa, comecei a presenciar comportamentos que eu não compreendia.
Coisas que não faziam parte do meu mundo de criança.
E, pouco tempo depois, entendi — não com palavras, mas com o corpo e com o medo — o motivo de ter sido levada para lá.
Aquele homem começou a ultrapassar limites.
No início, eram situações que me causavam confusão e repulsa.
Eu não sabia explicar, mas sabia que era errado.
Criei coragem e contei para minha mãe.
Ela não fez nada.
Agia como se fosse normal.
Naquele momento, algo dentro de mim se rompeu de forma definitiva.
A sensação de não ter proteção… de não ter para onde correr… tomou conta de mim.
Em um dia, ele insistiu para que eu fosse com ele buscar lenha.
Eu não queria ir.
Minha mãe me obrigou.
O que aconteceu ali foi algo que eu não compreendia completamente, mas que marcou profundamente meu corpo e minha mente.
Eu só sentia medo, nojo e desespero.
Chorava.
Chamava pelo meu pai.
Queria sair dali.
Quando voltei para a casa da minha avó, meu corpo reagiu.
Tive febre, crises, não conseguia me controlar. Passei a noite inteira chorando, enquanto minha avó tentava me cuidar — sem entender a dimensão do que havia acontecido.
Até aquele momento, eu rezava.
Ia à igreja.
Mas, depois disso, comecei a me perguntar:
se Deus estava vendo… por que não fazia nada?
E não foi apenas uma vez.
Outros episódios aconteceram.
Até que, em determinado momento, minha mãe me deixou novamente na casa dos meus avós paternos.
E sumiu.
Mas eu já não era mais a mesma.
Passei a ter pesadelos constantes.
Ficava doente com frequência.
Me fechei emocionalmente.
Chorava sozinha.
Evitei qualquer tipo de contato com homens — mesmo sendo da família.
O medo e a repulsa falavam mais alto.
Aprendi a silenciar.
Durante esse tempo, minha mãe teve uma filha com esse homem.
Um ano depois, ela voltou.
E usou novamente ameaças para tentar me levar.
Mas dessa vez… algo foi ainda mais cruel.
Ela disse, com todas as palavras, que tinha vindo me buscar porque eu já tinha idade suficiente.
Que aquele homem me queria.
Naquele instante, não foi apenas medo.
Foi como se tudo dentro de mim desmoronasse de uma vez.
Ali, eu deixei de ser criança.
Capítulo 5 — O que nunca deveria ter acontecido
Eu tinha sete anos quando minha mãe voltou.
Ela apareceu dizendo que eu iria morar com ela.
Eu não queria ir.
Pela primeira vez, havia algo muito claro dentro de mim:
aquilo não era seguro.
Mas eu não tive escolha.
Ela fez ameaças contra meus avós, e diante disso fui obrigada a ir.
Minha mãe já estava com outro homem.
Desde o primeiro momento, senti desconforto. Era um ambiente estranho, pesado, difícil de explicar para alguém da minha idade.
Naquela casa, comecei a presenciar comportamentos que eu não compreendia.
Coisas que não faziam parte do meu mundo de criança.
E, pouco tempo depois, entendi — não com palavras, mas com o corpo e com o medo — o motivo de ter sido levada para lá.
Aquele homem começou a ultrapassar limites.
No início, eram situações que me causavam confusão e repulsa.
Eu não sabia explicar, mas sabia que era errado.
Criei coragem e contei para minha mãe.
Ela não fez nada.
Agia como se fosse normal.
Naquele momento, algo dentro de mim se rompeu de forma definitiva.
A sensação de não ter proteção… de não ter para onde correr… tomou conta de mim.
Em um dia, ele insistiu para que eu fosse com ele buscar lenha.
Eu não queria ir.
Minha mãe me obrigou.
O que aconteceu ali foi algo que eu não compreendia completamente, mas que marcou profundamente meu corpo e minha mente.
Eu só sentia medo, nojo e desespero.
Chorava.
Chamava pelo meu pai.
Queria sair dali.
Quando voltei para a casa da minha avó, meu corpo reagiu.
Tive febre, crises, não conseguia me controlar. Passei a noite inteira chorando, enquanto minha avó tentava me cuidar — sem entender a dimensão do que havia acontecido.
Até aquele momento, eu rezava.
Ia à igreja.
Mas, depois disso, comecei a me perguntar:
se Deus estava vendo… por que não fazia nada?
E não foi apenas uma vez.
Outros episódios aconteceram.
Até que, em determinado momento, minha mãe me deixou novamente na casa dos meus avós paternos.
E sumiu.
Mas eu já não era mais a mesma.
Passei a ter pesadelos constantes.
Ficava doente com frequência.
Me fechei emocionalmente.
Chorava sozinha.
Evitei qualquer tipo de contato com homens — mesmo sendo da família.
O medo e a repulsa falavam mais alto.
Aprendi a silenciar.
Durante esse tempo, minha mãe teve uma filha com esse homem.
Um ano depois, ela voltou.
E usou novamente ameaças para tentar me levar.
Mas dessa vez… algo foi ainda mais cruel.
Ela disse, com todas as palavras, que tinha vindo me buscar porque eu já tinha idade suficiente.
Que aquele homem me queria.
Naquele instante, não foi apenas medo.
Foi como se tudo dentro de mim desmoronasse de uma vez.
Ali, eu deixei de ser criança.
Capítulo 6 — Quando o silêncio já não cabia
Quando cheguei em outra cidade, em outro estado, eu não imaginava que o pior ainda estava por vir.
Eu estava com meus irmãos.
Mas aquilo não significava proteção.
Logo percebi que o mesmo homem continuava presente — e o que eu temia se confirmou de uma forma ainda mais dolorosa: minha irmã, ainda muito pequena, também estava sendo ferida.
O mais difícil não foi apenas perceber.
Foi não ter para onde correr.
Minha mãe via… e não protegia.
Tratava aquilo com uma naturalidade que eu não conseguia compreender.
Foi nesse momento que algo dentro de mim se transformou em revolta.
Eu já não conseguia chamá -la de mãe.
O nojo, a dor e a incredulidade tomaram conta de mim.
Em uma das vezes em que ele tentou se aproximar novamente, eu perguntei:
— Por que você faz isso?
A resposta veio fria, sem qualquer humanidade.
E foi ali que eu entendi que não havia lógica.
Não havia justificativa.
Apenas maldade.
Passei a sentir repulsa pelo meu próprio corpo.
Como se eu carregasse algo que não queria mais existir.
Com o tempo, descobri que aquele homem já havia feito mal a outras pessoas da própria família.
Isso não trouxe alívio.
Mas mostrou que o problema nunca fui eu.
Em algum momento, ele foi embora.
Deixou minha mãe e a filha que teve com ela.
Para mim, foi um alívio momentâneo.
Achei que, finalmente, estaria segura.
Mas a vida ainda tinha outras dores guardadas.
Voltei para perto da minha avó.
E, pouco tempo depois, meu pai reapareceu.
Era alguém que eu esperei tanto…
mas já não era o mesmo para mim.
Eu também não era.
Havia distância.
Medo.
Silêncio.
Eu não falava sobre o que tinha vivido.
Guardava tudo dentro de mim.
Me fechei em um mundo onde a tristeza era constante — e a solidão, companhia.
Meus pais ainda tentaram reatar, mas não deu certo.
As brigas continuaram.
A instabilidade também.
Minha mãe engravidou novamente.
E meu pai foi embora.
Dessa vez, com outra mulher.
Eu sabia.
Mas não contei.
E, de alguma forma, isso também se transformou em mais raiva contra mim.
Meu pai me levou com ele.
Disse que seríamos só nós dois.
Mas não foi.
Na rodoviária, ela estava lá.
E fomos para outra cidade juntos.
Com o tempo, vieram os maus-tratos.
Humilhações.
Agressões.
Situações que me faziam sentir cada vez menor.
Eu me sentia perdida.
Abandonada.
Queria voltar para o único lugar onde, em algum momento, eu tinha sentido cuidado: a casa da minha avó.
Meu pai via… e não fazia nada.
E, mais uma vez, minha sensação de proteção se quebrou.
Como se não bastasse, ainda enfrentei outra violência — dessa vez vinda de fora, de alguém que deveria ser apenas um vizinho.
Depois disso, o medo aumentou ainda mais.
Eu já não conseguia confiar.
Nem me sentir segura.
Nem mesmo perto do meu próprio pai.
Com o tempo, aquela mulher foi embora.
E ficamos só nós dois.
Mas eu já estava quebrada por dentro.
Carregava uma culpa que nunca foi minha.
Sentia como se fosse responsável por tudo o que tinha acontecido.
E, aos poucos, a imagem que eu tinha do meu pai também começou a se desfazer.
Doía perceber que eu não era prioridade.
Assim como meus irmãos também não eram.
No fim, seguimos juntos… de um jeito que não era inteiro.
Com uma mala nas mãos, caminhamos pela linha do trem.
Mais um ciclo se encerrava.
E eu… seguia tentando juntar os pedaços de quem eu ainda era.
alguma pessoa que trouxe apoio
ou o início da reconstrução.
Capítulo 7 — Quando tudo desaba
Aos dez anos, depois de tantas idas e vindas, eu já carregava mais dores do que uma criança deveria conhecer.
Por um tempo, fiquei longe dos meus pais.
E foi nesse período que encontrei um pouco de paz.
Meus avós eram meu porto seguro.
Era com eles que eu conseguia, por alguns momentos, simplesmente existir.
Escutava rádio, ouvia músicas… e a dança começou a fazer sentido para mim.
Dançar me levava para um lugar diferente.
Um lugar onde ainda existiam sonhos.
Eu lembrava de uma promessa: dançar com meu pai na minha festa de quinze anos.
Naquele tempo, isso ainda parecia possível.
Mudamos de cidade.
Nova escola, novo ambiente.
Via meus irmãos poucas vezes.
Cada um já carregando suas próprias dores.
Mas havia momentos de calma.
Eu deitava a cabeça no colo da minha avó, sentada em um banquinho que meu avô havia dado a ela.
E ali, o tempo parecia desacelerar.
Era simples.
Mas era paz.
Quando meu pai voltou, pensei que talvez fosse uma chance de recomeço.
Eu pedi.
Implorei.
Disse que sabia cuidar da casa, cozinhar, lavar roupa.
Que podia ajudar.
Que queria ficar com ele.
E ele me levou.
Mas, mais uma vez, não era como eu imaginava.
Ele já tinha outra pessoa.
E, junto com ela, vieram novas dores.
Tios que me humilhavam constantemente.
Palavras que machucavam mais do que qualquer agressão física.
Diziam que eu era igual à minha mãe.
Que não valeria nada.
Que teria o mesmo destino.
Era como se eu já estivesse condenada… sem ter feito nada.
As agressões, físicas e verbais, se tornaram parte da rotina.
Meu pai era, ao mesmo tempo, presença… e ausência.
Um dia, ele me perguntou:
— Por que você não me abraça mais?
Eu queria responder.
Queria contar tudo.
Mas não consegui.
O silêncio já fazia parte de mim.
E, mais uma vez, a esperança de recomeço se quebrou.
Vieram também as agressões da madrasta.
Dias de trabalho pesado, sob o sol, puxando água até o corpo não aguentar mais.
Castigos.
Violência.
Indiferença.
Eu pedia ajuda ao meu pai.
Mas ele não me ouvia.
E, novamente, eu estava sozinha.
Como se não bastasse, outras violências aconteceram.
Vindas de pessoas próximas.
E, mais uma vez, meu corpo carregava marcas que ninguém via… mas que eu sentia o tempo todo.
O nojo de mim mesma crescia.
A dor também.
Até que, aos onze anos, tudo mudou novamente.
Era dia de jogo do Brasil.
Eu acordei com um aperto no peito.
Meu pai me levou para a escola, como em qualquer outro dia.
Antes de ir, pedi:
— Posso te ver quando voltar?
Ele disse que dependia.
Chorei.
Mas não tive escolha.
Fiquei parada, olhando ele ir embora… sem saber que aquela seria a última vez.
Naquele dia, meu pai foi morto.
De forma cruel.
Sem sentido.
Ficou desaparecido por dez dias.
E, quando a verdade veio…
meu mundo desabou por completo.
Depois disso, tudo piorou.
Fiquei com pessoas que não gostavam de mim.
E deixavam isso claro.
No dia do enterro, fui agredida.
Disseram que eu não era nada sem ele.
Que eu não valia nada.
Dois meses depois, perdi minha avó.
Ela não suportou a dor.
E eu nem pude me despedir.
Ali, eu já não sabia mais como continuar.
A dor era grande demais.
Insuportável.
Tentei acabar com tudo.
Mas, de alguma forma… eu continuei aqui.
Seis meses depois, meu avô adoeceu.
E eu… já não tinha mais ninguém.
As pessoas me olhavam como um peso.
Como alguém que ninguém queria.
Até que decidiram me levar de volta para quem nunca foi abrigo:
minha mãe.
Voltar para ela não foi um recomeço.
Foi mais uma queda.
E, como se não bastasse tudo o que eu já carregava, ainda ouvi:
— A culpa da morte do seu pai é sua.
Naquele momento…
eu já não sabia mais quem eu era.
Capítulo 8 — Promessas em meio às cinzas
Voltei para a casa da minha genitora aos onze anos.
Era outra família.
Outras pessoas.
Outras dinâmicas.
Meus irmãos já eram diferentes de mim.
Havia uma nova união, outra filha.
E eu me via ali… como alguém de fora.
A família do meu padrasto carregava suas próprias dores e perdas, mas, ainda assim, eram pessoas boas. Havia algo ali que eu não estava acostumada a sentir: humanidade.
Minha mãe estava diferente.
Mais velha… mas também mais dura.
As palavras machucavam mais.
As atitudes, ainda mais.
O álcool piorava tudo.
E aquilo que já era difícil… se tornava insuportável.
Ela nunca assumiu nada do que fez.
Nunca reconheceu a dor que causou.
Mas a mágoa contra mim… permanecia.
Era como se eu fosse o alvo constante.
Meu padrasto, dessa vez, era uma pessoa boa.
Mas nem isso foi suficiente.
Ela o destruía aos poucos — emocionalmente, psicologicamente, financeiramente.
Traições abertas.
Ambientes que não eram para uma família.
Um ciclo de autodestruição que atingia todos ao redor.
Eu fiquei pouco tempo ali.
Dois meses.
Porque, dentro de mim, havia algo maior que tudo aquilo:
uma promessa.
Eu prometi, diante do caixão do meu pai e da minha avó, que iria estudar.
Que me tornaria professora.
Que seria motivo de orgulho para eles.
Era isso que me mantinha de pé.
Um ano depois, me vi em um hospital, na UTI, segurando a mão do meu avô.
Com lágrimas nos olhos, tentei dizer o que sentia:
— Obrigada por cuidar de mim.
— Me perdoa se eu não consegui retribuir… se não fui uma boa neta.
Naquela madrugada, ele se foi.
E, com ele, parecia que eu perdia o último pedaço de chão que ainda me sustentava.
A partir dali, a vida virou sobrevivência.
Comecei a trabalhar cedo.
Faxina.
Limpeza de banheiro.
Não tinha vínculos.
Não tinha amizades.
Mas, aos poucos, uma pessoa apareceu.
Uma amiga.
Ela me ajudou nos dias mais difíceis.
E, de alguma forma, isso fez diferença.
Continuei estudando.
Fiz minha primeira comunhão.
Depois, a crisma.
Por um tempo, me afastei da igreja.
Mas sabia que, em algum momento, precisaria voltar.
Com ajuda de algumas pessoas, consegui fazer meus documentos.
Era um passo pequeno… mas importante.
Aos doze anos, minha vida se resumia a duas coisas:
trabalho… e a biblioteca pública.
Todos os sábados, eu estava lá.
Lendo.
Aprendendo.
Tentando construir um futuro diferente.
Eu precisava cumprir minha promessa.
Mas, junto com essa força… havia algo dentro de mim que ainda queimava:
raiva.
Um desejo profundo de vingança.
Por tudo.
Por todos.
Capítulo 9 — Quando comecei a me escolher
Aos treze anos, um novo ciclo começou.
Nova escola.
Novas pessoas.
Novos caminhos se abrindo, mesmo que devagar.
Foi nessa fase que algo dentro de mim começou a mudar.
Pela primeira vez, comecei a me olhar no espelho…
e não sentir tanta repulsa pelo meu próprio corpo.
Era um olhar tímido, ainda com dor…
mas diferente.
Algumas amizades foram importantes nesse processo.
Foi através delas que comecei a entender que tipo de pessoa eu queria ser — e, principalmente, que tipo de pessoa eu não queria me tornar.
Eu era fechada.
Mas, aos poucos, comecei a me abrir com algumas pessoas.
Compartilhar partes da minha história.
Mostrar um pouco de quem eu era por dentro.
Eu já não era uma criança.
A vida tinha me feito amadurecer cedo demais.
E isso se refletia nas minhas escolhas.
Minhas amizades passaram a ser seletivas.
Eu buscava lealdade.
Verdade.
Falsidade… eu não sabia lidar.
Traição… muito menos.
Foi um período de transformação.
Eu fiz uma promessa para mim mesma:
nunca mais permitir que alguém me agredisse — nem fisicamente, nem emocionalmente.
E eu levei isso a sério.
Ficava o mínimo possível em casa.
Minha mãe me envergonhava com suas atitudes.
E, com o tempo, as situações passaram a ultrapassar limites ainda mais graves.
Houve momentos em que ela tentou me expor a situações que nenhuma filha deveria viver.
Chegou a me perseguir na porta da escola.
Na rua.
Em alguns momentos, precisei pedir ajuda aos meus amigos.
Mesmo assim, eu tentava seguir.
Tive sentimentos por um menino.
Era algo inocente, silencioso… platônico.
Eu nunca teria coragem de contar.
Ele conhecia minha família.
E eu sabia o que as pessoas diziam.
Quando minha mãe descobriu, transformou aquilo em mais um motivo de humilhação.
Foi até ele.
Me expôs.
E eu senti vergonha.
Muita vergonha.
Me afastei.
Guardei mais esse sentimento para mim.
Dentro de casa, os conflitos continuavam.
Discussões com minhas irmãs.
Brigas do dia a dia que sempre terminavam mal.
Tudo que era meu… era tirado, quebrado, destruído — com o aval dela.
Enquanto isso, meu corpo também mudava.
Mas ninguém me orientava.
Ninguém me explicava.
Eu aprendi sozinha.
Nos livros da biblioteca, descobri sobre meu próprio corpo.
Sobre menstruação.
Sobre coisas que deveriam ser ensinadas… mas nunca foram.
Eu trabalhava.
Ganhava pouco.
E, muitas vezes, passava por situações humilhantes.
Mas ainda assim, havia pequenos respiros.
Tomar um sorvete.
Dividir um refrigerante com amigas.
Momentos simples… mas que significavam muito.
Tive outra paixão.
E, mais uma vez, fiquei em silêncio.
Dentro de mim, existia uma sensação constante:
de não ser suficiente.
De não ser digna de ser escolhida.
Houve momentos em que pensei em desistir.
Um deles ficou marcado.
Eu estava sentada em um ponto de ônibus… sozinha.
Foi quando alguém da minha família apareceu.
Sentou e conversou comigo.
E disse algo que ficou gravado em mim:
— Está na hora de você quebrar as correntes que te prendem.
— Pare de esperar algo de quem nunca te deu… e não vai dar.
Aquilo me atingiu.
Profundamente.
E, naquele momento, algo se encerrou.
Eu entendi:
minhas lutas eram minhas.
Meus objetivos… também.
Aos quatorze anos, eu já tinha vivido mais do que muitos vivem em uma vida inteira.
Alegria.
Dor.
Perdas.
Solidão.
Amigos que foram.
Outros que chegaram.
Novos trabalhos.
Novas experiências.
Enquanto isso, minha mãe continuava.
Sempre que podia, fazia questão de dizer o quanto me odiava.
O quanto desejava que eu sofresse.
Mas algo em mim já estava diferente.
Eu não reagia mais da mesma forma.
Eu ignorava.
E isso a incomodava ainda mais.
Minhas irmãs… eram distantes.
Havia um abismo entre nós.
Com meu irmão, ainda existiam alguns momentos de conexão.
Mas, no geral… eu seguia.
Sozinha.
Só que agora… um pouco mais forte.
E, pela primeira vez… começando a me escolher.
Capítulo 10 — A promessa cumprida
Aos quinze anos, entrei em uma fase de descobertas.
Algumas boas.
Outras… nem tanto.
Tive contato com pessoas de índole duvidosa.
Experimentei cigarro, bebida.
Fiz uma pequena tatuagem — uma estrela com um cometa, perto do tornozelo.
Talvez, sem perceber, eu já buscava um símbolo… algo que representasse movimento, passagem, um caminho.
Mesmo assim, eu não perdi meu foco.
Estava no ensino médio.
Saía com amigas, participava de festas da igreja.
Elas falavam de amores, de paixões, de garotos.
Eu ouvia… mas não me via naquilo.
Era como se essa parte da vida não fosse para mim.
Meu foco era outro: terminar meus estudos.
Comecei a fazer a formação docente.
E, nesse caminho, tive contato com aulas com psicóloga.
Aquilo abriu minha mente.
Pela primeira vez, algumas coisas fizeram sentido:
Não se implora amor.
Não se implora respeito.
Não se implora carinho… de quem não tem para dar.
E mais do que isso:
pessoas que não agregam… precisam ser deixadas para trás.
Não era fácil viver isso na prática.
Mas eu tentei.
E me mantive firme.
Aos dezesseis anos, comecei a frequentar a casa de amigas.
Conviver com as mães delas… foi algo que me tocou profundamente.
Ali, eu via cuidado.
Via algo que nunca tive.
E, de alguma forma, aquilo me confortava.
Foi nesse período que comecei a viver um pouco da minha adolescência — dentro do que era possível para mim.
Também foi nessa fase que encontrei algo que mudou minha vida:
o rádio.
Começou nos bastidores…
e depois veio a locução.
Ali, eu encontrei uma fuga.
Mas não só isso.
Encontrei voz.
Falar com as pessoas.
Levar música.
Criar conexão.
Era mais do que um trabalho.
Era um refúgio.
Era onde eu podia existir sem dor.
Também frequentava bailes do interior.
E foi em um desses momentos que algo inesperado aconteceu.
Aos dezesseis anos, conheci um rapaz.
Quando olhei para ele… senti algo diferente.
Uma paz.
Como se, por um instante, eu estivesse em casa.
Mesmo assim, me afastei.
Mas não por muito tempo.
Ele me convidou para dançar.
Conversamos.
E, depois disso, nos encontramos mais uma vez.
Então… a vida seguiu.
E eu não o vi por seis anos.
Meu foco voltou a ser o que sempre foi:
me formar.
O TCC se aproximava.
A formatura também.
Foram dias intensos.
Muito estudo.
Poucas horas de sono.
Trabalhos refeitos.
Cansaço físico extremo.
E muitas lágrimas.
Nesse período, também me afastei de uma amiga muito importante.
Doeu.
Mas eu não podia ir contra aquilo que eu tinha escolhido para mim:
sinceridade e lealdade.
Foram dias de perdas…
e também de novos começos.
Até que, finalmente, chegou o dia.
TCC pronto.
Formatura preparada.
E, junto com isso, um conflito:
quem eu queria ao meu lado naquele momento?
Escolhi pessoas que estiveram comigo na luta.
Convidei minha mãe.
Não por expectativa…
mas para mostrar que eu tinha conseguido.
Ela não foi.
E, naquele dia, entendi mais uma vez quem realmente estava comigo.
Subi no palco.
Recebi meu canudo.
E, naquele instante…
eu cumpri a promessa.
Pelo meu pai.
Pelos meus avós.
Por mim.
Foram quatro anos de trabalho.
De dor.
De luta.
Mas eu consegui.
Eu me formei.
E, mesmo assim… uma nova pergunta surgiu:
o que fazer agora?
Eu era boa no que fazia.
Mas, no fundo, eu sabia:
como cuidar de outras crianças…
se eu ainda era, por dentro, uma criança quebrada?
Capítulo 11 — O dia em que eu fui embora
Aos dezessete anos, comecei mais um recomeço.
Decidi voltar para a área administrativa.
Novo ambiente.
Novas pessoas.
Era um lugar onde eu me sentia mais conectada, mais desperta.
O Direito também começou a chamar minha atenção.
O trabalho no rádio continuava sendo parte importante da minha vida.
Ele me trouxe novas amizades — mas também conflitos.
Inveja.
Ciúmes.
Situações que me mostravam, mais uma vez, como as relações humanas podiam ser complexas.
Dentro de casa, nada mudava.
Minhas irmãs ainda eram distantes.
Como se existisse um abismo impossível de atravessar.
Tive um envolvimento leve, um “amor de praça”, como costumo lembrar.
Durou um tempo.
Mas, no fundo, eu sabia que ele não era a pessoa certa.
E eu já tinha aprendido uma coisa importante:
não insistir onde não havia verdade.
Até que veio o último confronto com minha mãe.
Ela não aceitava que eu tivesse atenção de outras pessoas.
Principalmente dos amigos do meu irmão.
Começou com palavras.
Comentários maldosos.
Ataques constantes.
Até que, um dia, tudo saiu do controle.
Ela veio para cima de mim com uma faca.
Mandou que eu revidasse.
Como se quisesse transformar aquilo em uma guerra definitiva.
Disse que me odiava.
Que nunca iria me perdoar.
Que eu tinha destruído a vida dela — por algo que eu contei ainda quando era criança.
Na visão dela, eu era culpada por tudo de ruim que tinha acontecido.
Naquele momento… eu poderia ter reagido.
Mas não reagi.
Olhei para ela e disse:
eu não vou fazer isso.
Ela não merecia que eu me tornasse aquilo que ela sempre disse que eu era.
Tudo o que eu tinha vivido… toda a dor…
eu não carregaria aquilo como mais um erro meu.
Meu irmão e alguns amigos ficaram ao meu lado.
Mas aquilo só aumentou o ódio dela.
E, naquele dia… eu tomei uma decisão.
Fui embora.
Sem destino.
Sem certeza.
Mas com uma convicção:
eu não voltaria mais.
Naquela madrugada, por volta das quatro da manhã, encontrei abrigo na casa de uma amiga.
Foi ali que um novo ciclo começou.
Depois disso, aluguei meu próprio espaço.
Simples.
Mas era meu.
Minha vida passou a ser trabalho e estudo.
Por um tempo, foi só isso.
Tive alguns romances… mas mantive distância emocional e física.
Ainda havia muita coisa dentro de mim que não estava resolvida.
Minha mãe, às vezes, aparecia.
Na rua.
Já muito envolvida com álcool… vivendo situações difíceis.
Esses encontros eram desconfortáveis.
Ela me expunha.
Falava da minha vida para estranhos.
Isso gerava situações perigosas — homens que começavam a me perseguir.
Era mais uma forma de violência.
E eu aprendi a fazer o que já sabia:
evitar.
seguir outro caminho.
não olhar para trás.
Nesse momento da minha vida, eu já era extremamente seletiva.
Muitas pessoas ficaram pelo caminho.
Porque confiança… para mim… não era algo negociável.
Eu aprendi da pior forma o que significa:
humilhação,
traição,
ingratidão.
E também aprendi o que eu não aceitaria mais.
Eu não era moeda de troca.
Não era objeto.
Não era aquilo que tentaram me fazer acreditar.
Trabalhei em tudo que apareceu.
Faxina.
Banheiro.
Babá.
Nada foi fácil.
Mas cada passo me afastava de tudo aquilo que tentou me destruir.
E, pela primeira vez…
eu estava construindo minha vida com as minhas próprias mãos.
Capítulo 12 — Quando o amor não veio para ferir
Aos vinte anos, eu finalmente tinha algo que era meu.
Meu espaço.
Minha rotina.
Minha vida.
Trabalhava, estudava, mantinha minhas amizades.
Era uma construção silenciosa, mas sólida.
Meu irmão veio morar comigo.
Ele era intenso.
Sempre vivendo novas histórias, novos amores, como se estivesse em constante movimento.
Eu o aconselhava, do meu jeito:
— Cuidado com as pessoas.
Mas ele tinha o próprio caminho a trilhar.
Minha vida seguia focada.
Trabalho e estudo ocupavam quase todo o meu tempo.
E, nos momentos livres, eu buscava leveza.
Gostava de ir aos bailes.
Não bebia.
Era reservada.
Seletiva.
Eu já sabia o quanto escolhas erradas poderiam custar caro.
Aos vinte e um anos, vivi minha primeira experiência íntima.
Foi uma decisão consciente.
Sem ilusão.
Era alguém de quem eu gostava, mas não havia profundidade.
Foi mais sobre entender… do que sentir.
E, assim como começou, terminou.
Seguimos como amigos.
Depois disso, vieram outros encontros.
Rápidos.
Superficiais.
Eu não queria me perder em sentimentos que pudessem me desviar dos meus objetivos.
Até que, em uma manhã comum, algo inesperado aconteceu.
Alguém me cumprimentou de dentro de um carro.
Eu reconheci.
Era ele.
O rapaz que eu tinha conhecido aos dezesseis anos.
Seis anos tinham passado…
mas o olhar era o mesmo.
O sorriso também.
Nos vimos… e seguimos.
Mas, naquela sexta-feira, por alguma razão que não sei explicar — talvez destino — nos encontramos novamente.
E, dessa vez, foi diferente.
Eu não estava buscando um relacionamento.
Mas também já não me sentia bem vivendo encontros vazios.
Um encontro virou outro.
Um baile virou outro.
E, aos poucos, algo começou a se construir.
Ele era sincero.
E, mais do que isso…
ele me trazia paz.
Confiança ainda era algo que eu não entregava fácil.
Para mim, confiança se constrói.
Mas havia algo ali… diferente.
Com o tempo, veio o pedido de namoro.
E, antes de qualquer resposta, eu fiz o que nunca tinha feito de verdade:
eu contei a minha história.
Falei da minha mãe.
Das dores.
Das possibilidades de encontros inesperados na rua.
Da realidade que fazia parte de mim.
Eu não queria viver nada pela metade.
Não queria cobranças do tipo “você nunca me contou”.
Levei ele até minha mãe.
Queria que ele soubesse quem ela era.
E que ela soubesse quem ele era.
Sem esconder nada.
Ou quase nada.
Porque ainda existiam feridas que eu não conseguia tocar.
Algumas… até hoje são difíceis.
Mas, mesmo assim, ele ficou.
Ele me abraçou com tudo que eu era:
minhas dores,
meus medos,
minha dificuldade de confiar.
E, pela primeira vez…
eu senti algo que nunca tinha sentido de verdade:
segurança.
Era como se, finalmente, eu tivesse encontrado um lugar de descanso.
Ele também tinha sua história.
Suas marcas.
Seus erros.
Mas fizemos um acordo simples:
— Se um dia você deixar de me amar… me fale.
— Não me traia.
— Não minta para mim.
E, ali…
uma nova história começou.
Capítulo 13 — Entre começos e despedidas
Com o tempo, começamos a falar de casamento.
Era algo novo para mim.
Algo que, por muito tempo, eu não soube se um dia faria parte da minha vida.
Ele me apresentou à família.
E aquilo me assustou.
Eram muitas pessoas.
Irmãos, tios, avós… uma estrutura que eu nunca tive.
Mas, ao mesmo tempo, um pensamento surgiu:
se um dia eu tiver filhos… eu gostaria que eles tivessem isso.
Seguimos no nosso tempo.
Ficamos noivos.
Houve um jantar com meu pai, meu irmão, meus tios.
E, pela primeira vez, eu tinha uma aliança no dedo.
Alguém que estava ali.
Presente.
Os fins de semana começaram a se tornar mais frequentes…
até que a ideia de casamento se tornou real.
Mas havia algo dentro de mim que não me deixava em paz:
eu queria ter algo para oferecer.
Queria construir com base.
Isso me deixava inquieta.
Às vezes, até amarga.
Faltando seis meses para concluir o curso de Administração, algo inesperado aconteceu.
Uma gravidez.
Foi um descuido.
Uma troca de medicação.
E, naquele momento, eu me senti perdida.
Chorei muito.
Me senti irresponsável.
Como se tivesse falhado comigo mesma.
Ele… sentiu medo.
Mas também emoção.
Me abraçou.
E a família… ficou feliz.
Enquanto isso, dentro de mim, tudo mudava.
Os enjoos começaram.
Os dias difíceis se tornaram meses.
Fraqueza.
Mal-estar constante.
Minha rotina virou de cabeça para baixo.
Chegou um momento em que precisei parar.
Minha saúde já não permitia continuar como antes.
Adiantamos a construção da casa.
Adiamos o casamento.
Foram tempos difíceis.
Ele trabalhava longos dias.
E eu tentava me manter de pé.
Minha alimentação era restrita.
Os dias pareciam não passar.
E, muitas vezes, eu enfrentava tudo praticamente sozinha — vendo ele apenas nos finais de semana.
Mas eu resisti.
E, próximo dos meus vinte e dois anos…
ela chegou.
Minha filha.
Uma cirurgia difícil.
Um pós-operatório complicado.
Mas, quando olhei… ela estava ali.
E ele também.
Com medo… mas feliz.
Ela era linda.
Rosto de boneca.
Minha mãe apareceu poucas vezes.
Nossa relação nunca foi simples.
Mas algo me chamava atenção:
minha filha ficava feliz ao vê-la.
Assim como também se alegrava com os avós paternos.
Tivemos conflitos familiares — dos dois lados.
Porque nenhuma história é perfeita.
Mas a vida seguiu.
Até que chegou um dos momentos mais difíceis:
a morte da minha mãe.
Ela já tinha quatro netos.
Nos últimos dias, tentei ajudar.
Levei ao hospital.
Ela fugiu.
Como sempre… imprevisível.
Tivemos conflitos até o fim.
E, no dia em que ela morreu… estava sozinha.
Foi como indigente.
E eu precisei fazer o reconhecimento.
Cuidar de tudo.
Encerrar uma história que nunca teve um fechamento de verdade.
Foi doloroso.
Não houve conversa final.
Não houve reconciliação.
Ficaram mágoas.
Feridas abertas.
Mas, naquele dia…
quando o caixão se fechou…
eu tomei uma decisão:
deixar tudo aquilo ali.
Não carregar mais.
Não continuar vivendo presa ao que nunca foi resolvido.
Ainda hoje, eu vou até o túmulo dela.
Levo flores.
Cuido.
Organizo.
Sou a única que faz isso.
E, talvez…
essa seja a minha forma de encerrar.
Não porque não doeu.
Mas porque eu escolhi não deixar a dor me definir para sempre.
Capítulo 14 — Quem eu me tornei
Hoje, aos 38 anos, eu conheço minhas lutas.
Não só as físicas.
Mas, principalmente, as psicológicas.
Carrego marcas…
mas também carrego consciência.
Construí um casamento.
Foram 14 anos até oficializarmos na igreja, em uma capela, com a presença da minha filha.
Mas, ao todo, são 18 anos de união.
Nossa base nunca foi perfeita.
Mas sempre foi sustentada por algo real:
confiança,
perseverança,
luta.
Erramos.
Como qualquer pessoa erra.
Confiamos em quem não deveríamos.
Nos decepcionamos.
Houve lágrimas.
Despedidas.
Perdas.
Aprender a deixar ir…
foi uma das coisas mais dolorosas que já vivi.
Mas também foi necessário.
Hoje, estou distante de muitas pessoas da família.
E isso não é fraqueza.
É escolha.
Construímos a nossa própria família.
Somos quatro.
Minha filha…
e meu menino, amor do meu coração.
Nada veio fácil.
Foram anos de sacrifício.
Trabalho duro.
Dias longos.
Algumas discussões…
mas nada que não fosse resolvido.
Porque, diferente de tudo que eu vivi…
aqui existe diálogo.
Existe escolha.
Existe construção.
Eu trabalhei muito para poder dizer:
eu tenho uma profissão.
Sou padeira.
Já trabalhei como atendente de balcão…
mas nunca fui o tipo de pessoa que se acomoda.
Eu estou sempre buscando mais.
Melhorar como profissional.
Como mãe.
Como mulher.
Como esposa.
E, mesmo depois de tudo…
eu ainda tenho crises.
Ainda existem sentimentos difíceis.
Situações que mexem comigo.
Mas hoje… eu busco ajuda.
Faço terapia.
Tenho acompanhamento psicológico.
Porque eu entendi que ser forte…
não é carregar tudo sozinha.
Minha filha está quase entrando na faculdade.
E eu faço questão de ser verdadeira com meus filhos.
A vida não é fácil.
Nunca foi.
E lidar com pessoas… é um dos maiores desafios.
Confiança não se exige.
Confiança se constrói.
Todos os dias.
Com atitude.
Com verdade.
Hoje, temos uma empresa que cresce a cada ano.
E seguimos lutando.
Porque sabemos o valor de cada conquista.
Sabemos o preço de cada escolha.
Ciclos se encerram.
Outros começam.
E a vida segue assim.
Minha história…
meus relatos…
são de alguém que lutou muito para ser vista.
Para ser respeitada.
Para provar — não para os outros, mas para si mesma —
que não era aquilo que disseram que eu era.
Hoje, eu vejo com clareza:
muitas pessoas que me feriram eram tóxicas.
Sem caráter.
E continuam fazendo mal a quem está por perto.
Eu escolhi o distanciamento.
E essa foi uma das decisões mais importantes da minha vida.
Porque, às vezes…
se afastar não é perder.
É se salvar.
Capítulo 15 — O tempo da cura
Talvez nem tudo tenha ficado claro sobre minhas relações afetivas.
E isso também faz parte da minha história.
Depois de tudo que vivi, não foi simples me relacionar.
Foram anos.
Anos de terapia.
Acompanhamento psicológico.
Tentativas de entender a mim mesma.
Para quem sofreu abusos…
o corpo guarda memórias.
E a mente também.
Existe uma luta silenciosa:
aceitar que você não teve culpa.
aceitar que aquilo não te define.
aceitar que é possível viver… sem carregar vergonha.
Não foi fácil.
Minhas relações foram poucas.
E, por muito tempo, superficiais.
Contato físico… apenas até onde eu conseguia suportar.
Beijos.
Proximidade.
Mas sem envolvimento íntimo.
Até os 21 anos, essa foi a minha realidade.
E isso não era atraso.
Era proteção.
Quando, finalmente, decidi viver uma experiência íntima…
foi diferente do que muitos imaginariam.
Foi tranquila.
Consciente.
Sem pressão.
Mas também não foi um apagamento.
Porque esse tipo de dor… não desaparece.
Ela aprende a ficar em silêncio.
Mas, às vezes, volta.
Ainda hoje, em alguns momentos, tenho pesadelos.
Há dias em que lembranças surgem…
e me deixam fragilizada.
Mas existe algo que mudou:
hoje, eu sei lidar.
Hoje, eu entendo.
Hoje, eu me acolho.
Foram necessários tempo…
paciência…
e maturidade.
Para compreender que viver…
também é se reconstruir todos os dias.
Capítulo 16 — Um amor que foi construído
Eu não poderia contar minha história…
sem falar sobre ele.
Meu esposo.
Existe algo curioso na nossa trajetória.
Vivíamos na mesma cidade.
No mesmo bairro.
Nossos pais trabalhavam na mesma empresa.
Frequentávamos os mesmos eventos.
Tínhamos amigos em comum.
Brincávamos nas mesmas ruas.
Íamos buscar frutas descartadas no supermercado da cidade.
E, mesmo assim…
não nos lembramos um do outro.
Como se a vida estivesse nos cruzando…
sem ainda ser o momento.
Nosso primeiro encontro aconteceu quando eu tinha 16 anos…
e ele, 17.
Foi breve.
Uma conversa.
Troca de telefone.
Mas nada realmente aconteceu.
Seguimos nossas vidas.
Nosso segundo encontro também foi rápido.
Alguns beijos.
Uma conversa.
E depois disso…
seis anos de distância.
Seis anos onde cada um viveu suas próprias experiências.
Ele chegou a ficar noivo.
Faltavam poucos dias para o casamento.
Mas houve uma infidelidade.
E, para ele, confiança não era negociável.
A relação terminou.
E foi depois disso…
que nossos caminhos se cruzaram novamente.
Um cumprimento de dentro de um carro.
Um encontro depois da aula.
Um baile da comunidade.
Outro momento de lazer.
Até que veio um convite para me levar até em casa.
E, naquele caminho…
uma conversa leve.
Agradável.
E algo que eu não conhecia bem:
conforto.
Começamos a trocar experiências.
Histórias de vida.
E, da parte dele, havia algo que fez toda a diferença:
paciência.
Nada foi forçado.
Tudo foi acontecendo com respeito.
Com gentileza.
Se envolver com alguém quebrado… não é fácil.
E eu era isso.
Alguém que lutou por tudo.
Que aprendeu a sobreviver sozinha.
Que não sabia o que era ser cuidada.
E, de repente…
havia alguém dizendo:
“Eu estou com você.”
“Você não está sozinha.”
“Suas batalhas… agora também são minhas.”
Isso não é simples de aceitar.
Existe uma luta interna.
Leva tempo…
anos…
para permitir ser cuidada.
E, mesmo hoje, ainda carrego algumas dificuldades.
Tenho dificuldade em pedir ajuda.
Dificuldade em dizer “eu te amo”.
Minha forma de amar é diferente.
Eu demonstro com atitudes.
Com cuidado.
Com presença.
Sou direta.
Às vezes erro nas palavras.
Ainda hoje, não me sinto confortável com estranhos me abraçando.
Evito.
Mas existe algo que nunca faltou:
admiração.
Pela pessoa que ele é.
Pelo pai que se tornou.
Pela forma como trata as pessoas.
A tranquilidade.
A honestidade.
Isso ainda me encanta.
Nossa união não é perfeita.
Não é conto de fadas.
Tivemos momentos difíceis.
Diferenças.
Conflitos.
Mas tudo foi sendo ajustado.
Construído.
Hoje, temos algo sólido.
Algo real.
E, do meu jeito…
eu amo.
Amo tudo que construímos.
Amo a família que temos.
E amo a pessoa que está ao meu lado…
em todos os momentos.
Capítulo 17 — O que eu sentia e ninguém via
Desde criança, eu sabia que havia algo diferente em mim.
Eu não sabia explicar.
Não tinha palavras.
Mas eu sentia.
Era uma sensibilidade que ia além do normal.
Eu percebia ambientes.
Sentia pessoas.
Captava coisas que, muitas vezes, ninguém ao meu redor parecia notar.
Por muito tempo, achei que era coisa da minha cabeça.
Mas não era.
Havia momentos em que eu sentia despedidas…
antes mesmo delas acontecerem.
Uma sensação de perda.
Um aperto.
Um vazio antecipado.
Como se algo dentro de mim soubesse.
Também carreguei, por muito tempo, a sensação de não estar sozinha.
Como se estivesse sendo observada.
Vigiada.
E isso, para uma criança, não era fácil de entender.
Não era medo comum.
Era algo mais profundo.
Algo que eu não conseguia nomear.
Então, eu calei.
Guardei.
Como fiz com tantas outras coisas.
Capítulo 18 — Fé, dor e o invisível
Minha relação com a fé nunca foi simples.
Ela foi construída… e desconstruída… várias vezes.
Depois de tudo que vivi, eu me perguntava:
Onde Deus estava?
Por que ninguém via?
Por que ninguém fazia nada?
Eu questionei.
Me afastei.
Mas, mesmo distante…
algo sempre me puxava de volta.
Talvez não fosse religião.
Talvez fosse algo maior.
Com o tempo, comecei a entender:
a fé das pessoas ao meu redor também influenciou minha história.
Algumas para o bem.
Outras… nem tanto.
Nem toda fé cura.
Nem toda crença protege.
Aprendi isso na prática.
Mas também aprendi que a minha fé…
precisava ser construída por mim.
Sem imposições.
Sem medo.
Hoje, minha fé não é perfeita.
Mas é consciente.
E, principalmente…
é minha.
Capítulo 19 — O agora, com mais consciência
Hoje, eu me vejo diferente.
Não porque tudo passou.
Mas porque eu aprendi a olhar para tudo de outra forma.
Ainda existem dias difíceis.
Ainda existem lembranças que doem.
Ainda existem momentos em que minha sensibilidade fala mais alto.
Mas hoje… eu entendo.
Eu sei reconhecer o que sinto.
Sei respeitar meus limites.
Sei quando preciso parar.
Minha vida hoje é real.
Com responsabilidades.
Com família.
Com trabalho.
Com escolhas que eu faço todos os dias.
Não é uma vida perfeita.
Mas é uma vida construída.
Com consciência.
Com esforço.
Com verdade.
E, talvez, o mais importante:
hoje, eu sei quem eu sou.
Não aquela que disseram que eu era.
Não aquela que tentaram destruir.
Mas aquela que sobreviveu…
se reconstruiu…
e continua caminhando.
Epílogo —
Minha história continua
Minha história não termina aqui.
Ela continua em cada escolha.
Em cada dia que eu levanto.
Em cada passo que eu dou.
Se existe algo que aprendi…
é que ciclos se encerram.
Mas a vida… sempre recomeça.
E eu continuo.
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