Projeto Memória das Águas, Rios e Ruas
Entrevista de Luciana Cury (R1)
Entrevistado por Heloísa Ruas (P/1) e Bruno Oliveira (P/2)
São Paulo, 21 de maio de 2026
Entrevista número RIO_HV004
Transcrita por Nancy Santos
Revisada por Levi Andrade
(00:00:00) P/1 – Peço que você se apresente falando seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R1 – Meu nome é Luciana Cury. Eu nasci no dia 29 de fevereiro de 1972, em Assis, São Paulo.
(00:00:37) P/1 – E me diga qual é o nome dos seus pais.
R1 – Minha mãe se chama Maria Odélia da Cunha Cury e meu pai se chama Neife Cury.
(00:00:45) P/1 – Como você descreveria eles?
R1 – Meu pai era uma pessoa que trabalhava demais, numa cidade do interior. Eu sou a segunda filha de quatro. Minha mãe sempre esteve com a gente. Nossa casa sempre estava cheia de gente: cada irmão levava dois amigos para almoçar, jantar às vezes, então era um batalhão. Meu pai era mais tranquilo e pacato, típico de cidade do interior. Minha mãe sempre foi mais arrojada, gostava de São Paulo, viajava. A gente morava numa casa que tinha uma parreira gigante no fundo do quintal, como toda casa de bom árabe, para fazer charutinho de uva. E tinha um abacateiro, um mamoeiro por uma época. Eu queria fazer uma horta no quintal, mas minha mãe nunca me deixou. Tinha maracujá do vizinho que ia para o nosso quintal, bucha do vizinho também. Era gostoso.
(00:02:12) P/1 – Seu pai e a sua mãe trabalhavam com o quê?
R1 – Meu pai era médico. Minha mãe chegou a fazer magistério na época em que estudou, bem antes de estudarmos no colegial, mas ela nunca efetivamente trabalhou com isso. Casou relativamente cedo e depois começou a ter filhos. Com quatro, para dar conta, era uma jornada completa.
(00:02:45) P/1 – E você sabe como eles se conheceram? Foi em Assis?
R1 – Foi em Assis, no casamento de um amigo do meu avô, pai da minha mãe. Meu pai era amigo desse senhor, que era descendente de libaneses também. O pai da minha mãe e meu avô eram amigos desse mesmo senhor que estava se casando, e eles se conheceram nesse casamento.
(00:03:16) P/1 – E você chegou a conhecer os seus avós?
R1 – Conheci, tanto do pai quanto da mãe. Meus avós paternos eram libaneses, imigrantes. Meu avô era o irmão mais velho de, se não me engano, sete ou oito; havia uma mulher nesse meio desse bando de homens. Eles tinham uma rede de cinemas no interior de São Paulo, nas décadas de 1930 e 1940. Eu me lembro do meu tio-avô mais novo, irmão mais novo do meu avô. Ele contava que, quando lançavam o filme, esticavam um lençol e para refletir a luz do filme e ficar mais nítido, molhavam o lençol, porque a água refletia melhor a luz, então a imagem ficava com mais qualidade. Eles tinham lojinhas, óbvio – todo bom árabe libanês tem lojinha. Os cinemas ficavam em várias cidades pequenas, muitos eram ao ar livre. Depois, os cinemas no interior foram ficando menos frequentados. As salas que eles tinham acabaram sendo alugadas para igrejas. Isso aconteceu muito no interior: teatros e salas viraram locais para as igrejas crescerem. Essa era a história do meu avô paterno. Minha avó paterna também teve vários filhos e sempre foi do lar. Ela cozinhava maravilhosamente bem. Teve uma fase em que todo domingo íamos almoçar na casa deles. Meus avós maternos: meu avô era brasileiro desde sempre, pelo que me lembro de perguntar. A mãe da minha mãe era filha de italianos imigrantes, que vieram trabalhar no café na época da lavoura de café, da época áurea do café no interior de São Paulo. Meu avô foi, se não me engano, professor da minha avó na fazenda onde a família dela morava. Meu bisavô trabalhava nessa fazenda. Foi assim que meu avô conheceu minha avó. Minha avó casou-se bem cedo. Meu avô depois chegou a ser prefeito de uma cidadezinha pequena chamada Ipaussu, no interior de São Paulo. Depois eles se mudaram, porque meu avô trabalhava com contabilidade. Ele fez um concurso para fiscal federal e foi transferido para Botucatu. Então minha mãe e minha tia nasceram em Ipaussu e depois se mudaram para Botucatu, no final do primário, ginásio, por aí.
(00:07:21) P/1 – Você estava contando do charutinho. Eu queria saber se tem alguma comida ou algum cheiro, alguma festa que lembre essa infância.
R1 – Cheiro total: cheiro de charutinho de folha de uva fervendo no fogão. Você entrava – era tipo abrir a porta da casa da minha avó no domingo – e era esse o cheiro que vinha. Super gostoso. Outra coisa que a gente tinha muito na casa dos meus avós paternos: eles tinham um mini quintal, que também tinha uma parreira, e minha avó tinha um canteiro de ervas. Tinha muito hortelã, manjericão e erva-doce. Eu me lembro de quebrar o talo da erva-doce e comê-la direto do pé. Lembro dessa coisa de mexer na terra, colher hortelã. A comida árabe tem muito hortelã. Era interessante.
(00:08:28) P/1 – Você estava contando que essa relação com a terra vem desde sempre na sua vida. É desde essa época?
R1 – Eu me lembro uma vez que eu tinha alguns amigos da escola cujos pais tinham um sítio na zona rural de Assis ou em alguma outra cidadezinha próxima, e a gente ia para os sítios. Eu dizia: "Ai, queria tanto ter um sítio". Meu pai respondia: "Tem um monte de coisa para fazer na cidade, não precisa ter sítio". Assis, nessa época, era uma cidade muito pequena. Da minha casa, se eu subisse no telhado, enxergava o fim da cidade. Que era uma metrópole. Meu pai dizia: "Sítio dá muito trabalho, vamos ficar na cidade". Então, se você pensa que hoje eu estou em São Paulo, essa cidade absurda de gigante. E eu acho que minha mãe também não gostava muito de terra. O quintal da minha casa, apesar de ter a parreira, tinha lajota, não era terra. Quando fui morar no meu primeiro apartamento, fiz questão de ter uma varanda para ter um vaso, alguma coisa para plantar. Eu plantava de tudo, mas lá não batia sol. Erva-cidreira foi uma coisa que sobreviveu a duras penas, e eu fazia chá de cidreira fresca.
(00:10:07) P/1 – Você tem mais três irmãos, não é?
R1 – Isso.
(00:10:14) P/1 – Eu queria saber os nomes deles e como era a relação de vocês na infância.
R1 – Minha irmã mais velha se chama Liliana. Depois venho eu, depois meu irmão Renato e o caçula, Ricardo. O Renato e a Liliana sempre foram mais afins; os dois são mais claros, têm cabelo mais claro. Eu e o Ricardo, meu irmão mais novo, tínhamos cabelo mais escuro, pele mais escura, pegávamos mais cor na praia. A Liliana e o Renato são advogados. O Ricardo é engenheiro. Ele não mora no Brasil hoje, mora fora. Minha irmã mora em Piracicaba e meu irmão Renato mora em São Paulo também. Havia uma coisa daquela época: menina e menino. Em casa tínhamos as duas meninas primeiro e os dois meninos depois. Minha irmã nasceu em 1970. Havia uma divisão no funcionamento da casa: as meninas tomavam banho antes, os meninos depois; dividíamos um banheiro. Eu e minha irmã dormíamos num quarto, meus dois irmãos no outro, e dividíamos um banheiro. Existia uma separação. Uma questão daquela época. Os meninos podiam ficar na rua até mais tarde. Não que a gente não brincasse na rua – brincávamos –, mas os meninos ficavam até mais tarde e as meninas tinham que entrar mais cedo. Era bem assim: a menina tem que se comportar melhor do que os meninos. Isso está começando a ser desconstruído de modo mais ferrenho agora, mas existia. E em Assis nós estudamos até o colegial. A minha irmã veio para São Paulo para fazer cursinho e depois passou na PUC [Pontifícia Universidade Católica] . Na sequência fui eu. Prestei vestibular saindo da escola e já entrei direto. Não queria vir morar em São Paulo, mas passei na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo]. Aí me disseram: "Como assim você não vai? Você tem que ir". Eu tinha prestado vestibular em Londrina, cidade bem próxima de Assis. Queria estudar em Londrina, mas não passei. Passei aqui, então vim. Nos primeiros seis meses achei tudo uma maluquice, queria voltar para casa, largar a faculdade. Mas, no segundo semestre do primeiro ano, fui encontrando minha tribo dentro daquela grade absurda que era a FAU naquela época. A faculdade era integral, com cargas de créditos enormes. Arquitetura e Urbanismo tinham o mesmo peso no currículo, mas também Desenho Industrial, Programação Visual e Paisagismo tinham o mesmo peso. Era como ter cinco faculdades dentro de uma. As pessoas entravam achando que iam ser arquitetas e viravam designers gráficas ou um Chico Buarque – a FAU tinha essa formação completamente aberta. Hoje vejo que era superlegal. Mas eu vim de Assis, daquela vida pacata do interior, comendo uva do pé, fazendo charutinho. Caí aqui e vim morar em Perdizes. Pegava ônibus para ir para a Cidade Universitária: uma hora e meia para ir, uma hora e meia para voltar. Chegava em casa às sete da noite exausta, com um monte de trabalho. No fim, você acha sua tribo para sobreviver àquilo que está tirando o seu sono. E assim foi. Quando acabei a FAU, ganhei uma bolsa nos Estados Unidos para Design Gráfico. Fiquei nos Estados Unidos por um ano e meio. Quando voltei, disse: "Não fico mais em São Paulo. Essa cidade engole a gente". Comecei a mandar currículo para todos os lugares, menos para São Paulo. Fiquei seis meses sem conseguir nada: mandei para Salvador, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis e Rio de Janeiro. Nada. Aí eu falei: “Bom, seis meses, né? Vamos dar um currículo aqui, outro ali” . Naquela época era carta, eu punha o currículo no correio, imprimia, dobrava, colocava uma cartinha. Na semana seguinte que mandei currículo aqui, comecei a trabalhar. Então falei: "Está bem, é aqui que a coisa rola. Fico aqui mesmo".
(00:16:25) P/1 – Quero voltar um pouco para a sua infância. Depois a gente vai para a frente. Gostaria que você contasse mais sobre como era essa casa que tinha a parreira e os outros pés de árvore. Descreva como era. E como era a rua em que você morava.
R1 – Essa rua era muito curiosa. Uma coisa muito marcante na minha infância é que atrás da nossa casa passava o trilho do trem. O trilho fazia uma curva. Nossa rua, num certo ponto da cidade, era paralela ao trilho, mas no fim ela parava justamente por causa da curva do trilho. Era curioso porque tinha o trem da madrugada, o trem das dez, o trem das sete da manhã. Vários trens em vários horários. O trem passava no meio da cidade e apitava muito. Começávamos a escutar o apito longe, longe, e ele vinha chegando. Em cada cruzamento, tinha um senhorzinho que puxava a cancela para os carros pararem, e o trem apitava muito. A gente estava num lugar bem próximo desse cruzamento. Eu não acordava com o barulho porque nasci naquela casa – para mim fazia parte. A casa tremia com o trem de carga. Mas meus avós maternos, quando iam nos visitar, meu avô não dormia: o trem passava às dez, meia-noite, seis da manhã, três da tarde. Isso foi muito marcante porque a gente andava de bicicleta no trilho do trem. Há o trilho e uma lateral; nunca é só o trilho. A gente andava de bicicleta ali. Para cortar caminho para a casa dos amigos que moravam no outro bairro, você cortava pelo trilho: caminhava paralelo ao trilho, saía na estação ferroviária e ia para o bairro desejado. Era muito legal. Outra coisa muito marcante em Assis era que existia um raio de um café.. Eu lembro até hoje da embalagem do café. Não é à toa que fui trabalhar com o design gráfico. Lembro até hoje da embalagem azul, vermelhinha, com a figura de um homem de chapéu. Chamava Café Paulista. Todo dia, às três da tarde, ligavam o forno de torrar café – ou era a retirada do café torrado, ou a moagem. A cidade inteira ficava cheirando café, um cheiro delicioso. Eu não tomo café, mas toda vez que sinto cheiro de café me dá uma sensação gostosa. Por um tempo fiz aula de inglês e descia a rua da torrefação justamente na hora em que o cheiro saía pela chaminé. Era curioso isso. Não sei se ainda existe o café lá. O trilho do trem não tem mais. Não existem mais as linhas de trem de passageiros dessa época. Acho que ainda há algum trem de carga, mas deve ser um por dia, um por semana.
(00:20:49) P/1 – Não é tão frequente, mas como era?
R1 – Depois de estar morando aqui na faculdade, quando voltávamos em feriado, não me lembro muito de escutar o trem. Não tinha mais essa referência dos apitos.
(00:21:22) P/1 – Você estava contando sobre essa decisão de cursar arquitetura. Eu queria saber, na sua infância, se você tinha vontade de ser alguma coisa e se já era arquitetura ou se não passava pela sua cabeça.
R1 – Não era arquitetura, mas era arte, tinha a ver com arte. Sempre gostei de pôr a mão na massa, pintar, desenhar. Sempre houve uma fala que sei que algumas pessoas ainda escutam em suas famílias – um absurdo –: "Imagina, vai ser artista? Vai fazer o quê? Como vai viver?" Havia essa coisa. Então, racionalmente, fui pensando: onde posso me enfiar que tenha bastante contato com a arte, mas que seja uma profissão concreta aos olhos dos outros? Fui para arquitetura um pouco nessa vontade da arte, do sentir. Sempre fui muito sensível em relação a várias coisas na vida. Quando entrei na Faculdade de Arquitetura, percebi que ali a minha supersensibilidade, o querer fazer com a mão... Porque eu pensava: "Um dia vou construir uma casa". E na Faculdade de Arquitetura ninguém bota a mão na massa – pelo menos não naquela época, acho que ainda não hoje. As pessoas dizem: "Você aprende a desenhar". Não, eu queria construir com a mão, fazer uma parede de taipa, construir um forno de pizza. Na FAU rolou que, em encontros entre faculdades, construímos um forno de pizza. Mas percebi que era menos sensorial e mais racional. Lembro de um professor super famoso, de quem todo mundo morria de medo porque era um carrasco. Tínhamos que projetar um museu. No meu museu, fiz vários cantinhos, tipo cantinho do castigo, para a pessoa chegar com o livro e ficar sem precisar falar com ninguém se não quisesse. O professor descascou meu projeto: "O que é isso? Coisa curva? As paredes têm que ser retas, os espaços amplos para exposição". Eu disse: "Professor, mas isso nem é espaço de exposição. É para a pessoa que se encheu, quer ficar no canto dela, pegar um livrinho e ler". "Não, isso não tem qualidade." Para mim tinha. No final, passei na matéria, mas fiquei frustrada com a fala do professor de que no museu só podia ter espaços abertos e amplos, não o espaço do aconchego. Quando ganhei a bolsa para os Estados Unidos, era com Design Gráfico. Tinha pensado em terminar a FAU e estudar psicologia ambiental – como os espaços afetam psicologicamente as pessoas. Mas me inscrevi para o processo de bolsa e pensei: "Será que eu vou para psicologia? Eu vou ter que estudar tanta coisa do zero. Acho que eu vou para o gráfico.". Lá havia um laboratório todo com Macs, a universidade era incrível. Cheguei e vi 20 Macs na mesma sala, os alunos todos fazendo trabalho. Isso era em 1996. Lá eu já tinha e-mail, podia ter um site com meu domínio. Me correspondia por e-mail com meus amigos de lá – os daqui não tinham e-mail, era carta. Foi uma fase bem legal. Quando voltei, fiquei nessa busca por trabalho fora de São Paulo. Não consegui. Consegui aqui. Fui trabalhar com um cara muito bacana que tinha um estúdio de design meio velha guarda. Ele tinha Macs no escritório e achou o máximo eu saber operar Mac, porque era difícil, só havia Windows. Eu tinha trazido um Mac de lá, trabalhado e conseguido grana para trazê-lo. Tenho esse Mac até hoje guardado. Fiquei em São Paulo trabalhando com Design Gráfico, bastante na área editorial: livros, revistas, coisas de nicho. Por muitos anos trabalhei na área médica, com revistas para especialidades médicas. Fiz identidade visual. No começo, estava no escritório do Cláudio; depois fui para o escritório de umas amigas da FAU. Esse escritório perdeu clientes. E aí eu falei: “O que eu vou fazer da vida? Acho que eu vou voltar a dar aula de inglês”. Na época da faculdade eu dava aula. E começaram a aparecer trabalhos na área de Design Gráfico. Comecei com revista, com identidade, fui ficando.
(00:28:38) P/1 – Quantos anos você tinha nessa época?
R1 – Quando voltei dos Estados Unidos, tinha 24. Montei um escritório junto com outras pessoas, conheci um pessoal da Folha e outras jornalistas. Tínhamos um escritório junto: duas jornalistas e eu. Cada uma fazia o seu lance, mas às vezes tínhamos coisas em comum. No paralelo, ia fazendo minhas coisas: desenhava, inventava uma tinta...
(00:29:25) P/1 – Como é que ficava essa vontade do tátil, de fazer com a mão, enquanto você trabalhava com outras coisas?
R1 – No Design Gráfico, eu pegava um rolo, ia à loja de tinta, comprava tinta, passava o rolo na parede, furava a parede, fazia um decalque da parede furada num papel, escaneava e virava o fundo da minha matéria. Sempre fiz essas coisas: carimbo. Acabei de fazer uma capa de livro com carimbo de borracha que você esculpe com bisturi; depois carimba, faz a montagem, dá transparência. Ainda tenho essa coisa de fazer manual. Obviamente, Design Gráfico de revistas é tudo computador. Mas, até hoje, quando posso, meto uma coisinha manual no meio da história. Tinta. Lembro que fiz uma série de livros de receitas para pacientes de um laboratório farmacêutico. Tinha as tabelas nutricionais das receitas. Eu tinha voltado da padaria com um papel de pão, rasguei o papel de pão, escaneei e botei no formatinho: a informação da tabela nutricional aparecia no papel de pão. Sempre houve uma coisa de "mãozinhas" trabalhando. E cozinha: eu gosto de cozinhar. Cozinhar é muito manual: picar, misturar. “Tem que picar alguma coisa? Daqui que eu pico”. Faço, sabe? Misturo. Tem a coisa do olfato. "A cebola está boa?" "Não está boa ainda." "Como você sabe?" "Pelo cheiro." "O feijão já está cozido?" "Pelo cheiro." As referências vão sendo as minhas. É melhor do que falar "deixa o bolo 20 minutos", porque o meu forno é diferente do seu. Se eu estou na sua casa e digo que o bolo está pronto, é porque está pronto.
(00:32:19) P/1 – E de onde vem isso?
R1 – Não sei. Na minha casa sempre tivemos gente cozinhando. Eu gostava de ficar ao lado. Minha avó libanesa fazia as coisas, e uma irmã do meu pai também. Eu gostava de ficar na cozinha vendo a alquimia acontecer. De repente, um cheiro... Você pica, lava, e de repente pensa: "Nossa, o que é isso?" Eu achava aquilo mágico. Cozinhar leva ao plantar, o plantar leva ao cozinhar. Só eu que sou assim, na verdade. Minha irmã não gosta, minha mãe nunca gostou. Minhas avós gostavam. Mas só eu, porque minha prima também não gosta. Acho que só eu sobrei para levar o legado.
(00:33:42) P/1 – Me conte: quando você veio para cá – você não queria vir, mas decidiu vir – como foi a sua primeira impressão? Você chegou em Perdizes. Como foi a primeira impressão para morar?
R1 – Estranho. No interior, naquela rua onde conhecíamos todo mundo, você acordava no domingo, podia sair de pijama na sua rua, conversar com o vizinho de pijama, com a vizinha da frente de pijama e vinha o cachorro dela. Ao mesmo tempo, você tem uma casa, um espaço que prédio normalmente não tem, que é a antessala do público: posso sair na garagem, ainda estou dentro de casa, mas não dentro de casa propriamente. Aqui temos um quintalzinho que o Logan gosta de descer: é fora, mas ainda é dentro. Então, eu cheguei aqui e vim morar em um apartamento sem varanda. Pensava: "Preciso sair por algum lugar, pela janela, pela porta, pelo elevador". Quando você saía, já estava no público do condomínio. Não podia sair de pijama no elevador para descer e ver o movimento da rua, porque podia encontrar um vizinho desconhecido no elevador. Até me acostumar com essa coisa de "ou estou dentro ou estou fora" foi estranho. Depois de um tempo, já não estava nem aí, descia de chinelo mesmo e estava tudo certo. Porque no começo você pensa assim: “Nossa, as pessoas estão muito arrumadas no elevador. Será que é para ir à padaria?”. Depois fui relaxando. Mas foi estranho porque eu morava na rua Cardoso de Almeida, uma rua com muito ônibus, caminhão, carro, moto, um barulho louco. Se saísse do elevador, já estava no jardim do prédio, e logo a grade, a calçada. E todo mundo dizia: "São Paulo é perigoso". Então, era outra coisa que você vai aprendendo que dá para relaxar um pouco também. Pegava a lata de sardinha (ônibus) para ir à Cidade Universitária todos os dias. Conhecia as mesmas pessoas: alunos, cobrador, motorista, o cara da biologia, o da Poli (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), o da FEUSP (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo). Batíamos papo no caminho. Na volta, às vezes lia o que tinha de fazer de trabalho, ou dormia. A FAU era das oito às cinco. No segundo ano, se não me engano, tínhamos aula até as oito de terça e quinta. No primeiro ano, tínhamos aula no sábado. A vida era a faculdade. Fizemos ótimas amizades para a vida.
(00:37:48) P/1 – E essa decisão de ter vindo e depois de querer sair? Você conta que acabou ficando porque foi onde conseguiu emprego. Mas o que te fazia não querer estar aqui? Qual era o sentimento?
R1 – Sempre existiu essa coisa de "a minha alma é rural. Não faço parte dessa maluquice". Depois que trabalhei no Cláudio e na Marcela, comecei a trabalhar em home office, no meu próprio lugar. Fora a época em que alugávamos um escritório com as duas jornalistas, sempre trabalhei de home office. Isso me resolveu muita coisa em relação ao trânsito: não precisava pegar ônibus ou metrô na hora do rush. Marcava reuniões no meio da manhã, dez horas, três da tarde, para me movimentar sem ficar presa. Mesmo assim, algumas vezes fiquei presa. Mas você vai desenvolvendo artifícios. Para mim, aquilo sempre foi muito sofrido: perder tempo da vida. "Estou perdendo tempo da minha vida dentro desse ônibus." Sim, você leva livro, lê, dorme, mas é ali. Em Assis, o dia rendia, sobrava tempo. Aqui, quando você via, era oito da noite, não dava para fazer mais nada. Então, eu sempre me organizei para tornar São Paulo suportável. Tive várias crises. A primeira foi logo que mudei, nos primeiros seis meses de faculdade: queria voltar. A segunda foi quando voltei dos Estados Unidos: "Aqui não fico mais". Arranjei trabalho aqui. A terceira: eu tenho uma super amiga que mora em Campinas e eu ia muito para Campinas. Pensava “Campinas ainda é uma cidade grande, mas não tem aquele sufoco. Quem sabe se eu arrumar alguma coisa aqui e lá”. Mas aqui estava tendo mais trabalho, eu tinha o escritório com as amigas. Fui ficando. A próxima crise foi em 2012. Morava do outro lado da Avenida, perto da Pompéia. Entrei em pânico: "Não aguento mais essa cidade. Preciso ir embora. Preciso ter uma terra para pisar, para plantar". Chegou uma mensagem no Orkut falando da Horta das Corujas. Fui e disse: "Tribo! Essa galera gosta de botar a mão na terra". Passei a me juntar a eles nos sábados. Na sequência vieram a Horta da Pompéia e a Praça da Nascente. O que me segurou nessa última crise foi a história da praça e de uma comunidade fazendo diferença no lugar onde mora, melhorando a qualidade de vida. Aquilo para mim foi: "É isso! Vou me juntar com esses caras". Fizemos uma rede de pessoas porretas, um tecido social, uma colcha de retalhos. Isso me fez sentido ficar em São Paulo. Se fosse para outro lugar, tudo bem, teria a terra, mas estaria mais sozinha. Juntei-me a essa galera e fiz algo em que acredito. Curiosamente, retomei minha formação de arquiteta urbanista. Minha primeira ideia, antes de debandar para programação visual, era trabalhar com urbanização de favela. Meu trabalho de graduação na FAU foram seis meses nessa área de urbanização de territórios vulneráveis. Enfim, essa é uma outra história paralela. Eu namorava um canadense. Ia para o Canadá todo ano, e ele vinha para o Brasil. Terminei os seis primeiros meses do trabalho de graduação e fui para o Canadá – antes de ganhar a bolsa nos Estados Unidos. Quando voltei, debandei do urbanismo, não queria mais, fui para programação visual. Migrei meu trabalho de graduação, perdi seis meses e recomecei em Design Gráfico. Desenvolvi um brinquedo relacionado à pedagogia de uma escola de inglês onde dava aula para sustentar o namoro à distância. Eu bancava o namoro a longa distância e a gente se falava uma vez a cada 15 dias, não tinha e-mail, era carta e telefone. Então, eu dava aula e conseguia sustentar esse namoro internacional. Foram cinco ou seis anos. Quando encontrei a turma da praça, disse: "Fico em São Paulo por causa disso". A história virou uma bola de neve, envolvi-me na defesa do território da praça contra uma construção. Nesse meio tempo, comprei meu terreninho na roça. Compramos um terreno em Piracaia e construímos uma casa. Na pandemia, teve horta, as frutíferas estão bombando. Então, esse lado também está contemplado de alguma maneira, porque conforme a vida vai passa, você dá um jeito de realizar as coisas, senão fica uma linha flecha que você trabalha para pagar a conta. E foi muito legal na época, porque eu cheguei a discutir com o Guga para termos esse terreno, porque quando eu conheci o Guga, eu já tinha essa intenção de comprar um terreno na roça e ter uma rocinha. Ele topou, compramos, construímos a casa. Ficou pronta duas semanas antes de o Dória decretar a pandemia. Ficamos lá terminando de instalar minhocário, plantando grama, frutinhas.
(00:46:25) P/1 – É um refúgio.
R1 – Sim. Minha vontade era: assim que a casa estivesse pronta, "agora vou me mandar". Hoje é possível trabalhar remoto, as audiências públicas do Ministério Público por conta da praça eram remotas depois da pandemia. Tudo funciona de modo muito mais flexível. Ser presencial é muito legal, principalmente nos mutirões da praça – esses têm que ser presenciais. Outras coisas você resolve online. Por exemplo, dar uma entrevista, a pessoa te liga e você fala. A gente precisava de uma só cidadania. Você fala: “Toma aqui no e-mail. Manda por e-mail”. A vida ficou muito mais fácil. Ainda quero mexer com as mãos, plantar, colher, cozinhar. Isso está cada vez mais acontecendo. Você vai diminuindo o ritmo do trabalho; há muitos jovens que dominam as novidades tecnológicas mais do que eu. Não faço questão de saber mexer com tudo. Tem que haver espaço para essas pessoas trabalharem. Dizem que a IA vai tomar conta de muita coisa, mas acho que sempre haverá um humano, uma mãozinha fazendo a diferença. Plantar, ter a horta, manter... A horta dá trabalho no mínimo semanal. Você precisa estar lá uma vez por semana, olhando, mexendo, tirando, vendo como as coisas vão. Você aprende também que não se controla tudo. A horta é um organismo vivo. Depois que está estabelecida, é melhor ficar de longe observando do que interferindo demais. É uma maneira de continuar com meus fazeres manuais: cozinha, plantio, colheita.
(00:49:18) P/1 – Você contou que foi um e-mail que deu origem ao seu encontro com o pessoal da horta. Como é que foi esse momento? A decisão de ir até lá, de visitar e de se envolver.
R1 – Eu não sabia onde era essa Praça das Corujas. Começo: "Ah, acho que vou na Vila Madalena". O Guga – eu chamo ele de Guga Maps, porque ele tem a cidade de São Paulo na cabeça – eu falo: "Guga, você sabe onde é essa rua? Perto da Vila Beatriz, Horta das Corujas?" "Ah, já sei! Aquela praça que foi revitalizada com o projeto do Paulo." O Paulo tinha sido meu professor na FAU. Falei: "Ah, sei! O Paulo me lembra que, quando eu estava na FAU, ele chegou a comentar sobre essa história. Vamos lá ver. Vai ter um negócio, fazer uma horta". Eu cheguei lá. Tinha umas pessoas. Não era o que é hoje a Horta das Corujas. Era um gramadão, era um morro gramado com uns paletes, e eles estavam fazendo um esquema de plantar nos paletes. Nessa época eu já plantava na minha casa, nessa varanda floresta que eu estava falando para você. Plantava muito: salsa, manjericão, quiabo, pimenta. Um dia o Guga falou: "Cara, você tem que dar um fim nisso. As coisas já estão invadindo a sala, a varanda já virou um matagal". Na época que eu fazia ioga, comecei a levar todas as mudas para a aula de ioga. O meu barato era fazer e ver o negócio brotar. Era quase compulsivo. Plantava... Tinha um monte de coisa, não dava conta de consumir tudo. Dava para os vizinhos e comecei a levar muda, distribuir muda. Nessa de distribuir muda, fiquei sabendo que ia rolar uma coisa – não sei se ainda hoje tem, mas normalmente tinha regularmente – que era uma feira de troca de mudas e sementes. Regularmente tinha isso na Luz, no Trianon. Era um pessoal que organizava, e eu levava. Feira de troca de mudas e sementes: eu pegava duas sacolas cheias de coisa – mexerica, limão – levava e ficava nessa troca. Só que eu levava para esvaziar minha casa e voltava com muito mais coisas que eu não tinha. Você vai conhecendo as pessoas. Tinha um lugar aqui em Pinheiros que se chamava Casa Jaya. A Casa Jaya era um lugar que também tinha uma alimentação vegana, eles faziam umas oficinas. Na época, virou prédio, óbvio. Por causa disso, recebi esse contato dizendo que ia ter um mutirão de horta na Praça das Corujas. Eu fui. O Guga me levou, me deixou. Ele falou: "Meia hora está bom?" Falei: "Meia hora? Com um monte de muda? Meia hora vai dar para fazer nada?" Aí você chega: "Oi, tudo bem? O que você quer? Trouxe umas coisas aqui". Você se identifica, se reconhece naquele grupo de pessoas. Comecei a ir. Fiquei sabendo que ia ter um início aqui na Pompéia. Falei: "A Pompéia é mais perto para mim". Falei para o Guga: "Não vou mais nas Corujas, vou na Pompéia". O lance dessas ações em espaço público é que no começo é um super auê, depois sobram quatro pessoas para dar conta da história inteira. A Cláudia sempre falava isso, com toda razão. Quando eu falei "Putz, Cláudia, vou migrar para a Pompéia, que é mais perto", ela falou: "Não, mas é essa a ideia: que cada território tenha o seu espacinho ali". Da horta, a Roberta falou: "Tem uma praça aqui do lado que está abandonada". Eu falei: "Como assim uma praça abandonada em São Paulo?" Veio essa coisa do urbanismo, de toda a história da faculdade. Falei: "Vou lá ver. Se der para fazer alguma coisa para revitalizar essa praça, vou me juntar". As hortas já estavam com bastante braços, a história das hortas começou a ficar popular. Todo mundo ia. De domingo a cada 15 dias, todo mundo ia e fazia. Era muito legal. Aí eu falei: "Vou me juntar nesse grupo da praça". Quando cheguei lá, andei, e obviamente era tudo mato. Falei: "Gente, não é possível que uma prefeitura da maior cidade da América do Sul e da América Latina, fora o México, deixe um lugar desse detonar desse jeito". Era mato para todo lado e lixo. Mato e lixo para todo lado. Quando a gente começou a fazer os festivais da Praça da Nascente, a gente tinha um negócio que chamávamos de mutirão pré-festival. Os festivais sempre eram aos domingos. O mutirão pré-festival era no sábado: levávamos luva, saco de lixo, vassoura, tudo o que precisava. Saíamos de duas em duas catando lixo da praça. Garrafa de pinga, copo, roupa. Enfim, tudo o que você imagina tinha ali. Teve um festival em que recolhemos 17 sacos de 100 litros de lixo, bem no começo. Começamos a fazer campanha nos festivais, no microfone: "Pessoal, não é legal estar na praça? Não é gostoso? Se você veio para aproveitar, leve o seu lixo embora". Porque não tinha lixeira. Naquele espaço inteiro não tinha nenhuma lixeira. Nos primeiros festivais, a gente ficava até tarde, acabava o festival e ficávamos recolhendo garrafa de cerveja. Mas era mais fácil porque as pessoas acumulavam tudo num lugar só. No comecinho, quando a gente tirava lixo, era espalhado pela praça inteira. Era um trabalho de formiga. Começamos, no microfone dos festivais, a dizer: "Olha, cuidar do seu lixo faz parte de ser um bom cidadão também. Não estamos pedindo para você vir aqui com a gente, botar a luva e recolher o lixo. É para você tomar sua cerveja, pôr na sua mochila, jogar na sua casa. Porque aqui não tem lixo, não tem lixeira." A gente até deixava uns sacos amarrados nas árvores, mas não era uma estrutura para receber, porque os festivais começaram a lotar. Conforme a praça foi ficando mais segura e habitável, aí começou a ter despedida de solteiro, chá de bebê, casamento – teve na Praça da Nascente. Uma vez a gente chegou e tinha um ritual de dispersão das cinzas da mãe de uma vizinha da praça, que adorava ir na praça. Ela morreu, foi cremada e pediu para jogar as cinzas na praça. Chegamos e estava lá uma baita cerimônia, um ritual. As pessoas abraçaram o lugar. Festa de criança, aniversário. As escolas começaram a levar as crianças para ver o lago, os peixinhos. Isso me prendeu de novo a São Paulo. Fui ficando e toquei até hoje.
(00:58:17) P/1 – Como é que surge? Nessa época já tinha o bloco Água Preta?
R1 – Já existia. Acho que o primeiro carnaval do bloco Água Preta foi logo na sequência em que o Ocupe e Abrace chegou lá. Foi meio junto. Eu lembro que a gente saía nas vielas da vila onde o Água Preta passava, e eram 50, 100 pessoas no máximo. Era bem pouca gente, mas a gente ia porque era uma questão de honrar aquele ser. Hoje o bloco virou uma coisa gigantesca. Os visuais, as letras, as referências das letras do Água Preta... Cada ano é uma marchinha diferente. As pessoas se identificam. As pessoas da Vila Anglo, da Pompéia... O Água Preta agora já virou um bloco da cidade, não é mais um bloco de bairro. No começo era um bloco de bairro. Os fundadores do Água Preta, todo festival que tinha na Praça da Nascente, eles estavam tocando, se apresentando. É muito bacana. Um dos caras da época que eu conheci, o Wellington, está fazendo um doutorado sobre o Água Preta, o território da vila ali da Pompéia que o Água Preta permeia. Super bacana.
(01:00:15) P/1 – A gente estava conversando lá na Praça da Nascente sobre essa ideia de que, quando vocês chegaram lá, era um lugar que dava medo nas pessoas, que era fechado. Vocês viam as águas lá? Como é que era essa relação com as águas?
R1 – Aquela área que a gente hoje vê o lago era um charcão. As pessoas não passavam por ali porque todo aquele redondão que você pisava era um charco. Agora, a parte que a gente pisa ainda é bem úmida, mas como tem o lago ali que represa a maior parte da água, ali ficou um pouquinho mais seco, dá para pisar minimamente. Mas não dava: você pisava, seu pé afundava, ficava um brejão mesmo. Achamos aquilo estranho: de onde vem essa água? Algumas pessoas diziam que era cano da SABESP furado. Falamos: "Se é cano da SABESP furado, tem que consertar, porque a gente está pagando essa conta". Ligamos para a SABESP para perguntar se tinha algum tronco, algum cano ali. A SABESP retornou dizendo que não tinha nenhum cano do sistema passando por ali. Falamos: "Será que então é esgoto?" "Não, esgoto também não é – é a SABESP que cuida também. Não era água, não era esgoto." Então falamos: "O que é?" O funcionário disse: "Pode ser água de nascente". Falamos: "Como a gente sabe se isso aqui é água mesmo? Está limpa? Podemos pôr a mão?" Ele disse para falarmos com a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo). Na época, a CETESB fazia análise – não sei se era só de água ou de água e solo. Chamamos a CETESB para fazer análise da água daquele lugar, como era um lugar público. Nove meses depois, recebemos um calhamaço no e-mail com um monte de parâmetros, umas coisas que a gente não entendeu nada, porque era tudo químico. Um monte de números. Ligamos lá e falamos: "Que bom que vocês fizeram, obrigado. Mas a gente precisa de alguém para interpretar". O cara falou: "É o seguinte: vocês só têm que saber que aqui a água não é contaminada, mas vocês não podem bebê-la, não é potável, porque tem muito coliforme fecal". Nessa época, já tinha gente passeando de cachorro e ninguém recolhia o cocô do cachorro – que é outra coisa de educação. Agora na praça você passa e vê que as pessoas vêm com seus cachorros e recolhem o cocô. Pensamos: "Se isso é coliforme fecal, e nessa época a gente já estava no programa do SOS Mata Atlântica observando o Tietê, na próxima análise do SOS esse parâmetro vai baixar, porque vamos fazer uma campanha de recolhimento do cocô do cachorro". Fizemos. Desenhei plaquinhas, pintei, pregamos na praça: "Recolha o cocô do seu cão". As pessoas começaram a se tocar. Deixamos também uns saquinhos – não é a melhor solução pegar cocô de cachorro com saquinho plástico, mas naquela situação esse passo era importante para as pessoas começarem a perceber que não era para largar o cocô no chão. Depois de um mês, analisamos a água de novo e o parâmetro do coliforme fecal baixou consideravelmente. O coliforme fecal que apareceu na análise da SABESP era, de fato, de cachorro. Com uma campanha e umas plaquinhas feitas à mão, o negócio se resolveu. Às vezes a solução dos problemas é bem mais simples do que você imagina. Pensamos: "Puxa, a comunidade respondeu a um pedido, um chamado". Continuamos na análise da água. Havia o lago, já tinha a cacimba, tinha água, e estávamos naquela crise hídrica. Moradores em situação de vulnerabilidade começaram a ir morar na praça, porque tinha água – dava para tomar banho, cozinhar. Fomos vendo, conforme o tempo passou, que o impacto daquele lugar apto para a cidade como lugar de estar, encontro e lazer acabou virando até um lugar de dignidade para essas pessoas. Lembro que teve uma época em que tínhamos duas irmãs, uma de 15 e outra menor de idade. Elas iam para a praça com um baldinho, pegavam a água da cacimba e lavavam roupa. Punham a roupinha para secar ali. Ficávamos: "Gente, duas crianças". Aproximamo-nos para saber a história: tinham fugido de casa, o pai batia na mãe, e elas queriam ficar ali. Pensamos: "Será que chamamos a assistência social?" Porque são duas menores vulneráveis. Perguntamos se queriam que chamássemos a assistência social; elas disseram que não, porque a assistência social as mandaria de volta para casa, e elas não aguentavam mais aquela situação. Não sei o que aconteceu – acho que a gente comentou com elas, levamos comida, fruta. Não sei se elas escutaram, se algum vizinho falou que elas estavam por lá, e a prefeitura começou a ficar de olho. Elas se tocaram e foram embora. Na sequência veio um senhor, seu Carlos, ficou morando lá um tempão. Depois foi embora. Veio um casal com uma barraca, moravam lá em cima, perto da arquibancada. Você vai percebendo que é tanta carência em termos de dignidade na cidade, que quando você tem um lugar com água correndo numa bica – não potável, mas se ferver, a pessoa pode se lavar, passar no corpo – você vai se aprofundando na beleza e na mazela. Aquela ação trouxe muita coisa boa, mas também trouxe muita coisa que acontece na cidade e que muitas vezes a gente não vê. Pessoas que estão ali por necessidade de lavar roupa, de cozinhar. Por exemplo, as carpas do lago: tinham umas gigantes. Começamos a perceber que as carpas sumiam. Descobrimos que o senhor que morava lá pegava para comer. No começo você fala "vem aqui tirar foto, as crianças gostam". Aí você pensa: "Não, ele pegou para comer". O buraco é muito mais embaixo. É muito legal porque você vai entendendo, e aí você chega, obviamente, na política institucional. Uma coisa que a gente não queria era se meter com política, se meter com vereador, falar com subprefeitura. A gente não queria. "Não, a gente não veio fazer isso aqui. A gente quer cuidar da praça." Mas necessariamente você cai na subprefeitura, você cai na política. A gente cuidava das águas – até hoje cuidamos das águas. Só que capinar a praça, 12 mil metros quadrados, quem vai fazer isso? É a prefeitura. A gente não vai. Chegamos a uma época em que tínhamos uma roçadeira, e o DJ, um vizinho francês, casado com uma jornalista brasileira, punha o seu macacão, a sua boina de francês, e ia capinar a praça com o maior sotaque. Era muito legal, mas isso não dá conta do problema real: espaços verdes públicos, não só a Praça da Nascente, mas na cidade toda, precisam de manutenção e cuidado. Você fala: "Pô, não quero me meter com política". Só que você já está metido na política porque tudo é política no final. Tudo o que você faz é política. O que você compra no mercado é política. Não tem como escapar. Tudo isso vai trazendo mais camadas de entendimento dessa coisa sutil e de como esse sistema funciona. Você começa a entender: "Ah, mudou o subprefeito. Ah, o vereador está..." Você vai conectando os pontos e acaba entendendo como chegamos onde chegamos. Você fala: "Cara, é uma crise moral e ética gigantesca". Obviamente o coletivo Ocupe e Abrace não vai dar conta, o grupo que cuida da Horta das Corujas não vai dar conta, mas aflora algum entendimento, alguma consciência que vai fazendo diferença. Estamos nesse processo da praça desde 2013. Já se passaram 13 anos. Não foi do dia para a noite. Se me falassem: "Olha, se você começar a se envolver com esse grupo, vai ficar 13 anos nesse negócio", eu ia falar: "Você está louco, tenho mais o que fazer da vida". Mas é isso: você vai voluntariamente, faz uma coisa, o outro faz outra. Quando vê, está envolvida até o último fio de cabelo. A sua célula sente o que está acontecendo. É um nível de decantação. Aquilo vai tomando forma e você vai entendendo muitas outras coisas.
(01:12:36) P/1 – Como foi esse processo de vocês descobrirem que lá tinham várias nascentes.
R1 – Então, a gente pisava e era charco. Chamamos a CETESB, porque tinha água. A CETESB falou do coliforme fecal, mas que a água era boa. O Adriano, que já tinha, aloucadamente, ido numa madrugada cavar a primeira parte do lago, já estava feliz porque tinha feito um lago próprio – era o sonho de criança dele. Continuamos com isso. Nessa época, tinha um grupo gigante, então fazíamos mutirões festivos. A gente ia para a praça sábado, três da tarde, e saía sábado, dez da noite. Fazia uma fogueira no final, levava cerveja, batata-doce na fogueira, ficávamos conversando, chegavam com violão. Essa história das águas, por curiosidade, não tinha nada a ver ainda com a história do prédio, porque as casas continuavam ali. Alguém virou e falou: "Mas isso aqui está no mapa de São Paulo? Está no mapa de São Paulo que essa praça é cheia de nascente, cheia de água?" Já tínhamos contato com o Luiz e o Zé, do Rios e Ruas. O Zé levou um quebra-cabeça de EVA que eles tinham no começo do Rios e Ruas para a gente montar na praça. Tem foto disso. Montamos o quebra-cabeça: "Aqui é o Ibirapuera", para ter noção de onde a gente estava. Resolvemos chamar o IGC [Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo], porque não havia nenhum mapa de São Paulo, dentro do site da prefeitura, que tivesse essa nascente mapeada. Tinha o Água Preta passando perto, bem perto, ali na rua onde paramos o carro. Falei: "Nossa, olha que uau, o Água Preta está passando aqui". Chegamos no IGC e perguntamos: "Por acaso vocês têm mapa dessa região? Queríamos saber se aqui são nascentes mesmo". O IGC disse: "Não, a gente não tem, mas a gente pode ir aí mapear". Eles fizeram, outro órgão público mapeando um espaço público, e nos deram um mapa, hoje oficial, apontando os pontos de afloramento de água do território, tanto da praça quanto do entorno. Aquele do Cidão que eu mostrei está mapeado, o da loja de carros usados está mapeado, o dentro do terreno que eles queriam construir o prédio está mapeado. Tudo isso antes de Ministério Público, antes de demolirem as casas. Temos esse documento oficial do estado de São Paulo dizendo: "Olha, essa região é cheia de nascentes, isso configura um anfiteatro de nascentes que formam o Córrego da Água Preta". Todo esse movimento foi acontecendo meio junto: o bloco, o Secura Humana, a história do Cerrado, o IGC. Um dia, escutamos de um morador, um senhor que morava numa dessas casas antigas (década de 1950, não existia legislação ambiental). Ele disse: "Curioso: os vizinhos não se conversavam entre eles, mas eles conversavam com a gente que estava atuando na praça. A gente era um elo de conexão entre os vizinhos. Eles diziam: 'Veio uma construtora aqui querendo comprar o meu terreno e falou que é só o meu que falta vender'." Fomos atrás. Descobrimos a construtora. Ela fez uma análise de perfuração do solo para ver o nível da água. Essa primeira construtora desistiu de comprar porque o lençol freático era muito aflorado – não precisava cavar muito para a água aparecer. Isso significa, para uma obra que tem que afundar, um custo e uma questão técnica importantes. Essa construtora existiu. Na sequência, veio uma outra. Só ficamos sabendo dela quando o trator já estava demolindo as casas. Eram sete ou oito casas naqueles 1.400 metros quadrados. Fomos atrás. Descobrimos como fazer para ver se eles tinham alvará de construção. Entramos no site da prefeitura e eles não tinham alvará de construção, só tinham alvará de demolição. Entramos e falamos: "Olha, estamos com esse empreendimento para autorizar, liberar, dar o alvará para construir, só que recebemos uma denúncia e vocês precisam verificar se existe essa questão ambiental nessa região ou não.”. A Secretaria do Verde, que já tinha dito que não havia problema ambiental por ali, demorou quase um ano para retornar para a Secretaria de Licenciamento dizendo que não havia problemas. Só que nesse meio tempo, a gente já tinha entrado no Ministério Público do Meio Ambiente. Eles disseram: "Deixa eu entender o que está acontecendo". Fomos dando os documentos: o documento do IGC, a análise da CETESB, tudo o que a gente tinha feito por curiosidade acabou virando prova para o Ministério Público. A gente chamava a praça de "Praça Elfa", porque a gente só faz o que ela faz a gente fazer. Já tínhamos mais ou menos uma defesa coordenadinha. A gente falava: “Nós trouxemos de volta essa praça para o bairro, para a cidade. Olha os festivais”. E mandamos os vídeos dos festivais, as fotos dos festivais. O promotor disse: "Nossa, que sensacional. Preciso de depoimentos de moradores antigos. Porque não tenho dúvida de que isso é um lugar importante e que precisa ser conservado ambientalmente. Mas preciso de mais gente falando. Preciso que vocês saiam no jornal." Começamos a sair no Estadão, na Folha. A Folha fazia uns pequenos vídeos de casos do Caderno Metrópole. Eles foram lá, fizeram um vídeo, e a gente mandava tudo para o promotor. Mandamos um vídeo do Instituto Alana. Esse vídeo, chamado Criança e Natureza, tem uma grande parte filmada na Praça da Nascente, com crianças no lago mexendo na água, brincando na terra e pegando no barro. Porque ali embaixo é uma argila que você consegue modelar, tipo massinha. Tem argila lilás, cor-de-rosa, amarela, vermelha – coisa mais linda. Mandamos o vídeo. O promotor disse: "Eu quero que vocês contem a história da praça num vídeo com a qualidade do documentário do Alana". Foi aí que entrou a Gabi, que queria muito participar e fortalecer a causa. Ela fez o documentário A Nascente Mora Aqui, que fala especificamente da história do prédio, desse processo, e de como a prefeitura liberou a construtora da análise de impacto ambiental, de impacto de vizinhança, enfim, um monte de coisa. A água já tinha virado protagonista total dessa história. Aliás, a água virou protagonista total da história da praça quando veio o lago, e logo na sequência veio a crise hídrica (2014, 2015). A gente ia na Praça da Nascente e aquela água correndo naquele caninho preto continuou correndo durante toda a crise hídrica. Ela não parou, não secou. Diminuiu um pouquinho, mas tem vídeo de 2014 da água correndo – as torneiras da Pompéia estavam secas, e ali tinha água. Isso começou a gerar uma discussão sobre como a gente desperdiça um potencial desse tamanho de resiliência urbana, climática. A construtora diz que não existem nascentes, que é água da chuva. Faz dez anos, mesmo nas épocas de seca, a água da chuva aparece só na Praça da Nascente. É um contrassenso. Alguém que trabalhe com construção e saiba de lençol freático falar uma coisa dessas. Qualquer criança que a gente leva para visitar a praça, no meio da estação seca, vira e fala: "Olha, está saindo água da terra, sem chover". "Você acha que isso é água da chuva?" "Não, não é água da chuva, não está chovendo." Qualquer criança entende. Mas eles insistem em dizer que é água de chuva. Já disseram que era água de cano rompido, mas a gente já tinha ido atrás da SABESP muito antes para saber que não era. Eu acho que eles não contavam que os "hippies" da Praça da Nascente eram tão articulados e informados, tão curiosos e nerds no sentido de tentar descobrir de onde vinha aquilo. Estamos aqui ainda resistindo. Todos que foram se juntando à causa da Praça da Nascente vieram voluntariamente: hidrogeólogo, geógrafo, geólogo, advogado, orientação de promotor, urbanista, arquiteto, Doutor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina. Todos se juntaram dizendo: "Temos que preservar isso". Virou um assunto que saiu na Folha, na Veja, no Jornal Nacional, no SPTV, na Record, no Quintal da Cultura no ano passado. Todos os grupos ativistas por espaço verde e pela água em São Paulo conhecem a história da Praça da Nascente. Começamos a ser chamados para orientar outros grupos em outros territórios para atuarem no espaço público. É muito legal porque, no começo, as pessoas chegavam e falavam: "Ah, eu sou da Zona Leste, tem uma praça enorme perto da minha casa. Vocês não querem ir lá fazer pra gente?" Falávamos: "Ir lá fazer pra vocês é muito pouco perto do que vocês mesmos podem fazer pelos seus territórios". Esse menino, até hoje tenho contato com ele, conseguiu juntar uma galera lá. Tinha água na praça dele. Ele começou a fazer festa junina, virou conselheiro do CADES [Conselho Regional de Meio Ambiente] da região dele. A pessoa vai tomando para si a história, e o negócio vai reverberando, vai brotando. Então eu acho que toda essa história da do Água Preta catalisar essa galera, no fundo, é o rio se defendendo, é a água se defendendo. É de um tamanho, de uma potência ambiental, educacional, social que não tem tamanho. É um negócio case que eu, obviamente, levo para a minha vida. Continuo lá nessa história do prédio com o Ministério Público. Estamos chegando agora num finalmente importante em primeira instância. Tudo isso aconteceu porque eu estava em São Paulo, de alguma maneira. Essa minha vontade de sair, de ir embora, no fim, continuo aqui por causa disso, por causa da Praça da Nascente.
(01:29:08) P/1 – Qual é a potência da Praça da Nascente?
R1 – As pessoas que estavam originalmente lá no clube e participaram desde o início de toda a formação do que aconteceu ali, todos que estavam têm uma fala do tipo: "Isso transformou a minha vida". Independentemente da pessoa ter ficado até quando a gente fazia os festivais e depois ter parado, independentemente de ter participado dos três primeiros festivais e depois ter saído e voltado no décimo terceiro, independentemente de estar hoje ou não envolvida com essa história do Ministério Público e do prédio, eu acho que todo mundo que passou por ali, que passa por ali – porque a gente continua tendo mutirões, o Cerrado Infinito, o Daniel – tem ali uma sensação de que a gente pode mais. Eu duvido que alguém que passou pelo processo da história da praça até hoje, em algum momento, tenha saído se sentindo menor no sentido de "ah, não vou fazer porque não vai dar certo mesmo". É justamente o contrário: todo mundo que passou saiu pensando "Putz, esse negócio é potente, dá para fazer mais". É um empoderamento. O Água Preta nos empoderou a todos, de um jeito lindo. Eu brinco: quando você está meio exausto de computador, de trabalho, dá uma voltinha na praça. Só de dar uma circulada – sobe a escada, vai na arquibancada, desce, vem no lago e sai – você se transforma, sai de outro jeito do como você entrou. Como cidadão, é uma potência louca. Sempre fui muito poliana. "Ah, vai dar certo. Ah, vai rolar." E sempre tudo rolou na minha vida até hoje, então vou continuar meio poliana. Obviamente, você amadurece, vai sacando que aqui não vai rolar, vou por lá. Você entende que tem coisa que não vale a pena. Escolhe melhor as suas batalhas. O que eu já ouvi de amigos próximos, família: "Cara, você fica aí se dedicando a essa história, o que você ganha com isso?" Eu falo: "Eu? Eu ganho uma praça, eu ganho um lago, eu ganho um rio. Você também ganha". São Paulo é muito isso: tem essa cabeça de "trabalhar para ganhar dinheiro". O mote daqui é um pouco esse. Quando as pessoas veem alguém dedicando tanto tempo, tanto esforço, tanto estudo para organizar aquilo ali de um modo que se sustente e continue, de modo voluntário, as pessoas falam: "Você está ficando louca, você perdeu o seu domingo. Você podia estar fazendo outra coisa. Vamos viajar não esse fim de semana? É fim de semana de festival." Mas é festival! Já teve dez! "Como assim? Você vai..." Vou ficar! Você não tem noção do que acontece nos festivais. Teve um festival que estava lá o Chico César, que mora próximo da região, o Carlos Rennó, o compositor. Nesse processo contra o prédio, a Ná Ozzetti (cantora) se manifestou, a Blubell (cantora) se manifestou, atores da Globo se manifestaram em prol da ampliação da Praça da Nascente. É muito legal como o assunto toca as pessoas. Espaço verde público, ainda mais nessa área que a gente vive – vem um super El Niño aí no segundo semestre, todo mundo está falando disso. As pessoas se tocam e falam: "Escuta, vai fazer diferença um prédio a mais aqui? Para quem mora na cidade, não. Tem um monte de apartamento vago ali. Agora, um pedaço de praça a mais na Pompéia vai fazer diferença para todo esse pessoal que está aqui". É relativizar. O promotor falou isso para a gente bem no começo: "Olha, eu estou vendo que vocês estão com fôlego, vai ter épocas que vocês vão estar sem fôlego, porque é assim mesmo, tem altos e baixos, faz parte do processo. A justiça é meio lenta, morosa. Nesse meio tempo, vamos alimentando com provas tudo o que acontece ali”. Se a gente não acreditar, se a gente deixar isso acontecer, vai ser um precedente tão absurdo e um prejuízo tão grande para o bairro e para a cidade que não tem como mensurar. Imagina toda aquela vegetação morrendo porque o lençol foi rebaixado. Ele falou: "Vocês são um grupo de pessoas defendendo um espaço público. Eles são um grupo de pessoas defendendo um espaço privado com potencial de prejudicar o espaço público". Tem que se ligar nisso. Em São Paulo, tudo é privado. "Ah, eu pago." Você parar na rua, paga. Estacionamento, paga. Shopping, paga. Você respira, paga. Você toma água, paga. Defender uma coisa que estava ali, que as pessoas voltaram a frequentar e gostar, uma coisa que nem todo mundo poderia acessar, acho que faz muito sentido. Não tem muito o que questionar: de que lado da história você vai ficar?
(01:36:46) P/1 – É meio óbvio.
R1 – É meio óbvio. Pena que os nossos poderes públicos não entendam assim.
(01:36:56) P/1 – Neste projeto, principalmente agora, fazendo essa brincadeira com rios e ruas, a gente sempre pensa um pouco em perguntar os rios como sujeitos. Era aquilo que eu estava te contando. Acho que você responde na sua própria história. Mas, em vez de perguntar "qual", na verdade: quem é o seu rio?
R1 – O meu rio é a Água Preta. Não tem muito como ser diferente em São Paulo. Mas eu tenho vários, na verdade. Em cada território você pode ter um rio. Não é só um.
(01:37:30) P/1 – E que histórias o Água Preta te conta?
R1 – Muitas histórias de potência. Aquilo ali é uma entidade, de fato. Se você já andou por ele e escutou o Água Preta, é um barulhão. Tem um lugar, no caminho que ele faz, que tem uma grelha do outro lado da Pompéia, um pouquinho antes de chegar na viela que o Secura Humana faz uma intervenção artística incrível. É como se fosse um bueiro. Não sei se chega a ser um bueiro. É um bueiro que a água da chuva vai, e tem uma grelha. Você chega ali. Primeiro, vai chegando perto, vai escutando. Conforme você vai abaixando, o bicho está gritando ali. Você enxerga aquele movimento: a água batendo, correndo. Sobe uma coisa fresca dali de dentro – é o Água Preta vivíssimo. Pena que ele está ali escondido. É um desperdício de experiência para a população, um desperdício de potência para a cidade, de ter lugares frescos. Imagina essa minha rua, só que dois muros de um lado e de outro, que são fundos de prédios, nada acontece ali. O Secura fez uma intervenção linda: fizeram um tanque com uma torneira, que você abre e fecha – não, a torneira fica aberta, e os moradores de rua vão ali e se servem dessa água. Tem vários vídeos. Esse é o Água Preta aparecendo onde alguns grupos fizeram alguma coisa. E tem também um tanque ali na travessa do Secura, que é muito legal. Água Preta é meu mano. O bloco do Água Preta tem uma marchinha. (Canta): "água Preta, meu mano. Evaporei, tô invisível, você não me vê. Quando chover, eu deságuo em você." É muito bom.
(01:40:41) P/1 – E que história você contaria para ele, se você pudesse falar com o Água Preta?
R1 – Nas expedições do Rios e Ruas a gente fala com ele. Acho que eu contaria essa história de que, por causa dele, eu continuei em São Paulo – e não mais tão ressentida, bem mais relaxada. Ele foi o responsável por eu ter momentos de relaxamento em São Paulo, de alguma maneira, e por eu continuar aqui nessa maluquice. Porque tudo está aí, a maluquice continua. Mas saber que posso contar com ele faz toda a diferença.
(01:41:47) P/1 – Parece um sentido. Dançando no Rio.
R1 – É. Total.
(01:41:57) P/1 – O que é importante para você hoje na sua vida?
R1 – Cada vez quero menos coisas. Não quero coisas. Cada vez quero mais lugares bacanas e onde eu puder dar uma ajuda de alguma maneira, onde eu puder chegar e falar alguma coisa para mudar alguma coisa desse estado de coisas que a gente tem visto e vivido. Quero retomar minha horta em Piracaia, quero plantar mais árvores frutíferas – as frutas de lá são maravilhosas. Quero ter mais tempo para isso também e cozinhar. Cozinha é uma coisa que quero explorar mais. Onde eu puder estar e acrescentar alguma coisa, estarei, especialmente nessa questão urbana. Em Piracaia, já me envolvi. Tenho um rio lá: o Rio Cachoeira, que atravessa a cidade. Coitado, ele é maltratado. Mas quem sabe um dia... Falei com o Zé outro dia: "Bora fazer uma expedição no Rio Cachoeira". Já fiz um mapeamento, peguei um mapa. Nasce em Minas, desce a montanha, cruza ali. Talvez a gente faça um Rios e Ruas em Piracaia.
(01:43:58) P/1 – Esses são os seus sonhos?
R1 – O Rios e Ruas em Piracaia é um grande sonho. Tem bastante gente que gosta da ideia. Porque fiquei quatro anos no Conselho de Meio Ambiente Municipal da prefeitura de lá. O conselheiro da sociedade civil sempre chega com umas ideias que o prefeito torce o nariz, mas as pessoas do conselho estão ali por alguma razão. Conselho de Meio Ambiente: a pessoa necessariamente tem alguma coisinha verde no coração. Fiquei quatro anos, tive que sair porque tinha uma questão de regimento, uma coisa burocrática. Pretendo voltar, mas quando voltar, quero estar mais lá do que aqui. Piracaia é do lado, pertinho, dá para ir e voltar. Mas quero passar mais tempo lá. Achei que fosse conseguir fazer isso no ano passado, não consegui. Agora retomo. Se eu puder voltar para o conselho quando estiver passando mais tempo em Piracaia, que legal. Você acaba num conceito de uma cidade do interior. Você começa na Praça da Nascente querendo uma praça. Por isso que falei: a política, o sistema, ela necessariamente chega quando você começa a se dedicar.
(01:45:46) P/1 – Se você quiser contar, como você conheceu seu companheiro?
R1 – O Guga foi no cinema.
(01:45:56) P/1 – Conte essa história.
R1 – Na época em que São Paulo não tinha carnaval – eu sou meio a louca do carnaval, adoro. Foi em 2008, acho. Tinha chegado da Chapada [Diamantina], onde passei o Ano Novo. O carnaval daquele ano foi bem no início de fevereiro. Eu estava no fechamento de uma edição de uma revista de moda de óculos que eu fazia na época. Tenho um amigo da FAU, o Alê, meu amigo de cinema. Toda semana – uma vez a cada 15 dias – a gente ia ao cinema. Era carnaval, eu estava no fechamento. Morava nesse apartamento que depois virou a florestinha na varanda. Era verão: eu acordava bem cedo, batia muito sol nessa varanda. Punha biquíni e tomava sol até as nove, depois sentava para trabalhar de biquíni. Passei o carnaval trabalhando. No domingo de carnaval, virei e falei: "Putz, não aguento mais olhar para essa tela. Preciso sair de casa, não aguento mais tomar sol na varanda e sentar no computador". Liguei para o Alê e perguntei se ele queria pegar um filme, porque o Oscar estava próximo e não tínhamos visto nada. Ele falou: "Estou em São Paulo, não viajei no carnaval". Falei: "Eu também não, estou trabalhando. Vamos ao cinema hoje à tarde?" "Vamos. Só que estou com dois amigos no MIS [Museu da Imagem e do Som] numa exposição. Já te ligo." Achei que fossem dois amigos de fora que tivessem vindo passar o carnaval no sossego de São Paulo, porque São Paulo ficava super tranquilo. Ele me ligou: "Vamos para o cinema. Vamos no Itaú Cultural – não, no Itaú Augusta". Falei: "Que filme?" "Qualquer um, porque não vi nada." Falei: "Também não. Vou chegar lá, o que tiver eu compro." Cheguei no Itaú. Caiu o mundo, porque era verão, fim de tarde. A Augusta virou uma cachoeira. Tinha parado o carro na frente do cinema e não conseguia descer. Desci correndo, comprei os ingressos, liguei para ele: "Onde você está? Já comprei os ingressos. Vamos ver Onde os Fracos Não Têm Vez. Ó, socorro, quase morri no cinema." É super violento, mas ganhou o Oscar. Naquela época não tinha assento marcado no cinema: você comprava o ingresso e entrava na fila. Eles não desciam, estavam no Conjunto Nacional. Falei: "Alê, estou na fila. Bem-vindo que estou na fila." Entrei para entrar e falei: "Moça, vou ficar aqui que..." Fui passando todo mundo, fiquei só eu. E eles não chegavam. Chegaram os três em pingos, com o pé molhado. Entramos no cinema. Tinha um lugar aqui, um lá, um aqui. Morri de frio a sessão inteira. Odiei o filme. Saímos do cinema e conheci o Guga e a Estela, os dois amigos do Alê, que tinham trabalhado juntos num escritório de arquitetura na época em que a gente tinha terminado a FAU – porque o Alê é arquiteto de prancheta mesmo. A gente se conheceu nesse dia. Foi no cinema.
(01:50:31) P/1 – Quando você conta da primeira vez que ele te deixou na Horta das Corujas: ele se envolveu também nessa luta de alguma forma?
R1 – Não, o "mão na massa" não. Ele nunca foi de mutirão. Mas ele adora toda essa história, conhece todo mundo, porque quando comecei na história da praça e mesmo na história das hortas, eu já estava com ele. Eu me lembro que ele me deixava na Horta das Corujas e falava: "Vou passar numa obra, passo e te pego". Eu falava: "Não, você vai passar na obra 40 minutos, eu vou ficar aqui até umas três, quatro da tarde". "Como assim?" "É, vou ficar aqui." Ele foi entendendo que isso era muito importante para mim. Ele adora agora, quando sai o filme, conta para todo mundo. Fico orgulhoso. Mas ele é mais de projeto – é do Mackenzie. O pessoal que se forma no Mackenzie fica mais na obra mesmo, são mais de projeto. Ao contrário da FAU, que te dava... Não que ele não tenha tido paisagismo e planejamento urbano na formação, mas na FAU essas coisas eram muito mais enaltecidas. No Mackenzie, é mais projeto: você quer ser arquiteto de projeto, faz Mackenzie. Não que não tenha arquiteto de projeto na FAU, mas existe essa diferença entre os arquitetos. Eles sabem disso.
(01:52:36) P/1 – Já estamos chegando ao fim. Queria perguntar se você quer deixar uma mensagem, pode ser ela qual for.
R1 – Se tem alguma coisa que te fala ao coração – tem gente que gosta de primeira infância, tem gente que gosta de idosos, tem gente que gosta de flor, tem gente que gosta de bicho –, se você identifica algo que te chama real mesmo, vai fundo. Não é não espere nada de volta, porque a gente espera que aquele terreno vire praça, não fazemos isso sem objetivo, não é isso. Mas não espere que chegue num curto prazo, porque às vezes leva uma vida. O rio está lá, ó. Aquele Água Preta está ali brotando naquela praça há muito tempo. Em 2013, juntou-se um bando de gente e foi lá e olhou esse rio, olhou essa água, olhou essa praça. Às vezes as coisas vão e vêm. Sei que falar isso nem parece que eu moro em São Paulo, onde tudo é para ontem. Mas, ao longo dos meus 54 anos, percebi: confia no feeling. Mergulha. Vai fazendo. Curiosamente, várias vezes ao longo desses 13 anos eu pensei: "Já está andando essa coisa no Ministério Público, vou parar de me interessar, de olhar, e quando sair algum resultado eu vou ficar sabendo". Só que aí você fala: "Não, eu preciso saber o que está acontecendo, preciso ver que pé está, preciso levar essas crianças da escola para visitar a praça". É uma necessidade. Isso faz parte da minha vida, de quem eu sou, das escolhas que faço hoje. Não consigo pensar em fazer alguma escolha desconsiderando a praça, o Água Preta e tudo isso. Este carnaval virou muito importante para mim também a partir disso. Então mergulha. O feeling está ali, vai.
(01:56:01) P/1 – Como foi contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa? O que você achou?
R1 – Sempre gosto de contar. Percebeu? Gosto de contar essa história porque muita gente diz... Já fui a escola falar disso, a gente recebe normalmente escola lá. É muito legal passar alguma coisa de otimismo. Eu sou, já falei, poliana. Não mais a menina, não mais a moça, mas a poliana sempre continua aqui. Poder contar, relatar e lembrar que tem perrengue sim, mas os pontos positivos são sempre os mais lembrados, é muito legal. Se eu consigo, com essa fala, botar uma sementinha em alguém que tem uma coceirinha para essa pessoa ir lá e ripar, está valendo. É isso que eu quero. Não precisa fazer igual, não precisa se juntar ao Ocupe e Abrace, não precisa ir à Praça da Nascente – são N coisas que este mundo precisa, que a nossa cidade precisa, que o nosso bairro precisa, às vezes a nossa casa precisa. É uma questão de escala, que na faculdade de Arquitetura você também vai percebendo: olha a cidade, vai reduzindo a escala, vem para a Zona Oeste, foca mais; vem para o bairro, foca mais; vem para a rua. Esta ruazinha pequenininha teve uma época que tinha muita criança brincando na rua. Quando me mudei para cá, falei: "Esses carros, essas motos passam aqui feitos loucos". Fui na subprefeitura pedir lombada: "Olha, é uma rua de meio de quarteirão, não tem calçada de um lado nem de outro, as pessoas caminham pela rua. Tem velhinho e criança. Precisamos de uma lombada." Fui conversar com um vizinho que tem dois filhos. Ele falou: "Ah, eu já tentei, mas não rolou". Falei: "Vamos tentar de novo". Pedimos, veio uma lombada lá na frente, ia ter uma lombada aqui, mas aí estourou um cano da SABESP. Aqui é tudo antigo (década de 1950), vira e mexe estoura cano na rua, vira uma cachoeira. Desistiram da lombada. Mas a gente pode pedir uma lombada. Isso faz parte da cidade. Não podemos correr o risco de sair do portão e passar uma moto e levar uma criança. Você fica mais ciente daquilo que é seu direito. Se eu consigo semear "você tem mais direito do que você imagina", já estou feliz.
(01:59:47) P/1 – Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, em nome da Heloísa, do Ally e do Vitor, agradeço muito por você ter compartilhado. Trouxe aquela sacola com o lema do museu, que é inspirar, provocar e transformar por meio das histórias de vida. Faz todo sentido com o que você trouxe agora. Muito obrigada.
R1 – Eu que agradeço. Adorei. Adoro falar da praça. Posso continuar falando da praça.
[FIM DA ENTREVISTA]
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