Projeto Diversidade Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Renato Antônio Corti
Entrevistado por Sofia Tapajós e Jadson dos Anjos da Silva
Santa Tereza, 17 de abril de 2026
Código: DCC_HV014
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Só pedir para você segurar para eu ler e aí depois a gente começa. Entrevista de Renato Antônio Corti, entrevistado por Sofia Tapajós e Jadson dos Anjos da Silva, Santa Tereza, 17 de abril de 2026, Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV014. Obrigada mais uma vez pelo seu tempo. Fala seu nome, local e data de nascimento.
R – Renato Antônio Corti, sou de Santa Tereza, nasci em 21 de Setembro de 1954.
P/1 – E qual que é o nome dos seus pais?
R – Mário Corte e Ana (Gegéski?) Corte.
P/1 – O que que eles faziam?
R – Eram agricultores.
P/1 – Eram agricultores?
R – Isso.
P/1 – E eles eram daqui de Santa Tereza?
R – É, hoje é município de São Roque, na localidade de Santa Júlia. Município de São Roque, que pertencia a Santa Tereza, na época, né?
P/1 – E você sabe como eles se conheceram?
R – Eles trabalhavam em Santa Júlia mesmo, né, e aqueles forró que tinha, os bailes do interior, eles se conheceram. Minha mãe tinha 14 anos quando eles começaram a namorar.
P/1 – E qual que é a origem da sua família?
R – Meu pai… Nós somos descendentes de italianos, né? Minha avó é de Mantova e meu avô de Milão. E da parte da minha mãe é polonês. É (Gegéski?) e (Riski?).
P/1 – Você sabe a história deles, como eles vieram?
R – Sim. Paterno… Eles chegaram aqui em 1997, fugindo da guerra, dos problemas políticos que tinha na Itália, né, que é a unificação da Itália, teve muitos problemas financeiros e latifundiários. E aí, eles também precisaram sair, porque meu avô e meu tio-avô vieram em dois, o meu bisavô, eles vieram fugindo porque já tinham morrido dois filhos na guerra, que era...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Renato Antônio Corti
Entrevistado por Sofia Tapajós e Jadson dos Anjos da Silva
Santa Tereza, 17 de abril de 2026
Código: DCC_HV014
Transcrito por Stephanie Ferreira Lima
P/1 – Só pedir para você segurar para eu ler e aí depois a gente começa. Entrevista de Renato Antônio Corti, entrevistado por Sofia Tapajós e Jadson dos Anjos da Silva, Santa Tereza, 17 de abril de 2026, Projeto Diversidade Cultural Capixaba. Entrevista número DCC_HV014. Obrigada mais uma vez pelo seu tempo. Fala seu nome, local e data de nascimento.
R – Renato Antônio Corti, sou de Santa Tereza, nasci em 21 de Setembro de 1954.
P/1 – E qual que é o nome dos seus pais?
R – Mário Corte e Ana (Gegéski?) Corte.
P/1 – O que que eles faziam?
R – Eram agricultores.
P/1 – Eram agricultores?
R – Isso.
P/1 – E eles eram daqui de Santa Tereza?
R – É, hoje é município de São Roque, na localidade de Santa Júlia. Município de São Roque, que pertencia a Santa Tereza, na época, né?
P/1 – E você sabe como eles se conheceram?
R – Eles trabalhavam em Santa Júlia mesmo, né, e aqueles forró que tinha, os bailes do interior, eles se conheceram. Minha mãe tinha 14 anos quando eles começaram a namorar.
P/1 – E qual que é a origem da sua família?
R – Meu pai… Nós somos descendentes de italianos, né? Minha avó é de Mantova e meu avô de Milão. E da parte da minha mãe é polonês. É (Gegéski?) e (Riski?).
P/1 – Você sabe a história deles, como eles vieram?
R – Sim. Paterno… Eles chegaram aqui em 1997, fugindo da guerra, dos problemas políticos que tinha na Itália, né, que é a unificação da Itália, teve muitos problemas financeiros e latifundiários. E aí, eles também precisaram sair, porque meu avô e meu tio-avô vieram em dois, o meu bisavô, eles vieram fugindo porque já tinham morrido dois filhos na guerra, que era obrigatório, eles eram obrigados a servir o exército lá. E aí, ficou o restante da família do meu bisavô lá. E eles foram ditos aqui como desertores, eles não podiam voltar pra a Itália e nem deixavam a família de lá vir pro Brasil. Então, houve essa separação. Nunca mais se viram.
P/1 – E que lembrança você tem dos seus pais na sua infância?
R – Maravilhosa, né? Nasci no interior, uma educação rígida, uma coisa que sempre pregava muito pra a gente, a sinceridade, honestidade, compromisso, respeito. A gente não ia dormir sem tomar uma benção pai e benção mãe.
P/1 – E além da benção, quais eram os outros costumes da sua família?
R – Como agricultor, era o trabalho durante a semana. Final de semana, o domingo, ia pra a igreja rezar, à tarde assistia um futebol do time local. Aquela a tradição italiana, né? Sempre um vinhozinho, uma comidinha caseira, né, o macarrão, a galinha. A nossa infância era mais ou menos isso daí. Convivia muito com... tinha muitos animais, né? Porcos, galinhas, boi. Isso daí era o passatempo quase da gente também.
P/1 – E como que era esse lugar que você morava?
R – Eu, pra mim, era o centro da terra, né? Eu achava lindo lá, acho até hoje, né? Um lugar muito aberto, um campo aberto. Os vizinhos todos conhecidos, muito entrosamento, né? Trabalhava muito em cooperativismo. Quando alguém necessitava de um trabalho, os vizinhos ajudavam. Quando eles precisavam da minha família, também ajudavam. E não existia esse negócio de trocar, de dar lá e me dar cá, né? Toma lá e me dá cá. Era tudo parceria. Às vezes, trabalhava uma semana pra eles sem cobrar nada, né? Era isso, que funcionava lá.
P/1 – E as brincadeiras? Do que você brincava?
R – Olha, na minha infância eu não tinha muito tempo pra brincadeira, não. Jogava um futebolzinho no domingo, às vezes. E as brincadeiras aconteciam mais nos recreios da escola, porque depois era mais trabalho mesmo. Eu, desde os meus cinco anos, já tive compromissos na minha família. Começar a tratar as galinhas, depois de bolhar o milho. E aí cada vez mais compromissos, né? E até trabalhar na roça mesmo.
P/1 – E no recreio da escola, do que você brincava?
R – De pique, essas coisas de criança mesmo.
P/1 – Falando da escola, que lembranças você tem da escola?
R – Olha, era o que eu conhecia na época, né? A gente não tinha contato exterior. Então, pra a gente que morava lá, era tudo maravilhoso, né? Os colegas que a gente tinha. A gente se encontrava depois no domingo, essas coisas todinhas. Não tem muito detalhe e a educação que tinha, o respeito que tinha. Quando chegava uma pessoa na escola, a gente tinha que levantar, pra entrar na escola, a gente fazia fila, uma vez por mês, a gente cantava o hino nacional. Então, era muito diferente de hoje.
P/1 – Teve algum professor ou alguma professora que te marcou?
R – A última, que era da região mesmo, que é a que mais ficou, porque vinham muitos professores de fora, de Vitória e Colatina, mas ficava um período, né? A última professora, como que era da região mesmo, eu estudei os três últimos anos com ela. E ela era fantástica.
P/1 – Tinha alguma matéria que você gostava mais?
R – Não, era tudo igual para mim. Não tinha diferença, não. A que eu menos gostava era a Matemática [risos].
P/1 – E você fez a escola até quando?
R – Lá, eu fiz o primário. Daí eu saí e fui estudar… A gente chamava o segundo... Não, era o quinto, o sexto ano. Aí eu fui para o seminário, em São Gabriel da Palha. Depois de São Gabriel, eu vim para Ibiraçu. Fiquei cinco anos no seminário.
P/1 – Como que foi essa mudança para o seminário?
R – Eram padres italianos. Era da Congregação Comboniana. Era uma educação muito rígida. Muito respeito. Se a gente tivesse discussão com um colega dentro do seminário, à noite a gente tinha que rezar o terço junto, pra pagar o pecado que tinha cometido [risos]. Mas era muito rígida a educação. A gente tinha o lazer. Uma hora de futebol todos os dias. A noite era livre. A gente jogava alguma coisa. Uma dama, essas coisas todas, né? É isso aí.
P/1 – Como você se sentiu quando entrou no seminário?
R – Eu me senti… Uma oportunidade de poder crescer, porque no interior eu terminava a educação. E eu, como sempre fui católico, eu achava que eu tinha tendência, uma vocação para ser um padre. Mas a gente vai crescendo, a gente vai sentindo um pouco o que é a vida da gente, né? Mas eu sou muito feliz por ter participado do seminário e pela educação que eu recebi também. Uma educação rígida e muito estudo. Eu estudava na fase sete horas por dia.
P/1 – E aí, nessa época teve algum padre, algum professor que te marcou também?
R – Todos eles eram muito bons, mas tinha um padre Aldo do que ele era mais... Depois, até ele virou bispo de São Mateus. Ele era mais legal com a gente, né? Ele era mais aberto. A gente tinha mais confiança de conversar com ele, bater um papo com ele, se abrir os problemas de adolescente, né?
P/1 – E os seus amigos, quem eram?
R – Os meus amigos eram mais do que jogavam no time de futebol lá. Então, eu tinha mais contato com eles, porque eram muitos, né? Quando eu cheguei em São Gabriel eram 145 alunos. Então, a gente não tinha muito amizade, não tinha amizade com todos. Era mais da turma de escola mesmo, né? E aí, fomos todo ano juntos, no mesmo período. E quando eu saía fiquei com muita saudade.
P/1 – Falando de futebol, que posição você jogava?
R – Eu era o Pelé da camisa 10 [risos].
P/1 – Tem alguma história de um jogo, de algum desses jogos que você lembra?
R – Olha, no seminário, eu só lembro o seguinte, que nós não perdemos nenhum jogo. Todos os jogos que nós fizemos nós ganhávamos, porque nós jogávamos futebol todo dia, né? E era um time bom. E eu me sentia, não craque, mas lá no seminário eu não deixava de ser um bom jogador.
P/1 – E aí depois que você saiu do seminário você foi para onde?
R – Pro Rio de Janeiro. Aí eu fiquei lá, praticamente morei oito anos no Rio. Saí do Céu e fui para o Inferno [risos].
P/1 – Por quê?
R – Porque a educação que tinha, o respeito, aquele negócio todo, quando chegamos lá, que fui entrar no colégio lá, eu fiquei desesperado, né? A bagunça que era, as pessoas não tinham compromisso, não tinham respeito com os professores, não estudavam direito. E eu me sentia até prejudicado, porque o meu ritmo de estudo era diferente, mas, assim mesmo, deu para levar.
P/1 – E quando você foi para o Rio, o que mais você sentia falta?
R – Ah, dos meus amigos, né? Porque eu cheguei lá e não conseguia ter amizade. Principalmente na época que eu cheguei, foi em 72 para 73, o Espírito Santo… Eles falavam, chamavam a gente do interior. Quem era capixaba, o espiritosantense, aliás, quem era espiritosantense era gente do interior. O Espírito Santo não era, não entrava na mídia. Então, quando eu falava que era do Espírito Santo, eu já era negativo.
P/1 – E aí, nessa época lá no Rio de Janeiro, além dos estudos, o que você fazia?
R – Aí eu fui trabalhar… Dois anos depois eu entrei no Unibancos, que era a União de Bancos Brasileiros, né? E depois do Unibancos, eu trabalhei mais de dois anos, eu fui para uma empreendedora imobiliária, Sérgio Dourado. Aí eu fiquei mais um ano. E nesse período que eu estava trabalhando também, eu fiz o exame pré-vestibular, que a gente falava, né, na ADN do Rio de Janeiro, que era um excelente colégio.
P/1 – E esse primeiro trabalho no Unibancos, você lembra o que você fez com o seu primeiro salário?
R – Nem saquei [risos], deixei lá. Ah, porque também eu tinha um problema, eu tinha 20 anos, eu era menor ainda, só podia movimentar a conta do banco com 21 anos. Aí eu não podia sacar o salário, eu tinha que ir lá no caixa, pedir pro caixa lá para eu assinar um documento e pegar uma quantidade de dinheiro necessário [risos]. Mas eu também estava com a minha família lá, com meus irmãos, e eu também não tinha problema de falta de dinheiro, né? Eu sempre pegava com eles.
P/1 – Quantos irmãos você tem?
R – Nós éramos em dez. Família italiana é grande.
P/1 – E aí, quando vocês eram pequenos, como era a relação de vocês?
R – Era fantástico, né? Aquela família, aquela escada completa, de cima até lá embaixo. Relacionamento muito bom. Era uma educação que os pais passavam para a gente, né? Muito saudade [risos]. Mesmo um período no interior que eram dificuldades financeiras, né, aquele negócio todinho, mas a gente vivia muito bem, muito feliz.
P/1 – E aí no Rio você morava com eles?
R – Eu morava com mais quatro irmãos e mais um amigo também, que foi daqui para lá, que foi acolhido pela minha família.
P/1 – E aí, além do trabalho, você fazia alguma coisa para se divertir?
R – Não tanto. Às vezes eu ia, mas era no cinema, no teatro, mas futebol, por exemplo, eu nunca conseguia. Eu tinha medo de participar, de jogar. Eu era até convidado, porque a gente batia uma peladinha na rua e o pessoal me convidava, mas era muita confusão o futebol dele. Era briga direto [risos]. Aí eu desisti, nunca joguei.
P/1 – E depois do pré-vestibular, o que você fez?
R – Eu vim até... O meu irmão mudou pra a Colatina. Eu vim à Colatina e fiquei dez meses. Ele comprou uma lanchonete aí, mas eu não me adaptei ao clima e também nem ao povo [risos]. Não consegui muito contato com o povo daí. Aí eu voltei para o Rio novamente. Aí fui trabalhar em corretagem de imóveis, até 1979. Aí depois de 1979, o outro irmão comprou uma lanchonete em Vitória, em Jardim América, e eu vim trabalhar com eles. Aí depois resolvemos vir todo mundo para Santa Tereza.
P/1 – Quando você voltou para Santa Tereza, mudou muito a cidade?
R – Eu nem conhecia Santa Tereza, porque como eu morava no interior, era próximo à Colatina, e tudo que se fazia era na Colatina, né, por causa do ônibus. No ônibus era muito difícil vir para Santa Tereza. Eu nem conhecia Santa Tereza. Mas subindo a montanha aqui, eu me apaixonei [risos]. E aqui estou até hoje.
P/1 – Por que você se apaixonou?
R – Ah, eu gosto muito de natureza. Subindo, eu vi muita mata, o clima agradável. O povo de Santa Tereza também, eu me adaptei muito, né? Um ano depois, conheci minha esposa, e aí fui me adaptando melhor.
P/1 – Como você conheceu sua esposa?
R – Era num bailezinho [risos]. Eu conheci assim, vi ela na rua, mas o primeiro contato foi num baile.
P/1 – E aí, como que aconteceu?
R – Começamos a conversar e começamos a namorar, e aí foi.
P/1 – Tinha muito desses bailes?
R – Ainda tinha um pouco aqui em Santa Tereza, né? Que hoje, praticamente não tem mais, né, mas na época ainda tinham alguns.
P/1 – Como que eram?
R – Era no clube que a gente ia, que era o Tangará, que hoje já não existe mais, né? É o Sebrae hoje.
P/1 – E tocava música?
R – Era música, DJ mesmo, né?
P/1 – E aí, você lembra do dia do seu casamento?
R – Eu casei foi no mês de março. Agora o dia eu não lembro direito, não.
P/1 – Mas como que foi?
R – Nós moramos um período. Aí a minha filha nasceu. E aí, nós fizemos um batizado e casamos, batizado e casamento.
P/1 – E o que te mudou na sua vida quando você virou pai?
R – Ah, no dia que eu saí do hospital, que eu conheci minha filha, eu não conseguia nem pisar no chão [risos]. É fantástico, né? A coisa mais gostosa, mais linda que eu já tive. O dia mais feliz da minha vida.
P/1 – Você tem só uma filha?
R – Uma filha.
P/1 – E como ela se chama?
R – Bárbara.
P/1 – Por que vocês escolheram esse nome?
R – Foi por vários nomes, nós achamos esse mais aconchegante.
P/1 – E aí, nessa época você já estava no Circolo? Como você chegou no Circolo?
R – Não, o Circolo, se eu não me engano, a data é exata, mas acho que é 1990. Eu entrei um ano depois. A primeira festa que teve aqui no Circolo, eu fui convidado por uma amiga e, quando eu cheguei lá, eu me apaixonei. Veio um artista lá do Rio Grande do Sul, Anzolin, cantando comidas italianas, vinho, aquele pipo de vinho. Aí eu voltei à minha infância, que eram os casamentos do interior, né? Aí eu pedi para entrar no Circolo Trentino e estou até hoje.
P/1 – Você pode falar um pouco mais do Circolo Trentino?
R – O Circolo Trentino… Nós começamos com pequenas festas no parque, onde que era o Tangarás, no Pátio do Tangarás. E é festejado no dia 26 de junho, que é o dia da imigração italiana, foi o dia que chegaram as famílias italianas em Santa Teresa, 26 de junho de 1975. Que vieram aqui já com as colônias demarcadas e tudo, mas um ano anterior já tinha gente aqui desmatando e tudo, né? Quando eles chegaram aqui, no dia 26 de junho, que foi o sorteio. Então, é comemorado o dia 26 de junho, dia da imigração italiana, em Santa Teresa. E aí, nós começamos com as festas pequenas, festas folclóricas, né, italianas, comidas típicas. E o Circolo Trentino cada vez foi crescendo mais, o público, motivação, mais gente participando. E até que foi em 2002, nós realizamos a primeira Carretela, Carretela Del Vinho, porque nós tínhamos no Tangarás, o pátio era pequeno, enchia, era muita gente. Quando nós fomos para o Parque de Exposição, era um público até maior, mas você não via ninguém, porque cabe lá, sei lá, 8, 10 mil pessoas, né? E aí, começamos a conversar que nós tínhamos que trazer alguma coisa, alguma novidade para Santa Teresa pra poder aumentar o público, trazer o turismo. E foi em 2002 que realizamos a primeira Carretela, toda improvisada, fui eu e Fernando Dalcomo, através do Circolo Trentino mesmo, em reuniões. E aí, nós trouxemos a primeira Carretela, foi feito assim, tudo espontâneo, não foi uma coisa organizada mesmo, né? Pegamos alguns carros velhos, tinha um carro lá, eu olhei aquilo lá, comprei umas linguiças, levei umas linguiças, tinha o Ballardin, Vinhos Ballardin, Afonso Ballardin, ele participava todo ano com o vinho dele, do Rio Grande do Sul, aqui em Santa Teresa. Aí pedi ele 100 litros de vinho, ele me forneceu uns pipotes de vinho, uns barris de vinho, aí eu levei uns 10 quilos de linguiça, pendurei no carro e aí começou assim, tudo improvisado, né? Uma polenta improvisada, nem cozida, mas o pessoal acabou comendo assim. E aí, rodamos pela cidade. E aí foi o maior sucesso. Nós até pensávamos, tipo assim: “Daqui uns cinco anos, mais ou menos, aqui deve dar umas 10 mil pessoas”. No quinto ano já tinha, segundo a polícia, dava 40 mil pessoas aqui na Carretela. E nós fazíamos aqui isso aí, o antigo hospital passava na Rua do Lazer e até no centro da cidade. Aí no jardim tinha umas barraquinhas, aí começamos a convidar as vinícolas de Santa Teresa para participarem, mais gente com artesanato, comidas típicas. E aí, foi crescendo, crescendo que chegou um ponto que parava tudo. Quem chegava em Santa Teresa não conseguia nem sair nem chegar mais, né? Era muita gente que dava. E hoje… Aí depois foi proibido o vinho. Aí saiu do centro da cidade que não estava comportando mais a quantidade de gente, começamos a fazer no Parque de Exposição com saída aqui da José Augusto e da Rua do Museu para o Parque de Exposição. Hoje, já está dando menos gente, mas pra nós é até melhor, porque não tinha como atender tanta gente, né? Hoje, se calcula aí na fase de 10 mil pessoas, eu acho que está o suficiente para o tamanho de Santa Teresa. Agora, em Santa Teresa também tem que pensar o seguinte, antes da Carretela o turismo era um, depois da Carretela que o turismo expandiu. Nós tínhamos aqui dois hotéis antes, pousadas, três ou quatro restaurantes. Hoje não, hoje o que nós temos de pousados e hotéis… E a cada dia você ouve que tem mais gente chegando, colocando mais gente, excelentes cafés. Nossos restaurantes são de primeira qualidade, né, os hotéis, pousadas também. Desenvolveu muito. E hoje Santa Teresa é considerada do interior a cidade que mais acolhe turistas.
P/1 – E aí, voltando para essa Carretela do começo, além da comida e tal, o que mais tinha?
R – Nós distribuímos, na Carretela era dois mil litros de vinho, 200 quilos de queijo, 200 quilos de linguiça, uns 200 quilos de polenta frita, era muita fartura, mas não dava quase pra ninguém. Onde a gente ia passando alguém pegava alguma coisinha, a maioria nem comia, nem bebia, porque era muita gente. Mas o importante é que as pessoas vinham aqui pra festejar. Música… Todo o tempo com músicas folclóricas italianas. Aí o pessoal começava a tomar uns vinhos, ficavam animados pra dançar no meio da rua. E era isso aí.
P/2 – Você lembra quem fundou a Carretela?
R – Foi eu e o Fernando.
P/2 – Quantas pessoas fazem parte da organização?
R – Olha, nós fundamos, mas foi a diretoria na época, com o consenso da diretoria e eu, mas ele que começamos a primeira Carretela. Já na segunda Carretela ela já foi aumentando as pessoas. A gente não tem uma quantidade, mas hoje, por exemplo, semana passada fizemos uma reunião, chamamos várias pessoas que colaboram, enfeitar os carros, aquele negócio todo. Quando você chega no dia da Carretela, dá muita gente participando, né, espontaneamente. Vão lá pra ajudar. E o mais importante que o da Carretela, o que nós trouxemos, foi que antes da Carretela, ninguém botava um traje italiano, tinha vergonha. E hoje, na Carretela, a maioria das pessoas, todo mundo está tipicamente com os trajes italianos, né?
P/1 – Como que é esse traje italiano?
R – Normalmente o homem usa uma calça com suspensório, né, uma camisa branca, uma calça preta, de bonézinho. E as mulheres, elas usam vestidos longos, coloridos, como que eram os italianos antigamente, de festa né, botando alguma coisa para... Italiano mesmo, né? Enfim, é isso aí.
P/1 – E tinha alguém ou teve alguém que ensinou as músicas folclóricas, a vestimenta para vocês? Como que vocês foram…
R – Não, cada um foi espontâneo, cada um foi fazendo do jeito próprio. Mas todo mundo tem a raiz italiana, mais ao menos já sabia como que se vestiam, tudo. E além de tudo, o Circolo Trentino também, há muitos anos, que tem o grupo de dança, tem o grupo de dança infantil, o grupo de dança adulto, a banda de música. Nós temos cursos italianos, temos maestros que ensinam música, né, temos dois professores de música. Então, desde criança elas vão entrando na banda, hoje tem várias bandas de rock aqui, essas coisinhas que passaram pelo Circolo Trentino, né, aprendendo música. E o Circolo Trentino, ele abrange muito aqui, é uma secretaria de turismo, podemos falar disso, né? Nós estamos tendo um evento aqui, o Rural Tour, né, ontem o coral foi tocar, cantar, aliás, hoje é a banda, né, e amanhã, se eu não me engano, é o coral. Ah, não, é o grupo de dança amanhã. Coral ontem, a banda hoje, e o grupo de dança amanhã.
[corte na gravação]
P/1 – E como você se sente fazendo parte do Circolo Trentino?
R – Olha, para mim, é uma felicidade, né? Eu desde que entrei no Circolo Trentino, já fui presidente duas vezes do Circolo Trentino, sempre fiz parte da diretoria, a não ser um periodozinho aí que eu me afastei um pouquinho, que estava meio cansado já, mas estou na diretoria novamente agora, né? Faz parte do dia a dia. A gente sempre tem alguns eventos pra fazer, reuniões quase toda semana agora que está chegando a festa. Estamos com a programação completa já pra festa do imigrante, que é o dia 24, 25, 26. E para mim é um prazer, né, dar o meu pouco tempo que eu tenho para poder participar.
P/1 – Para você, o que é o mais importante dentro de lá?
R – Do Circolo Trentino, eu, para mim, é a cultura italiana, a raiz, né, eu sempre gostei muito, até eu fiz o curso italiano, me formei em italiano, que eu não falava niente, não falava nada de italiano, mas eu fui da primeira turma que esteve. Em 97, eu me formei em italiano. Então, era um prazer ir para a Itália, eu tive esse prazer, conhecer a Itália, Trento, que é do Circolo Trentino, a sede do Circolo Trentino em Trento mesmo, sede mundial lá. E, pra mim, o Circolo Trentino faz parte da minha vida, adoro participar, estar com as pessoas nos eventos, sempre divulgando a cultura, a culinária.
P/1 – E como foi essa viagem para a Itália?
R – Foi maravilhosa, né, era o meu sonho. Eu ouvia sempre o meu pai falar da Itália, eu nem conhecia o meu avô, que faleceu muito cedo, né, mas o papai falava vários idiomas italianos e tudo. Só que eu não podia na época passar para a gente, foi proibido, né, algumas palavras. Até minha mãe que falava polonês, eu aprendi algumas palavras em polonês, mas era muito restrito isso. E aí, quando surgiu o curso italiano, eu fiquei… Logo de cara, eu quis fazer parte do curso italiano pra aprender a nossa língua. Está no sangue mesmo.
P/1 – E como você se sentiu chegando na Itália?
R – Olha, nós tivemos Roma, eu fui a Cis também, né, e a maior parte foi Trento, para conhecer a região de Trento mesmo. Aí conhecemos as vilas, né, até nós participamos de alguns eventos lá, e fomos também conhecer uma região agrícola, de vinhos, essas coisas todinhas, né, aquelas pessoas com mão calejada, unha suja, igual nós agricultores aqui do Brasil. E fomos muito bem recebidos, tivemos lá apresentações de corais deles lá, uma banda de música italiana se apresentou no hotel para a gente lá. E, enfim, eu rodei bastante lá, né, fiquei 15 dias na Itália. Foi fantástico, pena que é muito custoso, senão eu voltaria novamente [risos].
P/1 – E além das pessoas com a mão calejada, você percebeu outra semelhança?
R – É, é muito, muito, parecido com nossa cultura italiana mesmo aqui, né, o dialeto deles lá é um pouquinho diferente, mas dá para entender muito bem. Como eu te falei, eu tinha feito o curso italiano, eu me formei em italiano, eu não tive dificuldade, né, eu conversava muito bem com eles lá. Às vezes, tinha que improvisar alguma coisa, porque você sabe o português, mas cada região tem a sua maneira de conversar, né, às vezes nós vamos chegar para o Nordeste e nós não vamos nem entender tudo que eles falam. E assim também é na Itália, mas foi fantástico. Muito… O povo de lá, muito, muito, nós fomos muito bem recebidos. Tem pessoas que até reclamam que vai para a Itália e não sei o que, não, eu não tenho nada que reclamar, só tenho que agradecer o povo de lá.
P/1 – E voltando um pouco para a sua vida mais pessoal, como que era, assim, sua rotina depois que a Bárbara nasceu?
R – Olha, eu sempre vivi em Santa Teresa, eu sempre fui comerciante. Eu tinha uma mercearia, aí eu terminei com ela na época dos planos que teve do Sarney e do Collor, né, que não dava para trabalhar. Abri um restaurante e eu tinha uma loja de roupas sócio com minha mulher, minha esposa, e aí o restaurante era final de semana, era muito cansativo. Aí eu vendi o restaurante e fiquei com a loja. No ano 2000, deu uma enchente em Santa Teresa e nós perdemos tudo, né, que entrou água na loja e tudo que tinha foi embora. E nesse período aí, eu trabalhei dois anos e pouco na prefeitura, aí saí da prefeitura e abri uma loja de tintas, e a loja de tintas foram 22 anos, até o ano passado. Aí eu achei que já estava no ponto de parar de trabalhar e curtir um pouquinho a vida.
P/1 – E hoje em dia como que é seu cotidiano?
R – Mexer no meu jardim [risos]. Eu trabalho até meio-dia. Depois de meio-dia, eu fico a observar a natureza, fazer alguma coisa que tem que fazer além disso daqui, né? Coisa de aposentado mesmo. Essa cadeirinha onde você está sentada aí é o meu observatório [risos].
P/1 – E o seu jardim, você tem ele faz tempo? Fala um pouco dele.
R – Não, eu não tenho muita coisa, não. Tinha muita planta aqui que eu até arranquei, né? Estava dando muito mal de obra, mas é passar tempo mesmo, cortar uma grama, fazer uma hortinha, cuidar de outras plantas que eu tenho, podar, né? Eu ainda estou arrumando o jardim.
P/1 – E com quem você aprendeu a mexer no jardim?
R – Não, daí é coisa desde a infância. Sempre trabalhei com terra, eu gosto de trabalhar muito com terra. Mesmo eu aqui em Santa Tereza, tinha um sítio, fiquei quase 30 anos trabalhando no sítio. Meus feriados, sábado depois de meio-dia, pra chamar eu passava no sítio, plantando frutas, cuidando um pedacinho de café, essas coisas sim, era o meu lazer.
P/1 – E aí, voltando para a acultura italiana. O que você acha que é essencial para as próximas gerações preservarem?
R – Olha, eu vejo que estão muito bem encaminhadas, né? Porque nós temos o curso de dança infantil, nós temos aula de música para crianças, na Carretela mesmo aparecem famílias com crianças, tanto que nós temos um carro, que na faixa desse ano, os outros anos também tinha, mas esse ano tem um tablado para 30 crianças, de 5 a 8 anos participarem, as mães acompanhando no chão, né? Eu acho que nós temos um bom movimento, e eu vejo isso nas crianças, o prazer, a felicidade delas, quando tem a festa do imigrante italiano, elas vestidas, você vê o brilho nos olhos delas, né? Eu acho que nós vamos, estamos indo, mas está surgindo uma boa geração aí, né? E muita gente também que participa do Circolo Trentino, nós temos uma cantoria italiana, que são as músicas folclóricas mesmo, que vieram da Itália, e tem muita gente jovem, eu falo assim, na faixa de 20 e poucos anos, né, que participam com instrumentos, cantando, e além de nós, adultos, idosos [risos].
P/1 – Você falou das músicas folclóricas, tem alguma música que você gosta mais, que tenha te marcado?
R – Olha, tem algumas, né? “Santa Luzia”, “Mamma, son' tanto felice”, “La Montana” e outras mais, são várias. Eu canto, mas o nome delas está me fugindo um pouco. “La Montanara”, aí vai.
P/1 – Tem alguma que você queira cantar?
R – Não, eu não sei cantar [risos], eu não tenho voz. Eu participo da cantoria italiana, mas lá no cantinho, assim, distante para não atrapalhar quem sabe cantar.
P/1 – Ao longo desse tempo, o que a Carretela te ensinou?
R – Olha, a quantidade de gente que se despertou pela cultura italiana, né? Muitos jovens de faculdades que vêm para a festa, eles vêm vestidos com roupas típicas, né? Isso daí florou por elas mesmas, por essas pessoas mesmas. Ninguém chegou assim: “lha, para participar da Carretela, você tem que ter um traje italiano”. Cada um viu o outro usando e começaram a fazer questão de se vestir na Carretela tipicamente, né? Então, pra nós, isso daí é um orgulho muito grande, o que a gente trouxe e você vê um grande resultado.
P/1 – E você imagina Santa Tereza sem a Carretela?
R – Não. Mesmo que nós estamos tendo até um problema aí, porque foi proibido o vinho e tudo, a gente está tentando ver, porque é Carretela del Vinho. Agora, nós não podemos botar o vinho, porque Carretela del Vinho significa carro de vinho. Sem vinho, nós distribuímos suco, mas não é a mesma coisa, né? E aí, nós estamos tentando ver se a gente consegue novamente liberar esse vinho, porque, segundo, era muito embriaguez. Não é o vinho da Carretela que embriagava as pessoas. O que embriagam são os jovens, eles vêm para cá e trazem. Não é proibido o cara entrar com isopor, você não tem como controlar. O cara trazer uma batida aí, não sei o que, né? E os bares e restaurantes vendem. Vendem vinho, vendem cerveja. Então não é o problema da embriaguez que estava dando, que dá, não é a Carretela. Então, nós estamos tentando reverter isso daí.
P/1 – E o vinho tem algum significado especial?
R – Faz parte da cultura italiana, né? Eu lembro quando criança, eu tinha seis, sete anos, que a festa de Natal e Ano Novo era muito família mesmo, né? Meu pai tinha sempre lá um garrafão de vinho, a minha mãe pegava o vinho, misturava um pouco de água com açúcar e dava para a gente tomar, porque era uma tradição. Com seis, sete anos eu bebia vinho, né? E nem por isso eu sou alcoólatra [risos].
P/1 – Como que eram essas festas de Natal?
R – Era esperado o ano todo. Eu, como criança, esperava Santa Luzia, que trazia doce, e o Papai Noel, né? E o Natal era a festa, era a festa do ano. Era mesa farta, tinha tudo que você podia imaginar de comidas, de porco, boi, galinha, macarrão [risos]. Isso daí, era farta. E Ano Novo também. E tinha uma tradição também, que era o “Bom dia, buon ano”, que era bom dia, bom ano. A gente saía de madrugada, criança, batia na porta dos vizinhos e ganhava uma moedinha. E voltava para casa feliz da vida com um punhado de moeda. E podia ser até oito horas da manhã, depois não podia mais. Então, a gente saía correndo o tempo todo, quanto mais caro a gente fosse para pegar a moeda [risos]. Essa fazia parte da infância.
P/1 – E dessa mesa farta, tinha alguma comida que você gostava mais? Que era a sua favorita?
R – Macarrão, né, macarrão e carne, galinha. O italiano, no domingo, é polenta ou macarrão com galinha. É o básico [risos].
P/1 – Tem alguma receita de família?
R – Não, era tudo feito em casa. Todo mundo sabia fazer. Naquela época, se comprava na cidade, que eu lembro, era o querosene, que não tinha energia, o sal, né, e o trigo. E o resto era tudo produzido no interior mesmo. Açúcar, farinha, carnes, eram tudo do sítio mesmo.
P/1 – Além do Natal e do Ano Novo, tinha alguma outra festa? Tradição?
R – Não, tradição não tinha, não. Era muito respeitada a Semana Santa. No sábado, de Aleluia, matava porco, boi, fazia muito linguiça, aquele negócio assim. No domingo também fazia uma boa festa, a Ressureição de Cristo, que era a tradição, né, eram as festas. E tanto que, durante a quaresma, durante quarenta dias, era muito respeitado. Não podia tocar nenhum instrumento. Na Semana Santa, não podia cantar, assoviar. Ai de alguém discutir com alguém, falar algum palavrão [risos]. Na Sexta-feira Santa, os porcos e galinhas… Os porcos de engorda, galinha choca que viviam presos, a mamãe soltava todos. Era muito respeito na Semana Santa. E o domingo de Aleluia era outra festa.
P/1 – Tinha alguma comida especial na Sexta-feira?
R – Não, era comida tradicional mesmo, né, mas era muita fartura.
P/1 – E essas festas, essas reuniões, geralmente eram onde? Na sua casa?
R – É, sempre na casa da gente, né? E outra também que marcava muito a gente eram os casamentos. Botavam aquelas mesas compridas, né, muito vinho, garrafão de vinho e sanfoneiro. Aí todo mundo chegava do casamento, sentava, comia. E aí, começavam as cantarolas italianas. Foi onde eu ouvia essas músicas italianas. “La Giota”, ________, “Santa Luzia”. Então, era isso a tradição desde que eu era criança, né? E escondido, a gente era criança, mesmo escondido, tomava um vinho [risos].
P/1 – Você falou de Santa Luzia, dos doces. Você pode contar um pouco como é essa tradição?
R – Santa Luzia é a protetora dos olhos, né? O que é mesmo a tradição de Santa Luzia, eu não sei. Mas era uma tradição que Santa Luzia, protetora dos olhos, e que ela, no dia de Santa Luzia, que ela vinha trazer doces para a gente. A gente botava um pratinho lá, botava um capim dentro, pro burrinho comer, porque estava cansado, com fome [risos]. E quando acordava de manhã, lá estava o prato com os biscoitos, com umas balas, não era muita coisa, não, mas pra nós, crianças, era uma felicidade.
P/1 – Renato, hoje, qual que é o seu legado?
R – De que sentido? Da minha vida, assim? Olha, hoje, eu e minha esposa, a gente vive aqui nessa casa. De vez em quando, a gente vai para a praia, que tem um apartamento em Manguinhos, e encontrar alguns amigos. A gente tem, em tradição, toda semana um encontro de amigos aqui em Santa Teresa, num barzinho, ter um papo. E passar o dia aqui, eu e ela, e de vez em quando a gente sai para passear. Alguns finais de semana a gente vai para um restaurante, né? Mas nós não somos muito de viajar. Não gostamos, nem eu nem ela, de ficar viajando. E, final de semana, vários finais de semana também, a gente encontra com amigos na minha casa, encontra também na casa deles. Mas todo final de semana a gente tem alguma rotina. Tem alguém pra poder bater um papo e tomar aquela cervejinha [risos].
P/1 – E quais seus sonhos?
R – Eu acho que meus sonhos foram realizados, né? Meu sonho hoje é ter bastante saúde e viver bem a vida, ser feliz. E agradeço muito a Deus que Ele me deu, não posso esquecer disso, a todo dia agradeço, esse paraíso que eu tenho aqui. Mas sonho, sonho, o que eu tinha eu já realizei. Há mais do que eu pedi a Deus.
P/1 – E quais seus sonhos para o Circolo Trentino?
R – Dar continuidade ao trabalho, né, até que eu puder participar, que eles achem que eu seja útil, tô presente. E sempre trazendo, talvez, aparecer alguma inovação, trazer para o Circolo Trentino, né, participando sempre.
P/1 – Tem algum desafio que o Circolo Trentino precisa passar?
R – Não, não tem. O nosso compromisso é sempre dar continuidade à cultura italiana, preservar o que nós temos, os grupos de danças, os corais infantis e adultos, a banda e cursos de italiano. Temos três cursos de italiano. É isso aí. Manter o que temos já é o suficiente. Aparecendo mais alguma coisa… Porque o Circolo Trentino, quando começou, era só o Circolo Trentino e fazia uma festa. A partir daí que foram aparecendo, foi formado o grupo de dança, começamos o curso de italiano. A banda já existia antes do Circolo Trentino, aí nós demos continuidade. Passou a responsabilidade para o Circolo Trentino. E a cantoria italiana também, que é um prazer que a gente tem todo mês. O último domingo do mês, aqui na Rua do Lazer, no Bar Elite, a gente encontra a turma. E hoje tem uma fase de umas 30 pessoas que participam.
P/1 – E quais são os seus sonhos para a Carretela?
R – Dar continuidade, dar continuidade, inovar alguma coisa. Não tem mais muito o que fazer, porque praticamente o que tinha para colocar na Carretela já existe, né? Por exemplo, esse ano nós vamos, é uma novidade, desfilar com 10 famílias descendentes de italianos. As 10 primeiras famílias que se inscreverem vão participar do desfile. Até, no máximo, 15 pessoas por família. Todos vestidos tipicamente, né? Pode ser criança, adulto, senhores e senhoras. Então, esse tablado abrangendo mais crianças. Coisas que vão surgindo e a gente vai inovando, né?
P/1 – E o que você achou de contar essa história hoje?
R – Eu não esperava. Nunca contei para ninguém. Não tem uma história muito fantástica [risos]. É a história de cada um, né? Se todo mundo fosse contar a história é mais ou menos parecida.
P/2 – A tradição hoje, a tradição italiana, está sendo passada de pai para filho ou alguma coisa se perdeu?
R – Ah, sim. Muito, muito. É o que eu falo o Circolo Trentino começou e a Carretela trouxe esse espírito de italianismo mesmo, a raiz, né? Então, hoje eu vejo, quem faz parte até da minha família, sobrinha, todos, desde bebê já estão se vestindo, participando. Então, eu acho que isso daí vai dar continuidade. A gente não pode falar, porque nosso tempo aqui é rápido. Vamos ver o que vai sobrar mais futuramente. Mas eu acredito, eu acredito sim que vai dar continuidade. Não só Santa Teresa, como o Estado do Espírito Santo, tem outras regiões. O Brasil, no Sul principalmente, São Paulo, né, tem muita tradição também. Hoje está florado. Os descendentes italianos estão muito aflorados, né?
P/1 – E aí você acha que os elementos que tinham lá no começo do Circolo Trentino, os elementos da cultura italiana, eles permanecem?
R – Sim, sim, com certeza. Assim também como nós temos a cultura alemã. Ela é muito tradicional no estado, no Sul do país. É uma outra cultura, né, que a gente apoia muito. Inclusive, nos nossos grupos de dança, nas apresentações, muitas vezes também trazemos os alemães descendentes, os pomeranos que são considerados. E eles são muito fortes também na cultura deles. Então, não é só o italiano. Tem os pomeranos também que eles têm a cultura muito forte, né? Eles zelam muito por isso aí.
P/2 – E alguma coisa da Itália, quando você esteve lá, que você viu, que você quis trazer para cá, para Santa Teresa?
R – Não, o que eu mais comprei foi boné, boné italiano [risos]. Trouxe, presenteei amigos, que faz parte da cultura. O chapéu italiano da região lá também, trouxe para amigos. Foi o mais que eu vi que a gente tem, porque o resto é daqui mesmo, a roupa em si.
P/1 – Tem mais alguma coisa que a gente não perguntou?
R – Não, acho que foi o suficiente, né? Espero que tenha atendido vocês. Desculpa que eu não sou esse falador [risos].
P/1 – Ótimo, então. Obrigada.
R – Obrigado a vocês. Eu achei que o Todinho, quando ele falou comigo, que vinha uma coisa só pra preencher alguma coisa. Não tinha cinema todo, não [risos].
--- FIM DA ENTREVISTA ---
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