Diagnóstico do Museu da Pessoa revela os desafios e as oportunidades da preservação da memória no Brasil

Ao longo dos últimos meses, o Museu da Pessoa desenvolveu o Diagnóstico Brasil Memória em Rede II, documento que apresenta um panorama nacional das organizações que atuam com memória e patrimônio cultural. Elaborado em parceria com o Ministério da Cultura, no âmbito da Política Nacional de Cultura Viva, o estudo mostra onde estão iniciativas de memória, como organizam seus acervos, quais características apresentam e quais desafios enfrentam para fortalecer a preservação das memórias no Brasil. Além disso, reúne dados sobre sustentabilidade, acessibilidade, patrimônio cultural e políticas públicas, tornando-se uma importante fonte de consulta para organizações culturais, pesquisadores, gestores e demais interessados no setor.

Quem preserva as memórias do Brasil? Como essas organizações registram histórias, cuidam de acervos e mantêm vivas as identidades de seus territórios? Essas perguntas orientaram as ações do Pontão de Cultura Brasil Memória em Rede II, iniciativa realizada pelo Museu da Pessoa.

A Política Nacional de Cultura Viva, do Ministério da Cultura, tem como objetivo mapear, conectar e fortalecer organizações que atuam com memória e patrimônio cultural em todo o país. Para isso, instituiu o Museu da Pessoa, como Pontão de Cultura,como responsável por promover um amplo levantamento nacional, entrevistas de história de vida, encontros entre organizações e ações formativas. Como resultado desse processo, foi elaborado o Diagnóstico Brasil Memória em Rede II, que reúne informações sobre 246 organizações culturais, com e sem CNPJ, distribuídas por 22 unidades da Federação. Além dos questionários, o estudo incorporou entrevistas de história de vida para compreender não apenas os dados quantitativos, mas também as experiências das pessoas que atuam na preservação da memória brasileira.

A memória brasileira está distribuída pelo país, mas ainda enfrenta desigualdades

O levantamento identificou organizações em todas as regiões do Brasil. Entretanto, a distribuição territorial ainda é desigual. O Sudeste concentra 43% das organizações mapeadas, seguido pelo Nordeste, com 25%. Em seguida aparecem o Norte, com 13%, o Centro-Oeste, com 10%, e o Sul, com 7%. Esses dados permitem compreender a distribuição das iniciativas de memória e patrimônio no país e contribuem para orientar estratégias de fortalecimento e articulação territorial.

Comunidades tradicionais desempenham papel central na preservação da memória

Outro resultado importante envolve a atuação das organizações em territórios de povos e comunidades tradicionais. O diagnóstico identifica iniciativas desenvolvidas junto a comunidades quilombolas, povos indígenas, povos de terreiro, comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais, caiçaras, comunidades extrativistas e outros grupos tradicionais.

Nesses territórios, a preservação da memória acontece por meio das histórias de vida, dos saberes ancestrais, das celebrações, dos ofícios, das manifestações culturais e de diferentes formas de transmissão de conhecimento entre gerações. O levantamento demonstra a diversidade dos contextos em que essas organizações atuam e evidencia a importância desses grupos para a preservação do patrimônio cultural brasileiro.

Preservar acervos continua sendo um grande desafio

O diagnóstico mostra que a preservação da memória já é uma prática consolidada entre as organizações participantes. 91% das 246 organizações mapeadas possuem algum tipo de acervo, formado por diferentes tipologias documentais e patrimoniais. Entre os materiais preservados estão fotografias, documentos textuais, registros audiovisuais, livros, objetos, depoimentos, histórias de vida e memórias orais.

Entretanto, possuir um acervo não significa, necessariamente, contar com mecanismos estruturados para organizá-lo. O levantamento mostra que 176 organizações (72%) utilizam alguma base de dados, enquanto 53 organizações (22%) informaram não utilizar nenhum sistema de organização e 17 organizações (7%) não responderam à pesquisa.

Entre aquelas que utilizam bases de dados, predomina a adoção de apenas uma base (125 organizações), seguida por duas (39), três (11) e quatro (1) bases de dados. Esses resultados demonstram que a organização dos acervos faz parte da realidade de muitas instituições, mas também indicam que ainda existem desafios relacionados à sistematização, à documentação e à gestão das informações preservadas.

Histórias de vida ampliam a compreensão sobre a memória

Além dos dados quantitativos, o Diagnóstico Brasil Memória em Rede II incorpora entrevistas de história de vida realizadas ao longo do projeto com representantes de pontos de cultura da área de memória espalhados pelo país. Essas narrativas complementam o levantamento ao apresentar experiências, trajetórias e contextos que ajudam a compreender como diferentes organizações constroem, preservam e compartilham memórias em seus territórios.

Ao reunir indicadores e relatos de vida, o diagnóstico amplia a compreensão sobre o setor e evidencia que a preservação da memória envolve tanto a organização de acervos quanto as experiências das pessoas responsáveis por mantê-los vivos.

Sustentabilidade e acesso às políticas públicas continuam sendo prioridades

O diagnóstico também dedica uma parte importante de sua análise às condições de funcionamento das organizações culturais. O levantamento reúne informações sobre orçamento anual, fontes de financiamento, participação em editais, acesso à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), práticas de acessibilidade e relação com a Política Nacional de Cultura Viva (PNCV), incluindo aspectos como certificação como Ponto de Cultura, conhecimento da política e participação em redes de articulação.

Ao sistematizar esses dados, o estudo oferece um panorama sobre a sustentabilidade das organizações mapeadas e fornece informações que podem contribuir para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à memória, ao patrimônio cultural e à Cultura Viva.

Baixe o Diagnóstico Brasil Memória em Rede II

Se você atua com memória, patrimônio, museus, cultura, história oral ou gestão cultural, o Diagnóstico Brasil Memória em Rede II reúne informações que podem te auxiliar  a compreender a realidade das organizações que preservam a memória brasileira.

Além de gráficos e indicadores, o documento apresenta análises sobre a distribuição territorial das organizações, os tipos de acervo preservados, a organização das bases de dados, as condições de sustentabilidade, o acesso às políticas públicas e diversos outros aspectos relacionados ao setor.

Faça o download gratuito do Diagnóstico Brasil Memória em Rede II e conheça, em profundidade, o panorama das organizações que mantêm vivas as memórias do Brasil.



Brasil Memória em Rede II, executado pelo Museu da Pessoa.net, realizado sob o Termo de Compromisso Cultural nº 951652/2023. Esta iniciativa é uma parceria estratégica entre o Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural, no âmbito da Política Nacional Cultura Viva.

Este artigo contou com a colaboração das Agentes Cultura Viva Débora Ramos da Silva e Naomi Sousa.

Débora Ramos da Silva é graduada em Museologia pela Universidade Federal de Goiás (UFG), com atuação voltada à memória, identidade e patrimônio cultural. Integra o Museu da Pessoa como Agente de Cultura Viva, desenvolvendo atividades de mapeamento comunitário, entrevistas biográficas e construção de narrativas. Sua pesquisa aborda as relações entre memória, estética e identidade, com foco na valorização de práticas culturais negras.

Naomi Sousa é artista visual e arte-educadora, formada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP. Pesquisa as ciências da educação e seu processo artístico por meio de linguagens como desenho, cerâmica, modelagem e costura. Atuou em instituições como Fábrica de Cultura, SESC, Memorial da América Latina, Museu da Pessoa e na rede pública de ensino.