Memórias do Morro Grande: comunidade e resistência

No coração da zona noroeste de São Paulo, um grupo de moradores, pesquisadores e ativistas culturais decidiu transformar lembranças em ação. Assim nasceu o Núcleo Museu da Pessoa Memórias do Morro Grande, uma iniciativa comunitária que visa preservar, valorizar e contar as histórias de um território marcado por afetos, resistências e transformações.

Muitas das memórias do bairro não aparecem em livros ou arquivos oficiais. Na verdade, elas sobrevivem nas falas dos mais velhos, nos álbuns de família e no cotidiano das ruas. Por isso, o coletivo se propõe a escutar, registrar e partilhar as histórias do Morro Grande com sensibilidade e compromisso.

Escuta, pertencimento e luta por memória

Ao longo das décadas, o Morro Grande perdeu espaços simbólicos de encontro — como o antigo cinema e a Capela Santa Clara de Assis — e viveu grandes transformações urbanas, como a chegada da pedreira. Agora, enfrenta a ameaça da gentrificação com a expansão do metrô.

Diante desses desafios, o coletivo tornou a memória uma forma de resistência e cuidado com o presente. Nesse sentido, afirmar o direito à cidade se torna urgente. Por meio de entrevistas, digitalização de acervos, mapeamentos afetivos e ações culturais, o grupo fortalece identidades e pertencimento no território. Tudo isso acontece por meio de construção coletiva, com diálogo entre gerações.

14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo.

Entretanto, esse acervo não serve apenas para guardar. Ele existe para circular, provocar encontros e fortalecer o sentimento de pertencimento. Por isso, esses materiais são usados em oficinas, exposições, caminhadas e rodas de conversa. O conteúdo cresce conforme a participação ativa da comunidade. De fato, assim como a memória é viva, eles acreditam que o acervo também é.

Memórias do Morro Grande

Entre dezembro de 2024 e agosto de 2025, o Núcleo Museu da Pessoa Memórias do Morro Grande realizou sete entrevistas com moradores, ex-moradores e pessoas atuantes no território. Essas conversas ajudaram a mapear vozes fundamentais para compreender a formação e as transformações do bairro. Agora, as transcrições estão sendo finalizadas para integrar o acervo do Museu da Pessoa. 

Entre as vozes que ajudaram a mapear a memória do Morro Grande, a de Toninho Guaraú se destaca por revelar o vínculo afetivo com o bairro desde a infância. Ele conta sobre suas raízes familiares, a influência da avó e do centro de Umbanda que funcionava em sua casa, e como essas experiências marcaram sua vida. Toninho também reflete sobre sua paixão pela música e como ela se entrelaça com sua identidade e pertencimento ao Morro Grande:

“Por isso que eu sou hoje o Toninho Guaraú, porque eu peguei um amor tão grande, eu não queria fazer mais nada na minha vida do que querer tocar. E nisso que eu comecei a tocar, o bairro se tornou muito presente pra mim, porque eu não ia pra lugar nenhum, porque pra mim, estar no Morro Grande já estava o suficiente”.

Exposição no Aniversário do Morro Grande.

Entre para a Rede de Núcleos do Museu da Pessoa

As turmas da formação de Núcleos do Museu da Pessoa de 2025 já se formaram! Se você deseja saber mais sobre como participar nas próximas turmas e entender como funciona o apoio do Museu para criar exposições, documentários e outros produtos culturais a partir de histórias de vida, acesse a página da formação em Memórias e Histórias de Vida e confira todas as informações necessárias.

Núcleos em Ação: histórias de mulheres negras em Peruíbe

A série Núcleos em Ação destaca, todo mês, um projeto criado pelos Núcleos da Rede do Museu da Pessoa. Neste ciclo, o foco está no Núcleo Museu da Pessoa Memórias do Morro Grande, que coloca as histórias do Morro Grande no centro, registrando afetos, identidades e lutas daquele território, contribuindo para o fortalecimento da memória local e coletiva.

No mês anterior, o destaque foi o Núcleo Museu da Pessoa Coletivo Nós, em Peruíbe (SP), que valorizou as histórias de mulheres negras, escutando experiências, afetos e legados que atravessam gerações.