Entrevista de Wellington Nogueira;
Entrevistado por (P/1) Karen Worcman e (P/2) Luiz Ludmer;
Projeto conte sua história;
Entrevista número PCSH_HV1519;
Revisado por Estfani da Costa.
P/1- Eu queria começar essa entrevista fazendo uma pergunta completamente óbvia, que é que você me dissesse o seu nome, teu nome inteiro, a data e o lugar que você nasceu.
R- Eu sou Wellington Nogueira Santos Júnior.
R- Eu nasci em 22 de novembro de 1960, na cidade de São Paulo, e morei muito tempo na Vila Mariana, e brinquei muito na rua, nessa cidade de São Paulo, nessa casa na Vila Mariana, empinei muita pipa, me divertir bastante.
P/1- Você consegue me dizer essa imagem, quando a gente fez esse exercício? Buscar a primeira imagem que você imagina o sentimento da sua vida. Você chegou em algum lugar? Que lugar era esse?
R- Esse lugar era a rua. Era a rua onde eu brincava, Eu tive muita sorte de morar numa São Paulo e numa rua calma, onde justamente não tinha trânsito de carro, então eu podia empinar pipa e tinha uma fábrica de cera bem em frente à minha casa. E tinha muita madeira lá, então eu vivia coletando madeira para fazer fogueira, porque eu adorava... Bom, eu sou sagitário, signo de fogo, então sempre adorei fazer fogueira e empinar pipa. Enfim, eu também brincava muito de lojinha, porque eu queria ter minha independência financeira, então, em vez de ganhar a mesada dos meus pais, eu ia vendo o que eu não precisava mais e ia vendendo. Então, ia gerando grana para quê? Para eu poder tomar sorvete, para eu poder comer cheeseburger, enfim, poder gastar. Como se eu fosse um pequeno nababo. Me dava essa sensação legal de que eu era dono da situação. Eu tinha aquele poder de sair, pedir algo, pagar. Eu sempre gostei muito disso. E eu também gostava muito de brincar, de vender minhas coisas, de fazer lojinha e tudo mais justamente para eu poder sempre juntar uma grana e poder ter a liberdade de gastar aquela grana como eu quisesse,...
Continuar leituraEntrevista de Wellington Nogueira;
Entrevistado por (P/1) Karen Worcman e (P/2) Luiz Ludmer;
Projeto conte sua história;
Entrevista número PCSH_HV1519;
Revisado por Estfani da Costa.
P/1- Eu queria começar essa entrevista fazendo uma pergunta completamente óbvia, que é que você me dissesse o seu nome, teu nome inteiro, a data e o lugar que você nasceu.
R- Eu sou Wellington Nogueira Santos Júnior.
R- Eu nasci em 22 de novembro de 1960, na cidade de São Paulo, e morei muito tempo na Vila Mariana, e brinquei muito na rua, nessa cidade de São Paulo, nessa casa na Vila Mariana, empinei muita pipa, me divertir bastante.
P/1- Você consegue me dizer essa imagem, quando a gente fez esse exercício? Buscar a primeira imagem que você imagina o sentimento da sua vida. Você chegou em algum lugar? Que lugar era esse?
R- Esse lugar era a rua. Era a rua onde eu brincava, Eu tive muita sorte de morar numa São Paulo e numa rua calma, onde justamente não tinha trânsito de carro, então eu podia empinar pipa e tinha uma fábrica de cera bem em frente à minha casa. E tinha muita madeira lá, então eu vivia coletando madeira para fazer fogueira, porque eu adorava... Bom, eu sou sagitário, signo de fogo, então sempre adorei fazer fogueira e empinar pipa. Enfim, eu também brincava muito de lojinha, porque eu queria ter minha independência financeira, então, em vez de ganhar a mesada dos meus pais, eu ia vendo o que eu não precisava mais e ia vendendo. Então, ia gerando grana para quê? Para eu poder tomar sorvete, para eu poder comer cheeseburger, enfim, poder gastar. Como se eu fosse um pequeno nababo. Me dava essa sensação legal de que eu era dono da situação. Eu tinha aquele poder de sair, pedir algo, pagar. Eu sempre gostei muito disso. E eu também gostava muito de brincar, de vender minhas coisas, de fazer lojinha e tudo mais justamente para eu poder sempre juntar uma grana e poder ter a liberdade de gastar aquela grana como eu quisesse, sem dever nenhuma obrigação para ninguém. Então, era uma... Não sei, era o jeito de ser.
P/1- Me conta um pouquinho, nessa casa que você tinha, a rua, como era o nome da sua mãe, do seu pai, como era a sua casa?
R- Minha mãe se chamava Bem Vinda, meu pai se chamava Wellington, eu sou Júnior, e a gente morava numa rua chamada originalmente de Rua Record, porque ela ficava em frente à antiga fábrica da Cera Record. E depois mudou para Otávio de Moraes Dantas. Então, eu morava no número 147. Antes era a Rua Record de 28, depois passou a ser a Rua Otávio de Moraes Dantas 147.
P/1- A mesma casa?
R- A mesma casa.
P/1- E essa casa como era? Você consegue me explicar?
R- Sim, era um sobrado…
P/1- Era uma casa?
R- Era uma casa. Era uma casa sobrado, dois andares, com... Você entrava, tinha uma sala de tacos e encerados com sinteco. Você tinha uma escadaria e, no fundo, tinha um quintal. E, nesse quintal, uma parte dele era coberta. Então, a gente podia brincar na chuva, porque o quintal era coberto e chover não era um problema para a gente deixar de brincar. Essa era a minha casa, a casa onde eu cresci, na Vila Mariana.
P/1-vE o seu pai? Como ele é? O que ele fazia?
R -Meu pai era um corretor de imóveis e ele era... Minha mãe era uma funcionária pública.
P/1- Seu pai não era médico? Ou estou maluca.
R- Não, meu pai não era médico.
P/1- Ele queria que você fosse médico. Ele era corretor de imóveis.
R- Meu pai, ele quis estudar medicina. Ele quis fazer medicina, mas ele desistiu muito cedo dessa ideia. E ele começou a trabalhar como corretor de imóveis. A vida dele, do que eu convivi com ele e tudo mais, foi sempre em torno disso, os imóveis, terrenos, vendas, essas coisas todas.
P/1- Como ele era? Ele era, como ele era objetivamente? De onde ele era? Ele era mineiro?
R- Meu pai era mineiro, de Passos, Minas Gerais. Ele foi criado em fazenda, mas muito cedo na vida ele saiu de passos, veio para São Paulo, começou a trabalhar. Se não me engano, começou a trabalhar em banco. E aí, então, aos poucos ele foi indo para a parte de corretagem. Ele se tornou um corretor imobiliário. Essa é a maior experiência que tenho com o meu pai, dele como corretor de imóveis. Ele vendia casas, apartamentos, terrenos, essas coisas todas. A outra lembrança que tenho da minha infância é empinar papagaio. Eu adorava empinar papagaio. E eu adorava fazer pipa também, ou papagaio, e fazer as pipas para poder empinar. E eu morava numa rua onde dava para eu correr, empinar pipa, essa coisa toda, porque não tinha muito movimento de carro, rua de paralelipípedo. Então, brincar muito com os vizinhos e tudo mais. Então, eu tive uma infância bem paulistana e bem gostosa, porque, de todas as coisas, eu não trepava em árvore. Mas eu desvendava, por exemplo, a fábrica de cera Record, que tinha em frente à minha casa, justamente porque juntava muita madeira, então eu ia ou catar madeira para tentar fazer uma casinha, porque eu ficava vendo aqueles filmes americanos, aquelas séries americanas. A minha principal influência era Denis, o Menino Travesso. E é onde justamente eles construíam coisas e tudo mais. Então, eu me inspirava naquilo e procurava fazer as mesmas coisas. Só que as minhas coisas, eu começava e via que não era tão fácil como era no cinema, como era na televisão, então eu desistia logo. O que eu gostava mesmo era de me divertir. E me divertir para mim era empinar pipa, estar com os meus amigos.
P/1- Você tinha muitos amigos nesse momento?
R- Tinha. Eu tinha muitos amigos na rua. Tinha muitos amigos. Eu tinha um amigo principal, que era o Orlando, e a irmã dele, a Maria Helena. E tinha os amigos da escola também. Eu estudei no Elvira Brandão, Entra burro e sai ladrão. O Elvira era uma escola...
P/1- Ficava perto?
R- Não, não ficava perto de casa. A gente saía bem cedo de casa. Meu pai levava a gente no seu Fusca. Era na Alameda Jaú. Eu morava na Vila Mariana. E a gente corria muito para não se atrasar, porque, senão, eles anotavam no diário de classe que você tinha chegado atrasado. Daí tinha que mandar o pai assinar a notícia de atraso, essas coisas todas. E eu morria de vergonha disso. Então... E, na escola, naturalmente, fui começando a curtir essa coisa de liderança, de me voluntariar para fazer as coisas. Precisava fazer um dia tal, então, eu ia lá, me voluntariava, agregava as pessoas. Enfim, estava toda hora, eu não era um atleta e minha maior contribuição para o futebol foi não jogá-lo, inclusive.
P/2- Wellington, que atividades você fazia na escola? Essas que você se voluntariava.
R- Ah, na escola? Eram atividades de vender coisas. Por exemplo, trazer bolo de casa, vender, e essa grana ia para as missões de casa, como eles chamavam. Ia para organizações sociais que a escola mesma encaminhava. Então, era esse tipo de coisa que a gente fazia. A minha casa também era um lar muito cristão, eu diria. Enfim, onde sempre se pregava fazer o bem, poder ajudar quem precisava, meu pai e minha mãe sempre tiveram muito essa índole. Minha mãe fazia bolos e, na escola, se tinha alguma quermesse, alguma coisa assim, tinha as missões de casa. Ela fazia bolos e tudo mais. Esses bolos eram vendidos na escola. O dinheiro era arrecadado para missões da escola. Mas era essa coisa. A gente era uma família bem corriqueira, bem... Tem pé no chão. Acho que o único que não era mais pé no chão era eu mesmo, porque eu gostava muito de criar, gostava muito de ser moleque, empinar papagaio. Era a minha diversão. A coisa de botar uma pipa no ar voando e ficar mantendo ela lá no ar e tudo mais era o que hoje eu diria uma meditação. E eu gostava de brincar de lojinha também, ou seja, sempre vendendo as coisas, porque eu sempre tive esse senso de independência, de não querer depender. De ninguém, para eu poder fazer minhas coisas. Eu não queria dar satisfação de como eu estava gastando meu dinheiro. Então, se eu tinha uma lojinha, se eu vendia minhas coisas e eu juntava o dinheiro, eu gastava como eu bem entendia.
P/1- Mas esse seu sentimento, por exemplo, ele e seus pais eram pessoas rígidas?
R- Meus pais... Meu pai era mais rígido do que a minha mãe. Eles eram muito corretos. E eles sempre fizeram muita questão de deixar isso muito claro na nossa educação.
P/1- O que quer dizer ser correto? Me dá um exemplo.
R- É não aprontar, não fazer nada errado, não bagunçar, ser honesto, não mentir, não se meter em encrenca. É claro que eu sempre me meti em encrenca. Mas encrenca... O que eram as minhas encrencas? Era, às vezes, justamente, eu empinar papagaio, e eu acabava perdendo o papagaio e ele ia parar numa árvore ou coisas assim. Mas nada grave, nunca assaltei nenhum banco.
P/2- Mas você sentia que era uma cobrança que te punha medo ou era uma coisa que pra você ser o que eles queriam era natural?
R- Era natural, não era uma cobrança que me punha medo. Não. Não. E, assim, das minhas lembranças de infância, empinar pipa. Para mim, botar uma pipa voando no ar e ficar empinando ela, ficar mantendo ela no ar, assim, era a minha grande realização.
P/2- Na escola, quais eram as atividades que te davam prazer também fora do ensino?
R- Na escola, sempre eram as atividades relacionadas às artes cênicas, ou algum teatrinho da escola, ou alguma... Eu me lembro de uma época na escola em que a gente tinha que preparar e a gente dá as aulas. E eu adorava essa época, porque eu gostava muito daquele desafio de falar na frente das pessoas, de ensinar. E acho que isso contribuiu muito para, tão cedo na minha vida, eu ter me tornado um professor de inglês. Comecei a dar aula de inglês com 17 anos. Eu dava aula numa escola chamada CCAA. Eu comecei com 17, mas eu parecia mais velho. Por isso que as pessoas... Confiavam em mim.
P/1- Mas como você aprendeu inglês? Pra chegar a dar aula de inglês aos 17 anos?
R- Eu era apaixonado por inglês.
R- Eu era apaixonado por inglês. Eu aprendi sozinho. Eu buscava nos livros e depois eu comecei a ouvir as músicas e eu ficava ouvindo as músicas. Eu tinha uma vitrolinha. Eu ficava ouvindo os discos e eu tentava tirar as letras. Depois, eu conversava com os meus professores de inglês, que eu estudei na União Cultural Brasil e Estados Unidos.
R- Ah, por que a minha paixão pelos Estados Unidos? Porque, aos 12 anos, meus pais deram para mim e para minha irmã uma viagem para a Disney. Então, essa viagem para a Disney, para mim, foi um divisor de águas. Porque estar nos Estados Unidos, falando inglês, conhecendo a Disney, eu nunca vou me esquecer da noite que eu cheguei à Disney. E que tinha uma parada acontecendo e eles tocando glória, glória, aleluia, essa coisa toda. E eu fiquei num estado de emoção, era um misto de emoção, de alegria, de ver aquilo que eu nunca tinha visto na minha vida. E ouvia aquela língua que nunca tinha ouvido na minha vida e não entendia porra nenhuma. Mas uma das meninas da excursão falava inglês, então ela traduzia as coisas para a gente. Eu sempre gostei do novo, sempre gostei daquilo que era diferente, inusitado. Eu cresci muito ligado nisso, sempre gostando de empinar papagaio, sempre gostei de empinar pipa.
P/2- E era fácil ser você, para você mesmo?
R- Era, viu? Sabe que era. Eu era um louco, porque eu, por exemplo, gostava de... Se eu precisasse de grana, eu montava a minha lojinha. E ia vender minhas coisas, sabe? Mas, quando não estava empreendendo, eu estava brincando sempre de teatro, de fazer peça.
P/1- Então, conta essa história do teatro, porque vocês iam ao teatro. De onde você conheceu?
R- A minha primeira experiência do teatro foi no teatro infantil.
P/1- E sua mãe frequentava o teatro?
R- Minha mãe e meu pai. Frequentava um teatro. Minha mãe trabalhava no Instituto Biológico e depois na Secretaria de Turismo. Então, a gente ganhava, muitas vezes, ingressos para o meu favorito, Holiday on Ice, que era o carnaval no gelo, como eles chamavam. Nossa! Aqueles patinadores no gelo! Eu tinha uma fissura por patinar também. Eu queria aprender a patinar. Só que não dava para patinar no gelo aqui no Brasil. Eu tentava patinar com rodas, mas patinar com rodas na rua de Paralelepípedo também não rolava. Então, eu nunca patinei. Eu só patinei enquanto tentei patinar.
P/1- Você lembra qual foi a primeira peça que você viu?
R- A minha primeira peça, lembro, foi uma peça infantil. Uma peça, não me lembro mais o título, mas era sobre um menino que imaginava. E, na imaginação dele, ele conseguia ir para onde ele quisesse. Então, me lembro dessa peça. Eu adorava ver teatro infantil desde pequeno, sempre fui apaixonado pelo teatro. Eu gostava de criar peças também no quintal de casa, com os amigos da rua. Tenho a sorte de ter vivido numa São Paulo onde brinquei na rua. Eu morava numa rua tranquila, que não tinha trânsito de carro. Então, eu brincava na rua com os meus amigos, meus vizinhos. E assim, dava asas à imaginação. Não tinha limite. E eu brincando, mas, de certa forma, o empreendedor já estava lá. Porque, quando a questão toda de eu fazer uma lojinha, de eu pôr minhas coisas à venda, era justamente para eu ganhar dinheiro, para eu poder tomar sorvete, para eu poder comprar os gibis. Eu era apaixonado por gibis, os gibis da Disney. Pato Donald, Zé Carioca, tudo aquilo. Depois, passaram até outros gibis, como Brotoeja, Luluzinha, essas coisas todas. Eu lia tudo. Eu era um leitor voraz e gostava muito também de cinema, comédia, desde pequeno. A comédia sempre foi o meu lar, porque foi um lugar de muito conforto, e eu gostava de ser engraçado também.
P/1- Você era naturalmente engraçado?Ou você foi treinando isso em você ?
R- Eu acho que eu tinha cara dura.
P/1- Tipo, na escola, você era conhecido?
R- Engraçado, na escola eu era mais tímido, mas o que eu gostava de fazer na minha timidez? De aprender piadas para contar para os meus colegas. Eu era sempre aquele cara que chegava com uma piada nova e gostava de fazer campeonatos, de contar piadas e tudo mais, porque ria para mim. Comédia, o rir, a risada, sempre foi uma parte extremamente importante da minha vida. Eu adorava as comédias, eu adorava o ato de rir, de gargalhar. Indistintamente. Desenho animado, por exemplo, como Tom e Jerry, o Coelho pernalonga... ´´O que que é, velhinho?`` [imitação pernalonga], coelho pernalonga, eu ria sozinho na frente da televisão, mas ria de gargalhar, porque me divertia tanto com aquilo. Tudo aquilo que eu via que me fazia rir, eu acabava imitando. Então, acho que o ator também começa a nascer aí. Porque eu gostava de reproduzir aquele momento engraçado e, da mesma forma como eu tinha rido, eu gostava de tentar fazer os outros rirem também. Então, eu era muito caradura.
P/1- E Well, você tinha uma irmã?
R- Uma irmã.
P/1- Mais nova, mais velha?
R- Mais nova, um ano e meio.
P/1- Como era assim, vocês eram de uma família de quatro, como era esse dia-a-dia? Vocês se davam bem com a sua irmã? Tinha um jantar? Como era esse cotidiano na sua casa?
R- O cotidiano em casa era, de manhã, acordar bem cedo para ir para a escola, e a escola era período matinal, a gente saía na hora do almoço, ia almoçar em casa.
P/1- Alguém pegava vocês?
R- Minha mãe pegava a gente. Muitas vezes de táxi. Depois, ela começou a dirigir, ai ela vinha pegar a gente de carro. Minha mãe pegava a gente. Teve um período em que a gente estudou no Elvira Brandão, na Alameda Jaú, que era mais longe, então não tinha ônibus escolar. Aí a gente vinha com ônibus escolar para a escola. E o que era legal, porque assim a gente vinha brincando, zoando, enfim, essas coisas todas. Sempre gostei muito de rir e de me divertir. Isso sempre foi muito fundamental para mim.
P/1- Em que momento você decidiu ou não decidiu? Como foi o surgimento da ideia de fazer teatro como uma opção de vida? Ou isso não caía na sua cabeça? Como foi isso?
R- Engraçado, eu sempre amei o teatro. Eu sempre amei a ideia de fazer teatro. Eu sempre organizava peças, showzinhos na minha casa. Mas a ideia de fazer teatro profissionalmente não tinha passado pela minha cabeça ainda. E, ao mesmo tempo, eu tinha o sonho de ir para os Estados Unidos.
P//1- Você queria morar lá?
R- Eu queria conhecer. E, uma vez que eu conheci, eu quis morar lá. Porque eu adorava inglês. Eu praticamente aprendi inglês sozinho. Tanto que eu estudava para poder... Eu era insuportável. Eu chegava para os professores de inglês e ficava conversando em inglês com eles e tudo mais. Eu queria praticar, eu queria falar aquela língua. Esse era o meu grande sonho. Aí a gente foi para a Disney. Quando a gente foi para a Disney, falei que esse era o mundo que eu queria. Voltamos da Disney, a coisa toda na escola, quando as coisas começam a ficar mais... No final do primário, você está entrando no ginásio e tudo mais, daí que veio a ideia de ser médico.
P/1- Vem de quem a ideia?
R- De mim. Eu falei que eu queria ser médico.
P/1- Por que você falou que queria ser médico?
R- Porque eu gostava da ideia de curar as pessoas. Então, eu achava aquilo o máximo, assim. Eu não sei se também por causa dos filmes que eu via, de curas mágicas, aquela coisa toda. Então, eu gostava muito de fantasia, enfim. O desenho animado, os desenhos da Disney, todos. Na televisão, Pernalonga, a comédia do Pernalonga, do Patolino. Aquilo me fazia rir e eu ficava repetindo aqueles bordões. Aquilo era a minha vida. Rir.
P/1- Então, por como de rir você está matando? Daí você falou, vou ser médico.
R- A coisa de ser médico foi na adolescência, de começar a pensar o que eu quero ser. Eu achei que a medicina era algo bonito, ao ato de curar as pessoas. Então foi dali que eu comecei a pensar, eu quero ser médico. Só na minha cabeça, por exemplo, quanto mais o tempo, quanto mais velho eu ficava, mais ciências humanas se tornavam o meu prazer, e cada vez menos as exatas. Mas, mesmo assim, eu falava, não, eu vou ser médico, eu vou ser médico. Eu não pensava na minha cabeça que, por exemplo, ser ruim de matemática talvez atrapalhasse um pouco a minha vontade de ser médico, entende assim? Eu simplesmente… eu não via nenhum impedimento. Ah, tá, eu não sou bom de matemática, mas eu vou entrar na faculdade de medicina. Claro que eu não entrei.
P/1- Você fez vestibular?
R-Prestei vestibular para a medicina, mas não passei.
P/1- E aí, o que te deu quando você não passou?
R- Aula de inglês. Porque eu comecei a dar aula de inglês com 15 anos. Eu comecei a dar aula de inglês para os meus amigos. Eu sempre fui apaixonado por inglês. E meu pai deu uma viagem para a Disney para a gente. Nessa viagem eu não falava inglês, mas voltei completamente apaixonado pelo inglês. Acho que eu gostava muito do inglês. Acho que me dava a sensação de falar uma nova língua, de que eu ia morar nos Estados Unidos, porque já se falava de intercâmbio naquela época. Então, já se falava de morar um ano nos Estados Unidos. Então, já começava a fantasiar essas coisas todas. Mas, no final, eu nunca fiz nenhum programa de intercâmbio. Quando eu estava com 15 anos, eu ganhei um concurso para representar o Brasil em um acampamento americano chamado Camp Rising Sun, que é uma instituição que existe até hoje. É um acampamento filantrópico que reúne jovens nessa faixa dos 15 anos. Um de cada estado americano. E eles têm os BFAs, os Boys From Abroad, que normalmente são uma média de uns 20 garotos estrangeiros. E essa experiência aos 15 anos de idade, para mim, foi arrebatadora, porque com 15 anos eu estava em Nova York, em um acampamento, não em New York City, Manhattan, não era isso. Mas eu estava em um acampamento, convivendo com moleques da minha idade, só falando inglês. E... E mandando ver. Eu não tinha nenhum problema. Aliás, acho que se tinha algum problema era eu ser entusiasmado demais. Eu sempre gostava de pensar que tudo era como se fosse um espetáculo e tudo sempre tinha solução. A criatividade, para mim também, sempre foi uma coisa que veio muito espontaneamente. Então, você vê, com 15 anos eu tive essa experiência. Logo, quando eu voltei para o Brasil, minha primeira ideia, depois de ter morado nos Estados Unidos, eu já me achava um americano. Não me dava conta que tinha sotaque, nada, mas... Eu já queria dar aula de inglês, já queria ganhar meu dinheiro, já queria independer. Acho que, para mim, essa sensação de liberdade, de independer, de ter a capacidade de gerar meus sonhos e realizá-los, isso para mim era... Isso para mim era fundamental. Isso para mim era o que eu mais gostava. E o teatro.
P/2- Nesse acampamento, que você era um BFA, foi a sua primeira performance como ator?
R - Exatamente. Eu tinha 15 anos. Eu ganhei uma bolsa para ir para esse acampamento chamado Camp Rising Sun, que era um acampamento filantrópico que reunia jovens de todos os estados americanos, e eles tinham normalmente um número que eles chamavam de BFAs, Boys From Abroad, e eu era um desses BFAs, na minha época foram 16, uma coisa assim, 16 BFAs. Então, foi minha primeira experiência. Tinha um garoto da Turquia, tinha um garoto da Itália, tinha um adolescente da Itália, tinha um adolescente do Marrocos. Então, eu tive muita sorte que, com 15 anos de idade, eu já tive uma experiência como essa, de me ver com jovens de diferentes estados americanos. A língua era inglês e eu na boa, falava com todo mundo, não tinha nenhum problema. E eu era já aquele tipo sociável, presidente do Brasil e amigo de todo mundo. E a gente fazia uma peça, era o que eles chamavam de July Production, e era uma opereta, do Gilbert O'sullivan, então chamada _________. Então, foi minha primeira experiência no teatro musical americano, fazendo _______ . E foi uma coisa maravilhosa. Tanto que, assim, o pior dia da minha vida foi quando acabou esse acampamento. Foi voltar para o Brasil, porque eu... Pra mim, assim, acabou o sonho. Eu estava feliz de voltar para ver meus pais, contar as coisas, essa história toda, mas eu me lembro que não foi fácil pra mim, sabe? Você vê, eu tava com 14, 15 anos, eu já tava falando inglês e estudando na União Cultural, mas eu já estava falando inglês, eu já tinha um senso de independência muito grande. Tanto que eu não conseguia ficar muito tempo sem ganhar meu dinheiro. Eu, com 17 anos, comecei a dar aula.
P/1- Aí, me conta sobre isso. Você foi procurar um curso para dar aula?
R- CCAA.
P/1- Você entrou lá e falou, quer dar aula de inglês?
R- É, porque eu falava assim, preciso dar aula numa escola de inglês. E aí, então, tinha essa... Então, eu fui ao CCAA. Tínhamos perto de casa, na Vila Mariana, e eu fui lá e fiz o treinamento. E eu estava com 17 anos, mas eu tinha um porte de mais velho, sabe? Então, as pessoas confiavam em mim. Então, eu me lembro de ter feito treinamento no CCAA, eu comecei a dar aula no CCAA e foi o máximo. Acho que durante uns três anos eu dei aula no CCAA. E, agora, ao mesmo tempo, eu falava que queria ser médico. Então, meus pais me colocaram para estudar no Bandeirantes.
P/1- Ou seja, então, o seu ensino médio veio do Bandeirantes, uma escola difícil.
R- É, exatamente.
R- É uma escola bem difícil.
P/1- E como foi para você ficar passando essa escola tão exigente? Você dava aula e estudava no Bandeirantes?
R- Eu dava aula e estudava no Bandeirantes.
P/1- Como foi ______ ? O Bandeirantes é uma escola muito exigente.
R- O Bandeirantes era uma escola muito exigente e isso causou muitos conflitos para mim, porque eu fiquei sempre muito dividido entre, justamente, tirar as notas e me preparar para a medicina, porque a ideia de ir para o Bandeirantes foi para me preparar para ser médico, porque eu falava que queria ser médico.
P/1- Mas essa ideia foi sua ou foi dos seus pais irmãos? Já que ele quer, a gente vai botar…
R- A ideia de ir para o Bandeirantes foi mais dos meus pais, mas eu estudei numa escola chamada Elvira Brandão, que teve um papel muito importante na minha vida, porque toda a parte de teatro, toda a parte de artes, o Elvira Brandão estimulava muito. E eu sempre me destaquei nesse sentido, nas produções de teatro que se fazia lá e tudo mais. Tanto que, quando eu mudei para o Bandeirantes, para mim foi um choque.
P/1-E você mudou com quantos anos?
R- Quinze. Porque... O Bandeirantes era escola, vestibular. Então, não tinha mais o teatro que tinha no Elvira Brandão, não tinha mais. Toda a farra, né? Então, para mim, foi muito chato, foi muito boring.
P/1- Mas foi boring e exigente?
R- Foi boring e exigente e, ao mesmo tempo, eu me desinteressei muito. Eu me desinteressei muito. Apesar de eu estudar, eu conseguia passar de ano essa coisa toda, mas eu me lembro que, no segundo colegial, eu repeti de ano. E daí eu fui fazer, peguei uma DP e fui para o Objetivo. Quando eu cheguei no Objetivo...
P/1- Antes, você repetir de anos… Como isso era recebido na sua casa? Eles estavam assim, nosso filho vai ser médico. Como é que era essa relação da sua performance com seus pais?
R- Ah, meus pais, eu falei que queria ser médico e eles me colocaram no Bandeirantes para garantir que eu ia passar no vestibular, né? Então... Então, eu era um apaixonado, sempre fui um apaixonado. Então, eu era um apaixonado pela ideia de ser médico. Mas eu confesso para você que quanto mais velho eu fui ficando e mais perto da realidade de uma faculdade de medicina eu fui me aproximando, menos eu tinha vontade de ser médico. E mais apaixonado eu era pelo teatro.
P/1- Nesse momento que você estava no Bandeirantes e dando aula de inglês, você fazia alguma coisa a respeito do teatro?
R- Só, como se chama, não profissionalmente. Só não profissionalmente. Me envolvia com as peças da escola, com as celebrações que a minha escola fazia. Quando tive que ir para o Bandeirantes, não tinha mais nada disso. Foi árido.
P/1- Mas e outra coisa de uma vida cultural nesse momento, na adolescência, tipo fim de semana, essas coisas ter alguma coisa que te marcava?
R- Cinema. O cinema. Cinema e o teatro. Era a minha válvula de escape. O cinema e o teatro. O cinema até mais do que o teatro. Porque ir para o cinema... E eu comecei, junto com outros colegas adolescentes também, a fazer aqueles movimentos de clube de cinema, cineclube. Então, comecei a me envolver muito com isso. O cinema, para mim, foi um canal super importante. O teatro, Ele foi... Era um talento que eu tinha, mas eu não via como pôr isso para fora, porque eu não me via como ator. Aí apareceu o canal. Foi dar aula de inglês. Com 17 anos, comecei a dar aula no CCAA. E no CCAA era o sistema audiovisual. Então, você tinha que... encenar tudo para os alunos poderem entender. Então, foi perfeito. Ah, tinha as lições. Então, tinha as lições, tinha Mr. E Mrs. Miller, essa coisa toda, e tinha as situações. Então, eu encena as situações, essa coisa toda. Era muito divertido. E eu adorava. E os alunos gostavam também. Modéstia favas, eu era um bom professor. E, nessa época do CCAA, eu ganhei muita autoconfiança. E aí o que aconteceu? Enquanto isso, eu dizia que ia estudar Medicina, fazendo o colegial no Bandeirantes. Só que chegou uma hora que, no segundo colegial, porque eu não conseguia as notas, e eu ia bombar. Para não bombar, eu fui para o Objetivo com DP. Quando eu cheguei no Objetivo, e eu vi no meu primeiro dia de aula que eu estava aprendendo tudo que eu já sabia, aí eu relaxei. Eu falei assim, ok, então eu vou me divertir. E foi também... Eu falei, vou conseguir segurar essa onda aqui, vou conseguir tirar as notas. E foi quando comecei a dar aula de inglês no CCAA. Então, eu aparentava ser mais velho. Eu consegui, justamente, me dar bem fazendo isso, dando aula de inglês. Eu acho que, no final, em termos de adolescência, juventude, dar a aula de inglês foi a minha grande realização, porque eu podia ganhar meu dinheiro, eu tinha uma profissão, eu era bom naquilo que eu fazia, as pessoas gostavam do meu trabalho como professor no CCAA. E aí eu me lembro que eu repeti de ano e fui para o Colégio Objetivo. E o Objetivo era muito tranquilo, sabe? Enfim, não era difícil passar de ano. Mas eu dizia que queria fazer medicina.
P/2- Ainda?
R- Ainda.
R- Eu prestei o vestibular para medicina.
P/1- Em que momento tudo isso se transformou? Você dando aula, estudando, desenvolvendo crescimento. Alguma hora, esse assunto mudou. Qual foi o marco?
R- O marco foi quando eu falei... Eu prestei vestibular para Medicina, vi que eu não entrei. E eu pensei, o que eu vou fazer? E por incrível que pareça, eu saí do terceiro colegial naquele ano, e no ano seguinte eu fui contratado para dar aula na escola onde eu estudei, o Objetivo. Então, a carreira como professor de inglês, para mim, me deu uma mobilidade Porque eu com 18, 19 anos, eu estava dando aula no Objetivo. Só que eu aparentava ser mais velho. Eu passava alguma confiança para as pessoas. E eu me lembro que desde o começo, porque eu comecei a dar aula no CCAA, eu estava com 17 anos. Então, eu me lembro que quando foi para eu fazer teste para dar aula no Objetivo, eu me lembro que, quando eu entrei para fazer o teste, todo mundo olhou e falou, quem é esse moleque? Quando eu comecei a dar aula, todo mundo ficou impressionado, porque eu já tinha essa experiência. Eu tinha conseguido conquistar isso muito cedo. E a sala de aula era um teatro. Então, juntou tudo ali. E foi então que eu comecei a dar aula no Objetivo, e aí o ator começou a ficar mais forte também, porque no Objetivo, muitas vezes, quando eu dava aula em Humanas, tinha aula demais de inglês. E, às vezes, eu já tinha dado a matéria, e o que eu vou fazer nessa aula? E foi quando eu comecei a contar as histórias engraçadas. Deixe-me contar para vocês como foi o meu fim de semana e o que aconteceu. Comecei a dramatizar minhas histórias e comecei a fazer stand-up na escola, na sala de aula.
P/1- E eram turmos muito grandes?
R- No objetivo, era. As salas normais tinham uma média de 40 alunos. Mas, no meu segundo ano de Objetivo, eu já comecei a dar aula no Cursinho. O Cursinho era Vaticano, como eles chamam, que são aquelas turmas grandes.
P/1- E você se realizava com isso? Você estava feliz?
R- Eu era muito feliz dando aula, porque eu gostava muito. Eu gostava de ensinar. Eu gosto do ato de ensinar. Eu e a sala de aula é um casamento muito bonito. E eu gostava desse desafio de ensinar mesmo, não de dar matéria, mas de garantir que as pessoas entendiam, que elas aprendiam, que elas iam conseguir passar de ano. E o que aconteceu foi isso. Você vê, no objetivo, Praticamente, eu dava aula no CCAA, aí eu não entrei na faculdade. Aí, justamente, eu tinha uma professora de inglês no Objetivo, que falou assim, bom, já que você não entrou na faculdade, por que você não vem dar aula aqui? Eu falei, mas eu posso. Ela falou, você não tem proficiency ? Eu falei, tenho. Então, eu tinha o proficiency de Cambridge. Com aquilo, com o proficiency, tinha como dar um jeito, enfim, de modo que eu pudesse dar aula de inglês. E foi assim que eu comecei. Eu tinha 19 anos quando comecei a dar aula de inglês no Objetivo. Mas eu parecia mais velho.
P/2- Eu queria saber uma coisa que... A gente não falou? Quem eram os amigos, as amigas, os amores? O que acontecia entre o colégio, o objetivo e depois não entrar na vestibular e ser professor? Quem eram os amigos, as amigas?
P/2- Essa vida do afeto.
R- Essa vida do afeto. Na minha adolescência, uma coisa que foi muito importante foi a comunidade de jovens do Santíssimo Sacramento. Então, Sabe o encontro de jovens, aquela coisa toda?
Da igreja.
R- Da igreja. Imagina, eu fui criado num lar espírita. Eu fui criado num lar espírita. Meu pai, um espiritualista de mente muito aberta, que a gente saia pra ver disco voador. Então, um cara de uma cabeça muito ampla, assim. Então, eu era um misto... Eu era um bicho estranho.
P/1- E como você foi parar na igreja pra... Com a amizade? Porque quem me disse isso aí?
R- Ah, na igreja aconteceu de... Nós tínhamos uns vizinhos que falavam, ah, a gente vai na comunidade, na comunidade, na comunidade. Daí eu perguntei, o que é essa comunidade? Aí eles falaram, ah, vem no sábado com a gente. E eu fui. Então, na comunidade foi o maior barato, porque a gente cantava na igreja, aquela coisa toda ( canção) ´´o importante, a rosa, o importante…´´.. Nosso encontro de jovens – fui palestrante de encontro de jovens durante alguns anos, 18, 19 anos, e ao mesmo tempo dando aula no Objetivo. Na minha vida, eu fazia muita coisa ao mesmo tempo. Acho que eu não tinha uma vida muito linear.
P/1-E a vida amorosa? Quem foi seu primeiro amor ou os primeiros amores?
R- Ah... Meus primeiros amores... Meus primeiros amores, eles aconteceram na minha adolescência, mas... Na minha adolescência, mas foi quando eu comecei a dar aula de inglês que aí eu comecei a namorar mais sério. Eu tinha uma namorada chamada Lúcia, e eu era professor do CCAA nessa época, e a Lúcia era minha aluna. E os irmãos dela também eram professores do CCAA. Então, nessa época... Essa época era uma época muito divertida para caramba, porque eu dava aula, eu gostava de dar aula. No teatro, o ator já estava em cena na sala de aula. Minhas aulas eram divertidas. Meus alunos se divertiam bastante, eu me divertia bastante. E, aí, o que aconteceu foi que veio o Objetivo. Eu me formei...
P/1- Eu sei. Depois, você ficou quanto tempo no Objetivo?
R- No Objetivo, eu fiquei três anos, eu acho. Eu fiquei, acho, três anos. Eu sei que foi assim. Eu fiz o terceiro colegial no Objetivo. Eu era do Bandeirantes. Bombei num passeio de ano. Peguei DP e fui para o Objetivo. Quando cheguei no Objetivo, férias total, porque no terceiro colegial do Objetivo, no primeiro dia de aula, eu já tinha aprendido tudo no Bandeirantes. Então, eu relaxei. Relaxei no sentido de não levar as coisas tão a sério, apesar de dizer que queria fazer medicina. A coisa de dar aula de inglês, de estar vivendo a teatralidade através das aulas de inglês, de estar sendo bem-sucedido naquilo... Eu falava que queria fazer medicina, mas eu não fazia nada para passar no vestibular de medicina. Nada concreto para passar o vestibular. Eu estudava no Bandeirantes.
P/2- Depois não mais?
R- Depois não mais. E o que eu gostava? Eu estava adorando o buchicho da sala de aula, porque a teatralidade estava toda lá. Eu cantava, eu era um professor engraçado. Desde o princípio, como professor dentro do Objetivo, eu já fui um professor popular porque a comédia estava nas minhas aulas.
P/2- E se essa vida estava tão plena, o que levou você para fora do Brasil?
R- O teatro. Querer estudar teatro, que para mim dá o passo no sentido... Porque a ideia de fazer teatro aqui no Brasil e a minha família não peitava. Imagina, eu já estava como professor do Objetivo, que não era muita coisa, mas era muita coisa para a minha família.
P/1- Eles achavam bacana você ser professor do Objetivo?
R- Eles achavam legal eu ser professor do Objetivo. E tanto porque eu comecei como professor de primeiro e segundo ano, mas muito rápido eu virei professor de terceiro e cursinho.
P/1- Eles admiravam isso?
R- Eles admiravam isso. Eles achavam isso legal. E eles não ficavam me pressionando, mas e a medicina? E a medicina? E a medicina?
P/1- Não.
R- Não. E eu também... Deixou passar? Deixei passar. Porque eu vi que eu não queria ser médico. Eu falava. Eu tinha essa ilusão. De querer ser médico. Eu acho que qualquer proximidade que eu tive com a medicina foi com o palhaço no hospital. Aí, sim.
P/1- E aí, só um minuto antes de você contar como você decidiu sair do Brasil, você me contou uma vez que você era gordo e comia muito.
R- É verdade.
P/1- O que era isso? Como era essa sua... Era…Sua…. ____
R- Eu era... Prazeres. Prazeres. Eu era completamente entregue aos prazeres da vida. Aos prazeres da gula. Então, eu comia mesmo. E eu fui perdendo o eixo. Eu fui engordando. Porque eu comecei a dar aula. Eu saí do colegial do Objetivo com 19 anos. Eu saí em dezembro. Em janeiro, eu fui contratado como professor. Então, assim, eu saí de um aluno que ia fazer medicina, não entrou na faculdade e ia ter que fazer cursinho no ano que vem para entrar na mesma escola como professor aos 19 anos. Então, isso para mim foi uma mudança de carreira, onde eu estava entrando no Objetivo no ano seguinte, mas não mais para tentar fazer cursinho, para entrar no vestibular. Eu já estava entrando como professor e ganhando salário de adulto.
P/1- Você ganhava bem?
R- Ganhava bem. Eu tinha muito tempo livre, eu dava muita aula. Então, era maravilhoso. E aí, desde o primeiro dia de aula, a comédia passou a fazer parte da minha vida.
P/1- Mas e essa história de comer e os prazeres da gula? Como é que foi?
R- Isso foi com o tempo. Isso foi com o tempo. No começo não era assim. Mas à medida que eu fui me fixando mais como professor, e professor de cursinho. Eu subi muito rápido dentro do Objetivo. Eu estava depois, inclusive, dando aula na faculdade. E tudo isso tendo tirado Cambridge, proficiency, essas coisas todas. Então, a minha carreira foi muito bem sucedida. O que começou a acontecer? Eu ganhava tão bem porque eu gastava meu dinheiro indo comer bem. Engordei.
P/1- Você comia o quê? O que era um prazer da carne para você?
R- Ah, um prazer da carne era comer no restaurante que eu quisesse, com meus amigos, e pedir o prato que eu quisesse. Era isso. Eu era bem bobo, bem fútil mesmo. Mas... E... Eu tinha essa ideia de fazer teatro, mas eu estava muito bem dando aula e ganhando uma grana.
P/1- Essa ideia de fazer teatro, aí você disse, fazer teatro aqui, a minha família não ia topar. Como é que era essa ideia dentro de você? Você ficava namorando, você via que tinha grupo e não tinha coragem de ir. Como é que ela se dava? Você lembra desse seu sentimento?
R -Sim, eu me lembro. Era algo que eu não encarava. Eu gostava de teatro, mas, por exemplo, se eu falasse em estudar artes cênicas no Brasil, não rolava. O que aconteceu? Eu precisei... Pegar meu dinheiro, meu décimo terceiro, essa coisa toda, do Objetivo, para pagar, comprar dólar, pagar o primeiro ano da minha escola lá em Nova York. E aí eu fui para estudar teatro musical. Aí eu saí do Brasil para estudar teatro musical. Isso para mim foi o divisor de águas.
P/1- Você falou para a sua família, estou indo estudar teatro musical?
R- Eu vou estudar teatro musical em Nova Iorque.
P/1- E aí, como foi esse dia? Você lembra?
R- Sim, sim, eu me lembro. A minha família ficou assim... Você vai estudar teatro musical em Nova York? Como assim? Que história é essa? Mas eu fui fazendo. Imagina, naquela época, a gente não tinha internet. Era tudo por telefone. Eu fazia chamadas telefônicas e falava com a escola, essa coisa toda, e fui mandando meus documentos e tudo mais, e me aceitaram. E eu ganhava bem. Eu saí do Objetivo, fiz acordo, eles me demitiram, ganhei uma grana que me ajudou a comprar dólar. Deu tudo certo. Eu saí do Brasil e paguei a minha escola de teatro musical. Ainda no meu primeiro ano, eu paguei com o dinheiro que eu tinha ganho no Objetivo, como professor. Então, eu saí assim... Numa boa, porque eu estava me bancando. Eu não estava mais indo fazer medicina. A ideia do cara que estudou no Bandeira antes para ser médico e tudo mais, essa ilusão já tinha morrido, porque eu já era um professor de inglês bem-sucedido. Imagina, com 19 anos eu era professor do cursinho do Objetivo.
P/2- Mas o que o seu pai, a sua irmã Nina e sua mãe, bem-vinda, falaram quando você informou? Você morava com eles?
R - Morava com eles.
P/2- E aí, você chegou, contou e foi?
R- Bom, não, não. Aconteceu, teve um fato. Eu estava, assim, tão dono da minha vida, dono de mim, tão inebriado com tudo, tudo que eu tinha, imagina. Eu dava aula que nem um louco, ganhava super bem e não tinha onde gastar esse dinheiro, porque eu trabalhava demais, dava aula demais. Então, eu me lembro que um dia eu cheguei super cansado em casa e eu Eu preciso me lembrar dessa ocasião. Eu cheguei super cansado em casa e eu acho que eu joguei uma camiseta em cima de um abajur, e era um abajur que tinha uma lâmpada saltada assim para fora. E eu sei dizer que eu fui acordado pela minha família achando que tinha um incêndio em casa acontecendo. E não era um incêndio, era só a camiseta que começou a fumegar. Mas, vamos dizer assim, aquilo a virar um evento onde eu quase pus fogo na minha casa, foi pouca coisa. E eu me lembro que, quando isso aconteceu, eu falei... Eu cheguei no fundo do poço. Eu não tenho outra escapatória senão começar tudo de novo. E eu falei, só que agora eu vou começar tudo de novo, fazendo o que eu sempre quis fazer. Agora eu vou estudar teatro. E eu vou estudar não só teatro, eu vou estudar teatro musical em Nova York. Então, foi quando eu peguei todo o meu fundo de garantia, transformei tudo em dinheiro, comprei dólar, paguei a escola de teatro musical e fui para Nova York estudar na American Musical and Dramatic Academy, na AMDA. E aí, sim, começou essa nova fase da minha vida.
P/1- E como foi? O que aconteceu? Você chegou lá e foi morar onde?
R- Eu fui morar em Astória. Eu consegui um apartamento com um americano que alugava um quarto na casa dele e eu alugava esse quarto, John Hodel. E foi assim... Eu enlouquecia um pouco o John, mas, para mim, era... Gente, comecei a dar aula no Objetivo com 19 anos de idade. Me tornei rapidamente um superstar. Eu tinha tudo o que queria. Daí, tendo tudo o que queria, Eu vi que aquilo não era suficiente e não estava me levando a lugar nenhum, porque eu estava fazendo mais do mesmo. Então, eu precisei criar um incidente onde eu quase pus fogo na minha casa para parar e olhar e falar, opa, espera aí, o que eu estou fazendo com a minha vida? E aí, quando eu olhei o que eu estava fazendo com a minha vida, é que eu estava indo para lugar nenhum. E eu falei, então, agora eu vou fazer o que eu quero fazer. Eu vou estudar teatro musical. E aí encontrei a escola, paguei a escola com o meu dinheiro de professor de inglês, troquei dólares, essa coisa toda, e fui para a American Music Alliance of American Academy. Aí começa uma nova fase da minha vida, 1984.
P/1-Você chegou em Nova Iorque?
R- Cheguei em Nova Iorque. Nossa Senhora! Meu Deus do Céu! Só de lembrar aqui agora minha chegada em Nova Iorque. Depois de quase ter posto fogo na minha casa.
R- Aí você entrou em Nova Iorque e...
R- Bom, a primeira coisa foi ir para a escola. Eu fiquei em um hotel a princípio.
P/1- Você conhecia alguém?
R- Nada. Não conhecia ninguém. Não conhecia ninguém. Eu fiz tudo, na época, por telefone. A gente não tinha internet nessa época. E eu fiz tudo por telefone. E ia conversando com as pessoas. Ia mandando os documentos. Mas... Na verdade, e depois, como eu estava saindo do objetivo, eu tinha granas para receber. E foi essas granas que eu recebi quando eu saí do objetivo que me ajudaram a comprar dólares para eu pagar a minha escola, para pagar o meu curso.
P/1- Aí você chegou lá e foi para um hotel?
P/1- Cheguei e fui para o hotel. A escola era num hotel, no Hotel Ansonia. Tem este Hotel Ansonia e no térreo do hotel tinha a escola. Era uma escola de teatro musical muito na linha daquela escola do FAME. Só que a AMDA era uma escola naquela linha, American Musical and Dramatic Academy.
P/1- O que você estudava lá? O que você começou a estudar? O que aconteceu? Foi a primeira vez que você fez teatro?
R- Foi a primeira vez que eu fui estudar teatro mesmo, profissionalmente. Você tinha um pouco medo daquilo, mas.
P/1- Em outra língua, nunca tinha feito teatro.
R- Não, eu não tive medo nenhum. Eu era tão apaixonado por aquilo tudo. Em nenhum momento eu tive medo, em nenhum momento eu tive nenhuma insegurança. Eu sabia que eu queria fazer aquilo dar certo. E eu queria fazer direito, porque o que levou à minha saída do Brasil, também, tinha sido uma fase em que eu estava, como professor de inglês, indo muito bem, fazendo muita coisa, mas sabe quando eu estava vivendo um pouco de exagero? Então, por isso que foi tão importante para mim eu parar tudo e falar, não, deixa eu repensar a minha vida. Eu vou pegar o meu dinheiro, pegar o meu fundo de garantia, vou transformar isso em dólar e vou comprar, pagar a minha anuidade nessa escola e estudar teatro musical, porque eu queria ser um artista completo. E um artista completo, para mim, era um cara que canta, dança e representa. Fora que eu era bem gordo nessa época.
P/1- Então você chegou lá gordo.
R- Cheguei lá gordo. E depois que eu emagreci...
P/1- Você chegou gordo e aí? Você tinha aula de quê? Você nunca tinha feito dança.
R- Nunca tinha feito dança. Mas eu falava para a minha professora. Eu tinha dois professores. Uma professora de jazz, que era a Piper, P. Crowell, e tinha o meu professor de dança para teatro musical, que era o Harry Woliver. E o Harry, a gente ficou muito próximo porque ele tinha dirigido a Bibi Ferreira. Em My Fair Lady. Ele foi para o Brasil para dirigir a Bibi, na My Fair Lady. Então, a gente tinha isso em comum. E a gente falava sempre da Bibi, essa coisa toda, porque a Bibi aqui tinha feito gota d'água. Enfim, era... Era... Era uma Bibi que eu não conhecia também, né? Que tinha feito My Fair Lady. Então, sabe quando junta essas coisas todas? Foi muito legal.
P/2- Mas você era um gordo que se mexia bem?
R- Eu era um gordo que me mexia bem, eu tinha cara dura, eu me jogava, sabe? Agora, quando eu cheguei lá, eu realmente comecei a fazer exercício e comecei a modificar a minha alimentação. Então, eu fui emagrecendo. Ou, como dizia a dona Malu, que era a faxineira que a gente tinha, eu fui esmagrecendo. Então, foi um trabalho... Hoje, lembrando de tudo isso agora, eu acho que eu me joguei numa situação onde ou eu nadava ou eu afundava. Você me tirar daqui, me mandar para Nova York, onde eu não conhecia ninguém, ia começar tudo do zero, depois de quase ter posto fogo na minha casa, por acidente. Porque uma vez eu dormi com o abajur ligado, e o abajur... Eu dormia. Olha, eu estava tão louco que eu dormia super tarde. E para não ter que desmanchar a cama, eu me rolava num cobertor no chão do meu quarto, no carpete, e dormia. E eu me lembro que eu tinha um abajur que tinha aquelas lâmpadas, sabe, assim, que saia para fora? E eu tinha um piso de carpete. E, uma noite, eu bati naquela lâmpada e ela foi para o carpete. E eu acordei com o carpete fumegando. Então, não estava pegando fogo, não tinha labareda, nada, mas o carpete estava fumegando. Foi o suficiente para causar espanto na minha casa, né? E aí, então, naquele dia eu falei assim, gente, não dá. Isso... Aonde eu tô não é legal. Eu tenho que fazer algo com a minha vida. Definitivamente, não é botar fogo no carpete. E foi aí que justamente eu falei, vou sair do objetivo, fiz um acordo, recebi meu dinheiro, com esse dinheiro eu comprei dólares, paguei a anuidade da minha escola e saí do Brasil com uma mão na frente e outra atrás para estudar teatro musical. Na American Musical and Dramatic Academy.
P/2- E esse um ano passou muito rápido? Que decisões foram tomadas?
R- Não, não foi um ano, né?
P/2-Não, foi um ano pago.
R- Ah, sim. Na verdade, foram dois anos pagos, porque eu fiz o equivalente a três anos e meio em dois anos, porque eu fazia em tempo integral.
P/1- Ou seja, você estudava o dia inteiro?
R- Eu estudava o dia inteiro. Teatro musical. Tudo que eu estudava era teatro musical. Eu tinha aula de teatro, tinha aula de representação, tinha aula de dança. Imagina, eu era 30 quilos mais gordo. Eu era muito gordo naquela época. Eu cheguei para a minha professora de dança. Minha professora tinha sido coreógrafa dos shows da Bette Midler. E eu falei, eu sou o seu ingresso para o paraíso. Se você me ensinar a dançar, você vai direto daqui para o paraíso. Foi assim que fui jogando o meu charme para as pessoas. Eu era muito gordo. Eu estava com quase 100 quilos.
P/1- E a parte de canto você começou a fazer lá também?
R- Comecei a fazer lá. Comecei a fazer tudo lá. Cantar, eu já cantava em sala de aula. Porque como eu dava aula de inglês, então muitas vezes para poder... Quando eu tinha tempo de aula sobrando, eu dava uma letra de música para os alunos e cantavam juntos, e todo mundo ficava feliz. E assim eu conseguia ensinar inglês, cantar ao mesmo tempo, me divertir. E essa foi a forma que encontrei, subvertendo as coisas. Mas sei dizer que quando aconteceu isso, nessa noite em que eu quase pus fogo na minha casa, no dia seguinte eu acordei e falei assim, chega. Isso que aconteceu foi para me acordar que dar aula não é mais o que eu vou fazer.
P/1- E a sua intenção é o que foi fazer essa escola? O que você tinha na cabeça? Você foi fazer auditions para trabalhar?
R- Eu fiz auditions, fiz tudo. Eu encontrei escola pesquisando, na época, pelo consulado, porque a gente não tinha internet, nada. E ligando, falando ao telefone...
P/1- Mas aí você fez uma auditions para ser aceito? Como?
R- Lá. Fui para lá para ser aceito lá.
P/1- E lá você ficou dois anos?
R- Não. Na escola foram três anos.
P/1- Três anos. Nos quais você passava o dia todo estudando?
R- Passava o tempo todo estudando. E eu ainda trabalhava na escola, porque tinha o que a gente chama de work-study. Então, eu tinha que pagar a minha escola, mas, ao mesmo tempo, o que eu pudesse trabalhar na escola, eles me pagavam. Então, do que eles me pagavam, eu deixava de pagar a escola. Então, foi que eu consegui usar meu dinheiro, porque eu tinha trazido uma grana razoável.
P/1-Esse dinheiro, o objetivo deu para esses três anos?
R- Deu para esses três anos.
P/1- E você não voltou no Brasil depois desses três anos, durante esses três anos?
R- Eu voltei para o Brasil, acho que no final do meu primeiro ano, para passar Natal e Ano Novo. Mas foi só. E depois eu voltei. Aí começou a ficar mais difícil a história de voltar para o Brasil, porque veio a formatura. No que eu me formei, eu já estava como um profissional dentro do mundo do teatro musical.
P/1- O que você foi fazer com isso? Qual foi o seu trabalho? Como você começou a trabalhar? O que você fez?
R- Eu comecei a fazer testes.
P/1- Auditions.
R- É, auditions. Comecei a fazer auditions. E meu primeiro trabalho foi com uma companhia de teatro musical para crianças, chamada Musical Theatre Works. E o Musical Theatre Works fazia autos musicais, mas musicais que eram feitos para plateias infantis. E foi uma experiência maravilhosa, porque o Musical Theatre Awards, apesar de ser para criança, era teatro musical sério mesmo. E isso foi me dando lastro, até que chegou um momento em que eu consegui trabalho mesmo.
P/1- Aonde você conseguiu trabalho?
R- Consegui trabalho mesmo numa peça chamada Senior Discretion, que era uma oficina para um musical, e essa oficina era regida pelo sindicato. Então, nessa época, nessa época, eu consegui, justamente, Nossa, eu estou me lembrando de cada coisa aqui, gente. Desculpa.
P/2- Tudo bem.
P/1- O que você lembrou agora? Pode me contar?
R- Bom, eu estou tentando organizar as datas na minha cabeça. Porque aí eu cheguei em Nova Iorque... Eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás.
P/1- Aí você fez a escola e foi.
R- Fazer... Aí eu cheguei com uma mão na frente e outra atrás para estudar teatro musical. Aí eu fui, fiz a escola, me formei, e quando eu saí da escola, Justamente foi quando eu tive a minha primeira oportunidade de trabalho. Eu não tinha green card.
P/1- Como você conseguiu esse trabalho?
R- Justamente, eu não tinha green card. Eu fui fazer teste. Quando eu fui fazer teste, eu tinha visto... Como eu tinha ido estudar, numa escola americana, quando você vai estudar nos Estados Unidos, por exemplo, teatro musical, eu tinha uma permissão para trabalhar, porque supostamente no Brasil não tinha teatro musical como tinha no Brasil, como tinha em Nova York. Então, por isso, eu tinha um work permit. Estava tentando me lembrar justamente como foi que eu justifiquei o meu começo de trabalho, o meu começo de carreira. Foi com esse work permit.
P/1- O que foi nesse _______ Discretion? Por que foi o seu primeiro trabalho verdadeiro?
R- Porque o ______ Discretion foi um musical de um autor chamado Frank Lasser, que foi um autor muito famoso. Nos seus dias de Broadway, era um musical inédito. Então, você imagina você pegar um musical que esse cara tinha composto, mas nunca tinha sido produzido, e de repente estava sendo produzido, mas numa montagem como eles chamavam de workshop production. Era uma montagem simples, porém sindicalizada, o que significava que era legítima. Então, não era uma peça bem intencionada, entende? Era uma coisa séria, era uma coisa profissional.
P/2- Não era experimental.
R- Não era experimental.
P/2- Experimental no sentido pós broadway , era broadway, broadway.
R- Exato. Era... Legit. Essa é a palavra. Era legit. Era equity. Então, eu dei muita sorte de conseguir entrar numa coisa dessa. Sendo que eu não tinha os documentos. Eu não tinha os documentos. Eu não tinha green card. Eu consegui meu green card depois. Mas foi muito louco. Eu consegui coisas…
P/2- E os prazeres? O que eram as dores? Quais eram as dores? Quais eram os prazeres?
R- Eu não sei, Luiz. Você sabe que na minha cabeça eu pensava tanto em dar certo, tanto em vencer, porque eu não sei se eu tinha dores. Eu me lembro que foi uma transformação para mim. Quando eu saí do Brasil, eu era um cara gordo. E lá eu comecei... Quando eu cheguei na escola de teatro musical, eu comecei a emagrecer. Dançar! Meu Deus do céu! Eu me lembro, eu falava pra minha professora. Imagina, a minha professora tinha sido coreógrafa da Bette Midler, nos shows dela, essa coisa toda. Então eu falava pra ela, eu falava assim, I am your ticket to heaven. Porque se você me fizer dançar, você vai para o céu. Eu usava essas brincadeiras para falar para as pessoas. Eu não tinha consciência corporal nenhuma. Eu tinha um corpo enorme, eu era muito gordo. Eu não acho que eu cheguei a 100 quilos, mas uns 90 por aí eu estava. Com 90 quilos. Mas eu cheguei lá e fui emagrecendo. Eu fui emagrecendo, fui emagrecendo. Eu paguei a escola, mas eu ia pagando em prestações. E eu podia, como aluno, tinha uma coisa chamada work study. E como work-study, eu podia trabalhar na escola a cinco dólares por hora e esse dinheiro era abatido da minha prestação.
P/1- O Well, e você se sentia assim, você tinha possivelmente sotaque, né?
R- Tinha.
P/1- Nunca tinha dançado.
R- Nunca tinha dançado.
P/1- Eu acho que todo mundo que vai se preparando desde 10 anos já chega assim bombado, né? Falando, cantando. Como você se sentia em respeito a esses... Outros alunos eram assim? Durante o BFM, a gente vê que já tem gente ali com 12, 13, 14 anos, dando pirueta,, singing in the rain. Então, como que era a sua relação o meio ____ chegando ali?
R- Bom, eu me lembro da minha... Aconteceu uma coisa muito legal. O meu professor de jazz, Harry Wolever, tinha dirigido a Bibi Ferreira em My Fair Lady. Então, isso já tinha, vamos dizer assim, gerado uma simpatia. A minha professora de jazz, a Piper, ela tinha coreografado o show da Bette Midler. Então, a Piper e eu uns 100 quilos, né? Era bem gordão essa coisa toda. Eu falava pra ela e pro Harry, eu falava assim, I am your ticket to heaven. Então, se você me ensinar a dançar, você vai pro céu.
P/1- Quando você chegava na sala, né, que a gente estuda dança com uma porrada de gente.
R- Ah, sim.
P/1- E aí, o que você sentia?
R- Puta, bicho, era assim... Eu não tinha tempo, eu não tinha tempo de me atormentar, entende assim? Eu falava, eu vou fazer e vou fazer. Aquilo foi assim, dançar pra mim foi um exercício de força de vontade mesmo. Porque eu não tinha coordenação corporal nenhuma. Eu não tinha consciência corporal nenhuma. Imagina, eu cheguei lá com quase 100 quilos e fui emagrecendo aos poucos.
P/1- E lá, durante esse tempo, você fez outros cursos ou se focou nesses cursos?
R- Não, eu só estudei... O teatro musical era a tempo integral. Eu trabalhava na escola, porque tinha work-study. Eu podia trabalhar e isso descontava de quanto eu tinha que pagar para eles. E foi muito legal isso, porque isso me ajudou para caramba a ter a grana para pagar. Também, eu tinha meu fundo de garantia, que eu transformei em dólar, mas também meu pai foi vendendo minhas coisas e transformando isso em dólar.
P/1- Seu pai disse que não te deu dinheiro de apoio para fazer a escola.
R- Meu pai não tinha dinheiro para me bancar.
P/1- Mas ele teria querido te bancar ou fazer teatro para ele?
R- Ele teria querido me bancar. Ele me deu, acho que uns mil dólares, uma coisa assim. Ele fez um investimento em mim. Mas me lembro que eu banquei o dinheiro com o meu fundo de garantia.
P/1- Aí Well, você acabou ficando lá há quantos anos?
R- Oito.
P/1- Três na escola e os outros cinco trabalhando no teatro.
R- Três na escola e exatamente os outros cinco trabalhando no teatro. Porque o que aconteceu é que... Deixe-me lembrar aqui. Bom, os primeiros dois anos e meio foi escola. E tinha um contrato com a escola que, enquanto eu fosse aluno, eu não poderia fazer testes para outras produções. Porque tem muito aluno que começa a fazer escola de teatro e já vai fazer testes, essa coisa toda. Então, as escolas falam, Você não pode. Você tem que se comprometer a ficar aqui. Se você sair, você saiu e não volta mais. Essa coisa toda. Então, no meu caso, nem dava para fazer isso porque eu só podia ficar nos Estados Unidos se eu estivesse estudando. Então, foi isso. Então, sei dizer que cheguei com os meus quase cem quilos, naquele frio, e tinha o Work Study. O Work Study me salvou também, porque o que eu trabalhasse era descontado da minha anuidade. E eu trabalhei muito.
P/2- E quais eram os trabalhos, Wellington, na escola?
R- Limpeza.
P/2- Limpeza das salas.
R- Limpar a sala, jogar lixo fora, fazer alguma manutenção de pintura, qualquer coisa assim. Agora, olha como a vida foi generosa. Acho que ainda existe um hotel em Nova York chamado Wellington Hotel. Nesse Wellington Hotel tinha uma escola de inglês chamada The Owen School. E nessa Owen School eu fui dar aula de inglês. E eu ainda falava para os meus alunos, quando eu falava meu nome, né? I'm Wellington. Aí os alunos falavam, Wellington? Like hotel? Yes, my hotel. E os alunos, oh, teacher, your hotel. E eu falava, yes. É claro que eles sabiam que eu estava mentindo. Mas, assim, além de tudo, eu ainda consegui um trabalho dando aula de inglês no Hotel Wellington.
P/2- E as grandes descobertas do mundo que se abriam ali? Você lembra de coisas que você falou?
R-Não, para mim, a escola de teatro musical, a aula de teatro musical foi o meu grande tira teima, porque eu falava inglês já muito bem. E eu achava que eu era um arraso. Mas quando eu fui estudar teatro musical, eu vi que não era o arraso que eu achava que eu era. Porque aí eu fui começar a trabalhar uma canção A interpretação de uma canção... Primeiro, minha professora de teatro musical, ela era história do teatro musical americano, porque ela foi a primeira mulher à regir um musical na Broadway. Então, ela era uma... Uma puta profissional extremamente exigente. Com ela, eu aprendi a trabalhar, a fazer, a entregar. E ela deixou isso bem claro para mim, sem me iludir. Ela falou, você é um estrangeiro aqui. E eu falo isso porque você vai ter que trabalhar três vezes mais que qualquer outro americano para você conseguir chegar perto de um americano. É simples assim. Então foi muito legal, porque eu... Gente, eu já dava aula de inglês, eu era um professor de inglês. Mas quando eu cheguei lá, é que eu me dei conta que eu tinha sotaque. Entende? Eu achava que eu falava super bem inglês. Agora, chega numa escola de teatro... Ah, seu sotaque... Sotaque? Eu? É, eu tinha sotaque, eu não tinha noção disso. Então, entender essas sutilezas, entender o desafio mesmo. Eu estava estudando teatro musical e eu queria ser um ator, e eu queria entrar no mercado americano. Entende? Eu era louco, insano, completamente. Mas o mais louco é que eu consegui. Bom, se você quiser, eu fiz figuração num filme do Eddie Murphy, por exemplo. Ou aquele que ele... Ai, meu Deus do céu. Enfim, eu esqueci o nome. Coming to America.
P/1- Mas você chegou a entrar em teatro da Broadway?
R- Não, nunca fiz Broadway. Eu fiz off-Broadway. Nunca fiz Broadway. Nunca cheguei a... Mas eu cheguei a fazer parte do Musical Theatre Works. Musical Theatre Works é uma companhia off-Broadway de teatro musical infantil.
P/1- E na off-Broadway você começou a fazer outras peças, tipo stand-up? Você entrou na comédia ou não? Você estava focado nisso?
R- Eu estava focado muito no teatro musical. Desde a minha primeira aula na escola de teatro musical, eu tive técnica de palhaço. E o meu professor era um cara apaixonante, o John Townsend. E o John tem um papel muito importante na minha vida, porque eu, como ator, eu tinha sotaque, Eu era um estrangeiro. E, como palhaço, o sotaque não era um problema. Ser estrangeiro não era um problema. Tudo que eu tinha de estranho, diferente, era divertido para o palhaço. Então, o palhaço foi para mim também uma tábua de salvação.
P/1- E ali você começou a trabalhar como palhaço ou não?
R- Eu comecei a estudar palhaço na escola. O meu professor, o John Townsend, eu até Doutores da Alegria, tudo o que fiz foi o que aprendi com o John, porque ele era um professor de palhaço que era, antes de mais nada, um grande circense e um grande pesquisador da história do circo e tudo mais. Eu me tornei logo um dos... Pets, do meu professor. Ele gostou de mim. E aí o que acontecia? Ele me contratava e me pagava por baixo do pano para eu fazer a limpeza do estúdio dele, que era uma escola de palhaço, chamada If Every Fool. If Every Fool é baseado num ditado americano que fala, se cada bobo usasse uma coroa, seríamos todos reis. Então, eu ganhei a simpatia desse meu professor, e aí, então, eu comecei a trabalhar com If Every Fool, e aí eu consegui, enfim, estar dentro, estar mais dentro de uma organização. E essa organização era... Só sobre palhaços. E era uma organização sem fins lucrativos. Então, o meu primeiro aprendizado com uma organização sem fins lucrativos em torno de uma causa foi essa, foi a If Every For. Mal sabia eu que, anos depois, eu ia estar trabalhando como um palhaço no hospital. O que aconteceu é que depois, lá nos Estados Unidos, teve um determinado momento em que eu consegui meu green card. Então, foi por isso que eu consegui trabalhar nos Estados Unidos como palhaço no Big Apple Circus. Mas antes de eu conseguir meu green card, eu fui casado nos Estados Unidos. Então, eu fui casado com uma americana chamada Kim McGrath.
P/1- Mas você casou por causa do papel?
R- Casei por causa do papel. Eu casei, e assim, não teve enganação nenhuma, foi um acordo.
P/1-Sim.
R- Então, casei pra ter o documento mesmo.
P/2- E ela queria o passaporte brasileiro também?
R- Ela não tinha... Ela tinha vontade de conhecer o Brasil, eu trouxe ela para o Brasil, mas...
P/2- Era uma amiga?
R- Ela era uma amiga que ela resolveu, ela e o marido resolveram me ajudar. Nessa história de resolver me ajudar, ela se apaixonou por mim, e isso pra mim foi muito chato, foi muito desconfortável. Eu sofri muito, e ela também, mas eu consegui, dentro da imigração, a green- card, documentação. Consegui o meu green card.
P/1- E por que você sofreu muito com ela também? Ela estava apaixonada por você, não?
R- É, eu não estava. Então... Ela era bem mais velha do que eu. Então, assim... Mais safa, sabe? Eu... Eu não era safa.
P/1- Mas aí você tinha outros namoros, meninas, meninos. Nova York, nessa época, é pré-Aids, né?
R- Nova York é pré-Aids.
P/1- Era uma cidade muito cheia de liberdade.
R- Era muito cheia de liberdade. Você não se entregou a esse mundo? Não, não me entreguei tempo. Nesse ponto, tive muita tranquilidade de falar não. Isso aqui, eu quero ficar vivo. E aí, agora, teve um momento que justamente a minha esposa, a mulher com quem eu me casei, a Pi, foi ideia dela e do marido. Ela era casada. E eles falaram, não, nós queremos ajudar você. Então, a Pi vai casar com você e ela vai morar com você. O período que precisar. É claro que ela vai ficar se dividindo entre as duas casas, essa coisa toda. Mas eles falaram, não, a gente quer ajudar você, a gente quer ajudar você. Então, foi assim... Foi um presente dos céus. A coisa... Vamos dizer assim, só desandou porque em um determinado momento ela começou a se apaixonar mesmo por mim. E eu não queria aquilo, porque eu não queria ser o pivô de uma relação. Eu não queria me relacionar com ela. Eu não queria estar casado com ela. Eu não queria ter uma relação com ela. Então, isso foi muito chato. Eu sofri muito.
P/2- Você ia a parques, museus, etc.? Era trabalho, casa, trabalho, casa, escola?
R- No começo, era trabalho, era escola, em primeiro lugar. No começo, era escola e... Passar de ano. Depois, tinha um hotel chamado Wellington. E no hotel Wellington tinha a Owen School. E eu fui dar aula de inglês lá. Então, eu comecei a ganhar uma grana. Eles me pagavam off the books. Então, eu era um professor barato pra eles, mas aquilo me mantinha. E me mantinha... Eu não precisava ser garçom, porque eu não tinha experiência como garçom. E ser garçom em Nova Iorque não é fácil, né? Então, como professor de inglês... E ainda no Wellington Hotel. E meu nome era Wellington. Então, meus alunos falavam, Teacher, your name is Wellington. No Wellington Hotel, eu disse, sim, meu hotel. E os alunos falavam, oh! Aí eu falava, brincadeirinha.
P/2- E essa mulher com quem você se casou, de quem a gente estava falando, você conheceu em que momento?
R- A Pia eu conheci quando eu fui trabalhar como garçom, porque ela era garçonete, ela e o marido. Então, eles tinham uma história como garçom e garçonete, essa coisa toda. E aí eles falaram, não, a gente quer te dar uma força. A Pi vai casar com você. Eu falei, tá bom. Aí, já que tinha tudo, tinha a anuência de todo mundo, né? Então, eu não tava fazendo nada pelas costas de ninguém. Mas aí a Pi começou a ficar ligada em mim. E isso, pra mim, foi muito desconfortável. Então, a partir disso, eu tive que... Você morava onde? A partir disso, eu tive que realmente falar, ó, chega, não me interessa ter... Ter um green card nessas condições. Não... Isso eu não quero. Desculpa, você me perguntou.
P/2 -Onde você morava, Weel?
R- Eu morava em Astória.
P/1- Sempre?
R- Desde o princípio eu morei em Astória. Depois... Depois de um tempo é que eu...
P/2- Que bairro é Astória?
R- Queens. Queens. Depois é que eu consegui... Depois que eu... Deixa eu me lembrar direitinho, porque eu consegui uma boiada incrível. Eu morava num... Eu consegui um apartamento rent-controlled em Nova York, na 80, entre a segunda e a terceira.
P/1-Upper East Side.
R-É o Upper East Side, que eu pagava 450 dólares por mês. Era Mind Control. Isso foi, assim, presente de Deus. Então...
P/2- Um aluguel social, né?
R- É. Um aluguel social. Mas aquilo foi, assim, foi... Quando isso aconteceu, eu falei, assim, acho que a vida tá sorrindo pra mim. Porque foi quando eu consegui meu Green Card, foi quando eu consegui meu Equity Card, Ou seja, eu passei a ser um ator que era Equity. Equity é sindicato. Depois, eu fui ator de cinema SAG, do Screen Actors Guild. Então, a partir da hora que eu tive o green card, eu consegui também.
P/2- Sindicalizar, né?
R- Me sindicalizar.
P/1- E aí você ficou trabalhando muito fora o inglês? Você começou a trabalhar muito? Conseguiu muitos trabalhos no cinema, no teatro? Como foi? Ou era difícil?
R - Não, era difícil, mas naquela época eu tive muita sorte. Eu trabalhei com uma companhia de teatro musical para crianças chamada Musical Theatre Awards. Quanto tempo você ficou com eles? Com o Musical Theatre Works. Acho que eu fiquei um ano. Então, eu fiz muita coisa com eles, muitos espetáculos. Eles faziam espetáculos muito profissionais, muito competentes, e que viajavam. Eu fiz um espetáculo sobre a vida do braille para crianças. Então, chamava O Mundo na Ponta dos Seus Dedos. Então, era muito legal. The world at your fingertips. Então, assim, eu consegui brechas incríveis. E a partir da hora que eu consegui justamente o meu green card, aí eu consegui justamente estar sindicalizado e fazer parte do sindicato dos atores de cinema. Eu fiz um filme com o Eddie Murphy, mas um filme com Eddie Murphy. Eu era um figurante.
P/1- Mas, Well, aí você decidiu que não voltava mais para o Brasil. Você estava lá.
R- Aí eu decidi que não ia mais voltar. Eu estava lá.
P/1- E aí?
R- E aí, minha carreira estava indo e eu estava me preparando para juntar um dinheiro, comprar um apartamento lá, essa coisa toda. E aí, uma noite, vem o telefonema. O papai teve um derrame. Era a minha irmã falando, olha, tô te ligando porque o papai teve um derrame e a gente não sabe o que vai acontecer. E a hora que ela falou isso, eu falei assim, não, então para tudo, eu vou voltar pro Brasil, eu quero estar do lado de vocês agora. E eu voltei. E eu voltei assim, sem saber o que ia acontecer. Aí eu tomei pé da situação com meu pai, mas ficou muito claro que não ia... Não ia mais dar para eu morar nos Estados Unidos. Eu não ia ficar confortável morando lá e meu pai tendo tido um derrame. Meu pai era o arrimo de família naquela época. A partir da hora que ele teve o derrame, ficou minha mãe e minha irmã. Minha mãe era aposentada e recebia um salário, e a minha irmã trabalhava em publicidade nessa época. Mas, para elas duas segurarem a onda de lidar com o pai, com o derrame, eu falava, não, não dá, não dá. Eu voltei para o Brasil, Encerrei minha carreira nos Estados Unidos.
P/1- E aí, o que aconteceu?
R- E aí eu... Cai na real, né? Viu o que era estar de volta ao Brasil e comecei... Nesse sentido, foi muito legal porque eu comecei a dar aula de inglês de novo e o meu antigo patrão no Objetivo tinha sido maravilhoso. Ele falou, não, espera aí, não. Você vai ter as suas aulas aqui de novo e tudo mais. E para mim, o que era mais importante era segurar a onda com a minha família. Meu pai teve um derrame, sobrevivendo, mas ele também tinha um problema cardíaco. Ele realmente não durou muito. Ele veio a falecer, e depois que ele faleceu, aí eu já estava com a minha vida toda refeita no Brasil. Então, eu falei, não vou voltar para Nova Iorque para recomeçar tudo de novo. Como meu pai tinha morrido, era só a minha mãe aqui no Brasil e a minha irmã, eu era o homem da família. Então, eu resolvi abortar meus sonhos, todos de Nova Iorque e tudo mais.
P/1- E isso doeu?
R- Não, não doeu, porque quando eu quis ir pra Nova Iorque, meu pai foi o cara que falou, vai, eu vou te ajudar em tudo que eu puder. Então, na hora que essa história aconteceu, eu tive a oportunidade de fazer, pelo meu pai e pela minha família, o que eles fizeram por mim. Eles seguraram a minha onda quando eu quis ir. E tudo bem, eu estava me mantendo lá, sozinho, essa coisa toda, mas quando … derrame na família... Meu pai era o grande... A grande mola mestra, né? Então, quando ele ficou doente, quando ele teve o derrame, foi um choque mesmo. E aí eu voltei pra ajudar, cuidar dele, porque minha irmã trabalhava, ela já era publicitária, então pra ela era muito difícil cuidar do que precisava. Então eu vim pra cuidar do meu pai mesmo.
P/1- E o Well, aí... Você foi morar com elas?
R- Fui morar com elas.
P/1- E como foi o shift pra fazer? Primeiro, onde você conheceu a Mara?
R- A Mara eu conheci... Aqui no Brasil. Aqui no Brasil. Como foi? Tinha... A minha irmã trabalhava em publicidade. E aí tava, ah, meu irmão de Nova Iorque tá aqui, essa coisa toda. Então, eles me conseguiram uma entrevista com a Maury Júnior. A Mauri era muito famosa na época, com aquele programa dele de Late Night. E esse programa que eu fiz foi onde eu falei pela primeira vez do trabalho de palhaço no hospital.
P/1- Você decidiu que ia fazer o trabalho de palhaço no hospital?
R- Não! Nessa história... Eu estava no Brasil porque meu pai tinha tido derrame.
P/1- E voltou para dar aula de inglês e pronto, é isso?
R- E aí, não, nem tinha aula de inglês ainda. Quando eu vim, aterricei aqui e, no primeiro momento, meu objetivo era ser suporte para a minha família. Foi isso. E não tinha aula de inglês ainda. A aula de inglês veio depois, porque uma vez que daí eu fixei residência, aí meus amigos, que eram do Objetivo, começaram a me chamar para dar aula. Mas antes disso, não. Eu voltei só por causa dessa história do meu pai mesmo, porque ele tendo tido um derrame, era minha mãe e minha irmã para cuidar dele.
P/1- Quanto tempo depois ele morreu?
R- Ah, ele morreu menos de um ano depois.
P/1- E aí você decidiu que a minha mãe devia voltar pra Nova York?
R- Aí, quando meu pai morreu, era eu e minha irmã e minha mãe. E eu não me senti... Eu não me senti... Não é nem autorizado, eu não... Eu achei que, quando eu precisei, todo mundo segurou a minha mão. E ali era uma hora onde eu precisava estar do lado da minha família. Eu queria estar do lado da minha família. Eu não pensei duas vezes.
P/1- Mas ali você já tinha começado o Doutores?
R- Não. Não. O Doutores veio depois. Com essa história de eu estar de volta no Brasil... Agora eu preciso fazer um exercício de memória aqui pra ver Como foi que a história do Doutores começou? Ah! Ok. A história do Doutores começou por causa de uma entrevista no Amaury Júnior.
P/1- Por que você foi fazer uma entrevista no Amaury Júnior?
R- Porque minha irmã trabalhava com publicidade e aí eu estava no Brasil. Ok, vou viver no Brasil de novo. Então, eles arranjaram uma entrevista minha no Amaury, que era uma forma de me lançar. Estou no mercado.
P/1- Não era pelo Doutores?
R -Não, não tinha nem Doutores da Alegria. Eu me lembro que eu me fantasiei de palhaço nesse programa do Amaury, que foi um dos programas mais reprisados dele, inclusive.
P/1- Ele veio falar com você, o que aconteceu?
R- Ele veio falar comigo. Eu fiz um programa inteiro.
P/1- Como é que foi? Me conta um pouquinho.
R- Ah, foi... Procurando me lembrar. Ia ser uma entrevista de Amaury Júnior. Então, ele começou me entrevistando. Daí, ele falou assim... A gente tinha combinado de que, no meio da entrevista, ele ia falar, então, vamos conhecer o palhaço. E aí, então, eu me maquiei. E voltei já como doutorzinho besteirologista. E aí eu criei esse nome e tudo ali, dentro daquele contexto. E fiz uma cirurgia nele, enfim, fiz a coisa adaptada para o Brasil. E foi um sucesso. Foi uma das entrevistas mais reprisadas do Amaury Júnior. E isso foi, vamos dizer assim, o pontapé inicial. Eu não me lembro exatamente agora da ordem das coisas, mas eu sei que eu resolvi voltar. E quando eu resolvi voltar, eu... Esse programa do Amaury foi super importante. E foi assim que o Hospital Nossa Senhora de Lourdes entrou em contato comigo. Porque eu não tinha onde começar esse trabalho. Aí o Hospital Nossa Senhora de Lourdes, a Cristiane D'Andrea, era diretora na época, me ligou e falou, olha, o Hospital Nossa Senhora de Lourdes passou por um processo de renovação e hoje é um hospital muito voltado para a humanização hospitalar e a gente quer conhecer você porque a gente gostaria de ter o teu trabalho aqui no nosso hospital. E eu fui conhecer o hospital. Sabe quando não era um hospital conhecido, mas era um hospital que estava passando por um processo de também começar uma nova fase? E eu falei, acho que tem tudo a ver. Então, foi ali que eu comecei. Eu falei, não era um hospital... O fato de não ser um hospital conhecido, de ser um hospital que nunca ninguém tinha ouvido falar, Para mim, era maravilhoso, porque isso tirava, como se chama, expectativas de se começar num hospital das clínicas ou num hospital público e tudo mais. Então, foi assim. E deu tudo certo.
P/1- Vocês iam lá fazer o trabalho de palhaço?
R- Eu ia lá, comecei fazendo Nossa Senhora de Lourdes. E o legal de Nossa Senhora de Lourdes é que é um hospital que dizem tinha o título de fábrica de anjinhos. Não era um hospital lá muito legal, mas que foi um hospital que uma nova gestão veio, pegou nas mãos, reinventou todo o hospital e, realmente, ele passou a ser um hospital muito bom, muito legal. E eles estavam falando muito nessa questão de humanização. Que eu até brincava, porque para humanizar quer dizer tornar humano, a gente já é humano, né? Então, o que quer dizer humanizar? Eu zoava o pessoal. Mas aí... Então, Nossa Senhora de Luz foi um hospital perfeito para começar, porque não tinha expectativa e eles estavam completamente abertos a uma parceria mesmo. A minha palavra tinha peso dentro dessa parceria, dentro daquilo que a gente estava fazendo, onde começar o trabalho. O nome Doutores da Alegria, enfim, tudo começou no hospital Nossa Senhora de Lourdes. Porque eu me lembro que... Qual vai ser o nome desse trabalho? E a gente, em inglês, tinha a expressão Doctors of Joy. These Doctors of Joy, isso foi num dos... Num dos materiais do Big Apple Circus, que eles usaram essa expressão, esses doutores da alegria, e eu falei, que tal se a gente usar o nome doutores da alegria? E foi assim.
P/1- E aí era você, o doutor da alegria.
R- Aí era eu. Doutores da alegria era eu. Aí eu falei pra eles, eu falei, ó, eu vou começar, mas eu vou ter que contratar uma palhaça. Então, o hospital vai ser o centro de treinamento. Foi bacana, porque eu falei pra eles, a gente já vai começar sendo o centro de treinamento, porque é aqui que vai ser a central de tudo. E realmente foi, durante muitos anos. Aí, a gente começou o trabalho lá dos doutores da alegria. A primeira atriz foi a Vera Budd, a doutora Emily, que está com Eu acho que tá com o Doutores da Alegria até hoje, não sei. Mas a...
P/1- E você que contratou?
R- Fui eu que contratei.
P/1- E você que treinou?
R- Fui eu que treinei. Então... Vera... Eu não sei se ela tá até hoje, mas ela ficou durante muitos anos com os Doutores da Alegria. E fez um trabalho maravilhoso. Então... É louco, né?
P/1- É.
P/1- Well, aí começou o trabalho do Doutores da Alegria?
R- Aí começou o trabalho do Doutores da Alegria, no Hospital Nossa Senhora de Lourdes, e começa justamente uma nova fase na minha vida. Wellington, então, de volta ao Brasil, com o trabalho dos Estados Unidos agora no Brasil, começou o Doutores da Alegria, e aí aos poucos veio a O que era o Doutores da Alegria? Desde o princípio eu sabia que eu queria ser uma instituição sem fins lucrativos. Há exemplos do Big Apple Circus. O Big Apple Circus era um circo sem fins lucrativos lá em Nova York, porque existe essa configuração da instituição cultural sem fins lucrativos. Isso, eu não sei se a gente tinha um equivalente igual aqui no Brasil. Eu sei dizer que eu tive que começar o Doutores da Alegria com esse título, Doutores da Alegria, no Hospital Nossa Senhora de Lourdes. E só anos depois é que eu fundei a Associação dos Amigos dos Doutores da Alegria.
P/1- Anos depois?
R- É. Eu não comecei com a Associação. Porque a Associação tinha que ter .. não, um tempo. Você criar uma associação não pode ser assim. Vou criar uma associação e pronto. Então, tinha que ter...
P/1- Nós estamos falando de que ano? Você lembra? 91.
R- 91. Foi quando começou o Doutores da Alegria no Hospital Nossa Senhora de Lourdes. A associação começou na sequência. Na sequência, algum tempo depois, alguns meses depois, aí eu fui criando as condições para poder criar a Associação dos Amigos dos Doutores da Alegria. E o Doutores da Alegria ia ser mantido pela Associação dos Amigos dos Doutores da Alegria. Então, foi isso.
P/1- E aí você casou?
R-Aí o Amaury Júnior me chamou para fazer uma matéria. Nessa matéria, o Amaury Júnior me chamou. A Mara Mourão me assistiu. Ela estava namorando um cara. Ela falou para o Flávio, que era o namorado dela, conversar com esse cara, porque ele faz um trabalho super legal, ele vai precisar de gente para trabalhar com ele. E foi então que o Flávio me procurou, e o Flávio me apresentou para a Mara, e desde a primeira vez que eu e a Mara conversamos, deu liga. Então, algum tempo depois, o namoro dele com a Mara terminou, daí eu comecei a namorar com a Mara, e estamos juntos até hoje.
P/1- Well, e hoje? Passou todo esse tempo, você construiu todo o doutores. Como você vê a vida hoje?
P/1- Lá se foram né… o Doutores tem mais de 30 anos
P/2- 35 Anos.
R- 35 anos.
R- Como eu vejo a vida hoje? Riso nervoso. Olha, eu vou te falar, Karen. Eu sou muito grato ao Brasil por tudo que eu aprendi aqui. Por tudo que eu aprendi com o processo de trazer o Doutores da Alegria, criar o Doutores da Alegria aqui. Eu conheci um Brasil que eu desconhecia. E principalmente no aspecto também social, das ONGs, desse mundo, das organizações, da sociedade civil. Eu só tive aprendizado e tenho ainda aprendizado atrás de aprendizado e conhecendo pessoas incríveis. E passando por desafios que só o Brasil oferece. Mas, ao mesmo tempo, por exemplo, o Doutores da Alegria, eu tenho muito orgulho de dizer que uma das formas de viabilização do Doutores é através das leis de incentivo à cultura. E o trabalho dos doutores foi reconhecido como arte e cultura profissionais, a ponto de poder justamente se inscrever nas leis de incentivo e, a partir das leis de incentivo, receber patrocínio. Então, foram tantos benefícios para todo mundo envolvido que eu me lembro que o primeiro hospital que a gente começou era um hospital chamado Nossa Senhora de Lourdes. Hoje ele já não existe, mas era um hospital que vinha de um processo de reestruturação. Ele, quando começou, Nossa Senhora de Lourdes, essa nova fase, falando em humanização hospitalar e tudo mais, o Doutores da Alegria foi, vamos dizer assim, o carro-chefe dessa nova cultura desse hospital. E foi quando esse termo humanização hospitalar começou a, também, ser difundido. Então, com muita tranquilidade, eu falo que o Doutores fez história no Brasil.
P/2- Weel, passado todo esse tempo e agora você não estando no Doutores, além de Doutores da Alegria ou dos Doutores da Alegria, você acha que você será lembrado como, daqui a 50, 100 anos?
R- Nossa, boa pergunta, Luiz. Como que eu vou ser lembrado daqui a 50, 100 anos? Será que alguém vai lembrar de mim? Olha, eu não sei, eu não tenho a mínima ideia. Mas, eu junto com os doutores, também no meu casamento com a Mara, eu tive a oportunidade de fazer uma incursão dentro do cinema. Eu brinco que nosso primeiro filme foi o ´´Alô ``, que foi essa comédia sobre o jeitinho brasileiro. Que saiu justamente dos nossos papos, das nossas conversas, então tem tanta história aí; que eu digo pra você, o saldo é mais do que positivo, não resta dúvida. E é aquela história, eu ainda sou biruta o suficiente, para o que der e vier. Então, o que é que vem por ai, não tenho a mínima ideia, mas estejam preparados. A gente nunca sabe o que pode acontecer.
P/1- Você tem algum desejo específico?
R- Não, específico não.
R- Específico hoje não, estou em uma fase onde estou assim, realmente olhando… na verdade estou recolhendo minhas memórias, no sentido até de documentar isso, que eu acho importante, porque nessa história de implantar doutores, você vê, o que a gente ouvia? Quando o Doutores começou, ´´esse trabalho humaniza o hospital``, e desse trabalho humaniza o hospital, hoje a gente tem o humaniza SUS. Quer dizer … as coisas… o Doutores teve um papel muito importante nessa história toda, e é inegável. Porque era tão estampa fugiu voce ter um grupo de palhaços regularmente dentro do hospital, duas vezes por semana, 6 horas por dia. Era uma coisa tão inusitada, que realmente …. Assim… e deu certo. Porque era bem feito, era bem executado. Então… eu acho que isso… influenciou … acho que o Doutores teve um papel influenciador, fora os programas semelhantes, mais de mil programas inspirados no Doutores da Alegria, foram criados pelo Brasil. E a gente… qual foi o nosso papel? Quando a gente viu isso acontecendo, eu fui conhecer vários desses trabalhos, e vi que … era incrível o que estava rolando. Porque eram bons trabalhos, que não pediam desculpas por serem bons, então naturalmente a gente viu que aquilo que era os Doutores da Alegria, virar um monopólio, acabou virando algo que muita gente se apropriou, e criou um programa semelhante, e levou alegria para muitas outras localizações onde a gente nem imaginava sonhar, nem imaginava está. Então nesse sentido, eu acho que eu não tenho nenhuma restrição, não tenho nenhum arrependimento, porque eu acho que é esse o papel dessa organização também, sem fins lucrativos, o trabalho é forte, é potente, inspirou outras pessoas, no caso dos Doutores da Alegria especificamente, programas de palhaços em hospital que começaram a surgir eu fui conhecer esses programas, fui conhecer, fui ver como eram esses programas, e comecei a trazer todo mundo junto, para falar oh é sobre todo mundo se ajudar, é sobre todo mundo unir forças pra gente levar isso para o próximo passo, que eu não sei qual é … mas um dos próximos passos é a própria humanização hospitalar, que hoje é o humanizaSUS. O humanizaSUS, é um … o Doutores da Alegria, e os programas semelhantes, eles têm um papel bastante importante nesse história do humanizaSUS. Imagina, não vou jamais dizer que foram os causadores do HumanizaSUS, mas a gente começou a ouvir a palavra humanização…humanização, esse trabalho humaniza os hospitais, tinha uma vontade de humanização do trabalho hospital, um trabalho mais humano, um trabalho mais sensível. E assim os desafios não param, não acho que chegou a uma perfeição. Mas eu acho que hoje, é um gato que está fora do balaio, entendeu, assim é uma causa que qualquer hospital, qualquer instituição, hoje está mais do que capacitada a instituição de saúde a investir nisso para criar formas melhores de ´´humanizar``. Eu até ouvia muito, essa… essa justificativa falava, humanizar significa tornar humano, a gente já não é humano, sim a gente já é humano. Mas humanizar quer dizer, trazer o humano para dentro do hospital, sabe, tinha todas essas conversas, então… por mais redundantes que ficasse … humanizar… a gente já é humano, mas se falava tanto isso porque estava sendo preciso trazer, resgatar um elemento humano mesmo, e eu acho que isso hoje está acontecendo, virou política pública. Quer dizer, a partir da hora que vira uma política pública, está maravilhosamente fora de controle, então, missão cumprida.
P/1- Você tem essa sensação de missão cumprida?
R- Eu nunca tenha a sensação da missão completamente cumprida, acho que a gente sempre pode fazer mais, acho que tem ainda muita coisa que pode continuar sendo feita, eu não sei dizer hoje, em que pé a situação no Brasil tá, mas se existe o humanizaSUS, então já tem uma mensagem muito clara vindo aí. Eu vi nas universidades, nas faculdades de medicina, enfermagem, uma mobilização também muito grande, no sentido de formar esses novos profissionais para um tratamento mais ´´humanizado``, como se fala, que é você olhar, colocar a escuta à serviço, não ver o outro como um número, não ver o outro como mais um, mas vê que aquele um é um indivíduo que tem um papel, tem uma vida, tem uma família, enfim… ele não é descartável,.
P/1- Uma pergunta que eu gosto de fazer, sempre que a gente vai chegando… concluindo, mais a entrevista, que é assim…. Olhando a sua vida, que a gente fez no início, que a gente vai lá no ínicio, se olha, eu pergunto assim, avaliando né, o que eu faria de novo, e o que eu faria de diferente? Você se faz essa pergunta?
R- Hummm…. Ótima pergunta.
R- Olha, eu não sei o que eu faria diferente, porque, eu sei que eu fui muito cuidadoso e eu procurei ter muita consciência, muita responsábiliadade, sobre o papel do Doutores da Alegria, e saber que essa questão da humanização hospitalar, é algo maior que o Doutores da Alegria, né, é justamente uma política pública, que esse era um movimento da àrea da saúde, que não era meu, eu era um representante desse segmento. Mas, não era eu com a causa da humanização, então, eu tenho muito orgulho, da influência que o Doutores da Alegria e outras ações, possam ter tido, no sentido de fomentar a estruturação do HumanizaSUS, isso pra mim é … quando eu vejo hoje o HumanizaSUS, eu falo … ah, ok, eu tenho uma parcelinha ai, pequenininha, mas que a gente como Doutores da Alegria, ajudou a fazer acontecer, e eu tenho muito orgulho disso, muito, muito orgulho mesmo. Porque até o nome ´´HumanizaSUS``, eu acho que é uma conquista, de todo mundo que quer uma saúde humanizada, onde um ser humano, está literalmente cuidando do outro, tratando do outro, e o nome já diz tudo. E eu acho que é uma conquista de todos nós, assim de todos nós, tenho muito orgulho disso. Não é uma conquista minha, é uma conquista coletiva mesmo, da àrea da saúde, eu acho que o doutores, por ser tão ______ , magina, palhaço profissional, duas à três vezes por semana dentro do hospital, profissionalmente, trabalhando junto, tudo isso era tão inovador. Trouxe foco, trouxe atenção e impactou. Você vê o número de programas semelhantes que nasceram, e qual foi a nossa postura: ah maravilha, ótimo. Estão surgindo programas inspirados na gente e tudo mais, ótimo, vamos transformar o Brasil é grande,né. Um Doutores da Alegria não vai dar conta do Brasil, e nem também eu via o Doutores da Alegria no Brasil, tinha que está de algumas forma, eu acho que organicamente, foi- se encontrando uma forma, esses grupos semelhantes, tanto que eu fui conhecer vários dos grupos semelhantes, os nomes mais variados que você puder conhecer, eu fui conhecer vários deles, e vi um trabalho sério sendo feito, sendo realizado. Então…é … eu acho que isso é mérito de todo mundo, mérito do Brasil, mérito de todo mundo que resolveu fazer um trabalho nessa área e fazer um trabalho sério. Porque quem não é sério, se não é sério, não está acontecendo.
P/2- Não fica né.
R- Não,
R Não fica.
P/2- E coisas que ti marcaram negativamente, não tem nada? Fora a saída do Doutores, que te entristeceu um pouco.
R- Olha, não vou dizer pra você, sair dos Doutores me entristeceu. Porque , foi uma escolha minha também, não fez mais sentido, então… o que eu vou fazer…
R- Esquentar um lugar, assim …. não , vamos colocar quem quer fazer o trabalho, quem pode fazer o trabalho, mas eu já passei da idade, vamos dizer assim, já fiz a minha entrega.
R- Eu dei o pontapé inicial, fiquei bastante tempo a frente, e agora é hora de renovação mesmo.
P/1- E aí, então, qual é o seu sonho?
R- Risos
P/1- Agora não é o que tem que acontecer, qual é o seu sonho?
R- Olha, o meu sonho é que isso que hoje a gente chama de HumanizaSUS, seja cada vez mais responsável por esse nome HumanizaSUS, é perfeito. É só o começo, e o que todos nós está fazendo nesse sentido é só o começo, tem muita coisa ainda pra ser feita, melhorada, pra ser revista, o Brasil é um país de proporções continentais, que a gente sabe. E que falta muito ainda pra essa cultura, ela… o HumanizaSUS, já é uma política pública…então , já está no país todo, a gente manter isso vivo e com qualidade. Acho que esse é o desafio da gente, e sempre ir se abrindo pro que de novo vem, porque, o que apareceu de novo? Desde então? Eu não sei, acho que tem muito espaço ainda para mais arte dentro do hospital, mais arte dentro da área da saúde. Porque o juramento de Hipócrates começa assim : prometo que a arte de curar… Então o juramento de Hipócrates já coloca a palavra arte lá. Então quanto mais arte a gente puder trazer para o exercício da saúde… da …da… do tratamento, mas a gente vai evoluir, melhor vai ficar pra todo mundo. E realmente assim, isso é muito mais uma mudança de visão que muda a atitude… da gente, e que gera uma nova cultura, de cuidado, e que isso é acessível para mais gente.
R- Acho que esse não para que é importante, a gente não ficar contente com o que foi conquistado, mas a gente não para de estudar, a gente não para de se aperfeiçoar, a gente não para de pensar como pode ficar melhor isso que já é o humanizaSUS, pode ficar melhor, que impacto isso pode ter na formação do jovens profissionais de saúde, sejam médico, sejam enfermeiras, o que está acontecendo nas faculdade? Eu acho que hoje esse desdobramento precisa ficar cada vez mais… consistente, para que isso… para que o HumanizaSUS possa ser cada vez mais forte e se renovar cada vez mais, porque aquilo que não se renova envelhece. E cuidado…. Cuidado é um campo muito amplo, muito vasto, e que a gente ainda tem muito para pesquisar, para fazer, para trazer, para tornar melhor a condição de qualquer pessoa hospitalizada.
{Fim da Entrevista}
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