Como Passei a Reconhecer os Direitos Humanos
Minha trajetória de reconhecimento dos direitos humanos não foi um despertar súbito, mas um processo tecido ao longo de décadas, em cada esquina da Vila Nova Cachoeirinha, em cada sala de aula e em cada corredor da Câmara Municipal.
Tudo começou no berço: nascida em 1970, em São Paulo, cresci num ambiente familiar coletivo onde dividir o pouco era mais natural que acumular. A Teologia da Libertação moldou minha formação religiosa — não como doutrina, mas como prática viva. As atividades culturais e formativas gratuitas que frequentei não eram apenas entretenimento; eram sementes de uma consciência que floresceria depois: a de que dignidade não se implora, se constrói coletivamente.
Minha mãe, ao me conduzir ao Magistério (concluído em 1988), plantou em mim a crença na educação como alavanca de transformação. Mas foi na Pedagogia pela PUC-SP (1989-1992) e na especialização em Educação para Deficientes da Áudio Comunicação que a ficha começou a cair: direitos humanos são, antes de tudo, reconhecer que o outro existe em sua diferença e que essa diferença não é déficit — é potência.
Foram 23 anos na Rede Municipal de Ensino de São Paulo (1990-2012), sendo 13 deles dedicados às Escolas Municipais Bilíngues para Surdos. Ali, aprendi na prática que acessibilidade não é favor, é direito. Cada aluno surdo me ensinou que a comunicação transcende sons — e que excluir é uma escolha, assim como incluir também é.
Quando migrei para a assessoria parlamentar na Câmara Municipal (2013-2024), mergulhei no universo das políticas públicas. Educação, direitos humanos, assistência social — esses eixos me mostraram que o direito não está nos livros, mas nas vidas que a lei alcança (ou deixa de alcançar). Vi de perto como a burocracia pode ser violenta e como o afeto na política é revolucionário.
Mas foi em 2013 que algo se consolidou. Ao conhecer a...
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Como Passei a Reconhecer os Direitos Humanos
Minha trajetória de reconhecimento dos direitos humanos não foi um despertar súbito, mas um processo tecido ao longo de décadas, em cada esquina da Vila Nova Cachoeirinha, em cada sala de aula e em cada corredor da Câmara Municipal.
Tudo começou no berço: nascida em 1970, em São Paulo, cresci num ambiente familiar coletivo onde dividir o pouco era mais natural que acumular. A Teologia da Libertação moldou minha formação religiosa — não como doutrina, mas como prática viva. As atividades culturais e formativas gratuitas que frequentei não eram apenas entretenimento; eram sementes de uma consciência que floresceria depois: a de que dignidade não se implora, se constrói coletivamente.
Minha mãe, ao me conduzir ao Magistério (concluído em 1988), plantou em mim a crença na educação como alavanca de transformação. Mas foi na Pedagogia pela PUC-SP (1989-1992) e na especialização em Educação para Deficientes da Áudio Comunicação que a ficha começou a cair: direitos humanos são, antes de tudo, reconhecer que o outro existe em sua diferença e que essa diferença não é déficit — é potência.
Foram 23 anos na Rede Municipal de Ensino de São Paulo (1990-2012), sendo 13 deles dedicados às Escolas Municipais Bilíngues para Surdos. Ali, aprendi na prática que acessibilidade não é favor, é direito. Cada aluno surdo me ensinou que a comunicação transcende sons — e que excluir é uma escolha, assim como incluir também é.
Quando migrei para a assessoria parlamentar na Câmara Municipal (2013-2024), mergulhei no universo das políticas públicas. Educação, direitos humanos, assistência social — esses eixos me mostraram que o direito não está nos livros, mas nas vidas que a lei alcança (ou deixa de alcançar). Vi de perto como a burocracia pode ser violenta e como o afeto na política é revolucionário.
Mas foi em 2013 que algo se consolidou. Ao conhecer a luta dos "Queixadas" em Perus, compreendi que os direitos humanos não são abstratos: têm nome, têm rosto, têm história. Eles são feitos de suor operário, de carne e osso, de memórias que insistem em ser contadas. Meu mestrado (2022) e agora o doutorado na Mackenzie me deram ferramentas para investigar essa biografia — a de João Breno Pinto e da resistência operária — não como frieza acadêmica, mas como compromisso ético.
Hoje, entendo que minha própria vida é um território epistemológico: onde trabalho, fé e luta se encontram. Reconhecer os direitos humanos foi, para mim, deixar de vê-los como cartilha e passar a encará-los como testemunho. É saber que a universidade pode (e deve) ser trincheira para vozes subalternizadas. É ter clareza de que minha história — de menina da periferia a doutoranda — é também a história de uma luta que não é só minha. É de todos que, como os Queixadas, insistem em existir.
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