Tenho 60 anos e meu nome é Maria Luiza e foi escolhido por meu pai por conta de uma novela de rádio.
Meu avô era viúvo de um primeiro casamento, um dos primeiros funcionários da
"Vigor Laticínios ", quando essa indústria ainda era uma fazenda que produzia queijos e manteiga aqui em Minas Gerais na pequena cidade de São Gonçalo do Sapucaí.
Morávamos na chácara desse meu avô paterno, um homem violento, que possuia armas e um certo poder por conta de ser um dos fundadores da fábrica hoje conhecida em todo Brasil e parte do mundo.
Meu avô enviuvou de seu primeiro casamento quando meu pai tinha 12 anos apenas, meu pai sofreu muito com sua violência.
Em seu segundo casamento, éramos como se fossemos empregados de sua segunda família.
Viviamos como os empregados de sua segunda família, junto à uma negra chamada Iolanda que trabalhava para sua segunda esposa.
Sofremos ali humilhações e abusos de todos os tipos, abusos que hoje os colocariam na cadeia, vivíamos dos restos de sua nova familia.
Minha mãe analfabeta e meu pai um humilde pedreiro em uma casa toda remendada do telhado às portas.
Não tínhamos, banheiro, comida roupas, vivíamos sujos e mendingando nas terras de meu avô e sua família.
Tanto a minha, quanto a família de meu avô eram extremamente religiosos, católicos fervorosos e nos fazia acreditar inocentemente no pecado , no castigo e que éramos lixos.
Portanto, o abuso de meu avô não ocorria só conosco, apesar de sua outra familia levar uma vida abastada, também sofriam agressões dentro de sua casa bem mobiliada , reformada todo ano e com empregada.
Eu e minha familia sofremos muito, perdi um irmão com 19 anos , quando estava em um convento de freiras , onde fui levada para aliviar a pobreza de meus pais.
Porém, com a perda de meu irmão, minha mãe se perdeu em depressão e não voltei para aquele convento.
Pois minha mãe era muito rigorosa comigo e minhas duas irmãs e ao perder meu...
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Tenho 60 anos e meu nome é Maria Luiza e foi escolhido por meu pai por conta de uma novela de rádio.
Meu avô era viúvo de um primeiro casamento, um dos primeiros funcionários da
"Vigor Laticínios ", quando essa indústria ainda era uma fazenda que produzia queijos e manteiga aqui em Minas Gerais na pequena cidade de São Gonçalo do Sapucaí.
Morávamos na chácara desse meu avô paterno, um homem violento, que possuia armas e um certo poder por conta de ser um dos fundadores da fábrica hoje conhecida em todo Brasil e parte do mundo.
Meu avô enviuvou de seu primeiro casamento quando meu pai tinha 12 anos apenas, meu pai sofreu muito com sua violência.
Em seu segundo casamento, éramos como se fossemos empregados de sua segunda família.
Viviamos como os empregados de sua segunda família, junto à uma negra chamada Iolanda que trabalhava para sua segunda esposa.
Sofremos ali humilhações e abusos de todos os tipos, abusos que hoje os colocariam na cadeia, vivíamos dos restos de sua nova familia.
Minha mãe analfabeta e meu pai um humilde pedreiro em uma casa toda remendada do telhado às portas.
Não tínhamos, banheiro, comida roupas, vivíamos sujos e mendingando nas terras de meu avô e sua família.
Tanto a minha, quanto a família de meu avô eram extremamente religiosos, católicos fervorosos e nos fazia acreditar inocentemente no pecado , no castigo e que éramos lixos.
Portanto, o abuso de meu avô não ocorria só conosco, apesar de sua outra familia levar uma vida abastada, também sofriam agressões dentro de sua casa bem mobiliada , reformada todo ano e com empregada.
Eu e minha familia sofremos muito, perdi um irmão com 19 anos , quando estava em um convento de freiras , onde fui levada para aliviar a pobreza de meus pais.
Porém, com a perda de meu irmão, minha mãe se perdeu em depressão e não voltei para aquele convento.
Pois minha mãe era muito rigorosa comigo e minhas duas irmãs e ao perder meu único irmão, minha mãe se esqueceu de nós e nos perdemos.
Abandonamos escolas, começamos a andar com qualquer pessoa que antes minha mãe julgava imoral .
Não tínhamos ideia sobre qualquer aspecto real da vida, não sabíamos que homens e mulheres faziam sexo, até porque ela dizia ser proibido, por isso sofriamos abuso em família, não sabíamos que aquilo era a coisa proibida que não se podia permitir e que só parou depois que passamos a ir para a escola.
A falta de noção da minha família também era nossa, éramos racistas, éramos preconcituosos, ignorávamos a diversidade.
Mas depois da morte de meu irmão com as novas convivências, vieram novas experiências, anos 80, drogas, sexo, vontade de morrer, porque talvez assim minha mãe parasse de chorar.
Então foi me entrando no todo que me foi proibido que aprendi a perceber o outro, pois na infância e adolescência eu achei que pessoas homossexuais, pessoas pretas, mães solteiras pessoas pobres, (apesar de eu ser pobre também) eram pessoas sujas depravadas, porque assim haviam me ensinado.
Então eu precisei ir às drogas, ter um casamento fracassado, descobrir minha bissexualidade que achava que era por conta dos abusos e não por conta de que homossexualidade é uma coisa normal e humana .
Que pessoas pretas não eram menos que minha família misturada entre loiros de olhos verdes e azuis e os pardos chamados de moreninhos e que as mães solteiras eram mulheres que tentaram amar e serem amadas, mas foram abandonadas ao menos naquele período e que pobres não eram vagabundos fracassados.
Eu descobri isso vivendo tudo isso que me ensinaram a desprezar e depois de ter meu casamento acabado , eu voltei aos estudos fiz um curso em licenciatura em História e isso se resignificou tudo ainda mais para mim, um mundo atual e mais humano, com ditaduras sendo banidas aos poucos, eu aprendi que nada somos ou que fazem pensar que somos e que devemos lutar contra as correntes do sistema fascista que trouxe tanto sofrimento para tantas pessoas em períodos passados , se faz hoje um mundo melhor, assim sinto, assim vejo.
Me vejo livre de tantas amarras, pois é preciso que ideias sejam mudadas para que as mesmas mudem comportamentos.
É preciso educar essas cabeças , refazer essas mentalidades escravagistas do ser humano no sentido de fazer humanas as nossas atitudes para com o outro.
O outro vale mais que dinheiro, o mundo civilizado é um mundo selvagem desde que este termo cruzou o mundo.
Então eu diria que minha história me faz ver como era minha geração e o quanto avançamos e o quanto desbravamos o duro mar da ignorância humana de que nada somos e que nada sabemos , só sei que somos uma montagem daqueles que levaram mais vantagens ao construir um mundo com ideias que só traziam vantagens a interessados em dominar mentes, portanto minha história faz eu entender que direitos humanos não deveria pertencer a nenhum sistema ou burocracia, bastaria que organizássemos a ideia de que tudo deve passar e fazer isso da maneira mais afetiva e desapegada possível, pois a burrice humana cega o ser humano de ver no seu futuro o fim de sua juventude, de sua saúde e de sua vida.
Somos finitos e fim.
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