P/1 – Primeiro Patrícia, fala pra gente o seu nome completo, data e local e nascimento.
R – Adilson Antonio Araújo, data de nascimento: 3 de novembro de 1978. Eu nasci em Paulo Afonso, Bahia. Mas como naquela época as famílias tinham que sair de uma cidade menor para outra maior pra registrar, o meu registro de nascimento foi feito em Petrolina, Pernambuco. Mas considerando-se eu sou baiana, registrada no Pernambuco.
P/1 – E agora o nome completo do seu pai e da sua mãe e, se você souber, data e local de nascimento dos dois.
R – A minha mãe é Maria de Fátima Araújo Lima e pai não existe.
P/1 – Você não conhece.
R – Não.
P/1 – Nunca chegou a conhecê-lo.
R – Não, não conheço.
P/1 – O que a sua mãe faz ou fazia profissionalmente?
R – A minha mãe já foi caixa de supermercado. Quando eu nasci ela trabalhava em um mercado. A história que ela me conta é que ela não chegou a casar, engravidou namorando e estavam prestes a casar. Mas com sete meses de grávida ele abandonou ela e ela voltou pra casa dos meus avós, me teve, continuou trabalhando e eu cresci dentro da casa dos meus avós. Mas é basicamente isso.
P/1 – E ela trabalhou desde sempre como caixa de supermercado?
R – Não, ela sempre trabalhou como caixa, ela sempre foi caixa, então, ela já trabalhou em supermercado, loja, empresa de ônibus, basicamente sempre em caixa. Hoje em dia a gente mora junto, ela trabalha com caixa, mas ela vende uma marca de roupa, então ela trabalha para ela mesma.
P/1 – Você falou que você cresceu junto com seus avós maternos.
R – Isso.
P/1 – Qual é o nome deles e com o que eles trabalhavam?
R – O meu avô sempre foi, eu não sei se aqui vocês conhecem, mas ele já trabalhou, ele tinha um caminhão e prestava serviço para outras empresas onde ele ganhou a vida assim. Ele sempre teve um carro pra prestar serviço para alguém, não trabalhando de taxista ou motorista, mas ele alugava o carro para outras pessoas. E minha avó sempre foi doméstica. A minha avó chama-se Maria do Socorro Araújo Lima e o meu avô Sandoval Silva de Araújo.
P/1 – Conta um pouco pra gente como a sua mãe é de personalidade, de jeito. E os seus avós também, porque você cresceu muito próximo, então, o avô, a avó e a sua mãe. Se você fosse descrever para alguém que não conhece.
R – Então, a minha avó é a pessoa mais doce do mundo. Ela consegue, vai complicar agora (risos).
P/1 – Pode ficar tranquila, tem um lencinho ali também se você quiser.
R – Assim, ela consegue, sei lá, ela consegue ser a pessoa mais doce do mundo. E também a pessoa mais conservadora. Hoje com a minha condição social de travesti a gente se afastou um pouco, mas por telefone a gente sente aquele amor. Tanto que lá em casa é assim, eu chamo a minha mãe pelo nome de mãe, que é Maria de Fátima, chamo ela de Fátima, e chamo meus avós de mainha, que é minha avó, e meu avô de painho, que é meu pai. E meu avô sempre foi uma pessoa muito coerente, muito decente, muito honesto nas coisas que ele faz; ele sempre teve muita dignidade no que ele faz na vida dele, então, é um homem digno, não tenho o que falar dele muito. Na questão de amor os dois são muito amorosos, então é uma família que se ama muito. Briga como toda família, mas se amam igual. E a minha mãe é, digamos assim, a super mãe. Eu diria que no mundo não existe uma mãe igual a minha. Ela consegue ser amával, coerente, honesta, ela consegue brigar. A gente tem genes totalmente diferentes, ela é super certinha, eu sou super errada. Não errada na questão de fazer coisas erradas, mas assim, se eu posso fazer amanhã eu deixo pra fazer amanhã; ela não, ela faz hoje. Ou se puder um dia antes. Se eu puder fazer dois dias depois eu vou lá e faço dois dias depois, eu não levo a vida com tanta pressa. Ela não, ela faz tudo no tempo certo. Eu não, se eu puder adiar, eu vou e adio. Ela é a mãe que entende, que compreende. Eu não tenho irmãos, então ela sempre foi minha mãe, minha irmã e meu pai. Minha família parou ali, ficamos eu e ela, tanto que quando a gente vai falar de velhice a gente tem um exemplo muito bom dentro de casa porque a minha bisavó faleceu com 98 anos, então, a minha avó foi a última pessoa a ficar cuidando dela e ela chegou um determinado tempo que ela fazia as necessidades básicas na cama mesmo, então a minha avó cuidava. Aquilo ficou na minha cabeça porque eu lembro que um dia eu cheguei em casa e minha bisavó tinha feito necessidade, minha avó estava limpando ela, depois levou ela e deu banho. A gente ficava olhando aquilo e vendo, isso é uma coisa que me marca muito. Outro dia conversando com a minha mãe ela disse: “Ai, quando eu ficar velha gagá você vai me colocar num asilo”, eu fiz assim: “Não, eu vou fazer igual mainha fez com a bisa. Do mesmo jeito que quando eu era criança você foi lá, cuidou de mim, me limpou e me deu banho, eu faço com você”. A gente fica brincando meio que assim (risos). Mas na questão de amor a minha mãe é muito amorosa, eu posso falar assim, meu tudo. Não existe a possibilidade, eu não me vejo vivendo sem minha mãe. Eu já me acostumei com a ideia de que um dia ela vai ter que partir, mas eu prefiro não pensar nisso pra deixar que aconteça no momento certo. Porque se eu penso, eu cheguei um dia a cogitar a possibilidade do falecimento da minha mãe e eu fiquei praticamente três dias sem dormir. Então pra mim é meio complicado porque eu não tenho irmãos, eu não tenho pai, os meus avós continuam morando no interior do Pernambuco, minha família toda está lá. Aqui em São Paulo só tem eu e ela, aí quando ela morrer acabou. Então prefiro não pensar nessa parte, prefiro continuar vendo o amor que eles têm por mim, o cuidado que eles têm por mim, como a gente vive, como a gente briga e como a gente se entende, prefiro ficar assim.
P/1 – Você sabe qual é a origem da sua família, Patrícia? Antepassados, alguma vez avô ou bisavô comentou?
R – Então, é uma miscigenação aí, porque tem Pernambuco, tem Bahia e acho que tem Goiás, alguma coisa assim. Que eu me lembro são esses três lugares tenho família, vieram basicamente daí.
P/1 – Conta um pouco pra gente como era a casa que você passou a infância. Descreve um pouco pra gente a casa e a cidade.
R – Lembrar de quando era criança?
P/1 – A primeira casa que você tem recordação, como é que era?
R – Era uma casa que tinha um muro baixo. Eu me lembro uma vez que eu fui pra minha mãe, pra Recife, aí eu me lembro quando a gente voltou o ônibus parava uma casa antes da minha avó. Aí o ônibus passando pela janela eu vi ela já na pia lavando roupa, eu já corri, já desci, fui correndo, abri o portão e já fui gritando e foi aquela alegria. Mas a casa era grande, era uma casa de dois quartos, sala, cozinha, banheiro, área de serviço. E um muro bem grande que era um muro onde eu brincava. É lá onde eu conseguia brincar com meus primos. Era uma casa bem alegre, sempre foi bem alegre, lá em casa sempre teve muita gente. A casa dos meus avós sempre foi aquela casa que acolhe todo mundo, então, mesmo casado todo mundo vai pra lá, e come, e bebe, e dorme. E se adoecia algum neto tinha que levar pra casa dela, sempre foi uma casa muito acolhedora. Essa é a primeira casa. A segunda casa que eu me lembro a gente foi morar o que no Pernambuco eles chamam de Projeto, que eles davam uma casa e uns hectares de terra pra você plantar. Então meu avô plantava lá, eu não lembro bem no momento o que ele plantava, mas sei que ele plantava alguma coisa, colhia e vendia. E lá foi onde eu me lembro mais porque fizeram esse Projeto, aí tinha que levar água pra lá e tinha um lugar tipo um rio, mas é um rio que fizeram mesmo, que era por onde passavam as águas e ali a gente, minha avó não deixava a gente tomar banho lá e a gente ia escondido, saía da escola e pulava lá porque como a água era corrente ela te levava para um lugar meio perigoso, mas mesmo assim a gente ia. E lá, não a minha primeira escola, mas a escola que eu me lembro muito, que era uma escola muito grande, tinha a escola maior e a menor, eu, como era menor, eu estudava na menor e a minha tia, que já é um ano mais velha do que eu, que fomos criadas juntas, estudava na outra. Quando eu saía da minha escola pra vir pegar o ônibus em frente da escola da minha tia, tinha uma plantação de limão bem grande e era cercada por arame farpado. Eu e meus amigos, um puxava a parte de baixo, outro puxava a parte de cima, eu passava, roubava os limões e a gente ia no ônibus chupando limão com sal. Coisa de criança, mas era legal na época. É, basicamente eu lembro mais ou menos disso, não lembro muita coisa de quando eu era criança.
P/1 – Isso já foi em Pernambuco que você está me contando agora.
R – É, do Pernambuco.
P/1 – Essa mudança da Bahia, quanto tempo você ficou na Bahia depois que nasceu e como foi essa mudança?
R – Eu não lembro da parte da Bahia porque a minha mãe falou que com três anos de idade a gente mudou, então não tenho lembranças. A parte da Bahia que eu lembro já é depois de adulta, a parte de criança não lembro.
P/1 – Era muito pequenininha.
R – É, eu saí de lá com três anos, então nem sabia o que ia acontecer na vida ainda.
P/1 – E você sabe por que a sua família saiu de lá e foi pra Pernambuco?
R – É porque o meu avô trabalhou na construção da barragem de Sobradinho, aí ele trabalhava em Sobradinho, morava em Paulo Afonso e acabou. Terminou a construção e tinha a vida dos moradores, mas ele não queria ficar morando lá. Ele saiu de lá e começou a entrar no Pernambuco de novo, aí dali ele já não saiu mais.
P/1 – E qual foi a cidade que vocês foram em Pernambuco?
R – Petrolina, Pernambuco. É essa cidade que eles moram atualmente.
P/1 – Que foi a cidade que você se mudou quando era criança.
R – Foi. É a cidade que eu lembro da minha infância, é Petrolina, Pernambuco.
P/1 – Você citou algumas brincadeiras, nadar nesse rio artificial, roubar limões. O que mais você fazia pra se divertir quando era pequena? Com quem você brincava e do que você brincava?
R – Ah, eu brincava basicamente com os vizinhos, então joguei futebol, soltei pipa, joguei peão, brinquei de queimada, brinquei de polícia e ladrão. Brinquei de tudo que uma criança poderia brincar. Eu tive uma infância muito feliz, então não posso reclamar de nada. Eu brinquei muito, me diverti muito. Todas as brincadeiras que hoje em dias as pessoas falam que são antiquadas eu brinquei, eu me divertia bastante. Fiz tudo o que uma criança normal faria na época.
P/1 – Você tinha uma brincadeira favorita?
R – Não digo favorita, eu nunca tive favoritismo pra brincadeira, não, eu gostava de me divertir, o meu foco era diversão. Se aquela brincadeira estava me divertindo naquela hora pra mim estava ótimo. Se outra iria me divertir mais eu iria pra outra. Mas um foco de dizer: “Ah, eu gostava disso”, não, nunca tive.
P/1 – E você tinha brinquedos?
R – Tinha, bastante. Minha mãe me enchia de carrinhos de todos os tipos. Lá pro lado de Pernambuco eles fazem carros pra criança de latas de óleo, então minha mãe gostava muito de me dar esses carros, ou então carros com mais carros em cima, sempre foi carro, então, acho que ela estava tentando adivinhar alguma coisa, mas meio que não deu certo (risos).
P/1 – Eu ia te perguntar da escola, mas antes deixa eu fazer uma pergunta sobre alimentação na sua casa. Quem que cozinhava, o que vocês comiam e como era o momento das refeições?
R – Eu tenho um problema sério com comida, eu não como tudo. Eu não sou muito fã de carne, só como basicamente frango e tem que ser filé de frango assado. Então era um problema lá em casa porque eu não gosto de verdura e o Nordeste é rico nisso, é rico em tempero, rico em verdura. A comida lá em casa quem fazia e faz até hoje é a minha avó, ela cozinha o trivial: feijão, arroz, carne, macarrão, uma salada e um suco. O suco eu me lembro que na casa da minha avó tem cinco pés de manga, então o suco era sempre da fruta, bem mais legal. Mas a comida é basicamente isso, é o trivial de todos os dias. Só que aí ela fazia questão de cozinhar e o meu ela tinha que separar porque como eu não comia carne cozida ela tinha que separar o meu. Se ela cozinhasse a carne depois ela pegava e fazia a carne assada e separava para eu comer. E eu me lembro de uma parte que meu tio falava que ela estava me acostumando mal porque mais tarde eu ia, como eu estava mal acostumada com ela, mais tarde eu ia ter que pagar porque ela me acostumou mal, digamos assim. Mas é basicamente isso.
P/1 – E vocês comiam juntos? O momento da refeição, como é que era?
R – Não, lá em casa todo mundo sempre foi muito... quando dava meio-dia em ponto minha avó e meu avô estavam na mesa, quem chegasse a tempo comia com eles. Eu como sempre fui muito, digamos assim, serelepe, eu nunca comia na hora certa, ou comia antes ou eu comia depois, mas nunca sentei muito na mesa, não. Mas lá em casa tem disso, o meu avô senta pra comer com a minha avó, eles dois sentam no horário certinho pra comer, os outros não porque todo mundo foi crescendo, aí cada um ia para um canto. Quando mais novo não, mas depois de adulto todo mundo, um come ali, outro come acolá, não teve muito essa de sentar na mesa, não.
P/1 – Você mencionou também a escola em Petrolina. Queria saber quais são suas primeiras lembranças da escola.
R – Quando eu comecei a estudar eu acho que é Escola Professora Osa Santana de Carvalho, acho que é esse o nome, não lembro bem, mas deve ser esse. É uma escola bem grande. É em Petrolina mesmo. Era bem legal, eu me divertia. Só não era divertido quando o pessoal pegava e começava a fazer chacota da minha pessoa porque na época eu já tinha os trejeitos femininos, então, ficava meio que na escola com aquele burburinho, é ou não é, é ou não é. Então eu brigava muito na escola, eu tinha muito disso, eu brigava muito. Porque na época como eu não entendia nada eu não aceitava, então eu brigava, eu falava: “Não, não é isso não. Vocês estão querendo zoar com a minha cara”, eu brigava muito. Mas era muito divertido. Eu cresci, minha mãe e meus avós sempre priorizaram para que todos os filhos e netos tivessem o mínimo de estudo possível pra que a vida não batesse tanto, então, a gente meio que não gostava mas era obrigado a ter que estudar, porque lá em casa se não trabalhava tinha que estudar. A escola era legal, os professores eram legais, a diretora sempre estava me defendendo. Eu sempre tive muita amizade com professor, porque eu sempre procurei ser inteligente pra que todos me admirassem, eu tinha que ter alguma coisa que alguém me admirasse; já que as pessoas zoavam por conta de eu ter esses trejeitos femininos eu tinha que mostrar um outro lado. Então as pessoas meio que se aproximavam de mim, mas eu acredito hoje que seria por conta disso, sempre ter notas boas, ser bom aluno, então as pessoas queriam isso de mim, queriam saber como eu conseguia aquilo. Mas eu brinquei bastante. Eu me lembro que tinha a merenda da escola, então tinha um chocolate que eles davam lá que era um grude na realidade (risos), mas era bem gostoso o grude. E também tinha arroz doce. Já fui parar algumas vezes na sala da diretora por bater em alguém ou por alguém bater em mim, e por responder e por xingar lá. Mas a escola foi legal. Depois dessa primeira escola eu mudei pra outra, onde eu já estudava com meus primos, que é a Humberto Soares, é no mesmo bairro só que do outro lado. E essa outra escola eu já estava no primeiro grau, então também teve várias histórias interessantes. Eu mudei pra lá eu já era mais adulta, então minha avó fazia, eu não sei se vocês conhecem aqui como é, se é piquenique, se é dindim, se é geladinho, é um suco que coloca no saquinho e vende. Então ela fazia eu vender isso e eu tinha vergonha, só que pra ela tanto faz, ela falava: “Você tem que ir porque você tem que ajudar dentro da casa”. Minha família nunca teve condição boa, mas também a gente nunca passou fome, nunca passou necessidade em casa, nunca tivemos esse problema porque meu avô sempre foi homem suficiente pra sustentar todo mundo e ajudar todo mundo. Meus tios também. Mas na realidade hoje eu vejo que ela estava me ensinando a dar valor ao que se ganha, ao trabalho, então eu acho que com uns dez, 11, 12 anos eu trabalhava assim. Eu vendi esse piquenique, eu vendi picolé na porta da escola, vendi bolo. E mesmo trabalhando a gente conseguia se divertir porque eu sempre vendia junto ou de uma prima ou de um primo meu, então a gente saía de casa e tudo era festa, tudo era festa, tudo era motivo pra brincadeira. Então eu cresci assim, eu estudava, já nessa outra escola eu estudava e trabalhava. Durante a estada nessa escola eu tive outros empregos. Minha avó pegava um carrinho desses de construção, carrinho de mão, e me colocava na feira para eu ajudar as senhoras e elas me davam dinheiro. Eu vendi picolé. Minha tia fazia cocada, que era uma cocada preta e saía eu pra vender o dindim e meu primo pra vender as cocadas da minha tia. Essa parte eu lembro, a gente se divertia muito porque estudava de manhã, vendia à tarde, ou então estudava à tarde e tinha que vender de manhã, mas era bem legal, as duas escolas. Depois eu fui pro segundo grau, aí eu já era adulto, aí já é outra história, são várias outras histórias juntas nessa escola do segundo grau.
P/1 – Deixa eu voltar um pouquinho antes da gente chegar no segundo grau. Você falou que você começou a vender, primeiro gelinho – aqui a gente chamava de gelinho (risos).
R – É, porque o Brasil é... é dindim, é piquenique, é gelinho.
P/1 – Depois bolo e tal. Esse dinheiro das vendas, ficava alguma coisa pra você?
R – Então, tudo ficava na mão da minha avó, mas aí ela comprava minhas roupas. Minha mãe me mantinha, mesmo ela não morando em casa. Porque ela ficou comigo dentro da casa da minha avó até um determinado tempo, depois ela arrumou um emprego, viajou, ela casou, então aí ela viveu fora de casa. Mas mesmo vivendo fora de casa ela me mantinha, todo mês ela dava para minha avó uma quantia pras minhas necessidades básicas. E esse dinheiro que a minha avó pegava, ela também comprava roupa, brinquedo, alimentação. Era uma forma, digamos assim, todo mundo trabalhava lá em casa, então ela me colocou pra trabalhar para eu poder aprender a dar valor a isso, então ela pegava o dinheiro e investia em mim mesmo, era um dinheiro que era investido em mim mesmo, então era tudo com ela.
P/1 – Ia pra você o dinheiro, mas não era você que comprava, era ela, não era você que administrava ainda.
R – Como eu era criança não tinha noção de compra, de gasto, então, também acho que não ia adiantar vir pra minha mão, não ia resolver nada, eu ia gastar tudo com besteira. Então ela fazia melhor uso do dinheiro (risos).
P/1 – E você mencionou que nessa primeira escola, antes de você passar pra essa segunda, tinha um problema porque os meninos tiravam muito sarro porque achavam seu gestual mais feminino. Eu queria saber se você lembra como você se sentia ou se tinha alguma compreensão disso, o que você pensava sobre isso.
R – Compreensão eu não tinha porque eu não lembro assim, de fato, de ter uma ideia do que seria aquilo, por que eles ficavam me zoando. Eu escutava muito ‘bichinha, viadinho, gayzinho, mulherzinha’, me colocavam muito os apelidos, então eu não entendia. Eu achava que pra mim era normal o meu jeito, o meu trejeito. Mas hoje eu vejo que pra época eu já era muito adiantada, eu já era muito afetada, digamos assim, então eu acredito que a zoação vinha por eles não verem aquilo, eles não conseguirem enxergar o que era. E nem eu mesmo sabia o que eu era. Então eu não levo como uma parte ruim da minha vida, eu vejo como uma passagem, normal. A zoação vinha, na realidade, porque eles viam aquilo que eu não queria enxergar. Porque lá em casa minha avó teve 14 filhos, cinco vieram a falecer, são nove no total, então são cinco homens e quatro mulheres. Eu cresci dessa forma, vendo o tradicional de uma família, homem nasceu, casou, teve filhos; mulher nasceu, cresceu, casou, teve filhos, ambos com seu sexo oposto. Eu, desde criança, nunca tive aptidão para o sexo oposto. Na realidade eu nunca namorei com uma mulher, então não sei. Fui crescendo e também não tinha noção disso. Eu digo dos trejeitos porque eu sempre gostei, mesmo com dez, 11, 12 anos eu já tinha esse jeito afeminado de ser, então os meninos viam isso na escola, então por não ter o costume de um menino ser tão afeminado, aí eles começavam a colocar apelidos, a zoar, essas coisas. Mas eu não tenho mágoa, não tenho rancor dessa parte da minha vida, pra mim é normal. É questão que eles não tinham esse costume de ver, até eles aprenderem e verem a realidade, aí é outra história.
P/1 – E nessa mudança de escola, pelo que você está me dizendo, é um pouco fase de transição pra adolescência, essa segunda escola.
R – Isso.
P/1 – E aí queria saber quando vem a adolescência, porque enquanto você é criança essa questão toda da sexualidade é uma coisa que você não pensa mesmo. Nessa transição para a adolescência isso muda de alguma maneira? Esse tipo de provocação que eles faziam, essas questões mudaram pra você?
R – Mudaram, porque aí já estava me magoando, já estava me machucando e, de uma certa forma, me oprimindo. Porque assim, se chegavam pra minha avó e falavam uma determinada coisa, ela falava: “Ah, toma jeito, muda seu jeito”, mas mudar meu jeito? Eu ficava pensando: “Mudar o meu jeito como? Esse é o meu jeito, eu não estou fazendo nada de errado”. Eu já tinha uma concepção de que algo estava errado, algo estava mudando em mim. Então os meninos da minha época de 14 anos já namoravam, eu não tinha isso, eu brincava. Eu acho que a parte mais próxima de beijar uma mulher era numa brincadeira chamada... ai, agora esqueci, sei que era uma brincadeira que tinha que você acabava dando um beijo em alguém. Colocava uma venda em você e você tinha que adivinhar algumas coisas e o prêmio seria beijar aquela pessoa. Acho que essa foi a parte mais próxima de beijar uma mulher. Mas essa segunda escola eu acho que foi quando minha mãe me perguntou se eu era gay. E como eu era muito jovem, não tinha noção de nada eu não sabia ainda, então eu peguei e disse a ela: “Não, eu não sou não. Está louca? O que é isso?”. Eu achava que a criação que eu recebi é que você não podia ser gay, não existe isso, lá em casa não podia existir isso, era errado, era pecado, era ruim, era feio, era tudo, menos bom. E nessa pré-adolescência ficou esse problema. Eu tinha um problema na escola de comportamento porque o meu comportamento era diferente do dos outros meninos, então, devido ao meu comportamento eu recebia muito essa, digamos assim, crítica das pessoas. E eu tinha muita amizade com mulher, eu não tinha amizade com homem, sempre tinha amizade com mulher. Então acredito que eu pegava meio que o trejeito da mulher e usava comigo (risos). E muitas vezes isso provocava a ira de alguns meninos. E às vezes não, às vezes acabava meio que ajudando com alguns outros meninos porque eles diziam: “Ah não, deixa ele pra lá porque ele está com as meninas e tal, deixa lá, deixa lá”. Mas alguns não, eles não gostavam. Eu não me lembro de uma agressão física, mas agressão verbal eu escutei muita, então aquilo me magoava muito e me frustrava por dentro, eu procurava entender o que estava acontecendo e não tinha um entendimento, não existia, pra mim não tem um entendimento até hoje por que as pessoas me tratavam tão mal sendo que eu não estava fazendo mal nenhum para ninguém, então aquilo me frustrou bastante na época. Mas foi só isso.
P/1 – E esse momento que você falou que sua mãe chegou pra você, como é que foi esse momento? Com que idade você estava e como ela fez essa abordagem? Você lembra como você se sentiu?
R – A idade eu não lembro, sei que eu era bem jovem e eu não tinha noção de nada, eu não sabia nem o que era. Eu sabia o que era gay, mas eu não sabia que eu era gay, então. Porque hoje, eu penso assim, você nasce e você não tem sexualidade, você nasceu, você é um ser humano, ponto. Só que a sociedade determina, homem hetero, mulher hetero, fato. Então eu nasci hetero, cresci uma criança normal, fui me descobrindo aos poucos. Nessa época que minha mãe perguntou eu não sabia que eu era gay, depois de um tempo eu descobri que eu era gay porque eu já sentia atração por homem. Mas quando ela me perguntou foi um choque porque eu percebi que até a minha mãe via alguma coisa que eu não estava vendo. Porque eu brincava com as meninas e eu achava normal, pra mim era normal, eu estava brincando, eu era uma criança, adolescente, normal. Conversa normal, tudo normal. Mas aí quando ela me perguntou veio um estalo (estala o dedo). Tem alguma coisa acontecendo comigo, alguma coisa que eu não estou vendo. Porque a minha avó falava pra minha mãe assim: “Você tem que falar com ele, porque não está certo isso, olha esse menino, só quer viver com menina”, a partir desse momento foi que eu acordei pra enxergar, aí foi quando eu comecei a descobrir, digamos, a atração pelo sexo masculino, foi quando eu comecei a acordar. Eu acho que meu lado gay acordou justamente quando ela me perguntou, eu penso assim, que meu lado gay acordou quando minha mãe me perguntou se eu era gay. Só que na época eu falei pra ela que não, então. É, na época eu não sabia o que era, então respondi não e pronto, segui minha vida, continuei normal.
P/1 – E você falou que em algum momento isso despertou a percepção mesmo, o interesse pelo sexo masculino, a atração física. Você se lembra de algum momento, alguma história, quando isso te deu um clique?
R – Hoje, sentada aqui, depois que minha mãe me perguntou. Quando ela me perguntou aquilo me gelou por dentro, eu lembro que eu gelei por dentro inteira e eu fiquei nervosa, sem saber o porquê ela tinha me feito aquela pergunta. Aí depois eu fui prestar atenção em mim. Até então eu não prestava atenção e achava que todas as chacotas e a zoação eram coisas de adolescente, de criança, normal. Eu comecei a prestar atenção em mim e comecei a ter amizade com gay. Aí quando eu comecei a ter amizade com gay eu me descobri com os amigos que eu tinha. Eles já eram gays mesmo, então com eles eu comecei a me descobrir. E os homens, eles começaram a ver isso, os homens começaram a ver isso e na época eles começaram a me assediar. Aí foi ali que eu descobri que eu tinha uma atração por homem e não por mulher, foi assim.
P/1 – Vou voltar um pouquinho antes da gente continuar desse momento. Eu queria saber se nessa fase de infância, adolescência você se lembra o que você queria ser quando crescesse. Você tinha algum desejo?
R – De crescer...
P/1 – É, o que você queria fazer profissionalmente, você dizia: “Ah, quero ser tal coisa”, ou pensava.
R – Lá em casa todo mundo tem uma profissão, então assim, eu nunca tive, como eu já falei no início eu não tenho pai, então não tinha um... eu acho que toda criança tem um, esse desejo partiria de uma pessoa que você admira. E eu nunca tive, nunca tive esse desejo de ser alguma coisa, de: “Ah, eu vou ser médico”, “Vou ser policial”, ou “Eu vou ser bombeiro”. Não, porque lá em casa todo mundo teve suas profissões, uma diferente da outra e eu nunca parei pra ter um ídolo, então nunca tive esse desejo não.
P/1 – E esse momento que você mencionou que a sua mãe saiu de casa pra ir trabalhar e depois se casou, você tinha que idade, Patrícia?
R – Eu não lembro, eu sei que eu era bem criança. Desde que eu nasci ela já trabalhava, então ela passava o dia fora e eu via à noite, aí o meu dia era com a minha avó. Depois de um certo tempo eu não lembro, era mais fácil perguntar pra ela porque eu não lembro. Eu sei que eu era bem criança, eu não lembro mesmo quando ela saiu de casa.
P/1 – E você lembra como você se sentiu, como é que foi pra você a saída dela?
R – Então, era complicado porque até um tempo atrás a gente conversou, eu mandei algumas cartas pra ela e eu falava palavras bem rudes, que magoavam ela. Porque eu achava que ela tinha me abandonado e não era. Como ela disse, ela saiu pra me dar o lugar dela, o lugar dela de filha. Porque a minha família muito conservadora, a minha mãe foi muito mulher nessa época, porque na época que ela engravidou, mãe solteira era tido como prostituta, puta ou algo assim, então ela foi muito guerreira. Eu me lembro que ela fala muito e ela fica muito triste quando ela lembra dessa parte. Ela e a minha tia engravidaram e meus avós moravam no interior, na roça mesmo. Então quando alguém ia visitar elas duas tinham que ficar escondidas pra que ninguém as visse grávidas. E isso ocorreu até o nono mês, até quando cada uma teve seu filho. A minha tia teve o dela e minha mãe me teve, só que só eu fiquei dentro de casa. E desde então foi uma luta árdua pra ela, porque ser mãe solteira em 1978 era complicado, digamos assim. Então a família falava, o meu avô falava, a minha avó falava, o vizinho falava, todo mundo falava, então ela sofreu bastante. Aí a parte em que ela saiu de casa eu não lembro, sei que ela saiu de casa, mas me mantinha, e também nunca deixou de ter contato, então a gente sempre se falava. Quando criança não, mas aí depois que eu aprendi a ler e a escrever direitinho a gente mantinha sempre contato por carta mesmo, mas a gente sempre teve uma boa comunicação. Mas lembrar a data mesmo eu não vou lembrar, não.
P/1 – É mais importante saber como você se sentiu, qual a recordação que você tem dessa experiência.
R – Como criança eu não guardo muitas lembranças, então quando ela saiu eu não tenho uma lembrança exata. Quando eu estava mais adulto, aquilo me magoava. Na minha opinião, na época e até mesmo quando adolescente, eu achava que ela tinha que ter lutado mais, brigado mais, ter feito mais e ter continuado comigo. Mas hoje eu vejo que não é assim, não é dessa forma. Ela foi mulher o suficiente pra encarar todo mundo, uma sociedade e uma família inteira pra poder me ter normalmente. Mas na época, quando criança, eu tinha mágoa, eu achava que ela tinha me abandonado. Não era isso, mas naquela época eu achava isso.
P/1 – E vocês voltaram a morar juntas quando?
R – Dentro da casa da minha avó (risos). Depois que ela chegou, me perguntou se eu era gay e eu disse que não, depois eu comecei a prestar atenção em mim e vi que realmente era, mas eu assumi pra mim e escondia do mundo, de todo mundo, eu tinha muito medo, era muito ‘não pode, não pode, não pode’; digamos assim, eu era mas não aceitava. Então quando minha mãe voltou pra casa eu já estava no segundo grau, eu acho, então a gente já tinha uma relação mais aberta. Mas até então nada assumido. Eu continuava a ser o filho hetero, da casa do meu avô pra dentro era hetero, do portão pra fora, aí... mas quando ela voltou, ela se separou do meu padrasto, eu tentei morar com eles duas vezes, não deu certo porque eu ia pra lá, passava dois, três dias... tinha uma parte bem interessante que ela teve dois maridos após o meu pai, então o primeiro ela estava morando com ele em Recife e eu fui morar em Recife, então chegando eu Recife eu adoeci. Ela veio, me pegou na casa da minha avó, me levou pra Recife e eu adoeci. Criança, mas eu me lembro dessa parte da minha vida, a gente estava dentro do cômodo, a gente estava dormindo, só que eu estava com tanta febre que eu via bicho no teto, então eu ficava assim, então eu fiquei doente, bem doente. E ela ligou pra minha tia mais velha, a Zélia, e disse: “Ó, o Adilson está aqui, mas está doente, está ruim”, aí a minha tia disse: “Você vai matar mamãe, porque mamãe está doente também porque você levou o menino embora, você é doida! Como é que você leva esse menino daqui? Se a mulher morrer a culpa é sua!”, e minha mãe nada mais queria do que criar o filho dela, só que não deu certo. Eu fiquei doente, ela teve que comprar passagem. Duas coisas que eu lembro quando eu fui morar com ela é que eu estava brincando com a filha da vizinha e uma mulher tentou esfaquear, tentou não, esfaqueou a mãe da minha amiguinha e a gente embaixo da mesa; eu lembro que a gente estava embaixo e a gente viu aquela cena toda, bem ruim. E outra foi quando a gente foi pro mercado lá mesmo e no mercado eu queria um biscoito e ela disse: “Não, eu não tenho dinheiro, eu vou comprar o que a gente veio comprar”, porque o dinheiro só dava pra comprar aquilo. Eu me joguei no chão, como uma boa criança que eu era, e dei um escândalo dentro do supermercado. E me joguei mesmo, chorei mesmo, me rasguei mesmo, essa parte eu me lembro bem, eu era criança, mas essa ficou. Ela comprou o biscoito, eu acho que era de morango, era de morango porque eu tomei nojo de biscoito de morango. Ela comprou uns dois pacotes, me levou e na esquina onde a gente morava acho que tinha um bar de uma amiga dela, alguma coisa assim. Ela me sentou, criança, pegou os dois pacotes: “Você vai comer até o último biscoito e vai tomar essa Fanta”. Aí eu comi, tomei, quando eu terminei eu vomitei em cima da mesa (risos). Ah, essa parte eu lembro que foi muito engraçada e ela me fez limpar aquilo tudo ainda. Aí nisso que eu adoeci lá em Recife ela pegou, ligou e disse: “Eu estou voltando”, foi justamente quando você me perguntou da casa, foi nessa casa que minha avó estava morando, que a primeira casa que eu lembro, que a gente desceu na rodoviária, pegamos o ônibus, antes de chegar na casa da minha avó a parada de ônibus era uma casa depois da minha avó. O ônibus passa, quando eu estava sentada na janela, minha mãe do lado, eu já pulei, passei por ela, fui lá pra porta, desci, abri o portão, já fui gritando por ela e foi todo aquele xororô e minha avó falando: “Ah, você não leva mais meu filho embora. Nunca mais você tira meu filho daqui”. E ela irritada, eu lembro que minha mãe ficava irritada que ela dizia: “Mas o filho é meu!” “Não, é meu!” e ficava aquela briga por mim. Eu me sentia ótima, estava todo mundo brigando por mim. Mas foi isso. Hoje eu não tenho mágoa, não existe isso. Eu acho que quando adulto você aprende a ter uma concepção melhor das coisas, quando adolescente e criança não, você acha que o que é certo é o que você pensa. Mas é isso aí.
P/1 – Na sua vida escolar, no ensino básico, você teve algum professor marcante, alguém que tenha te marcado, professor ou professora?
R – Professor. A diretora da minha escola do segundo grau eu lembro bem dela. E a vice-diretora.
P/1 – E por que elas te marcaram?
R – Porque eram pessoas que, como gay, elas me aceitavam muito bem. Elas gostavam de mim como eu era, elas não tinham o preconceito em si, então pra elas tanto faz ser gay ou não, pra elas dava igual. Elas gostavam de mim, então elas me aconselhavam muito, me defendiam muito, brincavam muito comigo. E a melhor parte, elas me defendiam, então sempre que alguém falava de mim elas entravam em minha defesa, então a diretora e a vice-diretora, tanto que quando eu voltei lá agora a diretora já tinha se aposentado, saiu da escola e a vice assumiu, e a vice não me reconheceu, então foi bem legal ela me ver, foi bem legal.
P/1 – Como é que foi esse encontro?
R – Eu fui na escola porque eu precisava, acho que é Ficha 21, é uma que dá do segundo grau pra você fazer faculdade. E eu precisava de uma para alguma coisa e eu fui lá buscar, e ela não me reconheceu. Eu cheguei, falei com a secretaria, aí tem que passar pra diretora. Eu sentei na sala da diretora, tal, ela entrou. “Tudo bem, como é seu nome?” “Patrícia”. Ela olhou pra minha cara: “Tu parece com alguém”, eu digo: “É? Quem?” “Não, um aluno tal” “Quem era esse aluno?” “Não, você não conhece. Você não mora aqui” “É, mas eu estudei aqui, vai que eu conheça”. Aí ela: “Ah, é um aluno assim, assim e assim” “Ah, ele era gay”, ela fez: “É, era”. Eu disse: “É, olha aí na minha ficha, vê se é”. Ela foi, olhou a minha ficha, quando ela pegou a ficha ainda tinha a foto do tempo que eu estudava lá, aí ela se assustou (risos): “Você?” “É, eu” e a gente conversou, tomou café, falou da vida. E ela disse: “Nossa, você realmente mudou. Bem diferente”. Eu digo: “É”. Mas foi bem legal. É bom encontrar, quando eu encontro pessoas dessa época, que me fizeram bem é bem legal. Volta coisas boas, lembranças boas, então foi muito legal, ela ficou muito feliz. Eu gostei mais porque ela disse: “Eu estou feliz que você está bem”, então ela realmente é uma pessoa que realmente torceu bastante por mim.
P/1 – E na adolescência, juventude, você teve alguma paixão?
R – Eu acho, que eu me lembre, o primeiro menino que eu me apaixonei era gay e eu não sabia. E virou uma história porque eu me apaixonei por ele e a gente ficou só uma vez. É um menino que tem nome de menina, é Joseli, e eu conheci a mãe, as duas irmãs. Foi o meu primeiro amor.
P/1 – Como vocês se conheceram?
R – Petrolina e Juazeiro são divididas pelo rio São Francisco. Justo no meio da ponte que divide essas duas cidades tem uma ilha chamada Ilha do Fogo, não sei porque o nome. E na adolescência eu sempre ia para essa ilha depois escola, antes da escola, sempre ia, quase todos os dias. E a gente se conheceu nessa ilha. Eu estava lá tomando banho de rio e lá, digamos, era um ponto de caçação. E ele estava lá, tinha acabado de chegar, acho que era daqui de São Paulo ou de outro lugar, não lembro. Eu sei que eu vi ele, a gente ficou trocando olhares, acabamos ficando e nesse ficar eu nunca tinha ficado com ninguém, então, assim, eu nunca tinha ficado de me encantar pela pessoa, já tinha tido outros flertes, outros romances, mas coisa básica. E com ele não, aí eu já me apaixonei, me apaixonei no primeiro beijo. Fiquei atrás dele, depois eu descobri que ele era apaixonado por outro menino, que já era apaixonado por outro, então ficava eu apaixonada por ele, apaixonada por outro e o outro apaixonado pelo outro. E todo mundo um enganando ao outro (risos). Hoje eu dou risada, na época eu fiquei com muita raiva, mas bem interessante a história. E eu acabei me tornando amiga dele, que me apaixonei, do outro que ele era apaixonado, ficamos os três amigos e ninguém ficou mais com ninguém, ficou uma história bem legal. Conheci a mãe dele, as irmãs, são minhas amigas. Quando me viram também agora, acho que uns quatro anos atrás, também ficaram assustadas com a mudança, com o que aconteceu. Eu disse: “É, cada um seguiu um rumo. Ele continua gay, eu me transformei toda e o outro continuou gay também, cada um seguiu o seu caminho”. Mas foi bem legal.
P/1 – Nessa fase de adolescência e juventude o que você fazia pra se divertir? Você saía, pra onde você saía? De lazer mesmo, passeios, amigos.
R – Então, lá em Petrolina sempre tive muitos amigos, muitos; se tinha uma gincana eu estava no meio, gincana de escola pra gente se divertir tinha bastante. Eu gostava muito de acampar, acampava muito na ilha, que hoje inclusive mora um tio meu, eu acampava muito, pelo menos a cada dois meses a gente estava acampando. E era legal porque aí você tem que cozinhar, pegar madeira, fazer fogueira. E a noite você está com lampião, era bem legal, eu gostava muito de acampar, na minha adolescência eu acampei muito. Minha mãe ficava louca, minha mãe mesmo (risos) ficava doida, ela dizia: “Você vai praquela ilha no meio das cobras, no meio disso, daquilo outro”, eu digo: “Ah mulher, mas é legal”. Já cheguei a ter um acidente, me cortei com o facão lá mesmo. E interessante que eu me cortei (risos), aí o facão bateu aqui na minha perna e abriu e ficou na carne. Eu nem, sabe, saiu sangue, eu fiquei com dor, mas todo mundo cuidando de mim, botaram pó de café em cima (risos), pó de café em cima pra poder estancar o sangue. E sarou, hoje em dia só tem uma cicatrizinha. Mas era bem legal, me diverti muito.
P/1 – Mas você fez como isso, cortando a mata, abrindo caminho?
R – Não, é porque a gente tinha que pegar madeira, então uns pegavam madeira, outros pegavam água, outros arrumavam o acampamento, outros limpavam. Então foi a minha vez de pegar madeira com outra pessoa, não lembro quem foi. Aí eu peguei um pedaço de madeira assim e tinha esses galinhos fininhos, eu fiz assim com o facão, quando eu fiz o galhinho que eu fui cortar era muito fino, então o facão passou direto e pá, bateu mesmo em cima do osso. Mas foi coisa pouca, não chegou a ser Aaah! Mas era legal porque aí à noite a gente ia pra vila que tinha na ilha, tinha festa, a gente acampava em carnaval, São João, várias datas comemorativas. E tinha festa na ilha, a gente se divertia. E minha mãe não sabia e eu já cheguei a beber lá mesmo. Eu não bebo, mas na época de adolescente a gente faz tudo. Então a gente bebia cachaça com limão. Ela não gostava porque ela sabia que eu aprontava, então agora ela vai saber o que eu aprontei (risos). A gente bebia lá e era bem legal. Eu acho que na época eu tinha um amor platônico por um amigo meu, que hoje é policial lá na cidade de Petrolina. Mas era bem legal, eu gostava. E também saía pra carnaval, sempre gostei muito de festa. Muito. Então assim, tinha quatro dias de festa na cidade, eu sumia quatro dias. Minha avó e minha mãe ficavam doidas, meu avô e meus tios não estavam nem aí. Diziam: “Vocês liberam então aguentem”, mas eu sumia os quatro dias. Eu lembro que o meu primeiro carnaval eu sumi os quatro dias, eu deixei todo mundo de cabelo em pé na minha casa porque eu não apareci, eu só liguei, eu disse: “Eu estou bem”, ligava no outro dia: “Não, estou bem”, ligava no outro dia. Só apareci depois que acabou o carnaval.
P/1 – E como é que eram os carnavais?
R – Ah, legal. Porque você é adolescente então tudo pra você é festa, eu não bebia. Aí eu já não queria saber de bebida porque eu tive um trauma dentro de casa, então, quando eu via qualquer pessoa beber, passar mal e agredir alguém, então eu não queria. Então nunca trouxe isso pra mim. Era divertido. Eu sempre gostei de música da Bahia, aí via a Ivete, via todas as monas da Bahia que passavam por lá, então era muito divertido. Eu ia com meus amigos e a gente corria, ia prum lado, ia pra outro. Muito legal aquela festa de carnaval, grande, muita gente, tudo de bom.
P/1 – Era na rua?
R – É carnaval de rua, trio elétrico com bloco. A gente tinha vontade de sair no bloco, mas não tinha dinheiro, ou então saía na pipoca mesmo, mas eu acho que foi bem melhor ter saído na pipoca porque eu me diverti bastante, bem legal. Foi uma parte da minha vida que eu me recordo muito bem e é bem agradável.
P/1 – E dessas músicas de carnaval que você gostava tem alguma que seja uma preferida ou que tenha te marcado?
R – Todo ano tem uma amiga minha que canta música, ela é cantora, então eu sempre peço para ela cantar “Minha Pequena Eva”, que Ivete Sangalo cantava quando ela estava lá...
P/1 – Na Banda Eva.
R – Na Banca Eva, isso, exatamente. Uma música que me marcou bastante, então eu lembro dela sempre. É a música que me marcou, “Minha Pequena Eva”. É ela.
P/1 – Teve algum momento específico, alguma situação com essa música?
R – Não, eu acho que era na vibe do carnaval, você vê aquela multidão de gente, ela paralisar todo mundo cantando aquela música e eu estava ali no meio, eu me senti meio que parte da música, então ela ficou comigo. Sempre que eu estou escutando, vendo, eu lembro dessa parte da minha vida, é bem legal.
P/1 – E essa situação que você mencionou, que é uma situação difícil pra você com bebida, é alguma coisa que você viveu dentro da sua casa, é isso?
R – Porque o meu avô bebeu desde cedo, então a gente teve vários problemas por conta da bebida dele. Hoje em dia ele não pode mais beber, teve que parar porque ele não pode mais, os médicos proibiram ele realmente de beber porque não ia dar mais certo. Mas a gente teve várias situações ruins e que ninguém quer lembrar, é uma parte chata da sua vida que você prefere botar de lado. Mas a bebida, o álcool em si, ele trouxe vários problemas lá pra casa, então de ver isso eu preferi não querer mais, eu nunca tive aptidão pra beber. Não vou dizer que nunca, que nem eu disse à minha mãe outro dia desses, eu tenho 36 anos e durante toda a minha vida, se eu fiquei bêbada cinco vezes foi muito, mas consegui fazer essa proeza de ficar bêbada. Mas não gosto, não tenho aptidão pra bebida, não gosto. Mas é basicamente por isso, por ver os problemas que a bebida causou dentro de minha casa.
P/1 – Tá certo. Queria que você falasse um pouquinho pra gente agora como foi, você mencionou rapidinho que o segundo grau mudou muita coisa, aconteceu muita coisa, foi um momento intenso, queria que você me dissesse o que mudou na sua vida no segundo grau?
R – No segundo grau você já é adolescente, você já tem noção, você assiste a uma televisão e já entende melhor, você já vê uma pessoa conversando alguma coisa, você entende melhor. Então nesse segundo grau eu já sabia que eu era gay, porém eu nunca assumi pra minha família porque era um problema que eu tinha com a minha família de assumir. E nesse segundo grau eu conheci outros gays, me relacionei com homens, fiz várias outras amizades, conheci várias outras pessoas. Foi quando eu me descobri gay: “Ah, eu sou gay”, pronto, não tem mais jeito. Porque até então, na minha segunda escola, eu comecei a descobri, mas eu não aceitava, e no segundo grau não, eu sou isso e acabou. Aí tive meus amigos e todos eles eram gays, eu só tinha amizade com gay. Tinha amizade com homem, mas como eu era gay e inteligente, eles tinham amizade comigo pra poder se dar bem. E com as meninas. Mas a parte que marca nesse segundo grau é que eu descobri que eu era gay e eu aceitei isso de bom grado, não tem solução, não é algo que você escolhe, eu não escolhi ser gay, porque se eu escolhesse entre ser gay, ser hetero, casar, ter meus filhos, pra mim seria mais vantajoso, eu poderia: “Ah, você pode escolher gostar de mulher ou gostar de homem” “Tá bom, então eu vou gostar de mulher”. Porque eu poderia ter a minha família e poderia não ter sofrido tanto preconceito. Mas aí o que o segundo grau me mostrou foi isso, me aceitar sem ter medo. Meu único medo era a minha família descobrir, mas o que marca mesmo o segundo grau foi descobrir ser gay e me aceitar como tal.
P/1 – Em relação à sua família nessa fase que você tomou essa consciência assim, como era pra você administrar isso, ter essa coisa clara e dentro da sua casa ninguém mais tocou no assunto durante essa fase? Como era isso?
R – Então, é como eu sempre digo, o que os olhos não veem o coração não sente. Então assim, eu ser gay era do portão da minha casa pra fora, do portão da minha casa pra dentro eu era o neto, o filho, o sobrinho, a pessoa que eles queriam que eu fosse. Porque na realidade o que eles não queriam era ver. A minha família nunca se misturou no meu meio, o meu mundo. O meu mundo era um, o da minha família era outro. E o meu só se juntava com o deles quando eu estava em casa. Foi a partir desse momento que eu percebi, comecei a faltar em festas familiares, a querer trabalhar para ter a minha independência, mas a minha família nunca interviu nisso, eles nunca chegaram a falar, eu não me lembro de um tio meu, ou uma tia minha, chegar e falar assim: “Ai, você não tem que ser gay”, ou “Você não vai ser gay”. Não. Tive discussões com essa tia minha mais nova, que eu tenho 36, ela tem 37, então a gente cresceu ali, porque como eu fui criada, a minha avó teve ela e a minha mãe me teve, então crescemos juntos. Só com ela que eu cheguei a discutir uma vez e com uma outra tia minha também, mas muito pouco, e o resto da família meio que não se meteu. Se falava, falava muito pouco, não chegava no meu ouvido ou eu não dava ouvido. Mas a família em si me proibir de ser aquilo que eu tinha certeza que eu era não, não tive esse problema. Tanto que no segundo grau já foi a fase que eu saí de casa, então não tinha muito o que falar, não tinha muito a questão do: “Você não vai poder fazer”, ou então, que nem eu já vi muitos gays por aí que o pai fala: “Ah, se você virar gay eu te boto pra fora de casa, ou te deserdo”, que é uma coisa muito errada você dizer: “Se você virar”, ninguém vira, você nasce. Não é um gene que você nasce com ele, não é isso. E também ninguém opta por sofrer, levar pedrada, apanhar ou ter que servir de chacota. Qualquer pessoa normal, como eu, escolheria o caminho mais fácil. E a minha família não teve esse processo de me impor: “Você não vai ser”. Mas ao mesmo tempo a educação que eu tive era para não ser, então eu fui criada pra casar e ter filhos, mas casar e ter filhos com mulher. Só que no meio do caminho eu descobri que não era aquilo, foi justamente nesse segundo grau. Então a partir daquele momento a minha vida mudou, deu uma guinada de 180 graus, eu descobri: “Não é isso que eu quero pra mim”, então eu continuei estudando porque minha mãe disse: “Não, você vai terminar esse segundo grau”. Eu terminei meu segundo grau e já segui a minha vida, foi quando eu saí de casa.
P/1 – Você saiu de casa no fim do segundo grau, é isso?
R – Isso.
P/1 – E durante o segundo grau você trabalhava além de estudar?
R – Trabalhava.
P/1 – Com que você trabalhava?
R – Tem uma prima minha que era sócia numa escolinha, aí eu fui trabalhar na escolinha e eu acabei dando aula. Eu entrei pra auxiliar no maternalzinho, eu lembro do primeiro dia de aula das crianças que eu fiquei com duas crianças, elas dormiram no meu braço e eu não podia botar elas no chão que elas acordavam, daí meu braço ficou dormente, fiquei com um aqui e um aqui.
P/1 – Você gostava?
R – Nessa época eu gostava, hoje eu digo pra você que eu não tenho paciência, mas na época eu gostava. Depois eu trabalhei acho que dois ou três anos lá e me tornei professor, aí eu era o tio. Eu ensinava do maternal até a quarta série. E era legal, eu gostava. Eu dava aulas, a gente tinha que fazer planejamento, provas etc, era legal, muito bom.
P/1 – Você se lembra o que você fez com os primeiros salários dessa profissão na escola? O que você comprou, se você comprou uma coisa que você desejava, que tenha sido mais significante?
R – Sempre gostei muito de comprar, às vezes eu tenho que me controlar porque eu sou um pouco compulsiva nessa história de comprar. Mas como eu te disse, a minha avó me ensinou a trabalhar e ajudar, então parte do meu salário tem que ficar em casa, que era para ajudar nas despesas de casa, e o restante era pra despesa básica, então, pagar um ônibus pra ir pro centro que era onde eu encontrava com meus amigos e ia me divertir, tomar um suco, comprar uma roupa, tênis, uma blusa, uma tinta pro cabelo que eu já gostava de pintar meu cabelo de loiro. É, basicamente pra gastar comigo. Mas boa parte tinha que ficar dentro de casa, isso era sem discussão, tinha que ficar lá dentro. Chegava o dia do pagamento minha avó já perguntava: “E aí?”, aí eu já tinha que dar a parte dela e o restante eu gastava comigo mesmo.
P/1 – E nessa época até você sair de casa, antes de sair de casa, você já tinha o desejo de se vestir de uma maneira diferente? Como é que isso veio surgindo, de usar uma coisa mais feminina?
R – Não, nunca imaginei na minha vida mudar meu corpo, mudar meu nome, mudar. Porque ser gay, até então a sociedade consegue engolir mais facilmente, mas travesti você já: “Ahhhh, ahhhh, meu Deus! Vai virar travesti! Meu Deus, virou travesti!” E eu fui crente, eu fui evangélica (risos). Minha tia é evangélica, me levou pra igreja e boa parte da minha vida eu fiquei dentro da igreja, então dentro da igreja isso é pecado. Gay é coisa do demônio, você tem um espírito ruim que toma conta de você e você vir gay, eu aprendi isso, você absorve essas coisas. Mas dentro da igreja eu já sabia que aquele contexto não combinava comigo. E eu sabia que Jesus, Deus me amava igual, mas é como aquelas crianças que crescem no Iraque que vão ser homens bomba, então eles vão crescendo com aquilo, a pessoa vai colocando aquilo na cabeça e ele vai, se ele não tiver uma boa cabeça ele vai se explodir em nome de Alá. Então quando criança as pessoas iam colocando isso na minha cabeça. A minha tia me levava pra igreja junto com os filhos dela e a gente foi crescendo. E era gostoso, a parte da igreja era gostosa, então eu achava que aquilo estava bom, mas com um determinado tempo, crescendo, eu fui me afastando e seguindo o meu caminho que eu deveria seguir. Então eu não tinha o desejo de ser travesti ou de me vestir de mulher não.
P/1 – E você diz que você não cogitava porque isso seria na época, naquele contexto, demais. Mas desejo você também não tinha.
R – Não tinha, não, não tinha. Eu olhava show de travesti no Silvio Santos e achava bonito. Bonito, legal, eu fazia dentro do meu quarto, fazia no banheiro, show. Mas ser como elas não, não tinha essa noção de que isso era bom, era legal ou eu ia ser assim. Não. Não tinha essa vontade não.
P/1 – Nem de pintar a unha, uma coisa assim?
R – Não, é como eu disse, as chacotas da escola eram por conta do trejeito, então, como a foto que eu te mostrei do meu início era bem magrinha. Minha avó dizia: “Você tem que cortar o cabelo que nem cabelo de homem”. Tá, cortou aquele corte estilo exército, mas eu puxava luzes, aí já mudava. A minha unha eu sempre usava grande, deixava ela, eu mesma em casa, quadrada, na base. Sobrancelha tirava fina. Lápis de olho, rímel, base, pó, tudo isso eu usava. Mas não tinha o desejo de ser travesti, eu achava que aquilo ali estava bom, era suficiente. Nessa fase da minha vida eu não tinha vontade de ser travesti não.
P/1 – E quando é que você decidiu sair da casa dos seus avós? Como foi essa decisão e pra onde você foi?
R – Primeiro eu fui morar com um amigo meu, Betinho Souza, ele tinha uma agência de modelo na época. Ele acolhia muita gente, muito gay dentro da casa dele. Eu fui pra lá, todo final de semana eu ia pra lá, a gente dividia comida, comia todo mundo, ia pra festas, zoava, voltava, namorava, brincava, beijava na boca, então era bem divertido lá nessa época. De lá eu arrumei um outro emprego, saí da escolinha, mas não deu muito certo. Aí eu conheci Sérgio, que hoje em dia é Renata Peron, que virou travesti também, que já era gay; Paloma, que é cabeleireira, que já era travesti e a Janailso, que agora não lembro o nome, que também virou travesti agora, mas eu não lembro. Então Sérgio na época era vendedor de cosméticos, Paloma cabeleira e Janailson é estilista, desenha. E fomos morar todos juntos.
P/1 – Em Petrolina isso ainda?
R – Não, já em Juazeiro, na Bahia, é a cidade que é vizinha a da minha avó. Então ali, convivendo com uma travesti, uma meio travesti e um gay que já se veste de mulher, porque a Renata na época era Sérgio, mas se vestia de mulher pra gente sair, ou pra fazer show, isso, aquilo outro. E lá, nessa convivência, eu acabei me adaptando àquela vida. Então eu sempre digo que veio naturalmente o desejo de me vestir de mulher. Então naquela época eu disse: “Não, eu vou me vestir de mulher”. Aí comecei a me vestir e quando eu me dei por conta eu já não tinha nenhuma peça masculina no meu guarda-roupa, só peças femininas. E o cabelo já estava grande, eu já não atendia mais pelo nome de Adilson, já era Patrícia.
P/1 – Como é que você escolheu o seu nome? Por que Patrícia? Você lembra quando você fez essa escolha e por quê?
R – Eu sempre gostei do nome Patrícia. Me lembra patricinha, meninas metidinhas, loiras, bonitas, magras, ricas, então eu gosto do nome porque me traz boas lembranças. Na época não era Patrícia Araújo, eu não usava o Araújo. Eu gostava muito, e gosto muito, da Narcisa Tamborindeguy, então achava ela uma mulher muito descolada, muito pra frente do seu tempo, tudo, então eu usava Patrícia Tamborindeguy. Mas aí com o passar do tempo já não gostava mais de ter o sobrenome de ninguém e passei a usar o meu mesmo. Mas foi nessa época, eu fui morar com esse pessoal e de tanto conviver com o mundo feminino delas, quando eu vi por mim eu já era travesti, mas não foi algo que eu disse: “Eu vou ser”, aconteceu. Naturalmente, como acordar, escovar os dentes, comer, qualquer coisa. Aconteceu. Quando eu vi eu já era a Patrícia, então nessa época eu não tinha mais nem como esconder, a minha mãe já sabia. Mas minha avó, meu avô, meus tios, ninguém sabia. Porque quando eu ia pra casa deles, que era em Petrolina, eu já botava uma calça, uma camiseta, como eu só tinha seio de hormônio dava para esconder ainda. Prendia o cabelo e ia. Mas eles não sabiam de nada não, mas foi lá em Juazeiro que eu mudei e me transformei mesmo.
P/1 – E a sua mãe? Quando é que ela descobriu ou confirmou aquilo que ela já pensava?
R – Então, é como eu sempre digo pra ela, pra toda mãe que eu conheço e pra todo filho que tenta esconder: “Toda mãe sabe o que acontece com seu filho, o que acontece é o seguinte, o que os olhos não veem o coração não sente”. Ela sabe o que está acontecendo, mas ela prefere não ver pra não ter que sofrer. Na realidade toda mãe tem um sétimo, oitavo, nono, décimo sentido que quando o filho vira gay ou travesti ela tenta proibir isso não porque ela não o aceite, mas na sua maioria porque a sua criação foi assim e porque o instinto de mãe de defender a sua cria aflora. Então a mãe, na realidade, ela está tentando te defender, o gay, a travesti, a lésbica, seja quem for, quando a mãe está ali tentando te tirar daquele mundo, falando que está errado, que está isso, está aquilo outro, ela está te defendendo do que você vai enfrentar lá na frente. Lá em casa ninguém sabia e ela sabia, mas ela não entrava em detalhes no assunto.
P/1 – E quando ela te viu a primeira vez como travesti mesmo, como foi?
R – Já foi com marido e tudo, foi bem chocante.
P/1 – Como é que foi, conta pra gente.
R – Porque assim, a gente saiu do apartamento na Narciso e alugamos uma casa, fomos morar eu, Janailson já não foi com a gente na época, fui eu, Paloma e Sérgio. Sérgio ficava numa quarto, eu ficava no outro com a Paloma. E de lá eu trabalhava em salão, já aprendi, já fui trabalhar em salão e vendia produtos, minha mãe era representante de uma linha de perfumes e cosméticos lá de Pernambuco, é a Blosson Ville, então eu vendia pra ela. Eu era o melhor vendedor, eu batia todas as metas e ganhava dinheiro com isso. E vendia junto eu e Renata, que na época era Sérgio, a gente vendia junto, ela vendia uma linha, eu vendia outra e a gente vivia basicamente disso. Depois eu conheci uma travesti que já era travesti chamada Lorraine e ela disse: “Ah, vamos pra Salvador”, eu disse: “Mas o que eu vou fazer lá?” “Vai se prostituir”. Eu disse: “Mas eu nunca fiz” “Então vamos sair comigo que a gente vai rodar e você vai ver como é”. A gente ficou em Juazeiro e eu comecei a descobrir esse outro mundo, que era o mundo da prostituição, que é um dinheiro que vem fácil, mas ele te denigre como pessoa. Não a profissão em si, mas você mesmo acaba se denegrindo, você mesmo acaba, com o tempo, vendo que aquilo não é legal. E fui pra Salvador. E fui lá, quando eu me deparei com o mundo da prostituição, das travestis, do silicone, na época bem ruim. A gente foi morar numa casa de uma senhora lá chamava dona Tânia que é uma mãe, é uma mulher mesmo, mas ela é uma mãe pra todo mundo. Fui morar na casa dela e a gente sete horas, oito horas subia, ia pra rua trabalhar e foi quando eu conheci o meu primeiro marido. Aí dona Tânia disse: “Ah não, aqui não dá certo porque quando vocês arrumam marido depois vocês acabam brigando com eles e tal”. Eu saí e fui morar na casa de Carla, que era outra cafetina que tinha lá. E nisso fiquei com esse menino um ano e pouco. Aí a primeira vez que a gente foi de volta pra Juazeiro ele foi comigo. A gente estava lá em casa, chegamos em casa, eu avisei pra Renata: “Renata, estou indo, chego amanhã tal hora” “Tá bom”. Eu cheguei, estava eu e Renata conversando, minha mãe não sabia que eu ia pra lá. Minha mãe chegou. Chegou, bateu na porta lá embaixo, que era no primeiro andar e Renata: “Quem é?” “Fátima” “O que Fátima está fazendo aqui hoje e a essa hora?” Era de manhã. Aí eu corri pro quarto, fiquei no quarto com ele. Aí ela entrou, estava conversando com Renata, tal. Aí Renata: “Eu tenho uma surpresa pra você”, eu saí de dentro do quarto. Quando eu saí eu estava de saia e top. Aí o humor dela já mudou, porque minha mãe dá pra reconhecer como o humor dela muda na feição do rosto. Aí o humor dela já mudou. O menino saiu, o Ed, aí ela olhou. Não falou nada, ela simplesmente desceu a escada e foi embora. Eu fiquei chorando, a Renata me consolando, o menino me consolando e tal e tal. Ela voltou depois de uma semana, aí ela: “Senta aí que eu quero conversar com você”. Ela falou: “Ah, não era isso que eu queria pra você. Te falei que não era assim, que não ia ser legal”, isso, aquilo outro. “Mas já que você escolheu, está escolhido, ninguém pode fazer mais nada. É isso que você quer pra sua vida?”, eu disse: “É”. Ela olhou pra ele, conversou muito com ele e disse a ele só isso: “Olha, eu posso tudo, eu sou a mãe, fui eu que pari, fui eu que passei nove meses, fui eu que aguentei a dor do parto, fui eu que criei, é minha filha, eu posso bater, xingar, fazer o que eu quiser. O dia que você triscar nela eu vou lamber sabão na cadeia, mas eu mato você”. Então foi a partir desse momento que eu vi que mãe, ela te protege, tudo o que ela faz tem uma segunda intenção. Ela está brigando com você, mas ela está vendo o que vai acontecer lá na frente. A partir desse momento pra mim, a minha mãe, eu endeusei a minha mãe, botei ela no altar e de lá ela nunca mais saiu. Então foi isso, a primeira vez que ela me viu foi um choque. Mas ela foi uma mulher muito inteligente, como ela é até hoje. Ela soube lidar com a situação de uma forma que nem eu esperava. Eu fui pra Juazeiro, eu não impus, e o coração dela levou ela até lá pra ver, porque eu estava tentando achar um meio, uma solução de falar com ela. E isso aconteceu, Deus mandou ela ir pra lá, ela foi, aconteceu, ela falou o que tinha de falar e acabou, estamos aí até hoje.
P/1 – Você ficou quanto tempo casada com esse primeiro casamento, Ed você falou, né?
R – Ed, Ednaldo. Foi um ano e dois meses eu acho.
P/1 – E como foi essa relação, esse tempo com ele?
R – Primeiro amor. Aí eu descobri que o primeiro amor não foi Joseli, foi Ed. Ah, ele foi parte bem importante da minha vida.
P/1 – Como vocês decidiram que iam ficar juntos, qual é a história de vocês?
R – Ele já morava em Salvador, ele é baiano. Eu sou aquela baiana transitória, ele não, ele é baiano de lá mesmo. Então a gente meio que se conheceu eu trabalhando. Eu acho que teve uma briga um dia e ele me ajudou nessa briga, eu briguei com outra travesti, e ele acabou me ajudando. Aí nisso a gente foi se conhecendo, aí ficou, namorou uma semana e depois de uma semana já estava morando junto. Aí pronto, ficamos um ano e dois meses mais ou menos. Foi uma relação boa só que terminou de uma forma um pouco chata. O que ninguém gosta: ser traída. Aí terminou. Mas durante o percurso da relação, a relação foi muito boa. Ele não era uma pessoa que me pedia nada, ele sempre foi uma pessoa que me ajudou; a gente dividia as contas por igual, ele trabalhava, eu trabalhava, então todo mundo, a minha base de não ter que dar nada pra ter alguém do meu lado veio disso. Ele, desde o primeiro namorado, mesmo marido que eu tive, sempre fomos trabalhando, então eu aprendi muito isso, a gente trabalha em união pra crescer juntos. E ele me ensinou muito disso, a gente trabalhava junto e crescia junto. E terminou por isso, por bobagem, ele acabou saindo com outra pessoa, eu descobri e acabou. Aí eu fiquei ruim uns 30 dias, chorava muito, minha mãe falava: “Você vai morrer e ele vai ficar aí”, porque eu já morava só em Juazeiro, já tinha meu salão, já estava estruturada. Mas quando acabou o meu mundo caiu, eu disse: “Meu mundo acabou”. Eu fiquei uns 30 dias em casa sem sair. Não lembro se mais ou se menos, mas eu lembro que eu fiquei um bom tempo em casa só chorando. Aí depois eu levantei a cabeça, tomei um banho, fui pro meu salão trabalhar e segui minha vida.
P/1 – Na época que você foi pra Juazeiro, depois foi pra Bahia, ficou esse tempo trabalhando com programas, você falou.
R – Juazeiro é Bahia.
P/1 – Desculpa, pra Salvador, eu quis dizer Salvador.
R – Isso.
P/1 – Você foi pra Juazeiro e depois foi pra Salvador e ficou esse tempo trabalhando com programa até conhecer o Ed. Depois que vocês se casaram você continuou trabalhando também com programa ou não?
R – Continuei trabalhando com programa.
P/1 – E isso era tranquilo pra vocês?
R – Era porque ele também trabalhava com programa, ninguém podia cobrar nada de ninguém, os dois trabalhavam, ele trabalhava pra lá, eu pra cá, então havia essa concordância, cada um ganha o seu da forma que lhe convém, mas era bem tranquilo.
P/1 – E enquanto isso você foi montando esse salão em Juazeiro? Isso que eu queria entender, como é que era, era ao mesmo tempo?
R – Eu sempre tive esse espírito de empreendedorismo, então, diferente das outras travestis da minha época eu guardava dinheiro. E ele guardava o dele junto com o meu. No meu primeiro salão ele praticamente pagou todo, minha mãe deu uma parte e ele deu outra. E aí eu entrei em sociedade com um outro amigo meu, foi onde a gente abriu um salão.
P/1 – Então vocês foram tocando, vocês tinham duas profissões, as duas coisas ao mesmo tempo.
R – Isso. Exatamente.
P/1 – E esse experiência em Salvador com o programa. Como foi isso pra você, quando você foi apresentada, qual foi a impressão? Como é que é...
R – É como eu te disse, eu não tinha uma percepção do que iria ser lá na frente, então pra mim tudo era novidade. Você ganha dinheiro fácil, fazendo uma coisa que é fácil de se fazer, sexo, mas você não tem a percepção que aquilo tudo tem um risco, tem um perigo, não te dá uma segurança, não tem um futuro.
P/1 – Em que momento mudou a sua percepção disso?
R – Já bem depois, bem depois. Bem depois de tudo. Porque eu fui a primeira vez, casei, voltei. Aí me separei, passei um ano em Juazeiro de novo, depois voltei pra Salvador de novo e já casei de novo. Mas a percepção mudou quando eu cheguei em São Paulo, há uns 14 anos, tudo isso mudou quando eu cheguei aqui. Porque aí eu vi a grandiosidade do mundo. Até então eu conhecia Petrolina, Juazeiro, Salvador, Recife, não conhecia um mundo tão grande assim. Então, quando eu cheguei aqui eu ainda fui trabalhar com programa, viajei pra Europa, fiquei dois anos. Quando eu voltei da Europa eu já não queria mais, que já não era mais o que eu queria, eu queria outras coisas, eu queria alçar outros voos, eu queria uma vida melhor, uma vida que minha mãe não se preocupasse tanto, uma vida que as pessoas não me olhassem torto. Porque por mais que a gente brigue, lute e diga: “É profissional do sexo, tem que ser respeitada”, a sociedade já não olha pra travesti com bons olhos, quando ela faz programa aquele preconceito dobra.
P/1 – Você não tinha medo? Você não passou por situações assim? Porque é muito vulnerável, você fica numa situação muito vulnerável, né?
R – Trabalhar na rua é muito complicado. Eu lembro que uma vez eu saí com um cliente, ele me ameaçou e me deu um soco, tapa, alguma coisa no rosto. Eu fui descendo a Avenida Sete, encontrei uma viatura e eu falei pro policial: “Nossa, ele me bateu, me roubou, isso, aquilo outro”. O policial olhou pra minha cara e disse bem assim: “Onde ele te bateu?” “Bateu aqui no rosto” “Cadê o sangue?” Eu falei: “Mas está inchado” “Não, cadê o sangue?” Ele olhou pra minha cara e disse: “Vocês travestis são todos iguais, vocês aprontam e depois ficam inventando mentira”. A partir daquele momento eu percebi que não tinha muito valor o que eu falava, ser travesti não tinha valor, ser prostituta não tinha valor e as pessoas não tinham o respeito que eu queria que tivesse. Eu sempre fui a travesti diferente, eu sempre fui a travesti que pagou as contas em dia, tinha contato com a família, nunca gostou de bebida, nunca gostou de drogas, nunca gostou de roubar. Então tudo o que era de bom eu tinha porque a minha base de família foi muito boa. Eu tive uma criação muito boa, então, eu não deixei as más influências me levarem para outro caminho, pelo menos pra esse caminho não. Então essa parte de vulnerabilidade você acaba não imaginando. Porque a travesti, quando ela chega, ela imagina: “Ah, estou ganhando”, mas só pensa naquilo, ela não pensa no que está ao redor dela, que é um cara que não gosta de travesti, é um cliente que você tenta roubar e ele pode te matar, é uma outra travesti que pode não ir com a sua cara e ela querer armar pra cima de você. E na rua você é um alvo, tanto pra você trabalhar e ganhar, como pra alguém fazer uma maldade. Mas aí você precisa passar por essa experiência pra você poder acordar e ver que aquilo não é legal, que você tem outras opções. Eu gosto de São Paulo e digo todos os dias à minha mãe que não volto porque tudo o que eu tenho e tudo o que eu sou foi São Paulo que me deu. Tudo o que eu aprendi foi São Paulo que me ensinou. O mundo em si, a vida em si me ensinou, mas São Paulo foi meu professor mesmo, então assim, a concepção de mudar, de querer algo diferente, foi em São Paulo.
P/1 – E essa relação, não sei como era, em que estrutura você trabalhava? Tinha uma relação com cafetina, por área, como era essa relação?
R – Eu vejo a história da cafetina de várias formas. Existe a cafetina má, que é aquela que te explora, bate e faz várias outras coisas ruins, e existe aquela cafetina que meio que cuida de você, que já passou, ou ela já foi prostituta, ou ela já teve um filho gay, travesti, alguma coisa e ela tenta te ajudar. Por exemplo, a dona Tânia tem uma casa, é casa mesmo. Então você vai lá e aluga um quarto. Não é um hotel porque hotel, tudo no Brasil precisa de documento, registro, imposto, etc etc. Você vai lá e aluga um quarto, ponto. Aí: “Você mora na casa de quem?” “Moro com dona Tânia”. Por consideração e respeito a ela, ninguém quer saber de mexer com você. Então assim, existe a má e existe a boa. Eu, por sorte, sempre convivi com as boas, nunca tive contato; contato que eu digo é morar com as más. Eu sempre estive na casa de pessoas boas, então, eu não tenho problema e não tenho o que falar da casa de ninguém. Onde eu morei eu sempre fui bem recebida, sempre fui bem tratada, nunca passei fome, nunca me bateram, nunca me furaram, nunca me agrediram. Nada, pelo contrário, eu sempre fui bem recebida. Primeiro porque eu acho que eu te respeito e você me respeita. Se você diz: “Olha Patrícia, essa sandália custa 50”, você compra se você quiser, você não é obrigada a comprar. Eu posso tentar te induzir a comprar, claro, mas se você for uma pessoa inteligente você vai dizer: “Não, não quero”. Ou você desvia e continua seu caminho, foi o que eu sempre fiz. Independente delas quererem ou não eu sempre fiz o que eu quis, eu acho que antes de qualquer coisa, antes de acusar uma pessoa: “Ah, você é a cafetina”, você tem que saber a história da pessoa, então as que eu convivi e convivo até hoje são pessoas muito boas, não tenho o que falar delas, não.
Barry – Você falou uma coisa muito interessante. Por que as outras pessoas respeitam a cafetina que é boa e que não faz as coisas ruins, como ela ganha o respeito das outras pessoas da cidade. Você entende a pergunta?
R – Entendo, entendo. Assim, na casa da dona Tânia, ela foi casada com um homem que era traficante, então é um problema particular dele. Ela casou com ele e começou a alugar quarto dentro da casa dela. Ele morreu e ela continuou com a casa. Com o tempo as pessoas vão aprendendo a respeitar a pessoa que é mais velha, existe uma hierarquia, você respeita quem chegou primeiro. Em São Paulo existe muito isso, eu conheço muitas meninas que chegam hoje e elas falam: “Ah, Fulano de tal falou que não é para eu trabalhar ali”. Eu já explico: “Você já prestou atenção que você tem 20 anos e ela tem 40? Se ela está ali e ela já apanhou da polícia, ela já apanhou de skinhead, ela já apanhou de outra travesti. Ela já brigou com outras travestis, já foi cortada, já foi multada, já apanhou da polícia, que a polícia em São Paulo barbarizou com a vida dos travestis antigamente, acabou mesmo, bateu em muitas e eu conheço muitas que falam isso. Então assim, o que é que custa você trabalhar uma quadra pra frente ou dez passos, que seja, pra frente? Ou pra trás?” Porque hoje em dia você vê... essa pergunta é muito interessante por que que respeitam aquela que está lá há muito tempo? Porque ninguém perguntou o que ela passou pra estar ali. É a mesma coisa de um hetero falar, ele está com a barraquinha dele de fruta aqui, chega um e quer botar a barraca de fruta do lado dele; ele está ali há 40 anos, as crianças que hoje são homens conhecem ele desde criança, certo? Então as mães ensinaram os filhos a respeitar aquele senhor. Aí o outro chega e quer tomar o espaço dele? Ele vai pedir pra sair e as outras pessoas vão dar razão a ele. A mesma coisa acontece com as cafetinas antigas, boas, que alugam suas casas e vagas para outras travestis. As outras travestis que já estão na rua vão educando as mais novas a respeitarem as que moram na casa daquele por conta que aquela já trabalhou ali na rua, já apanhou da polícia, já brigou com a outra travesti, já brigou com o ladrão, já brigou com traficante, então ela tem uma história, e a história dela que deve ser respeitada. Aí você vai morar na casa dela, então, você não paga rua pra ninguém, você paga o lugar onde você mora e usa o nome dela pra poder trabalhar na rua, é isso que acontece. Pelo menos a história que eu conheço.
P/1 – Há um respeito pela experiência mesmo, né?
R – Há uma respeito pelo que a pessoa...
P/1 – Pela trajetória, pela experiência.
R – Isso, pela trajetória de vida da pessoa.
P/1 – Eu queria saber assim, quando você vai pra Salvador, você mencionou que aí conheceu um outro universo, outras travestis. Eu queria saber o que mudou na sua relação com o seu corpo, se mudou alguma coisa? Assim, se você começou a querer fazer outros tipos de transformação?
R – Quando você começa a trabalhar com prostituição você já vê as outras que já têm prótese, já têm bunda, já têm cabelo, então você começa a querer mudar. A primeira mudança é a hormonização, você começa a tomar hormônio feminino para adquirir formas femininas. Então você não admite mais pelo no seu rosto, você quer ter um cabelo grande, unha grande, você quer ter formas femininas, tudo isso requer dinheiro e cirurgias. Então você vai mexer no seu corpo, você mexe no seu bumbum, você mexe no seu seio, você mexe no seu rosto. Eu comecei com os hormônios, depois eu parti pro bumbum, depois pra prótese, depois pro rosto. Tudo um atrás do outro. Mas eu fiz várias intervenções pra mudar. Não mudei muito, mas mudei alguma coisa.
P/1 – E como foi essa experiência? O que você acha do resultado? Isso foi bacana pra você, você ficou satisfeita?
R – Quando eu comecei, como eu te mostrei na foto, eu era bem magrinha, então o hormônio me inchou, me deu corpo, me deu uma perna bonita, uma bunda, um seio bonito, então eu estava satisfeita. Mas aí é onde eu digo, você tem que ter personalidade, aí as outras falavam: “Se você não sente a dor da beleza você não é travesti”, então eu tinha que colocar silicone. Na época não se falava de prótese em glúteo, então eu coloquei silicone industrial e não foi legal porque eu adoeci, eu fiquei internada, e minha mãe ficou muito preocupada porque na época ela não estava numa situação financeira boa. O silicone apodreceu e eu fui parar num hospital do SUS e fiquei internada, ficou bem, ficou ruim, foi uma fase da minha vida que as pessoas me perguntam: “Você aconselha?”, eu digo: “Não, eu não aconselho. Ou você fica como está ou você faz uma intervenção cirúrgica mesmo, de prótese de glúteo, no silicone eu não aconselho porque eu tive uma experiência negativa e não foi legal, fica bem problemático”. Mas depois que passou ficou tudo normal. Depois veio a prótese que eu acho que toda travesti sonha com essa prótese. Porque você tem o peito de hormônio, mas ele não é a mesma coisa. Então quando você coloca a prótese é como se você se auto realizasse: “Eu me realizei, coloquei minha prótese, eu sou travesti”. Então na realidade o que as pessoas falam de sentir a dor da beleza, pra mim seria a prótese, não o silicone. O silicone é algo que, a meu ver, não há necessidade, você pode ter prótese. Eu falo sempre pras mais novas: “Se fosse assim as modelos todas estariam entupidas de silicone porque todas são magras, altas e esguias, não existe isso”. Hoje em dia, graças a Deus, a concepção de silicone mudou muito, antigamente era silicone pra tudo, hoje é prótese, é intervenção cirúrgica, as pessoas recorrem a outros meios, está mais maleável e mais fácil de resolver as coisas. Mas eu gostei do resultado. As transformações vieram acontecendo naturalmente, tudo na minha vida eu não forcei, veio acontecendo normalmente, naturalmente. Então assim, fiz minhas cirurgias quando tinha que fazer, coloquei o silicone, deu problema, resolveu o problema. Mas graças a Deus tudo deu certo.
P/1 – Passou pela sua cabeça alguma vez fazer uma operação de mudança de sexo ou isso não faz sentido pra você?
R – Não. Não. Eu acho que a operação de mudança de sexo realmente é pra alguém que se incomoda com seu órgão genital, eu não me incomodo com ele em nada. Eu não tenho problema em assumir: “Eu sou travesti”. Muitas vezes as pessoas confundem a minha pessoa com mulher, pelo modo de vestir, de se comportar, de falar, de agir, de gesticular, mas eu não tenho essa intenção, na minha cabeça não entra, eu não penso em fazer a cirurgia. É o extremo da travesti, chegou lá não tem mais volta. Se você está aqui você pode voltar, mas a partir do momento que você faz a cirurgia, se você se arrepender você não tem como voltar atrás. E o ser humano é uma incógnita, então é um ser que hoje está de bom humor, amanhã está de mau humor, ele acorda de bom humor, aí à noite ele está de mau humor, é um ser que tem uma vasta dimensão, é muito grande, é muito. Você tem várias opiniões, vários gostos, vários segmentos, então não tem como você saber o que vai acontecer amanhã. Hoje eu posso não querer fazer a cirurgia, amanhã eu posso acordar e dizer: “Eu vou fazer a cirurgia”. Mas hoje, nesse momento, não. Tenho 36 anos e nunca passou pela minha cabeça, então acho que não vai passar mais daqui pra frente, não. Não vejo. Admiro quem faz, acho legal a pessoa não estar feliz, ela vai lá e faz. Mas pra mim é uma cirurgia plástica de que você está corrigindo algo que está te incomodando. Eu sei que eu posso ser criticada como eu já fui várias vezes por falar isso, que uma operação de mudança de sexo mexe com tudo, mexe com tudo. Mexe com seu corpo, mexe com a sua vida. Eu vejo dessa forma, eu tenho 36 anos, dez dedos na mão, se eu perco um eu vou sentir falta dele. Alguma hora da minha vida eu vou sentir falta dele. Então aí pra mim não entra. Eu tenho uma concepção diferente de uma transexual, ela não quer aquilo porque lhe incomoda, e eu, não me incomoda, pra mim está normal, tudo bem. Convivo muitíssimo bem com a minha condição.
P/1 – Você falou que você casou de novo em Salvador ainda. Como é que foi isso? Conta desse segundo casamento.
R – Problemático. Esse foi um problema. Esse foi um problema. Porque assim, eu conheci uma menina que ela roubava, só roubava, não trabalhava. E na época que eu a conhecia ela trabalhava no restaurante, não era gay, ia visitar a gente lá na casa que a gente morava e era amiga de todo mundo. De repente ela virou travesti e começou a trabalhar, mas não queria trabalhar e roubava. E ela era casada com um menino bonito, tal. Ela roubava, eu trabalhava, mas aí a gente trabalhava perto uma da outra, só que eu ficava distante pra não ter problema com os clientes dela, que ela roubasse ou coisa assim. E aí final de semana gente saía, ia para um pagode e ela ia com o namorado. Só que eu não gostava porque ela bancava ele, eu achava aquilo errado. Naquela época eu já achava errado porque já tinha tido o Ed que me ajudava, então eu achava que todos tinham que ajudar. Mas até então ela achava que não, o que ele trabalhava ele gastava com ele e o que ela trabalhava ela gastava com eles dois, então não achava certo. Então brigava muito com ela por conta disso. E não suportava ele. Ela foi presa, eu estava em Salvador, eu estava no Pelourinho, estava bebendo, eu já estava aérea de tanta cerveja. Eu e uma amiga minha. Ele e um amigo dele chamaram a gente pra beber, eu peguei e: “Se manca, tal, não quero. Você é marido da Lavínia, não está certo”. Aí dei a volta pelo Pelourinho bebendo mais um pouco, no final ele chama de novo. Eu digo: “Já que você vai pagar pra gente beber”. A gente começou a beber cerveja. Eu não me lembro se eu fiquei muito bêbada, mas pelo decorrer da história fiquei. Quando eu acordei, dei por mim, eu estava me beijando com ele, que era o ex-marido de uma amiga minha que eu não suportava ele por conta que ele era bancado por ela. Eu disse: “Nossa, o que eu estou fazendo? Eu estou louca, vou pra casa”. Só que eu tinha esquecido que eu marquei com ele no outro dia, meio-dia, pra ele ir almoçar comigo. Eu acordei era quatro horas da tarde, ele estava desde a uma hora da tarde sentado na casa do lado. E como todo mundo gostava de mim e gostava dela, mas gostava mais dela porque ela era da cidade. Aí minha amiga me ligou e disse bem assim: “Olha, o Cleber está ali na esquina te esperando. Já passei pra comprar comida e ele mandou eu te avisar”. Eu fiquei com medo, eu disse: “Meu Deus, é o marido da outra, não, para!” Aí eu passei por ele, mandei ele subir, fui lá na frente, xinguei ele, falei com ele que não era para ele ter ido. Ele disse: “Mas foi você quem mandou”. Eu disse: “Meu Deus do céu, olha que estado a bebida faz a pessoa”. A gente ficou se encontrando, ela saiu da cadeia e foi atrás dele, a gente já estava morando junto e ele falou que não queria. Aí teve toda uma confusão de que ela queria descobrir por que ele não queria mais ela, porque ela ofereceu tudo a ele em dobro e ele disse que não queria. Aí ele começou a trabalhar no ferro velho do tio dele e já dividia o aluguel e as contas comigo. Ela descobriu a casa onde eu morava, ela invadiu, chegou a me furar, cortou o meu cabelo, ela me bateu. Aí eu mudei, fui pra outra cidade, ela me perseguiu. Eu voltei pra casa da minha mãe com ele e ela me perseguiu. Eu viajei, fui pra Recife, voltei pra lá, vim pra São Paulo com ele e aqui em São Paulo a gente se separou. Foi uma pessoa muito boa na minha vida, eu tenho uma história muito boa com ele, são quatro anos, quase quatro anos e meio, é uma história bem legal. Eu gosto muito dessa história, da minha história com ele. Eu gosto muito porque eu conheci a mãe dele, a gente morava junto eu, ele e a minha mãe; a gente trabalhava pra crescer junto, era uma pessoa muito boa. Mas de novo a traição acabou separando a gente, aí cada um foi viver seu mundo.
P/1 – Foi assim que você chegou em São Paulo? Foi nessas mudanças com ele que vocês resolveram.
R – Foi.
P/1 – E foi porque vocês estavam tentando fugir dela.
R – Se achar. Isso, a gente fugia dela porque ela era uma pessoa muito agressiva. Por minha causa ele já tinha brigado com ela, saído na mão e tudo, e ela puxou faca, cortou ele, ele revidou. Então como ela era muito forte e ele já tinha visto que ela era capaz de fazer alguma coisa comigo e minha também, eu procurei sair pra um lugar onde ela não fosse. Aí acabei parando em São Paulo, que foi onde ficamos mesmo e continuamos.
P/1 – Essa experiência que você mencionou que você trabalhou fora do país, você falou, né, dois anos na Europa, foi isso?
R – É. Eu vim pra São Paulo, eu fiquei aqui um ano. Nesse um ano eu me separei, aí já decidi, minha amiga disse: “Ah, vamos viajar” “Pra onde?” “Pra Europa, vamos pra Espanha, vamos trabalhar lá, ganhar um dinheiro pra tu fazer alguma coisa na sua vida”. Ela foi e com 30 dias depois eu fui. Nisso, nesse intervalo, minha mãe já tinha vindo em São Paulo, voltado, veio e já não voltou mais. Aí durante o tempo que eu viajei, eu fiquei um ano fora, e ela ficou um ano aqui. Eu voltei, fiquei aqui um ano. Nesse período de um ano, a primeira vez que eu fiquei a gente investiu todo o dinheiro que tinha em um salão, que eu já não queria mais trabalhar com programa, nem nada, e acabamos perdendo tudo. O dinheiro que eu tinha ganho eu perdi tudo porque compramos o salão e eu só adquiri dívidas. Durante esse tempo todo a gente adquiriu mais dívida, aí eu de novo voltei pra Europa, aí trabalhei, paguei as dívidas, juntei um dinheiro e voltei de novo. Então foram dois anos lá fora.
P/1 – E como é que foi essa experiência fora do Brasil?
R – Então, a primeira vez eu fui vestida de homem. Eu já tinha prótese (risos), deixei a sobrancelha engrossar, uns poucos pelos que eu tinha no rosto eu deixei crescer e fui, vestida de homem. Eu digo: “Meu Deus, que loucura!” Fui vestida em sete calcinhas (risos), de boné. Eu tinha um cabelo grande, loiro, grande mesmo, fui de boné, blusa folgada, calça jeans, tênis, uma mala com quase nada e fui. Chegou em Paris, São Paulo-Paris, Paris-Barcelona, Barcelona-Palma de Maiorca. Dentro do voo ainda aquelas calcinhas me incomodando, eu disse: “Gente do céu, está me cortando do lado”, aí ia no banheiro, dava aquela agonia, dava vontade de tirar, mas as minhas amigas falavam: “Não, não pode, porque se eles virem que você é travesti não vão te deixar entrar”, então eu almejava, naquela época você achava que ia ficar rica se fosse pra lá. Aí chegou em Paris, tem os balcões, você vai passando pelos balcões, aí eles foram separando o pessoal e eu digo: “Ai meu Deus, é agora”. Quando eu cheguei eu estava com tudo certinho, mas ele pegou, fechou meu passaporte, segurou e disse: “Para ali”. Só que ele falou em francês e eu não entendi, ele apontou. Aí eu fui, fiquei lá. Tinha uma brasileira (risos), que ela ia pra lá, ela disse bem assim: “Ô mulher, será que a gente vai voltar?”. Eu disse a ela: “Eu sei que eu não vou. Você, problema seu, não tenho nada a ver com isso não, eu sei que eu não vou”. Aí o policial saiu, um francês muito bonito, grandão, muito bonito, saiu andando assim, chamou, a gente foi. Entramos na sala, tinha um banco, sentamos. Aí de cara a primeira a ser chamada fui eu (risos). Eu levantei, tinha umas cabines fechadas com cortina, abriu uma, eu já vi que tinha acho que venezuelano, alguém desses países do olhinho puxado assim que não era japonês, nem coreano. Mas era alguém dos países baixos ali que já estava sendo revistado, eu disse: “Meu Deus, se eles tirarem minha roupa vão ver sete calcinhas, eu volto pro Brasil”. Ó a loucura! Quando eu fui o policial foi na frente, eu fui atrás, aí um outro policial preto me parou e começou a gritar comigo, só que ele gritava em francês e eu não entendia aquilo e eu assustada. Ele pegava no meu braço, fazia assim. O outro policial veio, falou com ele, acho que explicou pra ele o que estava acontecendo, porque eu acho que ele pensou que eu estava entrando sozinho, porque o policial foi na frente e me deixou atrás. Aí o outro me chamou, foi nessa hora que eu disse bem assim: “Tá vendo, minha mãe me forçar estudar foi bom”, porque na questão de estudar você aprende o básico do inglês, eu sabia que eu tinha direito a um tradutor e eu disse: “Un traducteur”, aí tinham que trazer um tradutor. Aí me trouxe um tradutor, eu fui e expliquei tudo. Eles me chamaram porque a minha estadia do hotel ia até o dia 14 e o meu voo era dia 13. Aí eu pensei comigo: “Meu Deus e agora, o que eu vou falar pra eles?”, aí eu fui e disse bem assim: “Não, o que acontece é que o hotel de Palma de Maiorca só fazia pacote de X dias, então, pra não perder a promoção a agência do Brasil me devolveu um dia que eu estou perdendo”. Aí a tradutora falou pra ele, o policial olhou pra minha cara como quem diz: “Filha da puta, você conseguiu me dobrar assim! Não!”, ele só fez fechar meu passaporte. Aí eu saí doida. Mas pra chegar do desembarque até o embarque eu levei uma hora, porque o aeroporto de Paris é immeeennsso e tinha um metrô embaixo e eu não sabia, e eu fui andando. Como eu não sei falar em inglês eu só mostrava a passagem para o pessoal que eu via com a farda do aeroporto e eles me indicavam o caminho. Eu fui, fui, fui, fui até chegar no embarque. Cheguei no embarque, estava de boné ainda. Aí você tem que passar por outro policial lá pra poder entrar pra parte do embarque. Aí a policial falando comigo e eu sem entender. Ela pegou e fez assim, aí eu tirei o boné. Quando eu tirei o meu cabelo já estava aqui. Aí a figura masculina se desfez toda porque cabelo grande, loiro, liso, escovado. Ela ficou olhando assim pra minha cara, mas ela não podia fazer mais nada porque eu já tinha passado pela polícia e ele já tinha me liberado. Então ela só olhou pra minha cara também e disse meio assim: “Olha só, ela conseguiu” (risos). Eu passei, cheguei lá, sentada eu disse: “Gente, consegui, nem acredito!” Aí sentada, com o pensamento longe, aquele aeroporto, tudo novidade e eu com fome, eu disse: “Ah, eu vou ter que ir no banheiro”. Fui no banheiro masculino, já tirei uma pinça de dentro da bolsa, olha só a loucura, já puxei um monte de fio da sobrancelha pra me ver como feminina, alguma coisa assim. Já tirei as calcinhas, fiquei só com uma. Subi e fui comer. Estava comendo e de novo vem a história do estudo, inglês básico. “One coffee, one croissant”, a mulher me deu um croissant, eu peguei, passei o dinheiro pra ela, ela me deu o troco, fiquei lá sentada comendo, voltei, comi de novo. Aí a brasileira que eu encontrei lá conseguiu passar também! Ela: “Ai mulher, por favor, pede pra mim”. Eu falei: “Então vamos fazer assim, eu peço o meu e você paga um outro pra mim”. Alguma coisa valeu o meu estudo, aí ganhei o outro café e outro croissant e comi de novo. Embarquei, fui pra Barcelona, desci em Barcelona, aí eu já estava mais descolada, mais calma, aí já foi pro outro embarque, já embarquei, desci pra Palma de Maiorca. Nunca tinha ido na Espanha e consegui falar com o taxista pra ele me deixar onde eu queria sem problema nenhum. Aí hoje em dia, assim, as experiências lá de fora, você conhecer outras pessoas, outra cultura, vários países. Eu conheci a Espanha, Alemanha, França, Itália, República Tcheca, Portugal, eu rodei muito, eu conheci muita gente, vi muita coisa, conheci vários pontos turísticos. Eu não fui lá só pra trabalhar, eu conheço, eu posso falar de várias coisas, eu falo o idioma castelhano fluentemente, eu entendo, compreendo, eles me entendem, trouxe várias experiências boas de lá. Não tenho o que falar de lá, foi muito bom, muito gratificante. Não faria tudo de novo porque é uma loucura, é uma loucura, mas na época loucura pra mim era maravilhoso. Mas foi muito interessante, muito bom e muito gratificante, uma coisa muito legal na minha vida, foi ter viajado pra fora.
P/1 – Você viveu nessa experiência fora alguma situação mais significativa, mais marcante, especial?
R – Não. O meu objetivo maior sempre foi melhorar a minha vida, então eu não tinha foco pra namoro, pra morar lá. Minhas duas amigas, a que foi primeiro e me levou e a que eu levei hoje em dia moram lá, são casadas, documentadas, mas eu nunca tive esse apreço de morar lá. Então não tem uma coisa que eu diga: “Ah, isso”. Não. Pra mim foi uma experiência.
P/1 – E um lugar que você tenha conhecido e que tenha sido mais impactante?
R – Olha, lugar impactante.
P/1 – É, que você tenha gostado, que tenha sido marcante.
R – Assim, em Barcelona eu conheci a Sagrada Família, que é uma igreja que é construída há mais de cem anos e nunca terminaram aquela igreja. Lá eles têm um ditado que eles falam que, eu não lembro bem como é o ditado, mas eles falam que é mais fácil uma outra coisa ser feita do que terminarem a obra da igreja não sei o que lá da família. Porque a igreja nunca foi terminada, ela nunca chegou a ser concretizada, então, nunca vão terminar aquilo (risos). A Igreja da Sagrada Família que é em Barcelona é um lugar muito lindo, muito marcante. Toda vez que eu lembro da Espanha eu lembro de lá, muito bonito.
P/1 – E você mencionou também que essa mudança pra São Paulo foi uma virada na sua vida, de perspectiva mesmo, na maneira como você vê as coisas. Eu queria que você explicasse um pouco por quê. Se teve um acontecimento marcante nesse sentido de virada, o que fez com que sua visão, a sua perspectiva e a sua cabeça mudassem?
R – Então, chegar aqui foi assim, minha mãe disse: “Sérgio está em São Paulo”, que é a Renata Peron, “vai pra lá”. Eu disse: “Ai mulher, pra São Paulo?”, ela disse: “É, vai” “Tá bom”. Eu acho que eu tinha 200 e poucos reais no banco, fora o dinheiro da passagem, aí vim. Desci no aeroporto, era pra Renata ir me pegar no aeroporto. Renata não foi me pegar no aeroporto. Aí eu desci em Congonhas e liguei pra ela: “Renata, já estou aqui, cadê você?” “Ai, estou no salão trabalhando” “E agora?”. Ela disse: “Não, vai no balcão de informações, procura qual ônibus deixa no metrô. Entra no metrô, pega informação, desce na Sé, faz baldeação e vem pra Praça da República”. Eu disse assim: “Em primeiro lugar, o que é baldeação, meu amor? Não sei o que é isso. Segundo lugar, onde se compra a passagem pro metrô? Nunca andei de metrô na minha vida, não tem como eu saber”. Ela disse: “Tudo é informação, quem tem boca vai à Roma. Te vira e vem que eu vou te pegar na República”. Eu disse: “Meu Deus”, aí ela desligou o telefone, minha melhor amiga, e é até hoje, minha meio irmã e tudo o mais. Fui no balcão de informações do aeroporto, procurei, com duas malas, uma bolsa de mão e outra bolsa. Arrastando essas malas fui pra lá. “Ah, pega tal ônibus, desce ali no metrô”. Fui e joga aquelas malas dentro do ônibus, ninguém te ajuda, aquele ônibus cheio, no meio do dia. Fui descer na porta do metrô, mais uma pergunta e mais uma informação, aí passa pela catraca e desce na Sé. E quando chega na Sé, que eu olho e digo: “Meu Deus, onde eu estou?”. E pra achar sentido Barra Funda que era pra descer na República? (risos) Eu perguntei ao homem, ele disse: “Você desce ali, sobe acolá, vai por acolá, passa por ali, desce por ali, é lá do outro lado” “Tá bom”. Fui, rodei, rodei, eu levei uns 40 minutos pra chegar do outro lado. Cheguei, desci na Praça da República, peguei o orelhão, liguei de novo: “Renata, já estou na Praça da República”. Ela disse: “Menina, tu é arretada!” (risos) Aí estou lá na Praça da República, aquele mundaréu de gente, eu disse: “Olha, acho que aqui eu vou me dar bem”. A gente foi morar em São Judas. Passei 15 dias em São Judas, já fui trabalhar na casa de uma amiga minha, que era programa também, meio a meio, ela era dona da casa, fui trabalhar lá na casa dela. De lá vim trabalhar na Bela Vista, da Bela Vista já fui trabalhar pra mim. Daí foi quando o tempo foi passando, minha mãe veio, eu já viajei pra Europa. Mas o que fez eu mudar é porque a cidade te ensina, eu tenho isso comigo, ela te ensina a sobreviver. Aqui ou você vive ou você vive, não tem meio termo. E eu não queria parar na rua como uma mendiga, ou como uma drogada, ou viver a minha vida toda de prostituição, não. Eu via outras travestis fazendo outras coisas, eu via que tinha a possibilidade. Eu sempre me achei inteligente, então por que eu não podia fazer outra coisa na minha vida? Foi quando eu disse pra mim: “Não, eu tenho que mudar de vida”, então eu sempre tive dinheiro, eu nunca fui aquela travesti que só vivia da prostituição, eu sempre tinha alguma coisa. Se eu comprava uma blusa, uma amiga minha gostava, ela custava dez, eu dizia, que era 20, ia lá, comprava e vendia pra ela. Tem uma amiga minha, a Milka mesmo, que foi quem me levou pra fora, ela sempre pedia para eu comprar as coisas pra ela, então assim, eu já economizava muito nisso, porque ela pedia pra comprar o almoço e ela já pagava o meu, que ela não queria descer, ela estava com preguiça, então eu sempre ganhava nisso. Eu sempre botei na minha vida, até que uma hora eu disse: “Não, eu tenho que mudar de vida”. Foi quando eu fui pra Europa, que não deu certo, vim, fiquei devendo, voltei de novo. E detalhe, nessa segunda vez que eu vim eu fui roubada, ainda teve esse detalhe. Eu juntei um dinheiro e tinha um amigo meu que comprou uma sauna, amigo, agora vocês vão entender o porquê. Ele disse: “Você quer ser minha sócia?” “Era bom, né?” Aí eu vi a oportunidade de nunca mais precisar fazer programa. Ele pegou o meu dinheiro e sumiu. Ele tinha um site de acompanhantes masculinos, o site ainda hoje está no ar, mas não tem como eu saber onde ele está porque ele administra tudo pelo computador, então, ele pode ir pro Sul, Norte, Nordeste que ele administra tudo pelo computador e nem precisar estar fixado em um local. Ele acabou com meu sonho, eu me vi no chão e sem dinheiro, eu não tinha dinheiro. Eu já tinha ido a primeira vez e não tinha dado certo, fui a segunda vez não deu certo, eu disse: “Nossa, será que eu sou tão ruim assim pra nada dar certo?”. Foi quando eu fiz a primeira festa que foi uma festa aniversário minha que todo mundo que conhecia ele se compadeu comigo. Eu fiz a primeira festa, foi um sucesso, lotou o local, muita gente me abraçando, me beijando, falando que eu ia conseguir, eu ia dar a volta por cima e aquilo me deu ânimo. A festa foi um sucesso, eu ganhei um bom dinheiro naquele dia, já deu para eu pagar um monte de coisa, sobrou dinheiro e eu disse: “Nossa, vou fazer festa porque festa dá dinheiro”. Não sabia que ia me dar tanta dor de cabeça quanto dá mas, tudo bem. Aí todo mundo muito amigo, eu sempre fui uma pessoa de ter muitos amigos, eu gosto de ter muitos amigos, eu não consigo me imaginar sem ter amigos, a minha vida sem amigos é um deserto, então não vou conseguir viver sem meus amigos. E eu choro se meu amigo chora, eu estou rindo se meu amigo ri, então eu não consigo me ver sem amigos. Minha mãe briga todos os dias, vou até pedir desculpa e perdão a ela um dia (risos), mas eu não consigo viver sem amizade, eu não consigo. Não existe a minha vida sem aquele tumulto, sem aquela função, sem aquele povo me ligando, me mandando mensagem; eu gosto desse calor humano, de estar perto. Acho que por isso que eu me dou bem como promoter de festa porque o corre-corre, a confusão, o falatório, o precisar de mim, a festa só funciona se eu estiver lá, se eu não estiver lá não tem festa. Então isso tudo me agrada, me deixa feliz. Aí eu me deparei com esse, de tanto ter amigo, aí ele me roubou e eu não acreditei e a festa deu certo por isso. E a festa pra mim serviu como um antidepressivo, eu estava tão ruim que eu não acreditava, eu achava que era uma brincadeira, que ele não tinha roubado meu dinheiro. Mais uma vez minha mãe estava no meio da história, que ela disse pra mim bem assim: “Eu não gosto dessa ideia de você entrar em sociedade nessa sauna, eu não gosto de ver você emprestar o seu dinheiro”. Porque eu emprestei o dinheiro confiando no meu amigo e quando foi pro banco, porque o dinheiro estava na conta dela, ela não queria, ela não queria. Ela disse: “Não vai dar certo”. Aí foi quando não deu certo que ela olhou pra mim, eu chorando desesperada e ela me disse bem assim: “Calma que a gente vai resolver, fome a gente nunca passou. A gente começa tudo novo”. Aí teve a festa do meu aniversário, foi uma festa hiper-mega-power-ultra maravilhosa, entrou dinheiro. Um tempo depois, eu já conformada com o que tinha acontecido, porque ele tinha fugido, a gente foi atrás, foi pra delegacia, não tinha como achá-lo, eu disse: “Então vou trabalhar”. Foi quando me juntei com o Sérgio, que é a Renata Peron, e Thaisinha, que foi quando a gente decidiu fazer a Primeira Festa Trans, para travesti. A partir desse momento, eu, como frequentava de quinta a domingo balada, eu era assídua em todas as casas de São Paulo, então não tinha uma casa que eles dissessem pra mim: “Tem uma festa para travesti”. Aí meio que dentro de mim uma revolta, eu disse: “Não, vamos fazer uma festa pra travesti que é pra mostrar pra eles que a gente existe e que a gente consegue fazer uma festa, movimentar e se unir, dar show e fazer show e resolver essa questão de não ter uma festa para travesti”. Elas toparam, me ajudaram, a gente fez a primeira.
P/1 – Onde foi essa primeira?
R – Foi na Avenida São João, 1101, na extinta Sauna Paradise. Que foi justamente na sauna onde eu ia ser sócia, onde eu levei o calote, foi lá a primeira festa.
P/1 – E como é que foi essa festa?
R – A gente decidiu que a festa iria homenagear todas as travestis que fazem show na noite de São Paulo, show de dublagem, porque é um show diferente, é uma mulher muito bem vestida que dubla uma música maravilhosa e show sempre me encantou. E eu peguei uma amizade, e graças a Deus uma amizade muito boa com Carla Hellen, que hoje é madrinha oficial da festa, toda festa ela está lá e praticamente o mês inteiro ela faz festa e show comigo, que eu digo: “Não, no dia que eu não te levo não tem público, então eu tenho que te levar, tu já é peça-chave nessa festa”. E quando ela não faz show está presente na festa, então, de todo jeito ela está lá. Aí a gente resolveu homenageá-la e eu fiquei com um certo receio porque ela já fazia show em várias outras boates grandes de São Paulo, eu digo: “Será que ela vai topar?”, e o cachê era uma mixaria, ainda hoje é. Mas ela olhou pra minha cara e disse: “Você vai me homenagear?”, eu disse: “Vou” “Eu vou. E se você me dissesse que era de graça eu iria, só pelo fato de você me homenagear e eu ser a primeira a abrir essa festa”. Me lembrou bem na nossa conversa que depois de tudo pronto uma pessoa chegou e disse pra mim assim: “Não vai dar certo porque é festa de travesti para travesti. E vocês, tudo o que vocês fazem, nada dá certo”. Aí a Carla olhou pra mim e disse-me assim: “Você ouviu isso? Porque eu ouvi isso divulgando na festa da Vieira, uma outra pessoa falou pra outra pessoa que me disse”. Eu fiz bem assim: “Nossa”. E a pessoa me conhecia e conhecia ela, frequentava a casa dela. Eu disse: “Nossa, quanta maldade, quanta amargura, quanta coisa ruim”. Mas eu sempre fui uma pessoa assim, se você me disser “não faça”, eu faço igual. Eu vou quebrar a cara e vou aprender com aquilo, mas eu faço igual. Eu disse: “Eu vou fazer, Carla” e Carla disse: “Não, vai dar certo”. Deu meia-noite tinha cinco pessoas, eu disse: “Ih, não deu certo”. Mas aí a Renata e a Thaís: “Não, vai dar certo, vai dar certo”, eu disse: “Não, vai dar certo. Calma, é a primeira, da segunda em diante lota”. Quando a Carla chegou, meia-noite em ponto, a casa lotou. Foi ela entrar e o povo chegar, chegar, chegar, chegar, que não ficou uma mesa, não tinha uma mesa pra ninguém sentar. Eu olhei e disse: “Menina, é por aqui que eu vou, eu tenho que ir por aqui, porque vai dar certo”. Ficou marcado na minha vida a primeira festa porque ela foi a pessoa que mais me apoiou, me incentivou, acreditou, brigou por mim. Vários artistas da noite disseram: “Ela paga muito pouco, então não dá pra ir”, porque você tem uma certa fama, então você acha que você não precisa daquilo. Ela disse: “Eu vou sim”. E de graça ou recebendo ela vai igual. Ela bota a melhor roupa, o melhor perfume, a melhor peruca, a melhor maquiagem. Leva sempre uma galera junto com ela. Então é por isso que eu digo, amizade é fundamental na minha vida, tanto pra minha festa, tanto na minha vida pessoal, como na minha vida amorosa, sempre digo aos meus namorados: “Não troco amigo meu por namorado, a gente tem que conviver os dois ali, lado a lado, todo mundo junto. Se você quer entrar na minha vida sabe que eu já tenho todos eles, então você vai ter que se adaptar à minha vida”. Eu cedo, mas eu não consigo me adaptar novamente, eu gosto de ter os meus amigos, eu curto a minha vida com as minhas amizades. Mas a festa se deu assim, dessa forma, foi por amizade a mim que a festa deu certo, então amigos é pra isso, até para os bons negócios darem certo eu tenho que ter bons amigos (risos).
P/1 – Tem um nome essa festa que você promove?
R – É Terça Trans. A única festa trans do Estado de São Paulo. E assim, pelo que eu sei, já teve uma que tentou fazer uma festa parecida com a minha no Rio de Janeiro, mas aí já mudaram o tema. Hoje em dia é a única festa voltada para o público de travesti e transexuais do Brasil, é a minha.
P/1 – E está em que edição a festa? Vocês contam, você conta?
R – Conto. Agora nesse mês de outubro faz exatamente quatro anos. Quatro anos de festa. Estamos aí.
P/1 – E você passou a trabalhar então como promotora de eventos em geral.
R – Só com eventos.
P/1 – E chegou a abrir uma empresa, alguma coisa assim ou o trabalho é como autônoma?
R – Eu tenho CNPJ pra trabalhar com eventos. Porque quando eu tive o primeiro salão que não deu certo, que foi aquele lá atrás, eu abri um CNPJ do salão, eu já trabalhava com eventos, aí a contadora falou pra mim: “Ah, por que você não junta tudo então? Põe assim”, eu esqueci agora o nome da razão social, eu lembro o nome do salão, mas não lembro o nome da razão social, sei que tem ‘e eventos’, então eu tenho um CNPJ que me dá autonomia pra trabalhar com eventos também.
P/1 – Conta um pouco pra gente a história desse noivado mais recente, desse último relacionamento. Não sei se é tão recente. Como vocês se conheceram?
R – (risos) Bem interessante. No ponto de ônibus, você acredita? (risos) Eu dou risada hoje, mas assim, como eu trabalho com eventos eu não durmo de noite, durmo de dia. E há um ano e quatro meses, cinco meses eu conheci o Paulo assim, eu estava passando pelo ponto de ônibus e eu passei uma vez e vi aquele menino moreno, sentado lá. Aí me chamou a atenção, mas... por ser um menino moreno, porque eu tenho um fraco por moreno, então. Eu passei a primeira vez ele estava lá, eu dei a volta no Largo do Arouche todinho, voltei, passei pela Rua do Arouche, passei de novo pela Rêgo Freitas, ele estava sentado de novo. Eu olhei, ele olhou. Eu disse: “Ah, essa alma quer reza”. Fiz todo o itinerário, Largo do Arouche, Vieira, Rua do Arouche, voltei pela Rêgo Freitas de novo. Na terceira vez, em vez de passar direto eu entrei numa rua antes e dei luz alta. Aí ele veio. Desci do carro, a gente começou a conversar, conversar, conversar, conversar, conversar. Conversa vai, conversa vem, ele estava recém-separado, três meses, de uma mulher, a mulher dele separou e estava morando na casa da tia, que é onde ele mora atualmente, largou a mulher com o filho porque não estava dando mais certo e terminou. Antes de ir embora eu percebi que ele não ia me beijar, aí eu beijei ele. Aí ele me deu o telefone, eu dei o meu, ainda no ônibus. Não, eu dei o telefone, eu acho. É, porque ele é mais ligado em data, bem minucioso em detalhes, eu não sou muito ligada nessa coisas, mas eu acho que a gente trocou telefone, sei que quando ele estava no ônibus eu já mandei uma mensagem pra ele, e daí em diante não parou mais. Aí tem um ano, quatro meses e vinte e alguns dias, um ano e cinco meses, ele que sabe exatamente tudo, direitinho, eu não sei muito bem não. Mas é uma relação boa. Ele trabalha de dia, eu trabalho de noite, tudo ao contrário. Ele é muito calmo, muito paciente; eu sou extremamente estressada, muito apressada. Então assim, são duas pessoas totalmente diferentes, mas que se entendem. A gente briga, a gente se abraça, é uma relação normal pra mim.
P/1 – E vocês noivaram recentemente, é isso? Qual é a história?
R – É assim, no ano passado eu fui viajar pra Salvador e a gente namorava. Eu fiz um evento lá, a Terça Trans, e quando estou fechando tudo lá, aí a festa não tinha dado lucro nenhum, eu tinha tomado prejuízo e eu estava irritada nesse dia, já fechando com raiva porque não tinha ganhado nada, é um dia que eu estava estressadíssima e com raiva mesmo. Aí ele me chega com um buquê de flores desse tamanho assim, menina, e uma caixinha vermelha. Eu digo: “O que é isso?” “Aliança”, e botou a aliança (risos). Eu abri a caixinha e disse bem assim: “Cadê a nota com seguro? Porque se isso daqui for daquelas de chiclete eu não quero” (risos). Ele abriu a carteira, me mostrou: “Não precisa não, eu acredito em você”. Aí fui pra casa e no outro dia ele falou pra mim. Eu acordei com a aliança no dedo. Assim, tudo o que eu tinh passado de ruim na festa ele conseguia tirar com isso. E o segurança confundiu ele com o entregador de flores, que eu passei o maior mico nesse dia: “Dona Patrícia, tem um entregador de flores pra senhora” “Como assim um entregador de flores seis horas da manhã? Que é isso, menino?” Fui lá, quando cheguei lá era ele. Eu disse: “Menino, não é meu entregador de flores, é meu namorado. Você é doido? Como você faz isso comigo?” “Ah tá, desculpa, eu não sabia. Ele não falou nada, falou que as flores eram pra senhora, eu achei que ele estava entregando”. Eu digo: “Ah tá, tá bom, deixa pra lá”. Ele me deu a aliança, quando eu olho, dentro da aliança tem a data que a gente se conheceu, a aliança dele tem meu nome, Patrícia, e a minha tem o nome dele, Paulo, e a data do dia que a gente se conheceu. Aí o noivado foi praticamente isso, não teve muito aquela história de pedir. De manhã quando eu acordei, aí eu estava com a aliança já no dedo, né? Aí minha mãe prestou atenção. Minha mãe, eu estou dormindo ela está prestando atenção em tudo, se eu levar um tombo, tudo o que acontece. A gente dorme no mesmo quarto, eu durmo numa cama, ela dorme na outra e ela acorda, eu estou dormindo. Ela fica me olhando, eu já peguei minha mãe me olhando assim eu dormindo. Ela olhou, viu a aliança e disse pra mim assim: “E essa aliança?”, eu disse bem assim: “O Paulo que me deu”. Ela: “Ah, é assim, vai, noiva e não me pede nada não, né?” Eu fui e disse pra ele: “Ó, Fátima está reclamando porque você foi...”, aí no outro dia ele veio em casa, falou com ela e eu disse bem assim: “Hum, cuidado, hein? Muito cuidado, porque lá o casamento é duplo, se casou comigo tem que levar ela, ganha de brinde a sogra, não pode sair de casa sem ela”. Mas ele, graças a Deus, é tranquilo, é uma pessoa bem tranquila. Pra me suportar tem que ser muito tranquilo porque eu sou, às vezes nem eu me suporto, eu digo pra ele bem assim: “Eu não sei como você me suporta”. E minha mãe mesmo fala pra ele bem assim: “Como você aguenta ela?! Eu aguento porque eu sou mãe, eu tenho que aguentar. E por que comigo ela não grita. Mas você? Ah, vai ver o que ela vai fazer contigo. Tu vai cozinhar e levar pra ela na cama”. A convivência, graças a Deus, é muito boa. Tanto da parte da minha família, que é a minha mãe, com ele, como da família dele. Difícil foi chegar na família dele porque assim, travesti, separado, mulher, filho. E conhecer a família, como fica?
P/1 – E como é que foi?
Barry – Foi?
R – Foi (risos).
P/1 – Então conta pra gente como é que foi.
R – Eu fui lá. Ele mora com a tia e ele vem todos os dias me ver. Ele sai do serviço e passa lá em casa, ou então ele vai pra casa, volta e vem me ver. Às vezes ele dorme por aqui comigo. A tia dele perguntou: “O que tanto tu faz lá no centro?”, aí ele: “Estou namorando” “Mas já?! Tu acabou de separar!” “Estou namorando” “Quem é?” “Uma menina, Patrícia”. Um dia, um belo dia, ele estava lá em casa, eu acho que a gente jantou, não lembro, aí ele disse: “A tia quer falar contigo”, eu digo: “Você é louco? Ela vai, na hora”, que minha voz pessoalmente é uma coisa, por telefone, microfone é outra. Muda, engrossa. “Ela vai descobrir agora, tu vai ver”. Ele falou bem assim: “Ah, o que é que tem?” “Ah é? Tá bom”. Então oi, tudo bem, conversamos. “E quando é que você vem aqui pra gente te conhecer?”, eu disse: “Eu?”, eu disse: “Ela está me chamando pra ir lá, eu não vou e não invente”. Eu disse: “Ah mulher, eu vou um dia”. E fui enrolando, enrolando, enrolando. Um dia ele disse bem assim: “Ó, a tia disse que é pra tu ir lá em casa hoje pra jantar lá em casa”. Eu disse: “Paulo, você é doido? O que eu vou fazer na sua casa?” “Não, a gente vai”. Aí falou pra minha mãe, ela disse: “Ó, se maltratar a minha filha já sabe, não vai prestar”. Aí ele chamou a minha mãe, minha mãe disse: “Eu não vou”. Eu peguei e disse assim: “Tá bom, eu vou”. Eu me arrumei, botei um perfume, pouca maquiagem, cabelo feito, unha feita, sandália baixinha, fui. Parei o carro, aí mandei mensagem: “Estou aqui na porta”. Ele veio me pegar, aí já foi. Eu falei: “Eu não vou demorar e não vou comer nada. Como eu te disse eu sou uma pessoa muito enjoada pra comer, então nem todo tipo de comida eu como”. Eles são maranhenses, família do Maranhão. Aí estava: a avó que criou ele porque ele não tem mais mãe e o pai separou da mãe quando ele era criança, então ele não tem pai, daí foi criado pela avó e tem mais três irmãos. Todos os três casados, ele era casado também, mas agora está casado comigo. E quando eu entrei na casa estava todo mundo. Estava a tia, a avó dele, uma prima da vó, uma coisa assim e mais uma filha da tia dele que é prima dele, o namorado dessa menina e mais um dos filhos da tia dele, faltava chegar mais um. Eu entrei, sento (risos) e fica um silêncio porque você não tem assunto. Eu não tenho assunto pra falar com eles, eles não têm pra falar comigo. Aí o pessoal começava a falar do que estava passando na televisão, aí eu ia falando. Mas assunto, assunto mesmo não. Daqui a pouco entraram na minha vida, aí perguntaram e falaram, falaram, falaram. Só que é uma coisa surreal, as pessoas não estão acostumadas. E ele falou pra todo mundo: “É travesti”. E a tia disse: “É não”, e a vó dele: “É não”. É não, é não, é não. Porque elas me viram, elas foram no Natal, passaram lá perto de casa e me viram, mas disseram que não era. “É mentira, você está mentindo”. Eu fui na casa, sentei, conversei e elas insistiram nisso, que eu não era, até que a tia dele perguntou: “E você, não quer ter filho?”, eu disse: “Não, não tenho intenção, não. Acho que não é pra mim”. Foi quando ela deu uma: “Ai, realmente, não é mulher não”. Porque toda mulher geralmente quer ter filho, eu sou uma mulher que não quero ter filho porque eu não posso ter filho. Aí ficou. Aí me ofereceram comida, eu disse que não queria, mas mesmo assim insistiram. O Paulo, muito engraçadinho foi lá, colocou. Eu mexi na comida, mas não comi, botei ele pra comer. Aí comemos pizza, depois vim embora, normal. Depois disso a família toda ficou abismada, que disseram: “Nossa, ele casou com uma travesti, está namorando, noivou com uma travesti”. Mas a convivência é normal, todo mundo me conhece, todo mundo pergunta por mim, fala comigo, manda WhatsApp, normal, tem uma convivência normal com a família dele, não tem problema nenhum.
P/1 – Mas os filhos você não conhece.
R – O filho dele já foi na minha casa, tem cinco anos o menino, é bem atentadinho e é a cara dele. Mas a gente não tem convivência porque a mãe do menino não aceita a separação, então eu prefiro que ele vá pra lá e não traga o menino pra cá pra não ter problema de estar botando coisa na cabeça do menino e tal, falando mal deles, então prefiro não me meter.
P/1 – Está certo, Patrícia. Eu vou encaminhar pro final agora. Tem duas perguntas finais e antes quero saber se tem alguma coisa que eu não tenha perguntado que você gostaria de falar.
R – Não, acho que a gente já falou tanta coisa que nem eu esperava que fosse tanta coisa! Mas assim, basicamente a minha vida é essa. Altos e baixos, erros e acertos. E estou aí. Eu diria que eu sou uma sobrevivente. Queria que as pessoas entendessem que a gente não escolhe ser travesti, a gente não escolhe ser gay ou lésbica, ou mesmo viver assim, você nasce com isso, não é uma opção. Eu não concordo com a história de opção sexual. Eu não optei gostar de homem, eu não optei ser travesti, eu não optei receber o preconceito, o desprezo, os palavrões, os xingamentos, apanhar das pessoas que eu nunca vi na minha vida. Eu nunca escolhi isso não, porque se eu pudesse escolher eu escolheria um caminho melhor e mais fácil. Seria muito mais conveniente ter uma vida metodicamente normal, hetero. Acho ridículo quando uma pessoa me xinga por ser travesti. Acho falta de educação, falta de respeito, falta de integridade de uma pessoa me julgar pelo que eu sou, antes de me julgar a pessoa teria que se pôr no meu lugar. Antes de um homem gritar: “Ô João! Ô Traveco! Ô viado!”, ou isso, ou aquilo outro, ou querer me bater, ou bater numa outra pessoa que seja gay ou travesti, ela deveria procurar saber se a gente escolheu ser assim. Ninguém escolhe, a gente nasce assim. Hoje em dia a minha mãe tem esse entendimento. Muitas vezes o preconceito começa dentro da casa da gente, é a mãe que começa com preconceito, é o pai que começa com preconceito. É o irmão que agride e bate. Eu estou assustada já tem um tempo que nas redes sociais você vê muito, eu vi alguns vídeos que me deixaram chocadas, de gente matando gay. Eu fiquei muito assustada e me perguntei esses dias: Por quê? Só pelo fato da pessoa ser gay ela tem que morrer? Por quê? Será que é tão difícil entender que você não opta levar uma pedrada, levar uma lâmpada nas costas, apanhar no meio da rua, levar um soco no olho. Gente, um soco no olho dói! Nessas minhas idas e vindas de carnavais, uma vez eu levei uma surra de pelo menos umas 15 pessoas por ser gay. Agora me pergunte se eu conheço algum deles? Se algum dia eu saí com algum deles? Se algum dia eu bati em algum deles? Se algum dia eu xinguei algum deles? Não. E eles me bateram. Minha família não sabe, minha mãe não sabe, ninguém sabe. Estou contando isso hoje. Mas umas 15 pessoas me bateram. E eu fiquei mal, mas aguentei tudo sozinha, calada, porque eu não podia falar pra minha família. Veja como a coisa é complexa: eu apanhei, fiquei mal e não pude falar pra minha família porque senão eles iam atrás de saber o porquê. Aí as pessoas iam falar: “É porque seu filho é gay, que seu neto é gay”, aí eu ia sofrer duas vezes.
P/1 – Alguém te ajudou nessa situação?
R – Não. Pessoas que estavam por perto só olharam. Então assim, é complicado, é bem complicado. A sociedade deveria acordar pra vida porque tem muito gay que se mata porque nem a própria família consegue ajudar. Se você não gosta, ok, tudo bem, é um direito seu. Eu não gosto de carne cozida, é um direito meu. Não sou obrigada a comer carne cozida porque Fulano de tal gosta. Se você não gosta daquela pessoa que é gay, ignore-a, evite. Você não sabe o dia de amanhã, você não sabe o que vai acontecer amanhã. A pessoa que bate num gay hoje pode ser o pai ou a mãe de um gay amanhã. A pessoa que hoje está batendo em um gay, amanhã ela pode receber um rim, um coração, uma doação de sangue de um gay e ela não vai saber. E aí, quem te salvou? Quem te ajudou? Se você prestar atenção o gay, a travesti, eles são muito mais amorosos porque eles não recebem amor. Quando você se assume, todo o amor que as pessoas tinham por você seca e vira ódio e preconceito. Então a pessoa sofre, chora e não sabe o porquê. Eu vejo muitas histórias tristes de gays, de travestis, que a mãe e o pai viram as costas e a pessoa mais importante na vida da gente é a mãe e o pai. Você cresce tendo a visão de que sua mãe é super poderosa, imagina a sua mãe te virando as costas? Aí a mãe, ela não se coloca no lugar do gay ou do travesti pra saber o que ele sente naquele dia e naquela hora. O pai cresce, tem o filho como um bibelô, é seu filho. Aí ele resolve virar travesti ele quer bater, ele quer espancar. Por quê? “Ah, a culpa é minha”. Não, a culpa não é de ninguém, ninguém tem culpa de nada, nesse caso todo mundo é isento de culpa, principalmente a travesti ou o gay ou a lésbica, o que seja. Todo mundo é isento de culpa, a gente só tem que parar e pensar que mais amor e menos ódio resolve o problema. Porque imagina se a travesti cresce dentro de casa como a filha que cresceu. Você não consegue entender aquilo, mas você tenta, sabe, porque mãe, pai, consegue. E se você tem o apoio da sua mãe, do seu pai, o mundo pra você não é nada. Eu tenho a minha mãe do meu lado e o mundo pra mim não importa, se a pessoa vai gostar ou não de mim, pra mim não importa. Eu sei que todo dia eu vou chegar dentro de casa e a minha mãe vai estar lá. Eu tenho o amor dela, eu não preciso de mais nada, eu não preciso de MAIS NADA, só do amor dela. Se toda mãe, todo pai cuidasse melhor do seu filho que é gay, travesti e lésbica o mundo talvez não fosse o que ele é hoje. Porque quando a mãe e o pai aceitam, a sociedade é obrigada a engolir. Não que eles aceitem, que eles gostem ou que eles vão mudar, não. Daqui a cem anos você pode ter certeza que vai ter preconceito igual. As pessoas podem se educar, podem esconder seu preconceito, mas o preconceito vai existir. Nós podemos apenas amenizá-lo. Quando, eu sempre digo, a mãe o pai cuida do seu filho, independente do que ele é, independente. Eu já vi caso de mãe que entrou na frente do policial e apanhou pelo filho ladrão porque ela queria defender o filho dela. Não importa o que ele é, o que importa é que você é mãe, você é pai. O culpado não é você, o culpado não é seu filho, o culpado não é o amigo que seu filho, porque muitas mães dizem: “Ah, você anda com más companhias”. Eu conheço gente que se droga, que bebe, que fuma, que rouba, que pinta e acontece e eu não faço nada disso. Um amigo não pode te levar pro mau caminho se você não quiser ir. Então assim, o que eu quero que as pessoas entendam é que a gente precisa amar mais e acusar menos. Quando você ama, você resolve o problema. E eu aprendi que todo problema foi inventado porque existe uma solução, é uma regra básica da Matemática: se tem um problema, tem uma solução. Então se você tem um problema saiba que existe uma solução. Se você é pai, você é mãe e você tem um filho que por acaso se descobriu gay, lésbica ou ele virou travesti, pare e pense o que ele vai passar lá fora porque eu digo não é legal. Não é legal ir pra rua se prostituir, não é legal viver escondido e oprimindo aquilo que você tem dentro de você; apanhar como eu apanhei e não poder falar pra ninguém porque você sabia. Eu tinha medo de apanhar dos meus tios e apanhar de novo, então seria uma surra por cima de outra surra. E é bom isso? Assim, é bem complexo o que a gente vive no mundo GLBTSS, que pra mim não tem mundo nenhum, não tem hetero, não tem travesti. Pra mim todo mundo é ser humano, todo mundo tem sentimento e todo mundo deveria viver em paz. Se você não gosta, deixa pra lá, simples assim. Eu não sou obrigada a te aceitar. Eu não gosto da cor do seu cabelo, ah, porque eu não gosto da cor do seu cabelo você vai mudar a cor do seu cabelo? Ah, eu não gosto do seu sapato. Eu não sou obrigada a usar o seu sapato e muito menos você é obrigada a mudar o seu sapato porque eu não gosto. Gosto é gosto cada um tem o seu. Vamos viver em paz, sem prejudicar o próximo. Quando é que você prejudica o próximo? Quando você não deixa o próximo viver a vida dele em paz. Graças a Deus o mundo está mudando, graças a Deus as pessoas estão mudando, graças a Deus as pessoas estão entendendo o que é ser gay, travesti e lésbica. Graças a Deus existe uma mídia que está mostrando um lado melhor da travesti, como vocês estão fazendo hoje com essa entrevista comigo, mostrando um lado melhor do ser humano travesti. Porque antes da palavra travesti vem a palavra humano. Eu sou um ser humano. Eu não preciso brigar pelos meus direitos, eles já existem. A Constituição não me diferencia de você que é hetero, ela é pra você e é pra mim. Então meu recado seria esse, um pouco mais de respeito e a gente vai viver bem melhor.
P/1 – A penúltima pergunta eu queria saber quais são seus sonhos.
R – Ai... além de ficar rica e mais bonita? (risos) Meu sonho. Eu sonho em um dia em que as pessoas critiquem menos e ajam mais. Eu vejo muita gente falando, falando, mas pouca gente fazendo. Existem, como vocês já devem ter visto, várias histórias lindas de pessoas que fazem trabalhos lindos pelo Brasil e ninguém homenageia, ninguém vê, ninguém sabe. Eu sonho com um mundo em que ninguém me aponte como travesti e sim como Patrícia, simplesmente Patrícia. Eu sonho com um mundo em que eu não tenha que abrir o meu Facebook e ver um cara matando um gay, um vídeo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu sonho com um mundo em que uma travesti não precise viver só na esquina de uma rua e ela possa trabalhar no supermercado, numa loja. Não que não possa hoje, pode, mas que seja mais normal, que seja formal, que seja convencional. Eu sonho não com o fim do preconceito porque como eu já te disse eu não acredito no fim do preconceito, eu sonho com a melhor convivência entre as pessoas, eu sonho com um pouco mais de respeito, com um pouco mais de dignidade. E sonho que um dia pai e mãe olhem pro seu filho, independente do que ele seja, como filho, como a minha mãe olha pra mim como filha, ela não me vê como Patrícia, ou como travesti, ou como... não, ela me vê como filho dela, eu sou filho da minha mãe, acabou. Porque se o meu sonho se realizar, e ele vai se realizar, o mundo vai ser melhor. Porque quando você sai da sua casa e tem uma estrutura familiar como eu tenho, você enfrenta o mundo melhor, se alguém te trata com preconceito você... você sabe que se aquele lá não gosta de você a sua família te ama. Então o meu sonho é basicamente isso, que a família trate melhor a comunidade em geral.
P/1 – E como é que foi contar a sua história?
R – Bem legal! Ela me trouxe a lembrança de vender shortinho (risos), me lembrei de uma vez agora, ó, fazia tempo que eu não lembrava, eu brincando com uma amiga minha caí no arame farpado, rasguei todas as minhas costas. Lembrei dos pés de limão, lembrei das festas de carnaval. Pra mim foi muito legal, bem agradável, bem gostoso. Foi bom, muito bom!
P/1 – Está certo, Patrícia, a gente encerra então, muito obrigada.
R – Obrigada você!
P/1 – Pra gente foi muito bom também.
R – Tá bom, obrigada.
FINAL DA ENTREVISTA
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