Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Luciene Ulhôa Faria
Entrevistado por Gabriel Rodrigues Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 15/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV005
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
P1 - Primeiro, eu gostaria que você falasse o seu nome completo e onde você nasceu, e se você sabe como você nasceu?
R - Luciene Ulhoa Faria, nasci em Belo Horizonte, mas eu sou natural de Paracatu. Antigamente a gente ia para lá para nascer, né? Funcionava dessa forma. Sou de família tradicional de Paracatu, tanto a materna, quanto a paterna. E sempre fui criada aqui, nesse entorno.
P1 - Quais são os nomes dos seus pais?
R - Meu pai, Pedro Lisboa Faria, é minha mãe, Miriam Botelho Ulhoa Faria.
P1 - Bom, falando um pouco sobre seus pais, conta pra gente, por favor, como foi sua convivência com eles?
R - Minha convivência sempre foi ótima, muito rígida, muito cobrada, por ser a neta mais velha e a filha mais velha, mas excelente convivência, uma criação incrível, incrível.
P1 - Ouvindo aí sobre esse quesito de você ser a neta mais velha. Você tem alguma coisa que você pode falar pra gente sobre os seus avós? Sobre essa convivência que você teve de ser a neta mais velha, e ter essa cobrança mais rígida? Foi sobre eles, ou sobre os seus pais? Como foi isso daí?
R - Bom, eu fui criada aqui dentro da... Eu falo, no quintal da Academia Corpus. Porque aqui foi a casa dos meus avós a vida toda eles moraram e estiveram aqui presentes. Então, foi uma infância pulando muros, subindo em árvores, brincando, correndo. Tinha a Prainha aqui perto, a Praia do Santana, que a gente ia direto. Então, eu sempre vivi dentro dessa área aqui de Paracatu. E foi rígido, porque eu acho que quem é o mais velho vem abrindo o caminho dos outros que estão por vir. Mas nada muito pesado, que a gente não pudesse passar por isso. Porque eu acho que tudo que é cobrado, tem um crescimento maior para gente.
P1 - Com certeza. E com o que eles trabalhavam, como é que eles cuidavam e geriam a casa, a família, naquela época?
R - Meus avós?
P1 - Não. Aí, no caso, os seus pais.
R - Meu pai, fazendeiro, mexia com gado leiteiro. Mexe até hoje. Minha mãe é aposentada do Banco do Brasil. Ela começou como professora, e depois já começou a trabalhar no Banco do Brasil.
P1 - Aí, no caso, você já falou um pouco sobre a relação com a sua mãe, seu pai. E irmãos, você tem irmãos, irmãs? Quantos seriam? Sua relação com eles?
R - Nós somos quatro filhos, um homem, três mulheres. Temos, graças a Deus, uma relação muito boa, eu sou a mais velha, e a caçula é dez anos mais nova que eu. Todas moram em Paracatu. Todos vivem e trabalham aqui em Paracatu.
P2 - Essa relação de você como irmã mais velha, como foi? Você cuidava dos seus irmãos? Como foi a criação?
R - Sempre foi uma troca mútua entre ambos, foi bem tranquila essa relação de irmã mais velha. Com a mais nova é que… Eu sou até a madrinha. A diferença é muito grande, quase que uma filha.
P1 - Aí, no caso, essa relação, como a gente já falou de irmandade, o fato de você ser a mais velha. Quais eram os costumes que vocês tinham ali na sua família, naquela época? Gostavam de juntar para fazer alguma coisa específica? Igual você falou que seu pai é fazendeiro, ir para uma fazenda, ou alguma coisa do tipo? Tinha alguma tradição nesse sentido?
R - A vida toda a gente ia pra fazenda. Eu ia para a fazenda todos os dias, porque a fazenda do meu pai era dez minutos daqui. Final de semana, fui criada na fazenda, férias, feriado, tudo dentro da fazenda mesmo. Em relação aos avós, tias, a gente se reunia constantemente, família muito grande, então, nós fomos criados sempre juntos, comemorando, celebrando todas as datas.
P1 - E aqui na cidade, você falou que veio de Belo Horizonte, foi lá nascer, mas que viveu aqui. Você estudou onde aqui? Você lembra seus primeiros passos na educação?
R - Todos. Estudei no Pingo de gente, com Tia Lana. Depois teve o Afonso Arinos, peguei Núbia no Afonso Arinos, foram muitas professoras no Afonso Arinos. Depois foi o Colégio Dom Elizeu, que eu guardo um carinho muito grande pelo colégio Dom Elizeu.
P1 - Bom, falando dessa parte que você disse, do carinho. Tem algum professor ou professora, algum profissional que te marcou bastante nessa trajetória acadêmica?
R - Vários professores, Maria Alcina, Rônia, Lídia, que foi minha professora de Educação Física, que me inspirou nessa vida ativa de exercício físico, e que eu trouxe para o resto da minha vida, se Deus quiser. Então… E hoje assim… Hoje, não, né? Minhas filhas também se formaram no Dom Eliseu. E se Deus quiser, as netinhas também, que estiverem em Paracatu, também vão para lá.
P1 - Aí, no caso, esses locais em que você estudou, já fala bastante que você hoje segue a carreira praticamente, um professor te instruiu, que te ensinou, te revelou que esse campo seria interessante. Então, você acha que a sua vida hoje profissional, vem muito acerca disso que você aprendeu na escola com esses profissionais?
R - Sim. O Dom Elizeu, ele me abriu muito as portas para a área da dança. Porque eu venho da dança. Através da dança eu vim para o exercício físico. Então, comecei ali com dança, com jazz, com balé, com dança do ventre. E o Dom Elizeu sempre teve muitas muitas apresentações dentro do colégio Dom Elizeu. E eu sempre estava na frente dessas apresentações, tanto na parte de criação. Então, me proporcionou um aprendizado muito grande nessa área, apesar de eu nunca ter saído de Paracatu.
P1 - Eu gostei muito de uma fala que você disse, que é você ter participado e ficado a frente de tudo nessas questões…
R - Artísticas.
P1 - Isso, nas questões artísticas. Você já sentiu alguma dificuldade, alguma, como que eu posso dizer? Que pode te pressionar a querer não continuar nessa área? Ou desde muito nova você já sabia que aquilo ali era o que você queria?
R - Desde muito nova eu sabia que era aquilo que eu queria. Agora, dificuldade a gente passa constantemente, né? É uma área muito difícil de mão de obra, então, professores de dança, tá cada dia mais escasso no mercado.
P1 - Você já disse que passou a juventude na cidade, você veio de Belo Horizonte, cresceu aqui. E aqui na cidade, como foi a sua juventude, como você viveu, festas, namoros?
R - Nunca fui de muita festa. Eu sempre fui de estar sempre ativa, desde criança, jogava bola, andava de patins. A rua Rio Grande do Sul, que é onde eu morava, eu morava de frente do Elizeu. Eu peguei ali, eu lembro do Alto Córrego, sem asfalto, que descia um poeirão para a minha casa. E a gente ia correndo até a Prainha, voltava. Então, assim, era... Minha diversão era ir para a praia e voltar, e jogar bola na rua. Jogava vôlei, queimada, o tempo todo. Então, essa foi minha infância, né? Antigamente a gente se dava ao luxo de ter essa liberdade, de poder ficar solto na rua, aproveitando a infância, aproveitando a vida da forma mais completa que eu acho que uma criança poderia aproveitar e crescer, né? E hoje em dia, já não conseguimos mais deixar as crianças terem essa liberdade.
P1 - Sim, eu concordo com o que você disse, e vou além, na pergunta. Você disse essa questão da ida para a praia, para curtir com os amigos. Além dessa ida com os amigos, o que você vê que falta hoje, que você encontrava naquela época?
R - A liberdade de ir e vir, que as crianças tinham e que não tem mais.
P1 - Então, dentro da sua adolescência, que a gente está falando da sua juventude, esses passeios, essas idas com os colegas, marcaram muito a sua adolescência. Aí, além desses passeios, dessas brincadeiras com os amigos, tem mais algo que marcou a sua adolescência?
R - Que marcou minha infância e adolescência. Sim, os carnavais de Paracatu. Os carnavais de outrora, de Paracatu. Gente, vocês não têm noção do que que era! Eu vivi isso na íntegra, através dos meus tios. Eu não participei ativamente, mas eu ia na matinê, que o Jockey era aqui, onde é a Câmara, né? Hoje é a Câmara Municipal, antigamente era o Jockey Clube. Então, eu cheguei a ir à matinê aqui no Jockey. E eu lembro como se fosse hoje, Paracatu tinha os blocos de carnavais, concurso. Então, assim, minhas tias, minha mãe, a família toda participava ativamente, juntava para fazer as fantasias. E eu, criança, estava junto ali, ajudando a pregar lantejoula, ajudando a pregar as plumas. E tinha na Rua Goiás, que era apresentação dos blocos. Era a coisa mais linda, era assim, coisa de outro mundo. Ainda mais pra gente naquela época, né? E até mesmo depois, eu me casei muito nova, me casei com 15 anos. Mesmo depois que eu me casei, ainda tinha alguns blocos de carnaval. Não era tão bons quanto os antigos, mas existia. E eu cheguei a participar de alguns anos desse carnaval, desses blocos.
P1 - Então, essa questão do carnaval foi bem marcante, né? Você chegou no que você diz, a presenciar os blocos, o carnaval de outrora, como você diz. Hoje, nós ainda temos na cidade o carnaval de outrora que acontece no largo. Você chega a frequentar? Você é participante, ativa?
R - Chego, eu sempre estou junto, todos os anos. Mas não chega nem no pé, gente, do que foi antigamente, sabe? Das lembranças que eu tenho da infância mesmo. Foi muito marcante. Eu acho que quem viveu essa época ainda tem isso na cabeça. Eles tentam resgatar, mas não é a mesma coisa. Não existem mais aqueles blocos que tinham antigamente, os concursos entre os blocos, era uma rixa, era uma rivalidade. Mas era uma rivalidade saudável. Era bonito de ver, e eu era criança, então isso nunca saiu da minha cabeça.
P1 - Olhando assim, você tinha alguma preferência por algum bloquinho específico?
R - Nossa, eu lembro de um, que foi o “Egito”, e esse nunca saiu da minha cabeça. Foi um dos mais bonitos que eu já presenciei.
P1 - Nós falamos um pouco da sua trajetória acadêmica, até a escola, o ensino médio. Você chegou a seguir alguma especialização?
R - Não, eu não fiz faculdade. Eu fiz um de Educação Física, que é um provisionado, porque na época não existia Educação Física na cidade. E aí, depois que eu comecei a mexer com academia, ou eu trabalhava, ou eu estudava. E aí, eu dava aula na época ainda. Agora não, agora só administro.
P1 - Você me falou mais cedo sobre a questão da academia que nós nos encontramos aqui, que é a Corpus, ela participa um pouco do turismo de Paracatu. Você recebe então turistas aqui na academia? Conta um pouco pra gente sobre isso.
R - Constantemente chega gente querendo… Turistas querendo fotografar, filmar. Quando eles entram aqui, eles ficam assim, encantados, porque eles não imaginam que vão se deparar com isso aqui dentro. O que eles veem por fora não é o que tem aqui dentro. Então eles ficam encantados com a academia, com a arquitetura, porque nós fizemos questão de resgatar um pouquinho do colonial, trabalhar esse colonial barroco aqui.
P1 - Então, a gente, quando dá uma volta aqui, a gente consegue perceber bastante isso aqui, né? Aí, pulando um pouco daqui, para a gente falar um pouco sobre o circuito de cachoeiras que nós temos em Paracatu, você tem uma chácara situada lá, não tem? Você poderia falar para gente um pouco sobre como é, se você recebe turistas lá, como funciona?
R - Então, nós temos uma cachoeira, a cachoeira Sarana, tem uma igrejinha da Nossa Senhora da Abadia, que fica no alto, no topo. Uma capela na realidade. A nossa cachoeira também é toda no estilo colonial barroco. E eu sei que na região lá, foram catalogadas, se eu estiver errada, vocês me corrijam. Mais de 60 cachoeiras, que é no circuito, na Bacia do Prata. E a gente recebe muita gente, muito turista lá, apesar de não estar funcionando como hotel fazenda, ainda. Meu marido está nesse sonho lá, mexendo, para realmente transformar a Cachoeira Sarana numa pousada rural. E a gente poder receber mais pessoas lá. Normalmente a gente recebe grupos fechados. Às vezes a pessoa vai para passar o dia, para fazer ensaio fotográfico, para fazer trilhas. A gente normalmente faz trilha com o pessoal que vai, que acaba indo para passar o dia, ou para… Às vezes, grupos que vão também, a gente faz algumas trilhas com o pessoal. E durante dois anos seguidos, nós recebemos lá um evento a nível nacional, que é o Summit da CrossFit. Não sei se vocês conhecem? Mas foram mais de 200 donos de Box de CrossFit do Brasil e do mundo. Nós já sediamos dois anos consecutivos lá, esse evento. E eles ficam simplesmente encantados, não só com a Cachoeira Sarana, mas com toda a região, porque a gente faz um trabalho de trilha com eles, passa pela cachoeira do Ascânio. E são dois dias intensos vivendo no meio da natureza, nas cachoeiras.
P1 - Eu gostei bastante dessa fala sua. Lá, apesar de não ser um hotel fazenda, vocês recebem turistas. Aí como poderia ser feito? Isso é aberto ao público, ou a pessoa tem que ser alguém conhecido seu, ou tem que fazer alguma reserva para estar acessando o seu território lá?
R - Por enquanto a gente está em obras lá, então nós não estamos recebendo aberto ao público, porque a obra acaba atrapalhando um pouco. Mas grupos que queiram ir, é só me chamar que eu tento organizar da melhor forma possível, porque o nosso intuito é que todas as pessoas possam ter essa experiência que nós temos constantemente.
P2 - A cachoeira lá, como surgiu ela? Ela foi da família, vocês adquiriram? Conta um tiquinho dessa história da cachoeira.
R - Então, lá na cachoeira… A gente tinha um amigo, que já tinha uma cachoeira lá na região, e nos convidou para passar um dia. Fomos. Chegamos lá, ele falou com meu marido assim: “Olha, você gostou tanto daqui, aqui acima está sendo vendido um terreno, vamos lá para vocês conhecerem.” Aí, nós fomos, realmente assim, o espaço nosso lá, ele é encantador, é lindo o poço. Não sei se vocês já conhecem? Mas de cara nós já gostamos. E aí, Élder já pegou o telefone, já ligou para a mulher, a dona, a proprietária, que não morava em Paracatu, mora no sul. E de lá mesmo ele já comprou o espaço. E em 2005, a minha casa lá, ficou pronta. Mas antes da casa ficar pronta, nós começamos o esqueleto da igrejinha. E antes da igrejinha, um fogão a lenha, porque a gente acampava lá. Então, a gente descia com mochila, com a tralha toda, minhas meninas eram pequenininhas, a gente acampava lá, porque não tinha casa, não tinha nada. Depois a casa ficou pronta e a gente continuou acampando dentro da casa, antes da casa ficar pronta. Então, foram vários anos nesse processo. Aí, em 2005, a casa ficou pronta, e depois a gente foi fazendo os melhoramentos aos poucos.
P1 - Dentro disso aí que você falou. Você falou sobre o Élder, né? Seu marido, correto? A gente queria saber um pouco sobre como se deu esse relacionamento. Como vocês se conheceram, casaram?
R - Élder também é natural de Paracatu, meu primo terceiro. É meu primo. Então, assim, conhecer, a gente já se conhecia há muito tempo, né? Aí começamos a namorar, e com 15 anos nós nos casamos. Eu tinha 15 anos, aí nós nos casamos. E já são quase 40 anos de casamento.
P1 - Aí você começou a trabalhar logo após a escola, correto? Você disse que não dava para intercalar escola com faculdade. Aí você começou a trabalhar já aqui na Corpus, ou você trabalhava com o quê?
R - Não, eu comecei a trabalhar… Minha mãe tinha uma confecção, antes de eu casar, eu trabalhava nessa confecção, e nessa loja dela, eu fazia overloque, os acabamentos. Eu tinha o quê? 13 anos, quando eu comecei a trabalhar, 12 anos, quando eu comecei a trabalhar nessa confecção dela. Aí eu trabalhava e estudava. E depois, quando eu me casei, eu fui trabalhar na madeireira, meu marido tinha uma madeireira e eu fui trabalhar junto com ele. Futuramente minha mãe foi e comprou a academia, que foi onde eu comecei a caminhar com as próprias pernas.
P1 - E você considera que quando sua mãe adquiriu a academia, ela veio a transformar, de certa forma, a sua vida, nesse sentido de visão de futuro, que você queria seguir no esporte?
R - Ela meio que foi obrigada a entrar de sócia comigo. E aí, foi um pedido meu para ela, que ela entrou nessa jornada comigo. Então, ela entrou com o dinheiro e eu entrei com o trabalho.
P1 - Ao adquirir aqui, você lembra como foram suas primeiras experiências com o público, com o trabalho?
R - Eu já dava aula de ginástica, eu comprei a academia de uma ex-professora minha. E não era aqui, ela era em outro lugar, perto da antiga Polícia Civil de Paracatu. Aí, futuramente, depois a gente estava procurando um lugar para a academia, e a casa da minha avó, que era essa primeira edificação aqui, de dois andares, ela já alugava aqui para um salão. E um belo dia, esse salão pegou fogo. E ela precisava do dinheiro da casa pra viver, né? Que ela usava esse dinheiro do aluguel, ela comia, vestia, com esse dinheiro. E aí, foi onde meu marido, que é muito negociante, fez a proposta pra ela, falou: “Olha, dona Joaninha, Luciene, vai te pagar o mensal, e quando elas terminarem de construir, ela te paga o capital. E aí, foi assim que nós viemos parar aqui. O que era da família, que permaneceu na família até hoje.
P1 - E desde quando você mudou para cá, você veio de outra academia pra cá, você teve algum desafio? Porque hoje, por ser um local renomado, no início, teve algum desafio, ou você encontrou alguma facilidade?
R - Constantemente. Hoje e todos os dias da minha vida, acho que não tem dia sem desafio. É um dia de cada vez, que a gente vai matando um leão por dia. E é assim que a vida segue. Nada vem de graça.
P2 - Você casou, teve filhos? Quantos filhos você tem hoje?
R - Hoje eu tenho duas filhas, as duas são casadas, e tenho quatro netos, três meninas e um menino.
P2 - E elas vêm para o mesmo ramo que você, da academia? Ou seguiram...
R - Bem que eu quis que elas continuassem com esse ramo. As duas tentaram, começaram educação física, mas as duas partiram para medicina, uma é endocrinologista, mora em Goiânia, que é a mais velha, que tem três filhos. E a outra, mora aqui, que é ginecologista e obstetra, que tem uma menininha.
P1 - Tem alguma época que vocês se reúnem, todas? Ou...
R - Constantemente.
P1 - Constantemente? E para você, já que estamos falando da questão dos filhos. Para você, como foi a sensação de se tornar mãe, de ter essas meninas?
R - Eu falo que ser mãe é bom demais, é a melhor coisa que tem. Mas ser avó é mil vezes melhor, gente. É muito, muito bom.
P2 - Pode contar pra gente um pouquinho como é ser avó?
R - Ser avó é ajudar na criação sem muita... Não é que não é ter responsabilidade, né? Mas a gente ter mais tempo e mais sabedoria para criar e para fazer com que as crianças se sintam bem. Então, hoje eu sei como, às vezes, coisas que a gente erra lá, como mãe, a gente corrige agora como avó. E a sensação é boa demais. Só vivendo para vocês verem o que realmente é isso.
P1 - Eles têm convívio lá na chácara, no Sítio Sarana de vocês?
R - Inclusive, ontem a mais nova estava lá, com a minha netinha, a gente estava lá. Reúne a turma dela de ginecologia, estava lá reunida. Todo ano ela costuma fazer um encontro lá da área dela. Então isso vem desde a mais velha, que fazia o AcampaMed lá, porque ela levava uma vez por ano, Sarah, a turma da medicina para lá. Depois que ela formou e foi fazer residência dela, aí veio a turma da Ana, da mais nova. E hoje, uma vez no ano, pelo menos, reúne a turma da ginecologia. Tirando isso, a família se reúne lá, né? É, até hoje a gente ainda se reúne também na fazenda do meu pai.
P1 - Tendo um estalo aqui, eu gostaria de perguntar a história do nome da fazenda?
P2 - Sarah, Ana. Sarana.
P1 - Porque parece ser um nome diferente, mas aí, vendo a história de vocês, a gente percebe que é o nome das filhas, né? Você gostaria de acrescentar algo, contar alguma coisa que a gente não falou aqui?
R - Bom, eu não sei se faz parte, né? Mas tem a parte das quitandas de Paracatu, que Paracatu é muito famosa por suas deliciosas quitandas. E minha avó era uma quitandeira nata. Doces, biscoitos, bolos, então, o pão de queijo, o melhor pão de queijo da vida, foi o pão de queijo dela, depois da minha mãe. Então, a gente foi criado também, fazendo pamonha nas fazendas. Aqui, na casa dela. Doce de ovos, Papa Fina, não sei nem se vocês sabem o que é Papa Fina. É como se fosse um mingau ralinho, de ovo, com raspinha, raspa de limão. E o doce de ovos dela, era o melhor que tinha. Então, assim, nós fomos criados dentro dessa raiz mesmo, da cidade, sabe?
P1 - E o que você vê, e que você gostaria de deixar sobre a sua experiência para nossas gerações futuras? Igual você já tem seus netos, aí? E as crianças que estão vindo aí?
R - Que eles tivessem mais contato com o que eu tive, que é natureza, que é o Cerrado. Poder viver esses momentos em família, que eu acho que é essencial para qualquer pessoa, né? E nada melhor do que você ir para um para um ambiente de natureza para poder resgatar isso.
P1 - E para finalizar, nós gostaríamos de perguntar para você como foi contar um pouco da sua história pra gente?
R - Uai, foi ótimo! Eu acho que o que a gente traz, a gente tem que mostrar. Para que as pessoas tenham vontade de conhecer um pouquinho de cada história. Então, acho que é fundamental você continuar passando isso de geração em geração e falando sobre suas experiências anteriores. Quem dera que os meus antepassados tivessem esse momento. Que antigamente não tinha, infelizmente. Porque eles sim, iam ter histórias para contar, né?
P1 - Não, mas você teve e foi bem bacana. Vamos tirar uma foto melhor.
P2 - Muito obrigada pela entrevista.
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