Projeto: Memória da Petrobras
Depoimento de Ronaldo Cevidanes Machado
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro – RJ
Rio de Janeiro, 03/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB544
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Bom dia.
R – Bom dia.
P/1 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que o senhor nos dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Ronaldo Cevidanes Machado, nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 6 de julho de 1929.
P/1 – Senhor Ronaldo, o senhor poderia contar para a gente como é que foi o seu ingresso na Petrobras, o senhor trabalhou antes em algum outro lugar?
R – Não, a minha relação com a Petrobras antecede a criação da própria Petrobras. Porque no fim da década de 40 eu era estudante de direto, não concluí o curso, mas era estudante de direto e naquela ocasião, como estudante, estava fortemente envolvido com o projeto do “O petróleo é nosso”, né, um programa da defesa do petróleo é nosso. Logo na virada dos anos 50, a Petrobras ainda não estava criada e eu fiz a opção que era a minha vocação e sempre foi, de ir para o mar. Eu fiz então o curso da Escola de Formação de Oficiais e ao término do curso eu fiz a opção de embarcar nos navios da Fronape. A Petrobras nessa ocasião tinha cerca de um ano e poucos meses que ela havia sido criada, né, e essa opção naquela ocasião, causava estranheza porque a grande pedida era embarcar em navios do Lloyd que freqüentavam o norte da Europa, Mediterrâneo, Estados Unidos, Canadá etc. Então eu ingressei já como oficial, né, não considerando o meu período de embarque na empresa como aluno da escola que era ligado a Marinha, então não conta, logo em abril de 1955 embarquei no navio da primeira geração da Empresa que havia sido construído antes porque a Fronape precedeu a própria Petrobras, né, e desde então toda a minha atividade, não tive antes nem depois nenhuma...
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Depoimento de Ronaldo Cevidanes Machado
Entrevistado por Márcia de Paiva
Rio de Janeiro – RJ
Rio de Janeiro, 03/09/2004
Realização Museu da Pessoa
Entrevista PETRO_CB544
Transcrito por: Maria Luiza Pereira
P/1 – Bom dia.
R – Bom dia.
P/1 – Gostaria de começar essa entrevista pedindo que o senhor nos dissesse o seu nome completo, local e data de nascimento.
R – Ronaldo Cevidanes Machado, nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, em 6 de julho de 1929.
P/1 – Senhor Ronaldo, o senhor poderia contar para a gente como é que foi o seu ingresso na Petrobras, o senhor trabalhou antes em algum outro lugar?
R – Não, a minha relação com a Petrobras antecede a criação da própria Petrobras. Porque no fim da década de 40 eu era estudante de direto, não concluí o curso, mas era estudante de direto e naquela ocasião, como estudante, estava fortemente envolvido com o projeto do “O petróleo é nosso”, né, um programa da defesa do petróleo é nosso. Logo na virada dos anos 50, a Petrobras ainda não estava criada e eu fiz a opção que era a minha vocação e sempre foi, de ir para o mar. Eu fiz então o curso da Escola de Formação de Oficiais e ao término do curso eu fiz a opção de embarcar nos navios da Fronape. A Petrobras nessa ocasião tinha cerca de um ano e poucos meses que ela havia sido criada, né, e essa opção naquela ocasião, causava estranheza porque a grande pedida era embarcar em navios do Lloyd que freqüentavam o norte da Europa, Mediterrâneo, Estados Unidos, Canadá etc. Então eu ingressei já como oficial, né, não considerando o meu período de embarque na empresa como aluno da escola que era ligado a Marinha, então não conta, logo em abril de 1955 embarquei no navio da primeira geração da Empresa que havia sido construído antes porque a Fronape precedeu a própria Petrobras, né, e desde então toda a minha atividade, não tive antes nem depois nenhuma atividade que não fosse ligada em caráter oficial ou oficioso a própria Petrobras.
P/1 – Me conta então um pouco da sua trajetória dentro da empresa. O senhor já tinha participado da campanha?
R – É, exato. E eu passei a exercer uma atividade é, profissional com característica extremamente específica, né, longos afastamentos, afastamentos do país, mais de um ano e meio naquele período, né, nós recebemos uma frota de navios muito grande, muito acima da Petrobras com um ano, que não tinha ainda a não ser a refinaria de Mataripe, operando e o consumo também muito pouco, não havia produção a não ser uma pequena produção lá da Bahia, então nós ficávamos fretados a companhia de estrangeiros lá fora. Viajávamos muito do Golfo Pérsico para a Austrália, outros fazíamos a volta por Suez, íamos por Suez, ainda estava aberto, íamos para o norte da Europa, abastecíamos no Ceilão, né, ou Sri Lanka, Ceilão e vínhamos, descíamos a costa da África, sempre já levando a bandeira da Petrobras. É uma carreira que você não tem uma atividade política até pelo afastamento, vive confinado, é uma sociedade isolada longe de tudo e de todos, sobretudo naquele período, sem comunicação, sem médico a bordo...
P/1 – Sem médico?
R – É, até hoje não existe. Com humor nós falamos que por isso o navio chama embarcação e não embarca doente.(riso) Porque não existe médico a bordo. Eu já tive morte a bordo como comandante...
P/1 – Imagina, eu pensei que tivesse um médico.
R – É, então minha carreira foi dentro da empresa, foi rápida, porque em 1964, ainda com a carta de oficial encarregado de navegação eu fui promovido ao quadro de comandantes da Empresa. Era um caso raro. E daí então eu passei, tive a felicidade de sempre trabalhar com equipe e essas equipes embasaram o meu trabalho e o atingimento de propósito fez com que, na década de 70, eu fosse convidado para ser o primeiro a receber o primeiro navio que nós chamamos (Very Wide Cargo Care?), navio de mais de 200 metros. Navios que, para quem não é do mar, o comprimento dele corresponde a um edifício de 113 andares, embaixo d’água ele tem mais do que um edifício de 7 andares, a boca, a largura dele é mais do que um edifício de 22 andares, em cima do leme dele cabem 50, cabiam 56 Volkswagen, né? Então eu recebi esse navio, fui designado, fiz cursos na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e...
P/1 – Ele era um navio de que?
R – Ele transportava minério para o Japão, eventualmente Filipinas e trazia depois petróleo do Golfo para o Brasil, né? Na entrega ele era o terceiro maior navio do mundo em porto e em seguida nós construímos mais dois no Japão e esses só petroleiros e com o desenvolvimento na década de 70 a construção naval no Brasil nós construímos mais quatro aqui, todos eles hoje continuam prestando serviços a Petrobras, mas foram transformados em FPSO, estão na bacia de Campos. O meu é o Petrobras 35 hoje, né, antigo José Bonifácio. E o navio passou a ser uma família, nós viajamos, comandamos o navio, estivemos ligados a ele 20 anos na nossa atividade profissional e nele permanecemos até o nosso afastamento do mar.
Em terra, a minha primeira função, aceitando o convite, cargo de confiança, fui ser o superintendente geral da Fronape, eu dirigi a Fronape de 95 até 2000. Então, com a Transpetro criada eu era o superintendente geral da Fronape. Servi, portando, ao primeiro presidente da Transpetro. Posteriormente é, houve uma mudança e foi, assumiu a presidência o Dr. Mauro Ouro Fino eu permaneci é, então fui convidado e vim para o gabinete dele numa função que, equivalente a chefe de gabinete, né, e fiquei também com o atual presidente o Dr. Sérgio Machado até alguns meses atrás, quando então nossa relação de trabalho foi mudada, eu hoje sou consultor do presidente e faço tarefas que ele determina. Por exemplo, acabei de escrever um livro que vai ser publicado no fim do ano, resgatando toda memória do transporte marítimo, da Petrobras, Transpetro, né? E nesse trabalho, até por sugestão dele, nós não começamos no momento da criação da Fronape, nós partimos num passado que seria 1500, a nossa descoberta e fizemos uma rápida passagem pela história do transporte marítimo no Brasil através do século, rapidamente até o século 20 quando então a Fronape foi criada. Depois a inserção dela à Petrobras e a Fronape tem essa característica, ela antecedeu a própria Petrobras, seus ativos ajudaram a criar a Petrobras posteriormente e mais do que isso, quando a Transpetro foi criada foi ela também o primeiro negócio da Transpetro, que tem dois negócios dutos e terminais e transportes marítimos, começou também pelo transporte marítimo, né? Então é uma vida dentro da Petrobras extremamente gratificante para mim, seja no mar, seja em terra e é para mim um privilégio continuar ligado a ela (riso) já com 75 anos e trabalhando normalmente, né, e em seguida eu vou criar aí, um nome aí museu, eu vou criar aqui em cima, já está tudo acertado, assinado o museu da Transpetro, né, então seria da parte de transporte marítimo e a parte de dutos e terminais, né? É a próxima tarefa que eu vou ter pelos próximos meses.
P/1 – Conta um pouquinho mais dessa vida no mar, como é que era naquela época que o senhor falou, era muito diferente, conta um pouco para a gente.
R – É muito, muito diferente, muito diferente vamos falar em relação e trabalho, né? A relação e trabalho naquele período você viajava, por ano você só tinha 20 dias de férias. E como, vamos dizer, a burocracia em terra era demorada você usufruía livre mesmo da Empresa 16 dias. Você, todos os funcionários da Empresa em determinado momento, logo no início dela, Petrobras, passaram a ganhar a periculosidade, nós não ganhávamos quando estávamos fora do navio, então a funcionária que me atendia nos escritórios da Fronape ela ganhava periculosidade, mas eu não ganhava porque não estava a bordo.(riso) O 13o quando foi criado era recusado ao quadro marítimo.
P/1 – Por quê?
R – Uma arbitrariedade, né? Então é todo uma luta muito demorada dentro da estrutura da Empresa porque? Porque por ocasião das discussões salariais as pessoas, por mais isentas que tentem ser, elas são profissionais dessa área, são pessoas excepcionais no trato dessas discussões, eles não deixam de ser beneficiados pelas discussões, mas o marítimo não, ele assina um contrato a parte, né, o acordo do trabalho dos marítimos. Então, aquele que discute para o quadro de terra seja hoje com a CUT, não tem nenhum interesse, é um corpo estranho falar em marítimo.(riso) Então é uma dificuldade que demorou um pouco mais, hoje não, hoje é uma integração muito grande, mas num passado que não vai muito distante era um trabalho muito árduo, né, e nós fizemos uma greve, a famosa greve de mil novecentos e sessenta e...
P/1 – O senhor se sindicalizou logo no início?
R – Ah, logo no início.
P/1 – Do sindicato dos marítimos?
R – É, é, do sindicato dos marítimos, é. Era, na época se chamava Sindicato dos Oficiais de Náutica, porque havia uma explosão, não me lembro se 13 ou 17 sindicatos do padeiro, marítimo, do taifeiro(riso), tudo que era, um sindicato sem nenhuma expressão, sem nenhuma força de argumentação, de pressão e bem recentemente, com a direção atual do Sindicato, foram juntando os sindicatos para dar maior poder de negociação.
P/1 – O senhor chegou a exercer algum cargo no Sindicato, não?
R – No sindicato não. Eu fui presidente por quatro mandatos do Centro de Capitães da Marinha Mercante que é um órgão de classe, mas não é um sindicato. Classe do trabalho, mas não é um sindicato. Mas eu só exerci a função de presidente enquanto eu aguardava o regresso do meu navio, eu nunca me desliguei do mar para exercer a função mesmo da presidência do centro, né?
P/1 – Não dava tempo.
R – É, não dava e a opção sempre foi o mar.(riso) Fui um marinheiro vocacionado. Sou um marinheiro vocacionado. Então, nós fizemos um determinado momento em que havia uma discriminação tão grande, um desrespeito tão grande em que os oficiais fizeram a greve isoladamente. Pouco antes da derrubada do Goulart, né? Então, naquele período, depois de 2 meses e tanto, todos nós em greve, nós fomos demitidos, todos.(riso) Todos porque constavam com a Marinha para ocupar os nossos lugares. E o que mais se conseguiu foi uma readmissão, mas mudando a data de readmissão que você tinha anteriormente. Então, suas férias, no meu caso que venceu em abril e eu passei a ter férias a partir de agosto, porque foi quando eu fui e todos os demais oficiais foram readmitidos.
P/1 – Readmitidos.
R – É. Então era um outro, um outro período, né, e isso antecedeu pouco a revolução, durante a revolução houve a nomeação no órgão de classe de pessoas estranhas e depois, de um comandante que ele mesmo se identificava como (peleiro?) porque não podia deixar de ser, né? E ele dentro das limitações da época ele nunca deixou de ser alguém preocupado com a classe, só que a área de manobra era muito pequena e nós entendíamos essa situação. E depois da abertura houve inicialmente alguns caminhos muito sem rumo, mas felizmente a atual direção unificou os sindicatos, o presidente do Sindicato é o presidente da Confederação também, a Federação trabalha integrado e isso então deu um grande poder de argumentação; eu estou fazendo observações da ordem trabalhista, né?
P/1 –E essa relação hoje então o senhor considera?
R – Ah não, está muito, aperfeiçoou muito, né, aperfeiçoou muito, porque os órgãos de classe todos hoje são muito atuantes, muito atuantes. E o grupo do mar também, alcançou peso, densidade, né, isso facilitou. Eu lembro que quando eu assumi a superintendência da Fronape, o que me passava a função reuniu as lideranças sindicais FUP etc, e eu disse a eles que no meu passado eu fiz greves e acabei com greves também. (riso) Depois foi: “Pôxa, você falou que fez greve?”, eu falei: “Ué, eles sabem mais do que você que eu fiz greve, quem eu sou.”, entendeu? E é verdade. Então não é nenhum pecado no curriculum -vitae de ninguém, né, é um direito de você exercer essa ação de ser grevista ou não, não é? Então isso foi...
P/1- E a negociação foi melhor?
R – Foi, foi muito bom, eu sempre tive muito, né, plena negociação com as lideranças como sindicatos do mar, e esse então muito fácil, né, porque eles me conheciam muito, algumas foram muito difíceis de eu é, de eu entender a linha de ação superior, eu discordei muito, daí eu ter saído da superintendência, poderia ter ficado, porque administrativamente nós pegamos a empresa numa época que não havia receita porque era a Petrobras é que estabelecia, ela a receita na cabotagem era simbólica, né, eu recebi a Fronape com 203 milhões.
P/1 – Isso na superintendência ou já na presidência?
R – Não, não, não,
P/1 –Na superintendência.
R – Na superintendência ainda Petrobras. Nós recebemos a Fronape com 203 milhões de dólares no vermelho, depois de ter sido feito uma extraordinária administração pelo meu antecessor, que era um engenheiro e em seguida eu quando passei a função eu passei com 13 milhões no verde. Então foi um trabalho muito grande em cima de custos, porque a receita era uma coisa muito pequena e muito simbólica também, né? Mas, foi um período muito gratificante esse da minha passagem por lá como também na administração, em todas as funções que eu existi, que eu exerci na Empresa, tanto que recentemente eu gravei um programa “Os 50 anos”, que passou até outro dia, eu aparecia fardado, né, aquilo saiu espontaneamente porque eu sempre fiz do meu dever o meu prazer, né, então isso facilitou muito o atingimento das minhas propostas de trabalho, projetos de vida, agora, as realidades eram muitos diferentes. A Fronape era um órgão que era diferente dentro da Petrobras, por quê? Porque era a única Empresa de navegação que a Petrobras tinha. A formação do seu quadro superior que eram os oficiais, diferia da formação superior dos demais engenheiros, geólogos, médicos, advogados, economistas da Empresa, então era um grupo diferente. E sobre tudo porque durante 40 anos ela foi dirigida por militares, o primeiro superintendente da Fronape foi um coronel do exército. Essa história é longa que está tudo no livro, entendeu?(riso) E nós iremos ser muito longos aqui para falar. E durante 40 anos eles permaneceram estranhamente, muito antes do movimento militar, obviamente permaneceram no sistema militar e depois do país democratizado ainda permanecer a mesma ligação umbilical com a Marinha, entendeu? Isso só terminou na década de 90, quando em julho de 91 esse engenheiro assumiu e depois, pela primeira vez, assumiu um funcionário da Fronape, que fui eu.(riso)
P/1 –Fala um pouco da sua presidência na Fronape.
R – Olha, na Fronape, marcante foram dois aspectos: um foi o término do déficit tradicional que a Fronape trazia; segundo, foi um trabalho de equipe; reconhecimento, sempre trabalhei assim, você aprende no navio; não basta você ter tripulação, você tem que ter equipagem, do que essa palavra traz de trabalho de equipe. Em terra procuramos trazer esse mesmo, trabalhamos, não trouxemos ninguém de fora, utilizamos toda a mão de obra da própria Fronape, o próprio quadro, reduzi muito a... mas com a participação de todos os gerentes, teve gerente que abriu mão e ele próprio sugeriu o fim da divisão dele, na época era divisão. Então nós enxugamos muito. Pela primeira vez criamos uma área na Fronape chamada planejamento, uma área comercial também, estranhamente não tinha porque ela era, tinha cordões umbilicais com outras áreas que faziam isso por ela, mas sem, vamos dizer, aquele “feeling” do negócio de transporte marítimo, né? Nós tivemos uma presença muito forte no Caju. Nós éramos cercados por 11 favelas, com todas as ameaças...
P/1 – Isso ali no Caju?
R – É, com todas as ameaças é; eu fui muito contra a saída do Caju, então eu, para sair do Caju eu saí, primeiro me tiraram a superintendência, porque eu lutava muito contra.(riso)
P/1 – E porque o senhor não queria sair dali?
R – Não, porque eu achava, primeiro: lá era um custo afundado; segundo, felizmente a casa Petrobras ela tem uma presença forte no corpo de engenheiros, isso é uma grande vantagem, mas eles são, como todo engenheiro, por formação, são lógicos, são racionais por serem matemáticos, né, então a analise é feita em cima daquilo que é mensurável, era muito difícil quantificar a integração do homem do mar à Empresa, porque era o caminho que ele ia da casa dele para embarque, embarcava lá na Fronape saía, passava na Fronape. Então ali os marítimos se reencontravam.
P/1 – Era a rota então.
R – É, pouco antes das lanchas saírem nos vários horários, né, havia um conglomerado grande de marítimos que integrava com pessoal de terra também e pela facilidade eles subiam, entendeu, eu chegava muito cedo lá, 5:30h , aí o comandante sabia que eu chegava a essa hora, estava lá querendo falar comigo e eu o recebia a partir dessa hora, né? Então havia essa integração do homem do mar aos propósitos da administração, você falava diretamente com eles, eles freqüentavam, almoçavam junto, entendeu; “Ah, vamos almoçar, almoça aí, almoça aí.” Então essa era uma das coisas que eu... a facilidade porque você, até hoje tem coisas da Fronape lá, entendeu, almoxarifado, então permanecem lá. Nós tínhamos uma área de adestramento que era padrão, com auditório para 150 pessoas, o custo era afundado e nós desenvolvemos programas sociais muito fortes na região exatamente pela periculosidade, além de ser obrigação social da Empresa, né? Nós tínhamos, chegamos a ter mais de 200 crianças que entravam às 7:15h...
P/1 – E esse programa funcionava é educativo...?
R –É tudo, era tudo, eles entravam às 7:15h e saiam ao fim do dia, a pobreza total desse grupo vinha, né? Nós criamos lá, a pedido, mas no alto do morro lá, uma escola de circo que leva até o meu nome até hoje, eu inaugurei a escola. (riso)
P/1 – Que beleza!
R – Eu levava a todo momento, subia com convidado, entendeu, para mostrar a escola, nunca tivemos um dissabor com a Fronape, o Arsenal de Guerra foi assaltado, o depósito da Aeronáutica assaltado mais de uma vez, todas as indústrias e empresa na área, nunca a Fronape. Tinha posto de banco lá dentro, né, nunca sofreu uma agressão da bandidagem local. Tanto que quando um deles morreu, o diretor da Petrobras me perguntou assim: “Mandou botar bandeira a meio pau, né?”(riso) Você tem um bom relacionamento. (riso) Eles então, eles eram agradecidos, né, eu mandava uma assessora a Sônia, uma belíssima senhora, ela adentrava a qualquer favela daquela, era chamada de tia Sônia, quando eles requisitavam um dos alunos para virar soldado, eu mandava e ela me levava um pedido meu que eles liberassem para ele voltar a escola, eles nunca deixaram de liberar – “Diz ao homem que ele amanhã tá lá.”. (riso) Então, eu acho que essa presença nossa lá era muito forte. Eu fiz seminários internacionais em que o general da área era convidado, tinha lá o Arsenal de Guerra e ele me perguntava: “Quer que eu mande tropa?”, “Não, não, não manda não que é até acintoso, eles tratam tão bem a gente que não vai acontecer nada.”.(riso) E saíam senhoras, 9:00, 10:00 horas da oito do Caju.(riso) Eu chegava de manhã cruzava com as seguranças deles lá armados dentro de carros e eles sabiam quem eu era, entendeu, nunca fizeram nada com nenhum do nosso grupo, né? Então, era um local de trabalho tranqüilo, você não tinha, até na hora no almoço você estava no próprio local do trabalho, o refeitório muito bom, sistema de cozinha muito bom também, nós tínhamos um programa em que era uma festa, uma vez por ano era o dia do aposentado, desde de cedo eles compareciam para tomar o café da manhã e saíam ao fim do expediente, com vários eventos que eram programados, sempre tinha uma palestra minha no auditório e compareciam 600 a 800 aposentados. Então mantinha aquele espírito e eles se sentiam lembrados, né? Eram pessoas que haviam prestado serviço e que estariam descartados e esquecidos da empresa. Era todo um clima, né, que eu defendia a nossa permanência, permanência lá e em cima de resultados (riso), não estava deficitário nem nada, né? Mas as coisas evoluem, a Transpetro veio para melhorar, hoje é uma grande Empresa, eu vi também essa outra empresa nascer, eu servi aos três presidentes dela, o primeiro ainda como superintendente, aos outros dois no gabinete. De modo que eu sei a luta que ela está vivendo hoje. O primeiro presidente ele criou do nada a Empresa, eu participei de todo grupo que criou a Transpetro, posteriormente o segundo presidente consolidou a Empresa com a aquisição desse imóvel, com os ativos que ela passou a ter com a transferência dos navios, então houve uma consolidação e o terceiro que tem dois desafios grandes, um deles é a integração entre os dois negócios da Empresa e que isso já está ocorrendo e o que é o desfio maior, é a construção de navios. Hoje nós estamos lutando para construir 42 navios para ser o último ser entregue em 2015. Isso na realidade nos trás à 1996, a nossa capacidade de transporte em 1996. Hoje a Transpetro transporta apenas 17% da carga da controladora, da Petrobras. Por quê? Porque quando ela tinha, 1994, em torno de, praticamente, 6 milhões de toneladas de capacidade de transporte, a Petrobras tinha uma produção ainda muito reduzida e um refino proporcional a um consumo do país, né? A partir daí a Petrobras começou a crescer muito e nós começamos a dar baixa em navios.
P/1 – Não acompanhou.
R – Não acompanhou, foi somatório, aumentando a capacidade de transporte nós reduzida a nossa capacidade de transporte em cima do que já existia e sobretudo, com acréscimo felizmente do aumento. Porque navio é uma coisa muito diferente, o navio tem um custo inicial elevadíssimo, uma manutenção significativa e uma vida útil de apenas 25 anos. Então o custo de um navio, se aplicado numa indústria, aquela indústria vai atender algumas gerações dos seus controladores e um navio acaba com 25 anos. Então, gerenciar navio é gerenciar contra o relógio, cada minuto perdido você não vai mais conseguir. Navio parado não rende frete, que é a mercadoria. Quer mais é ganhar frete, seja de quem for. Então, são características muito peculiares, o próprio homem do mar ele trás historicamente, até por hábito, procedimentos que não são usuais, nós somos um grupo muito, até por formação, a formação é militar, são 4 anos em terra o oficial, né, para então ele sair, depois volta para fazer curso para capitão também, então são muito disciplinados e isso redunda que até o grupo que trabalha com a Fronape sente isso nos funcionários de terra. O próprio engenheiro Arnaldo que é o atual gerente geral, antigo superintendente, ele comentou comigo, falou assim: “Fiquei impressionado como é que é um grupo disciplinado, engenheiros são disciplinados, todo mundo..”(riso) Não, não é que não sejam disciplinados em outros lugares, né, mas é todo um esquema de um grupo que, vamos dizer, uma parte ponderável dela que são os oficiais, tem formação militar e durante 40 anos foram chefiados por almirantes ou comandantes.(riso) Então tudo isso criou uma estrutura, mas todos são sindicalizados, todos participam, todos reivindicam, né, questionam e isso vai ser pelo tempo afora, né?(riso)
P/1 – Senhor Arnaldo o senhor poderia me destacar nessa sua trajetória alguma história marcante que tenha lhe tocado especialmente , uma história engraçada, uma história interessante ou um fato.
R- É, eu tenho, são muitos, são muitas as histórias, né, e eu tenho já material para publicar um terceiro livro que são estórias, sem aga, né, as estórias da Fronape, algumas até interessantes que não devem ser contadas, né?(riso)
P/1 – Mas no livro vai contar?
R – Não,no livro também não, porque são amigos, conhecidos e tripulantes que estão aí.
P/1 – Conta sem nome.
R – Mas eu lembro que em uma ocasião um dos grandes comandantes, eu servi com ele na primeira geração do navio e depois na segunda geração também e esse comandante felizmente vivo, mas hoje em cadeira de roda, né, foi obrigado a sair do mar, mas é uma pessoa tão ligada que deixou com a família o pedido de ser sepultado com a bandeira da Fronape, então é um espírito que adquire. E ele, em determinado momento da vida, virou espiritualista, cardecista. E eu estava no Golfo Pérsico comandando um navio, desse navio, grandão e o Harbour Martin descendo comigo, em determinado momento falou: “-Aquele comandante da Fronape que é maluco?” eu falei: “-Maluco, não, nós não temos nenhum maluco no comando.”(riso), “- Não...” o mulçumano falava firme: “-É um maluco.”, eu falei:“-Maluco? Não.”, “- É, um navio igual ao seu.” , eu falei: “Mais ainda seria a Empresa de dar um navio de um porte desses a um maluco.”(riso). Aí ele falou: “Não, o nome dele é estrangeiro.”, ele citou o nome dele; eu falei: “- Mas porque que está afirmando isso?”, ele falou: “- Não; nós estávamos os dois aqui, com temperatura de 52o C lá fora, a porta fechada do camarote, com ar condicionado para tornar menos insuportável o clima da região, ele levantou, pediu licença, foi à porta, eu vi ele conversando, aí bateu a porta e veio andando em minha direção e conversando com o vazio do lado dele, né, aí fez assim com a cadeira, sentou e falava inglês comigo, pedia licença e falava em português com a cadeira, ele é maluco.”, eu falei: “- Ah é, é maluco.”(riso)Ele não ia explicar nunca um mulçumano a entender o cardecismo do outro, né, então foi mais simples eu concordar com ele que o comandante era meio maluco.(riso)
P/1 – Cardecismo ativo, né?
R – É, e ele era. Esse comandante ele sofreu um grande acidente no Golfo Pérsico, o outro navio afundou, morreram, morreu a tripulação toda do navio, então nunca ficou-se sabendo porque ele; eram 2:00h e pouco da manhã, ele havia acabado de descer da ponte de comando e estava imaginando que ia descansar um pouco, quando o outro navio que vinha entre o nosso e um navio americano é.. informações do americano, corroboraram as declarações nossas, ele ficou com medo e cruzou. Era um navio coreano, no início que a Coréia começou a ir para o mar, né, ficou com medo e cruzou perigosamente a proa e os navios abalroaram. Abalroaram, o navio dele afundou, morreram todos os tripulantes, comandante, todos e o comandante subiu e viu o navio dele em chamas, deu ordem de abandono, mas ele não abandonou o navio, ele foi para o meio do navio que erroneamente muitos chamam meia-nau, mas na posição era meio-navio;
P/ - Chama como?
R – Meia-nau. Mas meia-nau é qualquer parte eqüidistante das bordas e meio-navio é a parte eqüidistante da proa e popa, onde não havia fogo e ficou sentado lá e um outro oficial ficou com ele, cardecista também, é, que foi meu oficial. E por sorte dele então, nesse momento se aproximou um rebocador de alto mar que era especializado em combate a incêndio e o comandante queria que ele passasse para o rebocador e ele, a bordo do navio dele em chamas começou a discutir os termos de salvamento. Ele só aceitaria que ele tentasse salvar o navio se fosse na condição “no cure, no pay” – não salva, não paga; (riso) “ –Tá tudo certo, mas vem para cá.”. Então o próprio comandante dele ficou impressionado, do comandante estar a bordo, aí salvaram os outros que estavam em baleeiras etc, não morreu ninguém dos nossos e a Fronape ficou muito reconhecida a ele, o navio ainda continuou prestando, foi recuperado, né, e durante muitos anos permaneceu prestando serviços à Empresa, um navio de mais de 100 mil toneladas, né, e ele quando, depois de tudo ia voltar para comandar, estava muito marcado, muito traumatizado, a Petrobras, a Fronape demonstrando, vamos dizer, um grande prestígio que ele tinha fez questão de nomeá-lo para render as férias do comandante que então comandava o navio de maior prestígio, entendeu? Então ele, era uma prova... Então, são essas relações, esse reconhecimentos que eram muito, muito comuns. É, eu também lembro como comandante, uma ocasião eu estava com uma pessoa e a preocupação era que esperava morrer a qualquer momento, não comuniquei a Empresa que eu ia arribar em Colombo, no Sri Lanka para deixar alguém que estava a bordo passando muito mal, porque a decisão de você arribar o navio é sua, do comandante, nem o comandante da Petrobras pode interferir, é lei marítima, é decisão única, técnica do comandante. Mas no dia seguinte...
P/1 – E é uma decisão importante, né?
R – Importante, é.
P/1 - Porque implica em custos, né?
R – Em custos, e elevados, né? Eu recebi a cópia de um telegrama que o superintendente da Fronape havia mandado para o agente em Colombo que recebeu um rádio meu dizendo que eu possivelmente deixaria no amanhecer do dia e não entraria no porto porque eu não tinha carta, não queria nem me aproximar muito, né, dizendo que já havia encaminhado uns 100 mil dólares solicitados e que atendesse o comandante em tudo que precisasse, inclusive dinheiro sem limites. Então são coisas que você não esquece. De outra vez, durante a guerra do Irã, em Israel, eu comandava nessa época o “Presidente Washington Luiz”, de 53 mil toneladas, estava lá dentro, o Suez fechado, né, tropa de um lado e do outro, zona de guerra, então eu não podia nem largar a âncora do navio porque lá embaixo eram as redes, né, então eu não podia fazer nada no porto, né, e quando o navio carregou...
P/1 – Eram as redes? Só um...
R – Um submarino __ _____ para combustível de carga, né, e eles sabiam que eu estava lá. Tocaram o black-out eu falei: “Não, não apaga o navio. Israel está vendo. Nossa bandeira está em cima que nós não...”, aí nós ficamos acesos, mas era exercício apenas.
P/1 – Mas dá um medo.(riso)
R – É, não sabia o que ia dar aquilo, né, navio carregado é morte certa(riso). Aí, no dia seguinte, quando ele, o Harbour Martin desatracou, o navio encalhou, entendeu?
P/1 – Encalhou?
R – Depois de eu usar todos os recursos e marinheiros para tirar o navio, aí eu comuniquei ao Rio, né, que eu estava encalhado e eu só recebi um rádio da superintendência da Fronape, (ajudessa?) quando você decodifica, nós temos um código, né, o comandante tem no cofre um código e que dizia assim: “Agir de acordo com decisões do comando.”, eu afretei...
P/1 – Agir de acordo com as descrições do comando.
R – Com decisões do comando. Então, não falaram nada, né, e nessa condição também, não fiz consulta nenhuma. Eu afretei o único navio da marinha egípcia, petroleiro que estava lá, para me aliviar para eu poder sair do encalhe, não houve água aberta, não houve nada, era fundo de lama e depois então, eu lembro quando terminou tudo, depois do terceiro dia acordado, o agente que estava a bordo falou assim: “- Tu quer sair a que horas?”, eu: “- Ah, eu vou sair agora.”, ele falou: “- Agora não, que o senhor vai levar tiro.” (riso) O senhor tem que avisar para os dois lados a hora que o senhor vai suspender a âncora para sair de viagem.” ; aí eu falei: “- Então, 6:00 horas da manhã.”, 6:00 horas porque já estava clareando, né, ficava mais seguro. Aí foram mandadas as mensagens para o lado em que estavam as tropas de Israel e para os egípcios, né, e nós então seguimos viagem. Então, as histórias são muitas, né?.(riso).
P/1 – Eu fico com pena, eu acho que a gente pode marcar uma nova entrevista mais longa, que eu acho que é muita história mesmo para a gente aproveitar.
R – Mais longa é, essa é muito longa. É muita história.(riso) Deve sair um livro, o livro não é de história, né, mas não deixa de ser. Alguma coisa que eu incluí é que o Brasil, até a Segunda Guerra Mundial, era um arquipélago, né, ele era ligado pelo navio. Então o navio tinha um poder integrador fantástico, porque o governador de qualquer estado vinha à corte no início ou vinha à capital Rio de Janeiro de navio, né, não existia outro meio. O deputado, o senador de férias ia também de navio. E a presença do navio na economia era tão importante, que mesmo onde não havia porto ele fundeava em frente a foz dos rios, normalmente, que eram séries de grandes municípios que adentravam interior sem ferrovias e sem rodovias e captava o que o interior produzia que descia pelo rio e que chegava ao seu costado em barcaças, né? E descarregava aquilo que a população daquele trecho do Brasil necessitava. Daí, num passado em que todos nós usávamos quase como primeira roupa, uma fardinha de marinheiro. Fazia parte da indumentária de qualquer garoto brasileiro ter uma roupa de marinheiro, né,(riso) tal a interface entre navio, marinheiro e sociedade.
P/1 – E sociedade.
R – É. Quando o meu neto nasceu, eu tenho um neto, né, coincidentemente eu exercia, eu era diretor da Petrobras no maior grupo internacional de seguro ligado a navio, né, então a cada 3 meses tinha uma reunião no exterior. Essa era em Paris e a minha mulher estava comigo, a primeira tarefa era procurar uma roupa para o neto que ia nascer e a roupa era certamente de marinheiro que nós estávamos procurando. Aí, não encontramos em Paris, lugar nenhum. E depois descobrimos que não encontro em lugar nenhum, nem no Rio você não encontra.(riso) Que, se você quiser, tem que mandar fazer.
P/1 – Que é daqui do Brasil?
R – Não, não encontra mais.
P/1 – Mas não encontra mais também?
R – Não, não, pode encontrar em casa simples, as casa ali do Fashion Mall tem uma galeria só de roupas...
P/1 – Vai contando as histórias de vida...
R – De vida, então está bom.(riso)
P/1 – Que a gente vai fazer e eu faço questão.
R –Por hora está encerrado?
P/1 – Não, deixa eu só fazer o final.
R – Pois, não. O final, é.
P/1 – Senhor Ronaldo, eu gostaria de perguntar o que o senhor achou também dessa iniciativa da Petrobras de fazer esse Projeto Memória e se o senhor gostou de ter participado?
R – Ah, sim. Eu gostei das duas coisas, né, ainda que não participasse, né? Mas eu acho que essa Empresa é tão importante, é uma coisa difícil de se associar Brasil e Petrobras, Petrobras e Brasil, que eu acho que a pessoa participar ao mesmo tempo é benéfico para aquele que participa, como é benéfico para aquele que está trabalhando e sabe que um dia ele também vai, em determinado momento da vida ele vai resgatar uma história que está aí para permanecer, né, uma coisa muito importante a Petrobras para todos nós, né? E felizmente hoje ela é vista como tal, né, houve muita contestação, mas hoje ela é vista como tal. Então, eu acho extremamente meritória e para mim é um privilégio também acrescentar e deixar aí na memória a longa experiência, sabedoria da experiência feita, né, que foi isso que foi importante na vida.
P/1 – Muito obrigada pela sua participação.
R – Nada.
(Very Wide Cable Care?) / (FPSO?) / (peleiro?) / (Dr. Mauro Ouro Fino?) / (ajudessa?) /
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