Relato de Caso – Experiência Profissional na Farmácia de IST (Ceilândia II, 2022)
Autora: Farmacêutica Aline Mesquita
Em 2022, durante meu período de atuação na Farmácia de IST da Policlínica II de Ceilândia – DF, vivi uma das experiências mais marcantes da minha trajetória profissional. Atendíamos diariamente pessoas vivendo com HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, em um contexto de grande demanda e deficit de profissionais, inclusive médicos.
Em um desses dias, uma senhora de aproximadamente cinquenta e poucos anos — com menos de três anos de diagnóstico de HIV — chegou para retirar sua medicação antirretroviral. Assim que a vi, percebi que algo não estava bem. Ela estava magra, abatida, com olhar triste e uma discreta gordura abdominal incompatível com sua perda global de peso. Perguntei se estava tudo bem, e ela, já chorosa, relatou fraqueza intensa, desânimo e perda de peso progressiva. Ainda lidava emocionalmente com o impacto recente do diagnóstico.
Diante da situação, decidi verificar seu prontuário eletrônico. Ao analisar seu histórico, percebi um ponto preocupante: desde o início do tratamento, ela nunca havia atingido carga viral indetectável. Além disso, identifiquei um exame de genotipagem já disponível no sistema — mas que, devido ao déficit de profissionais, ainda não havia sido avaliado por nenhum médico.
Com as informações em mãos, compreendi a gravidade do quadro. Saí em busca de algum médico que pudesse avaliar o caso com urgência. Consegui conversar com uma médica que estava na unidade naquele momento. Ao mostrar os resultados, ela imediatamente demonstrou preocupação e chegou a perguntar se a paciente ainda estava viva, pois se tratava de um caso de mutação viral complexa, com duas variações resistentes identificadas na genotipagem.
Felizmente, conseguimos encaixá-la em uma consulta de emergência.
Após acompanhar o encaminhamento, retornei à...
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Relato de Caso – Experiência Profissional na Farmácia de IST (Ceilândia II, 2022)
Autora: Farmacêutica Aline Mesquita
Em 2022, durante meu período de atuação na Farmácia de IST da Policlínica II de Ceilândia – DF, vivi uma das experiências mais marcantes da minha trajetória profissional. Atendíamos diariamente pessoas vivendo com HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis, em um contexto de grande demanda e deficit de profissionais, inclusive médicos.
Em um desses dias, uma senhora de aproximadamente cinquenta e poucos anos — com menos de três anos de diagnóstico de HIV — chegou para retirar sua medicação antirretroviral. Assim que a vi, percebi que algo não estava bem. Ela estava magra, abatida, com olhar triste e uma discreta gordura abdominal incompatível com sua perda global de peso. Perguntei se estava tudo bem, e ela, já chorosa, relatou fraqueza intensa, desânimo e perda de peso progressiva. Ainda lidava emocionalmente com o impacto recente do diagnóstico.
Diante da situação, decidi verificar seu prontuário eletrônico. Ao analisar seu histórico, percebi um ponto preocupante: desde o início do tratamento, ela nunca havia atingido carga viral indetectável. Além disso, identifiquei um exame de genotipagem já disponível no sistema — mas que, devido ao déficit de profissionais, ainda não havia sido avaliado por nenhum médico.
Com as informações em mãos, compreendi a gravidade do quadro. Saí em busca de algum médico que pudesse avaliar o caso com urgência. Consegui conversar com uma médica que estava na unidade naquele momento. Ao mostrar os resultados, ela imediatamente demonstrou preocupação e chegou a perguntar se a paciente ainda estava viva, pois se tratava de um caso de mutação viral complexa, com duas variações resistentes identificadas na genotipagem.
Felizmente, conseguimos encaixá-la em uma consulta de emergência.
Após acompanhar o encaminhamento, retornei à farmácia para seguir minhas atividades.
Alguns dias depois, a paciente retornou para buscar o novo esquema terapêutico, definido a partir da genotipagem. Realizei todas as orientações farmacêuticas necessárias, especialmente sobre adesão, horários, possíveis efeitos, e a importância do acompanhamento laboratorial.
Três meses se passaram.
Quando ela voltou para retirar seus medicamentos, reconheci-a de imediato — mas, desta vez, com alívio. Ela estava visivelmente melhor: mais forte, mais corada e com um sorriso largo no rosto. Disse que estava se sentindo muito bem. Perguntei sobre o exame de carga viral, e ela respondeu que já havia repetido, mas ainda não tinha visto o resultado.
Acessei o sistema e, para nossa alegria, lá estava: carga viral indetectável.
Quando lhe dei a notícia, ela começou a chorar. Eu me emocionei junto, e nos abraçamos. Ela me disse uma frase que levarei comigo para sempre:
“Você ajudou a salvar a minha vida.”
Naquele instante, eu soube que nenhum reconhecimento poderia ser maior do que aquele.
Foi, sem dúvida, uma das histórias mais marcantes da minha vida profissional — um lembrete poderoso da importância do cuidado atento, humano e interdisciplinar na vida de cada pessoa que passa pela farmácia.
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