Meu nome é Talita Luiz de Moura. Sou quilombola e nasci no povoado quilombola do Moinho, no município de Alto Paraíso de Goiás.
Um breve relato de uma experiência que eu vivi foi ainda na minha fase de adolescência, entre os anos de 2008, 2009 e 2010, quando terminei o ensino médio. Na época, o povoado do Moinho ainda não era reconhecido como quilombola; era somente o povoado do Moinho.
Lá só havia escola até o ensino fundamental. Quando chegava a hora de cursar o primeiro, o segundo e o terceiro ano do ensino médio, a gente tinha que se deslocar do povoado, que fica a 12 quilômetros de estrada de terra da cidade de Alto Paraíso de Goiás, para poder cursar esses três anos restantes.
Na época, o povoado do Moinho tinha cerca de 150 a 200 habitantes. Quando a gente chegou à cidade de Alto Paraíso de Goiás para estudar no Colégio Estadual Moisés Nunes Bandeira, encontramos uma realidade totalmente diferente.
Quem morava na cidade, na época, nos retratava como "os meninos da roça", "os roceiros". E era aquela forma de falar de antigamente, não era uma coisa legal. Era uma forma depreciativa. Eles achavam que, por morarem na cidade, eram superiores a quem morava no interior.
Então, sempre retratavam a gente como menor, como inferior. Eles podiam mais, e a gente podia menos, digamos assim. A gente já chegava à escola de cabeça baixa e ficava nos cantos da sala de aula, porque a forma como eles nos retratavam era muito depreciativa.
Por mais que conversassem normalmente com a gente, sempre havia aqueles que diziam: "Olha os meninos do Moinho!", e começavam a rir. Essa foi uma experiência muito ruim, porque a gente ainda não sabia como se defender.
A gente pensava: "Nossa, eu moro no Moinho, eles moram na cidade." Chegamos até a acreditar que éramos inferiores a eles.
O primeiro ano foi muito difícil. Quando chegou o segundo ano do ensino médio, lembro que tivemos uma aula sobre bullying. Eu nunca tinha escutado...
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Meu nome é Talita Luiz de Moura. Sou quilombola e nasci no povoado quilombola do Moinho, no município de Alto Paraíso de Goiás.
Um breve relato de uma experiência que eu vivi foi ainda na minha fase de adolescência, entre os anos de 2008, 2009 e 2010, quando terminei o ensino médio. Na época, o povoado do Moinho ainda não era reconhecido como quilombola; era somente o povoado do Moinho.
Lá só havia escola até o ensino fundamental. Quando chegava a hora de cursar o primeiro, o segundo e o terceiro ano do ensino médio, a gente tinha que se deslocar do povoado, que fica a 12 quilômetros de estrada de terra da cidade de Alto Paraíso de Goiás, para poder cursar esses três anos restantes.
Na época, o povoado do Moinho tinha cerca de 150 a 200 habitantes. Quando a gente chegou à cidade de Alto Paraíso de Goiás para estudar no Colégio Estadual Moisés Nunes Bandeira, encontramos uma realidade totalmente diferente.
Quem morava na cidade, na época, nos retratava como "os meninos da roça", "os roceiros". E era aquela forma de falar de antigamente, não era uma coisa legal. Era uma forma depreciativa. Eles achavam que, por morarem na cidade, eram superiores a quem morava no interior.
Então, sempre retratavam a gente como menor, como inferior. Eles podiam mais, e a gente podia menos, digamos assim. A gente já chegava à escola de cabeça baixa e ficava nos cantos da sala de aula, porque a forma como eles nos retratavam era muito depreciativa.
Por mais que conversassem normalmente com a gente, sempre havia aqueles que diziam: "Olha os meninos do Moinho!", e começavam a rir. Essa foi uma experiência muito ruim, porque a gente ainda não sabia como se defender.
A gente pensava: "Nossa, eu moro no Moinho, eles moram na cidade." Chegamos até a acreditar que éramos inferiores a eles.
O primeiro ano foi muito difícil. Quando chegou o segundo ano do ensino médio, lembro que tivemos uma aula sobre bullying. Eu nunca tinha escutado essa palavra na vida. Foi quando fui entender o conceito de bullying e percebi que a gente sofreu bullying durante todo o período em que estudou naquela escola.
Sofríamos bullying por morarmos na roça, por sermos roceiros e por morarmos no interior.
No povoado praticamente não havia nada. Tudo o que a gente queria fazer exigia que nos deslocássemos até a cidade. Lá havia acesso a aulas de violão, cultura e artes. Já nós, no povoado, tínhamos a nossa cultura, mas não sabíamos que aquilo também era cultura.
O nosso dia a dia era fazer o nosso trabalho. Meu pai, por exemplo, fazia rapadura, e aquilo era algo normal para nós. Hoje a gente entende que esses saberes fazem parte da nossa cultura.
Depois que tivemos essa aula sobre bullying, comecei a perceber os meus direitos e os nossos direitos. Foi uma virada de chave na minha cabeça. Eu pensei: "Nossa, eu preciso sair daqui, preciso estudar. Preciso voltar e mostrar para as crianças e para os adolescentes que eles têm os mesmos direitos que qualquer outra pessoa."
Independentemente de onde você mora, você tem direito ao acesso à educação, à cultura, ao lazer e aos demais direitos básicos.
Então eu saí, me formei e voltei. Hoje em dia, o povoado do Moinho é reconhecido pela Fundação Cultural Palmares como um povoado quilombola.
Hoje todo mundo quer um pedacinho daquela terra. Todo mundo quer morar no povoado do Moinho, porque lá é um lugar bom de morar. É um lugar calmo, tranquilo. Muita gente sai da cidade querendo morar na roça.
Mas hoje, quando se fala em morar na roça, já não é de forma depreciativa. Pelo contrário, é uma forma bonita de viver. O que antes a gente achava que era uma coisa ruim, morar no interior, hoje é visto de maneira totalmente diferente.
Hoje eu e meu esposo levamos para o povoado aulas de música. As crianças do povoado quilombola têm acesso gratuito a aulas de música, violão, canto e dança.
Estamos levando para o povoado aquilo que não tivemos na nossa infância, mas que é direito de toda criança e de todo adolescente: ter acesso à educação, à cultura, ao lazer e às oportunidades para se desenvolver.
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