Como dói carregar o que eu não escolhi,
esse peso maciço que o adulto arrasta.
Por tantas esquinas do mundo eu fugi,
fingindo uma vida que nunca me basta.
O trauma escondido na dobra do tempo,
um quarto trancado que a mente isolou...
Mas basta o silêncio de um só pensamento
pra ver que a ferida jamais fechou.
Eu sinto o pavor que o menino sentia,
o frio na espinha, o sobressalto no escuro.
A noite chegava e a alma temia
o som dos passos atrás do meu muro.
A mente pequena tentava entender
por que a inocência virou uma ameaça,
sem força nas mãos para se defender,
sofrendo o terror que o silêncio abraça.
Que angústia profunda, que poço de mágoa,
a dor me dizia que o erro era meu.
Eu olhava o espelho com os olhos em água,
sentindo a vergonha que em mim se acendeu.
"Por que não gritei?", a mente a indagar,
no pavor que o silêncio ali alimentou...
Paguei pelo crime de quem quis me usar,
carregando a sujeira que o outro deixou.
Cresci com o medo de ser descoberto,
olhando o mundo com desconfiança.
O meu próprio corpo parecia um deserto,
vazio de paz, de amor, de esperança.
As crises de pânico, o peito apertado,
a eterna certeza de estar estragado...
Reprimindo o choro por anos a fio,
tentando preencher um imenso vazio.
Mas hoje eu desabo, num pranto que lava,
cansei de cobrir o que o tempo velou.
A voz que por anos na peito travava
rompeu a mordaça que me aprisionou.
A minha consciência desperta e desonra
a velha mentira que o medo ditou:
Não há mais motivo pra tanta vergonha,
o monstro era ele, meu tempo chegou.
Não houve desejo, malícia ou pecado,
só houve a maldade que o outro exerceu.
Eu era um menino indefeso, acuado,
e o pranto que choro, hoje sei, não é meu.
Não cabe julgamento na carne inocente,
a força do bruto não foi minha escolha.
Desfaço o nó que prendia a minha mente,
saindo, por fim, dessa triste bolha.
Decido, então, caminhar pro passado,
descer os...
Continuar leitura
Como dói carregar o que eu não escolhi,
esse peso maciço que o adulto arrasta.
Por tantas esquinas do mundo eu fugi,
fingindo uma vida que nunca me basta.
O trauma escondido na dobra do tempo,
um quarto trancado que a mente isolou...
Mas basta o silêncio de um só pensamento
pra ver que a ferida jamais fechou.
Eu sinto o pavor que o menino sentia,
o frio na espinha, o sobressalto no escuro.
A noite chegava e a alma temia
o som dos passos atrás do meu muro.
A mente pequena tentava entender
por que a inocência virou uma ameaça,
sem força nas mãos para se defender,
sofrendo o terror que o silêncio abraça.
Que angústia profunda, que poço de mágoa,
a dor me dizia que o erro era meu.
Eu olhava o espelho com os olhos em água,
sentindo a vergonha que em mim se acendeu.
"Por que não gritei?", a mente a indagar,
no pavor que o silêncio ali alimentou...
Paguei pelo crime de quem quis me usar,
carregando a sujeira que o outro deixou.
Cresci com o medo de ser descoberto,
olhando o mundo com desconfiança.
O meu próprio corpo parecia um deserto,
vazio de paz, de amor, de esperança.
As crises de pânico, o peito apertado,
a eterna certeza de estar estragado...
Reprimindo o choro por anos a fio,
tentando preencher um imenso vazio.
Mas hoje eu desabo, num pranto que lava,
cansei de cobrir o que o tempo velou.
A voz que por anos na peito travava
rompeu a mordaça que me aprisionou.
A minha consciência desperta e desonra
a velha mentira que o medo ditou:
Não há mais motivo pra tanta vergonha,
o monstro era ele, meu tempo chegou.
Não houve desejo, malícia ou pecado,
só houve a maldade que o outro exerceu.
Eu era um menino indefeso, acuado,
e o pranto que choro, hoje sei, não é meu.
Não cabe julgamento na carne inocente,
a força do bruto não foi minha escolha.
Desfaço o nó que prendia a minha mente,
saindo, por fim, dessa triste bolha.
Decido, então, caminhar pro passado,
descer os degraus da minha própria dor.
Não vou mais deixar o menino isolado,
refém do fantasma daquele agressor.
Abro a porta de ferro da minha memória,
quebrando as trancas de tanta agonia,
para reescrever o final dessa história
com a força que antes eu não possuía.
Lá está ele, num canto, encolhido,
achando que o mundo inteiro ruiu.
O olhar assombrado, o choro contido,
na fresta de luz que o quarto engoliu.
Ele não tinha a minha consciência,
não tinha defesas, tamanho ou saber;
o outro usou de sua inocência,
forçando o pequeno a calar e sofrer.
Eu tomo o garoto em meus braços, dou calma,
o envolvo no manto do meu próprio ser.
Choro com ele, de alma para alma,
fazendo o seu peito parar de tremer.
E digo bem baixo, com todo o cuidado:
“Olha para mim, que o horror teve fim.
Você é tão puro e está resgatado,
o monstro sumiu, já não manda em mim.”
O garoto me olha, decifra meus traços,
e entende, por fim, que jamais teve culpa.
Ele chora o seu medo e se entrega aos meus braços,
num sopro de paz que acolhe e desculpa.
A mente pequena perdoa o passado,
se livra do fardo de tanto sofrer,
deixando no chão o pecado inventado,
na doce certeza de que pode vencer.
Ali se encontram, num pacto profundo,
a criança sofrida e o adulto marcado.
As marcas que trago nas dores do mundo
se unem ao peito que foi resgatado.
Reconciliados, curando a ferida,
nós dois, lado a lado, voamos do chão.
Ambos, bem juntos, celebram a vida,
na mais absoluta e real libertação.
Recolher