Projeto Memórias das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Claudia Visoni
Entrevistada por Bruna Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo, 26 de maio de 2026.
Entrevista n°: RIO_HV007
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrita por Adyel Beatriz
Revisada e editado por Levi Andrade
[00:18] P/1 – Para começar, peço que você se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R – Meu nome completo é Cláudia Visoni. Nasci em 27 de janeiro de 1966 aqui em São Paulo, no Hospital do Servidor Público — meus pais eram servidores públicos e naquela época minha família morava no Bexiga.
[00:40] P/1 – Me conta o nome dos seus pais e o que faziam.
R – Minha mãe se chama Maria Wanda Borges Vizoni, era professora. Meu pai se chamava Mário Vizoni, já é falecido, era policial.
[00:57] P/1 – Como você os descreveria?
R – Meu pai era um camponês que nasceu em 1926 no interior de São Paulo. Era filho temporão de imigrantes italianos — meus avós vieram adolescentes para o Brasil ainda no século XIX. Meu avô era de 1875, minha avó de 1888. Como meu pai casou tarde, era um dos últimos filhos. Para eu chegar na Idade Média é só esticar o braço — está muito perto. Ele cresceu nessa família camponesa e muito do que faço hoje tem a ver com uma necessidade de reparação histórica e cármica, porque nos anos 30 o arco do desmatamento no Brasil estava no interior de São Paulo. Meu pai era uma pessoa profundamente ligada à natureza, mas o modus operandi da época era: quando se conseguia comprar uma pequena terra, colocava fogo em tudo. Ele era adolescente quando isso aconteceu e contava para a gente — foi uma coisa que marcou muito a vida dele. Conseguiram comprar um sitiozinho, fizeram aceiro, colocaram fogo em tudo, os bichos morreram. Eles foram morar numa cabana com frestas entre as madeiras e dormiam com espingarda por causa das onças. Isso era o interior de São Paulo. E a gente conseguiu ir destruindo tudo — agora o arco de desmatamento está lá no Acre. Meu pai era um cara muito calado, pescador, muito chegado na natureza, de poucas palavras, que estudou pouco, mas conseguia captar tendências de uma maneira muito natural. Isso é uma coisa que acho que herdei um pouco dele — não sei se é genético. Não sei jogar xadrez, minha cognição não é suficiente para isso, mas o mundo se apresenta para mim como um tabuleiro de xadrez e muitas vezes consigo dizer: "Daqui a duas jogadas vai acontecer isso." O fato de eu ser ambientalista tem tudo a ver com isso. Minha mãe também nasceu no interior. Os dois vêm da chamada Alta Paulista, no extremo do estado de São Paulo, de cidades próximas, e se conheceram em São Paulo nos anos 60. Ela era caçula de uma família com ascendência já brasileira mais antiga, portuguesa — a gente fez até teste de DNA, e dá para saber: português, norte da África, tudo muito misturado, vindo de Minas e depois para São Paulo. O meu bisavô materno as pessoas diziam que era afrodescendente, mas quando a gente foi fazer o teste de DNA, havia uma parcela muito pequena de afrodescendência e uma parcela maior de indígena dos Andes. Quando a gente vai ver foto da família, fala: "As pessoas têm um pouco cara de peruanos." Então, embora se diga que todo mundo no Brasil tem ascendência indígena, a minha não é Guarani — é dos Andes.
[05:00] P/1 – Em que cidades seus pais nasceram? E você chegou a conhecer seus avós?
R – Meu pai nasceu em Penápolis e minha mãe em Quatá. Só conheci uma avó materna. Meu avô materno morreu quando minha mãe era adolescente, e meus avós paternos morreram nos anos 50 — eu nasci nos anos 60, então não os conheci.
[05:14] P/1 – Me conta dessa avó materna que você chegou a conhecer.
R – Ela se chamava Maria Antônia Oliveira Borges. Casou muito cedo e sustentou a família sendo costureira. Era uma pessoa fisicamente agitada, que trazia essa conexão com gerações anteriores. Ela casou com meu avô, que era empregado da fazenda dos meus bisavós. Foi testemunha popular da crise do café em 1929 — quando houve a quebra da bolsa em Nova York, ela contava que no sítio do pai dela passaram a noite inteira queimando o café. Fizeram uma fogueira, pegaram a safra inteira e botaram fogo, porque não havia comprador.
[06:34] P/1 – Como foi a decisão de seus pais de vir para São Paulo?
R – Meu pai veio no fim dos anos 40. Depois da guerra, em 1948, ele queria entrar para o exército — era o sonho da vida dele. Mas foi impedido. Ele morreu sem saber por quê e eu descobri muitos anos depois, lendo uma notícia no jornal: naquela época, nos anos 40, não queriam italianos no exército brasileiro. Meu pai tinha 1,87 m, era super atlético — não havia nenhuma desculpa plausível, então inventaram que ele tinha o pescoço muito largo. Foi impedido por questão racial. O Brasil estava em guerra com a Itália e, embora ele fosse nascido no Brasil, tinha sotaque a vida inteira — era monolíngue, só falava português com sotaque italiano, e muita gente achava que não era brasileiro. Então ele entrou na academia de polícia, que era o mais próximo, e virou policial civil. Minha mãe veio para estudar — havia terminado o curso normal e queria fazer faculdade. Mas não conseguiu: houve um concurso, ela empatou com outra pessoa e o desempate foi por idade; a outra era mais velha e levou a vaga. Logo depois ela conheceu meu pai, casaram, e ela foi professora primária a vida inteira até se aposentar. Gostava muito de português e se esforçou muito para que a gente tivesse uma boa educação. Fez das tripas coração para a gente ter acesso a bolsa em escola privada. Grande parte da minha formação foi em escola pública, mas da sétima série ao terceiro colegial estudei em escola privada com bolsa — e depois fui para a USP.
[09:49] P/1 – Você tem irmãos? Como eram os nomes e como era a relação na infância?
R – Tenho um irmão um ano mais novo, Mário Luiz, e uma irmã sete anos mais nova, Maria Luiz. Eu não era muito próxima deles. Na verdade, não era muito próxima de ninguém — eu queria crescer, queria sair daquela casa, queria viver outra vida. Meus pais brigavam muito, eu não me sentia acolhida. Sempre fui esquisita, e ninguém me entendia de verdade. Meus irmãos ficaram muito próximos um do outro, mas eu era meio desconectada de todo mundo. Fazia mil atividades fora de casa, comecei a trabalhar muito cedo, saí de casa cedo.
[10:41] P/1 – Você sabe por que se chama Cláudia?
R – Não me contaram, mas desconfio que foi por causa da revista Cláudia — na qual trabalhei, inclusive. A revista Cláudia foi lançada em 1961 e foi um grande marco do feminismo no Brasil. Acho que era um desejo inconsciente da minha mãe ligado a pautas feministas que ela não pôde assumir — então me deu esse nome. Quando eu trabalhava lá, era a única Cláudia na redação. Alguém ligava pedindo para falar com a Cláudia e me passavam o telefone. Quando eu era criança, já fui a uma classe do primário com seis Cláudias.
[12:01] P/1 – Me conta como foi essa época da infância, da escola.
R – Eu queria ir para a escola desde que me conheço por gente. Fui alfabetizada com 5 anos, minha meta de vida era ir para a escola. Consegui entrar com 4 anos. Para mim demorou muito — naquela época as crianças entravam com 6 anos. Lembro do primeiro dia de aula: eu e o Guilherme, meu vizinho de frente, ele com quatro anos e meio, eu com quatro. Entramos na classe e fecharam uma grade. Ele foi para a grade e ficou com o bracinho para fora. Eu olhei e fui para lá também. Minha adaptação escolar foi assim — entrei e fiquei super feliz. Nessa época eu já negociava com meu pai para aprender a ler, mas ele achava que eu era muito pequena. A gente negociava letras: eu só podia saber o “C” do meu nome, o “M” do nome dele e o “V” do sobrenome. As outras eu não podia saber. “O” que era muito mais difícil — eu pegava um jornal e ficava fazendo uma investigação científica: “Tem uma letra igual ao "V", mas ao contrário e com um traço no meio. Que letra será essa?” Quando entrei no pré — que se entrava com 6 anos —, minha mãe era professora naquela escola e eu tanto incomodei que eles me colocaram com 5 anos, com o acordo de repetir o pré. Só que eu cheguei lá, olhei para a lousa e pensei: “Quando terminar este ano, vou saber ler todas essas letras." Foi muito fácil aprender a ler e eles não podiam me segurar no pré. A professora chamou minha mãe: "Ela está alfabetizada, é uma das melhores da classe, vai.” E fui. Por um lado, isso foi bom — com 20 anos exatos eu estava formada em jornalismo. Por outro lado, gerou uma dissonância entre o físico e o intelectual: eu era a boba da classe sempre, porque era muito mais nova. Para complicar, minha família tem uma característica de desenvolvimento biológico atrasado. Terminei de crescer no terceiro ano da faculdade — tirava férias na ECA e voltava, e o professor falava: "Que bonitinho, você cresceu." Acabei de crescer com 19 anos, no terceiro ano da faculdade.
[15:27] P/1 – Em que bairro você foi criada?
R – Nasci no Bexiga. Com 2 anos e meio mudei para o Sumarezinho, para a Rua Pereira Leite, que fica exatamente a 500 m da Horta das Corujas. Cresci lá e morei lá até os 21 anos, quando fui morar sozinha.
[15:54] P/1 – Como era o Sumarezinho quando você era pequena?
R – Quando era muito pequena não lembro, mas meus pais contam que a Rua Pereira Leite era de terra quando a gente mudou. Ela foi logo depois recapeada. Em 1968, aquele canto ali da Horta das Corujas era meio fim de cidade — não havia nada até o Palácio dos Bandeirantes no Morumbi, dava para ver de casa. Vou ler para vocês a primeira cena do meu livro sobre a Horta das Corujas, que conta um pouco a história do bairro: “O ano era mais ou menos 1980. Adolescente que estudava em colégio puxado, praticava esportes e dava aulas particulares para gerar a própria mesa, eu quase não tinha tempo livre. Morávamos na Rua Pereira Leite, no bairro do Sumarezinho, zona oeste de São Paulo, logo acima da Rua Dom Rosalvo, construída ao lado do recém-canalizado Córrego das Corujas. A uns 500 m de casa existia um morro meio largado onde um dia seria construída a Praça Dolores Ibárruri — nome que nunca pegou, todo mundo conhece por Praça das Corujas. Nas poucas horas de descanso, gostava de passear com Thomas, o cachorro da família Vizoni na época. Às vezes deixava o boxer fofo me levar para onde ele queria ir. Um dia fomos parar numa ruazinha pavimentada com blocos de concreto, ao lado de uma parte do Córrego das Corujas que corria — e felizmente ainda corre, mais de quarenta anos depois — a céu aberto. Do outro lado do riacho, avistei uns cavalos, uma casinha de madeira, bananeiras. Fiquei totalmente hipnotizada. Cena mágica em plena metrópole — parecia um portal para outra dimensão. Parei e fiquei contemplando não sei quanto tempo. Esse é exatamente o local onde, em 2012, seria inaugurada a Horta das Corujas, primeira horta comunitária em praça pública da cidade de São Paulo.” Foi assim que conheci o lugar da horta — na infância, com 14 anos. Foi meu cachorro que me arrastou para lá.
[18:41] P/1 – Sua relação com a natureza, de onde vem?
R – Vem de muito antes. Há dois fatos. Primeiro, meu pai era uma pessoa muito conectada com a natureza — cresceu no campo, era pescador, fazia caça submarina. Em 1970, com eu tendo 4 anos, terminamos de construir uma casa no litoral norte de São Paulo, numa praia que hoje é chique — Guaicapá —, mas na época era o fim do mundo. Aquilo era mato, a estrada era de terra, ninguém sabia que existia. As férias de verão naquela época eram maiores do que hoje, quase três meses. Como a gente não tinha muito dinheiro e lá não tinha o que gastar, era o destino de férias. Eu ficava dois meses no meio de uma praia selvagem — 2 km e meio de areia, sem ninguém. Muitas vezes a gente chegava e não tinha uma só pessoa. Fui jogada nessa situação. O outro fato é que eu era louca pelo escotismo — sempre fui. Na escola onde estudava havia um grupo de bandeirantes, que é o escotismo feminino com esse nome que ficou no Brasil. As meninas eram bandeirantes, e eu estava louca para entrar. Só podia com sete anos, já estava na fila quando fiz sete anos. E o movimento bandeirante-escoteiro é muito pioneiro nas questões ecológicas. Ouvi a palavra ecologia pela primeira vez em 1974, com oito anos, numa reunião do movimento bandeirante. A mãe de uma colega havia voltado dos Estados Unidos — essa palavra nem era conhecida no Brasil —, tinha feito uma pós-graduação em ecologia, voltou para o Brasil e fez a coisa certa: pediu para falar com as crianças. Contou basicamente que a nossa biosfera é frágil e que o ser humano a estava ameaçando de diversas formas. E eu entendi. Tinha 8 anos. Nunca mais encontrei essa pessoa. O próprio movimento era uma coisa bem roots. Com 10 anos te davam um machado, um serrote, e você ia acampar. No primeiro dia tinha que montar as barracas — eram barracas de exército, de lona pesada —, construir a cozinha, o fogão, a mesa, a cadeira, colocar o toldo. Não ia comer enquanto a cozinha não estivesse construída. Existem teses que mostram que muitos ambientalistas, não só no Brasil, foram escoteiros ou bandeirantes na infância. A gente tinha uma máxima: lixo de bandeirante é no bolso. Desde os 7 anos não jogo lixo. Você volta para casa com seu lixo no bolso. Essas duas coisas me aproximaram e eu passei a acompanhar as questões ambientais desde a infância. Lembro da Transamazônica — o primeiro trecho foi inaugurado em 1972, eu vi no jornal, na televisão. Em 1986 eu trabalhava na Rádio USP e li no jornal que São Francisco estava implantando a coleta seletiva. Fui acompanhando. Encontrei aquela famosa carta do Chefe Seattle [texto atribuído ao líder indígena americano Seattle, 1854, sobre a relação dos povos indígenas com a terra] emoldurada numa sorveteria em São Sebastião, com uns 13 anos, tomando um sorvete — comecei a ler e minha cabeça foi fazendo conexões. Então é uma coisa que veio no pacote, veio comigo. Tenho 60 anos, faz mais de 50 que estou ligada a esse tema. Cobri a Rio 92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, Rio de Janeiro, 1992] como jornalista.
[24:37] P/1 – Além do escotismo e da leitura, você brincava na rua? Como era isso?
R – Minha rua era perigosa, mas eu tinha um quintal. E tem outro fato muito constituinte da minha pessoa: os esportes. Pratico esporte desde que nasci. Uma vez fui preencher uma ficha de academia, tinha 35 anos, e a pessoa perguntou: "Há quanto tempo você faz atividade física?" Escrevi: 35 anos. Ela falou: “Está errado.” Eu nunca fui sedentária. Tive filhos gêmeos e durante três meses da gravidez só podia andar. Foram os únicos três meses da vida — e ainda andava todo dia. Quando fez três meses e um dia, fui para a piscina e nadei quase até eles nascerem. Primeiro esporte organizado: com 6 anos competi em natação. Com 10 fui fazer ginástica olímpica. Jogava todos os esportes de bola, inclusive futebol — que não era comum na minha geração, menina jogar futebol. Jogo até hoje. Jogo basquete. Hoje tem treino, na verdade. Na semana passada teve jogo. Jogo no clube. Fiz 60 anos e a categoria vai dos 18 até os 65 — tive que renegociar. A gente joga contra time universitário.
[27:07] P/1 – Me conta como era a questão da leitura na sua casa.
R – A gente não tinha muito dinheiro. Não é que não havia nenhum livro, mas não se comprava livro. Eu gostaria de ter tido muito mais acesso a livros. Tinha os da escola, um ou outro que caía na mão. Mas sempre li. Tenho um conceito de tempo útil — minha vida é feita de tempos úteis: ou estou estudando, lendo, praticando esporte. Jornal meus pais assinavam, eu tinha acesso. Revistas às vezes surgiam. Tinha a coleção Os Bichos, da Editora Abril — era uma enciclopédia de animais, linda. Então algumas coisas tinha. E eu amava ler, escrevia cartas, adorava desenhar. Achei que minha vida profissional ia para esse lado. Uma vez, quando era pequena, desenhava história em quadrinhos sem parar. Um dia virei para minha mãe: “Mãe, que faculdade eu tenho que fazer para criar história em quadrinhos?” Ela falou: “Não sei, acho que publicidade.” Isso eu tinha uns 9 anos. Falei: “Ótimo, vou ser publicitária.” Com 13 anos descobri que publicidade era a favor do sistema e eu era uma pessoa contra o sistema. Falei: “Então vou fazer jornalismo." Decidi com 13 anos e não precisei mais deliberar sobre isso.
[30:34] P/1 – Como foi a adolescência?
R – Não foi muito fácil porque eu não me dava bem em casa. Tenho um problema sério na coluna chamado escoliose — minha coluna é em S, com 56 graus de desvio. Com 15 anos tive que usar colete e os médicos disseram que eu precisava operar. Falaram que com 40 anos, se não operasse, teria insuficiência cardiorrespiratória e nunca poderia ter filhos. Minha sorte é que minha avó também tinha escoliose, a dela com 60 graus em C, e teve oito filhos. Virei na cara dos médicos: "Você está mentindo, porque minha avó tem uma escoliose maior que a minha, ela teve oito filhos, então eu não vou operar." Fui em seis médicos até que um topou me tratar sem cirurgia. A operação consistia em abrir a coluna toda, pegar uma barra de ferro, amarrar a coluna na barra, fechar e deixar a pessoa engessada por 1 ano. Eu falei: "Não vou fazer isso de jeito nenhum." Tive que usar o colete 23 horas por dia — só podia tirar para fazer ginástica. E os médicos me proibiram de fazer atividade física na escola para não tirar o colete na hora da aula de educação física. Então não pude praticar esportes na escola por 1 ano. Ficava sentada enquanto todo mundo jogava bola e chorava porque queria jogar. Estudava no São Luís, escola que tinha muito mais homens do que mulheres. Todo ano havia uma premiação de destaque por disciplina. Ganhei o prêmio de educação física no primeiro e no terceiro ano — só não ganhei no segundo, porque fui impedida pelo colete.
[34:37] P/1 – O que te fez decidir pela USP?
R – A falta de dinheiro — era a melhor faculdade e a gratuita. O ano que eu entrei, a Fuvest separou por disciplina o vestibular, e a nota de corte de jornalismo foi 62, a segunda mais alta, logo atrás de medicina que foi 66. Só me inscrevi na USP. Falei: "Não tenho dinheiro para Cásper Líbero ou PUC, vamos que vamos." Consegui entrar e fiz ECA [Escola de Comunicações e Artes da USP], jornalismo.
[35:57] P/1 – Como foi esse período na ECA? Você contou que sempre foi muito nova em relação aos colegas.
R – Foi um caos, porque era infância mesmo. Quando passei no vestibular, eu tinha 16 anos — no primeiro dia de aula já tinha 17. Havia sinapses no meu cérebro que ainda não estavam feitas. E era uma classe que atraía muita gente que já havia feito cinco anos de medicina ou três de Poli e resolveu ir para a ECA. Tinha muita gente mais velha, com muita vivência, e eu estava saindo de uma escola católica, chegando nesse meio cheio de punk. Minha alegria foi o CEPE USP [Centro de Práticas Esportivas da USP]. Eu fiz todas as competições de atletismo, natação, todos os esportes com bola. E comecei a treinar remo. Me chamavam de Clau-esporte. Tinha um pessoal no gramado com ressaca e eu chegava da raia da USP — ia a pé de casa, do Sumarezinho, até a USP. Chegava na aula tão cansada que não conseguia levantar os braços. Ficava um tempo assim. Quando conseguia levantar os braços, comia um sanduíche gigantesco — tinha acabado de treinar remo. Chegava de bermuda, roupa de treino, cabelo molhado, com graxa do barco na perna. Era um ET. Um dia um professor de rádio-TV me encostou na parede enquanto eu entrava na faculdade e me deu uma bronca gratuita: disse que a vida era muito dura, que eu não ia conseguir praticar esporte quando tivesse que trabalhar. Me xingou e foi embora. Olha aqui — tenho 60 anos e jogo basquete.
[39:46] P/1 – Você continuou indo para a praia durante a faculdade? O que você fazia para se divertir além dos esportes?
R – Continuei. Começou a ter bloco de carnaval e até os 19 anos fui muito. Festas, muitas coisas. Não era uma pessoa careta. Vivia saindo à noite, voltava de madrugada. Fui arranjando jeitos de ficar longe de casa. Primeiro o escotismo — até os 14 anos tinha acampamento em toda férias. Quando saí do escotismo com 14 anos, entrei no movimento juvenil católico. Se você fala "movimento juvenil católico", parece uma coisa super careta. Na verdade era uma galera que se encontrava numa missa às 3 da tarde no sábado e saía voltando para casa às 4 da manhã. Tinha 14 anos, saía com essa gente, voltava de carona quando tinha, senão a pé. Meu pai me dava a chave de casa. Era um caos.
[41:52] P/1 – Como foi se formar na ECA? Você já trabalhava? O que queria seguir como profissão?
R – Tinha um plano B que era ser professora de francês — é minha segunda língua, gosto muito dela. Na minha escola tinha francês e inglês, fui boa aluna e quando acabou a escola entrei na Aliança Francesa, fiz até o fim. E jornalismo era uma profissão difícil: falei "se não conseguir ser jornalista, vou ser professora de francês." Mas comecei a trabalhar com 14 anos, dando aula particular de português, história, francês. No terceiro ano da faculdade entrei na rádio 89, que era Pulse FM quando começou no Brasil, em 1985. Meu primeiro emprego tinha sido ser secretária do Centro Acadêmico de Minas e Metalurgia da Poli — de manhã eu estudava na ECA, à tarde era secretária do Centro Acadêmico. Depois fui para a rádio, depois para a Rádio USP. E na Rádio USP comecei a pegar freelances na revista Placar, em 1986. Aí surgiu no Brasil uma revista chamada Náutica e eu fui repórter da primeira equipe — era uma coisa que eu tinha muita facilidade, porque meu pai tinha barco, fazia caça submarina, eu entendia muito de mar. Tirei carta de mestre amador. O curso era engraçado: eu com 20 anos e um monte de senhorzinho que tinha comprado lancha. Eu ia melhor que eles, eles ficavam furiosos. Teve um ano da minha vida que foi o ano que eu vivi no mar. Era repórter da Náutica, havia acabado de sair da casa dos meus pais, morava com minha amiga Ângela. As reportagens eram no mar — ficava às vezes uma semana embarcada. As tripulações eram masculinas, e eu entrava no rolê: era eu com 20 anos e cinco caras num barco uma semana. Essa era minha vida. Aí a Náutica foi comprada e eu não queria sair da Editora Abril. Poderia ter me tornado uma grande jornalista náutica, mas queria ficar na Abril por outras possibilidades. Fui trabalhar na revista Cláudia. Tinha 22 anos e fui demitida por excesso de juventude. Comecei a editar matérias de comportamento — relacionamento, divórcio, dramas pessoais — e as matérias iam super bem. Mas um dia a diretora de redação me chamou: "Eu sei que você é muito competente, mas você é muito jovem para trabalhar aqui." Eu virei para ela e disse: "De todos os defeitos que tenho, este é o único que com o tempo passará naturalmente." E fui embora. Como eu era jovem, me colocaram na revista Capricho. Fui editar comportamento e foi uma época de enorme sucesso da revista — redação revolucionária, o organograma era uma espiral. Eu era editora de comportamento e inventei uma página chamada "ecologia". Todo mês escrevia sobre algum tema ligado a meio-ambiente para jovens. Fiquei lá cinco anos e cobri a Rio 92.
[47:39] P/1 – Como era falar de ecologia para adolescentes naquela época?
R – Foi maravilhoso. Adolescentes e crianças entendem muito melhor do que adultos. Há até um livro do Jonathan Safran Foer [escritor americano, autor de Nós Somos o Clima, 2019] onde ele diz: "Nenhum barulho é suficiente para acordar uma pessoa que finge que está dormindo." Um adulto não quer entender, porque o interesse dele é não entender. Adolescentes são diferentes. Cheguei na Rio 92 e fui direto para o Aterro do Flamengo, para o fórum paralelo — que depois deu origem ao Fórum Social Mundial. Lá, pela primeira vez, encontrei gente da permacultura, gente do mundo inteiro. Falei: "Aqui está a minha tribo." Teve um momento que foi lindo: o Jacques Cousteau [1910-1997, oceanógrafo e explorador francês, pioneiro da conservação dos oceanos] estava velhinho, entrou de carro, era enorme aquele aterro na algazarra. Fez silêncio quando ele começou a falar: "My friends from all over the world. I apologize for being such a bad environmentalist. I travel a lot by plane." Falou: "Meus amigos do mundo inteiro, venho aqui me desculpar por ser um ambientalista tão ruim — viajo muito de avião." Essa é a minha turma. Eu e a Ciça, minha amiga editora assistente, ficamos conhecendo pessoas, cobrindo aquilo com o olhar do adolescente. Ganhei de uma menina de Gana um sino que guardo até hoje, no dia em que o Rainbow Warrior [barco do Greenpeace] estava chegando à praia. Os acordos que foram feitos e que ninguém cumpriu não interessavam. A Rio 92 eu acho inútil — assim como acho todas as COPs. Antes da COP 30 [30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, Belém, 2025], fui na internet e li todos os documentos que saíram da Rio 92. Não precisava nem ter havido COP 30, era só copiar e colar — nada foi feito e tudo, há 34 anos atrás, já estava escrito.
[52:56] P/1 – Como você era recebida institucionalmente na revista cobrindo essas pautas?
R – A revista era absolutamente libertária. Era uma experiência de gestão que levei para o resto da vida. O organograma em espiral começava pelo centro: o atendimento ao leitor — três meninas que ficavam o dia inteiro recebendo cartas, porque não havia e-mail ainda, a gente recebia caixas de cartas. Toda reunião de pauta começava com o relatório: "Este mês recebemos tantas mil cartas, X mil por causa disso, X mil por causa daquilo." A gente construía a revista a partir desse diálogo com a leitora. Era tão livre que uma das pautas que tive de trabalhar era masturbação. Falei: "Como começo a escrever isso para uma menina de 13 anos?" Criei uma pesquisa com focus group — dois dias, dez adolescentes por dia. Chamei as meninas para a Editora Abril, lanchinhos, e fui coordenando a conversa: escola, namoro, dando corda até chegar. Tinha uma menina de 14 anos que namorava um cara de 26 e havia mentido para ele que era virgem — chegava a esse nível de profundidade. Nas duas sessões, na hora em que falei "vamos falar um pouco sobre masturbação", todo mundo ficou mudo. Pausa total. Falei: "Agora já sei como começa a matéria." Eu fazia os testes da revista — "Você é isso, você é aquilo" —, criei uma metodologia para os testes e era muito bom. Por que decidi sair da Capricho? A redatora-chefe pediu demissão. Eu fazia 70% da revista sozinha. Eles chamaram a editora de beleza para ser redatora-chefe. Virei para elas e disse: "Eu não vou responder para ela. Se não querem me colocar no lugar, vou embora." Um ciclo já havia acontecido, então fui para a revista Elle. Fui fazer cultura e comportamento e trabalhei com a Ana Wintour brasileira — Regina Guerreiro —, aquilo era o Diabo Veste Prada mesmo. Fiquei lá um ano. Depois recebi um convite para ser diretora de redação da revista Boa Forma. Meu ex-chefe da Náutica havia virado diretor de divisão na editora e me chamou. Nunca tinha aberto a revista na vida. Falei: "Me dá os três últimos números." Li. Falei: "Já sei como é." Entrei, comecei a mexer editorialmente, a revista começou a dar super certo. Tinha 28 anos. Um dia o dono da editora foi lá e me fez várias perguntas estratégicas, depois disse: "Quis vir aqui conversar com você para saber se você sabia o que estava fazendo ou se era tudo uma grande coincidência." Fiquei lá de 1994 a 2000. A editora foi comprada pela Editora Abril. Voltei para a Abril. Em 2000 eu queria ir trabalhar com internet — já tinha percebido. Em 1998, eu e meu ex-marido nadávamos na piscina de uma academia, havia uma livraria grande com café acima das revistas, e a gente ficava observando o consumidor. Via as pessoas apanhando revistas, abrindo, fechando, indo embora. Falei: "Esse negócio de revista vai acabar. Vem aí a internet." Queria ir para a internet, mas o chefe não achava que eu era cool o suficiente. Então, no começo de 2000, umas mulheres do mercado financeiro me chamaram para um portal feminino multinacional — Brasil, Estados Unidos, México e Argentina — que depois passou a se chamar Obsidiana. Me convidaram para ser editora de saúde e fitness. Aceitei principalmente porque queria entrar na internet e na Abril não iam me deixar.
[01:05:06] P/1 – O que você sentiu quando saiu de casa, quando foi morar sozinha?
R – Meu sentimento foi: sobrevivi àquela loucura. Minha vida melhorou muito e foi ótimo. Alegria. Morei menos de um ano com minha amiga, porque arranjei um namorado na Placar — ele era fotógrafo, editor de fotografia, e a gente juntou. Eu tinha 22 anos. Ele era judeu e me aproximei muito da cultura judaica. Vivi com ele quatro anos, mas ele tinha um plano de carreira para mim que não era bem eu, e a gente se separou. Logo depois — menos de um ano depois — reencontrei o Mauro, com quem havia namorado quando tinha 19 anos. Casamos e ficamos casados 25 anos. Ele é pai do Alex e da Julieta, meus filhos.
[01:06:29] P/1 – Me conta o que estava acontecendo na sua vida pessoal na época da Obsidiana.
R – Eu e o Mauro trabalhávamos na mesma empresa, éramos executivos, os dois com carro da empresa. Quando saí da Abril e fui para a Obsidiana, eu já queria engravidar. Na primeira reunião com as chefas, numa pergunta sobre minha vida pessoal, virei para ela e disse: "Sou casada há seis anos, não tenho filhos e pretendo ter em breve." Ela respondeu: "Não, tudo bem." Estava fazendo tratamento para engravidar quando veio a bolha da Nasdaq. A empresa, que havia começado com muito dinheiro, começou a diminuir. No fim do ano, começo do ano seguinte, eu tinha que demitir pessoas. Estava grávida de gêmeos e eram duas energias muito opostas — chamava o pai de família para demitir e os filhos começavam a chutar na barriga. Quando estava com sete meses de gravidez — isso era março, eles nasceram em junho —, a chefa me ligou: "Você foi a executiva escolhida para fazer a fusão das empresas." Falei: "Não vou fundir nada neste momento, não tenho condição." Mas estava no auge da carreira. Meus filhos nasceram em junho — vão fazer 25 anos na semana que vem. Só que não bastando serem gêmeos, meu filho nasceu com síndrome da morte súbita. É sobrevivente. Está ótimo, sem sequela nenhuma, mas foi por um triz. Ele teve uma parada respiratória com 15 dias de idade e a gente descobriu que ele tinha isso de um jeito confuso. A situação era: até um ano de idade, toda vez que ele dormisse, podia não acordar. Tinha dois filhos gêmeos e um que toda vez que dormia podia não acordar. Tinha que ser monitorado 24 horas por dia. Quando eles tinham um mês, um headhunter me achou — a AOL [America Online] vinha para o Brasil e procuravam um diretor de conteúdo. Me chamaram para entrevista. Falei: "Não vai dar." O cara disse: "Você vai ser a chefe, pode escolher seu horário de trabalho." Respondi: "Conheço o mercado de trabalho. Você está me dizendo que posso escolher as 16 horas por dia que vou trabalhar? Se eu começar à meia-noite, às quatro da tarde estou livre — mas não vai dar." E recusei. Voltei para casa parecendo um pano de chão. Falei: "Joguei fora minha carreira." Escrevi uma carta para minha filha. Outro dia conversava com a Julieta: "Acho que estou chegando agora ao ponto profissional em que estava quando vocês nasceram. Demorou só 25 anos." Então fui contratada por uma agência de publicidade onde trabalhei meio período. Era a única com esse regime — todo mundo queria me matar. Não durou muito. Saí e abri uma empresa de comunicação corporativa chamada Conectar, que fazia livros, sites, jornais e revistas para empresas. Era um jeito de trabalhar em casa, fazer meus horários, trabalhar de madrugada, acompanhar as crianças. Isso foi de 2003 até no máximo 2010, quando percebi que a crise ambiental ia vir de verdade e que eu precisava agir.
[01:16:33] P/1 – Foi alguma coisa específica que fez você pensar: preciso fazer alguma coisa em relação ao meio-ambiente?
R – Foi. Em 1999, saí de um fechamento na redação de madrugada e fui ao Pão de Açúcar da Praça Panamericana — naquela época ficava aberto de madrugada. Às 2 da manhã fazia compras porque sou uma pessoa da noite. E encontrei uma bandejinha escrita: "alimento orgânico, sem o uso de agrotóxico." Já existia a Feira da Água Branca, o movimento orgânico — mas eu vivia outro mundo, não conhecia essas pessoas. Falei: "Nossa, ainda estou viva." Esse dia está contado no livro. Fui para casa, encontrei no rótulo o telefone do produtor e liguei para agradecer a existência deles. Atendeu um senhor com sotaque, eu jornalista, falando que era maravilhoso existirem. Uma hora ele passou para um argentino mais novo que trabalhava com ele. Eu continuei. O cara disse: "Ah, tá bom, obrigada." Então falei: "Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?" Ele respondeu: "Estamos lançando um sistema de delivery de cestas de orgânico." Era o primeiro sistema do Brasil — o Sítio A Boa Terra, pioneiro na agricultura orgânica, fundado por holandeses. "Estamos precisando de distribuidor." Falei: "Comigo mesmo." Tinha um encarte de São Paulo dentro da Boa Forma e escrevi uma página sobre o delivery de orgânicos com meu telefone. Esqueci o assunto. Um dia o telefone começou a tocar: as pessoas tinham visto o anúncio. Começaram a aparecer distribuidoras — mulheres que iam fazer a distribuição das cestas em São Paulo. Os donos do sítio nos convidaram para conhecer o lugar, em Itobi, perto de Casa Branca. Nunca tinha visto a comida que comia. E um dia conversando com o Iope, ele falou: "Você podia plantar na sua casa — fazer agricultura urbana." Nunca tinha ouvido "agricultura" e "urbana" na mesma frase. Achei tão estranho que paralisei. A sementinha ficou lá. Quando planejamos essa casa — moramos aqui desde 2008, planejamos em 2006 —, já disse ao arquiteto que queria uma área de plantio. Em setembro de 2008, no dia que mudamos para cá, virei agricultora. Comecei a fazer compostagem — nunca mais uma casca de banana desta casa foi para o lixo comum. Comecei a plantar no quintal porque sabia que a crise ambiental e a crise dos alimentos iam piorar muito neste século. Essa habilidade dos nossos avós e bisavós de produzir parte dos alimentos em casa ia se tornar ultranecessária de novo. E como eu sou jornalista, falei: "Vou aprender para ensinar."
[01:22:00] P/1 – Você falou que o seu ativismo começou pelo ativismo materno. Como foi isso?
R – Quando meus filhos tinham 3 anos, entrei no grupo de pais da escola. A gente criou um brechó, ciclo de palestras, eventos. Comecei a aprender o ativismo pelo ativismo materno, conheci pessoas que são minhas amigas até hoje. Um dia vi no Facebook uma amiga do ativismo da escola escrevendo sobre um encontro de agricultura urbana num hub. Fui ouvir a Tati Ashker, jornalista que havia viajado pelo mundo vendo experiências de agricultura urbana. A gente se conheceu e, junto com a Suzana, criamos um grupo de e-mail chamado Hortelões Urbanos, depois virou grupo no Facebook com mais de 80 mil pessoas. Lá surgiu a conversa: vamos fazer uma horta numa praça.
[01:24:07] P/1 – De onde vinha esse conhecimento de que a crise ambiental ia piorar?
R – É uma mistura de conhecimento — faz 53 anos que estou lendo sobre o assunto. Quanto mais você lê, isso é inexorável. Junto com aquela habilidade que meu pai também tem de ver as coisas à frente. Então é óbvio. Quando você vê — estamos falando de 2006, 20 anos atrás. Hoje abre o jornal: "A emergência climática vai impactar a produção de alimento." Jura. É isso.
[01:24:55] P/1 – Esse ativismo já era antigo dentro da sua vida, mas era pessoal — como era isso?
R – Nos anos 80 eu ia para a feira levando caixa de ovo e devolvendo para o feirante. Nos anos 80 ia ao supermercado carregando minha sacola — fiquei décadas sendo a estranha com a sacola. Catar lixo na praia fazia desde a adolescência. Lixo de bandeirante é no bolso. Consertar as coisas, ser pouco consumista. Isso tudo já veio no pacote, já faz parte.
[01:26:05] P/1 – Como foi a ideia de fazer a Horta das Corujas?
R – Comecei a ver na imprensa notícias sobre hortas urbanas em Nova York. Num encontro de agricultura urbana, conheci o Lucas Ciola, a Suzana, a Tatiana Ashker — eles falavam de um grupo chamado Semeadores. Falei: "Quero entrar nesse grupo." E falava: "A gente precisa fazer uma horta cool na Vila Madalena para dar visibilidade a essa causa." Nos Hortelões Urbanos, um dia entrou um cara chamado Gabriel que provocou o grupo: "Esse grupo é para ficar na minha salsinha no vasinho, na minha varanda? Nós não vamos para a praça?" Todo mundo disse: "Vamos." Mas ninguém foi. Nem ele. Porém a ideia ficou. Juntou com a questão da compostagem — já tinha uma composteira na Praça das Corujas, fui conhecer a experiência. Foi lá que falei: "Aqui é um bom lugar para fazer horta." A gente conseguiu que a prefeitura cercasse a praça — o único trabalho que até hoje não fizemos nós mesmos. Havia muita gente contra a horta. Tinha uma mulher que era especialista em me xingar. Ela ficava: "Sua porca, sua palhaça, vocês estão destruindo a praça." Um dia ela perguntou onde eu morava. Eu disse: em Pinheiros. "Então você é uma palhaça. Você não precisa disso para viver. Que você vem aqui destruir a praça." Era uma baixaria. A Madalena tinha amigos na prefeitura, havia uns postes sobrando, ela convenceu a cercar a praça. Quando cercou, em novembro, usei um truque de jornalista: conhecia o diretor editorial do Estadão, mandei mensagem. Sabia que era uma pauta — eles já haviam dado páginas e páginas para Nova York, precisavam dessa pauta aqui. Ele comeu a isca e deu uma página no Estadão. Na nossa sociedade, enquanto não sai na imprensa, a gente é um bando de louco furando a praça. Quando sai uma página no Estadão, aquilo é uma horta comunitária. O truque foi a inauguração — um evento totalmente formal mas sem autoridade nenhuma. Tinham umas 300 pessoas, fita, discurso, convidei o Paulo Padilha para dar um show. Dia 29 de setembro de 2012 é a inauguração da Horta das Corujas, primeira horta comunitária em praça pública da cidade de São Paulo.
[01:31:18] P/1 – Como seguiu o seu ativismo ambiental a partir da criação da Horta?
R – Com a Horta achei que estava fazendo minha parte — ensinando as pessoas a plantar comida, que vai ser cada vez mais importante. Não me conformo de a gente andar nessa cidade podendo estar plantada de inhame, ter fruta em toda esquina, gente passando fome que não sabe reconhecer uma planta alimentícia que nasce perto dele. Achei que estava fazendo minha parte, até que veio a crise hídrica. Falei: "E agora? Não tem água." Me envolvi no enfrentamento da crise hídrica, entrei no grupo que preparou o plano de emergência, virei fundadora do movimento Cisterna Já — que está sendo reativado, porque estamo
s entrando em crise hídrica de novo. Virei também uma das fundadoras da Aliança Pela Água, escrevi o manual de sobrevivência da crise hídrica. Segurança hídrica e segurança alimentar entraram no meu radar.
[01:34:51] P/1 – Em 2018 você entrou para a política. Como foi isso?
R – Nunca pensei em entrar na política institucional. Em 2018 a Bancada Ativista me convidou para uma conversa e fui para dizer não — nem falei para ninguém em casa. Tinha o discurso pronto. Quando a pessoa me explicou qual era a proposta da candidatura coletiva, falei: "Isso é muito interessante, porque eu ocupo todo meu tempo com essas causas. Não tenho como trabalhar pela escola pública de qualidade, pelo fim da violência doméstica, pela saúde pública, pela luta antirracista. Mas junto com essa pessoa, o meu braço chega mais longe." Entrei. Cheguei em casa à noite e anunciei: "Tenho uma novidade — agora vou ser candidata a deputada estadual." Fomos eleitas. Virou mandato coletivo da Bancada Ativista.
[01:34:51] P/1 – O trabalho com as nascentes na horta — essa época coincide com a crise hídrica ou foi um pouco antes?
R – Não, desde 2012. A partir de julho de 2012, quando a gente abriu aquela cacimba e começou a proteger a área da nascente, o trabalho das águas é uma constante. O que aconteceu durante a crise hídrica foi a comprovação de que estávamos certos — a cidade inteira estava sem água e lá não faltava. Comprovação de que os territórios podem fornecer água se a gente deixar de fazer tudo errado. Estamos entrando em crise hídrica porque queremos, porque mesmo no campo a terra virou uma laje, não conseguimos mais reter água no território.
[01:38:17] P/1 – Como foi o movimento Cisterna Já?
R – É um movimento da sociedade civil que fundei com Guilherme Castanha e Ariel Coga. Em 2014, quando todo mundo só pensava na Copa do Mundo, eu não conseguia dormir — falava: "Gente, não vai ter água." A única coisa que uma pessoa pode fazer sem depender das decisões de todo mundo para aumentar seu acesso à água é a cisterna. Na época da crise hídrica eu acordava de manhã e tinha 50 mensagens: "Eu quero uma cisterna." Mas não é na hora da crise que se faz cisterna — é agora, em qualquer momento, antes da crise. De agora até 2100 elas vão ser super necessárias. Quando eu ia apresentar o movimento, dizia: "Esse é um movimento com orçamento zero." É um movimento de disseminação, de formação de rede, de indicação de profissional, de facilitação. Ganhou um logotipo de presente da Andrea Pezzec. A gente montou a página na Wikipédia. Orçamento zero.
[01:39:57] P/1 – Essas iniciativas foram ocupando sua vida de maneira profissional ou você seguia fazendo jornalismo?
R – A Horta das Corujas, o Cisterna Já — nada disso era fonte de renda. Depois que fechei a empresa, tirei um tempo sabático para me reorganizar e entender como trabalhar com resiliência. Fomos para a Assembleia Legislativa em março de 2019 — mandato muito conturbado — e em março de 2020 veio a pandemia. O Lucas Ciola, que conheci antes de existirem os Hortelões Urbanos, era meu assessor na Alesp. Quando a pandemia veio e todo mundo foi para casa, a gente lia no jornal sobre gente passando fome e pequeno agricultor perdendo colheita sem acesso ao mercado. O Lucas pegou o carro, foi na roça e começou a comprar o que estava sobrando — abóbora, o que fosse —, pagando o que tinha no bolso. Um dia me mandou uma foto: o carro cheio de abóbora, saindo de uma comunidade. Falei: "Lucas, isso é sensacional, quero ajudar." Comecei a ajudar com dinheiro. Uma das primeiras vezes que saí de casa na pandemia foi para comprar caixas agrícolas. Foi assim que surgiu a Frente Alimenta, que no começo se chamava Anticorpos Agroecológicos — anticorpos porque as pessoas precisavam comer bem para ter mais imunidade contra a Covid, e agroecológicos porque a gente só trabalha com comida agroecológica. Depois o Lucas saiu, entraram a Rejane e a Dani, o nome mudou para Frente Alimenta. Hoje é um dos projetos de combate à fome e referência no Brasil. Somos a entidade gestora mais bem avaliada do programa Cozinha Solidária. A gente não só compra a colheita do agricultor e entrega nas cozinhas comunitárias — também estrutura hortas e cozinhas. Já construímos uma cozinha na Brasilândia, financiada pela Frente Alimenta. Já construímos banheiros em hortas, galpões, sistemas de irrigação. Semana passada comprei dois tratores de segunda mão.
[01:46:20] P/1 – E o mandato coletivo?
R – O mandato se dissolveu — deu muita briga, foi extremamente injusto comigo, com a Raquel e com a Anne. Em 2022 fui candidata a deputada estadual por um coletivo chamado Alimento SP — não fui eleita. Em 2024 fui candidata a vereadora — também não. Em 2025 criei a ONG Pequenos Paraísos, que apoia financeiramente pessoas e coletivos que cuidam de espaços públicos abertos na cidade. Já são quatro em São Paulo. Dois deles têm muito a ver com água: o Parque da Joia e a Nascente do Rio Bravo. E abri minha consultoria, Visão em Regeneração Socioambiental — trabalhando da escala da casa até a escala da cidade, com foco em soluções baseadas na natureza e adaptação às mudanças climáticas.
[01:48:55] P/1 – Me conta sobre o projeto Percurso Mata Atlântica, na Biblioteca do Parque Villa-Lobos.
R – Foi o primeiro projeto da consultoria. A biblioteca é uma construção modernista que era circundada por um espelho d"água e estava sendo denunciada direto por causa da dengue. As pessoas passavam, viam a água parada e denunciavam. Eles ficavam enchendo de cloro e era uma coisa sem fim. Além disso, criava um fosso entre o prédio e o resto do parque. Me chamaram por causa do lago que tenho em casa — 11 m de comprimento por 1 de largura, criado para aumentar a capacidade de reservação, resfriar a casa e aproveitar a água. Cheguei lá e disse: "Vocês não têm cultura para ficar cuidando de lago. Em vez de espelho d"água, vamos fazer uma floresta freática?" Toparam. O Parque Villa-Lobos foi construído em cima de entulho — não tem lençol freático natural. O espelho d"água foi impermeabilizado como uma piscina, planejado para ter 15 cm de água sempre no fundo como vaso freático — o que o torna resiliente, sem necessidade de rega constante, e seguro, porque não há acesso para mosquito da dengue. Plantamos uma floresta de Mata Atlântica: 1.600 plantas, mais de 50 espécies, mais de 20 tipos de árvore, com um percurso educador. A biblioteca é a cultura, o parque é a natureza, o percurso conecta as duas. Também ativamos o sistema de captação de água de chuva e cisternas que estava desativado — a água vai para os vasos sanitários e para a floresta. Tem horta com canteiros acessíveis para cadeira de rodas, viveiro, compostagem. O projeto já está indicado para dois prêmios internacionais.
[01:53:45] P/1 – Me conta sobre a ONG Pequenos Paraísos.
R – A ONG nasceu da percepção de que a Horta das Corujas é cuidada por voluntários de classe média, mas essa não é a realidade de todo mundo. Precisamos apoiar quem cuida dos territórios com uma qualidade de cuidado que o poder público não consegue entregar. São dois requisitos para pleitear o apoio: o projeto já existir — não um sonho, algo que já acontece —, e ser uma área pública permanentemente aberta. Não dentro de escola, não dentro de UBS, não em praça trancada. O apoio é de R$ 1.600 mensais por dois anos — chega a conta-gota, então não atrai quem quer ser espertinho. E cada território sabe o que funciona melhor para sua comunidade. Nesses 14 anos trabalhando na Horta das Corujas, muitas vezes vi alguém entrar e dizer: "Acabei de brigar com meu marido." Muitas pessoas relatam que, durante a pandemia ou mesmo depois, quando estão angustiadas precisam ir para algum lugar, e vão para a horta. Uma vez estava lá trabalhando, uma pessoa abriu a porta: "Minha mãe acabou de morrer, tive a notícia e vim aqui." Outra vez: "Minha companheira está com câncer de novo." É um lugar que as pessoas precisam — às vezes para não matar outro, às vezes para não morrer.
[01:57:37] P/1 – Quem são os seus rios?
R – Primeiro nasci do lado do Saracura — sou do Bexiga, perto da Praça 14 Bis. É o rio de origem. Mas o principal rio da minha vida é o Corujas, porque cresci ali na Pereira Leite. Passava lá para passear com o cachorro desde criança. Via aquela aguinha sem saber muito bem de onde vinha. E detalhe: você sabe onde o Corujas desemboca no Rio Pinheiros? Sabe a Avenida Frederico Herman Júnior? É o Corujas. É uma vida. Depois de aprender com o Rios e Ruas esse olhar sobre o caminho dos rios, às vezes quando tenho que ir a pé até a horta, vou sem nenhuma subida, acompanhando o curso do Corujas. É um bairro cheio de subida para lá e para cá, mas eu sei exatamente onde ele passa. Tomara que um dia abram esse rio de novo. A canalização é dos anos 1970 — vi foto: até então a Herma era aberta.
[01:59:39] P/1 – Que história o Rio das Corujas te conta?
R – Ele é um sobrevivente. É um dos pouquíssimos rios abertos nessa região — talvez o único —, e é um rio mágico. Aquele lugar da horta ao lado do rio tem um poder ancestral. Ele é o primeiro dos Moicanos. E o que ele está contando é: "Estou aqui, aguentei, e estou esperando os meus amigos."
[02:00:29] P/1 – O que você falaria para ele?
R – Estamos juntos. Essa rua aqui tem um afluente dele — quando chove, uma casa ali à frente construiu uma estrutura subterrânea com bomba que fica bombeando o afluente para a sarjeta. O que eu falo para ele é: "Meu amigo, a vida não é fácil." Esse afluentezinho, essa rua, também é um rio — vai dar no Corujas, que vai dar no Pinheiros, que vai dar no Tietê. Eu fui a Rosário [Argentina], que é um grande centro de agricultura urbana no mundo, e lá desemboca o Rio Paraná. Vi ele chegando no mar.
[02:01:45] P/1 – Qual é a sua relação com o mar?
R – Sou um peixe no mar. Aprendi a nadar no mar. Como a gente ia muito para a praia e o mar era bravo, meu pai nadava muito — não era aula formal de natação, ele me ensinou a sobreviver. Com quatro, cinco anos, ele me colocava na água, nadava até depois da arrebentação e fazia sinal: "Agora volta." Aprendi a me virar nas ondas e na profundeza. Fiquei exigente com praia por causa desse passado — praia para mim é um lugar vazio e limpo. Gosto de ir no inverno, quando está chovendo, sem ninguém, sem música, sem filtro solar. Só entro no mar se ele estiver limpo. Quando entro, fico dias salgada na praia.
[02:03:06] P/1 – Me conta como foi se tornar mãe.
R – Mudou tudo. Devo a eles o ativismo — se não fossem eles, eu não teria dado essa parada. Eu era super executiva e iria continuar. Quando eles nasceram, percebi que aqueles pequenos seres precisavam de mim e que minha profissão me obrigava a ficar até as 22 horas. Resolvi ser mãe mesmo, estar com eles na primeira infância, adaptar minha vida a eles.
[02:04:23] P/1 – Eles te acompanharam nos percursos da horta e do ativismo?
R – Isso faz parte deles. Mas eles não são pequenos ativistas, e eu nunca forcei. Só que é meio inexorável. Um dia andava de carro com eles — não havia crise hídrica ainda, isso entre 2012 e 2014, eles com uns 11, 12 anos. Falei: "Imagina que acabou a água de São Paulo, foi jogado veneno na represa, não tem água para beber. O que vocês fazem?" Eles falaram: "Ah, vamos lá na Horta das Corujas." Falei: "Exatamente — a água lá é classe 1, para beber só precisa colocar uma gota de cloro no copo." A Julieta, quando era pequena, não mora mais aqui, mas eles vivem numa casa que tem cisterna, lago, composteira. Uma vez fui arrumar as coisas e perguntei: "Julieta, posso jogar isso fora?" Ela: "Mãe, você está louca? Jogar fora? Isso é argila. Argila é terra. Terra tem que voltar para a terra." Estava óbvio que eu ia pôr na composteira, mas foi um jeito de eu testar. Ela tinha uns 8, 9 anos. O chip está lá. A última festa de aniversário da Julieta foi aqui. Eu disse: "Eu empresto a casa, mas gerenciamento de resíduos assim — tinha cinco latas de lixo: latas, sucatas para lavar, sucatas lavadas, rejeito e orgânicos." Depois da festa, que veio umas 50, 60 pessoas, o rejeito que sobrou foi uma coisa desse tamanho. Festa sem lixo.
[02:07:39] P/1 – O que é importante para você hoje?
R – Fazer a contribuição que posso. A situação está muito ruim. Estou aqui viva tentando passar conhecimento para frente, escrevendo um novo livro sobre soluções baseadas na natureza e tocando esses três projetos: a Frente Alimenta, a consultoria e a ONG Pequenos Paraísos. O que importa nesse momento: as soluções para todas as enrascadas em que nos metemos estão super acessíveis. O que a gente precisa é de uma mudança cultural. Se a gente acordasse hoje e despavimentasse, no próximo verão quase não haveria enchente. Daqui a dez anos a cidade estaria mais fresca. A Horta das Corujas é um enorme outdoor no meio de São Paulo. Tem gente que fala: "Isso aqui não parece São Paulo." Eu respondo: "É São Paulo que não está parecendo com ela mesma, porque isso aqui é o que deveria ser."
[02:09:38] P/1 – Quais são os seus sonhos?
R – Continuar tendo saúde para continuar tocando essa vida mais um tempo. Abri minha empresa agora com 60 anos e o plano é que ela dure até eu ter 80 — tenho 20 anos para trabalhar nela. Nunca vou me aposentar.
[02:09:38] P/1 – O tema do Museu da Pessoa nesse ano é envelhecimento. O que você espera sobre o seu envelhecimento?
R – Estamos vivendo uma experiência nova, que é o envelhecimento ativo. Tenho uma teoria: as pessoas que evaporam e as pessoas que entopem. Pessoas que evaporam são as que ficam finhas, perdem músculo, perdem osso, caem, quebram. Pessoas que entopem têm infarto, AVC, câncer. Quando vi a trajetória da família — tanto do lado do meu pai quanto do lado da minha mãe —, entendi que sou das que evaporam. Então tenho que agir: pegar peso literalmente. Lá estou eu na musculação. Tomo suplemento, mudei a alimentação. Mas o físico talvez não seja nem o mais complicado. Do ponto de vista emocional, espiritual, intelectual — não me sinto uma pessoa velha. Estou fazendo 157 coisas. E tem uma coisa diferente: a minha velhice vai ser a velhice dos camponeses, que é totalmente diferente. Meu dia a dia: esse fim de semana fiquei processando cúrcuma e limão — colhi quatro ou cinco baldes de limão para fazer concentrado, processei cúrcuma no fogão. Você planta, cuida da terra, cuida do jardim, depois processa a colheita. É muito trabalho braçal, um trabalho que os meus bisavós tiveram e que existe para o resto da vida. A velhice dos camponeses é uma coisa muito linda.
[02:13:37] P/1 – A gente está aqui do lado da Cacimba 1 da Horta das Corujas. Conta a história das águas da horta.
R – A horta só existe por causa dessa cacimba. A primeira obra, em julho de 2012, foi construí-la — porque quando decidimos fazer a horta eu era bem ignorante nessas coisas: "Bom, a gente liga para a prefeitura e pede água da Sabesp." Não sabia que não existe fornecimento de água em praça em São Paulo. Falei: "Se não vai ter água, não vai ter horta." A Madalena Buso, cofundadora da horta, nasceu no campo. Disse: "Esse terreno é meio charco — se cavar, a água vem." Eu não acreditei, mas não quis ser desagradável. Falei: "Tá bom, vamos cavar." A gente cavou e a terra virou uma lama. O buraco foi grande. Havia uma caixa d"água quebrada que um dos voluntários do primeiro mutirão, o Luciano, tinha encontrado numa caçamba e trazido em cima do carro. Colocamos pedras, tela, quebramos um pouco mais o fundo e encaixamos a caixa. A água veio. Tendo água, podíamos plantar. A localização da Cacimba 1 foi escolhida pela Talita Sales, voluntária do início, recém-formada em arquitetura. Ela pensou na circulação das pessoas e indicou aquele ponto. Eu achava que o lugar mais úmido era embaixo, mas não quis contrariar. Cavamos embaixo também — e a água ficava muito mais profunda ou não aparecia. Aprendemos na prática: as nascentes afloram em declive. O solo não sabe que vai ter um degrau. O lençol freático não é um rio andando debaixo da terra — é uma área muito úmida. A gente cria um vácuo para que essa umidade entre. Como uma esponja encharcada: faz um buraco, a água aparece. Foram colocadas várias outras cacimbas. A Cacimba Quadrada nasceu assim: um dia estava fazendo leiras para plantar milharal e comecei a atolar. Falei: "Isso é uma nascente." Chamei a juventude de um projeto chamado Germinar e cavamos juntos. Logo depois veio a Cacimba das Aranhas — chamada assim porque na época havia uma família de aranhas enormes morando lá. A diferença entre o resto da praça e a horta é que aqui a gente vai terraciando e mantendo matéria orgânica, matéria orgânica, matéria orgânica — isso faz a água ficar no território. No começo, na época de chuva, muitos canteiros eram arrastados. Uma vez por outra, quando está uma megatemporada, venho para cá conhecer o caminho das águas. Essas escadinhas todas, quando chove, os caminhos viram rios — mas a água passa e não destrói. Não temos erosão interna, embora a praça tenha um problema sério de erosão lá fora — tem uma voçoroca enorme. Todo ano temos que tirar a terra que vem da erosão de cima. Mas é uma terra muito boa para adubar. Havia um caminho que saía da Cacimba 1 e subia. Chegou um julho muito seco e aqui a terra estava sempre úmida. Um dia falei: "Isto não é mais caminho, isto é nascente." Abri ali e fiz esse canteiro, desenhado para a água passar — quando chove muito, vira uma cachoeira. Veio a nascente do Rugel [canteiro baseado na técnica alemã Hügelkultur, ou "cultura da colina"], onde juntamos madeira coberta de composto, formando uma colina artificial. Cerca de um ano depois apareceu uma nascente embaixo dela. Ao descobrir, cada vez que eu passava por aqui fazia plof, parecia areia movediça. Abri com a mão. Essa nascente passou por um sistema de corguinhos que direcionam para a Cacimba 1 — um processo que ainda não está acabado, porque o território vai mostrando novas possibilidades.
[02:25:26] P/1 – E o lago?
R – Tinha muita gente que reclamava da dengue, embora aqui não haja dengue. Em 2016, no surto, éramos denunciados todo dia — aparecia a vigilância sanitária: "Oi, foi denunciado de novo." Só que aqui não tem dengue porque é cheio de peixinhos que não deixam sobrar um mosquito. Além dos peixes, hoje temos sapo — a partir das seis da tarde começa o coro. Cavamos o lago para reter cada gota de água na paisagem. Quando chove muito, o escoamento vinha por aqui. Falei: "Espera aí — vamos segurar." Cavamos esse lagão. E o lago quer crescer — esse charco aqui vai se tornar lago, e ele vai crescer para cá. A Horta das Corujas é como uma maquete de uma bacia hidrográfica. O reservatório é como se fosse a represa do sistema Cantareira, a bacia é a horta inteira. A gente segura a água com matéria orgânica, mexendo no relevo para que ela vá para o subsolo e aí aflore. Do lado de fora da cerca é o anti-exemplo — fica bem didático. Na seca, faço posts mostrando: deste lado, horta das corujas, verde, vivo. Do outro lado, parece Marte. É para mostrar o que a gente consegue fazer com a mão, entendendo o território.
[02:29:47] P/1 – Você aprendeu tudo na prática, né?
R – É. Cinco anos dizendo: "Você jura que vamos cavar aqui e vai ter água?" Com ajuda — um dos primeiros voluntários da horta, que ajudou a cavar aquela nascente, é o Sasha Hart, hidrogeólogo. Chegamos a fazer uma aula aberta aqui de hidrogeologia, onde ele explicou todas essas coisas. Mas os corguinhos, o lago — tudo feito na prática e na observação. Na nossa sociedade há um equívoco que é querer mandar na água. A água é muito mais poderosa do que tudo. Ela vai. A gente precisa ler e tentar conduzir — às vezes reduzir a velocidade, às vezes reter. A gente não vai vencer a água. Nesse sentido, acho que os surfistas são muito sábios: nenhum surfista resolve brigar com a onda. Se a gente tivesse mais governantes surfistas, talvez compreendessem melhor que a água é que rege a vida, e que se colocar contra ela é uma estupidez.
[02:31:41] P/1 – Tem alguma coisa que eu não te perguntei que você queira contar? Você quer deixar uma mensagem para as pessoas que vão te assistir?
R – Gente, obrigada por ter aguentado todo esse papo. Gostei de falar. É extenso mesmo.
[02:32:36] P/1 – Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, em nome do Levi, do Vitor e do Ally, agradeço muito por esse momento. Muito legal mesmo.
R – Obrigada.
FIM DA ENTREVISTA.
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