Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Eneida Maria Severino Maciel
Entrevistado por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 06/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV004
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
R - Meu nome é Eneida Maria Severino Maciel, eu tenho 62 anos, sou aqui do povoado, da comunidade, povoado do Cunha. Tem três anos que eu moro aqui no povoado do Cunha. É aqui onde eu tenho minhas oficinas, que eu tenho ateliê, que eu administro os cursos, as oficinas de artesanato. Tem aberto também um espaço para receber as pessoas, mas isso vai ser futuro, né? E aqui é onde eu administro os meus cursos, as minhas oficinas. Moro aqui também. E aqui também, é onde que eu acho a minha obra prima, que eu gosto muito de trabalhar com sementes do Cerrado, cabaça. Eu também planto as minhas obras primas, minha matéria prima para mim está confeccionando. E ando aqui também, muito no Cerrado para a gente poder estar garimpando as sementes, para a gente poder estar fazendo artesanato. E planto também bucha vegetal, que eu trabalho, com bucha vegetal, cabaças, sementes do Cerrado. E a lida, o dia a dia é esse. É de a gente estar sempre plantando uma plantinha aqui, uma plantinha ali, colhendo também, vendo alguma coisa diferente que têm na natureza para a gente estar confeccionando. Eu gosto de trabalhar com aquilo que o Cerrado dispensa, eu transformo em arte, né? Eu gosto sempre de estar plantando também, fazendo as mudas para a gente também estar replantando, porque a gente aqui na comunidade, do povoado do Cunha, a gente tem muito o Baru, tem o Coco Xodó, tem o Jatobá. Então, são coisas nativas daqui, daqui, de Paracatu, daqui da Comunidade, daqui do Cunha, né? E então, tudo isso também eu transformo. Eu faço quitandas também, faço pé de moleque do baru, o licor do baru, que é muito bom. Acho que poucas pessoas conhecem. O bolo do Jatobá, o sorvete de coco-xodó, o suco. E tem o óleo também. Tem muitas infinidades, a natureza em si, você vê, um fruto dela e você acha que às vezes ele não tem certa importância, mas ele tem muitas importâncias. Tem infinitas importâncias de cada fruto, de cada… Cada Cerrado tem uma importância diferente. Então, eu me identifico muito com a natureza, com o Cerrado. Então, eu gosto de fazer as quitandas do Cerrado. Gosto de fazer meu artesanato com sementes também do Cerrado. Gosto de criar. Eu faço presépio, trabalho com a folha da bananeira, fibra da bananeira, a palha de milho. E assim vai. Eu nasci em Brasilândia. Nasci na Brasilândia, morei lá até os dois anos de idade, na fazenda do meu do meu avô, que era Fazenda Extrema, foi lá que eu nasci. E logo depois a gente veio, minha mãe, mais meus pais vieram para Paracatu, e aqui em Paracatu, quando eu tinha três anos, meu pai faleceu e a minha mãe ficou viúva, e a gente foi para ficar com a minha vó, minha avó do coração, que é Eunice Oliveira Mello, que ela tinha uma fazenda ali perto, ali indo para Brasília, Fazenda Barreirinho, e lá nós ficamos, com ela, e minha mãe também. E a gente foi crescendo ali, e ali eu já fui vendo a minha avó mexer assim, com a natureza. Acho que foi uma coisa que me estimulou, porque ela punha a gente para catar o pau santo, para poder fazer a serrar. A gente serrava, eu ajudava a catar, serrava para fazer um viveiro, para plantar as plantinhas, fazer as mudinhas. Que ela me ensinou muita coisa da natureza. Me ensinou a valorizar a natureza, a tirar dela o que é essencial para a gente, né? Porque nela a gente tem… Até doenças, que têm as raízes. A minha mãe era raizeira também, aprendi muita coisa com ela, porque ela quase não dava à gente remédio de farmácia, mais era um chazinho aqui. Você adoecia, ia lá, pegava uma folhinha, fazia um chá, uma garrafada. E ela também benzia, minha mãe era benzedeira, fazia as benzeções. Só que a gente não teve o dom de ter essa benção, que ela foi… Eu creio que é uma benção, a pessoa ter esse dom de benzer. Mas assim, foi muito bom eu crescer nesse meio delas duas, assim, de estar ali. Uma gosta da natureza, a outra já está ali no lado, assim, das raízes. Então, foi assim. A gente foi crescendo e eu fui pegando gosto. E trabalhei com várias coisas, participei de várias coisas, sem ser do artesanato. Aí depois, eu fui morar em Pirenópolis, e lá eu tomei mais amor ainda, porque lá a arte também é muito grande. E lá eu fui aprendendo, fiz os cursos, fui fazendo cursos e vim de volta para Paracatu, né? Aí, fui administrando algumas oficinas, fiz algumas parcerias, administrei muitas oficinas em Paracatu. Quando eu vim de volta mesmo para cá, aí eu achei uma necessidade muito grande de aqui em Paracatu ter uma casa do Artesão. E não tinha, tinha a Casa de Cultura e lá tinha algumas, muito poucas artes de alguns artistas. E aqui em Paracatu é muito grande, artistas aqui é muito, têm muitos artesãos. E eu criei a Casa do Artesão. E a gente foi fazendo uma parceria, na época era a Heloísa Cunha, que era secretária de Cultura, e ela foi nos levando para fazer as reuniões. Tinha o Vasquinho, que era prefeito, e ali a gente foi conseguindo abrir a Casa do Artesão. E a gente teve a primeira casa do Artesão, que até hoje está ali na Casa de Cultura, agora, né? Graças a Deus!
P1 - Na Rua do Ávila, né?
R - Isso, na Rua do Ávila. E eu trabalhei muito tempo lá na Casa do Artesão. Só que aí eu tive que dar uma paralizadinha para ajudar o meu esposo, que a gente tem uma empresa de purificador de água, e dei uma estacionadinha. Estacionei um pouquinho. E depois eu senti necessidade de voltar, porque está no sangue da gente, né? A gente tem que fazer aquilo que a gente gosta, aquilo que a gente ama, porque você faz com coração, então, você sente prazer, né? E aí, eu tornei, entreguei para ele, meu enteado, a loja. E aí, eu fui voltando novamente. Aí, um dia eu fui passar ali em frente a Casa Paracatu. Eu olhei e falei: “Gente, mas que lugar bonito! Vou entrar aqui.” Que a gente foi criado ali na Rua Américo Macedo, e ali era o antigo Automóvel Clube. Eu falei: “Eu vou dar uma entradinha aqui para ver o que que é.” E lá hoje é a FAOP. Que as meninas me receberam muito bem, que a Gi, a Elizângela, a Cleni. E aí, a gente foi interagindo ali. Tava tendo a FLI, que foi o primeiro convite que eu recebi, foi da Rose Bispo, que ela me fez o convite para participar, da FLI. Que ela falou: “Nossa, Dona Eneida, o trabalho da senhora é muito bonito, vamos participar.” Então, ali, eu comecei a interagir de novo com as pessoas para estar retornando. E as meninas me deram muito a mão, da gente tá andando juntas. E a Cleni já tinha antes as “Mãos Arteiras”, que era uma associação, só que ela já tinha saído. E aí, a gente foi, juntou, reuniu todos os artesãos, mais ou menos, e aí a gente montou uma outra associação, que hoje é a Associação Paracatu ao Luar - Mãos da Terra. Ela é presidente, eu sou a vice-presidente da associação. E hoje a gente está assim, a gente já ganhou uma premiação. Acho que já ganhamos duas premiações, que a gente ganhou “Ponto e Pontão de Cultura”. E agora, a gente está com outros projetos, para a gente estar andando de mãos dadas com os outros artesãos daqui de Paracatu, para a gente estar fazendo as feiras, fazendo mais eventos. Temos uma lojinha também, lá dentro da Casa Paracatu, uma lojinha de artesanato do Paracatu ao Luar, que funciona todos os dias, é feriado também, a gente está com a lojinha aberta. E a gente está fazendo uma parceria também aqui no ateliê. A gente vai administrar oficinas, não só minhas, mas está aberto para qualquer artesão estar ministrando as oficinas aqui comigo também. E aí, surgiu também, logo quando eu fui para lá, teve uma... do presépio, foi um... que eles fizeram sobre o final do ano, em dezembro. E eu participei desse concurso de presépios. E aí, elas: “Não, a senhora tem que participar, tem que fazer.” E eu peguei e fiz. Aí eu ganhei também, em primeiro lugar. Regional do presépio, em primeiro lugar, fiquei muito satisfeita, e agradeço muito a todos, que eles me auxiliaram muito. Igor Diniz. Tipo assim, ele viu, valorizou, que realmente é o que fala da nossa terra, que nossa terra… A cidade de Paracatu tem uma história, das cabaças que falam da nossa tradição. Então, foi muito importante. Aí, depois eu fui fazendo outros, eu tive outras jornadas também, que eu participei da primeira jornada de artesanato, aí eu ganhei também, em primeiro lugar com “Garimpeiro”. É sempre assim, a gente… Gosto de ser muito participativa. Eventos que tem, eu estou participando, eu participo com as meninas do “Moro Aqui, Compro Aqui”, que é da Kinross. E todos os eventos que têm eu gosto de participar porque eu acho muito importante para nossa convivência com o turista, para a gente mostrar para o turista o que realmente Paracatu tem, o que a gente tem nas comunidades, com a Comunidade São Domingos, que hoje está um destaque muito grande, né? Então, a gente está assim, com o coração aberto para receber todo tipo de evento, do que for, para a gente estar assimilando tudo juntos.
P1 - E como é que é essa história de fazer uma associação aqui no Cunha?
R - Aqui no Cunha eu tô com as meninas, que eu já tive a primeira reunião com ela, que é um grupo que eu estou montando aqui, com as mulheres da comunidade, daqui do povoado Cunha, para a gente administrar oficinas, e a gente continuar com esse grupo, para gerar renda para elas, também uma renda para elas. Aí, a gente teve uma primeira reunião e agora a Ivna está entrando com uns projetos, para poder a gente já ter o material. E a gente já definiu, já ficou definido o dia. São sete mulheres daqui da comunidade e está aberto para mais pessoas entrar, criança, idoso, não tem definição, não, pode ser qualquer pessoa. E a gente fazer esse artesanato e levar para as feiras, levar para os eventos, criar um grupo para gerar uma renda para as pessoas. E uma terapia também, porque às vezes as pessoas ficam muito sedentárias em casa, não tem o que fazer muito. Então, é uma forma assim, uma vez por semana vem, faz, interage, conversa. Eu quero também fazer, depois, uma roda de conversa, a hora que terminar, a gente vai senta, vamos bater um papo, trocar ideias. Isso é muito importante. Então, eu estou com esse projeto, e eu creio que vai dar muito certo, ele chama “Mãos da Terra”. Um projeto que eu creio que vai beneficiar as mulheres daqui. Depois eu quero atingir também as crianças, as crianças, adolescentes, para tirar um pouquinho eles do celular, do joguinho e interagir todo mundo. E eu estou assim, de coração aberto mesmo, para participar de qualquer evento que queiram fazer. Eu tenho agora em outubro, outubro não, em junho, era para eu receber a reza de São Benedito, porque eu vou recebê-lo, que eu tenho ele aqui, no fogão ali que vocês viram. Aquele santinho ali era da minha avó, que ela recebia, fazia, a gente recebia a reza de São Benedito lá na fazenda. Aí depois passou para minha mãe, aí minha mãe também, mais o meu padrasto, recebiam também. Eles também faziam a reza, sempre teve as fogueiras. Desde menina a gente sempre interage com isso. E aí, minha mãe faleceu, e aí minha irmã passou ele para mim, o São Benedito, para mim. E aí, eu vou receber, começar a receber aqui também, a reza do São Benedito, todo ano. Eu estou tentando ver se eu consigo esse ano, mas eu creio que está bem perto, bem próximo, não sei se vai dar certo. Mas se não der certo esse ano, o ano que vem eu quero receber. Que aí, logo após a reza, a gente vai fazer uma catira, a dança da catira, que é tradicional daqui de Paracatu. O meu pai era catireiro, dançava a catira. E a gente também quer dar essa continuidade também, né? Para não ficar no esquecimento, que tem muita gente que não conhece, nunca ouviu falar nas danças que tem aqui em Paracatu, tem a caretagem, tem a folia de reis. Tem… Nossa, tem tantas coisas bonitas aqui em Paracatu, tantas! É a catira é uma coisa tradicional. Meu pai era catireiro e eu quero dar continuidade também, né? Se eu pudesse antes ter dançado a catira, até que eu queria ter aprendido. Mas eu arrisco umas dancinhas [risos].
P1 - Vamos voltar um pouquinho no tempo. Você consegue puxar o que seriam as primeiras lembranças de você pequenininha?
R - As primeiras lembranças?
P1 - Pode ser qualquer cena, qualquer coisa.
R - Eu me lembro…
P1 - Cheiro, qualquer coisa. Olhar.
R - Lembro lá na fazenda da minha avó, fogãozinho de lenha, aquele cheirinho de pão de queijo assado no fogão, no forno. Minha avó lá, mais a minha dinda, fazendo franguinho caipira no fogão. Nossa, tem muita recordação. Logo do lado, lá tinha um curral, que lá tirava o leite. Que eu sei tirar o leite também, tiro com as duas mãos, aprendi lá tirar leite, desde criança, a gente foi criado em fazenda. Então, desde criança que a gente tem essas recordações de ver, de aprender. Tinha um rego d'água, um rego d'água, vinha, descia. E tinha uma bica lá que a gente lavava as vasilhas, lavava a roupa. Tomar banho, a gente tomava banho, esquentava água no fogão de lenha e punha dentro da carretilha, aí a gente esquentava, puxava a carretilha, para poder tomar banhozinho, o banhozinho quentinho. Ou então, se a gente não quisesse, ia tomar um banho de córrego também, né? Que naquela época tinha muito córrego ali, cachoeiras. Que lá na fazenda da minha avó tem duas cachoeiras, umas cachoeiras muito bonitas. Então, eu lembro muito que a gente descia, a gente descia muito com ela de cavalo, arriava um cavalo pra gente, um cavalo para ela. Aí, a gente descia para poder, às vezes, ir lá embaixo no vizinho, que antigamente a gente ia para os pagodes nas outras fazendas, tinha muito pagode. Falava pagode. Tinha os forrós. Principalmente nessa época agora, de festa de São João, São Pedro, aí o pessoal fazia fogueira, e a gente ia para o povo dançar. Fazia muita quitanda. Aí tinha forró. Era muito gratificante. A minha avó também recebia a Folia de Reis, porque ela era do dia 6 de dezembro. Então, todo ano ela recebia a Folia de Reis, todo ano. E aí, eu lembro assim, que fazia uns fogões, assim, de barro, para colocar as panelas, porque fazia muita comida. Depois, logo os foliões faziam, era o pouso, ela recebia o pouso. E lá a gente fazia, tinha duas mesas, que era uma mesa das comidas e uma mesa de sobremesa, dos doces. Fazia muito doce, era uma fartura, gente. Era uma fartura muito grande naquela época. A gente quase não vinha na cidade para comprar, porque quase tudo a gente plantava, quase tudo você tinha na roça. A gente não comia, não tinha óleo, era banha. Então, era muito bom, muito gratificante.
P1 - Eu queria te perguntar quem que tava na casa da sua avó? Era quem? Você tem irmão? Quem morava, no geral, ali.
R - Era eu, minha irmã Teca, Isabel. Fátima, não, Fátima foi para Belo Horizonte ficar com Dona Cleonice. Meu irmão Ronaldo foi ficar com minha mãe, e Rogério. Aí só nós que ficamos com ela. Aí depois a minha irmã, a Teca, foi para o Colégio das Freiras. Ela ficou muito tempo lá no Colégio das Freiras, só que lá ela estudou, ficou lá estudando, interna, né? E depois ela não quis ficar, e saiu, foi para Brasília. E eu continuei lá, fiquei lá morando com a minha avó. Minha mãe casou novamente, ela casou novamente. Meu padrasto, a gente considera como pai, porque meu pai morreu eu tinha três anos de idade. E logo, logo a minha mãe casou também, tipo assim, uns quatro anos, aí ela casou novamente. Ela foi morar na fazenda, que eles mexiam com carvoeira, então, eles ficavam nas carvoeiras, tanto a minha mãe, quanto o meu padrasto. E a gente ficava com ela. Então, sempre ela vinha, sempre a gente tinha ali o contato, ou a gente ia, né? E aí depois, logo eu fui crescendo, crescendo, ficando um pouquinho rebelde. Porque às vezes não queria estudar, né? Aí depois fui para Belo Horizonte terminar de estudar lá. Depois eu voltei, fiquei com a minha avó novamente. Depois eu viajei novamente. Gostava sempre de estar viajando e voltando.
P1 - Antes de você avançar, me fala um pouquinho mais dessa época com a sua avó nessa fazenda. Como é que era o dia a dia?
R - O dia a dia?
P1 - Como é que era a rotina?
R - Sim. O dia a dia era... Acordava todo mundo cedo, que lá, fazenda, a gente dormia muito cedo, 20h estava todo mundo dormindo, como diz, a hora que ligava o radinho da voz nacional, aí a gente já procurava a cama, ia dormir. Aí no outro dia acordava cedo. Aí a gente já escutava os bezerros berrando, vaca no curral, os movimentos do dia nascendo. Aí todo mundo levantava. Aí, elas gostavam de elas mesmas tirar o leite. Aí eu também ajudava. Tinha os meninos, os dois que trabalhavam lá, Samuel e Domingos também, eles arriavam pra gente, as vacas, e gente ia para poder tirar o leite. Eles arriavam e a gente ia tirando o leite. Aí, passava a parte da manhã, tipo, até umas nove e pouco, tirava o leite, tirava… Na época a gente fazia… Ela tinha desnatadeira, aí fazia o creme de leite, fazia requeijão, fazia queijo, trazia para cooperativa. E depois ali, quando a gente começou, que veio a escola, e minha avó tinha uma Kombi, aí ela pegava todo mundo que entrava na escola, tipo, meio-dia, aí a gente almoçava, todo mundo almoçava, aquela comidinha dali mesmo, franguinho, uma carninha de porco na banha. E aí, ela trazia a gente todos os dias, ela trazia a gente para a cidade, para estudar, no Afonso Arinos. Aí, ela tinha, a gente tinha uma casa aí na cidade. Quando era 17h, ela passava, pegava a gente. A gente ia para fazenda de novo. Então, a gente morava lá, só vinha para a cidade para poder estudar. E nas férias, a gente amava as férias, principalmente quando a gente era mais criança. Porque nas férias vinha muita gente, muitas famílias, primos. Então, a gente achava muito bom, porque a gente brincava. Nessa época, não tinha nada para a gente brincar, eram coisas de lá mesmo, boneca, era uma boneca de pano, minha avó sempre confeccionou bonecas de pano, ela fazia lindamente as bonequinhas de pano, e cada uma era presenteada com uma bonequinha de pano. E a minha avó também, ela gostava muito de pintar, pintar quadros. Tem um quadro ali no ateliê da Igreja da Matriz, foi ela que pintou. Então, assim, eu fui aprendendo muita coisa com ela. Com ela e com a minha mãe. Foi assim, um aprendizado muito gostoso, principalmente lá na fazenda. Lá eu tenho muita, assim, muita memória gostosa. Eu tive uma infância, assim, muito feliz. Isso sempre eu falo. Falo, eu tive uma infância muito feliz. Aproveitei muito.
P1 - Tem alguma história que você lembra em especial? Algumas histórias que você lembra em especial dessa época?
R - Dessa época? Uai! Nossa! Tem tanta história lá, que aconteceu ali. Tem assim, uma que foi muito especial, foi no dia de Natal. No dia de Natal, sempre a gente, ela pegava a gente, todo mundo, punha dentro da Kombi, e a gente vinha para as lojas. Que as lojas antigamente ficavam abertas até 22h, e o povo andava nas lojas, para poder comprar os seus presentes, passear. A gente achava a coisa mais linda, as lojas tudo abertas. E aí, acabou que a gente veio para a cidade, e ela não comprou nenhum presente. E aí, eu fiquei, vim embora, voltei de volta bem triste, sabe? Fiquei triste, né, que eu falei: Ah, a gente foi, andou, andou, amanhã já é Natal, não tem nenhum presente, né? E fui embora. E acabou que eu dormi, desceu todo mundo e tal. E aí, ela só falou para a gente, para a gente colocar o sapato. Mandou a gente lavar o sapato bem lavadinho. “Vocês lavem o sapato bem lavadinho.” Aí, a gente foi, cada um lavou o seu sapatinho. Aí ela falou para a gente colocar o sapato na janela. Aí, a gente foi e colocou o sapatinho na janela, sabe? E fomos… “Menino vai dormir.” Né? Aí, foi dormir.
E aí, no outro dia eu fui dormir chateada, falei: “Gente, mas…” Chorei, chorei, ela adulou, e o outro também chora, a outra chora. Aí quando a gente acordou de manhã, aí ela pegou… Eu lembro que foi até lá no quarto que dava para o curral, e a cama era assim. Aí a janela estava aberta, eu olhei… Na hora que a gente olhou assim, estava lá os sapatinhos com os presentes, tudo em cima dos sapatinhos. Então, foi uma coisa assim, que na infância da gente marca muito a criança. Porque hoje em dia, se você fala um não para uma criança de um presente, a criança já fica brava, né? Então, a gente ficou ali, naquela… Assim, com um sentimentozinho, né? E de repente ela veio com os presentes ali para gente. Então, foi uma felicidade muito grande, muito mesmo.
P1 - Ela ou a sua mãe contava histórias antigas?
R - Minha mãe contava muitas histórias pra gente.
P1 - Lendas daqui da região?
R - Nossa! Contava.
P1 - Você pode contar alguma coisa para gente?
R - Minha mãe contava muitas lendas. Ela falava para gente, não mexer… Por exemplo: ”Não vai para o mato uma hora dessa, não, não desce lá agora não.” Aí eu falava: “Mas por quê?” “Porque lá tem o gigante.” Eu tinha um medo, quando eu era criança, do gigante. Aí ela falava: “Ó, tem um gigante…” Que aí ela contava. Ela falou: “Tem uma menininha que tinha um brinquinho de ouro e foi lá na praia, lá no rego, e esqueceu o brinquinho de ouro lá. E ela foi lá buscar o brinquinho de ouro, e chegando lá, o gigante passou e pôs ela dentro do surrão.” Aí eu falei: “O que é surrão?” Aí perguntava. Ela falava: “Surrão, era um saco grandão, que eles iam e punham a criança dentro, jogava nas costas e levava a criança embora. Então, nunca mais os pais irão ver.” Aí a gente perguntava: “E depois?” Aí, ela falava: “Aí, pegou o surrão, botou ela dentro do surrão, e foi levando ela embora. Aí o gigante cantava: canta, canta meu surrão, senão te boto este facão. Aí, a menininha pegava e cantava: neste surrão eu entrei, neste surrão morrerei, por causa de um brinquinho de ouro que na praia do mar deixei.” E o surrão cantando. Tornamos perguntar para ela, porque se ela calasse, ele metia o facão. Aí, a gente ficava querendo saber se realmente o surrão tinha colocado o facão nela, batido nela com o facão. Aí, ela foi e falou, que aí depois ele cansou de tanto perguntar, pegou o surrão, botou o surrão do lado e foi dormir. E aí, nele dormir de cansado, a menininha foi e abriu o surrão e fugiu. Aí nunca mais a menininha quis ir a lugar nenhum, sozinha, sem os pais. E aí, foi um tipo assim, para a gente aprender a não sair, porque às vezes você queria sair sem os pais, nessa época não podia, né? E tem outras, se puxar da memória, né?
P1 - Tinha alguma personagem da cidade de Paracatu, algum acontecimento que eles contavam também, que nem você falou da santa, por exemplo?
R - Daqui de Paracatu? Uai, a gente tinha o pessoal, que era Chiquinho do Mota, que era um personagem assim, incrível, aqui de Paracatu, que na época, a gente era criança, então, sempre a gente encontrava com ele na rua. Ele era pequenininho, baixinho, e ele tinha um chapéu desse tamanho, chapéu enorme na cabeça. O chapéu era maior do que ele. E um saco enorme nas costas, que ele entulhava um tanto de coisa. A botina também. Parece que era tudo grande nele, e ele ficava pequenininho. Aí, a gente se encontrava com ele. “Ô Chiquinho, dá três pulinhos.” Aí, ele ia e dava os três pulinhos. Aí dava a ele uma balinha, sabe? Tinha o Chiquinho do Mota. Deixa eu ver quem mais que tinha. Nossa, eram muitas pessoas, assim, que a gente lembra. Ali no Beco do Ranulfo, todas as vezes que eu desço ali, eu mais a minha irmã, principalmente a minha irmã, a Teca, a gente tem uma recordação, quando a gente era criança, muito grande ali, porque ali, a gente quando era criança, chamava ela de tia Mariquinha. Bem no Beco do Ranulfo, onde tem aquele casarão ali, tem uma portinha ali. Ali ela era tia de Ranulfo, Neiva. E ali, ela era prima da minha avó também. E lá, a gente descia todos os dias lá, para poder entregar um leite para ela, que a minha avó entregava leite na cooperativa, e sempre trazia umas garrafinhas de leite para as pessoas. E aí, ela parava a Kombi ali, naquele bequinho, aí a gente descia, e a gente brigava uma com a outra, quem que ia entregar o leite? Por quê? Porque dentro da latinha de leite, ela enchia de bombom e balinha. Tirava o leite, quando a gente entregava uma latinha, pegava a outra latinha, a latinha estava cheia de bombom, de balinha. E era uma briga, sabe? “Não, eu que vou levar!” “Eu que vou!” E ali a gente entrava, tinha um porão, aí a gente virava assim, tinha uma cozinha, um fogão enorme, mas era um fogão enorme. E tinha a Maria, que era cozinheira lá, né? E depois a gente subia, tinha uma escada grandona e uma sala imensa, onde ela tinha uma maquininha que ela fazia colcha de retalhos. Ela fazia umas colchas lindas. Ela presenteava a gente também, com essas colchas. Ela chamava Tia Mariquinha. Então, é uma lembrança assim muito grande, aquele beco ali. Igual eu falo, nossa, toda vez que a gente desce aqui. Teca: “Nossa, do que você lembra?” Quer dizer, fica na memória da gente, a gente não consegue tirar ali da nossa memória.
P1 - E tinha alguma outra história da região também? Eu não sei se tinha lobisomem, essas coisas? Elas contavam essas histórias também?
R - Em Paracatu? Lá na minha madrinha, Dindinha Rita, ela gostava muito de contar essas histórias de assombração, na época de finados, não, na Semana Santa, né? Em Paracatu também, o povo falava muito da mula sem cabeça, que se você comer carne, se você fizesse alguma coisa, ia aparecer a mula sem cabeça, o lobisomem. Que eles falavam que ali naquele bequinho que vai para a Igreja da Matriz, eles falavam que ali, não sei, alguém de muitos anos atrás, que ali já cruzaram com o lobisomem. Eram coisas assim, eram lendas, são lendas que os pais, às vezes, criavam para poder a gente não ser tão rebelde, assim, às vezes. Porque hoje já não tem essas lendas mais, as crianças estão mais ativas. Mas antigamente tinha muita lenda, muito caso contado.
Eu lembro também que tinha do... Como é que ele chama? Esqueci o nome dele. Ele era daqui de Paracatu, ele pegava, não sei se era as caixas, umas caixas, sabe? E ia colocando as caixas uma do lado da outra, ia cortando nas portas. Ele também era uma figura muito aqui em Paracatu, assim, que a gente sempre via ele e ficava com medo, corria. Tinha muitas figuras aqui em Paracatu.
P1 - E me conta um pouco da ascendência da sua família de parte de mãe e de parte de pai.
R - De parte de pai?
P1 - Por parte de mãe e parte pai vieram daqui ou não? O que eles faziam?
R - Sim. Meus pais sim, meus pais, minha mãe é daqui, de Paracatu. Minha mãe sempre falou que a mãe dela era índia. Não conheci minha avó, ela chamava Isabel, que é o nome que ela pôs na minha outra irmã. Mas ela sempre falava: “A sua avó, era índia.” Aí, ela teve a minha mãe e deixou minha mãe numa mata, você entendeu? E quem achou minha mãe, foi Padrinho Eduardo. Você vê, né? Ela conta isso, sempre contou isso para gente. E ele achou ela, pegou ela e levou ela para casa. Aí, chegando lá, Tia Tataia, ela já tinha outros filhos já, que são filhos de criação. Que essa avó que eu estou te falando, que é minha vó, Eunice Oliveira Melo, ela é minha avó de coração, ela não é avó de sangue. Ela pegou a minha mãe, criou minha mãe desde pequenininha, criou, casou, teve a família. Então, a gente tem essa ligação com ela de coração. E minha avó nunca teve filhos. Ela nunca casou, ela morreu virgem, ela e a irmã dela, que eram duas, Eunice e Conceição. Eunice, que o povo chamava elea, Eunice do Barreirinho. E Conceição. Teve uma época que o pessoal até foi fazer uma entrevista lá com ela. Eu lembro que eu era maiorzinha, já tava moça já. E eu lembro que o pessoal chegou, para fazer uma entrevista lá com ela. Ela estava fazendo um doce, que ela gostava de fazer doce. Aí, eu lembro dela agachada lá, no negócio lá, mexendo lá no tacho, e o pessoal fazendo, conversando com ela, perguntando para ela das coisas. Porque ela tinha muita riqueza também, muita coisa assim, ela era muito sábia. E ensinou minha mãe a gostar também. Porque a mãe também era apaixonada com a natureza, com tudo. Então, a gente foi ali aprendendo uma coisa com a outra, fomos ali… Às vezes, um não gostava, porque a minha irmã, ela não é muito de natureza, não, assim, de ficar no meio do mato, não. Mas ela ama plantar, ela adora. Quando está nós duas aqui, nós ficamos o tempo todo, só plantando, fazendo uma mudinha aqui, uma mudinha aí. Tudo foi questão de incentivos dos nossos avós.
P1 - Mas você não conheceu o seu avô nem avó por parte de mãe?
R - Não, não conheci. Agora, por parte de pai, eu conheci o meu avô e minha avó.
P1 - E eles eram de que descendência? O que eles faziam?
R - O meu pai era carroceiro e minha mãe era lavadeira. Na época, ela lavou muita roupa para nos sustentar, que ela ficou viúva muito cedo. E o meu pai era carroceiro, ele morava ali na... O meu avô morava ali perto da rodoviária, abaixo, assim, ele morava ali já perto da praia. Minha mãe, mais meu pai, moramos ali, perto da união, ali tinha uma casinha, que tem ela até hoje, essa casinha ali, ali a gente morou muito tempo. Ali foi a época em que minha mãe era lavadeira e lavava roupa lá na praia. Aí, a gente descia com ela lá para praia, ela ia lavar roupa, e aí a gente ia brincar, tomar banho, ficar ali brincando. E meu pai ia fazer os fretes, fazia as carroças, às vezes ele vendia rapadura, vendia muita rapadura. Minha mãe fazia muito pão de queijo, aí ele vendia rapadura, vendia pão de queijo. O povo até chamava ele: “Ô Benedito, rapadura e pão de queijo.” Então, foi ali. Ali que a gente foi crescendo ali também, né? Quando a gente não ia pra fazenda.
P1 - Mas os seus avôs de parte de pai eram o que? Seu avô e avó de parte de pai.
R - O meu avô chamava Bonifácio. Bonifácio Severino Maciel. Que eu sou Severino Maciel. Ele gostava muito de jogar truco. Era ali perto da rodoviária, então, eu lembro assim, na minha época de criança, que a minha outra avó, levava a gente, às vezes passava lá, levar um leitinho, uma mandioquinha, alguma coisa. Ele estava ali, sempre rodeado de uma mesa cheinha, jogando truco. Era o tempo todo, ele amava jogar truco. E minha avó era do lar mesmo, ela era dali mesmo, fazia comidinha aqui, comidinha ali. E meu avô, ele antes também, ele era carroceiro. Que antigamente tinha muito carroceiro na cidade. Hoje é porque o pessoal não fala mais desse ofício, mas antes tinha muito carroceiro. Não tinha carro, quem tinha carro era só rico que tinha carro. Mas mesmo assim a cidade demorou para poder sair do ofício. Mas ele foi também carroceiro, meu avô. E fazendeiro também, porque eu nasci lá na Fazenda Extrema, né? Lá na Brasilândia, aí lá, ele vendeu a fazenda lá, depois que ele se casou de novo, que a primeira esposa dele, que é a mãe do meu pai, aí ele casou novamente, que a gente considera como minha avó, porque a gente era bem pequenininho. E aí, ele veio morar em Paracatu, e morou lá naquele lugar, e morreu ali também, naquele lugar.
P1 - Vamos falar um pouquinho da cidade também? Quais são as primeiras lembranças que você tem lá da cidade de Paracatu.
R - De Paracatu?
P1 - Aonde vocês iam? O que vocês gostavam, por exemplo? Enfim…
R - Em Paracatu, sempre, quando a gente era criança, a gente ia muito era em festas assim, de igreja. A gente participava muito, a participação era muito grande, em procissões, nas procissões que tinha. A gente participava, porque a Tia Tataia, que é irmã da minha avó, Eunice, ela fazia a coroação de Nossa Senhora, a gente juntava todo mundo, ali tinha o ensaio, ela ensaiava todo mundo, para poder ver a voz de cada uma, para ver se ia ser legal, para fazer a coroação de Nossa Senhora, no mês de maio. Aí a gente ia para lá, para a casa dela, que a gente morava de um lado, e ela do outro, ali, na Rua Américo Macedo. E lá a gente fazia as cantorias. Aí ela escolhia: “Olha, fulano vai coroar Nossa Senhora. Ciclano…” Era duas para coroar. Eu já coroei, Nossa Senhora. Eu, Silvaninha. Já vesti de fé, esperança, caridade, BU, que antigamente tinha BU. Então, ela fazia todo esse cuidado no mês de maio, era ela que fazia essa coroação de Nossa Senhora, no mês de maio. E aí, a gente ia lá para a Igreja do Rosário, era a festa inteira, depois tinha as barraquinhas. Eu lembro muito das barraquinhas ali da Igreja da Matriz, atrás da Igreja da Matriz, tinha as barraquinhas. Terminava a missa, e aí a gente ia para as barraquinhas, os leilões, que antigamente tinham os leilões. Os leilões cantados, falado. Era diferente de hoje. Era uma coisa assim, não tinha muito lugar para gente ir, então, o pessoal concentrava muito ali, nas barraquinhas, nos leilões. E nas festas também. Desfile da cidade, quando tinha desfile, a gente participava, na época, no aniversário da cidade, a gente já ia todo mundo, já tudo arrumadinho para participar do desfile. E assim, em Paracatu a gente participava mais de festas católicas. No mais, a gente sempre participava de tudo e retornava para a fazenda.
P1 - E a estrutura da cidade mudou daquela época, da sua infância, ou não? Como é que era?
R - Mudou. A estrutura mudou muito. Muito. Paracatu era uma cidade assim, eu creio assim, que era uma cidade mais tranquila, as pessoas eram mais unidas, a cidade era mais tranquila, as coisas eram… As pessoas parecem que valorizavam mais o plantio, a terra, sabe? Não tinha tantas coisas industrializadas como hoje tem. Porque em Paracatu sempre teve a feira rural, dos produtores que traziam as coisas, rapadura, a farinha, o café, que às vezes até a gente mesmo plantava o café, a gente mesmo torrava o café. Tenho até um moinho ali, que era da minha mãe, que a gente moeu muito café. Você ia fazer um café, você já tinha que colocar ali, moer na hora, e fazia o cafezinho. Não tinha tanta coisa industrializada. Então, Paracatu, assim, mudou bastante, muita coisa.
P1 - As ruas mudaram?
R - As ruas, as ruas até que não. Os becos são a mesma coisa, os bequinhos. Agora, as ruas, mudou, assim, tá virando muito comércio. Os casarões, Graças a Deus que hoje está bem avançado, não está ali… Conservando os casarões, mas sempre você vê um ali que já não é mais do mesmo jeito, mudou o estilo. As igrejas, principalmente as igrejas de Paracatu, porque eu fico assim, com o coração partido, de às vezes a gente não poder entrar dentro da igreja, de você… Porque ali, a hora que você entra ali dentro, nossa, você volta seu tempo ali atrás. Quer dizer, eu creio assim, para as pessoas aqui de Paracatu, que é católico, que foi criado na igreja, então, assim, é uma memória muito grande da gente entrar. E hoje a gente não está tendo esse ato de poder ir para a igreja, de poder entrar dentro da igreja. Mas eu creio que estão reformando, né? Se Deus quiser, a gente vai ter nossas igrejas de volta, porque esse é um símbolo muito grande aqui de Paracatu. E assim, tem muita coisa aqui em Paracatu que mudou, e principalmente em termos de violência. Aqui, Paracatu, era muito pacato, o povo ainda até falava: “Nossa, Paracatu, é uma cidade pacata.” A expressão pacata. Por que? Porque era parada, não acontecia nada. Agora, hoje não. Hoje você vê que é uma… Quase todo dia tem uma violência, uma coisa aqui, uma coisa dali. Mas não é só Paracatu, é geral, né? Isso aí tá geral.
P1 - Eu perguntei das ruas, os córregos, os rios, eram como é hoje? Como eram?
R - Não, não. Aí, tinha a Praia do Macaco, onde que o pessoal, a gente ia com os pais, as mães, para lavar roupa, ali na beira, chegando ali, não tem? Ali, Pedro Calçada, ali. Ali, assim, ó. Chegando em Paracatu, onde tem a mineradora. Aí tem ali, ali era uma praia, né? Tinha muita água. Tinha também aquela que passava lá dentro da cidade, né, que é Córrego dos Meninos, que ali era onde os meninos tomavam muito banho. Tinha o Matinho, que o pessoal ia lá, que era um poção grandão, aí o pessoal tomava muito banho ali. Então, ali em Paracatu tinha… Hoje acabou. Hoje virou esgoto. Praticamente, o Córrego dos Meninos, virou, acho que é um esgoto, né? Porque creio que não vejo mais ninguém falar. E era uma cidade cercada de rios, cercado de córregos. E hoje eu até brinco, falo: Hoje os rios estão virando córrego, e o córrego tá virando rego, né? Não tem… Hoje a gente não pode falar: o rio. Hoje, o rio está diminuindo bastante. Paracatu era uma cidade assim, a natureza era muito forte, os morros, as montanhas. Então, era... O pôr do sol, a gente quando era adolescente, assim, 16 para 17 anos, a gente ia lá para cima, para a Curva da Morte, que lá era um mirante, lá tinha um mirante lá. Então, a gente ia para lá para poder ver o pôr do sol, era lindo! Você subia para lá e via o pôr do sol, sabe? E então, às vezes, a hora que ficava assim um pouquinho, já quase ficando a noite, a gente olhava, aí a gente falava que Paracatu era uma forma de uma guitarra. A pessoa falava e a gente ria. Falava: “Ah, é mesmo!” Mas assim, era muito bonito, a vista de Paracatu de cima. Hoje mudou bastante, né?
P1 - Me fala um pouquinho, você diz um garimpeiro, por exemplo. Como é que era a relação que você ou a sua família, ou que você viu?
R - Do garimpeiro?
P1 - Do garimpeiro, do ouro, essas coisas?
R - Sim, do garimpeiro, meu tio. Meu tio Dário, ele era garimpeiro. Ele era garimpeiro ali mesmo, na praia perto do meu avô ali. Ali ele tinha a casa dele também, logo abaixo do meu avô, perto da praia. E então, sempre a gente ia lá no meu avô, a gente descia, dava uma descida lá embaixo para ver, que ali não tinha casa, era tudo praia. E aí, sempre ele estava lá, bateando com a bateia, tirando o ourinho dele. Aí ele vendia, o pessoal aqui em Paracatu vendia para o Tidas, que ele que era o ourives aqui de Paracatu. E assim, eu via outras pessoas também. O meu avô também, na época, ele bateou muito lá também. E meu tio. Meu pai também, teve uma época também que ele, antes de ele mexer com a carroça também, ele mexeu um pouco. Só que aí depois não poderia mais tá mexendo lá, porque eles iam fazendo caçambas, ia furando, furava, fazia uma caçambinha aqui, uma caçambinha ali, tirava o ouro. Aí depois já veio à draga. Aí, já foi mudando. Porque enquanto era só o garimpeiro, só o garimpeiro garimpando o ouro, não fazia mal, porque não tinha nenhum mercúrio, nem nada na água. E aí, depois já veio draga, já veio outras coisas. Aí foi, como diz, os garimpeiros, já foram saindo dessa profissão e pegando outras profissões. Mas eu tenho uma ligação muito forte, que eu lembro também que na época do desfile da cidade, a gente vestiu de garimpeiro para fazer o desfile. Eu achei linda a homenagem. Porque hoje em dia você quase não vê ninguém falar sobre os garimpeiros. É por isso que eu sempre estou puxando, puxo a memória disso, porque foram muito importantes na nossa história. Foram muitos que criou família com esse tirar o ouro. Muitas famílias que foram sustentadas ali, tirando o ouro. Tinha muitos garimpeiros aqui em Paracatu. Muito mesmo.
P1 - Me conta uma coisa, curiosidade que eu tenho, eles cantavam tirando ouro? Você lembra disso?
R - Se eles cantavam? Diz que todos, sempre eles tinham uma musiquinha para cantar. Eu não sei a música, mas eles cantavam. Sempre eles estavam ali, bateando e cantando, iam bateando e cantando, fazendo a cantoria. Cada um inventava, tipo, um repente ali da hora. Às vezes não era uma música definida, mas era um repente que eles…
P1 - Vinham da cabeça deles?
R - Vinha na cabeça, para poder passar ali aquele tempo. Ou então, a alegria de ver ali um tanto de ouro bom, né? Ali era como… Eles faziam ali, na hora, ali.
P1 - E antes de passar para a sua escola, conta para mim como é que você lembra da catira? E do pouso da folia. Como é que funcionava esse pouso, o que eles cantavam? Para quem nunca viu isso, né?
R - Sim. A Catira era só homens de chapéu, tinha que ter um taquinho na bota, é um tipo de passo que você canta. Ele é cantado e batido com a sola da bota. Esse era o ritmo. Então, é um ritmo muito bonito. O meu pai, minha mãe contava para a gente, falava: “Seu pai…” Que ele morreu, a gente tinha três anos, então, eu nunca pude ver ele dançar uma catira. Mas a minha mãe sempre falava: “Nossa! Seu pai dançava uma catira como ninguém.” E ela ainda falava que morria de ciúmes, porque tinha o chapéu, que eles faziam apresentações. Aí depois eles iam fazer a dança, com a sola dos pés e bate as mãos, bate as mãos e vai fazendo a cantoria com a sola dos pés. E isso acontecia muito em fazendas. Fazendas, faziam os grupos, que sempre tinha os grupos de catireiro. Onde tinha uma festa, uma fogueira, sempre eles estavam ali, aquele grupo estava ali. O meu pai sempre participava. Qualquer forró que tinha, qualquer forró de festa de roça. Ele estava sempre dançando a catira lá.
P1 - E o pouso de folia, como é que funciona?
R - O pouso de folia, sempre foi lá na fazenda da minha avó. Eu lembro assim, que a gente preparava tudo, matava muito frango, porco. Porque era impressionante, parecia que a gente fazia comida, era tanta gente que vinha, mas a comida não acabava. Sabe? É uma coisa assim, você fala… Porque igual a minha avó falava: “Quanto mais a gente dá, mais a gente recebe. Vamos matar o tanto de frango que tiver, o melhor.” Ela gostava de pôr o melhor na mesa para os foliões de reis. Era uma mesa de sobremesa, que a gente fazia os doces, doce de leite, doce de figo, doce de laranja da terra, eram muitos doces. Doces desidratados, que fazia aqueles açucarados, que açucara, faz os doces desidratados. E fazia as comidas, que eram tutu de feijão, arroz branco, a macarronada com queijo, frango caipira, pelota com mandioca. Então, era uma comida assim farta, uma mesa farta, era muita comida. E vinha muita gente. E aí, acabava a festa, tinha o forró. Todo mundo fazia reza, recebia reza, fazia a cantoria, que é muito emocionante, que não tem quem não chore para receber uma folia de reis. Aí, fazia cantoria, fazia reza, depois tinha a dança da catira. E aí ia servir a mesa para eles. E para todos, porque eles tinham a mesa deles, só dos foliões, e para o pessoal convidado, a gente fazia a parte, uma outra mesa. A gente ia servindo para eles, para as outros pessoas. E ali ia até… Às vezes amanhecia até o dia, e o povo dançando forró.
P1 - Você lembra de alguma cantoria?
R - Da cantoria?
P1 - Como é que cantava? Você se lembra?
R - Da Folia de Reis? Uai! Tem uma… Minha cabeça tá ruim esses dias. Quer ver? Tem uma que é inesquecível. Que fala, festa do Divino, fala.. Peraí, calma, deixa eu puxar a minha mente aqui. Fala: “25 de dezembro…” Como é que? “25 de dezembro…” Eu esqueci!
P1 - Não tem problema, não. Se você lembrar depois.
R - 25… Esqueci.
P1 - Mas eles cantavam no Natal, é isso?
R - Sim! É porque o Natal era dia 25 e Folia de Reis é dia 6, né? Era dia 6 de janeiro. Passava o Natal, e dia 6 de janeiro, já é dia de Reis. Porque a Folia de Reis é os três Reis Magos, né? Que foi levar os presentes para Jesus. E então, por isso que celebra a Folia de Reis no dia 6, por isso. Eles foram levar, foi mirra, incenso e bálsamo. Eles levaram para Jesus. Então, todas as vezes o pessoal comemora nessa data. Tem gente que comemora em outras datas. Mas o certo mesmo é no dia 6. Aí, eles dormiam, tinha lugar para eles tomar banho, dormiam. Aí, no outro dia de manhã, eles faziam outra cantoria, né? Tinha outra apresentação, e aí fazia a mesa para eles tomarem o café da manhã. Aí, eles tomavam café da manhã, e aí eles despediam. Aí fazia despedida dos foliões. Aí eles iam.
P1 - Para outra casa?
R - Para outro pouso, né?
P1 - Então, você falou que a primeira escola sua foi Afonso Arinos.
R - Sim. Afonso Arinos.
P1 - Onde que ela fica?
R - Ali na Praça do Rosário? Na Praça do Rosário. Ali a gente fazia o prézinho, lá já tinha o prézinho. E aí do prézinho, já faz o primeiro ano, o segundo ano, terceiro ano. Lá eu estudei até o quarto ano. Aí de lá… Eu estudei em todos os colégios daqui de Paracatu. Estudei no Affonso Roquette, no Eliseu, estudei no Polivalente, Antônio Carlos. E lá eu não me formei, eu fiz o segundo ano incompleto, porque, como dizia, eu não tinha... Eu era um pouquinho, meio que rebelde para a sala de aula. Gostava muito de matar aula, coisas que não pode fazer, né? Mas eu tinha essa maniazinha de matar uma aulinha.
P1 - Isso mais adolescente?
R - É, ali no Polivalente, a gente tinha um murinho lá, e a gente ia para lá para poder o pessoal ir lá com o violão, a gente fazia uma serenata, ficava ali tocando violãozinho e sempre dava um jeitinho de escapulir. E aí, acabou que eu não me formei, que eu gostaria muito de ter me formado. Principalmente na parte assim, que hoje eu sei que eu gostaria muito de ter feito agronomia. Porque eu gosto muito de lidar com a natureza. Ou então, ter feito artes plásticas. Algo assim. Mas como eu não me valorizei, não dei valor no estudo. Aí, como diz, a gente vai fazendo ali, aprendendo ali, com as mãos, né? Que às vezes o trabalho artesanal, ele manual, se Deus te deu esse dom, então eu acho que é muito válido. Porque às vezes eu penso assim, eu vou fazer alguma coisa, eu vou fazer um bonequinho, uma lavadeirinha, ou uma doceira. Aí, como diz, eu não sei como eu vou fazer, mas a hora que eu começo a pegar ali, e montar, eu vou e faço. Então, eu acho que isso aí é o dom que Deus nos dá, de fazer, de trabalhar ali com as mãos, da gente está montando, modelando, de ver se realmente ficou legal. Então, é um amor que a gente tem. Eu tenho um amor muito grande pelo artesanato, pelas coisas feitas à mão. E eu gosto de fazer o artesanato nato mesmo, eu gosto de pegar. Eu não gosto muito de usar coisas compradas, industrializadas. Esses dias eu estava até conversando, falei que eu estava querendo até substituir a cola quente. Antigamente a gente não tinha cola quente, antigamente a gente fazia... Tinha o grude, a gente fazia um grude com o polvilho de fazer biscoito, pão de queijo, punha um limãozinho ali, uma aguinha, batia, fazia um grude para colar material escolar, colar cadernos, essas coisas. E ele é um grude, ele gruda mesmo. Então, hoje em dia as coisas estão muito assim, muito industrializadas. Tinta também, eu não gosto de usar. Eu não compro muita tinta. Eu gosto de eu mesma fazer a minha própria tinta, para mim colorir minhas palhas, colorir minhas coisas. Eu uso muito açafrão, eu uso urucum, eu uso a entrecasca do angico. Eu vou usando, toda entrecasca que eu vejo, algo que eu vejo assim, que realmente eu posso fazer um teste, vai dar certo. Eu sempre estou ali, olhando, atenta a natureza, o que a natureza tem ali pra gente. E a natureza, ela tem muita coisa para nos dar, não precisa as vezes da gente ficar ali comprando uma coisinha daqui, uma coisinha dali. Agora em setembro mesmo, eu sempre brinco com o pessoal. Aí, eu falo: “Setembro tá chegando.” Porque setembro é a época das sementes. Onde a natureza vem e já te dá ali toda a fartura de semente? Então, é um espetáculo, o mês de setembro, para a gente que é artesão, que gosta de trabalhar com sementes, com coisas do Cerrado. É um espetáculo esse mês.
P1 - Me fala um pouco, volta um pouquinho nessa sua adolescência. Você falou que olhou Paracatu uma vez, e parecia uma guitarra. Você entrou na música? Ouvia o quê nessa época que você era rebelde?
R - Nessa época a gente ouvia muito, muito, muito, era Bob Marley. A gente ouvia muito Dire Street. Na nossa época, a gente gostava muito de Lobão, Léo Jaime. Então, era Lulu, Lulu Santos. Os MPBs. Eu gostava muito de MPB, sempre gostei muito de MPB. Os internacionais sempre tinha os mais pesados, mas eu nunca gostei muito de rock pesado. Eu gostava das mais leves, mais suave, não era uma coisa muito, assim, irritante. Às vezes o rock, às vezes, quando ele é muito pesado… Tem gente que gosta, para dançar e tudo. Mas eu gosto, sempre gostei mais, assim, de uma coisa mais leve. Como é que ele chama? Paulo Ricardo, que foi assim… Eu acho que quem viveu esses anos, os anos 1970, 1980. Principalmente 1980 e 1990, que foi assim muito marcante do rock. Era um rock gostoso, não era rock pesado, né?
P1 - E como é que se namorava na época?
R - Uai, na minha época já era mais tranquilo. Na época da minha mãe, eu lembro que ela falava para mim, que ela nunca tinha beijado o meu pai. Só depois que ela casou, porque ela namorava, ele de um lado, e ela do outro. E sempre tinha uma pessoa ali, sempre entrando e saindo ali, para ver como estava o namoro ali. Então, eles não conseguiam nem pegar uma na mão do outro. Eu sempre falava: “Gente, mas como assim? A Senhora nunca deu um beijinho?” “Não, só depois que a gente casou.” Agora, na minha época já, assim, não era tanto, né? Porque mesmo assim, a gente ainda tinha uma repressão muito grande. Na minha época, eu lembro que a gente não podia estar na rua depois de 22h, às 22h a gente já tinha que estar em casa, porque a gente tinha… Lá em Paracatu tinha comissário de menor. Então, eu lembro que era Dona Marta Neiva, Maria de Badu, Seu Bezerra também. Então, assim, se você tivesse em algum lugar e eles passassem e te vissem, eles te recolhiam, te levavam e entregava para os pais. Então, era assim, uma época assim de... Até nas novelas, que tinha censura, você ia assistir algum programa, alguma novela, já falava: “Atenção senhores Pais, terminou o horário livre.” Aí não precisava falar nada, era só um olhar, da sua mãe, do seu avô. Já te olhava assim, você já pegava o caminho da cama. Mas como eu era um pouquinho rebelde, sempre arrumava um jeitinho que falava: “Gente, mas por que que eu não posso assistir?” Eu lembro muito do programa do Chico Anísio, que toda vez que começava ele, minha vó mandava a gente ir para a cama. Aí eu fui, fiquei olhando assim da porta, do entremeio, da greta da porta, para mim ver o que que era. Aí eu vi, no programa do Chico Anísio, era uma banana, e uma mulher saindo, descascava banana, assim, e saia uma mulher de uma roupinha mais assim, de dentro dessa banana. E depois saia um macaco de dentro dessa banana. Aí, eu falava: “Gente, mas não tinha nada… O que tem demais ali nessa imagem dessa mulher saindo de dentro dessa banana?” Não sei o que aconteceu. Mas sempre era assim. Nesse tempo tinha censura.
P1 - Ditadura militar, né?
R - Tinha, eu lembro. Eu tenho uma visão muito grande da época da ditadura militar. Eu era bem criança. Eu acho que eu tinha uns 5, para 6 anos, isso ficou muito marcado. Eu lembro que a minha avó chegou correndo, e eu lembro que tinha um monte de soldado com capacetinho, parecia uma cuité, sabe, assim? Verde. E aí, eu lembro que ela pegou a gente, pôs a gente debaixo da cama, mandou todo mundo ficar debaixo da cama, sabe? Então, eu lembro de eu ver os boots, sabe? Buff, buff, assim. Então, era muito assim… Na minha época de 5, 6 anos, eu tenho uma visão muito grande sobre essa ditadura militar mesmo, que teve em Paracatu.
P1 - Quer perguntar?
P2 - Não, eu ia falar justamente sobre isso. Paracatu teve ditadura militar?
R - Sim, teve, que essa época assim, né?
P2 - Nessa época que a Senhora falou, ser um pouco rebelde, a senhora citou muitos artistas, músicos, que realmente enfrentaram a ditadura militar. Muitas vezes músicas veladas para não ser tão direto contra o sistema. Mas como a senhora já bem disse, a sua infância foi a infância bem criança mesmo que vivenciou essa ditadura militar, correto?
R - Foi. Foi bem eu criança.
P2 - E a Senhora falou que tem essa visão deles andando, marchando na cidade. E quanto a isso, houve… A senhora tem alguma forma de história, medo, trauma, alguma ressalva sobre essa época, principalmente em comparação a hoje? O que a senhora vivenciou?
R - Eu tenho essa, de quando eles entraram lá dentro de casa, que eu vi vários entrando, e a gente debaixo da cama, quietinho, que não conseguia nem respirar. E eles batendo as botas. Sabe aquele batido de bota, pá, pá, pá? Entrando. Não vi rosto, não vi… Só sei que tinha caminhões do exército, as ruas foram tomadas. Aquela rua ali, rua Goiás, o centro ali, que a gente morava ali acima da Rua Goiás, na Américo Macedo. Aquilo ali foi tudo tomado pelo Exército. Eu não sabia o que estava acontecendo. Foi muito marcante, ficou muito marcado. Medo, terror de sair dali de baixo, da avó tirar você dali. Se realmente eles foram embora, se realmente eles vão voltar. Agora, eu não sei direito o que aconteceu, porque nessa época, eu achava que as vezes era alguma coisa que minha avó tinha feito, você entendeu? “O que será que ela fez? Eles vão prender ela?” Então, aí depois que foi explicado, que não, não, foi a cidade toda, tá toda tomada.
P1 - Mas eu imagino que você tenha tido uma criação, na escola, voltada para o que o regime queria. Teve matérias como Educação Moral e Cívica? Hastear a bandeira?
R - Sim, tinha, tinha. A gente… Principalmente… Esses dias que teve um evento lá, eu ainda fico assim, reparando, porque antigamente, o Hino Nacional, era como se ele fosse sagrado. Era não, para gente sempre… É um respeito, né? E hoje a gente vê, toca o hino nacional, as pessoas começam a brigar, conversa, tá de chapéu. Então, ali no Afonso Arinos era assim, a gente fazia fila, a gente tinha monitora. Cada sala tinha uma monitora. Eu fui monitora. E aí, a gente fazia, cada um ia fazendo por tamanho, do pequeno, ia indo, até o grande, lá ia. A gente fazia uma fila em frente ao Afonso Arinos. Cada sala tinha uma fila. E a monitora, cada monitora vinha com aventalzinho, um lencinho, e tinha uma cruzinha vermelha, era a monitora, ela tomava conta dos alunos, da sala. E aí, a gente ia, falava: “Pé junto! Pé junto!” Cada um que estava com o pé separado, a gente ia para pôr… “Pé junto, mão para trás. Pé junto, mão para trás.” Cada um que estava na fila tinha que pôr o pé junto e a mão para trás, e manter distância. Aí a gente punha uma mãozinha atrás do outro para poder não ficar muito… Para poder ficar certinho, manter a distância. E aí, depois que todo mundo estava com a mão para trás, e todo mundo quietinho, aí tocava o hino nacional primeiro, para depois a gente entrar para a sala de aula. Aí, quando tocava o hino nacional, a gente já mudava de posição, todo mundo ficava durinho, não podia nem piscar. Ficava, assim, igual bonequinha. Todo mundo quietinho, mais quietinho. Você ver que lindo que era, tocar o hino nacional até o final. Era uma coisa muito bonita de se ver. Aí terminava de tocar o hino nacional, todo mundo se dispersava, caladinho, não podia ficar conversando muito. Aí subia um de uma escada de cá, outro da escada de lá, a gente encontrava e ia para as salas assim, sabe? Era Dona Coraci Neiva, que era diretora nessa época. Então, era assim, era... Eu não creio que foi rígido, eu creio que foi uma coisa assim, que ensinou a gente a ter respeito. Então, essa palavra, eu falo que essa palavra: “Respeito”, eu aprendi muito ela, desde a infância. Sempre, minha avó sempre falava: “Olha, você respeita, a gente tem que ter respeito, tem que respeitar as pessoas, respeitar isso, respeitar…” Então… E lá também no colégio. Quer dizer, tudo ensinamentos que a gente leva pra vida inteira, né? A gente não tem como apagar.
P1 - Agora, você me conta uma coisa, você, perto de 18 anos você foi para Belo Horizonte? É isso?
R - Sim. Aí eu fui, fiquei aqui em Paracatu, bem um tempo, e depois eu fui para Belo Horizonte. Fiquei lá um tempo, lá estudando e trabalhando também. Aí depois eu voltei pra cá, para Paracatu de novo, fiquei aqui bem um tempo, comecei a trabalhar em algumas coisas. Fui trabalhar na... Era clínica. Tinha uma clínica chamada, Clínica São Lucas, ela era ali na Rua Goiás, ali embaixo, onde que era a antiga “Consciarte”, ali começou a Clínica São Lucas. Antes, eu fiquei com a minha avó lá em Belo Horizonte, que ela teve um problema de saúde, e aí eu fiquei com ela três meses lá no hospital, com ela, Felício Rocho. E aí, eu fui e tomei amor. Eu achei que eu ia querer ser enfermeira. Achei, assim: “Ah, eu vou fazer enfermagem.” E lá eu comecei a fazer na prática, comecei a estudar e comecei a fazer na prática, lá também. Só que aí, eu não... Infelizmente, o Dr. Ivan, virou para mim e falou assim: “Olha, Eneida, não tem como…” Ainda brigou com a minha avó. “Ela não pode fazer enfermagem.” Porque eu não conseguia ver sangue, todas as vezes que eu ia ver, que eu tinha que fazer algum curativo, alguma coisa, eu via sangue, aí eu desmaiava. Aí, então, isso aí, como diz, foi eliminado. É uma coisa que eu queria fazer, mas foi eliminada. E foi onde que eu parti para outras coisas. Voltei para Belo Horizonte. Aí lá também fui trabalhar em loja, ourives, essas coisas. Depois eu voltei, a minha avó estava muito doente, aí eu voltei e fiquei com ela mais um tempo, lá na fazenda. Aí, a gente fez um viveiro, um viveiro de plantas, a gente vendia muitas mudas. E onde que eu fui tomando amor pelo artesanato, foi quando eu fui para Pirenópolis, lá eu tomei, assim, eu falei: “Não, é isso que eu quero fazer.” Eu fui lá passear, e aí, foi onde eu tive contato com amigas que já estavam na área. E aí, foi onde eu tomei mais amor ainda, pela arte. Até falei com a minha avó, e ela ainda até me ensinava muita coisa, minha mãe também, sempre incentivou, que ela sempre gostava de fazer algo diferente. Minha mãe fazia frivolitê. Fazia uns frivolitê, que hoje em dia ninguém nem conhece, não sabe o que é um frivolité. Ela costurava as roupinhas nossas de chitão, de chita, a gente tinha as roupinhas, os vestidinhos de chita. Então, ali a gente foi aprendendo.
P1 - O que é frivolitê?
R - Frivolitê é uma rosinha que você faz, só com uma agulhinha assim, ou então, às vezes, ela fazia só com o dedo. Aí, ela ia fazendo as rosinhas. É uma rosinha assim. Hoje tem ela industrializada. Hoje industrializou ela. Aí você usa para fazer os apliques nas roupas, né? Mas hoje tá tudo já industrializado, eles fazem na máquina, sai rapidinho.
P1 - Você conheceu seu atual marido, como é que foi essa história?
R - Sim. Eu fui lá para Goiânia. Lá em Goiânia eu morei lá 13 anos. É lá onde que eu fui mexer com... Fui em Pirenópolis, de lá fui mexer com… Fiz muito artesanato lá em Goiânia, que lá também tinha a Associação dos Artesãos, lá. Foi lá que eu também comecei tudo. Aí, entrei na Associação dos Artesãos, logo, eles deram oportunidade para gente, eu fazia crochê e fazia tricô. E gostava muito de fazer uns paineizinhos para colocar umas sementinhas, umas coisinhas. E aí, quando originou, eles deram a oportunidade da Feira da Lua, e aí, a gente participou, e eu tive a oportunidade de ganhar um ponto lá na Feira da Lua. E lá eu comecei, comecei a comercializar os meus produtos na Feira da Lua, que era o crochê, o tricô. E na Feira da Lua eu fiquei… Quanto tempo? Eu fiquei lá, deixa eu ver. Nossa, eu fiquei acho que uns dez anos na Feira da Lua, muitos anos lá na Feira da Lua. Fazia muita coisa bonita, fazia muitas topiarias. Eu adorava fazer topiarias. Aí, eu vendi muitas topiarias de sementes. Eu não sei se você conhece? É aquela ali. Tipo, aquela que tá lá na frente. Aquela lá eu guardo de lembrança, aquela lá é de baliza. É umas mini arvorezinhas. Aí, você faz de alho, faz ela de pimenta, com alho e pimenta para espantar inveja. Tem ela de cravo, para tirar o cheirinho do ambiente. Então, sempre eu estava ali na feira expondo os meus produtos, o crochê e o tricô também, que eu gostava de fazer.
P1 - Aí o seu marido apareceu lá. Foi isso?
R - Sim. Aí eu conheci, esse não, o outro. Que eu separei e ele é meu segundo marido. E aí, eu conheci o meu outro marido, lá em Goiânia mesmo, conheci ele numa festa. E aí a gente casou e tudo, ficamos 13 anos. Ficamos 13 anos juntos. Eu fazendo sempre a feira e a gente... Ele às vezes ele ia, porque ele mexia com outra coisa, ele estudava, ele tinha outro ofício. Mas sempre a gente estava ali. Aí, sempre eu fazia, Feira da Lua, Feira do Entardecer, Feira do Amanhecer. Eu fazia quase todas as feiras que tinham. Que era feira cultural, onde tinha uma feira cultural, sempre eu estava. Às vezes, a gente vinha aqui em Paracatu, sempre eu estava aqui. Eu morava em Goiânia, mas eu sempre vinha aqui em Paracatu para rever a família, para passar final de ano, na época das festas. Vinha eu e meu esposo.
P1 - E você teve…
R - Depois gente separou.
P1 - Você teve filhos com ele?
R - Não tive. Não tive filhos com ele, porque eu tive um problema de saúde. Eu tive dois abortos, aí eles me deixaram com sequelas, aí eu não pude ter mais filhos. Então, eu não tenho filhos.
P1 - Entendi. E a senhora conheceu o seu atual marido aqui em Paracatu?
R - Sim, aqui em Paracatu.
P1 - Isso já foi depois?
R - Sim. Mas esse atual marido meu, eu já conhecia ele desde criança. Ele era muito amigo do meu irmão, da minha mãe. A minha avó era muito amiga dos pais dele também, sabe? E depois ele casou. Ele casou, depois ele separou. E a gente veio reencontrar, quando eu separei lá em Goiânia e vim embora para cá, para Paracatu, aí a gente teve esse encontro aqui em Paracatu.
P1 - Você tinha quantos anos?
R - Não, foi… Eu tinha o que? Uns 42 anos, eu tinha. Que já tem 25 anos que a gente tá junto. Então, eu tinha mais ou menos essa idade, quando a gente se conheceu. E a gente resolveu ficar juntos. E estamos até hoje.
P1 - Você, nessa época, você achava que ia casar de novo, ou não estava nem aí? Como é que era?
R - Não, não. Foi assim, bem inesperado. Porque eu vim de um relacionamento muito difícil. E eu não vim morar em Paracatu, eu já vim direto para a fazenda da minha avó, vim ficar com ela, que ela já estava bem idosa, e ela me pediu muito. E aí, eu lembro que eu trouxe as minhas coisas, fiquei lá… Tipo assim, eu vim para ficar com ela, e eu estava procurando algo para eu fazer. Foi quando eu fui lá na Casa do Artesão, que eu falei: “Gente, tenho que fazer alguma coisa.” Viu que eu te mostrei eu vendendo pequi.
Aí, de manhã eu levantei, quando eu vim embora, que eu larguei meu esposo e vim embora. E eu levantei de manhã e fui andar no pasto. Quando eu andei no pasto, eu vi muito pequi no chão. Mas era muito pequi. E aquilo ali eu falei assim: “Gente, mas como assim? Esse tanto de pequi, vai perder?” Aí peguei e falei assim: “Gente, e se a gente pegar esse pequi, ir lá para a rodovia, e vender esse pequi?” Porque o meu primo não trabalhava, estava com a esposa dele, a filhinha dele. Quer dizer, você tem que ter uma renda ali também. Porque não é só gastar. Aí eu pensei, eu falei para ele: “Gente, vamos pegar uns pequis, vamos levar lá para a rodovia e vamos tentar vender.” E assim, fomos. Aí nós fomos, e foi muito bom, porque a gente vendeu bastante. Chegamos no final de tarde, a gente estava com o bolsinho cheio de dinheiro, a gente ia para Paracatu, abastecia o carro, fazia compra, voltava. E lá a gente começou, sabe? Essa… E aí, eu pensei, falei assim: “Uai, eu vou fazer um quiosque aqui na beira da rodovia.” Aí, eu fiz o quiosque. A gente estava montando, já tinha colocado as palhas, ia se chamar “Coisas da Terra”. Tudo que a gente produzisse lá na fazenda, ovos, rapadura, queijo, doce, açafrão, o que tivesse, a gente ia levar para lá. Porque foi muito bom. Sabe? O povo tava… A gente começou a levar jabuticaba, a gente começou… gabiroba, mangaba, sabe? O povo parava mesmo, e comprava. Aí, eu, dei esse clique de fazer esse quiosque. Só que eu construindo, fazendo, aí minha vó veio e faleceu. Você entendeu? E aí, eu tive uma depressão profunda. Eu não tive mais vontade de fazer mais nada. Eu tive assim, parece que eu fiquei sem rumo. Eu não sabia o que fazer. Sabe? Porque ela era, como diz, meu porto seguro. Minha mãe também foi meu porto seguro, muito, mas parece que ela… Sabe, assim? Parece que tinha mais… Mais amor ali, sabe? E aí, eu fiquei perdida. Fiquei perdida, abandonei o quiosque, vim para a casa da minha mãe, fiquei com a minha mãe. E aí, eu não sei o que aconteceu, foram e colocaram fogo lá no quiosque. Colocou fogo, destruiu o local todinho. E aí, eu fiquei muito chateada. Aí, eu abandonei também, larguei. Aí, eu fui afastando, porque começa as brigas de coisas de herança, essas coisas, a gente vai começando… Eu nunca gostei muito de interagir muito desse lado. Aí eu comecei a me afastar, e fui ficar mais com a minha mãe. E minha mãe ali, cuidando de mim, da depressão, e tal. E aí, esse meu esposo, o Maninho, ele foi sempre amigo da minha mãe. Um dia ele passou lá em casa para ver, que ele foi no enterro da minha avó, ficou sabendo. E aí, ele me perguntou se eu não queria viajar com ele, que ele estava vendendo os purificadores. E eu não queria ir. Eu falava: “Não, mãe, não quero não. Aí, mãe falou: “Vai minha filha, vai! Para você distrair um pouquinho. Porque quanto mais você sair, melhor é. Quanto mais você ficar assim, pior fica.” E aí, foi onde que a gente começou a namorar. A gente nessas viagens. E a gente começou a trabalhar juntos. E aí, eu fui, tipo assim, comecei a abandonar um pouco meu lado do artesanato, e aí eu comecei a entrar na área dele, sabe? De vender o purificador. Aí a gente viajava muito. Aí, depois eu fui… Ele já tinha uma lojinha na avenida. Aí, a gente já foi montando outra. E a gente ficou 20… Eu fiquei 23 anos, a gente trabalhando juntos na loja. E aí, acabou que a minha arte, os meus sonhos, eu fui, fechei, todos os meus sonhos. Ficou tudo ali, fechadinho, na caixinha. Mas nunca, né… Sempre ali, olhava meus trens, punha ali. Mudava, levava, punha aqui. Mas eu sabia que um dia eu ainda ia voltar a fazer aquilo que eu gosto. E aí, foi quando surgiu a oportunidade de eu conversar com o meu enteado, que hoje ele está cuidando da loja, Graças a Deus! Passei o bastão para ele. E aí, foi onde que eu fui retornar. Foi quando eu te falei que eu passei lá na Casa de Paracatu, conheci as meninas. Aí, foi onde eu abri minha caixinha de novo, de sonhos. Eu fui ali tornando abrir. Foi assim… Nossa, foi muito grande, né? Foi muito grande mesmo. Cada ano… Cada dia, cada ano, cada evento… Eu tenho assim, um carinho muito grande, por cada um. Porque agora eu falo: “Uma andorinha só não faz verão.” Né? A gente tem que estar sempre ali, ligadas uma à outra. Então, elas me deram muito a mão, sabe? E eu tenho muita gratidão, por tudo.
P1 - Me conta uma coisa? Vamos falar um pouquinho, aprofundar um pouquinho mais no artesanato, então, né? Tem alguma peça, algum tipo de arte manual que você gosta mais de fazer?
R - Tem, os oratórios.
P1 - Por quê?
R - Ah, que ele me transmite muitas lembranças de infância, das épocas que a gente ia para as missas, as igrejas, as procissões. Então, ele traz essa memória pra mim, sabe? Então, assim, parece que é o que eu mais faço. Que eu gosto. E eu vendo muito oratório, as pessoas acham lindo. Que eu faço ele na cabaça. Apesar que, até a menina do Sebrae, até falou: “Ó, Dona Eneida…” Que eles são de resina, os santinhos. “Às vezes a senhora poderia fazer eles de palha e tal.” Mas o pessoal não gosta, eles gostam que faça oratório na cabaça, e coloca o santinho de resina. Ou então, às vezes, quando alguém já tem o seu santinho, eu vou e coloco na cabaça. Eu produzo. Esses dias mesmo, a moça falou para mim: “Eu quero um de Santa Terezinha. Eu tenho uma santinha.” “Não, então, eu ponho ela dentro do oratório. Eu faço, confecciono o oratório, e você já tem a santinha. Eu faço para você.” Então, eu tenho um amor muito grande de fazer o oratório. Eu gosto muito de trabalhar com oratório. Presépio também. Amo fazer presépio, acho lindo, lindo. Final do ano, né? E assim, eu gosto de criar, cada dia fazer diferente, cada ano fazer um diferente, para não ficar ali do mesmo jeito.
E eu acho muito bonito, porque tem a hora que a gente está expondo, fazendo as exposições. Aí tem criança que vem e põe a mãozinha assim, ó. E fica ali, parecendo que eles estão num mundo encantado ali. Então, acho que puxa memória ali, do que é realmente o Menino Jesus, Nossa Senhora, São José. Eu gosto muito dessa parte, de trabalhar essa parte, assim, católica. Mas eu gosto também de fazer muitas coisas de decoração também.
P1 - E tem alguma peça de artesanato, em especial, que gerou uma história na sua cabeça, assim, uma encomenda? Uma peça que você sente mais orgulho?
R - Tem, foi um presépio que eu fiz. Eu não tenho nem foto dele, porque nessa época a gente, não sei... Foi um presépio que eu fiz numa cabaça, que essa cliente trouxe para mim, é uma cabaça, ela trouxe ela desse tamanho assim. Eu nunca tinha visto uma cabaça desse tamanho. E infelizmente, ela já tinha trazido ela, e eles já tinham tirado as sementes dela. Que eu ainda até falei: “Ó, se tivesse a semente…” Então, eu fiz esse presépio, mas ele ficou muito lindo. Ele me marcou muito, sabe? Sabe quando você faz uma arte, que você fica até com… Com dó de entregar a arte. Mas ela ficou muito satisfeita. Ela ficou muito grata, essa cliente. Ela falou: “Eneida…” E ela hoje não mora aqui em Paracatu, mas sempre, com o passar do tempo, os anos passavam e ela falava: “Dona Eneida, eu tenho o presépio até hoje, que a senhora fez pra mim. Tá lá do mesmo jeitinho, o presépio.” E ela mudou daqui de Paracatu. Então, eu creio que ela ainda tem esse presépio até hoje. Ele me marcou. Porque foi um dos primeiros presépios que eu fiz. Então, ficou muito marcado. Ficou muito bonito mesmo.
P1 - E de crochê, de bordado? O que você gosta mais de fazer?
R - De crochê, antes eu fazia muita colcha de crochê. Colcha, fazia tapete. Agora, hoje em dia, eu já não mexo, por causa das vistas, que força muito minhas vistas. Então, hoje eu já não tenho assim… Se for pra mim sentar ali… E outra, que eu não posso ficar muito tempo sentada, porque eu tenho hérnia de disco, então… Eu prefiro ficar na lida do dia a dia, ir ali, pega uma semente, vai ali, faz um trem, levanta. Sabe? Eu não posso muito fica… serviço sentada. Igual lá na loja, eu saí de lá mais por saúde também. Que eu já não estava aguentando ficar muito tempo sentada. Então, assim, o crochê eu amo, amo crochê, acho lindo, lindo, lindo. Igual esse forra aqui. Esse aqui foi eu que fiz. Eu tenho colcha, tem muita coisa aqui que eu que fiz. Mas hoje… Aí, às vezes, a noite, sento ali para fazer. Nossa, mas a noite eu já estou tão cansada, que eu mal consigo assistir o jornal. Mal consigo assistir o Jornal Nacional, já tô dormindo, que eu acordo muito cedo, 6h. Agora, com esse tempinho de frio, que a gente fica mais sem acordar muito cedo. Mas eu gosto de acordar cedo, para ver o sol nascer. Então, é muito bom.
P1 - E me conta uma coisa, você já está muito tempo lidando com a natureza, né? Você, desde que você se entende por gente, você acha que tem alguma mudança no Cerrado? Como é que tá?
R - Muita. Muita mudança. O Cerrado está acabando, não tem Cerrado mais. Sempre eu posto no meu Instagram: “Protege meu Cerrado, pelo amor de Deus.” Se Deus quiser, eu quero fazer um viveiro lá embaixo, só com frutas do Cerrado. Aqui é gritante, aqui. O baru, o jatobá, o coco xodó. Mas você vai aí no Cerrado, você não vê mais guabiroba, quase. Acho que tem muita gente que nem conhece guabiroba. Eu tenho um pezinho ali, que eu falei: “Uai, eu vou começar a plantar.” Um pezinho de guabiroba, um pezinho de pequi, um de mangaba. Começar, pra gente ter, porque daqui um tempo a gente não vai ver isso. As gerações que estão vindo, eles não vão conhecer mais isso, porque o Cerrado está se acabando, está se esvaindo. Você vai vendo que cada dia, cada dia que vai passando, é um lugar que está sendo ali, desmatado. E as pessoas… Às vezes, poderiam até desmatar, mas assim, deixar pelo menos os que dão frutos, né? Porque o Cerrado é uma riqueza muito grande. Se o ser humano soubesse a riqueza que a gente tem do Cerrado, que é dali que a gente tira para a nossa saúde, que tira os remédios. Que, às vezes, as pessoas acham que remédio de farmácia… É ótimo, muito bom. Mas eles vêm também dali, da Amazônia, né? Vem dali, da natureza. Então, as pessoas deveriam valorizar mais, cuidar mais do Cerrado, colocar menos fogo, na época, de agosto, que é difícil. Parar um pouco com essa queimação do Cerrado. E assim, os bichos, você não vê mais os bichos que tinham. Lá na fazenda da minha avó, a gente subia, a gente encontrava com os bichinhos, sabe? Era lobo. A noite, a gente dormia, a gente escutava o lobo cantar, gritar, uivar, sabe? Hoje você não vê mais nada quase, é difícil, né? Sauim, você já quase não vê. Aqui tem um pouco aqui, de sauim. Mas assim, você não vê mais. Está muito escasso.
P1 - Pássaro também?
R - Pássaros. Pássaros aqui eu gosto de deixar… Sempre eu falo, eu vou pegar um mamão ali, mas eu deixo. Se tem dois, eu pego um, largo um para o passarinho ali. Ali é deles, eles estão comendo aquele lá. Sempre… Figo, aqui, a hora que tem, já deixo um pouco. Jabuticaba, tem hora que eles comem tudo ali. Mas eles têm que comer mesmo, porque eles não têm nada para eles comer na natureza. A gente tem, a gente faz, a gente produz, eles não, eles não têm o que comer. Então, às vezes as pessoas deveriam ver esse lado também, dos animais, dos pássaros. Principalmente os pássaros, eles sofrem com esse desmatamento, com essa destruição.
P1 - E o tempo, calor, chuva, como é que tá?
R - Aqui?
P1 - É, de uns tempos para cá.
R - Totalmente diferente, porque o mês de maio, era o mês… Que sempre tem a chuva do mês das flores, tem a chuva. A gente não teve. Agora a gente vai esperar setembro, porque setembro tem que chover também, para vir as flores, vir a primavera, abrir. Mas mudou muito, o clima mudou muito, a questão das chuvas. Às vezes, a gente planta, esse ano aqui, a gente plantou abóbora, quase não deu, sabe? O milho. Você vê que tem uma mudança na natureza. Hoje também, as pessoas que trabalham na área rural, elas não estão muito… Eles estão desacostumando, sabe? A não trabalhar. Por exemplo, igual eu tenho o pessoal que me ajuda aqui. Aí você vai falar assim: “Olha, vamos capinar, fazer a capina com a enxada?” Não, não, eles querem uma bomba, para poder bater o veneno. Hoje em dia eles trocaram a enxada pela bomba de veneno. Quer dizer, está difícil de você achar alguém para capinar. Você tem que pagar mais. Mas igual eu falo, eu pago até mais, mas eu não quero que bate veneno aqui. Porque o veneno é onde que vai destruir, destrói os bichos, os passarinhos, destrói o bioma quase todo. Mas hoje em dia é muito veneno. As pessoas estão… Em vez de capinar, juntar ali um matinho. Eles estão usando a bomba de veneno, porque é mais rápido, não precisa de fazer esforço, só já bater um veneninho ali, pronto, acabou. Então, isso é muito triste. A gente vai vivendo, mas a gente vai tendo uma resistência ali. “Não, eu não vou fazer isso, vou fazer assim.” Eu não gosto de sair do meu tradicional, eu sou bem tradicionalista mesmo. Eu gosto muito assim, de manter ali as coisas que eu vivi, que eu criei, que eu aprendi, sabe? Então, eu gosto de levar isso comigo. Eu acho que eu vou levar até Deus me levar.
P1 - Me conta uma coisa? Indo já para as últimas perguntas. Você hoje está recebendo pessoas aqui, direto?
R - Não, ainda não. Por quê? Porque esse projeto do Aldir Blanc, foi para a reforma do ateliê e o fogão pra mim fazer as quitandas, dar oficinas, e quitandas. Mas eu já estou com outro projeto para o Espaço Cultural. O que eles pretendem é isso, fazer um espaço cultural.
P1 - No Cunha.
R - Isso! Aqui. Mas tem muita coisa ainda. Igual eu falei para as meninas, pra gente ter um pouquinho de calma, para poder receber as pessoas, assim, de um jeitinho gostoso, ter tudo certinho, para poder estar recebendo turista. Mas por enquanto, eu estou mesmo só administrando oficinas e fazendo as quitandas, porque eu estou aguardando agora a natureza, né? A natureza, ela vai me entregar o baru, vai me entregar o Jatobá, e vai me entregar o coco xodó. Aí agora, eu estou aguardando, para a gente fazer essa cata do baru, que a gente está com um projeto também. Estou com um projeto a caminho que chama Catu Baru. É um projeto muito bom, com o pessoal daqui também, da comunidade, mas pode atingir também a comunidade da Lagoa. Para poder a gente estar fazendo esse projeto, fazendo à cata do baru, depois da cata do Baru, a gente vai fazer a cortada, e depois a gente vai fazer a torração do baru. Para depois a gente chegar nas quitandas. Então, eu tô assim, tipo assim, já aguardando para mim poder já estar fazendo até um estoquizinho do baru, da castanha dele. Eu quero deixar um pouquinho também estocado, porque o pessoal gosta muito, principalmente do pé de moleque do baru, que é muito gostoso, é uma delícia. O bolo do Jatobá também é muito gostoso. E para as pessoas conhecerem, ver que esses frutos do Cerrado, eles têm valor. Eles têm um valor nutritivo muito grande e tem também um sabor maravilhoso. Não só o sabor, mas assim, os nutrientes deles são totalmente… O jatobá é considerado como o leite ninho do Cerrado. Antigamente as mulheres que tinham seus bebês, elas não tinham leite, às vezes não tinham leite para dar para as crianças, elas pegavam o jatobá, fazia a farinha do jatobá, aí punha uma água, uma aguazinha e punha um açucarzinho e fazia um leite. Punha na mamadeira para dar às crianças. E as crianças estavam ali, sempre saudáveis. Então, são valores que a gente tem que estar resgatando, mostrando para as novas mães de hoje, tanto de coisas legais que tem na natureza para dar aos filhos também.
P1 - Dona Eneida, tem alguma pergunta que eu não fiz para a senhora, e a senhora gostaria que eu fizesse ou alguma coisa que a gente passou rápido, que você gostaria de contar? Alguma história, alguma pessoa, alguma parte da sua vida?
R - Uma pessoa? Deixa eu ver aqui.
P1 - Ou qualquer mensagem que a senhora queira deixar.
R - Assim, de toda essa trajetória, de tudo, assim, desde a infância, até agora. A mensagem que eu deixo, que eu acho assim, que eu acho que o ser humano, ele devia ter mais amor pelas pessoas. Porque eu acho que juntos seremos fortes, sempre. Eu acho que as pessoas estão muito individualistas, ali, procurando cada um um caminho. Então, acho que a gente deveria… Igual eu fiz esse grupo, Mãos da Terra, porque são várias mãos. Que a gente sozinho, a gente, como diz, “Uma andorinha só não faz verão”, né? A gente tem que estar ali com muito amor no coração, fazer as coisas com mais amor, botar muito amor no coração, tudo que a gente faz com amor, as coisas fluem, elas acontecem. Quando vocês, às vezes, fazem ali por fazer, parecem que as coisas não vão fluir, não vão acontecer. Então, eu tenho muita gratidão, eu agradeço muito a Deus, todos os dias, cada passo, cada… Porque as coisas sempre fluem pra mim. Sempre, sempre. Só flui coisas boas. Quando você distribui coisas boas, você também recebe coisas boas. Então, essa é a mensagem que eu deixo para todos.
P1 - Tá certo, Dona Eneida. Muito obrigado, viu, pela conversa.
R - De nada! Eu que agradeço a todos vocês, por essa manhã maravilhosa.
P1 - Você gostou?
R - Amei! Nossa, como… Gostei muito! Com certeza! Manhã maravilhosa. Da gente puxar as memórias. Eu que estou com a minha cabecinha meia faltosa, já tô com 60 mais, aí vai faltando, né?
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