A Panqueca morreu.
E doeu em mim, claro. Dói perder um gato que a gente ama.
Só que existe uma dor muito específica que ninguém explica direito: a de ver um filho sofrendo e não conseguir fazer parar.
A Panqueca era escandalosa, mandona, ocupava a casa inteira com a própria presença. E, por um motivo muito bonito, ocupava um lugar imenso no coração da Camille.
E a Camille enchia a boca pra dizer: _“Panqueca é minha amiga. Ela gosta de mim._ _Mamãe, quando eu tiver meu apartamento, vou levar a Panqueca pra morar comigo porque ela é minha amiga.”_
Então, quando a Panqueca se foi, meu primeiro instinto foi o de qualquer mãe: criar um escudo.
Eu juro que cheguei a pensar em cometer o exato mesmo erro que meus pais cometiam comigo na infância.
Pensei em fazer o que tanta gente faz: esconder. Inventar uma história mais leve. Uma fuga. Uma desculpa. Qualquer coisa que adiasse a dor.
Porque, quando a gente é mãe, a vontade é essa mesmo: pegar o sofrimento com as mãos e não deixar chegar nos filhos.
Só que eu parei. Respirei. E decidi não repetir isso. Quebrei o ciclo.
Eu não queria que a Camille aprendesse que, quando a dor é grande demais, a verdade precisa ser escondida. Eu não queria ensinar que o amor acaba virando silêncio só porque a despedida é difícil.
Então nós fomos. Juntas. Vivemos o que precisava ser vivido. Fomos ao cemitério. Fizemos o que precisava ser feito para honrar a história da Panqueca.
E foi devastador.
Segurar minha filha chorando no meu colo, sentindo aquela dor inteira passar por ela, sem ter como consertar, foi uma das experiências mais duras que já vivi como mãe.
Tem momentos em que amar não é proteger do sofrimento. É não deixar a criança sofrer sozinha.
A gente quer ser o escudo perfeito. Mas não dá. Não tem como proteger eles de tudo. A vida bate na porta e é crua. A morte existe.
Hoje, o que importava era o colo. Era estar ali. Sem fugir. Sem...
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A Panqueca morreu.
E doeu em mim, claro. Dói perder um gato que a gente ama.
Só que existe uma dor muito específica que ninguém explica direito: a de ver um filho sofrendo e não conseguir fazer parar.
A Panqueca era escandalosa, mandona, ocupava a casa inteira com a própria presença. E, por um motivo muito bonito, ocupava um lugar imenso no coração da Camille.
E a Camille enchia a boca pra dizer: _“Panqueca é minha amiga. Ela gosta de mim._ _Mamãe, quando eu tiver meu apartamento, vou levar a Panqueca pra morar comigo porque ela é minha amiga.”_
Então, quando a Panqueca se foi, meu primeiro instinto foi o de qualquer mãe: criar um escudo.
Eu juro que cheguei a pensar em cometer o exato mesmo erro que meus pais cometiam comigo na infância.
Pensei em fazer o que tanta gente faz: esconder. Inventar uma história mais leve. Uma fuga. Uma desculpa. Qualquer coisa que adiasse a dor.
Porque, quando a gente é mãe, a vontade é essa mesmo: pegar o sofrimento com as mãos e não deixar chegar nos filhos.
Só que eu parei. Respirei. E decidi não repetir isso. Quebrei o ciclo.
Eu não queria que a Camille aprendesse que, quando a dor é grande demais, a verdade precisa ser escondida. Eu não queria ensinar que o amor acaba virando silêncio só porque a despedida é difícil.
Então nós fomos. Juntas. Vivemos o que precisava ser vivido. Fomos ao cemitério. Fizemos o que precisava ser feito para honrar a história da Panqueca.
E foi devastador.
Segurar minha filha chorando no meu colo, sentindo aquela dor inteira passar por ela, sem ter como consertar, foi uma das experiências mais duras que já vivi como mãe.
Tem momentos em que amar não é proteger do sofrimento. É não deixar a criança sofrer sozinha.
A gente quer ser o escudo perfeito. Mas não dá. Não tem como proteger eles de tudo. A vida bate na porta e é crua. A morte existe.
Hoje, o que importava era o colo. Era estar ali. Sem fugir. Sem maquiar a realidade.
Hoje ela chorou tudo o que tinha pra chorar no meu ombro. E eu só pude ser o colo. Entregar a ela a permissão para sentir e a certeza de que não precisamos esconder o que dói.
Dói. Mas a verdade constrói. A mentira, não.
A Panqueca deixou um vazio enorme aqui em casa. E, junto com esse vazio, deixou também uma verdade que eu espero que a Camille leve para a vida: quando a gente ama de verdade, às vezes a única coisa que resta é ter coragem de dizer adeus.
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