Esta é a minha história — uma jornada que não se resume a laudos ou memorandos institucionais, mas que pulsa na busca diária por dignidade, sobrevivência e pelo direito de ser vista como um ser humano completo.
Sempre dediquei a minha vida à educação, atuando com orgulho como apoio ao educando. Minha missão sempre foi acolher, guiar e garantir que as crianças mais vulneráveis encontrassem na escola um espaço de segurança. No entanto, o meu envolvimento e o meu amor pelas crianças de inclusão ganharam uma força ainda maior quando eu mesma conheci a fundo o peso do sofrimento e a necessidade urgente de lutar por direitos. A minha sensibilidade para com o outro não nasceu do conforto; ela foi forjada na minha própria caminhada, na minha luta diária para ser ouvida e respeitada em uma sociedade que tantas vezes escolhe a invisibilidade para os que adoecem ou divergem do padrão. Eu entendi que incluir não é um ato de caridade, mas um dever de justiça.
A vida me testou de maneiras avassaladoras. Enfrentei um diagnóstico devastador de câncer de mama, um processo árduo que exigiu de mim múltiplas cirurgias, sessões violentas de quimioterapia e radioterapia. Foi um período de solidão profunda, enfrentado em meio a uma pandemia mundial, onde precisei lutar pela vida para continuar cuidando daqueles que amo: meus pais idosos e meu filho, que precisou amadurecer tão cedo para me amparar. O tratamento deixou marcas profundas; vivi a dor exaustiva de perder meus cabelos, minha mama e, por um longo período, a minha própria identidade. Eu não me reconhecia no espelho, e o medo do amanhã era uma constante. Como se não bastasse, a fibromialgia somou-se a esse cenário, trazendo dores crônicas e severas. Hoje, sou formalmente enquadrada como pessoa com deficiência (PCD) devido à redução severa da minha mobilidade, uma sequela direta de tudo o que meu corpo enfrentou. Mas, embora meu corpo tenha mudado e minhas limitações físicas...
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Esta é a minha história — uma jornada que não se resume a laudos ou memorandos institucionais, mas que pulsa na busca diária por dignidade, sobrevivência e pelo direito de ser vista como um ser humano completo.
Sempre dediquei a minha vida à educação, atuando com orgulho como apoio ao educando. Minha missão sempre foi acolher, guiar e garantir que as crianças mais vulneráveis encontrassem na escola um espaço de segurança. No entanto, o meu envolvimento e o meu amor pelas crianças de inclusão ganharam uma força ainda maior quando eu mesma conheci a fundo o peso do sofrimento e a necessidade urgente de lutar por direitos. A minha sensibilidade para com o outro não nasceu do conforto; ela foi forjada na minha própria caminhada, na minha luta diária para ser ouvida e respeitada em uma sociedade que tantas vezes escolhe a invisibilidade para os que adoecem ou divergem do padrão. Eu entendi que incluir não é um ato de caridade, mas um dever de justiça.
A vida me testou de maneiras avassaladoras. Enfrentei um diagnóstico devastador de câncer de mama, um processo árduo que exigiu de mim múltiplas cirurgias, sessões violentas de quimioterapia e radioterapia. Foi um período de solidão profunda, enfrentado em meio a uma pandemia mundial, onde precisei lutar pela vida para continuar cuidando daqueles que amo: meus pais idosos e meu filho, que precisou amadurecer tão cedo para me amparar. O tratamento deixou marcas profundas; vivi a dor exaustiva de perder meus cabelos, minha mama e, por um longo período, a minha própria identidade. Eu não me reconhecia no espelho, e o medo do amanhã era uma constante. Como se não bastasse, a fibromialgia somou-se a esse cenário, trazendo dores crônicas e severas. Hoje, sou formalmente enquadrada como pessoa com deficiência (PCD) devido à redução severa da minha mobilidade, uma sequela direta de tudo o que meu corpo enfrentou. Mas, embora meu corpo tenha mudado e minhas limitações físicas tenham se imposto, a minha mente e o meu desejo de contribuir para o mundo continuaram intactos.
Vencer a fase mais aguda da doença trouxe a vontade de retomar a minha vida e o meu trabalho. Mas o retorno me apresentou a uma faceta cruel do mundo institucional: o estigma. Minha luta passou a ser diária, não apenas pela sobrevivência física, mas por uma sobrevivência digna. E a verdade mais dolorosa que carrego no peito é que eu não queria só sobreviver; eu queria e quero viver com dignidade. Para conseguir manter minha rotina de saúde, travei uma batalha exaustiva para reduzir minha jornada de trabalho. Eu não pedia privilégios; pedia apenas o direito de realizar as terapias indispensáveis para a manutenção do meu corpo e para o controle das dores. Procurei as instâncias que deveriam me estender a mão, instâncias criadas sob o pretexto do acolhimento e do suporte ao trabalhador. A resposta que obtive foi a negação. Onde eu buscava amparo, encontrei portas fechadas, frieza burocrática e uma total falta de empatia. Esse processo de rejeição e descaso não foi apenas negligente; ele foi violento. O que deveria ser um ambiente de acolhimento transformou-se em um cenário de profundo adoecimento mental, desencadeando crises severas de ansiedade e pânico, ferindo a minha alma de uma forma que a doença física nunca conseguiu.
Mesmo machucada pelo preconceito e pela rejeição velada que enfrentei nos bastidores, eu pedi para continuar trabalhando. O trabalho, para mim, é mais do que o sustento financeiro; é a forma como me mantenho ativa, como preservo o que resta da minha identidade e como me conecto ao mundo. A resposta final da instituição foi o descarte. Aproveitando-se do encerramento de um contrato, a empresa utilizou um acordo coletivo para formalizar a minha demissão. Fizeram isso com o pleno e absoluto conhecimento de que sou uma paciente oncológica em tratamento ativo, com uma nova cirurgia prevista e respaldada legalmente pela condição de PCD. Fui desligada justamente quando mais precisava de estabilidade, proteção e humanidade.
Minha história muda a forma como os direitos humanos devem ser compreendidos porque ela expõe a distância abissal entre o papel e a prática. Direitos humanos não podem ser reduzidos a discursos bonitos em datas comemorativas ou campanhas institucionais de fachada. Eles morrem um pouco cada vez que uma trabalhadora adoecida é tratada como um número descartável. Eles se realizam na prática do acolhimento, na redução da jornada para quem precisa se tratar, no respeito à limitação física e na garantia de que nenhuma doença tire de alguém o direito de ser tratado com respeito. Perdi minha identidade física e profissional por um tempo, mas nesta recusa em me calar, estou reconstruindo quem eu sou. Minha demissão pode ter encerrado um ciclo institucional, mas não silencia a minha voz. Continuo de pé, lutando por mim e por todas as pessoas que enfrentam a engrenagem fria do descaso, porque a busca por viver com dignidade é um direito que nenhuma instituição tem o poder de apagar.
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