Medeia 2026
Por Angelo Brás Fernandes Callou
(Para Andrade Modesto, in memoriam)
Numa época marcada pela hostilidade à ciência, à educação, às artes, pela breguice geral, pela vulgaridade, pelo narcisismo exacerbado e pela negação do outro e, sobretudo, pelos índices alarmantes e crescentes de feminicídio, nos exige um refúgio incessante como forma de resistência e sobrevivência. É em contextos como esse que a reflexão de Italo Calvino em Por que ler os clássicos se torna relevante, ao sugerir que as obras clássicas são trilhas permanentemente abertas à compreensão profunda da condição humana.
A literatura clássica, diz esse escritor italiano, em uma de suas 14 definições, “persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Essa literatura, como também observa Harold Bloom em Como e por que ler, oferece possibilidades de percepções nunca antes imaginadas, que nos ensinam a suportar os acontecimentos imprevisíveis e inexoráveis que ocorrem ao longo da vida de uma pessoa.
Mas há também outro caminho diante da aridez desértica e violenta do cotidiano atual: o refúgio da arte, na compreensão de Ailton Krenak, como já mencionei neste blog. Ou seja, um lugar de compartilhamento da experiência humana, tanto para quem cria a arte quanto para quem a experimenta, por meio de emoções, admiração e indignação.
Todas essas percepções vieram à tona quando escutei o lançamento do single Medeia, de Múcio Callou: uma interpretação musical de um recorte da tragédia grega escrita por Eurípides em 431 a.C.
Baseada em um mito da mitologia da Grécia antiga, a Medeia de Eurípedes trata da condição de uma mulher traída e abandonada com seus dois filhos pelo marido Jasão, para se casar com Glauce, filha do rei Creonte de Corinto. Medeia havia traído seu pai e sua pátria para se casar com Jasão. Com o advento das núpcias do seu ex-marido, Medeia é vilipendiada e sofre as...
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Medeia 2026
Por Angelo Brás Fernandes Callou
(Para Andrade Modesto, in memoriam)
Numa época marcada pela hostilidade à ciência, à educação, às artes, pela breguice geral, pela vulgaridade, pelo narcisismo exacerbado e pela negação do outro e, sobretudo, pelos índices alarmantes e crescentes de feminicídio, nos exige um refúgio incessante como forma de resistência e sobrevivência. É em contextos como esse que a reflexão de Italo Calvino em Por que ler os clássicos se torna relevante, ao sugerir que as obras clássicas são trilhas permanentemente abertas à compreensão profunda da condição humana.
A literatura clássica, diz esse escritor italiano, em uma de suas 14 definições, “persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível”. Essa literatura, como também observa Harold Bloom em Como e por que ler, oferece possibilidades de percepções nunca antes imaginadas, que nos ensinam a suportar os acontecimentos imprevisíveis e inexoráveis que ocorrem ao longo da vida de uma pessoa.
Mas há também outro caminho diante da aridez desértica e violenta do cotidiano atual: o refúgio da arte, na compreensão de Ailton Krenak, como já mencionei neste blog. Ou seja, um lugar de compartilhamento da experiência humana, tanto para quem cria a arte quanto para quem a experimenta, por meio de emoções, admiração e indignação.
Todas essas percepções vieram à tona quando escutei o lançamento do single Medeia, de Múcio Callou: uma interpretação musical de um recorte da tragédia grega escrita por Eurípides em 431 a.C.
Baseada em um mito da mitologia da Grécia antiga, a Medeia de Eurípedes trata da condição de uma mulher traída e abandonada com seus dois filhos pelo marido Jasão, para se casar com Glauce, filha do rei Creonte de Corinto. Medeia havia traído seu pai e sua pátria para se casar com Jasão. Com o advento das núpcias do seu ex-marido, Medeia é vilipendiada e sofre as consequências de sua nova condição social e familiar, bem como da falta de proteção da sociedade grega. Paixão, amor, traição, ódio e abandono formam a baba espessa da vingança de Medeia, que mata a noiva de Jasão com um presente envenenado e o rei Creonte ao socorrê-la. Em seguida, mata seus dois filhos e foge para Atenas numa carruagem alada.
Enquanto escrevo esta crônica, leio na entrevista de Daniela Kallas, na Revista Fórum, que em 2025 foram vítimas de feminicídio 1.025 mulheres no Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça. São Medeias que atravessam séculos sob o patriarcalismo, a violência dos homens, o abandono, a proteção precária do Estado e o feminicídio gritante. Medeia é a condição feminina real que atravessa os séculos por palcos sociais distintos – e ainda hoje!
Não é à toa que Italo Calvino afirma que “deveria haver uma época na vida adulta destinada a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas eles também mudam, sob a luz de uma perspectiva histórica que se alterou), nós certamente mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo”.
Múcio Callou faz exatamente esse retorno com seu recorte musical de Medeia. É uma volta, na alta maturidade alcançada como compositor e musicista, a essa tragédia clássica de Eurípides, lida na juventude. E mais, ouso dizer: essa releitura é, em última instância, o lugar de refúgio do músico para resistir, pela literatura clássica e pela arte, às adversidades contemporâneas. Nesse sentido, ao compor sua Medeia, Múcio segue simultaneamente os dois caminhos inicialmente abordados: ler e reler os clássicos para se rever e rever o entorno, e produzir e vivenciar a arte como lugar privilegiado da experiência humana. Explico.
Uma partitura inicial da Medeia de Múcio Callou estava guardada no fundo de uma gaveta há pelo menos 40 anos! Tratava-se de um trabalho solicitado pelo professor Milton Baccarelli, na disciplina de História do Teatro, quando Múcio ainda era estudante no Curso de Licenciatura em Música da Universidade Federal de Pernambuco. Múcio relê as notas, as claves, as pausas e os compassos empoeirados do passado e compõe mais duas músicas para seu recorte de Medeia, que contempla momentos anteriores e posteriores ao infanticídio na tragédia. Nesse processo, refaz o caminho juvenil, volta à leitura de Medeia de Eurípides, faz enxertos do texto da tragédia de quase 2.500 anos em Parresia, a dor e a coragem de dizer (segunda parte do single), para dar voz solo à mulher, à Medeia – a mezzo-soprano Hadassa Rossiter. Convida músicos e cantores, faz a direção musical e toca o violão, com o auxílio luxuoso da produção musical de Sandra Arraes, sua mulher e parceira. Grava Medeia e compartilha à maneira de Krenak, o mais humano de si para o outro.
Ao abrir o Spotify e encontrar Medeia de Múcio Callou, sou tomado por um espanto que só encontro paralelo ao vê-lo, inexplicavelmente, com 13 ou 14 anos, numa calçada em Pesqueira, com um violão na mão, cedido pelo merceeiro Andrade Modesto. Sei que os principais mestres de Múcio foram o recifense Henrique José Pedro Annes, violonista, compositor e maestro, e o violonista clássico espanhol José Carrión Domínguez. Mas uma coisa é certa: sem o violão generoso do senhor Andrade Modesto, talvez hoje não tivéssemos o privilégio da emoção ao ouvir Medeia, a meu ver, o trabalho de maior envergadura de Múcio Callou. (Sim, é meu irmão).
Bairro de Campos Elíseos, São Paulo, 3 de janeiro de 2026.
Obs.: Crônica originalmente publicada no blog do jornalista Edgard Homem (blogedgardhomem.com.br)
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