Projeto Memória dos Trabalhadores Petrobras
Depoimento de Neuza Planinschek
Entrevistado por Heloísa Gesteira
Porto Alegre- Canoas, 01 de março de 2007
Realização Museu da Pessoa
Depoimento PETRO_CB252
Transcrito por Ferramenta Transkriptor
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Está bem opaca.
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...Projeto memória Petrobras, depoimento de Mauro Silveira da Silva. Entrevistado por Márcio de Paiva. Canoas, 1º de março de 2007. Realização, Museu da Pessoa. Entrevista, LPAT, CB, Refap 08.
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Ok.
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Boa tarde.
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Boa tarde.
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Gostaria de começar a entrevista pedindo que você nos diga seu nome completo, local e data de nascimento.
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Meu nome é Mauro Silveira da Silva, eu nasci em Jaguarão, em 8 de 12 de 1954. Rio Grande do Sul, fronteira com o Uruguai. Eu sou engenheiro mecânico, formado aqui na Universidade Federal do Estado. Meu ingresso foi em fevereiro de 1977. Eu fiz concurso. Eu havia me formado em dezembro de 1976 e fiz concurso. Quando passei no concurso, fui para Petrobras em fevereiro. Teve um período aí que foi para acertar a documentação. E aí fiz meu curso, fiz curso de inspeção de equipamentos no Rio de Janeiro. Na época, inclusive, ficava no Edise, a parte de ensino. E quando terminou o concurso, eu vim trabalhar aqui, aqui na Refato, na obra de ampliação da refinaria. Era Anrap, o nome da obra.
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Você foi escolher vir para a Refato?
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Eu vim para a Refato porque eu preferia. Gaúcho é meio arraigado aos pampas. Então, eu vim trabalhar aqui na Refato.
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Nós estávamos fazendo uma obra.
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É, nós estávamos fazendo uma obra. Eu entrei, inclusive entrei na época pelo CEGEM, Serviço de Engenharia. Nós estávamos fazendo uma obra, obra de... da ampliação da refinaria Alberto Pasqualina, era ANHAP, o nome do passado. E nós ficamos aqui, eu fiquei aqui até 1982. A ampliação da refinaria, Alberto Pasqualini era o nome na época. O projeto consistia de uma destilação atmosférica que está hoje operando, é a U-50 da Refap, e também tinha uma unidade prevista, uma unidade de destilação a vácuo, que ia ser a U-60. A U-60 não saiu, deixou de ser implementada. Mas a U-50 se fez, mas veio a fazer bem alguns anos depois. A obra parou, Mais ou menos em 1982, por aí, parou a obra dos 50. Nós tínhamos alguns equipamentos instalados já. E os fornos estavam montados. E aí eu fui trabalhar na bacia de campos, em montagem de plataformas. Trabalhei na montagem de Xerne 2 e Garopa. Na parte de obra mesmo, no mar. Na época nós trabalhamos 14 dias no mar e ficava 14 dias depois desembarcado. Quando terminou as plataformas eu fui trabalhar em São José dos Campos, fui trabalhar na montagem da unidade de desasfaltação apropeno lá da Revap. Ali eu fiquei até 89. Aí em 89 vim para a Revap, e aí nós terminamos a obra do 50, que tinha ficado parado desde aquela época. Terminamos a unidade 50, a unidade de desastralização atmosférica, E quando terminou a unidade de desinstalação atmosférica, eu passei para a Refap. Fiquei um tempo na parte de manutenção. Manutenção geral? Na época, nós tínhamos criado um setor só de manutenção para refinaria, era o SESMAN, setor de serviço de manutenção. Inclusive teve uma época em que os terminais eram ligados à Refap. Nós tínhamos um grupo que ficava em Tramandaí, outro grupo pequeno que ficava em Rio Grande, e o pessoal aqui da refinaria. E aí eu fiquei na manutenção um tempo. Depois entrei para a obra quando houve essa segunda expansão da Refap. Isso daí foi em 97. Eu passei para a obra, mas nesse período todo eu já estava na Refab. Eu tinha saído do CGEM.
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Aquela obra inicial, em 1980, logo no início, quando você entrou, ficou faltando aquela unidade que foi completada...
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Depois, nós completamos em 1989, aí foi de 1989 a 1993, mais ou menos, nós terminamos a unidade. Em 97, eu fui para a segunda expansão da refinaria. Nesse período, entre que a obra concluiu e até ir para a refinaria, eu fiquei um tempo na manutenção. Trabalhei alguns anos na manutenção da REFAP.
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Em 97, houve já uma outra ampliação?
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Sim, nós começamos a segunda expansão, que a gente colocou em operação agora no ano passado. As unidades entraram em operação no ano passado. Isso. Começou em 97. E quando eu me juntei ao grupo, já tinha um grupinho que estava trabalhando há pouco tempo. Estava na parte de projeto, a viabilização econômica dos investimentos. Mas é que, na verdade, existe muitas coisas aí que devem levar em consideração. Primeiro, nós tivemos projeto básico, foi desenvolvido pelo SEMPSIS, praticamente todas as unidades. Depois se passou para um processo de licitação. Nós tentamos contratações através de algumas licitações, não Atingimos um bom resultado, não conseguimos chegar a um valor que a gente considerava aceitável. Nesse meio tempo, também, aí depois começou a ser criada a Refap S.A. Então, na verdade, o projeto de detalhamento começou mesmo em 2001. Aí, em 2001, começou o projeto de detalhamento, e daí ele veio, digamos assim, sem percalços, até a partida das unidades. Foi um projeto muito grande, então o tempo de maturação de projeto, de fabricação de equipamentos, implantação, obra, é significativo.
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E dessa... quanto a algum fato mais concreto dessa ampliação? das unidades, o que que também te marcou dessa...
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Não, eu acho que tem algumas coisas que são significativas. Certamente a grandiosidade da obra. A obra é uma obra muito grande. Pouca gente certamente teve a oportunidade, o privilégio que eu tive de ver uma obra desse tamanho. Além disso, eu diria que A própria tecnologia de equipamentos de elevação de carga teve um avanço significativo. Hoje em dia tem equipamentos muito grandes. A gente conseguiu trazer equipamentos num estágio, digamos assim, que no passado era não imaginável. Equipamentos praticamente prontos, alguns equipamentos prontos, muito grandes. Não, eu diria o seguinte, o projeto, os equipamentos, os equipamentos foram dados do projeto básico a partir do SEMPES. Mas, digamos assim, o estágio de completação foi exatamente a tecnologia que permitiu, os equipamentos que tinham já disponíveis no mercado. Nós tivemos aqui um Guindaste que tinha capacidade de carga de 800 toneladas, coisa que no passado eu não tinha, no meu tempo inicial, digamos assim, a gente tinha que montar a torre chapa por chapa. Nós trouxemos aqui torres praticamente do tamanho da torre de destilação da U-50. Nós compramos equipamentos, alguns deles vieram inteiros, vieram inteiros. Depende, os equipamentos vieram de todos os lugares. Agora, os maiores equipamentos aqui praticamente eu acho que vieram da Coreia.
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Você sabe hoje, em comparação, o que é uma característica da Repa, que distingue de outras refinarias?
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É, fica difícil a gente dizer o que que distingue de outras refinarias. Eu acho, digamos assim, uma coisa que eu sinto forte, eu acho que o comprometimento do pessoal. Eu acho que, de um modo geral, o nosso pessoal é bastante comprometido em fazer, não querendo desmerecer os outros, certamente. Deve ter muita gente comprometida nos outros lugares, mas eu acho que aqui é muito forte isso, a vontade de fazer. Talvez até pela história da Refab. A Refab ficou muitos anos sem investimento, enquanto as outras continuavam ainda tendo algum investimento, continuando se modernizando. A Refab ficou alguns anos parada. E isso daí talvez tenha despertado essa vontade de fazer do pessoal, que certamente ajudou bastante.
00:10:58 R:
E tem alguma explicação, assim, você saiba contar pra gente porque ficou tanto tempo.
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Parado Eu acho que é uma questão muito mais de próprio desenvolvimento do país econômico. Quando veio o 50 para cá, ela veio em função do polo petroquímico. E o polo petroquímico também ficou um tempo sem investir. Eu diria que uma refinaria está atrelada a ter consumidores. À medida que a gente não tenha os consumidores, se o mercado não responda, digamos assim, com necessidades, não tem porquê. Isso daí deve ter explicado, isso daí foi na época de crise também de petróleo, onde os consumos diminuíram, os carros mudaram de perfil, ficaram mais econômicos, nós abandonamos os Galax, os Dodge Dart, fomos para carro humil, o consumo diminuiu, digamos assim, a necessidade não existiu, ela passou a existir só a partir de um determinado momento. Hoje o mercado da Refap atende praticamente todo o Rio Grande do Sul e um pedaço de Santa Catarina. Alguma coisa a gente exporta. Não, se exporta para a América do Sul, Paraguai, através da Petrobras já se fez entrega de produtos, Argentina, alguma coisa. O que a gente tem de excedente vai para exportação, eventualmente até para outro estado. E aqui, hoje, o estado do Rio Grande do Sul ainda tem uma refinaria, que é a refinaria Ipiranga, mas na fase atual ela está operando muito mais ligada ao Copeçu, devido aos problemas econômicos, custo de petróleo elevado, eles estão por outra linha.
00:13:00 R:
Você mencionou a Bacia de Campos, você até trabalhou lá. A ampliação e a reforma da Repap tinha em mente também, houve uma necessidade de se adequar a esse petróleo?
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É, certamente, sem dúvida. As premissas que levaram, digamos assim, a ampliação da Refap foram, primeiro, o atendimento ao mercado, processar mais petróleo nacional e produzir derivados de maior valor agregado. E nessa premissa, digamos assim, de produzir com mais petróleo nacional, nós tivemos que fazer adequações às unidades hoje que foram implantadas. Muitas delas são unidades de conversão, preparadas para trabalhar com petróleos mais pesados, que a gente tem em excedente, oriundo da Passeia de Campos.
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Você teria, desses anos, Petrobras que já.
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Tem mais de... Mais de 30. Mais de 30. Eu acho que uma coisa que marca muito na gente, o tempo que eu trabalhei na Bacia de Campos, é algo que marca muito. Tu chegares de helicóptero numa plataforma lá no meio do nada, tem uma plataforma de produção, eu acho que foi algo muito forte pra gente. Eu peguei dentro da plataforma, teve época que... Atravessei uma época que teve greve de piloto de helicóptero, tive que desembarcar de barco. Era razoável, pelo menos pra mim que não sou marinheiro. Não foi uma experiência das melhores, mas tudo bem. Então... Comecei dentro da cabine do barco, mas senti que não ia aguentar toda a viagem, né? O cheiro, tudo fica pior. Terminei indo pra fora, aí pega o vento na cara, a gente termina sobrevivendo. Talvez o dia também não tivesse muito ruim, pode ser até que tivesse um mar bom, mas eu não gostei. Então, na plataforma você tem muita história. Eu acho que a própria situação, a gente forma muita amizade. Nós formamos um grupo muito forte na plataforma. Boa parte desse grupo foi trabalhar depois em São José dos Campos, naquela unidade que eu te falei, foi depois da plataforma. E foi uma experiência muito boa. Claro, a distância da família, tudo isso sempre marca muito dificuldade. Na época, a dificuldade de comunicação era grande. A gente tinha muito pouco tempo. Eu acho que era uma vez a cada dois dias que a gente tinha condições de falar com a família. E era dois minutos, três minutos. Pronto, tinha que ser as notícias mais importantes do momento. Mas a experiência é importante, eu sempre digo, eu acho que é uma experiência que vale a pena viver.
00:16:07 R:
Eu diria.
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O seguinte, No meu modo de ver, nós continuamos trabalhando do mesmo modo, não sentir assim. A gente tem algumas facilidades a nível de velocidade de decisão. A gente tem condições, às vezes, de chegar mais rápido numa decisão. talvez do que a Petrobras, porque a Petrobras é uma empresa muito grande, tem uma estrutura muito grande, mas nós trabalhamos ainda dentro dos mesmos critérios, compramos grande parte dos materiais dentro dos materiais lá no Rio de Janeiro, então não teve diferença significativa. Algumas coisinhas, mas são sempre, inclusive as experiências, muitas delas inclusive boas, válidas. A gente consegue ter alguns intercâmbios com o pessoal da Repsol que trabalhou, também tem experiência de obra, tinha gente que acompanhou a obra aqui. Então, eu diria o seguinte, para mim todas as experiências são válidas, o importante é a gente saber aproveitá-las.
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E o que é trabalhar na Petrobras para você?
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Eu te diria o seguinte, hoje eu tenho 52 anos, eu tenho 30 anos trabalhando aqui, não precisa dizer muito.
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Você se sente petroleiro?
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Bom, petroleiro, o que é sentir petroleiro? Claro, eu diria o seguinte, certamente me sinto, apesar que eu sempre digo, ter um petroleiro na verdade deve ser um navio, né? Eu sei, a gente chama muito, mas certamente, certamente. A gente tem uma vida aqui dentro. Mais da metade da minha vida hoje eu trabalho aqui dentro, trabalhei em outros lugares. Com experiências um pouco diferentes, e é bom, é interessante o fato de ter trabalhado em São José dos Campos, de ter trabalhado no mar. Eu digo o seguinte, eu fico contente disso daí, porque são oportunidades diferentes, experiências diferentes. Se a gente for ver, dentro da Petrobras inteira, existem algumas diferenças de uma unidade para outra. em valores, maneira de pensar, modo de agir, não são todas iguais, eu garanto para vocês.
00:18:52 R:
Ou só por unidade?
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Regional. Eu não tive praticamente experiência dentro de São Paulo, que teria outras unidades para ver se são outras culturas. Mas eu até acredito que deva ter um pouquinho de diferença. Às vezes tem a história da própria criação daquela refinaria. Aquilo ali deve trazer alguma influência nisso daí. Mas eu não posso te afirmar. Em São José dos Campos, trabalhei todo o tempo em São José dos Campos e em São Paulo. Saí de lá, voltei aqui para o Sul. Então, não tenho condições de te dizer se tem diferença. Acho que sim.
00:19:32 R:
Em termos de política de segurança e ambiental, o que mudou desde que você entrou?
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Isso daí, eu diria o seguinte, certamente mudou bastante. Sem dúvida para melhor, se tu for verificar hoje na área e se fosse verificar no passado, quando eu comecei na empresa, os cuidados de segurança aumentaram muito. Eu tenho certeza que a gente ainda não está onde a gente quer chegar. Mas eu acho que isso é importante, a gente não pode nunca se conformar, tem algumas coisas que a gente nunca pode dizer, tá, cheguei onde eu queria. Eu acho que segurança, meio ambiente, esses são os deles. E sem dúvida a mudança é muito significativa. A preocupação que a gente tem hoje com segurança e com meio ambiente certamente no passado a gente não tinha. E hoje eu vejo, na época talvez a gente achasse que se preocupava muito com isso, mas eu tenho certeza que a alteração é bastante significativa. Não, eu posso te dizer o seguinte, algum tempo atrás eu estava olhando álbuns de fotografias passadas, daquele meu tempo de entrando na empresa, e sem dúvida tu pegava o pessoal escavando, o pessoal não usava uniforme, não usava EPI, muitos deles, e a gente convivia e talvez achasse até natural naquela época, isso que é. Mais impressionante. E eu tenho certeza que na parte do meio ambiente, eu sempre digo, hoje, as gerações que estão vindo são muito mais preocupadas em meio ambiente do que a gente era. Eu tenho certeza disso. Isso é algo que, pelo menos, anima um pouco a gente. Eu acho que essa pessoa, essa juventude que está aí, é mais preocupada com o meio ambiente do que eu era no meu tempo de jovem.
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Que participou aqui da obra. Vocês também pensaram e chegaram a ter contato com a comunidade em torno?
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Há algum tempo atrás, antes até da obra, nós fizemos alguns trabalhos na parte de oleodutos, e teve uma época que nós chegamos a fazer, percorríamos aqui, na época era eu e o Bobbs, que era o gerente da parte de meio ambiente, nós saímos mostrando a parte de dutos, a parte de segurança, no sentido de mostrar quais eram os cuidados que tinham. Então nós estivemos em várias comunidades, em escolas, E é muito interessante porque tem muito desconhecimento, e ligado a esse desconhecimento, uma preocupação, um medo, às vezes até mal, é ruim, a pessoa assustada demais é sempre ruim também.
00:22:24 R:
Então vocês fizeram um trabalho informativo?
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Sim, fizemos, fizemos.
00:22:28 R:
Uma aula já está terminando, queria saber se você gostaria de deixar mais alguma história registrada, algum fato?
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Não, não, eu acho que as histórias, aquelas coisas, às vezes a gente contando, conversando, termina celebrando de um fato. Mas agora, assim, na frente da câmera, não me lembro de nenhum, confesso.
00:22:50 R:
Ela não é tão assistidora.
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Não, não, não, mas eu não gosto muito. Confesso pra ti, eu não gosto muito. Se tu me pegar pra conversar, assim, num restaurante, eu converso muito. Mas se tu me botar assim, isso, sobre... me travo.
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Mas você gostou de ter participado?
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Não, mas eu participo, não tem problema.
00:23:12 R:
Mas não doeu?
00:23:12 P1:
Não, não, não, sem dúvida.
00:23:15 R:
De qualquer forma, você contribuiu para o projeto?
00:23:18 P1:
Ótimo, isso pode ter certeza que a vontade da gente é sempre contribuir, isso daí é tranquilamente, é vontade, por isso que eu vim, eu disse, vamos lá, pode ser que alguma coisa valha a pena para o pessoal, tudo bem.
00:23:33 R:
Mas foi ótima a entrevista.
00:23:36 P1:
Tchau.
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