Livros e natais sempre permearam a história da minha família. Fosse presenteando uns aos outros ou lendo histórias no dia de Natal, em livros emprestados de bibliotecas, era a fantasia da literatura que inundava a casa nessa época do ano.
O Natal de que mais me lembro com carinho foi aquele em que minha avó, que havia estudado apenas até o segundo ano do ensino fundamental, mas aprendera a ler “na vida” e com “histórias reais”, se encantou com o livro Contos de Andersen, do famoso e talentoso escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. O livro havia sido trazido para casa pelo meu pai, emprestado da biblioteca da escola onde trabalhava.
Meu pai era professor e, sempre que encontrava um tempo para explorar a biblioteca da escola, lia. Quando considerava um livro especialmente bom, sentia o desejo de compartilhar aquela maravilha com a família e fazia o empréstimo. Minha avó morava conosco naquela época em que Andersen entrou pela porta da frente da nossa casa.
Pela manhã, eu ia para a escola, e ela, entre um afazer doméstico e outro, lia os contos. Quando eu chegava, dizia:
— Leia esse, é maravilhoso.
E eu, seguindo a indicação literária daquela senhora com pouco estudo formal, mas com imensa inteligência e sabedoria, mergulhava na história. Depois, conversávamos sobre os trechos de que mais gostamos, sobre o que nos indignava, nos emocionava ou despertava curiosidade — esses sentimentos tão próprios da literatura quando ela realmente nos atravessa.
Chegou, enfim, o feriado de Natal. Nunca fomos de grandes festas, mas passávamos o tempo livre papeando, almoçando uma comida gostosa e lendo. Eram muitos os contos naquela edição de Andersen e ainda estávamos longe de terminar a leitura — e que bom. Todo leitor que já viveu grandes aventuras com um livro sabe que, às vezes, desejamos que ele não acabe; somos até capazes de desacelerar a leitura para prolongar o vínculo com o enredo.
Naquela manhã, minha avó...
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Livros e natais sempre permearam a história da minha família. Fosse presenteando uns aos outros ou lendo histórias no dia de Natal, em livros emprestados de bibliotecas, era a fantasia da literatura que inundava a casa nessa época do ano.
O Natal de que mais me lembro com carinho foi aquele em que minha avó, que havia estudado apenas até o segundo ano do ensino fundamental, mas aprendera a ler “na vida” e com “histórias reais”, se encantou com o livro Contos de Andersen, do famoso e talentoso escritor dinamarquês Hans Christian Andersen. O livro havia sido trazido para casa pelo meu pai, emprestado da biblioteca da escola onde trabalhava.
Meu pai era professor e, sempre que encontrava um tempo para explorar a biblioteca da escola, lia. Quando considerava um livro especialmente bom, sentia o desejo de compartilhar aquela maravilha com a família e fazia o empréstimo. Minha avó morava conosco naquela época em que Andersen entrou pela porta da frente da nossa casa.
Pela manhã, eu ia para a escola, e ela, entre um afazer doméstico e outro, lia os contos. Quando eu chegava, dizia:
— Leia esse, é maravilhoso.
E eu, seguindo a indicação literária daquela senhora com pouco estudo formal, mas com imensa inteligência e sabedoria, mergulhava na história. Depois, conversávamos sobre os trechos de que mais gostamos, sobre o que nos indignava, nos emocionava ou despertava curiosidade — esses sentimentos tão próprios da literatura quando ela realmente nos atravessa.
Chegou, enfim, o feriado de Natal. Nunca fomos de grandes festas, mas passávamos o tempo livre papeando, almoçando uma comida gostosa e lendo. Eram muitos os contos naquela edição de Andersen e ainda estávamos longe de terminar a leitura — e que bom. Todo leitor que já viveu grandes aventuras com um livro sabe que, às vezes, desejamos que ele não acabe; somos até capazes de desacelerar a leitura para prolongar o vínculo com o enredo.
Naquela manhã, minha avó resolveu ler A Pequena Vendedora de Fósforos. Ela havia espiado a ilustração e notado que a história se passava no Natal. Diferente de outros dias, recolheu-se no quarto e ali permaneceu até concluir a leitura. Percebi sua ausência: ela não fazia as pausas habituais para olhar os netos, conversar com meus pais ou circular pela casa. Confesso que a curiosidade começou antes mesmo de ela me contar o que achara do conto.
Quando saiu do quarto, com os olhos marejados, fui tomada por pensamentos contraditórios: ela teria gostado? Estaria emocionada ou decepcionada? Incapaz de conter a curiosidade, perguntei logo:
— E aí, vó, a história é legal?
Ela respondeu com um leve sorriso:
— É linda… mas acho que, se você ler, vai chorar.
Naquele momento, percebi que duas histórias haviam se encontrado: a história de vida da leitora — minha querida avó Isabel — e a história escrita por Andersen. Aos dez anos, vivendo em uma família leitora, eu já acumulava experiências que me ajudavam a compreender os entrelaçamentos profundos entre o leitor e o texto lido.
Hesitei. Não sabia se tinha coragem de ler. Não porque choraria — isso eu já sabia que aconteceria —, mas porque eu certamente compreenderia o que havia tocado minha avó, e isso me parecia intenso demais.
Minha avó perdera os pais muito cedo. Lutara pela sobrevivência morando na casa de parentes, casara-se, tivera vários filhos em uma época marcada por altas taxas de mortalidade infantil, quando muitas crianças não resistiam aos primeiros anos de vida. Conseguiu criar e ver crescer dois: minha mãe e meu tio. A escassez foi uma realidade constante em sua trajetória. Ainda assim, apesar das dores, ela era o perdão em forma de gente. Não me lembro de ninguém que lhe tenha causado sofrimento e que não tenha sido, de algum modo, perdoado e amado por ela. Sofria, sim — era humana —, mas havia nela algo de extraordinariamente generoso.
Por fim, decidi ler A Pequena Vendedora de Fósforos. Quem conhece essa joia rara de Andersen entende facilmente o motivo das lágrimas — as da minha avó e, depois, as minhas. Quem ainda não leu, indico! O vínculo entre a personagem, uma órfã que vendia fósforos na gélida noite de Natal para garantir o pão de cada dia, e a história de vida da minha avó era inevitável. No desfecho, a menina encontra sua avó querida, em um encontro tão belo quanto místico.
Andersen faz dessas coisas: apresenta beleza na miséria humana e, ao mesmo tempo, revela uma humanidade que, apesar dos desafios, é capaz de escalar gratidão, amor e alegria.
Que Natal! As luzes dos fósforos da pequena vendedora aqueceram meu coração. Depois, pude conversar longamente sobre o conto com minha avó. Ela me disse que um dia iria me esperar, como a avó da menina da história. Chorei mais um pouquinho naquele Natal, mas também abracei forte minha querida avó leitora — que me inspirou e que, até hoje, inspira novas e novas leituras… na literatura e na vida.
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