Karla Karolla – A Lenda do Olimpo
Oh! Se os antigos helenos, arquitetos da beleza e do pensamento, pudessem contemplar tal figura, talvez se perguntassem se ali não caminhava, disfarçada entre mortais e palcos iluminados, alguma divindade do Olimpo. Não aquela de relâmpagos ou de guerras, mas uma deusa rara: a deusa da harmonia das vozes.
Dir-se-ia que sua presença possui algo de Atena, não apenas pela inteligência serena que se adivinha no olhar, mas pela dignidade natural de quem parece compreender que cada gesto pode tornar-se arte. Contudo, quando se imagina essa mesma mulher cantando — elevando a voz entre colunas invisíveis de um teatro — já não é Atena quem surge, mas uma fusão delicada entre Apolo, senhor da música, e Afrodite, guardiã da beleza que persuade sem esforço.
Machado de Assis, se estivesse sentado num camarote discreto do destino, talvez observasse com aquele sorriso oblíquo e murmurasse:
— Curioso fenômeno… uma cantora que reúne, no mesmo corpo, a leveza de um verso e a disciplina de um atleta.
Pois, de fato, o ambiente da fotografia sugere algo mais profundo: como nos antigos ginásios da Grécia, onde corpo e espírito eram cultivados juntos. Ali treinavam os atletas que Platão admirava — homens que buscavam a kalokagathia, a união da beleza física com as virtudes. Assim também a cantora parece habitar dois mundos: o da arte e o da força.
Rui Barbosa, com sua retórica fulgurante, talvez proclamasse:
“Eis uma criatura que sintetiza o ideal clássico — onde a voz é lira, o corpo disciplina e a presença um argumento vivo em favor da harmonia universal.”
Mas conta-se — e quem conta não jura, embora tampouco desminta — que houve um tempo em que os deuses do Olimpo se inquietaram.
Não por guerras, nem por tempestades lançadas contra os mortais. A inquietação era outra: a música da Terra começara a mudar.
No alto do Olimpo, Apolo, senhor das liras douradas, inclinava o...
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Karla Karolla – A Lenda do Olimpo
Oh! Se os antigos helenos, arquitetos da beleza e do pensamento, pudessem contemplar tal figura, talvez se perguntassem se ali não caminhava, disfarçada entre mortais e palcos iluminados, alguma divindade do Olimpo. Não aquela de relâmpagos ou de guerras, mas uma deusa rara: a deusa da harmonia das vozes.
Dir-se-ia que sua presença possui algo de Atena, não apenas pela inteligência serena que se adivinha no olhar, mas pela dignidade natural de quem parece compreender que cada gesto pode tornar-se arte. Contudo, quando se imagina essa mesma mulher cantando — elevando a voz entre colunas invisíveis de um teatro — já não é Atena quem surge, mas uma fusão delicada entre Apolo, senhor da música, e Afrodite, guardiã da beleza que persuade sem esforço.
Machado de Assis, se estivesse sentado num camarote discreto do destino, talvez observasse com aquele sorriso oblíquo e murmurasse:
— Curioso fenômeno… uma cantora que reúne, no mesmo corpo, a leveza de um verso e a disciplina de um atleta.
Pois, de fato, o ambiente da fotografia sugere algo mais profundo: como nos antigos ginásios da Grécia, onde corpo e espírito eram cultivados juntos. Ali treinavam os atletas que Platão admirava — homens que buscavam a kalokagathia, a união da beleza física com as virtudes. Assim também a cantora parece habitar dois mundos: o da arte e o da força.
Rui Barbosa, com sua retórica fulgurante, talvez proclamasse:
“Eis uma criatura que sintetiza o ideal clássico — onde a voz é lira, o corpo disciplina e a presença um argumento vivo em favor da harmonia universal.”
Mas conta-se — e quem conta não jura, embora tampouco desminta — que houve um tempo em que os deuses do Olimpo se inquietaram.
Não por guerras, nem por tempestades lançadas contra os mortais. A inquietação era outra: a música da Terra começara a mudar.
No alto do Olimpo, Apolo, senhor das liras douradas, inclinava o ouvido para o mundo dos homens.
— Há ali — disse ele — uma mortal cuja voz percorre mais caminhos que os ventos do Egeu.
Sentada junto às colunas de mármore, Atena ergueu os olhos com aquela serenidade que costuma constranger até os mais eloquentes.
— Vozes belas existem, e muitas — respondeu ela —, mas poucas carregam espírito.
Apolo sorriu com a paciência dos deuses que sabem um segredo.
— Esta canta como se cada nota fosse um pensamento, um tal poeta Josias tem registrado as histórias em um tal de Facebook.
— O que é Facebook? — Perguntou Atena.
— Facebook é um sistema, um aplicativo, algo semelhante, que os mortais chamam de redes sociais. — Respondeu Apolo.
— Pois tragam a cantora e o poeta. — ordenara Platão.
Ora, naquele mesmo instante, na Terra, estava Karla Karolla, cantora de ópera e filha da música brasileira. Entre palcos e estudos musicais — iniciados no Conservatório de Recife — ela afinava não apenas a voz, mas o próprio espírito, e longe dali, o poeta Josias estava nas areias da praia em Cabo Frio.
E aqui, permitam-me uma observação à maneira de Machado de Assis: os mortais julgam que academias servem apenas para músculos; esquecem que os gregos inventaram o ginásio justamente para unir corpo e espírito. Não era apenas força — era filosofia em movimento.
Assim pensaria também Platão, se pudesse ver a cena.
— Eis um curioso exemplo da ideia do Belo — diria ele — quando o corpo se disciplina e a alma canta.
Mas Aristóteles, sempre mais prático, responderia:
— Não apenas belo. Harmonioso.
No Olimpo, a discussão cresceu. Apolo, entusiasmado, decidiu propor um espetáculo.
Numa noite invisível aos olhos humanos, ergueu-se no Olimpo um teatro feito de nuvens e constelações. Ali estavam deuses, filósofos e antigos atletas olímpicos — aqueles que correram nas primeiras arenas da Grécia e de Roma, o poeta Josias e jovem mulher Karla Karolla.
Apolo então ordenou, em tom solene, gesticulando os braços em atitude de respeito e reverência:
— Por gentileza, Cante.
Karla Karolla ergueu a voz.
Primeiro veio a solenidade da ópera, alta como colunas dóricas. Depois, como se o próprio Brasil subisse as escadarias do Olimpo, surgiram ritmos da Terra: sertanejo, baião, frevo, maracatu, brega, MPB.
Os deuses se entreolharam.
Nunca tinham visto o mar se agitar e dançar daquela forma.
Os atletas olímpicos, acostumados ao compasso das corridas, começaram a marcar o ritmo com os pés.
Atena murmurou:
— Eis uma mortal que transforma culturas em harmonia.
Platão suspirou:
— Eis a formosura em movimento — encantado com a beleza da jovem cantora.
Aristóteles concluiu:
— Não é apenas música. É síntese.
E então ocorreu algo raríssimo no Olimpo: silêncio.
Silêncio absoluto.
Porque até os deuses, quando encontram algo verdadeiramente extraordinário, preferem escutar.
Apolo aproximou-se e declarou em tom peremptório e reverente:
— Cara jovem, tens o direito de permanecer — serás como nós, uma deusa do Olimpo.
Karla, atônita, perplexa, estupefata, trêmula, em atitude reverente disse:
— Oh! Deuses do Olimpo… eu não devo ficar… milhões de fãs e seguidores, que são minha família, aguardam por mim, existe um vínculo de amor entre nós.
Apolo exclamou em alto e bom tom:
— Eis que a nobre atitude desta jovem será registrada nos livros sagrados do Olimpo!
Após isso, afastando-se de todos, a chamou… e ali em um curto monólogo, com olhos brilhantes, radiantes como o sol, proferiu algumas palavras no ouvido de Karla Karolla, a qual em atitude reverente, balançou levemente a cabeça como se estivesse dizendo: — Sim.
E acrescentou Apolo a todos, com aquele sorriso que só os deuses sabem dar:
— Nobre cantora, sempre que cantares… o Olimpo ouvirá.
Eis que o poeta Josias, em seus pensamentos:
— O que será que Apolo disse para Karla?
E assim termina — ou talvez apenas comece — a lenda.
Porque, se alguém prestar atenção nas noites de espetáculo, poderá notar algo curioso: quando certas vozes sobem muito alto, muito além dos teatros e das cidades…
Há ecos que parecem vir das montanhas do Olimpo.
O Poeta Josias traduz Karla Karolla em prosa e versos. Uma verdadeira reflexão.
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