Programa Conte Sua História
Programação Vidas, Vozes e Saberes em um mundo em Chamas - Vidas e Lutas Ameaçadas
Entrevista de Tito Vilhalva e Miguela Almeida
Entrevistados por Bruna Oliveira, Renata Castelão e Paulo Endo
Retomada Guyraroká, 06/06/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: PCSH_HV1474
Revisada por Bruna Oliveira
P/2 - Então, pra começar, Dona Miguela, Seu Tito, eu queria que vocês começassem se apresentando, falando o nome de vocês.
(00:00:43) R/1 - É, tem que apresentar mesmo. Então, eu vou me apresentar, depois ela. Então, eu agradeço muito que venham entrevistar aqui na frente do Oga Pysy Guyraroká. Então, agradecer muita coisa, bonito, chegou. Então, meu nome aqui no Guyraroká. Eu nasci no Guyraroká mesmo. Nós dois, nasci no Guyraroká. Tem só nós dois agora. Então, eu agradeço muito. Meu nome é Tito Vilhalva. Guyraroká. Tô com 106 anos. Eu tenho agora. E ela tá com 99... 102 anos também. Então, agradeço muito a todos vocês.
P/1 - A gente é que agradece o senhor.
R/1 - Aí, vamos começar.
P/1 - Dona Miguela, quer se apresentar, poderia?
R/2 - É, também. Eu agradeço muito vocês que vieram aqui, passear no Guyraroká, ver a gente, todo mundo. E agradecer muito ao senhor, a todos, porque nunca ninguém veio. E agora veio, queria agradecer muito. Eu fiquei muito contente. Aí eu falo o quê? Eu fico muito contente. Como a gente fala, dó um pouco, assim.
P/2 - A gente ia sugerir de virar a cadeira pra cá. As duas cadeiras. Então, pedir pra vocês olharem pra gente. A gente vai bater um papo aqui. (risos)
(00:02:12) P/1 - Dona Miguela, a senhora poderia contar um pouco a história da senhora, desde que a senhora era pequena? Quer dizer, como é que a senhora contaria a sua história?
R/2 - Que nós fiquemos aqui, que nós nascemos aqui. Minha mãe, meu pai morreram todos aqui no Guyraroká. E aí nós fiquemos sozinhos. Meu Deus. o Deus que ajudou nós pra ficar. Eu? Eu sim. Pra mim ficar...
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Programação Vidas, Vozes e Saberes em um mundo em Chamas - Vidas e Lutas Ameaçadas
Entrevista de Tito Vilhalva e Miguela Almeida
Entrevistados por Bruna Oliveira, Renata Castelão e Paulo Endo
Retomada Guyraroká, 06/06/2025
Realizada por Museu da Pessoa
Entrevista n.º: PCSH_HV1474
Revisada por Bruna Oliveira
P/2 - Então, pra começar, Dona Miguela, Seu Tito, eu queria que vocês começassem se apresentando, falando o nome de vocês.
(00:00:43) R/1 - É, tem que apresentar mesmo. Então, eu vou me apresentar, depois ela. Então, eu agradeço muito que venham entrevistar aqui na frente do Oga Pysy Guyraroká. Então, agradecer muita coisa, bonito, chegou. Então, meu nome aqui no Guyraroká. Eu nasci no Guyraroká mesmo. Nós dois, nasci no Guyraroká. Tem só nós dois agora. Então, eu agradeço muito. Meu nome é Tito Vilhalva. Guyraroká. Tô com 106 anos. Eu tenho agora. E ela tá com 99... 102 anos também. Então, agradeço muito a todos vocês.
P/1 - A gente é que agradece o senhor.
R/1 - Aí, vamos começar.
P/1 - Dona Miguela, quer se apresentar, poderia?
R/2 - É, também. Eu agradeço muito vocês que vieram aqui, passear no Guyraroká, ver a gente, todo mundo. E agradecer muito ao senhor, a todos, porque nunca ninguém veio. E agora veio, queria agradecer muito. Eu fiquei muito contente. Aí eu falo o quê? Eu fico muito contente. Como a gente fala, dó um pouco, assim.
P/2 - A gente ia sugerir de virar a cadeira pra cá. As duas cadeiras. Então, pedir pra vocês olharem pra gente. A gente vai bater um papo aqui. (risos)
(00:02:12) P/1 - Dona Miguela, a senhora poderia contar um pouco a história da senhora, desde que a senhora era pequena? Quer dizer, como é que a senhora contaria a sua história?
R/2 - Que nós fiquemos aqui, que nós nascemos aqui. Minha mãe, meu pai morreram todos aqui no Guyraroká. E aí nós fiquemos sozinhos. Meu Deus. o Deus que ajudou nós pra ficar. Eu? Eu sim. Pra mim ficar sozinho. Porque nós estamos sozinhos. Porque eu tô, assim, no Guyraroká. Mas tô bem, graças a Deus, a minha vida eu tô cuidando. Tô assim, cuidando da minha vida. Às vezes, nós ficamos todos doentes. Eu mesma agora não estou boa. Por isso que eu não posso falar muito. Não tô boa não. Eu falo assim, eu converso só um pouquinho, depois já...
(00:03:34) P/1 - A senhora não está se sentindo bem?
R/2 - Eu não tô.
R/1 - Não?
R/2 - Não.
(00:03:38) P/1 - Como é que a senhora está se sentindo?
R/2 - Eu tô com essa doença, sabe por quê? Por que eu fiquei assim? De primeira, minha vida era tá bom. Mas depois, o meu coração também parou quase um dia. Eu andei por aí. Andei, andei, andei, andei, andei. Depois, a minha nora, essa que tem aí, ela veio, falou pra mim: “Como que a senhora tá? Parece que a senhora não tá no seu corpo, no seu jeito.” Aí eu falei: “Tô, por quê?” Ela chegou, ela é muito boa, a minha nora, né? Aí chegou. Aí quando ela pôs a mão aqui, eu caí. Depois que... Eu não posso falar muito assim, eu fico assim. Tem muito meu neto, como eu falo. Eu não posso falar. Eu falo só um pouco, depois já... Parece que... O meu coração que... fica assim, meio... Não posso falar. É por isso que eu falo mesmo pro véio: “Você pode falar. Mas eu não posso.” Ele fica assim mesmo. Não posso...
(00:04:56) P/1 - Dona Miguela, a senhora está se sentindo triste?
R/2 - É. É assim que tô. E agora que tô andando, como eu falo, meu filho, a minha afilhada, a minha filha que mora longe, um tá pra lá de Brasília e um tá em Brasília, outro tá em Campo Grande, outro tá... Aí eles vieram todos pra ver. Só, se você me olhar, falei pra ele, eu tô boa. Tô assim, só. Mas do jeito que eu tô, não tô bom não. “Ai mãe, você come?” Eu como bem, mas só que o sentimento que eu tenho, eu vou falar pra você, eu falei pra ele. Parece que não está assim no lugar dele. Quando tem muita gente, parece que não dá pra eu falar, eu só entendo. Conversam muito comigo também. Falei, não pode. Aí ele se juntou aqui. Tem um, que ele pergunta pra mim. Não tô muito bem. Parece que meu coração, depois que parou, que fiquei assim. Depois fui pro médico. Aí o médico também não achou. Passei tudo na mão do médico, em Dourados, Caarapó, duas, quatro, cinco [vezes], mas não achou. Ele falou: “Mas a senhora não tem nada.” Eu falei: “Não sei porquê.” É quando eu fico assim. Só que quando eu fico sozinha é melhor pra mim. Fico sentada pra ele, mas pra mim conversar assim, como do jeito que... Da primeira, né? Da primeira, pra mim era tudo bom. Só isso. Depois... Depois que parou o meu coração, eu fiquei assim.
(00:07:02) P/1 - E a senhora sabe por que parou o coração?
R/2 - Mas isso que ninguém sabe, né? Porque eu tava bem. Eu tava bem, tomei mate cedo, depois eu fiz o almoço. Aí depois, quando foi essa hora, a minha nora veio aí e falou: “Mãe, bora. O quê? Parece que a senhora não tá bem.” Eu falei não, não tô bem. Mas eu falei, eu tô. Aí ela pôs a mão aqui, ela falou. Nunca a minha nora brincava comigo, ela põe aqui. “Mas meu Deus do céu, ela falou, parou seu coração, eu tô sentindo.” Quando ela falou, eu caí. Depois eu falei para a Arileide chamar o cara pra mim. Vou ver só o que que vai acontecer. Aí eu fui. Fui lá, passei no raio-x, tudo assim. Aí ele falou pra mim: “ Mas você não tem a doença. Não sei que doença você pegou.” Não tem, meu Deus. Não tem, ele falou pra mim, o médico. Eu falei: “não sei não.” Aí tomei soro, um pouco. Aí quando foi umas três horas por aí, acabei de tomar um soro, aí parece que voltou. Eu vim aqui em casa outra vez, parece que voltou. Bateu bem outra vez. Não bateu mais, mas bateu só um pouquinho assim, ó. Então assim. Ai, meu Deus do céu, todo mundo se assustou. Eu falei: “ Eu não tô assustada não”. É depois daquela que eu não posso conversar muito. Eu converso, sim, só um pouquinho, depois...
(00:08:53) P/1 - Mas aí a senhora não consegue mais sentir alegria?
R/2 - Não. É isso que tem. É isso que tem. Quando fica sozinha, sentada, fica pensando... Não sente mais. Esse que a minha filha falou pra mim: “Por que, mãe?” De primeira, não. De primeira, eu achava muito bom. Sim, conversava, brincava com todo mundo, falava. Mas agora não. Quando chega gente, assim, bastante, como eu falei pro véio: “Você pode conversar. Não precisa andar atrás de mim, porque eu não posso. Não posso mesmo.” Parece que só um pouquinho que... Aí já... Parece que não... Parece que não é por gente que tô conversando. Parece que não é gente, que eu tô falando pra gente, assim. É assim que eu tô agora. É. Assim que eu estou. Aí a minha filha veio pra ver isso, né? Aí eu falei pra ela: “Aí vocês que sabem.” “Toma remédio, mãe.” Eu falei: “Tô tomando. Tô tomando.” Só essa minha neta aí, que conversa comigo. Ela vem e conversa. Depois já foi. Daí aquela lá, a Keyli. É só com ela. Mas pra conversar assim com todo mundo...
(00:10:33) P/1 - Só perdeu o gosto.
R/2 - É, eu perdi mesmo. Perdi mesmo.
(00:10:41) P/1 - E o senhor, seu Tito, como é que tá se sentindo hoje?
R/1 - Então, ele sabe o que aconteceu. Vou reforçar um pouquinho. Então, eu vou falar a primeira coisa. Essa do fundo (aponta para o fundo do terreno), Maria, ela matou minha filha, matou com macumba. Matou o Ambrósio e matou o Beto.
R/2 - Três!
R/1 - Foi que ele ficou parecendo... Fica pensando em muita coisa. Eu mesmo também assim. Eu penso em muita coisa. Parece que eu fico meio... Assim, parece que não tenho mais ideia, parece que não penso mais em nada. É porque três famílias mataram, a Maria, a Dilma e a Maristela. Então aqui, quando a primeira vez que veio o meu filho, E essa aqui era manteocarro, essa aqui era tudo lavoura, essa aqui, ó. Chegou meio-dia. Tava carpinha, tomando tereré. Aí ele chegou aí chorando, sem camisa. Aí ele falou assim: “Pai, mãe, eu vim aqui me despedir de vocês”. Ele fez assim. Falei, tá chorando. Falei: “O que que aconteceu, meu filho?”; “Maria, a Dilma, Maristela, Judimar, falaram: vai matar sua mãe e seu pai pra não ficar com a terra”. É, então ele falou: “Eu não tenho coragem de matar minha mãe e nem meu pai, porque meu pai tá lutando com a terra para ficar a herança. Quando você, eu tô, meu pai falou, tô ajudando você, viu? Toda coisa, tô mexendo, trabalhando na frente do senhor, mas eu não tô na frente do senhor, tô ajudando você. Então ele falou, olha, é um dia de sábado. Amanhã, por exemplo, domingo vai amanhecer. Porque aí a Maria Dilva, Maristela, oito pessoas apanharam pra me matar hoje. Eu. Se não matar. Ele falou, se você não matar seu pai e sua mãe, você vai morar no lugar dele. Aí ele falou, pai e mãe, eu vou morar no seu lugar. Quando oito horas, mataram ele. Colocaram oito pessoas para matá-lo.
R/1 - É.
R/1 - E depois daquele que nós fiquemos, parece ser... Um pensamento, parece ser... Parece que fica muito fraco. Vamos falar fraco, né? Fraco assim, ideia pouca, parece. Parece que nós não temos mais saúde, não temos mais alegria, pensando em muita coisa. Porque a gente é família. Custa pra criar. Custa. Sai caro, como diz aí, né? Então, se for pra doença, coisa assim, a gente não liga, né? Porque essa é... A doença vem do Deus, né? Mas esse foi matado com fígado e a faca. Então, daí, ele pediu e falou, pai, mãe, se não acontecer nada, você me arruma pra mim aí uns cem reais ou cinquenta, eu vou embora. Eu vou deixar pra minha filha. sem melhor que porque meu filho tinha três mulheres Dilma, Maritela e... Dilma, né? Maria, Dilma, Maritela. São três. Ele falou, esse que vai me matar hoje. Quando foi oito horas, mataram ele. Aí então sabe o que foi? Aí cedinho chegou aí o... O menino é filho da pequena Cina. Chegou o voo. A mãe e o pai já mataram, falou. Falei, é. Então a Força Nacional tava aqui também. Tava trabalhando aqui, né? Na época. Aí veio, liguei pra ele. Aí veio. Veio uns 15, 20 Forças Nacionais. Aí nós fomos. Falou, vamos lá. Pegamos o carro dele e fomos lá. Aí ele, aonde ele traz, matou com uma distância, como naquela madeira assim, tinha um barracudeiro, de lá ele pegou assim, ó. Ela apunharam dentro da cama assim, um encerado bem assim, é um encerado verde, um cobertor bem assim. E ele amarrou ainda com arambinha assim. Aí o tenente chegou lá, Força Nacional, né? Entremos, eu entrei também, ele falou, pode entrar aqui. Aí ele tira, corte uma aquela lá pra tirar. Jogou assim. Bem aqui assim. deu o filho, e aqui também. Aí mataram o meu filho, o Ambródio.
00:15:32 P/1 - Quem matou o Ambrósio?
R/1 - Essas mulheres dele, que eu tô falando: Maria, Dilma e Maristela. E junto em mar. Quatro pessoas. Mas oito tava aí. Aí então ela perguntou pra ele assim, ó. Você viu como que aconteceu essa aí? Vocês tão assim? Ninguém falava. Mas como que você... Onde você estava? Ninguém falou nada. Aí então ninguém falou, aí o tenento, né? Falou assim o seguinte, vamos fazer uma coisa seguinte. Vamos caminhar o corpo dele lá pra... Lá pra Caarapó, né? Tá porra ou não? O cachorro tá assim. Depois nós vamos trazer ônibus. Pra poder levar tudo. É, levar tudo já. pra ver se o delegado perguntar pra ele como que aconteceu. O que que aconteceu? Quando que você viu, que ninguém viu. Aí levaram. Nós foram levar tudo. E a Dilma já sumiu. Já, como dizem, sumiu. O tenente chegou aqui. Cadê a Dilma? Falou, tá na vila. Aí falou, então não vão pegar lá. Fomos lá no Cristalino, lá no mercado do Dino. Perguntou pro mercado do homem, né? A dona está aí, aquela guriazana? Não, falou. Acho que foi para o Caarapó. Mas estava escondido dentro do banheiro. É, então fomos para o Caarapó. Foi para o Caarapó, chegamos lá. Tudo. E... Aí perguntou para ele o delegado. Falou, Sr. Tito, senta aí na porta. Seis aí, outro aí. O João, acho que ele conhece o João Machado. É, ele conhece. Então, ele tava perto assim. E perguntou pra ela. Como que aconteceu?
00:17:32 R/1 - É.
00:17:33 R/1 - Você viu quem matou ele aí? Ninguém falava.
00:17:37 R/1 - É.
00:17:38 R/1 - Então, aí, na última, falou assim, ó. Foi um rapaz, uma guria que o Ambrose pegou um bambu, assim, e cortou aqui, assim. Por isso que ele matou o pai dele. Aí, então, logo, falou pro... pra polícia, né? Falou, vai buscar lá no Taquará. Aí, de repente, foi. Acho que quando foi uma hora e meia, já chegou lá o menino, a guria exótica. Aí perguntou pra ela. Ela sabe falar bem também. Ela perguntou, é verdade que o Ambrósio passou a faca na sua perna aqui? Falou, não, essa aí é bambu. Ele tava correndo um galinha e meio pegou aqui, se levantou em cima e cortou aqui.
00:18:22 R/1 - É.
00:18:24 R/1 - E a Dilma sumiu. A Dilma não foi. Aí então, fomos no Ministério Público, falou pra mim, você vai no Ministério Público pra ver o que vai resolver, né? E o delegado. Mas até agora não resolveu nenhum. E tá aí. E depois daquilo, nós pegamos essa doença. Viu? Depois ele mandou até agora, tá contra. contra a demarcação e contra a luta e contra o nosso trabalho. Essa do fundo aí. Essa aí que eu queria passar na entrevista. O que vai dizer a justiça? Será que não tem justiça pra isso? Pra tirar então. Depois eu vou contar o rapaz que veio. Então ninguém resolveu até agora.
00:19:17 P/1 - Seu Tito, conta um pouco pra gente a luta do senhor pela demarcação das terras.
00:19:24 R/1 - Bom, então vamos pular um pouquinho também. Então, a demarcação, quando o Marco Antônio fez aí, então aqui, desde 1905 já é aldeia. Essa aqui. Então, tem nove assinjui que estão embaixo da parede. Perguntou assim pra mim, você que abandonaram a aldeia, ou a polícia que tocaram você, ou o fazendeiro que tocaram você. Como é que foi isso que aconteceu pra você abandonar sua aldeia? Ah, bom. Aí eu falei pra ele, porque eu vi. Então eu falei, primeiro, quem comprou primeiro essa Guyraroká. Eu falei, é isso o Garvão. Esse que ele veio aí. Chegou aí, ele e o Reimundo. Então ele trouxe um Um cara de turma lá, não é aqui, essa aqui era mata naquela época. Essa aqui é igual a essa cama, essa mata aqui. Então ele falou, olha, eu comprei essa aqui agora, sete mil arqueiros, essa aldeia, essa aqui. Quando ele já perguntou quanto índio que tem, aí o final, meu pai, meu tio, ele falou, olha, nós temos mais de um mil e pouco. Porque aqui tem o Chiru Iberá aí, e aqui também tem o José de Ouro. Se ouro que falar em Guaralim, porque antigamente o índio não tem sobrenome. Na época, naquele tempo, né? Então assim ele põe. Ah, então aí ele falou, comprei esse aí. Quando foi no... a tarde, no outro dia, né? Aí chegou isso... Antônio Albuquerque e a Flam. Chegou e já não falou mais índio. Já falou quanto búquer que tem aqui. É porque essa aqui eles falaram, nossa fazenda agora. Comprei. E quando foi de noite, mais de sete horas, oito horas da noite, aí eles metralhadoram assim, ó, de noite. O tiroteiro que deu. Mataram sete mulheres e um rapaz pegou aqui a coxa dele e quebrou isso aí. Assim mesmo morreu. Demorou pra morrer.
00:21:36 R/1 - É.
00:21:36 P/2 - O senhor era pequeno?
00:21:38 R/1 - Eu já tava com... A minha idade, mais ou menos naquele tempo, eu já tava com 19 anos, 18. Porque eu nasci em 1918.
00:21:47 R/1 - É.
00:21:48 R/1 - Essa foi e aconteceu em 1935.
00:21:52 R/1 - É.
00:21:53 R/1 - 1935 que deu tiro lá.
00:21:56 R/1 - É.
00:21:57 R/1 - Esse que eu tô lhe dizendo. Essa aqui era tudo mato. E eu vou lhe dizer, tem só um macaco e outra. Era mato essa aqui.
00:22:06 R/1 - É.
00:22:07 R/1 - Então... Aí... O que que nós fazer? Tem o... O cacique, o Nhanderu de Oxacara, né? Ele falou que agora... Hoje já... O branco já virou igual a uma onça. Vai matar tudo nós aqui. Pra quem que nós vamos reclamar? Então... Aí, então aí... Porque nós primeiro... Fomos lá no Teiguê. Lá no Teiguê. Porque lá não tinha demarcação ainda, mas tem lá pra juntar o lá pra não acontecer na época da Guerra do Retório Vargas, né? Então, aí nós fomos. Aí fomos lá e vai, também. Mas o resto daqui mataram tudo. Aí nós voltamos, também, aí. Voltamos, mas... Aí não deixaram mais. Já se juntaram tudo aí. Aí nós ficamos rodando assim. Mas não deixava mais entrar aí.
00:23:08 R/1 - É.
00:23:08 R/1 - Aí entramos um pedaço lá. Tem um pedaço sem aquele também lá no Passo Fundo que trata... É um nascente assim, ó. É o mesmo desse corda aqui. Aí então o Chico Gedro... É o Chico Gedro que avisou nós, né? Que vai matar você e tudo. É, então nós entramos aqui. Chegamos aí no... Aqui no Sirical. Sai lá no... Era daquele tempo, era Rancho Grande, que o nome lá no Portiguão, aquele o nome dele é... Esqueci o nome dele. Então, não entra por baixo, entramos aqui, porque para ir Caarapó assim, estava cheio de soldados. Os policiamentos lá na Estrada, onde era... Naquela cabeceira de vai, assim, era do... Aquele tempo, como é que o nome é? Estou esquecendo o nome dele. Falto. Falto Cardoso.
00:24:05 R/1 - Não.
00:24:06 R/1 - Falto Portilho. Hoje é fazenda Mané, né? Mané português, né? Então, essa falto... Falto Portilho. Então, seu Tito, né?
00:24:16 P/1 - Em 1935 teve um massacre.
00:24:20 R/1 - Tem.
00:24:21 P/1 - E quem cometeu esse massacre?
00:24:23 R/1 - Hã?
00:24:23 P/1 - Quem cometeu esse massacre?
00:24:25 R/2 - Quem que...
00:24:26 P/1 - Quem que fez? Quem matou as pessoas?
00:24:29 R/1 - Essa... Isso... Isso, não. É o Alflan. Antônio Alflan. E... Antônio Alflan. E outro é... Antônio Albuquerque.
00:24:44 R/1 - É.
00:24:45 R/1 - Então, essa aí que matou aí, né? É, mataram.
00:24:49 P/1 - Disseram que compraram, até.
00:24:50 R/1 - É, falou que comprou. Essa aí que eu tô passando pela internet. Ele falou que já comprou. Sete mil arqueiros, né? E ele não quer mais aí. Porque aí tem que tirar, sai tudo. Aí quando foi de noite, né? A base do santo é o Itoromão. Tinha relógio naquele tempo, mas aí mestralhados assim, por lá da nossa barracota. Igual assim também. E mataram sete mulheres. E um rapaz.
00:25:15 P/1 - A dona Miguela estava?
00:25:16 R/1 - Não, nós não casamos naquela época. Nós casamos em 1950. Ela é solteira, eu também sou solteiro. Então naquela época não tinha... Então foi assim que foi a luta, né?
00:25:30 P/1 - E depois disso, seu Tito? Depois desse massacre, vocês saíram da terra?
00:25:35 R/1 - Saíram e voltamos. Mas aí teve um pedaço cem alqueire, lá em Lã, assim, né? Aí então esse pedaço aqui, ó, aqui vai o corvo, né? Aqui tinha um pedaço de mato assim, ó. Então deram aquele pedaço pra nós. Mas aí o Jorge, que o nome dele é, que mora em São Paulo, né? Aí então ele veio e comprou isso aqui, ele falou. Mas naquela época não compraram a terra. Só vai invadindo. Tiraram expulso, né?
00:26:06 R/1 - Tiro.
00:26:07 R/1 - É, você vê que a ditadura, né? Naquele tempo da guerra, do Getúlio Vargas, né? Então... Aí os fazendeiros que tinham chicogênero, né? Aí eles deram um pedaço assim. Falou, pode morar lá. Vai, roça lá. Planta milho, qualquer uma coisa, lavoura, né? abóbora, toda coisa, pra ele comprar, sim. Trocar, não é comprar. Ah, troca de roupa. Porque nós não tinha roupa, não tem coberta. Hoje eu sabia que a gente tem roupa, mas naquela época não. Tudo era mato.
00:26:39 R/1 - É.
00:26:40 R/1 - Aí, então, o seguinte foi. Não tem mais jeito. Aí eu fiquei arrendando a terra também.
00:26:48 R/1 - É.
00:26:48 R/1 - Já aprendi de arrendar a terra. Plantar arroz, feijão, toda coisa. Sim. Naquela época, arrendamento é... planta colonhão no lugar da lavoura, né? Então eu planto, né? Feijão, alguma coisa assim pra manter a saúde, a vida, né? Então aí... Aí, então, eu comprei. Morar na fazenda assim também, eu planto qualquer uma coisa. A minha roça deixei tudo. A minha criação perdi tudo. Foi ainda assim. O que eu ganho também não recebo bem. E vai trabalhando de graça.
00:27:23 R/1 - É.
00:27:26 R/1 - Hã?
00:27:26 P/2 - Na fazenda.
00:27:27 R/1 - Na fazenda. Pra cá, ó. Não deixa mais morar assim. Quer dizer que o outro chega... Porque naquela época a terra vem vendendo assim, ó.
00:27:36 R/1 - É.
00:27:37 R/1 - Vende aqui uma igual essa aqui também. Ele vende assim. Chega outro, compra outro. Vai assim.
00:27:43 R/1 - É.
00:27:44 R/1 - Então, aí... Acho que eu fui lá no Teicuê um pouquinho, parei, né? Aí eu voltei. Aí tem aquele meu neto do Teicuê. Golarte. Golarte? Aquele meu neto também sacaria. Eu e mais um, um pouco, porque naquela época veio Ipaé, não, Ipaé, Ipaé, PKM. PKM, Ipaé, ele vem fazer a lavoura. Ele lavoura tudo. Então, eu plantei aí aquele pedaço, mas eu tinha que pagar também. Eu não sabia isso aí. Então, o que eu falei? Porque na aldeia, pela lei que eu conheço depois, a gente tem que se unir, ajudar. Por exemplo, aqui o irmão não tem nada. Eu tenho que dar arroz, qualquer coisa. É assim. É porque a terra a gente vai requerer unido. Não é comprado. Então eu pensou essa aqui, porque eu fui mais sempre lá em Brasília, aqui em Campo Grande, em Brasília, fazia essas reuniões. Então, nós ficávamos iando lá. Então, não dá pra vender cereais, né? Só que a gente precisa de arroz, precisa de alguma coisa, mas tem que ajudar, trabalhar. E foi assim. Aí depois, quase me bateu por causa da lavoura, porque eu não paguei.
00:29:11 P/1 - Fiquei em um fazendeiro?
00:29:12 R/1 - Não. O Golarte lá na aldeia.
00:29:15 R/2 - Não tem coisa?
00:29:16 R/1 - Não tem coisa. Aí o que eu falei? Fiquei quieto. Porque eu não discuti com ela. Não vou discutir porque eu sei mesmo que se eu discutir vai me bater. Então fiquei quieto. Eu sou trabalhador, eu falei, eu vou trabalhar. Então daí eu pensei. Falei pra minha esposa aqui, eu falei, vamos lá na nossa aldeia Guyraroká, já viu? Vamos já ir lá de uma vez. Aí então eu vim com 613 pessoas. Combinei tudo aí, a molecada. Aí então, nós viemos aí. Viemos lá, não é? Porque lá que eu nasci, o lugar que eu nasci, e o cemitério da minha mãe. Aí então eu entrei lá. Quando três dias, o campeiro olhou lá, assim ó. Ele olhou lá. Aí eles foram lá avisar o fazendeiro. Aí eles foram. Aí o Zé Teixeira chegou lá. Aí ele falou, olha, quem falou pra você entrar aqui? Quem? Quem deu? Falei, não. Falei, ó, seu Zé. Você fica brabo, mas eu não vou. Porque aí eu quero conversar com o Carmo. Essa aqui é a aldeia já desde 1905. Aqui tem cemitério, tanta coisa. É... Aí ele falou, bom, se for aldeia, vamos negociar. Vamos negociar. Eu não entendo o que que vai negociar, né? Porque na meu tempo, eu não sabia falar português. É porque nós não existimos naquela época. Aí então ele falou, falou, índio, eu vou lá em São Paulo trazer meu antropólogo. Pra ver se é aldeia mesmo. Se é aldeia mesmo, eu não vou dizer pra você que eu não vou entregar o entrego, viu? Mas eu quero entregar bem organizado. Eu falei, olha, só que eu também vou falar um pouquinho, eu falei meu... eu falei o... eu não falei o nome do Zé Teixeira, né? Olha, só que tem uma coisa, eu vou vindo nessa aldeia, eu não quero nada do seu objetivo. Eu não quero trator, não quero arame, não quero nada, eu não vou atrás do seu... Seu criação. Eu quero terra limpa. A minha saúde, meu coração, nossa alimentação, na época, é mato. Porque lá que não tem... Tem lenha, tem remédio, tem muita coisa, tem mel. Aí ele me olhou assim, ó. Ele pensou assim, ficou quieto um pouquinho. Aí falou, tá bom. Só que tem uma coisa, eu falei, eu queria deixar vocês aqui. Eu quero fechar um arame assim, ó. Mas a minha turma não vai deixar entrar alimentação, viu? À sexta não vai vir. Que vai fechar essa estrada. Que aí tem estrada outra, tem outra lá, né?
00:32:28 R/1 - É.
00:32:30 R/1 - Aí eu falei, eu vou levar lá na aldeia também. Falei, eu não vou mais. Eu vou esperar aí. Porque você falou que vai trazer seu antropólogo . noventa dias de prazo eu lhe dou noventa dias eu vou trazer meu antropólogo aí eu falei pra ele se noventa dias se você não trazer eu vou vir de novo eu quero que você me faça alguma coisa, viu? aí ele falou não aí então noventa dias eu cumpri outra vez já vim com seiscentos e setenta pessoas outra vez nem a pena mesmo Ele achou que eu vinha com noção, nós viemos de a pé. É, lá do Tecui.
00:33:11 R/1 - É.
00:33:13 R/1 - Aí, então, eles foram também. Então, aí, aqui, eles culminaram tudo já. O Avelino, César, Peloto e mais muitas pessoas culminaram. Aí, o meu filho, esse que morreu amroso, né? Falou, pai, Vamos entrar lá no cemitério, vamos morrer logo. Falei, você que sabe, mas não vai deixar nós entrar lá. É porque eu falei, o pessoal tá aí preparado, pistoleiro aí. Porque vem aí polícia Caarapó, delegado Caarapó, vem tudo aí. Aí falei, vamos implementar então. Cedinho assim, solo por aí assim. Vinha com seiscentos e poucos pessoas. Aí quando nós chegamos aí a passar, aí tiraram cada um assim, com bala de borracha. Deram tiro aí, viu? Mas não mataram nenhum. E aí, então, aproveitei. Aí chegou tudo, o pessoal da FUNAI, vem tudo, ambulância, tudo, acharam que ia acontecer alguma coisa. Mas não aconteceram, mas queimaram tudo com munição, bala de borracha, né? Aí, então, chegou no outro dia a Zé Teixeira. Falei pra ela. Falei, ó, falei: “karaí”, não falei o nome dele, “eu quero que você manda três advogados comigo pra poder aprovar”. Viu? Aí ele falou: “desculpa, porque eu menti pro senhor”. E você tá...
00:34:47 R/1 - É, falei assim.
00:34:49 R/1 - Você vai me desculpar porque eu falei que um noventa dias atrás ele me atropolou.
00:34:54 R/1 - E...
00:34:56 R/1 - Eu esqueci. Ele falou, não, você não esqueceu. Falei, agora eu vou pedir pra você. Manda um advogado. Eu quero três. Três, eu fiz assim pra ele. pra ele aprovar onde tá o cemitério, porque eu falei, eu não tô mentindo pra você, que eu sou daqui mesmo. Aí ele pensou, tá bom. É, mas ele mandou. Mandou o genro dele, mais duas mulheres, a Lurizote, o advogado dele, cada um, e o antropólogo Levi também foi. Maria José também, o antropólogo. É, andou tudo e achou tudo cemitério lá. Até ele acabar o fim, andamos 22 dias lá. É, cada um tuxa o papel, mostraram pra ele e deu lição. Um Reimundo, um paraguaio que mora lá, aquele quase atiraram em nós. Era brabo, viu, com pistola na mão assim. Aí entregou pra ele o papel e ficou olhando assim. No outro dia deixou. Então, aí... Então, nós fiquemos aí no Puíque dois anos também.
Eu queria mostrar pra você há uma hora, eu queria que eu mostrasse até a onda. Aí então, aí vem o Doralício também e já me deu. O engenheiro já me deu tudo, aí foi onde passou o antropólogo, fazer a perícia. Então, em cada campo ele passou a medida aí. Me deu tudo. Deu aí 11.440 hectares. Andemos aqui também. Tudo era aí. Então, só que isso ele falou. Só que o D. Teixeira, depois, foi lá também e conversou comigo. Ele falou assim, ó, índio, eu tô pensando assim, ó, eu entrego a minha fazenda, se é aldeia mesmo, só que eu quero entregar bem organizado. Repetindo de novo, eu quero entregar bem organizado. Pagou pra mim, pronto. Acabou. É, eu não vou segurar não. Porque se eu morrer não vou levar mesmo. É, eu perdi assim lá. É, quase me bateu na cara. É brabo o homem. É, mas... Então...
00:37:21 R/1 - É... Foi bem aí.
00:37:23 R/1 - Um tempo depois aí... Então aí já começou. veio outro aí, um engenheiro também, pra demarcar. Então a demarcação, quando vem Caarapó, Marco Valério, quando começou pra demarcar, ele falou, vamos demarcar agora o Guyraroká. Aí entrou essa confusão. Parou. Parou até agora. Aí começou, esse então, de novo, repetia esse pessoal, ele falou que essa aqui não era aldeia. A Maria e a Dilma falaram que essa aqui não era a aldeia. Ah, meu Deus do céu! Deu confusão. Ah, então aí que veio o Flávio, né? É a primeira vez que eu vi o Flávio. E o Matias. Ah, então ele falou, seu Tito, eu venho atrás de você. Nós temos que ir em Brasília. Ah, então nós... Falei, vamos.
00:38:23 R/1 - É.
00:38:24 R/1 - Pra contar a história dessa, como é que foi na época do rito que eu tô contando pra vocês. É. Ah, então eu fui. Foi eu e ele. Aí nós fomos lá, fiquemos 20 dias lá fazendo o documento. Perguntamos lá. De novo perguntamos. Se o fazendeiro que tiraram, ou nós que abandonaram. Aí eu contei pra ela, falei, não, nós não abandonamos, não. Por causa da ditadura da guerra, do pistoleiro. O fazendeiro tiraram expulso a tiro. Ainda aí, então fizemos. Aí que apareceu esse Dilma. Apareceu o nome. É a mesma coisa que você tá na internet, né? Aí ele falou, seu tio, tá aqui ó. Aqui tá o Dilma Modesto. Aqui tá Maria Paulo. Aqui tá Maristela Modesto. Ele falou que não era a aldeia essa. Aí perguntou se ele nasceu aqui. Eu falei, não, ele nasceu no... Quando eu conheço aonde ele nasceu tudo, falei, nasceu em 1970, falei pra ele. 78, 70, coisa assim. Pra 80 nasceu, falei pra ele. Eles são pequenininhos quando foi lá, falei. Ele não nasceu tudo lá. Então, ele falou, ah, aqui. Então, nós vamos fazer. Aí, então, fizeram o documento. Esse é o tempo... No tempo, a Dilma era o governo daquele tempo, né? Da República.
00:39:59 P/2 - Quando que foi a retomada que você veio com 600 homens pra cá?
00:40:05 R/1 - A retomada? Essa aí eu ajudo.
Então, essa aí foi em 2000?
00:40:13 R/1 - Não.
00:40:14 R/1 - Primeiro que eu entrei, é... 80, 90 e 8. É porque nós acabamos de sair daqui, meu tio, tudo, meu parente saiu, 80 e 8 saiu tudo. Aí já, porque aí vendeu, aí o Donderá, essa aí vai repetindo de novo, o Isto Garvão, e o Isto Garvão vendeu pro Pedro Doça, e o Pedro Doça vendeu pro José Lia Moreira. Daí que ele começou, tinha, é, mas eu saí primeiro, né, por causa desse tiro, né. Então aí, Aí, bom, aí já, quando eu entrei de novo, esse, entrei, é... noventa e oito. Eu entrei de novo aqui. Noventa e oito eu entrei. Em meio de janeiro também. É, eu vim pra morrer com alguma coisa mesmo, né? Falei que eu ia morrer lá.
Mas graças a Deus, Deus ajudou muito. Mas também, eu não me assustei, porque eu sei que era a minha aldeia. Aprovaram foi bem, graças a Deus.
E aí foi assim. Então, só que agora tô esperando, não sei se você fala, não sei se você tá com medo, não sei se o quê, só que agora tô perguntando, eu queria saber se o governo vai demarcar mesmo. É o presidente, né? Mas do jeito que lê conta, esse que veio a pessoa aí, já vou passar essa aí. Então veio esse peão do Zé Teixeira. Vê como é o seu título? Mais tarde, cedo um pouquinho, ele veio. Falei, seu Tito, eu vim pra contar pra vocês o que que tá acontecendo nessa aqui, viu? Falei, pode contar, aí tomando tererã. Eles fizeram reunião lá. Fizeram churrasco, todo mundo tá aí. Lá o Avelino, Beloto, Sela, tudo. Família dele, tudo que tava aqui. Aí ele falou assim, olha. Só que tem uma coisa, ele falou assim, olha. Ele, o fazendeiro, todo tá de acordo com vocês, vocês não vão ficar sem terra. Ou quer trocar esse daqui pra ir lá onde que minha mãe, o cemitério. Então esse aqui é do sal. Ele quer trocar.
Esse aqui é cem alqueires e que dá aquele mil alqueire lá. Naquele pedaço lá, ó. Esse pedaço aí. Então eu deixo aqui e ele quer que eu entre aqui. Nesse lá. Lá onde o cemitério não está. Ele quer trocar. Mas aí ele falou, olha, fazendeiro, ele tá de acordo com vocês. Ele quer entregar pra vocês. Mas vai entregar. Mas por causa desse fundo, ele falou. Deram prejuízo, muito. Até pra mim mesmo, eu falei, deu prejuízo. Olha, matou três mil filhos. Depois o meu animal morreu. Mataram também. Mataram quatro vacas.
00:43:34 P/2 - Então... Seu Tito, sabe o que eu ia perguntar para o senhor? Eu queria voltar um pouquinho. Quando a gente vai para frente, nós vamos um pouquinho para trás.
00:43:43 R/1 - Não tem problema. Vai de ré. É. Para poder pegar no ovo. Não, é assim mesmo. Porque essa história é louca, viu? Muito. Não é fácil. Eu mesmo, tem lugar que eu esqueço. Eu pulo muito logo.
00:44:07 P/2 - Mas vamos voltar um pouquinho.
00:44:09 R/1 - Não tem problema.
00:44:11 P/2 -Eu queria saber qual é o seu nome indígena. E quem que deu o nome indígena?
00:44:19 R/1 - Essa aqui? É o Floriano, Nhanderu de Oixacá. É que eu pulei assim, ó, aquele reservado, né? Essa aí que batizou. Porque antigamente, ninguém batizava, né? Então somente Nhanderu, como a onça, pulou. Ele é Nhanderu, né? Então ele que batiza criança de tamanho assim. É, põe o nome cada um. É, por isso que o nome dessa aí... É, então é assim. Na época, né? Essa foi em 1920, 30, 10. 15, na época. Dentro do mato, né? Então ele se batiza assim, né? Então ele batiza bem, nunca pega doente. Então esse aí... Então ele batiza assim, ó:
[reza indígena]
Essa é pra homem.
[reza indígena]
Essa é pra mulher. Então é assim que faz na época, naquele tempo. Então hoje, hoje acabou. É, não existe mais.
00:45:34 R/1 - É.
00:45:35 P/1 - E por que não existe mais?
00:45:37 R/1 -
É que porque não existe mais por causa que entra outra pessoa, termina. Igual aqui vou passar. Não vou falar dos outros não. Você vê que aqui, ó. Você vê que é esse povo aí por causa do crente. Vamos falar crente, né? Então, como ele passou essa pastora, a igreja, dentro da reserva, não existe. Quinhentos anos, quando começou, não existe. Porque nós morávamos tudo dentro do mato. E agora, não, pegou outro. Então, como passaram o Marçal de Sul... Não, é... Como é o nome dele? É... Juruna, né? quando teve aquela centralização, né? Então, essa reza acabou pra todo índio brasileiro, ele tá na mão dele assim, bastante assim, ó. É pra não entregar a terra. Porque aí não, vira tudo brasileiro. E tem que comprar a terra. Ele falou naquela época. E eu não falei pra ninguém, mas tô passando pra vocês porque tá tudo gravado, Marçal de Souza, que ele falou, aí na igreja, na frente daquela igreja, sete horas, mais ou menos, sentei e conversei bastante com Marçal de Souza. Lá em Brasília também conversei com Juruna. Então, o que vem a acontecer agora nós estamos chegando. E agora pra quem que vão reclamar? Pra quem? A FUNAI mesmo, vou passar a FUNAI. A FUNAI choraram quando entreguei a minha relatoria Lá em Brasília choraram, viu? Falou, sou pai do índio. Mas agora, falou, vou ficar só olhando. Fazer documento, qualquer coisa.
00:47:28 P/1 - O senhor acha então que a cultura indígena está sendo apagada?
00:47:33 R/1 - Apagada, isso mesmo. Está apagada. Por isso que nós não temos mais valor. Porque nossa cultura, igual vocês. Vocês, depois também vou falar, né? Desculpando o povo. cultura de vocês, quarqueira de vocês, sanfona, instrumento, quarqueira. Então, nós não vamos nos importar. É seu. Esse deu pra vocês, deu na época em que nasceu o mundo. E pra nós também é assim. Mas agora foi tudo atrás dessa aí, nós perdemos o nosso. Hoje fiquemos embaixo da mesa do... E aí, então, eu tô achando o meu pensamento, um pensamento mais Eu sei mesmo. Do tempo do... Eu vi também o... Como é o nome dele? O Marechal Rondon. Cândido Marechal Rondon. Quando perde a cultura, é difícil de marcar terra. Porque aí, quando eu subi lá em cima, me levaram também lá em cima, onde está o Marechal. Porque aí ele falou a cultura, porque ele falou seu título. Você quer fazer a pergunta pra mim? Você pode perguntar. Eu vou responder tudo pra você. E a sua também. A sua área. Você vai receber suas terras aqui, mas vai demorar. Falou o Marechal pra mim. Estava assim a ministra. E estava o advogado. Do CIME também. Ele falou assim, sentemos aí. Aí ele falou, nós vamos mandar quatro aldeias. Eu achava que andava com carro, né? Mas não. Aí ele sentou assim. Toda pessoa sentou com pressão, doente. Só que conversa bem devagar, né? Aí ele falou, olha, a escritura de você Mas tudo foto, tá assim, o Marçal de Sousa, o Juruna, tudo, tudo esse pessoal que é tirado, o Irêno, tudo esse que tem coé, a Mambai, até no Pirajuí, tudo essa pessoa que foi requerer na época aquela área, né? Tá tudo foto aí. Então ele falou assim, ó. A cultura de você, pra escriturar de você, tem que ser com essa aqui, ó. Pegou essa aqui, ó. É, tem que ser com essa aqui e essa aqui. Você tem que rezar, porque vocês são Raiz da terra. Vocês são raiz do mato. Você que é o dono da terra. Entendeu? Então nós temos que escriturar coisas. Mas se você pular, põe a igreja, põe um pastor, qualquer coisa, então vocês são brasileiros. Vocês têm que comprar. Porque nós brasileiros, qualquer um brasileiro, nós temos que comprar a terra. E vocês não. Vocês são legítimos da terra. Você andava na época pelado, tudo. Não é muito pelado, mas... Vocês são donos da terra, raiz da terra.
00:50:28 R/1 - É.
00:50:29 R/1 - Então, por isso que eu tô sabendo. Então, essa aí, ó, que tá acontecendo aqui, é por isso. Porque a gente, pra mim, na minha ideia, pra gente pode se fazer um movimento, igual vocês têm que perguntar, né? Se vai dar certo ou não vai dar certo. Porque não dá pra facilitar, como diz o poeta, né?
00:50:49 P/2 - Quando o senhor era pequeno, contavam histórias pro senhor?
00:50:57 R/1 - Nós, na época, nossa nação, naquela época, nós mesmos conversávamos com o pai, a mãe, vovó, aí pode ser três, pode ser quatro, e perguntamos pra eles, como que nós vamos viver? Eu? Como que nós vamos viver? Aí já conta a história, né? É, não pode ficar bravo, não pode brigar, não pode discutir, Não pode discutir a mãe, não pode discutir o pai, nem tio, nem o avô, nem ninguém. Você fica ajoelhado assim e fica quieto aí. Porque se você discutir, você não dura nem 20, 30 anos. Então, por isso, nós somos diferentes. E hoje não. Hoje é diferente. o filho na gente, a filha na gente, todos já vendem curtindo a mãe e o pai, né? É, você vê que hoje em dia fica muita coisa acontecendo. E pra quê que vamos reclamar agora? Não tem mais jeito. Ao menos, como diz o Paraguai, aí a nossa nação tá falida mesmo.
00:52:11 R/1 - É, tá falida.
00:52:13 R/1 - E eu tô achando ainda, essa terra, meu Deus do céu, não vai demarcar, senhora. Pelo jeito que eu tô vendo, não vai demarcar. Tá, não tem nem proposta nada ainda. Mas, pode ser, às vezes, algum, né? Então, essa que me aleia aqui, eu tô pensando. Por isso que às vezes a gente fica doente. Fica pensando muito. Não tô sentindo, às vezes não dorme bem. Pensa muita coisa. Nessa idade, olha que nossa planta, tudo aí. A planteima aí, truxa aí, qualquer uma coisa nós rodamos, criação. É que nem eu tenho um gardinho aí também. É, então tá aí, mudando pra cá e pra lá, pra poder. Então, por isso que nós pensa muito. Então já, essa aqui já era pra ter entregado. Pra ela ter marcado já, era pra ter assinado já. Tá pronto.
00:53:10 R/1 - É.
00:53:11 R/1 - Então, então isso que eu, a minha pergunta também pra vocês, Com essa entrevista, vamos ver se o que que vai resolver. Ou falta alguma coisa, ou falta outra. Então, esse que eu queria saber também. Se vai demarcar ou não, vai deixar pra outro ano, ou vai acabar por isso mesmo. Então, não é só eu. Muito... que tem cinquenta e pouco a retomada. Então, esse aí que é a minha pergunta também. E a gente fica assim, Tico.
00:53:46 R/1 - Fica.
00:53:47 R/1 - Além que nós estamos aqui do jeito que está nesse povo aqui, ó. Deixa doenças. É uma política.
00:53:56 R/1 - É.
00:53:57 R/1 - Não pode fazer uma coisa desse. E essa reclamação também.
00:54:02 R/1 - É.
00:54:03 R/1 - Eu vou repetir de novo também. Do jeito que está fazendo aqui, do jeito que ele fala o fazendeiro aqui, não passeia ainda o fazendeiro, mas passeia uma pouquinho. Então, aí então, esse Maria, A Dilma, a Maritela, toda essa família dele. O Avelino deu 60 milhões pra ele pra empurrar nós daqui. Esse ele contou também aí. O Avelino deu pra ele. Essa é Maria e a Dilma, a Maritela, tudo pra tirar nós daqui. É, e ele vai ficar quarteiro. Então, é isso que dá doenças. A gente fica pensando. Não sei se é política, eu não sei se o que que é a ideia. Parece que o índio hoje não tem mais, não tem mais, vamos falar assim, ele não tem mais interesse pela terra. E não quer trabalhar. Porque a gente, quando tem terra, tem que trabalhar. Tem que ocupar, não pode deixar parado, né? Porque, como o Samuel fala também um pouco, né? Na época, nosso tempo, o lugar da cesta é essa aqui, ó. É, planta madioca, batata, cana, mamon. Toda planta cereja a gente passa comendo. Criando um bichinho, qualquer uma coisa.
00:55:22 R/1 - É.
00:55:22 R/1 - Nunca, agora que vem essa cesta também. Mas, como diz Evafunai, tem que ajudar, né? Então, esse aí é o meu pensamento, tá vendo? Mas eu fico, tô aí.
00:55:33 R/1 - É.
00:55:34 R/1 - Só que... Só nós dois que tá trabalhando. Então esse é o meu pensamento, mas que faz um incômodo essa aí. E não sei o que vai fazer, essa aí é a justiça. Você vê quem matou? É dez? É dez que matou. Onze com esse brasileiro que matou. E não foi preso, nem tiraram. E prejuízo é que deram pro fazendeiro. E tá aí.
00:56:03 P/1 - Dona Miguela, a senhora acha também que a cultura kaiowá-guarani está sendo apagada?
00:56:12 R/1 - Acabou. Acabou?
00:56:12 R/2 - Acabou mesmo.
00:56:13 P/1 - Acabou.
00:56:13 R/1 - Acabou o guaxire.
00:56:17 R/2 - Acabou aquele negócio de guaxire.
00:56:20 P/2 - O que era o guaxire?
00:56:23 R/2 - É dançar.
00:56:24 R/1 - Dançar.
00:56:25 R/2 - Dançar, fazer aquelas chichas, dormir de batata, cantando.
00:56:29 R/1 - Você não sabe fazer chicas.
00:56:32 R/2 - É que é assim. É, ela se... Aqui mesmo da primeira era bom. Ficava a noite toda, até amanhecer o dia, fazendo algo assim. É, mas... Da primeira era bom. Mas depois...
00:56:49 R/1 - Acabou.
00:56:50 R/2 - Aí depois fizeram essa igreja.
00:56:53 R/1 - Aí terminou.
00:56:55 R/2 - Ele chateia muito, mas...
00:56:58 R/1 - Essa aqui mesmo foi a casa do diabo.
00:57:00 R/2 - Ah, nós vamos passar fogo nessa casa, ele falou.
00:57:03 R/1 - Por isso que lá no retúlio queimaram. Acho que não tem como eu falar.
00:57:08 R/2 - Essa aqui era... E ela também não, é o filho do bubura. Essa letra aí.
00:57:14 R/1 - Essa aqui mesmo quase que...
00:57:16 P/1 - Isso depois que veio a igreja.
00:57:18 P/3 - É? Nem pergunto nem. Na aldeia, professor Paulo, o tanto orquestrado que nós devemos ter, calma muito as igrejas pentecostais. Então a gente tira toda a cultura, fazia tudo bem. É assim que estamos agora. Quando a gente vai se juntar, rezar. Eu mesmo tenho muitos meus parentes que querem rezar, né? Fazer aquela gosteira, dança. Mas eles não querem. Não querem de jeito nenhum. Eles chateiam muito. Eles vêm ali, ali, onde que eles estão jogando a bola.
00:57:58 R/1 -
Porque nós, por exemplo, nós cacique, Por exemplo, hoje chove bastante, qualquer coisa, então nós, na época, né? Então, eu falo... É aí que vem A marralhinha vem Aí que vem A lara é meu filho A lera é o meu avô É, é, é Então, essa aí, a chuva vai embora. Aí o sol tá bom. Então, e tem pra doença também. É, pra não pegar gripe, né? Pra não pegar toda coisa. A reza. Mas hoje, como eu tô dizendo, acabou.
00:58:49 P/1 - E a dona Miguela tava falando que com a igreja, A cultura indígena tá sendo apagada.
00:58:57 R/2 - É, tá apagada. Acabou mesmo.
00:58:59 P/1 - Tá criando até brigas entre as famílias.
00:59:02 R/2 - É, só a briga, só a briga, só a briga. É só isso mesmo que tem agora. Por isso que nós fiquemos quietos. Porque nós somos dois. Nesse dia mesmo, como eu vou falar? Não é nem mentira, nem... Como que eu falo? Eu falo pra polícia mesmo. Porque eu não conto mentira. Eu conto a coisa verdade. Até a... O velho aí, acho que a minha filha que tá aí, a Maria. Diz que vai pôr na cadeia. Sempre precisa. Pra quê?
00:59:36 R/1 - Essa também falou.
00:59:38 R/2 - Ai, meu Deus, eu falei. Se essa terra, falei, não vai sair. Eu falei pra ele. Se essa terra não vai sair. Então, nós procuramos algum jeito que... Nós saímos daqui de cabeça. Vamos ver se ele vai segurar a terra. Vamos ver se ele tira. Porque todos são crianças. São crianças, vou falar mesmo. Então esse.
01:00:16 R/1 - Também tem como ela tá falando, né? Reforçar um pouquinho. Só ele que quer mandar mais. Eu acho que ele tá errado, né? Você acha que ele não tá errado? Olha só, o senhor tem comando agora, né? Eu não posso falar outra coisa e empurrar esse interesse, né? E ele não. Aí como é que ele fez placa aí? E a estrada? Quem fez funais aí também? Essa aí é original. Fez essa, veio essa que fez a rodoviária. A digital tá aí, o papel aí. Que placa, seu tio?
01:00:57 R/1 - Hã?
01:00:57 P/1 - Que placa, seu tio?
01:00:58 R/1 - Ele põe a placa aí, ué. É, mas ele põe por conta dele. Essa aí não. Essa aí não é. Só essa aí. Quando começou aqui, essa aí. E ele põe ela na conta. Ele que manda mais. Esse que eu tô achando. Então, sempre eu falo. Então, eu falei, ué, pergunta pra quem? Ele que manda ou eu que eu mando? Pra saber. Será que uma jovem desse jeito vai mandar pela terra? Porque a terra não é brincadeira, não. Por isso que até hoje sai muita briga por causa da terra.
01:01:37 P/1 - O senhor acha que a comunidade indígena também tá brigando entre si?
01:01:42 R/1 - Tá.
01:01:43 R/2 - Tá brigando.
01:01:46 R/1 - Porque não tá mais unido.
01:01:48 R/1 - É, os parentes...
01:01:50 R/2 - Não veio aí.
01:01:53 R/1 - E com a semana ainda, tá? Fez entrevista assim também.
01:01:57 R/2 - Tá cheio, parente, parente. A filha, a filha saia contra da mãe, do pai.
01:02:03 P/1 - E por que essa desunião, senhora, acha da família?
01:02:05 R/2 - Esse aí, de certa, eu não sei se é mundo ou alguma coisa. Ou acabou a reza. Isso que estão fazendo. Aqui mesmo assim.
01:02:18 P/2 - E quem que ensinou a reza pra vocês?
01:02:21 R/2 - É, dos antigos tem muita reza. Cadre, cadre, lucro, caldo, tem tudo.
01:02:27 R/1 - Olha, o cara, o Teiquet, o Lourato, mesmo o tempo do Ireno tinha. Teiquet mesmo tinha na época aí. 1900. Eu conheço até a demarcação do Teiquet.
01:02:41 R/2 - Quando vai fazer reza assim, já chama.
01:02:44 R/1 - Ele mesmo se oferece, chega, ó tio, tia, vai rezar hoje. Quando o Xixi também já vem aí. É uma alegria assim.
01:02:52 R/2 - E a pé ainda.
01:02:54 R/1 - E a pé.
01:02:55 R/2 - Porque aquele tempo não tinha nem carona. Esse que eu tava falando com o meu filho, esse que agora tá aqui. Mais de dois anos que eu tô ali.
01:03:09 P/2 - E qual é a importância da reza para os Guarani Kaiowá?
01:03:15 R/1 - Como?
01:03:16 P/2 - Como que é? Por que a reza é importante para vocês?
01:03:20 R/1 - Bom, a nossa é importante.
01:03:22 R/2 - Importante, como diz, porque a reza se junta, se batiza batata, mandioca nova, abóbora, o semilho saborou, como dizem.
01:03:40 R/1 - Agora não. E essa doença que vem também é que tem gripe, né? Então essa aí tem a resta dele também. Não é sono, não.
01:03:53 R/1 - É.
01:03:53 R/1 - Então fala... Então essa aí é pra doença. Todo mundo reza assim. Não chega doença, nem vacina ninguém que tomar. Hoje não. Então é muito, muito seguro pra nós essa nossa reza. Mas agora acabou.
01:04:30 P/2 - O senhor consegue repassar?
01:04:32 R/1 - Hã?
01:04:32 P/2 - O senhor consegue passar para os seus netos?
01:04:36 R/1 - Meu neto não se interessa mais. Eu já fiz isso. Às vezes, eu estou sozinho. Nunca.
01:04:41 R/2 - Estou dizendo, não é? A boca é do índio. Não é desse dele.
01:04:45 R/1 - Ele quer mais a igreja.
01:04:46 R/2 - É agora que cresce. Agora que está pegando sozinho, né? Porque está sonando. Sonou. Sonou, minha filha. Sonou.
01:04:57 R/1 - O resto não.
01:04:58 R/2 - Ah, eu sou a Bugres. É a família do Bugres. Sempre eu falo, né? Na cara dele. Porque não interessa, né? Porque a gente tem que ser unido.
01:05:11 R/1 - Hoje eu vou dizer essa reza também. Eu vou dizer muito que acabou. E vai acabar mais.
01:05:19 P/1 - E aqui em Guyraroká não tem reza mais?
01:05:22 R/1 - Sou eu. Sou eu mesmo que rezo.
01:05:25 R/2 - Quando.
01:05:30 R/1 - Vem um tempo brabo assim, ó. Quando chega assim, eu rezo aqui pra ele, ele vira pra cá, vai pra cá. Ou ele passa por cima. Vou pra lá. É, pra isso eu tenho reza. Porque a reza tem mais mil... Não é na gente que tem. Esse é Deus que... Ele grava igual o senhor vai gravar, né? Então, essa é uma coisa que é uma gravação igual essa parede que tá aí, então. Então, quando vem o Deus, Ele grava. E aí que vem a reza. Em tudo. Vem pra doença, vem pra milho, vem pra tudo. Não é só pra... Até amanhã ser o dia.
01:06:04 P/1 - Tito, e como é que fica a luta indígena sem a reza?
01:06:08 R/1 - Aí vai enfraquecendo. Já tá enfraquecendo mesmo.
01:06:13 R/1 - É.
01:06:14 R/1 - Só porque não é por... não é eu que tô falando. É o Marechal que tava falando naquele tempo. Porque acabou a reza, acabou o direito do índio. Aquele é uma identidade. Aquele é um papel da nossa cultura. Esse aí é o papel nosso, seguro da nossa terra. Mas se acabar, acabou. Tu tem que comprar a terra. E nós não tem jeito pra comprar a terra. Como é que eu vou comprar? Não tem? Aí, vou dizer... Tá bravo com nós aí, né?
01:06:46 P/1 - Sem cultura, sem terra.
01:06:49 R/1 - É.
01:06:51 R/2 - É isso mesmo, sem cultura.
01:06:53 R/1 - Sem cultura. Depois eu acho o grato ali, vai.
01:06:58 R/2 - A terra, como eu falei pro meu neto, esse meu neto, que mora aí perto de mim. A terra é a mãe, a terra é o pai. Isso aí que a gente fala pra vocês. Pra isso que a gente tá. Tá lidando aqui pra deixar essa terra pra vocês. Não é pra mim nem não, é pra ninguém. É pra vocês, novo, e tem que rezar. Aprender tudo.
01:07:27 R/1 - É, tem que aprender tudo.
01:07:28 R/2 - Menos, você vai dormir, eu falei isso, tem que aprender. Não é?
01:07:32 R/1 - É. Cepou, né?
01:07:35 R/2 - É aí mesmo, é. A minha filha, eu já vou falar mesmo. A minha filha tá bem ali.
01:07:40 R/1 - Nunca, né?
01:07:42 R/1 - É.
01:07:43 R/1 - Só falou a igreja, aí vai tudo.
01:07:46 R/2 - Só a igreja, vai tudo lá no fundo.
01:07:48 R/1 - É.
01:07:49 R/2 - É.
01:07:51 R/1 - Essa reza tem pra cobra também.
01:07:56 R/1 - É.
01:07:56 P/2 - Quando pica?
01:07:57 R/1 - É.
01:07:59 R/1 - Tem a reza também essa aí. Reza aí, reza tudo aí. Põe o remédio aí no mato aí, tem muito. Ah, com dois, três dias, tá bom outra vez.
01:08:09 R/1 - É.
01:08:12 R/1 - Depois é esse que é o cacique que sabe, é o Nhanderu de Oxacara. É ele quem ensina tudo. É porque Deus deu pra ele, né? Não se por aqui, como é seu nome? Paulo. Mesma coisa, seu Paulo sabe tudo a coisa. Então, de lá ele passa pra... Já mostra qual é o remédio, qual é o remédio pra isso, pra aquilo. Então, ele já sabe. Ele é igual a seu cacique, né? A rezadona. Então, Deus grava pra ele. Mesma coisa, mas... A gravação do Deus, só que a gente não vê. É porque... É difícil... É difícil para... Vamos se pôr para entrevistar... Porque nunca nós não vemos o Deus. Não é? Não é, Kerete? Nunca não vê o Deus. Mas a gente, o nome tem. Enxergar mesmo, é difícil. Mas essa reza dEle, vai tudo no gravação. E Ele vai... Para onde você vai, Ele acompanha. É igual o espírito também. Fica olhando pra não acontecer nada.
01:09:16 P/1 - Seu Tito, o senhor acha então, dona Miguela, que os dois maiores inimigos hoje do indígena aqui da região é o fazendeiro, que é a terra, e a igreja, que é a cultura indígena?
01:09:32 R/1 - É.
01:09:33 R/1 - Então, por isso que o fazendeiro ele deixa essa aí, essa igreja, pra não entregar, pra dizer que nós somos brasileiros. Essa eu já tinha falado, minha irmã.
01:09:44 R/1 - É.
01:09:44 R/1 - Que esse aí tem, falou, Avelino, Peloto e César.
01:09:49 R/1 - É.
01:09:50 P/2 - Quem são eles?
01:09:53 R/1 - Essa, daquele outro lado aí. Porque aqui tem oito chacrão, oito, nove, parece que tem. Cada um tem 60 alqueiras, 50 alqueiras, outro 40 alqueiras, outro 50, assim. Cada um aqui, ó. Essa aqui é do solo. Lá, do lado do corvo aí, ó. Sai do Avelino. Pra lá do fundo, Peluto.
01:10:14 R/1 - Pra lá, César.
01:10:16 R/1 - Pra lá, o da Teixeira. Não é muito assim uma fazenda só. Não é assim que é isso aqui. É, foi pra cá.
01:10:28 R/1 - É.
01:10:29 P/2 - Seu Tito, e o senhor frequenta a Dona Miguela também? O senhor se frequenta?
01:10:35 R/1 - Ah, é frequente. É sempre mais. Mas sou que no Aty Guasu, velho, não deixam falar, né? Tem outro falando. Muito bom.
01:10:46 R/1 - É.
01:10:46 R/1 - Mas não deixa. Tem muito sai. Trapalha muito, né? Porque a gente tem que contar aquilo que acontece e aquilo que vem prejudicar pra indígena, né?
01:10:58 R/1 - É.
01:10:58 R/1 - Todo povo. Porque essa história vem do praíra, esse 2025, que eles falaram em 1970 mesmo, não, em 1935. E eu vou passar também agora, quando eu lembrar. Então, por isso que nós ficamos fracos. Então, essa aqui era assim. O Teikwê demarcaram naquele tempo. Aí o Teikwê foi em Ponta Porã quando teve um tempo do Marechal Rondon. Demarcaram. com corrente. Conhece corrente? Aquela corrente, né? 50 metros. E depois de marcar aquele, vai passar no Taquara. No Taquara veio Marechal Rondon, enquanto tá lá, lá pra Cuiabá. Então, pra ele, é Ilha Carimbá. Seis pessoas pra poder demarcar isso aqui.
01:12:00 R/1 - Taquara.
01:12:02 R/1 - Ah, então, é aí O Marechal veio, mandou igual uma carta assim também, bem embrulhadinha. Aí ele mandou de Cuiabá pra Ponta Porã. Ponta Porã veio pra Caarapó, João Críderes, João Vianda, é de São Delegado. Ele trouxeram em Santa Luzia pro Arturo Campo, João Augusto Capiléu, Delegado e Jacinto. Então o Taquara pra demarcar tudo, ele falou, mas não vai demarcar tudo esse Taquara, vai passar no Guyraroká, ele falou. É, aí já vai no Guyraroká.
01:12:42 R/1 - Viu?
01:12:43 R/1 - Guyraroká vai demarcar. Esse vai ser, esse aqui é 1935. Esse aqui já vai pra 40 já, na época. Então o delegado falou, pra demarcar. Depois de demarcar o Taquara, vai passar Guyraroká. Depois de Guyraroká, em 50 para demarcar o Xiricala.
01:13:05 R/1 - É.
01:13:05 R/1 - É assim que ele na época falou.
01:13:10 R/1 - É.
01:13:11 R/1 - Mas essa aí ele perdeu o papel.
01:13:14 R/1 - Taquara.
01:13:16 R/1 - E aí ele falou pra ele, você vai segunda-feira, 100 pessoas para Carimbá assim, ó. Nós vamos ajudar vocês. Conhece aquele baratinho que eu falava naquela época? Aquele é um carro pra ele. É aquele carrinho. Então ele falou, vou levar com aquele até em Caarapó. E vou matar um... uma novilha, ou seja, pra levar uma farofa. E vou te dar dois contos, ele falou pra ele. Sem pessoa, você vai. Mas não perde esse papel. Se perder o papel, pronto. Vai ficar frio.
01:13:54 R/2 - É.
01:13:57 R/1 - E até que ele perdeu. E o homem também sumiu. Não sei se jogou. Então, por isso que o Guyraroká ficou pra trás. E essas duas aí. Aqui tem duas. Taquara, sem nada. Guyraroká e Xiricalé. É, mas eu tenho que marcar.
01:14:21 P/1 - Agora o senhor não acha, dona Miguela, que a Aty Guasu fortalece a cultura Guarani?
01:14:29 R/1 - É, não tá muito, não tá muito maneira, né? É porque a gente tem que trabalhar com esse movimento de terra, né? Tem que ser firme, né? Mas ele não.
01:14:44 R/2 - Quando a gente vai no Aty Guasu, eu acho, como eu falo, o meu avô Irêno, e o outro, meu tio, meu parentada, que morreu tudo. Quando vai no Aty Guasu, tem que deixar um pra falar, cada um. Você aqui, outro ali, outro ali. Assim, tem que fazer. Mas, meu Deus do céu, eu fui muito no Aty Guasu, eu não vi, não, desse jeito. É por isso que do Aty Guasu eu não quero ir. Agora eu já não quero ir mais. Olha o tempo que nós... Já fomos.
01:15:24 R/1 - Fomos no Piracuá, fomos no Campeste, Cerro Marangató, fomos lá para o Paraguaçu, e fomos pra cá também.
01:15:32 R/2 - Vai até o bêbado me fazer.
01:15:34 R/1 - Meu Deus do céu. Com o meu parente, nós fomos.
01:15:41 R/2 - O banheiro falou pra mim, vamos? Já rápido, já rápido, já rápido. E eu falei, eu não quero sair. Aí, nós saímos. E tinha duas mulheres lá, bêbadas, no banheiro.
01:15:58 R/1 - Ah, entendi.
01:15:59 R/2 - Aí, ele puxou a faca desse tamanho. Eu falei, meu Deus, agora acabou.
01:16:05 R/1 - Acabou mesmo.
01:16:06 R/2 - Aí, nós voltamos. Aí, nós fomos outra vez, porque o banheiro era, ficou assim, no meio, no escuro, né? É por isso que eu falei, vamos, vamos na outra Aty Guasu, eu falei.
01:16:17 R/1 - Foi no, aí no Icatu também. Mãe, não dá pra falar nada.
01:16:26 P/1 - E o que a senhora acha que fortalece a cultura kaiowá?
01:16:29 R/2 - É porque a gente acha, eu acho não, que ele não conversa. Porque, você vê, você veio pra conversar. A dona veio pra conversar. E eu também vim conversar. Tem que conversar, falar. Como que a gente vai fazer? Como que o senhor acha? Como que você acha? Nós temos que comer.
01:16:54 R/1 - É assim que é a luta dela.
01:16:58 R/2 - Só por aí, só por aí. E depois vamos comer, vamos comer. Encher a barriga. Gente não vem não. E esse que nós fomos na Aty Guasu.
01:17:13 R/1 - Pra cá, pro... Lá pra Rondônia, nós fomos no Porto Verde também, levaram. Lá já é de bom. Lá já conversa uma linha. Mãe da terra também nós fomos. Lá também saiu bom.
01:17:30 R/2 - Eu acho bonito a conversa. Porque ela conversa, né? Aonde que conversa? A [Terra Indígena] Mãe Terra pra cá.
01:17:40 P/2 - Os Terenas?
01:17:42 R/1 - Não, não é. Não, é o índio... Ai, que silva nação dele.
01:17:52 R/1 - É.
01:17:53 R/1 - Fica por lá o bonito.
01:17:55 P/1 - Então depende da região. O Aty Guasu é melhor ou pior?
01:17:59 R/1 - É.
01:17:59 R/2 - É melhor.
01:18:00 R/1 - É melhor.
01:18:00 R/2 - A gente não ir, porque a gente vai conversar.
01:18:03 R/1 - Muito perigoso.
01:18:04 R/2 - Pra conversar. Coisa verdade, né? Que a gente vai falar, como que é. Tem que fazer. E nós tem que se ajudar. Ó, aqui tem muito. Como eu falei pro Antônio, esse dia que ele veio pousar aqui, o Antônio pousou acho que três dias, tá? Falei pra ele. Porque a gente vai no Aty Guasu, tem que conversar, como é que a gente acha. E quando vai sair o Aty Guasu, todo mundo tem que vir, tudo rezador, pra conversar. Tudo rezador, assim, coisa da verdade. Pra gente acreditar. Mas não. A hora da comida tá tudo lá. Aí depois tá tudo.
01:19:03 R/1 - E o que a gente vai ficar falando?
01:19:05 R/2 - O que a gente vai escutar? Dos antigos, o meu avô Irênu e o irmão dele, outro, o... Chiquinho também, que é o do Panambique, era. Não, agora não. Senta e converse. Como que você acha? Como que você acha? Ele fala assim. Agora pode falar você. Como que você acha? O outro também, depois o outro. Não, agora não. Chegou comendo, encheu a barriga. Fica lá conversando assim. O Aty Guasu não tem mais direito, parece que pra mim.
01:19:57 R/1 - Parece que não tem firma, né?
01:19:59 R/2 - Não conversa, não conversa. E lá pra onde nós fomos, sentou mesmo, conversou. Lá no meio do caripuna. Que nós fomos. Sentou e conversou.
01:20:15 R/1 - Nós fomos em Rondônia também. Foi lá no Pará também.
01:20:19 R/1 - É.
01:20:22 R/1 - Eu achei até... Lá naquela aldeia... Como é o nome? Irucu? Irucu. Fomos lá também. Levaram nós aí. Mas é muito bom a... Ah, é.
01:20:33 R/2 - Pra lá, sabe? Pra conversar dele, tá tudo bom. Não é como...
01:20:42 R/1 - Ele acha muito importante assim, você vê que 60, 70 anos. Esse Aty Guasu tem um e nenhum sai de marcação. Esse também conversa lá.
01:20:53 R/2 - Esse aí mesmo, ele falou, tem que conversar.
01:20:57 R/1 - Cada local na terra é o lugar dele. E ele fala também lá, como que vai sair isso aí? Tem que se unir, tem que procurar uma palavra. Quem que fala mais certo pra poder achar, pra poder conseguir a demarcação. Menor um aldeia, menor duas. Mais do jeito que tá assim. É, 60, 70 anos, lutando, trabalhando.
01:21:23 R/2 - Era o velho, o dono da terra pra ser mesmo que sai pra fazer o convite, né? Pra levar no Atubaçu. E agora não. Uma década de criança. Uma década de criança. Ah, falou pra você ir lá. Vem, vem. Mas o que que vai sair? O quem? Ah, pra sair lá em Aty Guasu. Vem, dá a mão. Mas como que a gente vai assim? Hoje em dia mesmo sair lá em Aty Guasu. Se ele tiver quarentena... Chamando-se pra ir lá em Caarapó. Mas como, sabeu isso? Como que ele não deu nem uma palavra boa?
01:22:06 R/1 - Aqui ele vem chuva direto. É em janeiro. janeiro, fevereiro, agosto, setembro. Reza, planta, já reza, né? Mas então, como a reza acabou, a cultura acabou, então, é a mesma coisa, o Deus também não escuta mais a reza. Então, o Deus chegou no tapera. Não tem nada. Faz o que Ele quiser. Antigamente não. Antigamente não. Você vê o que eles vão falar. Teicuê, Taquara, Xiricala, Guyraroká, nessa região aqui, todo mundo rezava. Todo mundo plantava também. Ninguém rouba, ninguém nada. Agora acabou. E vai acabando. Agora eu acho, não é que eu tô contra, eu não tô achando ruim. Eu acho que indígena hoje, falar no meu patrício, como diz o Anastácio, não sei se você conhece o Anatásio, que vem de... É... França, né? Nós índios mesmo que perdemos.
Nós índios mesmo que nós perdemos. Como diz a Juruna na época, né? Porque, olha... Eu passei um pouco no tempo do final do... Velório do Marçal, né? E a Juruna. Eu tava também lá. Então a papa veio. Na época do... Do Juruna, né? Então, por exemplo, faleceu. faleceu Marçal de Souza. Mas aí tinha que fazer outro já. O quanto tá vivo, tem que fazer outro. Pra poder ter a indígena segurança dele. A cultura dele pra poder reforçar. Mas aí não. Acabou. Acabou e acabou mesmo. Como tão falando agora. Acabou, paitei, paitei. E que tem a nossa segurança? Não tem? Então o Juruna é a mesma coisa. Tem que fazer outro, mais o povo indígena. Por isso que nós estamos Aty Guasu. Aty Guasu. Mas ninguém resolve. Sai caro Aty Guasu. Paga. Muita coisa. É que não tem segurança, não tem... A nossa proposta, ninguém acredita mais. Você não acha? Ou não? Entendeu o que eu falei?
01:24:38 R/1 - É.
01:24:39 P/1 - Por que perdeu força?
01:24:41 R/1 - É, por causa da cultura, acabou. É, acabou a cultura.
01:24:46 P/1 - O senhor acha que o próprio indígena não acredita na sua cultura mais?
01:24:50 R/1 - É, o indígena mesmo também não acredita mais. Acredita mais é a igreja.
01:24:55 R/2 - Rapaz novo e mulher nova, tudo. Ah, eu quero só aquela lá. Não, aquela lá sei, não sei o que lá. Ele fala na nossa frente.
01:25:07 R/1 - E antigamente não.
01:25:09 R/2 - Ele fala que ele não acredita. Não acredita nesse rezador.
01:25:15 R/1 - Não acredita mais.
01:25:18 R/2 - Aqui mesmo tem. Aqui nós tem aqui. Aqui, lá no fundo.
01:25:27 R/1 - É, não estou falando no outro. Aqui mesmo tem.
01:25:29 R/2 - Aqui mesmo.
01:25:30 R/1 - Aqui mesmo tem essa aí.
01:25:32 R/1 - É.
01:25:33 R/1 - E antigamente, esse 1930, 10, 1910, 1915, chega e pergunta pro tio, será que dá pra fazer ou vai fazer, ele já conta pra ele, valoriza aquele direito dele, qualquer uma coisa, mas hoje ninguém conversa mais, só faz por detrás. Por isso que perdeu essa cultura, nosso direito. É igual esse no final do Marçal. E lembro também o tempo quando.
O governo entregou o CPI também, no Teicuê, né? Então, o CPI falaram, olha, tem que fazer, e falou em Guarani até, na época o povo todo falava em Guarani, igual o Gaúcho, porque o Gaúcho tem parte que fala Guarani, né? Então, ele falou, tem que fazer outro Morubixá, enquanto o Itavio tem que fazer outro Morubixá, igual vocês na ação também. Ué, tem deputado, tem senador, tem Supremo, tem várias autoridades, tem, né? O Índio tinha que fazer nessa posição também, cada um igual ao Paraguai, cada nação tem que fazer pra poder trabalhar e pra ter força, né? Mas acabou.
Então, quer dizer que como nós sempre conversamos com Anastácio, eu acho que não é nós, porque eu sou liderança, mas não é muitos anos, desde 86. Mas se fosse eu soar antes, né? Ah, eu fazia igual a um professor, né? Vamos fazer essa autoridade aí, que nem ele estuda bem, né? Dá pra fazer qualquer um deputado estadual pra poder segurar o nosso direito. Lá, não é aqui. Outro tem que fazer, a dona também tem que fazer deputado federal, a senhora vai. Então, tem que fazer isso aí. Mas nós não tem. Você não acha que por aí nós estamos fracos?
01:27:35 P/1 - Mas o senhor acha que a cultura da conversa tá acabando?
01:27:39 R/1 - Tá acabando. Então, é essa que tá acabando. Acabou mesmo?
01:27:43 R/1 - É.
01:27:45 R/1 -
Por isso que a íncara fala também, né? É que é tão... Acabou a cultura, tem que comprar a íncara também.
01:27:53 R/1 - É.
01:27:54 R/1 - Porque tudo é brasileiro, né? Então, é bem interessante agora que vem essa 2025.
01:28:03 R/1 - É.
01:28:05 R/1 - E agora, quando tiver 2030, 40 aí que vai ser pior. A criança nem sabe mais. E dos antigamente, tem outro também, quando eu vou passar. Quando o tempo no mato, a senhora, senhora assim, quando vai ganhar bebê, não precisa ir no doutor. Lá dentro do mato, o pai mesmo tem tudo a reza dele. Hoje não. Tem que ir lá no doutor. Pra poder ganhar o dinheiro. Nós viremos dinheiro agora. Você não acha? Então, quer dizer que eu vou dizer... Eu mesmo vou dizer, a minha vida... Não sei se esse de 2027, 28, não sei se vou... Alcançar mais. Que eu tô, como diz aí, tô doente. E ele pegou aqui, e ele também, o braço dele também, depois, pegou essa macumba, né? É, daí no fundo. Pra que se eu ver, faz com o marmoço, a coisa assim, no braço dele. Muito fraquinho, muito peso, eu mesmo não aguento.
01:29:13 R/2 - Eu tô comprando só isso.
01:29:15 R/1 - Não é macumba. Conhece macumba?
01:29:20 R/2 -
Esse aqui eu não posso. Esse aqui é assim, ó.
01:29:24 R/1 -
Eu vou dizer.
01:29:27 R/2 -
Esse aqui não.
01:29:29 R/1 -
Aqui, na... Vamos. É.
01:29:32 P/2 -
Na retomada.
01:29:33 R/1 -
Exato. Agora, na retomada, eu vou perguntar pra você também um pouquinho, né?
01:29:37 P/2 -
Tá bom.
01:29:38 R/1 -
É.
01:29:39 R/1 - Você acha que vai demarcar isso aqui? Na sua ideia.
01:29:44 P/1 - Eu acho que o governo tem um ano e meio pra fazer isso.
01:29:49 R/1 - Ela também.
01:29:50 P/1 - Esse ano...
01:29:51 R/1 - Esse ano não. É por isso que ele falou pra mim, é próximo.
01:29:57 P/1 - Mas o senhor sabe que a Sônia Guajajara vai estar aí segunda-feira, né?
01:30:01 R/1 - A ministra.
01:30:02 R/1 - Vai.
01:30:04 R/1 - Em Dourados vai estar, né?
01:30:05 P/2 - Vai estar.
01:30:06 R/1 - É.
01:30:06 P/1 - E acho que algumas pessoas vão falar com ela.
01:30:09 R/1 - É.
01:30:09 R/1 - Então, esse que eu queria saber, porque você vê que eu, como diz, aí eu trabalho muita coisa, tem criação, e eu tô achando que tô meio apertado já, devagarinho. Vem chegando, vai vir outra. E essa é 40 alqueires pequenas. Tem criação, tem uma coisa. Eu queria saber, sim, pra poder... Não é que eu vou, não vou empurrar, não. Não vou pular. O que a onda deu, aquele pedacinho, tô aqui dentro. nesse gaiolinha, né? É, mas eu queria saber se vai ser, com certeza vai resolver, né? Mas só que me falaram, como o senhor tá falando, agradeço muito, vai ser próximo, falou.
01:30:46 P/1 - É, tem que ser nesse um ano e meio. Depois acaba esse governo, não sabe o que vai acontecer.
01:30:51 R/1 - Pois é, essa é a minha preocupação.
01:30:56 P/2 - Pra terminar, eu queria te perguntar, pros dois. Vocês têm uma mensagem. pra deixar pra quem tá assistindo você.
01:31:10 R/1 - Como?
01:31:10 P/2 - Uma palavra.
01:31:11 P/1 - Vocês gostariam de falar alguma coisa?
01:31:14 R/1 - Eu sei, pra encerrar, como eu disse, então, minha pergunta é essa aí também. Então, eu queria saber isso aí. Mas, eu vou aguardando essa aí. Só que eu tô preocupado por essa aí, né? É, essa aí quando que vai sair, será? No da marcação, vai entregar? Então, essa aqui é a minha ocupação, como diz aí. Pra mim saber, né? Porque aí eu não preocupo ninguém. É... Como tá falando... Me falaram que é próximo, né? Então... A gente fica aguardando. Mas tô aqui. Só que, como diz aí, eu não mexo com nenhum... Objetivo da fazenda, criação da fazenda, não mexo não. Do jeito que eu com o meu compromisso. É... Então, eu passo essa renda também. Passar um pouquinho, não passei também. Essa renda... Sempre vem o pessoal de lá, né? Do Biágua. Falou, seu Tito, eu vou arrendar isso aqui. É por causa que tinha boiado aqui bastante, né? Tem dois mil e pouco boiado aqui. Falou por causa desse fundo, mataram muito. E... Vou levar na outro lugar a minha tropa. E eu vou arrendar isso aqui, vou plantar soja. Milho. Viu? É, por isso que arrendaram isso aí. É... Então a renda também já vem, a moeda do Getúlio veio aqui, a Maria também ligou pra ele vir arrendar essa aqui. E o Tereno veio também. Só que eu agradeci muito pro Tereno. Chegou em Guaranói e perguntou bem se ia dar pra arrendar, se ia fazer alguma coisa. Aí eu falei pra ele, olha, essa aqui o homem nem resolveu, e eu pra me arrendar, eu falei, eu não tenho coragem. Viu? Pode criar cobra, bichinho no mar. Pode criar, falei. Eu não arrendo desse aqui, ó. Do jeito que eu passei sofrendo aqui pra entrar aqui nessa terra aqui, falei. Na aldeia aqui, eu falei.
01:33:15 R/1 - É.
01:33:16 R/1 - Aí ele agradeceu muito bem, falei. Eu não arrendo não. Não dou arrenda, porque se eu arrendar, eu entrego pro dono outra vez. Eu não.
01:33:25 R/1 - É.
01:33:26 R/1 - Já estava resolvido. Igual o Taquara. Passaram de novo o Taquara. O Taquara estava no jeito. O relatório e o meu também. O relatório e o meu, esse aqui, tá tudo na mão do Gilmar Mendes.
01:33:40 R/1 - É.
01:33:40 R/1 - Por isso que eu tô passando pra vocês. Então, o Taquara também é coisa assim.
01:33:45 R/1 - É.
01:33:46 R/1 - Então, tava tudo no jeito aí, mas ele... Perdeu aí. Então, esse aí...
01:33:55 R/1 - É.
01:33:55 R/1 - Mas nós vamos ficar assim. Eu agradeço muito. Que você vem, fazia pergunta bastante. Não sei se tá certo ou tá ruim ou tá errado. Ou tão errado, como dizem.
01:34:06 P/1 - A gente agradece muito.
01:34:07 R/1 - Então, eu agradeço muito, desde que eu queria saber passar.
01:34:10 P/1 - A gente aprendeu muito com você.
01:34:11 R/1 - É, e daqui pra diante já vou ficar de vidro, escutando quando que vai sair.
01:34:18 R/1 - É.
01:34:19 R/1 - Então, tô aqui, sempre mais. Na hora que o senhor vem, pode vir tranquilamente. Que o irmão também, tranquilo, pá. Como dizem por aí, né? Então, isso eu agradeço muito.
01:34:30 R/1 - Obrigado.
01:34:31 P/2 - Queria perguntar para a Miguela e seu Tito. Vocês permitem que esse vídeo vá para o Museu da Pessoa? O Museu da Pessoa, que a gente está gravando esse vídeo, a gente tem que pedir autorização de vocês. Se vocês deixam a gente usar esse.
01:34:51 R/1 - Vídeo, postar esse vídeo, Não, dá pra autorizar, porque tem que saber, né? Pra isso que a gente, eu mesmo preciso, porque ninguém, ninguém vem de autoridade de longe conversar comigo, né? Então eu, por ser graça de Deus, só vocês eu agradeço muito, isso eu falo mais duas vezes, porque eu fiquei muito tranquilizado mesmo.
01:35:14 R/2 - Só gente de longe que lhe vem.
01:35:16 R/1 - Parece que é só... Você vê que vem da Itália, vem dos Estados Unidos, vem da ONU, vem da Europa, vem da Argentina.
01:35:25 R/2 - Aqui perto, né?
01:35:30 R/1 - Porque essa área assim, ó, essa área retomada, você acha daqui um tempo, daqui mais vinte.
[Fim da Entrevista]
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