Programa Conte Sua História - Vidas, Vozes e Saberes em um Mundo em Chamas
Entrevista de Benedito Valeriano de Arruda
Entrevistado por Bruno Oliveira
Corumbá, 28/05/2025
Entrevista n.º:PCSH_HV1470
Revisado por Bruna Oliveira
P/1 - Eu queria começar com uma pergunta muito difícil, difícil de responder, que é como é seu nome completo?
00:00:36 Benedito Valeriano de Arruda.
00:00:40 P/1 - Seu Benedito, em que ano, que data o senhor nasceu e onde o senhor nasceu?
00:00:46 R - Nasci 16 de novembro de 1943. Nasci em Poconé, Mato Grosso.
00:00:59 P/1 - E me conta, lá em Poconé, quando o senhor lembra da cidade lá em Poconé, o que vem na sua memória, a primeira coisa que vem na sua memória de lá?
00:01:13 R - Olha, vem na memória que eu nasci lá, lá que eu tive mais meus parentes, que ficaram para lá, apesar que a gente Passava um tempo, ia por lá e tal. E, por causa disso, a gente foi perdendo de todos os parentes, porque foi o mais jovem, né? Os mais velhos foram falecendo, né? E aí foi se distanciando. Portanto, que mais eu tenho dois irmãos que moram lá perto de Poconé, na... Quer dizer, hoje tudo é Cuiabá, na Varja Grande, né? Lá em Mato Grosso, né?
00:01:54 P/1 - E, e... Quando o senhor era pequeno, até quantos anos o senhor ficou em Poconé?
00:02:02 R - Não, eu perdi a minha mãe, eu tinha 10 anos. Aí, com 11 anos, eu fui trabalhado e empregado. Durante esse tempo lá, eu fiquei até meus 20 anos.
00:02:20 P/1 - Mas lá em Poconé?
00:02:23 R - Não na cidade, em município não. Toda a vida em fazenda, né?
00:02:27 P/1 - Ah, tá.
00:02:28 R - Ia na cidade quando muito, uma vez por ano, às vezes um ano e meio. Era só aquele... o negócio era só trabalhar, né?
00:02:39 P/1 - E lá no Mato Grosso isso?
00:02:41 R - Lá em Mato Grosso.
00:02:42 P/1 - Entendi. E me conta como que era o nome dos seus pais.
00:02:47 R - Meu pai chamava Jerônimo Luminí de Arruda.
00:02:53 P/1 - E sua mãe?
00:02:54 R - Benedito...
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Entrevista de Benedito Valeriano de Arruda
Entrevistado por Bruno Oliveira
Corumbá, 28/05/2025
Entrevista n.º:PCSH_HV1470
Revisado por Bruna Oliveira
P/1 - Eu queria começar com uma pergunta muito difícil, difícil de responder, que é como é seu nome completo?
00:00:36 Benedito Valeriano de Arruda.
00:00:40 P/1 - Seu Benedito, em que ano, que data o senhor nasceu e onde o senhor nasceu?
00:00:46 R - Nasci 16 de novembro de 1943. Nasci em Poconé, Mato Grosso.
00:00:59 P/1 - E me conta, lá em Poconé, quando o senhor lembra da cidade lá em Poconé, o que vem na sua memória, a primeira coisa que vem na sua memória de lá?
00:01:13 R - Olha, vem na memória que eu nasci lá, lá que eu tive mais meus parentes, que ficaram para lá, apesar que a gente Passava um tempo, ia por lá e tal. E, por causa disso, a gente foi perdendo de todos os parentes, porque foi o mais jovem, né? Os mais velhos foram falecendo, né? E aí foi se distanciando. Portanto, que mais eu tenho dois irmãos que moram lá perto de Poconé, na... Quer dizer, hoje tudo é Cuiabá, na Varja Grande, né? Lá em Mato Grosso, né?
00:01:54 P/1 - E, e... Quando o senhor era pequeno, até quantos anos o senhor ficou em Poconé?
00:02:02 R - Não, eu perdi a minha mãe, eu tinha 10 anos. Aí, com 11 anos, eu fui trabalhado e empregado. Durante esse tempo lá, eu fiquei até meus 20 anos.
00:02:20 P/1 - Mas lá em Poconé?
00:02:23 R - Não na cidade, em município não. Toda a vida em fazenda, né?
00:02:27 P/1 - Ah, tá.
00:02:28 R - Ia na cidade quando muito, uma vez por ano, às vezes um ano e meio. Era só aquele... o negócio era só trabalhar, né?
00:02:39 P/1 - E lá no Mato Grosso isso?
00:02:41 R - Lá em Mato Grosso.
00:02:42 P/1 - Entendi. E me conta como que era o nome dos seus pais.
00:02:47 R - Meu pai chamava Jerônimo Luminí de Arruda.
00:02:53 P/1 - E sua mãe?
00:02:54 R - Benedito Scholastica de Arruda.
00:02:57 P/1 - E é por isso que o senhor chama Benedito?
00:02:59 R - Por isso o nome escolhido por eles, né?
00:03:03 P/1 - E tem algum significado ser Benedito ou é por causa da sua mãe?
00:03:12 R - Olha, eu acho que tem um significado por duas partes, né? Por causa que eu sou um benedito no catolicismo, lá pra Mato Grosso, é um santo de muito poderoso, né? E por causa da minha mãe, né?
00:03:29 P/1 - Tá certo. E eu queria que o senhor parasse um pouquinho e pensasse numa paisagem daquela época. uma fazenda que o senhor trabalhou e o senhor me descrevesse como que era naquela época?
00:03:53 R - Puts vida, dessas passagens da época a gente até procura esquecer, né? Porque a coisa era muito difícil lá quando a gente trabalhava, né? Todas as coisas eram muito complicadas, difíceis. Trabalhava, trabalhava mesmo pra gente sobreviver, né? E pouca remuneração pra gente. Portanto, que eu falei que não tinha quase nem condição de frequentar a cidade, assim, né? Por isso que eu maro assim no meu nome. Não tinha como estudar, né?
00:04:32 P/1 - E o senhor, é... Você sabe como o seu pai e sua mãe se conheceram?
00:04:39 R - Olha... E eu acho que isso aí eu tenho mais ou menos uma noção, né? Porque conforme os meus avôs tinham pedaço de terra lá, que foi ganhado lá em Mato Grosso, no município que se chamava Rio Alegre, né? Que a história que eu sei do meu avô, falando pra ele que ele foi filho de um escravo, né? Ele foi criado por um homem que se chamava Celestrino. Esse Celestrino não era casado, não tinha filho, então criou ele, né? Assim como o modomo fala hoje, né? E esse Celestrino, a história que me contaram, quem deu esse pedaço de terra lá pra ele, eu não sei o significado, você deve explicar até isso pra mim melhor, um Tadedão Aquino. Deu essas terras para ele. E aí, quando o Silistrino morreu, essas terras ficaram para ser meu avô. Aí depois meus avôs ficaram para meus pais, meus tios, tias. Aí eles que demandaram tudo. Não souberam tocar para frente, porque tinha tudo para crescer. Mas não cresceu.
00:06:11 P/1 - Era uma fazenda?
00:06:13 R - Era uma fazenda, na época era uma fazenda, né? Criava gado, tinha todas as coisas, né? Então...
00:06:21 P/1 - Mas o senhor não terminou de contar de como seus pais se conheceram, sabe?
00:06:28 R - Olha, isso aí eu não sei explicar, mas acho que foi porque a minha mãe era de um sítio, lá pertinho de Poconé, lá que se conheceram, né? que ela conheceu, que morava o meu avô, que era pai da minha mãe.
00:06:48 P/1 - Ele que foi descendente de pessoas escravizadas?
00:06:53 R - Não, do meu pai.
00:06:55 P/1 - Do seu pai?
00:06:56 R - É, do meu pai.
00:06:57 P/1 - E da sua mãe o senhor chegou a conhecer o seu avô?
00:07:00 R - Conheci.
00:07:01 P/1 - E você sabe de onde que ele era? Era de lá mesmo?
00:07:04 R - Lá mesmo de Poconé.
00:07:06 P/1 - É?
00:07:07 R - É.
00:07:08 P/1 - E me conta, o seu pai, Só um minutinho. Você parou, Saulo?
00:07:17 R - Não. Tá.
00:07:22 P/1 - Pode perguntar? Quando o senhor era pequeno, o seu pai e a sua mãe ensinavam o quê para o senhor?
00:07:36 R - Ensinavam em que...
00:07:40 P/1 - Assim, de mexer com a terra, eles ensinavam? O que que eles falavam pro senhor?
00:07:47 R - Não, assim, até dessas coisas de mexer com a terra, não. Porque aí, conforme eu te falei, assim, que aí ele trabalhava de empregado, a minha mãe acompanhava o meu pai, mas ele morava e não mais era aluno talado, era mais só da parte da pecuária, era só gado, né? Tinha rocinha em volta de casa, essas coisas. criava as criações de terreiro, galinha, isso, né?
00:08:12 P/1 - E como é que era essa casa na época que o senhor morava, quando era pequeno?
00:08:18 R - Ah, de muito tempo a casa era de palha de apuri, barroteada, e aí tampava os buracos com barro, né? Assim que era. E você vê que era tão difícil, que nessas casas que a gente morava não existia nenhum prego. Era amarrado só com cipó do mato, com todas as coisas do mato. Barro era do barro, né? Certo?
00:08:50 P/1 - E como é que é? Tinha cozinha? Tinha quarto?
00:08:55 R - Como é que era? Tinha. Geralmente era três peças. A sala, o quarto e a cozinha separado, né? E às vezes um empalizado aberto do lado também, né? Sim que era.
00:09:09 P/1 - E nessa época que você era pequeno, você já tinha, teve irmãos ou era só você?
00:09:18 R - Não, nós somos quatro, certo?
00:09:22 P/1 - E como é que é o nome dos seus irmãos?
00:09:25 R - Depois de mim, a minha irmã, que mora em Campo Grande, chamou Conceição Juvelina de Arruda. E outra irmã que faleceu, Antônia Odir de Arruda. E meu irmão, que é o Caçula, José Iso de Arruda.
00:09:46 P/1 - E me conta, como é que foi na época que sua mãe faleceu? O que aconteceu? Como é que seguiu sua vida depois que ela faleceu? O que aconteceu?
00:09:58 R - Olha, conforme eu falei, quando eu pedi ao meu irmão, minha mãe estava com 10 anos, né? Ficamos um pouco pra lá e depois meu pai tinha que sair pra fazenda pra trabalhar, teve que sair e eu já não podia mais ficar só assim... sem fazer nada, né? Morando lá, porque na fazenda, né? Já tinha que... Trabalhava e quase sem ganhar nada desde 10 anos, né? Pois é.
00:10:29 P/1 - E como é que era o trabalho naquela época? O que o senhor tinha que fazer?
00:10:35 R - Olha, era como se falava, puxar guia de boi, essas coisas mais leves assim, né? Prender vaca de leite, essa luta assim que era, né? Cuidar de animal de terreiro, né? Limpar terreiro que a gente falava, né? Fala, né?
00:11:01 P/1 - E era o dia inteiro fazendo isso?
00:11:04 R - Geralmente era o dia inteiro. Tinha pausa, mas era pouco, né?
00:11:09 P/1 - E daí, na pausa, o senhor descansava?
00:11:11 R - Descansava, né? Pois é.
00:11:14 P/1 - E daí, o senhor trabalhava com o seu pai ou sozinho?
00:11:18 R - Não, geralmente em grupos, né? Junto com o meu pai, né? Pra estar fiscalizando, mandando assim, assim e tal, né?
00:11:25 P/1 - Mas era todo mundo que ia trabalhar ou só o senhor?
00:11:29 R - Não, todo mundo trabalhava. Ninguém ficava parado. Todo mundo trabalhava, né?
00:11:33 P/1 - Seus irmãos também?
00:11:34 R - Não, meus irmãos não. Porque aí meus irmãos ficaram com minha tia até mais um pouco, né? Aí ficou na casa de família uma, outra. E meu irmão, que acompanhou mais logo um pouco, aí meu pai tinha que levar ele pra toda parte, né? Que era guri, né? Assim que foi a nossa vida, foi desse jeito.
00:11:56 P/1 - E quando o senhor começou a trabalhar, Como foi para o senhor? O que o senhor sentia de trabalhar desde cedo?
00:12:15 R - Olha, eu senti bem. Achava que era uma diversão para mim, principalmente quando comecei a montar cavalo, ir no campo, ver aquele movimento, correr atrás de gado, aquela coisa, atrás de outro. Só que tinha umas épocas que o serviço era difícil lá pra nós pelo seguinte, o Pantanal antigamente, quando enchia, aí serviço de ar-cavalo parava. Aí era serviço só de a pé. Tinha vários tipos de serviço que eles faziam de a pé, era mexer com roça, plantar, colher e movimentar com canoa também. Pois é.
00:13:02 P/1 - O senhor andava de canoa?
00:13:04 R - Andámos. Era a condução, né? A condução lá na época era canoa, cavalo e carro de boi, né? Pois é. Que era um carro até diferente, porque hoje nem tem mais. Que era aquele carro de boi, a roda era só madeira. O carro de boi, certo? Não tem um prego nele. É só madeira. Tem muita gente que nem conheceu, né? Você vê em Minas aparece na televisão, mas a comportamento é diferente. Tem ferro nas rodas, você já vê, né? A mesma coisa, como é o engenho de madeira, né? O engenho de madeira é uma coisa que não podia... tinha que ter no museu, não podia deixar acabar. Isso eu vejo como uma coisa que o povo fazia. Moía cama, fazia rapadura, Fazia açúcar, fazia tudo com aquilo, né? Puxado com boi. A inteligência, eu penso tem horas assim sozinho, a inteligência. Todo mundo, mas eu acho que o mais antigo era mais inteligente do que hoje. Você já pensou fazer esse aparelho pra fazer tudo aquilo, né? E o povo sem estudo, sem nada, tem a capacidade de fazer aquilo, fazer açúcar, fazer tudo aquilo, né? Não é assim.
00:14:33 P/1 - E vamos voltar um pouquinho pra essa época que você falou, que quando tinha cheia não dava pra andar de cavalo. Por quê? Ficava muito difícil de andar?
00:14:45 R - Ah, ficava difícil assim pelo seguinte, não que a água toda, a água, vamos falar assim, era fundo, água de dois metros, de um metro. Geralmente, lá a água ficava assim, oitenta de um metro no lugar mais alto, no limpo, né? Só que tinha, por isso que era de dois metros de fundura, né? Porque o corpo você sabe como que é, né? Todo mundo tem noção. E quando chegava a água, ele ficava escuro, seco, cheio, né? Assim que é. Só que gente fala, muita gente não entende. Agora ficava em lugar de mata, a mata era seca, né? Era mais alto, né? Por isso que tem as matas. Deixa eu ver que onde tem mata... Porque tudo bem, tem mais árvores que sobrevivem o tempo inteiro na água, mas tem que não vive na água. Certo?
00:15:45 P/1 - E lá na fazenda tinha mata ou não?
00:15:49 R - Tinha. Que a gente chamava de cordilheira. Era um mato mais estreito, mas ia embora toda a vida, né? Então assim que era, né?
00:15:58 P/1 - E os animais naquela época?
00:16:01 R - Comia, descia na água pra comer, subia na mata pra dormir.
00:16:07 P/1 - E que tipo de animal que tinha naquela época?
00:16:10 R - Gado, cavalo, tudo, né? Mas com cavalo geralmente era difícil procurar seco, mas ele ficava normal no dia e noite na água comendo, né? Então assim que era.
00:16:20 P/1 - E era criado tudo solto ou não?
00:16:23 R - Não, solto na larga, né? Mas era manso, tinha... O povo era inteligente, sabia manejar, dominar ele, né? Pois é.
00:16:33 P/1 - E como é que fazia isso? Como é que manejava eles naquela época, se eles eram soltos?
00:16:40 R - Não, geralmente o cavalo, por exemplo, na sede ficavam uns poucos de cavalo, o resto era solto, né? Porque não tinha tanto pasto pra... aguentar ali, eles ali. E aí quando secava, que ia secando, que pegava pra ir mexer com o gado, né? Tinha as épocas certas, né? Fazer todas as coisas.
00:17:03 P/1 - E era marcado assim quando chovia? Sabia a época que ia chover, a época que ficava seco? Ou o senhor via na... Ah, subiu o rio, não dá para andar de cavalo.
00:17:18 R - Não, mas era assim, por exemplo, todos lá na época tinham noção. Chegava, começava a chover, Era de outubro, novembro, dezembro, janeiro, aí ia enchendo, né? Fevereiro, março, aí estabilizava aquela cheia ali. Aí quando tinha até aquela coisa que falava 19 de março era o último repiquete que a gente usava falar, que era o dia de São José, né? Ali a água dava uma estabelecida até no dia primeiro de abril, aí ela começava a ir secando, secando, aí era só seca. Até agosto, a seca era braba. Ficava as águas só mesmo mais vazante, né? E aí que trabalhava, o alvogado fazia tudo, né?
00:18:16 P/1 - E o senhor consegue pensar como é que era o Pantanal daquela época?
00:18:23 R - Era que era só os pantaneiros antigos, era bom, né? Porque tudo só, como se diz, era da natureza, ninguém mexia com a natureza. Era só nos nativos, né, que tinha. Que eu, conforme eu vou cortando a sua pergunta, queria falar o seguinte. A gente, quando era tempo da cheia, era mais fácil pra gente ir na cidade pelo seguinte. A gente zingava dois dias a canoa, pra chegar a próxima cidade pra pegar o que precisava, né? E pra ir... E quando era tempo da seca, era quatro dias pra ir, quatro dias pra voltar com o carro de boi.
00:19:13 P/1 - Então... E o senhor preferia... Era melhor na cheia, então?
00:19:21 R - Na cheia, né? Era mais suave, né? Menos cuidado, né?
00:19:26 P/1 - Qual que eram os problemas na seca?
00:19:30 R - Na seca era o seguinte, porque era assim, nessa época era pouco povoado, antes sabia, tinha estrada, tudo. Mas tinha muitos lugares com carro de boi, se eu chegava no lugar... Bom, ninguém usava da piqueca pra ninguém prender boi de carro. Às vezes quando dava o mangueiro. Então se eu tinha que chegar cedo pra dar de comer os boi um pouco pra prender, de noite, né? No mangueiro. Aí madrugada tinha que sair, cangar o boi, sair, andar madrugada até um pouco, hora que clareasse bem, o lugar, achava um lugar bom de pasto, descangar o boi pra deixar pra comer. E quando já via que não ia alcançar o lugar pra prender o boi, assim que era o sistema. Parava cedo, deixava o boi comer, Aí no escurecer, marrava tudo eles pra dormir. Aí outro dia de madrugada, assim que era a luta, né?
00:20:38 P/1 - E como é que foi? O senhor foi crescendo e continuou trabalhando?
00:20:44 R - Desse batidão. Foi assim toda a vida, né?
00:20:48 P/1 - E como que foi, assim, do senhor sair do... O senhor permaneceu trabalhando com seu pai bastante tempo?
00:20:58 R - Bastante, um pouco. Bastante tempo, né? Que quando eu saí do poder de trabalhar pra minha conta, eu já tava com 17 anos, né? Aí que eu saí.
00:21:12 P/1 - Mas até então o senhor ficava junto com seu pai?
00:21:15 R - É. Trabalhava sempre junto, assim, né?
00:21:18 P/1 - E primeiro o senhor estava falando que tinha que fazer umas tarefas um pouco mais leves, né? E daí foi aumentando essa responsabilidade. O que o senhor foi trabalhando daí?
00:21:32 R - Mas era quase o mesmo setor, né? E lá, pra nós, lá pra Mato Grosso, você vê que o negócio lá, quanto era justo. Porque hoje é completamente diferente. Hoje, os mais inteligentes a gente trabalha para ele ganhar da gente, né? E lá na época, que eu falo que o povo, antigamente, quando era mais inteligente, porque lá cada pessoa tinha que ser ordenada, porque os patrões viam o que ele fazia, o que ele não fazia, então você tem que ganhar isso, né? Era quase escravizado, né? Era isso. Portanto, que lá, se ia fazer um serviço, nós vamos carpir, Media a tarefa. Usava a palavra braça, né? Doze braças e a tarefa. Se você terminava aquelas doze braças, até uma hora, duas horas, o resto do dia estava livre. Mas quando tinha até a de tarde, e se você não terminava, era descontado o seu dia também, né? Não fez igual o outro, né? E assim era, todas as coisas eram desse jeito.
00:22:48 P/1 - E sobrava um tempinho pro senhor se divertir de alguma forma ou não?
00:22:55 R - Olha, quase que não tinha como divertir, mas era só conversar, né? Tinha lá, mas esse eu nunca fui, eu não gostava, achava bonito. Usava cantar, cururu que falava, né? Numa viola que ele mesmo fazia de coxa, né? Que era...
00:23:14 P/1 - Mas o senhor não ia muito?
00:23:17 R - Não, eu escutava, mas nunca foi influída. Isso que eu falo pra você ver. Essas violas que faziam de coxo, como tem aqui, viu? Mas era completamente diferente, você não pode nem falar certo. Que ali tá tudo com o quê? Com corda de nylon, né? Não é? E antigamente não era, não tinha nylon. Sabe o que era feita a corda? De tripa, de bicho. A melhor tripa que dava a corda da viola, sabe qual que era? Nós chamávamos de ouriço, que é o pouco espinho, né? Aquele, o pessoal tirava ele, torcia bem torcido, aí estirava lá, cada uma punha um peso, uma mais leve, outra mais curta, que era pra uma ficar mais fina, outra mais grossa. Tinha todo o significado, né?
00:24:19 P/1 - E como aprendi essas coisas, a fazer essas cordas?
00:24:23 R - Olha, eu já via eles fazerem, né? Agora, como que eles começaram de lá o começo, que eu não sei falar como que foi o começo, né?
00:24:31 P/1 - Mas o senhor via fazer e já pegava o jeito de fazer?
00:24:34 R - Não, eu não... Já pegava, a gente pegava, né? Porque eu nunca vi mais desse aí, como que faz, né?
00:24:40 P/1 - Aham.
00:24:41 R - E você sabe qual que é a pele mais dura que tem? Não? É a de peixe. ou pintado. E outra pedra muito forte também, que o Otávio me falou um pouco pra trás, que antigamente era piola e couro só se fazia, tirava o couro de cavalo pra costurar traia de arreio de cavalo, traia de carreiro. Chamava lonca, lonca de cavalo, né?
00:25:15 P/1 - E o que que era isso?
00:25:17 R - Tirava o tentinho bem fino, pra costurar traia de ré, de abuçar, outras coisas de cavalo, assim que era.
00:25:28 P/1 - E o senhor estava falando que no Pantanal, antigamente, quando o senhor era mais novo, era... o povo sabia respeitar a natureza. O senhor acha que mudou isso ou não?
00:25:39 R - Mais que uma vez completamente, né? Depois que chegou o doutor, não sei o quê, você não vê que você só vê falar em máquina, coisa, coisa, coisa. Olha, onde o meu patrão, esse já foi aqui, já depois que eu vim pra cá. Esse meu patrão, ele não conseguia derrubar um pé de uma árvore frutífera de volta de perto de casa. A piúva que o Ipeque fala, de onde enxergava a fazenda, não deixava cortar de jeito nenhum. Pois é. Ele falava, tinha um ditado, ele falava, as frutas, as frutas, se a gente não come, os bichos comem, né? Pois é.
00:26:27 P/1 - Então não podia cortar nada?
00:26:30 R - Não. Cortava pra limpar, porque aquela coisa da nina, né? Mas aqueles que não faziam nada, não.
00:26:39 P/1 - E naquela época o senhor já tinha visto onça?
00:26:43 R - A toda vida existiu, né? Só que era menos, parece, não sei.
00:26:48 P/1 - Via menos?
00:26:51 R - Via menos, não sei porquê.
00:26:54 P/1 - E sucuri também, via ou não?
00:26:57 R - Via, agora esse tinha bastante. Mas, então, isso era uma coisa na fazenda lá, tempo da cheia, tinha que ter muito cuidado com galinheiro, Porque à noite, o bicho saía procurando e pegava a galinha. Quando via grito, ia lá ver, já tinha matado ela enrolada.
00:27:19 P/1 - E como é que foi que o senhor saiu de lá? Como que o senhor pensou em sair de lá? Por que aconteceu isso?
00:27:30 R - Que eu vim pra cá?
00:27:31 P/1 - É.
00:27:32 R - Olha, porque a gente, vamos falar aí, comitiva de viagem, de boiada, viajava muito. E a gente arrumou um amigo, que até portanto ainda está até por aqui. Um condutor, acho que ele está com 90, perto de 100, ainda é vivo aqui, que até pai de... Deixa eu ver aqui, ele teve um bom trabalho, uma boa cabeça. Ele teve quatro, pai de quatro, três homens e uma moça. Conseguiu formar. Tem até um filho dele que é médico, mora aqui, o outro é doutor dentista. Aqui. Então, com um cunhado desse que a gente... Ele foi buscar uma boiada lá perto de Cáceres, Mato Grosso, né? E essa boiada correu. E ficou um boi pra trás. Ah, então ele deixou um cunhado dele, que chama Peedso Costa, né? Pra arrebar esse boi. E dessa ribada era pra trazer esse boi nessa fazenda de onde eu trabalhava, né? Porque eu comprava muito boi pra lá, né? Já tava bem melhor nessa época. E ficava, daí eu montava as mesas, apartava a boiada lá e ficava aguardando que esse boi de lá vinha nessa boiada, né? E assim que foi, aí eles falavam, ah, pra cá, pra cá era melhor, não sei o quê. que lá era, o Pantaná de fato era diferente, lá era barro, né? Muito barro, viu? Poxa, machucava o pé, barbaridade de criação tudo, né? Pra cá, Carabão era enorme, não tinha nada, e foi ficando naquilo, né? Aí, nessa época, um pouco antes disso, o meu pai veio na frente pra cá, pra cuidar uma chacra, aqui em Corumbá, que era de um poconiano, que era de lá também. Só que toda vida existiam essas coisas. É difícil a gente achar uma pessoa que tenha aquela confiança e sabe que o que ele fala é aquilo. Isso toda vida existiu desde o começo. Isso não é agora. Essas coisas toda vida existiram. Por isso que eu acho que valoriza muito nessa parte E eu acho que essa foi uma coisa também que só que faz ele dar uma força para a gente crescer também. Mas só que um dia eu cheguei assim, numa conversa, dois patrões falaram assim. Os cientistas falaram sobre mim. Mas você não tinha que dar mais um apoio, Rubinho. para o Benedito levantar, mas ele assim, assim. Eu falo, mas se ele melhorar bem mais, ele... aí ele não vai mais querer trabalhar para mim, ele vai trabalhar para ele, aí eu vou perder a pessoa em quem confio, né? Então essas coisas tudo existiam no Pantanal, teve essas coisas.
00:30:59 P/1 - E o senhor sentiu o que quando ouviu essa conversa?
00:31:04 R - Olha, fiquei na ilusão, né? E assim, falando um pouco para dentro, a gente volta lá para trás, como convivendo. Como teve um patrão aqui, tinha um patrão e já faleceu. E até tem horas, porque a gente faz, a gente acha que o outro também tem que fazer, mas de fato não é assim. Ele conversava, gostava comigo, conversava todas as coisas, falava todas as coisas. Disseram que teve gado também. Não foi bastante, mas teve. Podia ter mais, né? Aí eles falaram pra mim assim, olha, você lá com o seu Pedro, chamava o meu patrão Pedro, né? Vocês todos têm gadinho, né? Falei, todos nós temos. Dentro tem lá que já tinha gente antiga, lá todos tinham. Um tinha 20, um tinha 30, um tinha mais. E assim mais, né? Aí ele falou assim, eu não dou. Nada, se não ser o salário dele. Falei, mas por que? Eu não dou. Pelo seguinte, o peão melhorou de situação. Primeira coisa que ele faz é trocar de mulher. Eu falei, nem tudo é assim. O peão não pode melhorar, que ele só faz coisa errada. Mas isso é bespeiro, não é? Bovagem.
00:32:31 P/1 - E nessa época, antes do senhor vir pra cá, como é que era o ordenado do senhor?
00:32:38 R - Era... Nessa época não tinha, vamos falar como hoje, o salário obrigatório, salário mínimo e aquilo, né? E na época era os patrões que se diam, né? Pagou tanto, pagou tanto, né?
00:32:53 P/1 - E pagavam dinheiro ou pagavam só com comida?
00:33:00 R - Não, pagavam dinheiro, né? Mas tudo que você comprava, pediram, né?
00:33:07 P/1 - E nessa época, o que o senhor tinha vontade, gostava de comer naquela época?
00:33:15 R - Olha, a gente até sobre essa parte a gente quase não fala, mas A gente sentia vontade de comer, principalmente, vamos falar, uns biscoitos diferentes, como tem hoje, né? Você vê que lá pra nós, na época, até era uma dificuldade pra tudo. Os sabões eram sabões que não faziam direito, porque era pra empregada, era feito na fazenda com soda, com sebo, né? Malfeito. Ainda era vendido, ainda tinha mais isso, né?
00:33:52 P/1 - Tinha que pagar por ele ainda.
00:33:54 R - Pagar por ele, né? Pois é.
00:33:58 P/1 - E me conta, como é que era a roupa naquela época? Você estava contando antes da gente... Da roupa?
00:34:05 R - É. Não, a roupa era bem grosseira mesmo, né? Cachado de ninguém, era pouca gente que usava, né? Não tinha quase, né? Assim que era.
00:34:18 P/1 - E você falou que era de barro lá o Pantanal, como é que era?
00:34:22 R - Não, lá no Pantanal tem uma parte que é de barro, né? Atola bastante quando tá mole, né? Pisa, afunda, né? Assim que é.
00:34:31 P/1 - E andava descalço lá?
00:34:33 R - Ah, descalço, né? Geralmente, no barro, pra lá onde não tem espinha, é melhor descalço. Pois é.
00:34:41 P/1 - E me conta como foi a primeira comitiva que o senhor participou?
00:34:46 R -
De lá? Poxa, isso eu até já esqueci, porque de reto fui indo, eu comecei um dia de novo, né? Pois é, outra só coisa. Conforme eu ia falar com esses rapazes que foi lá, com essa boiada que coisa que me convidou, né? Bastante. Aí que foi que a gente pegou amizade, voltando um pouco pra trás. Aí que meu pai tava aqui pra cuidar dessa chácara. Fazia dois anos que não via meu pai. Aí... De antepai tinha que vir, né? Aí eu vim. um que comprava gado pra lá, na época da cheia, comprava era gado gordo, embarcava no navio, né? Aí eu falei pro meu patrão que eu queria vir ver meu pai, que ia embarcar esse gado no navio, nesse navio eu vim aqui pra Curumbá, onde tava meu pai. Aí que eu vim, fiquei aqui com meu pai, esse meu patrão, esse que o meu pai tava com ele, Excelente pessoa, né? Boa. Aí ele falou, ah, por que você não fica por aqui e tal? Porque... Seu pai tá aqui, aqui é mais perto, né? Ele era, como que fala hoje? Ele era, trabalhava na... Na mesa de renta, né? Aí ele falou, escuta, aqui eu conheço todos os patrões aqui. Mas aqui, patrão, para mim, todos eles são bons. Agora, qual que é bom para o peão, eu não sei. Porque cada um tem o seu jeito de trabalhar, de falar e tal, as suas coisas. Porque não que tem patrão que é ruim, não. É bom. Mas tem algum que é só patrão. E esse que Deus ajudou, esse que eu teve, com ele, apesar que falou isso que acabei de falar, se ajudar. E ele tinha uma vantagem, que ele era meu patrão, meu amigo e meu companheiro. Porque qualquer coisa difícil que estava para fazer, ele ia lá e me ajudava e fazia. Perfeitamente, fazia com vontade. E o que eu falava que aconteceu por causa disso, era aquilo mesmo.
00:37:19 P/1 -
Ele ajudava o senhor na lida?
00:37:21 R -
Ajudava, e com força total, ensinava, explicava, né? E sem grosseria e sem brabeza, né? Pois é.
00:37:32 P/1 - E quantas pessoas trabalhavam com o senhor?
00:37:34 R - Ah, variava. Tinha vezes que era cinco, seis, assim, né? Às vezes, quando ia mexer com gado, vamos trabalhar gado, aí pegava, como fala, o diarista, né? Pra ajudar.
00:37:47 P/1 - Mas o senhor trabalhava direto, não era diarista, não?
00:37:50 R - Não, não, eu era mensalista direto. Aí voltando a falar, aí que ele falou, a gente, não vamos falar tanta coisa, mas só para ter uma noção das coisas que...
00:38:06 P/1 - Mas pode contar.
00:38:08 R - Não, nesse pouco tempo de vida, que eu ainda quero mais vida, estou com, vou fazer 82, quero mais. É o seguinte, que eu, nesses poucos tempos de vida, eu já vi tantos acontecimentos, fala amor daquele ditado, eu só nunca vi uva virar abacaxi, né? Nunca vi, mas eu já vi. Então, eu quero falar o seguinte, aí ele falou assim pra mim, escuta aqui, meu filho, se você quer ficar, eu vou falar com com fulano aqui, que é meu amigo, ele vai indicar um patrão bom. Aí ele indicou esse patrão que eu fiquei com ele, que eu falei pra você aqui. Fiquei com ele, passei por filho, por filho, por neto, que eu fiquei a vida inteira aqui no município de Corumbá só trabalhando com esse povo. Conheci muita gente, muita gente me conhece, sabe quem que eu sou, né? Inclusive até dirigentes de São Paulo todo, né? Tenho conhecimento, o meu conhecimento. Aí ele falou com esse fulano. Aí ele indicou esse seu Pedro, que é o meu patrão. Aí marcou pra mim na casa dele. Não tinha escritório, não tinha nada. Aí eu fui, ele não estava. Aí voltei, ele não estava. Aí deixou o recado. Fala pra ele ficar me esperando aqui, porque não parava. Se ele perder um dia aqui, eu pago o dia dele. Aí vi que foi que combinamos, mas bem assim. Certo. Se eu for, não dá certo, se uma irmã me manda, não tem problema nenhum, né? Aí que eu fui. Esse eu lembro assim, esse foi em outubro. Pegamos, fomos daqui de Curumbá, lá na fazenda, que hoje tá abandonada, sem ninguém, porque a água tomou conta, né? Lá. de carro. Atravessamos lá no Rio Paraguai, lá na Manga. Chegamos aí a Nicolândia, o Pantanal. Fomos atravessar o Rio Taquari, lá no Porto Rolão. Na balsa, né? Daí chegamos lá. Tá. E nessa vinda minha, ficou minha traia de arreio, um cavalo, um cavalo que consegui ter pra lá, né? Aí depois disse, vou contar a história desse cavalo. Aí trabalhei lá, acho que foi... Não lembro mais o... Como que foi? Que mês que eu fui pra lá, né? Só quero falar que quando foi em dezembro, eu falei pra ele assim, olha, Seu Pedro, eu quero ir buscar meu cavalo, minha traje de arreio que tá pra lá e tal, né? Que era o mês de dezembro. Tá. Aí eu fui. Ele mandou me levar até um preto bom, que já faleceu aqui no porto, no rio Paraguai, aqui no nome do porto São Francisco. Pra mim pegar uma lancha pra ir pra lá. E foi. Peguei a lancha aí. Quando eu cheguei lá, no porto que se chama Conceição, tava pra gente. Aí pareceu que eu peguei uma carona pra ir lá, pra montar o meu cavalo. Quando eu cheguei lá, essa chuva começou a chover, chover. Aí notícia que tava enchendo tudo. Lá. Aí eu fiquei preso pra lá. E ele aqui. Aí aqui o ser humano é dureza, né? Aí... Falava, ele ficava lembrando, comentava, ele falava, ah Benedito, nunca mais você vai ver esse Benedito, né? Só na outra, na outra, mas esse nunca mais. E vai nesse intervalo, um que era casado com o filho de um fazendeiro lá, desentendeu com o tio da mulher, coisa, ficou feia a coisa mesmo. Aí ele teve que se expulsar e eu dei lá até meio correio expulsado pra vir pra cá. Isso já foi no meio de junho, assim. Aí, conforme eu falei da enchente lá, assim, já tava abaixando, já tava seco. Aí eu aproveitei essa oportunidade, né, que vim com eles. Ajudando a trazer a tropa dele, o rebanho dele pra cá, né. Pra cá. E... Vinha pra cá, até no rumo, até próximo de lá de um lugar, de uma fazenda que tinha mansão roca e vinha de carona com ele, com o meu cavalo e tal. Aí... Daí eu abri pra ir pra fazenda, ainda viajei mais um dia pra chegar lá na fazenda, né. Aí então eles não esqueciam disso. Aí de longe, porque lá o Pantanal vão limpo, bonito que era, de longe viu esse cavaleiro que vinha vindo, Aí disse que deu uma coisa nele. Estava um outro vizinho dele, amigo dele lá.
00:43:42 R - Ainda ele falou assim, aquele cavaleiro lá vai ser o Benedito. Porque na época até comunicação era difícil na fazenda, não tinha, né? Ainda ele falou outra vez, ah, Benedito nunca mais. Aí que quando cheguei lá, até ele mesmo ficou e até assustou, né? Aí que eu continuei lá, até todo esse tempo lá, né?
00:44:05 P/1 - Então, não tinha como se comunicar, né? Ele não sabia que não ia voltar.
00:44:09 R - Não sabia, não tinha, né? Na fazenda, né? Não tinha coisa mais difícil. Então, esse conforto, voltando um pouco para trás, para falar que eu já vi um pouco de tudo, esse fulano que indicou esse Sr. Pedro para mim, foi um homem muito importante, né? Conhecido em toda parte, né? De poder executivo, isso, certo? E o meu patrão, na época, não era bem rico como ele ficou depois. Era milionário, mas era bem sucedido. E ele gostava, era... Todo mundo fala de bosta, mas era brincadeira. E eram amigos, eles dois. Vê como que é essas coisas. Tá. Ele era aquelas pessoas que até... Meio que pisava nos outros, assim, porque... Importante, né? Já pensou? Importante. Isso que eu falo é que eu já vi as coisas. E a gente escuta muitas coisas também. Essa gente põe na cabeça, como tem um dizer desse fulano, que eu conversando com um amigo meu, ainda tá vivo esse amigo, ele não esquece disso porque ele é bom de cabeça, né? Admirava esse cidadão. Não é bom falar o nome, porque todos sabem, né? Mas vou falar, ele já morreu. Chamava Vitor Lima, né? Aí ele falou, admirava o que ele fazia, o que comprava, aquela coisa, pagava. Só que ele tinha um defeito já. No lugar onde ele chegava, ele achava que ele mandava, né? Mas o negócio não é bem assim, né? É diferente. Tá. Aí eu conversando com ele, ele falou assim, mas ele vai morrer pobre. Falei, ah, que fala besteira, rapaz, você vai ver. Falei, por quê? Ele logrou até a mãe dele, né? E aquela coisa ficou na minha cabeça. Tá. Aí vai passando o tempo, vai passando, vai passando, a coisa pra ele foi diferenciando, diferenciando, foi ficando pobre, pobre mesmo, Ainda tem muitas pessoas que procuram ajudar, né? Um cidadão dava dinheiro pra ele, pra ele comprar gado e ele ganhava naquilo, né? Aí é onde ele andou, acho que deviando o dinheiro dele, aí tirou. Aí a coisa ficou feia. Mas ele tinha uma dona dele, era trabalhadeira, né? Sabe o que ele tava fazendo? Depois disso, os últimos, para contar a história, estavam vendendo bolo de arroz naquela cestinha, assim, na rua. Conforme eu ia falar para você, o meu patrão era debochado. Gostava de brincar, brincava, né? Não que estava debochado, brincava, né? Aí ele chegou, eu estava assim, como nós estávamos aqui conversando e tal. Tem um sobrado que está lá na casa dele, era de grade, agora é fechado, assim, como é aqui. Ele chegou lá com a cestinha assim e falou, Ê Pedrinho! Falava pra ele ser uma pedra, mas ele fala pra ele Pedrinho, ele fala, Ê Pedrinho, vim aqui pra emprestar a você cinco, cinco cruzeiros, acho que na época cinco cruzeiro é. Aí ele falou, Vinícius, vai lá, abre o portão pro Vinícius. Aí ele entrou lá, Ê Pedrinho, vim aqui pra você emprestar cinco cruzeiros pra mim, que hoje nós não vendem nada. Aí eles debocharam, como ele falou, você não vai me pagar menos, mas eu vou te dar dez. Depois. Não ia mesmo devolver cobradeira. Aí que é tarde.
00:48:15 P/1 - Seu Benedito, eu queria voltar um pouquinho. Teve alguma comitiva que o senhor participou que foi marcante para o senhor de transportar gado? Alguma que marcou diferente o senhor?
00:48:34 R - Não, várias. Eu participei de quantas? ajudando, trazer boi, até ir no travesseiro Porto Lobão, né?
00:48:44 P/1 - E como é que era? Como é que era a lida com o gado nessas comitivas?
00:48:54 R - Era o seguinte, lá, por exemplo, o meu patrão também, porque ele enriqueceu também muito, ele comprava muito gado. Assim era qualquer tipo. Então, rumava um... um lote grande, aí as pessoas para comprá-lo, aquele tipo de gado que queria. A gente tanto ia buscar como, às vezes, ia trazer até aqui na beira do rio. Combinava, eu quero tanto que entrego na beira do rio, né? Derrubava na água, ia para outro lado e voltava. Era assim, né?
00:49:29 P/1 - E tocava berrante? Como é que fazia?
00:49:33 R - Não, nós usávamos muito pouco berrante. Madeiramente, esses que só vivem na estrada, É, toca o berrante, tem o berrante, né?
00:49:41 P/1 - Como é que era? E quantas pessoas a cavalo pra transportar?
00:49:47 R - Não, depende do volume do gado, né? Hoje já não dá mais, mas o povo enchia a boca antigamente, oito pessoas tocavam mil boi, né? Mas hoje diferenciou, é muito sujo, né? Sujou muito, todas as coisas, né? E ficou diferente, né? Conforme eu vou, hoje também ninguém tem interesse em nada, só interesse no passar o dia e pegar o dedo.
00:50:15 P/1 - E como o senhor vê essa diferença de antes para hoje? O que mudou?
00:50:22 R - Hoje ninguém... Olha, antigamente todo mundo gostava do que fazia. A vida era mais difícil, me parece, porque era isso que fazia isso. Olha, o senhor sabe que se eu tô aqui, se eu fosse trabalhar, um empregado de um, se eu tô aqui, se eu trabalhar ou não trabalhar, o meu salário é o mesmo, né? E ele tá trabalhando bastante e eu nada, e tá ganhando a mesma coisa. Mas não é assim? Então que eu acho que antigamente funcionava melhor, era por isso que Conforme você produzia, pode ser produzido, mas se está no grupo, está a mesma coisa.
00:51:14 P/1 - E nas comitias, o senhor atravessava rio com gado ou não? Como é que era?
00:51:20 R - Atravessava, sim. Aí nesse Porto Rolão, quem ficou aí, o homem aí enriqueceu nesse travesti, e é caro pra atravessar. Tudo bem, ele tinha pagava os canoeiros dele. Tinha os boi, que a gente chama de sinueiros, que caía na frente do gado pra ir pra outro lado, né?
00:51:44 P/1 - E o que o senhor comia quando tava em Comitiva?
00:51:48 R - Ah, diretamente... Não, a gente comia de tudo. A Comitiva, quando é belganizado, come bem.
00:51:54 P/1 - Ah, é?
00:51:54 R - Só que a sua avó se janta, né? É carne com macarrão, carreteiro, feijão, né? O lugar onde acham uma mandioca é um caribeu. E assim tudo, né? É, e geralmente quando a gente vai assim, os patrões, quando é bom o patrão, ele leva várias coisas pra gente mesmo, né? Na época era avião, né? É.
00:52:21 P/1 - O patrão vai junto ou não?
00:52:23 R - Não, não.
00:52:23 P/1 - Não vai?
00:52:24 R - Só vai lá pra patalgada, escolheu qualquer que é, ferra e entrega aí, né?
00:52:29 P/1 - E quantos dias que era?
00:52:30 R - Varia, depende da distância, às vezes 15 dias, 10, Cinco. Geralmente, quando era quatro, três dias, a gente não mexia nem com o cargueiro, não. Era só de garupa que falava. Mala na garupa e sapiquá, né?
00:52:46 P/1 - E o que que é sapiquá?
00:52:48 R - Pra carregar uma turma, né?
00:52:50 P/1 - E o cargueiro era quando colocava atrás do...
00:53:00 R - Lombo do burro.
00:53:00 P/1 - Lombo, né?
00:53:01 R - Aí tocava ele na frente, né? Foi assim que é, né?
00:53:07 P/1 - E me conta se nessa época tem alguma história que marcou o senhor, das comitivas?
00:53:15 R - Assim? Não, mas pra mim tudo era coisa boa, assim, né?
00:53:20 P/1 - Não teve um dia que o senhor ficou com medo?
00:53:23 R - Não, a gente tinha muito medo de responsabilidade, porque o gado é uma coisa assim, qualquer coisa ele assusta, assim, esparrama. Aquilo então é um perigo, né?
00:53:38 P/1 - Como que faz pra voltar daí?
00:53:40 R - Não, tem que parar e reunir. Às vezes perde quatro, cinco dias conforme alugar. Às vezes o dono tem muito cheio de confusão. Tem gente de toda a natureza. Não, só vou mexer. Quando for trabalhar gato, você vem e pega essa recolota, né? Agora não vou mexer outro não, né? Pensa, hein? Pois é.
00:54:00 P/1 - Então o medo era da responsabilidade, né?
00:54:02 R - Era da responsabilidade que a gente tinha que ter, né?
00:54:05 P/1 - E não tinha medo, assim, da travessia, de nada?
00:54:09 R - Não, era perigoso. Às vezes morre, né? Mas se acontecer, todo mundo sabe por que tinha que acontecer, né?
00:54:17 P/1 - Mas morria?
00:54:19 R - Às vezes morre. Às vezes cai muito ar de um ou outro. Não morre bastante, mas morre, né?
00:54:25 P/1 - E o senhor já viu acontecer?
00:54:27 R - Já, já. Muitos, né? Confundou o laço. Aí tu tava, parecia lá, dava coice, né? Tudo isso assim.
00:54:38 P/1 - Mas era o gado que morreu, ou os peões?
00:54:41 R - Não, peão não.
00:54:42 P/1 - Peão não?
00:54:43 R - Não, não. Eu, graças a Deus, nunca vi peão assim acontecer. Eu já vi cavalo morrer afogado com traia, né? Agora, já vi. que iam afogando até junto com nós, assim, mas socorridos, porque a água, não sei o que tem, assusta a pessoa, quem não sabe nadar, assim que é. Ué, com nós mesmo aconteceu uma coisa, porque em 74, que nós estávamos lá, que ele estava ainda lá, o meu patrão tinha duas fazendas, que essa que está abandonada, a outra que agora os herdeiros venderam, Ele não teve prejuízo grande nessa época, porque ele teve essa outra lá, né? Chegou aquela água de repente, assim, o campo era pelado, você não notava onde que era, sabia que aqui era buraco, se aqui não era, porque a água fica tudo parelho, né? E lá tinha uma vazão de fundo, a gente ia mudando lugar, levando pra outro lugar, dois dias de viagem pra chegar na outra, né? Aí o fulano que estava na frente, e eu não estava sabendo que o companheiro que estava com nós não sabia nadar. E você vê que todas as coisas para a gente é novidade. O povo é curioso, né? Tem umas coisas diferentes e essas que tem que usar também. Então, aí, nós levando o gado para lá, E um cara na frente que perguntou, vai por aí para onde nós vamos mesmo? Falei, aí mesmo, né? Era uma vazana, na época era seca, né? Então vamos. E aquele gado quando chega já vai, né? Chegou a tropa na frente, chegou o cavalo, pegou um bolapé, falo, falo, falo. Ele tá mais prático também, caiu para o outro lado. Aí vai outro companheiro nosso, tirou a mala, Jogou no ombro e enfiou o cavalo, mas sem prática de mexer na água, né? O cavalo quando foi pegar a bola a pé assim, ele enfiou o arredo e o cavalo virou de costa. E o de costa ele pra cá, o cavalo pra cá. Ah, quando eu vi aquilo, eu tava... saiu nos começos aquelas botas de borracha que ainda tem até hoje, né? Tava com uma e já tava com água, foi difícil pra sair. E o que estava devagar custou a devagar, se não devagar custou a devagar e ele começava a... Mas a água limpa com a onda do gado foi jogando ele no... na beirada, assim, com aquela onda. Aí de lá veio outro companheiro de lá. Falei, não, larga dele, ele já está no rato, assim, toma um acerco o gado lá pra nós. Aí quando falei assim, ele ficou de pé, afogando com água bem na cintura. Todas essas coisas acontecem.
00:58:00 P/1 - Senhor Benedito, e como era o rio naquela época?
00:58:04 R - O rio?
00:58:05 P/1 - É. Era cristalina, água?
00:58:09 R - Ah, não. Cristalina, é. O rio de água mais sujo que eu via nessa época foi esse Tacuari, porque ele corria muito e era enorme, então aquela coisa fazia assim.
00:58:22 P/1 - Mas aqui, o Rio Paraguai, o senhor andava também ou não?
00:58:26 R - Não, não. Eu não sou de barco assim, né?
00:58:29 P/1 - É porque é muito fundo, né?
00:58:30 R - Não, mas eu atravesso a casa do mesmo jeito.
00:58:33 P/1 - É?
00:58:34 R - É, nada.
00:58:36 P/1 - E como é que era? O senhor acha que naquela época a chuva era mais forte ou é a mesma coisa que hoje?
00:58:44 R - Olha, ele, se parar pra pensar, ele já teve dois ciclos, né? Se vê. que aí nesse Pantanal, pra nós, lá onde comecei, que cheguei lá, em 64, que cheguei lá, a água chegou numa vazando, foi, foi, foi, foi, foi, foi até um pouco. Aí não foi mais. 65, mais um pouco. 66, já bem menos. 1967, nada mais. Aí foi só seco, seco. Você não tem ideia do que a gente passou pra dar sorte que, conforme eu falei, aqui é arenoso. A gente, pra fazer água pra dar apogado, camucado no pá coração, né? gado que tinha, que era de um gado separado, que era de boi, e não podia abrir tudo porque ficava muito. Ficou uma baía bem em frente à fazenda, lá perto, que se chama até Baía da Alegria, ninguém nunca viu essa baía secar. E... E essa baía secou. E é isso que eu tô falando. Esse meu patrão era coisa assim, mas ele gostava de... Porque se ele pudesse economizar, ele economizava. Mas isso era bom, não era? Faz bem, não faz? Pois é, tem gente que acha que não pode, mas se ficar lá para pensar, faz bem, né? Ah, eu não vou mentir essas coisas, né? Nós ficávamos lutando o que se fazia. Água no parque de oração, tempo e tal, tal, tal. Mas daí o filho dele já... Mais coisa? Não, não meteu a cara, não. Não pode, tinha um filho só. Ainda era... morreu triste, coitado. Ele, né? Mas sorte de cada um, né? É... que ele conseguiu mandar o poço, mandar fazer poço, né? Nessa baía onde ele passou de avião por lá, falou com o pai, disse, ó lá, seu cavalo tá ao seu lado lá na baía. Vamos lá tirar ele, era... Só barro, não tinha mais água, ele entrou lá, não aguentou, saiu e atolou, que atolava demais lá de Pantanal, né? Esse lugar, assim, quando ia secando, atolava. Você vê, tudo isso. Como que agente? Lá, tinha quatro companheiros, eram cinco comigo. Ficava acampado lá no campo, cavucando pra fazer água pro gado, né? E eu que ficava na fazenda pra tirar leite, E de manhã, levava um cavalo puxado pra de tarde, um de lá sair comigo pra ir ver. Gado que atolava muito nesse lugar, que secava, né? Que não tava mole, entrava lá e não saía. Às vezes, quanto mais pesado, era pior, porque ele ia brigando quando tava aparecendo só a cabeça dele.
01:02:12 P/1 - E quando, depois dos anos 70 que secou tudo, teve outras secas?
01:02:20 R - Não, teve agora, mas pra lá. Mas é onde veio esse acionamento que o rio deu uma coisa e não secou mais. Permanece aí.
01:02:30 P/1 - O que que aconteceu pro rio não secar mais?
01:02:34 R - Esse pantano aí eu não sei, porque teve uma boca que entortou pra lá que a água saiu aqui no Rio Paraguai. Só que agora tá ocorrendo o Rio Tracuari novamente. Portanto, que lá nesse, eu tô falando pra você, lá nesse Porto Orlão até eu moramo lá cinco anos. Eu, depois que saí de lá, arrendei lá, aluguei lá, né? Fiquei lá. Seco de uma vez a leão, né? Porque lá, nessa época da Xê, lá era uma mina de dinheiro. Todo mundo tinha que passar por ali pra se passar aqui, né? Esse Sebastião Rolão, que era de lá, até a minha nora tem contato com ela, que é a mulher do major coronel Rabelo, né? Seus pais, Damárcia Rolão. Ele enriqueceu lá.
01:03:30 P/1 - Onde que ficava o lugar que o senhor trabalhava?
01:03:34 R - Pra lá? Lá no Paiaguas? Zona do Paiaguas.
01:03:39 P/1 - É Corumbá, só que é mais longe, né?
01:03:44 R - É, não. O município aqui é de Corumbá, né?
01:03:46 P/1 - É.
01:03:47 R - Porque tanto a Nicolândia como o Paiaguas.
01:03:49 P/1 - Tudo é... Tudo é Corumbá.
01:03:52 R - Corumbá, né?
01:03:52 P/1 - Mas é longe pra chegar, né?
01:03:55 R - Ah, longe, né?
01:03:56 P/1 - Quanto tempo que demora pra chegar?
01:03:59 R - Olha, assim, vamos falar assim, porque as coisas mudou tudo, modificou. Por exemplo, pra cá, Agora lá onde a gente mora, onde a gente morava, por aqui não tem condição nem de você ir mais. Nem quando secar as águas, como agora pra lá tá cheio, né? Tem que ir lá pro Cuxim, pra de Cuxim vir pra cá, né? Mas antes não. Atravessava no Porto Rolão, entourava e ia embora pra lá, né?
01:04:26 P/1 - De carro?
01:04:27 R - É.
01:04:28 P/1 - É?
01:04:28 R - Uhum.
01:04:29 P/1 - E agora não tem como mais?
01:04:30 R - Ah, não tem.
01:04:31 P/1 - Só de rio?
01:04:34 R - Hã?
01:04:34 P/1 - Só de rio? De barco ou não?
01:04:36 R - Não, pode ter carro que ainda seca, né?
01:04:38 P/1 - Mas é longe.
01:04:40 R - É longe, mas tem que ir lá em Cuxim pra descer.
01:04:43 P/1 - Entendi.
01:04:44 R - Porque lá onde a gente tava ultimamente, que saiu daí da sede, lá onde a gente começou, a gente pegava carga era lá na beira do rio São Lourenço. Mas já tava tudo moderno, já não tinha mais nem carro de boi lá na fazenda, até o carro de boi de lá acabou. É só de trator que a gente ia pegar as coisas na beira do rio lá, né?
01:05:09 P/1 - E como é que foi acontecendo essas mudanças? Foi devagarzinho? Do carro de boi pro trator ou foi muito rápido?
01:05:18 R - Olha, eu acho que foi rápido, né? Que esse homem que eu tava falando, repetindo um pouco pra trás, que eu falei, esse foi o último que ainda ficou com o carro de boi. Ele era daquele... Porque não tem aquelas pessoas que ele pensa, tem que ser o que ele pensa, né? Tem gente que acha que até depois de morto ele manda.
01:05:43 P/1 - É teimoso, né?
01:05:44 R - É teimoso. Ele falava que carro de boi, cachorro, vaca de leite, galo, pra cantar na fazenda dele, podia acabar tudo arrumado. Nem nós, né? Não acabava, né?
01:06:02 P/1 - E como é que foi aprender a mexer no trator, dirigir trator? Foi tranquilo?
01:06:08 R - Olha, a gente, a pior das coisas, não foi difícil não, né? Você vê, eu, a única coisa, por exemplo, eu... Teve o caminhonete, eu dirijo o caminhonete, mas não consegui tirar a carteira, né? E a minha mulher tirou a carteira dela.
01:06:27 P/1 - E, Mico, agora eu quero saber outra coisa do senhor. Eu quero saber como o senhor conheceu a dona Sebastiana.
01:06:36 R - A dona Sebastiana? Tu sabe da longa história, né?
01:06:40 P/1 - Eu quero ouvir!
01:06:42 R - Cadê ela pra nós contarmos juntos? Mas foi o seguinte, a gente começou assim... A mãe dela trabalhou muito tempo lá na fazenda, né? Então, ela estudava aqui nas férias e ia lá, e a gente se conheceu assim.
01:07:04 P/1 - Quantos anos o senhor tinha?
01:07:07 R - Quando eu conheci ela, vamos dizer? Eu acho que tinha 22 anos. Eu sei que nós namoramos sete anos.
01:07:20 P/1 - Estava enrolando ela?
01:07:22 R - Não, eu acho que era que estava me enrolando. Não. Toda coisa a gente pensava que tinha que dar um tempo, né? Pois é. Aí só que aí, depois disso, a gente ficou noiva. Só uns três meses que casamos, né?
01:07:38 P/1 - E como é que foi começar a vida de casado?
R - Ah, tudo foi ótimo, né? Foi um pouco difícil e tal, assim, mas isso tudo faz parte, né? Você vê que nós casamos. O pior é o seguinte, que todo mundo achava que esse casamento ia acontecer pelo seguinte, porque ela quase de cidade. E eu só de lá, né? Como que a gente ia casar de novo, ela aqui e eu lá, né? Tem que estar juntos. E foi assim. Aí deu certo, ela foi pra lá, né? Deu certo.
01:08:20 P/1 - E ela foi morar lá com o senhor?
R - Foi morar lá.
01:08:23 P/1 - E se adaptou?
01:08:24 R - Bem, graças a Deus, né? Que até hoje a gente ainda acha muita falta de tanta coisa, né? Que a gente fazia, que fez, né? Deixou, né? Só que no começo não foi muito fácil, pelo seguinte. Nós moramos, faz cinco anos, num quartinho de tábua, assim. Não tinha banheiro perto. Porque na época de... Quando a gente casou, a gente ganhava muito presente, né? Fez convite, tinha tudo de... Foi muito presente mesmo.
01:09:07 P/1 - Teve festa?
R - Não.
01:09:09 P/1 - Não.
R - Não, não. Não teve festa. Aí... E todas as nossas coisas, fiz batilheira guardada em volta. Aí depois disso que... O meu patrão não queria que a gente saísse de perto da sede, né? E que fez a nossa casa mais perto, uns 80 metros longe da sede, aí que fez a nossa casa lá, né?
01:09:33 P/1 - E daí era de... como que era a casa?
01:09:37 R - Não, já fiz casa boa daí, né?
01:09:39 P/1 - Ah, é?
01:09:39 R - É, de zinco e tábua, né? Cobertura de zinco, parede de tábua. Piso cimentado, né? Assim que era.
01:09:48 P/1 - E quantos filhos o senhor teve com ela?
01:09:51 R - Dois.
01:09:52 P/1 - Dois?
01:09:53 R - É. O mais velho que faleceu, conforme falei, faleceu com 23 anos, né? Que teve essa doença de estrofia muscular progressiva, né? Que esse daí, a gente notou, e super inteligente, como que eu era inteligente, meu filho? Graças a Deus, os dois, né? É... Foi descobrir a doença, então ela que era a portadora da doença. Ela. E aí, quando foi descobrir? Então. Hoje está tudo moderno, mas acho que até hoje não tem o que fazer. Mas ele estudou. Quando descobriu, se for até o Ara Medicinar, tem coisa. ele parece que estava com... não, não tinha 9 anos, certo? Quando descobriu a doença, aí o médico falou, ainda falou para nós que 10 anos ele ainda ia andar. Caia, levantava e continuava andando. E aconteceu que até voltou um pouquinho para trás. Quando descobriu. Aí, quando descobriu a doença, né? Aí aconteceu dela engravidar desse... do Bruno, né?
01:11:39 P/1 - Como era o nome do mais velho?
01:11:41 R - Sebastião Victor.
01:11:43 P/1 - Sebastião.
01:11:44 R - Sebastião. Aí... Quando ele fez 10 anos, nós fizemos uma festa bem... Aí não ligaram. Uma festa toda mesmo. Bem... Acho que até foi naquela época que ela estava olhando, que foi. Quando o Eça estava lá, não sei quantos anos. Grande, né? A festa. Esse, o Bruno, estava com um aninho, né? Porque isso aconteceu, porque ele já não era mais para... Tinha o mesmo risco. porque ela entrou quase em depressão na época, né? Porque a criança, né, que você sabe, cai à toa, qualquer tombe que caía, já vinha aquilo na cabeça. Lá os médicos falaram que ela era a portadora. Se ela estava grávida, se fosse uma menina, não ia ter nada. Ela ia ser só a portadora, igual a ela, né? Mas se fosse o... Um homem como eu, Bruno, tinha 90% de ter nenhum risco do outro. Aí, quando chegou lá, que ela estava grávida, que falaram tudo isso, perguntaram para nós, para eles, para nós. Não sei nem, não lembro de falar, mas por conta de mim, né? Tirasse e deixasse se fosse homem. Aí nós falamos, não, nós cuidar de um, cuidar de dois, né? Não vai dar pra nós, não vai dar pra ninguém, né, os outros cuidarem. Mas, graças a Deus, por tudo isso que nós passamos, toda a vida eu tive o poder de pagar uma pessoa pra cuidar do meu filho, um rapaz, né? Ele estudou até na última, ele tem direito, curso pra direito, Ele era superinteligente, né? Pois é.
01:13:46 P/1 - E como foi se tornar pai?
01:13:49 R - Como?
01:13:49 P/1 - Como foi virar pai?
01:13:52 R - Virar pai?
01:13:53 P/1 - É, o senhor, como foi o senhor virar pai e ter dois filhos?
01:13:58 R - Muito bom, né? Trai muito mais união pra gente, né? Sim. Pois é.
01:14:05 P/1 - E o senhor tem netos?
01:14:08 R - Um. Um? Um.
01:14:10 P/1 - Como chama?
01:14:11 R - Sebastião Vitor. Não, eu falei errado. O nome dele é Vitor Rafael.
01:14:18 P/1 - Vitor Rafael.
01:14:20 R - É. Por causa do Bruno, tipo, o nome dele, por causa do irmão, né, o Vitor, do irmão.
01:14:27 P/1 - E me conta como que foi esse momento de decidir sair lá da fazenda e vir pra cá.
01:14:40 R - Lá, tipo, Não, porque venderam, né? Debandou tudo, né? Era... Ficou muito herdeiro, muita gente, né? Toda e tal. Ué, se não sabe da maior, porque... Não lembro mais que ano que foi, eu quase que... Teve até... Como se podia falar um... Teve um estresse que deu-me livre, porque... Quando se cuida de uma coisa, que vem aquele povo tudo diferente, completamente meter nas caras quando fazer não é do jeito como a gente quer, né? Dá um estranho, dá vontade de você chutar o pau da barraca, mas a gente tem aquela coisa de, né?
01:15:24 P/1 - A vida é de um jeito e daí do nada muda, né?
01:15:27 R - Muda, pois é. Que quando os pais dele mudou, quando os pais dele era vívora, né? Que o filho morreu primeiro que o pai, o... morreu de um acidente de avião. Um acidente muito triste que aconteceu. Um avião bateu em cima do outro, caiu no chão, pegou fogo. Estavam dois dentro do avião, ficou dois carvões.
01:16:02 P/1 - E eu estava pensando, Quando, na época do seu patrão, do... Primeiro. É do primeiro, é Pedro?
01:16:16 R - Pedro.
01:16:17 P/1 - Da época do seu Pedro, até passar para o filho, para os herdeiros, o senhor viu uma diferença no cuidado com a terra? No jeito que eles lidavam com aquela terra?
01:16:29 R - Não, eles já foram modificando mais, né? Já foi querendo... Bom, mas tinha hora de estar certo, era para limpar e plantar no pasto, porque foi sujando, né?
01:16:40 P/1 - E qual era o tamanho de lá?
01:16:44 R - Nossa área era 9.500 hectares.
01:16:48 P/1 - E que tamanho que é isso?
01:16:51 R - Poxa vida!
01:16:52 P/1 - É muito grande?
01:16:54 R - É grande.
01:16:55 P/1 - É?
01:16:55 R - É grande. Mas não é demais, né? Aí tem gente que tem 100, 200... Ué! E lá quem comprou... Esse fulano que comprou lá de tarde foi mesmo. Quer ver quantas fazendas que eu tenho ligado lá nele? Tem, quer ver? São Felipe, Santa Lucinha, Conceição, Santo Antoninho, São Ró, São Joaquim. Tá tudo só no... É.
01:17:30 P/1 - E daí o senhor decidiu vir pra cá porque venderam?
01:17:34 R - É. Já tava... Já no tempo também, né?
01:17:38 P/1 - Aí, o senhor já tinha aposentado?
01:17:41 R - Há muito tempo.
01:17:42 P/1 - É?
01:17:43 R - Conforme eu falei, eu aposentei. Porque eu dei de novo. Quando eu cheguei lá pra trabalhar com ele, eu tava com 21 anos. E aí, depois de 10 anos, que parecia obrigatório ter, né? Mas ele assinou dele quando eu cheguei lá. Né?
01:18:07 P/1 - E daí ainda tinha uns 10 anos pra trás, né?
01:18:10 R - Pois é. Mas foi reposto tudo isso. Por isso que eu aposentei. Antes de chegar aos 65 anos.
01:18:17 P/1 - E como é o dia-a-dia do senhor hoje?
01:18:22 R - Olha, o dia-a-dia de hoje é normal, né? Então... Porque eu gosto de mexer com a criação, que é coisa que toda vida eu fiz. Todas as coisas, porque tem muita gente que faz tanta coisa porque é preciso, né? E eu também fazia porque era preciso, mas que eu gosto de mexer. Aí, conforme eu falando pra você, de lá nós viemos aí pro Porto Rolão, né? Fiquei aí cinco anos. Aí daí que eu vim pra cá. Aí nós compramos aqui um sítio, aqui pertinho, aqui no 72, perto aí da quadrada onde você foi, né? Aí me deu alguns problemas, me deu uns problemas no joelho, falta de catilagem, todas as coisas. Gente difícil. Aí então, aí que, pra mim, por causa de parar mais um pouco, andar menos, né? E viemos parar aqui. Estamos por aqui. Que a gente quer vender lá e... né? Vendemos já o trator, vendemos mais vaca de leite que nós tinha, né? Tudo. Mas só que se lembra da saudade, acha falta, né? Só que as coisas pra você vender hoje, assim, o povo quer tomado, né? Mas não pode, né?
01:19:41 P/1 - Tem que pagar, né?
01:19:43 R - Tem que pagar. Pelo menos que a gente já gastou lá, né?
01:19:49 P/1 - E o senhor acha falta?
01:19:51 R - Barbaridade. Não é só eu com uma mulher. É acostumado a mexer com criação, né? Toda vida eu estou com criação.
01:20:04 P/1 - E o senhor gosta de pescar ou não?
01:20:07 R - Olha, pescar, pescar... Eu pesco, mas não sou fã, não sei dizer.
01:20:17 P/1 - Gosta mais de lidar com criação, né?
01:20:21 R - É, com criação. Pois é.
01:20:24 P/1 - E aqui não dá pra ter?
01:20:26 R - Pode ter, mas três galinhas só tem aí. Galo pra cantar, né? Tem o cachorro, né? Tem uma... Mas a gente é acostumado a ver liberdade em todas as coisas, né?
01:20:39 P/1 - E deixa eu te perguntar, na fazenda que o senhor trabalhava, você falou, contou um pouco de como que era lá nas fazendas perto de Poconé, né? E depois, quando você veio pra cá, tinha mata ainda? Mata alta assim ou não?
01:20:54 R - Pra lá?
01:20:55 P/1 - Ali no... Aqui em Corumbá, quando você veio?
01:20:59 R - Não, tem. Lá o Cerrado, porque lá nesse Pantanaio do Paiaguai, aí ninguém não envolve com o Cerrado, sabe? Porque o Cerrado lá é uma terra muito fraca, né? Arenosa, né? Eles estão mexendo onde era largo antigamente, que é a canjequeira, essas coisas, né? O Cerrado aqui no Paiaguai só serve pra você fazer a casa, fazer pista de avião, fazer mangueiro, Tem o pastinho um pouco pra cavalo, né? Porque se mexer lá com o cerrado aqui no Paiagó, você vai fazer careta pro acervo, né?
01:21:39 P/1 - Criação lá não tinha como? Ou tinha?
01:21:43 R - Não, tem. Mas é assim que estão formando aí onde era largo que sujou, né? É a canjequeira, essas coisas tão tirando e botando outro tipo de capim. Isso que é difícil pro povo que entende das coisas não ver isso, né? Acha que tu fala que tá de matar no cabano, mas não é assim. Porque o cerrado lá, pra plantar capim, pra criar, não... não vira, não. É o que o povo faz, é fazer careta pra selo.
01:22:16 P/1 - Não cresce?
01:22:19 R - Cresce, mas não aguenta. Pouco tempo seca, porque o cerrado seca muito, né? A areia fica frouxa tudo, né?
01:22:25 P/1 - Lá é bem seco.
01:22:27 R - O Cerrado é. Onde é Cerrado é seco.
01:22:30 P/1 - E no Paiaguas é seco?
01:22:32 R - Como?
01:22:33 P/1 - No Paiaguas é seco?
01:22:35 R - Essas partes de Cerrado é. Entendi.
01:22:39 P/1 - E o senhor, nessa época que trabalhava lá, tinha queimada, incêndio grande ou não?
01:22:51 R - Muito pouco tinha, mas sempre tinha. Sempre surgiu um incêndio assim e... Pois é, outra é isso. Quando tá seco demais, não pode nem pensar em pôr fogo, porque ele passa direto pra toda parte, né? Você não aguenta não combater com ele, né? Pois é.
01:23:11 P/1 - Mas não teve, assim, um fogo muito alto, né?
01:23:15 R - Teve.
01:23:16 P/1 - Teve?
01:23:16 R - Pareceu um fogo, sem não ser do quê. Pois é, tem gente que não sabe disso, mas... O raio também dá incêndio, né? Dá porque... Sorte que na época era verde, não foi pra frente. Lá mesmo, no São Joaquim, nós fomos numa invernada que não passava ninguém. É uma invernada que nós, trás de ninguém, achamos roda queimada assim. Que foi de raio que pegou, né? Que incendiou, né?
01:23:50 P/1 - Mas o senhor tinha que apagar ou não? Não precisou apagar, né?
01:23:56 R - Não, lá teve umas partes que nós tentamos apagar, né? Porque senão ia destruindo todas as coisas. E aí o prejuízo é grande, porque aí vai derrubando quanto é cerca, tudo, né?
01:24:11 P/1 - E o senhor contou um pouco do seu dia-a-dia. Eu queria saber se o senhor tem um sonho.
01:24:20 R - Não, eu tenho vontade de voltar no Pantanal. Não tinha pra gente, porque a gente tá sem poder muita coisa, mas pelo menos pra ver, sair do limpo, ver tanta coisa, aquela beleza, ver porco correndo pra lá, lealto correndo pra cá, bicho correndo pra cá e tal, né? Dá saudade, né? Ema correndo, né?
01:24:45 P/1 - E o que que é o Pantanal pro senhor?
01:24:49 R - O Pantanal é uma vida, é um lugar muito bom pra sobreviver, né? A gente tem lá uma rocinha, você tem uma banana, tem uma mandioca, tem uma abóbora, tem uma cana, fazer uma rapadura, fazer uma farinha, né? A mulher gosta de fazer nicola, barbaridade, né? Sabe o que que é nicola? É um queijo. É um queijo pré-cozido, né? Ele é assim... Põe o coelho no leite. Coja, coelho, em detalhe. Escorre. Aí guarda a massa. Ela tem que ficar bem empaixada. Aí, pra outro dia você lavar ela com água quente. Não pode ser muito quente. Ela dá liga, assim, bonita que fica. Aí fecha ela. Bem, espera enfriar bem, alisa bem. Põe na farbura 24 horas. Samora, quanto mais forte, melhor, né? Pois é, e o pantané é gozado. Que hoje, desde isso, hoje... Lá, tem algum que não pode fazer. O pantané, até hoje, até coelho você tem que comprar, levar, né? Antigamente, não. O coelho era até lá mesmo. Tirava da vaca quando carneava, né? Sargava e fazia, né? Assim que é.
01:26:18 P/1 - Tirava como?
01:26:20 R - O coelho era da vaca, quando carneava, do boi, quando matava. Porque toda fazenda, acabou a carne, você vai lá puxando, mata e saga, né? Guarda.
01:26:34 P/1 - E você acha que esse tipo de conhecimento, esse jeito de lidar com a terra, ele ainda existe?
01:26:48 R - Ah, não existe mais. Hoje se vê todas as coisas, o povo só fala em motor, motorizado. Manual não tem... Acho que daqui a um dia vão ter que arrumar até uma colher que põe comida na boca, assim, automático, né? Não é possível, mais do que tá. Hoje em dia não tem uma pessoa que, vamos falar, sabe cortar com machado, molar o machado, mafar com... uma ferramenta assim, uma foice, né? Encabar uma foice, né?
01:27:23 P/1 - E todas essas coisas que o senhor aprendeu foi vendo?
01:27:27 R - Foi vendo. Acompanhando, né? É.
01:27:32 P/1 - Foi acompanhando os outros fazendo?
01:27:34 R - É. O dia a dia nosso é isso aí, né? Por exemplo. Hoje em dia, vamos voltar a falar lá hoje, que tudo é nada, é fio. Não tem gente que... Sabe cortar um couro, fazer um maniador, defrorar, pôr na pacotina? Quem fazia isso fala que isso daí é do tempo do antigo, né? Quem fazia isso já morreu, o que tá vivo tá riscando o chão com pauzinho, de velho, né? Mas não, isso é uma coisa que não pode acabar. Pois é, como voltando, vou lá no carro de boi, que é uma coisa mais significante, o transporte, que não tem um prego, né? Só cor e madeira, ferramenta só pra fazer, né? Fazer uma canga, um canzinho bem feito, domar, ensinar um boi, trabalhar assim, né? É a coisa que eu não podia assumir. E conforme eu falar pra você, da piola. Que antigamente que a coisa era difícil, até pra essas cordas, que era pra esse povo mais pobre, pra carnear, ter um couro, uma coisa, que fazia as cordas de piola. Pra lá tem um... uma arvorezinha que nós trata de guanchuma. Aquela dá pra fazer corda. Tira ela sem pinicar a casca dela, só tira o galinho e põe de molho. Dia. Aí lava ela, tira aquela embira dela, é uma corda resistente, né? Tem uma árvore também que tá mamando o vidro também, a casca deles, os brotos, põe na água, tira pras cordas e forte.
01:29:30 P/1 - E na mata, assim, o senhor conhecia as coisas assim, chapa pra isso, chapa praquilo ou num...
01:29:43 R - Vários. Tem várias.
01:29:47 P/1 - Mas era uma coisa que passava de pessoa para pessoa?
01:29:51 R - Ah, exatamente. Exatamente, né? Só que ninguém usa, né? Nós, por exemplo, até depois parou de fazer. A mulher, Sebastiana, fazia muito aquele xarope da casca de jatobá, né? Sabe como que é xarope, né?
01:30:12 P/1 - Como que faz?
01:30:14 R - Cortava ela, casca, punha pra ferver, que é aquele bem forte, aí punha açúcar, purava aquele melado. Ficava aquele melado pra adoçar leite. Ficava bem colorado, né?
01:30:29 P/1 - E servia pra quê?
01:30:31 R - Ele é um fortificante e é bom, né? É gostoso, dá um gosto gostoso, né? Vai ver.
01:30:41 P/1 - E tem alguma história que eu não perguntei que o senhor quer contar?
01:30:46 R - Não, tudo mais ou menos, ok. Então, o que vamos falar? Uma coisa que eu vou te falar. Essa eu não tenho certeza, mas eu ouvi falar. Mas vocês, como são mais formados, sabem mais. Você já viu contar os casos dos índios? Mas eu quero falar o seguinte, eu não sou nada contra a vida dos índios. Mas você não acha que você não vê uma televisão cisíndia por lá morrendo de fome? Faltando o quê? Sabe? O governo começou a dar as coisinhas pra eles. Não dá o suficiente. O que o governo deveria fazer é ensinar eles a plantar, a trabalhar, né? Olha, falar pra você é o seguinte. Se eu for numa mata, num lugar assim, um ano, se eu não tiver as coisas pra me comer... Não dá nem pra você contar muita coisa, mas nós já vamos parar, né? Já cansou de escutar, né? O meu patrão contou. Meu pai dele era um português. Quando pulou aí na beira desse taquari, Ele tinha 17 e a companheira dele tinha 16. Focar e coragem. Deixou fortuna, riqueza pra todo ele. Ele falava que ele lá, a única coisa que ele comprava era sal, trigo e esse Guaraná. Sabe qual que é Guaraná? Derralá? Eu tenho aqui, eu tomo todo dia. Desde criança. O resto tudo era produzido dali, da terra da fazenda. E, depois de um certo pouco, eles tiveram que fazer roça longe, por causa que perto da casa não podia, por causa que tinha que criar um pouco que era pra ter óleo, né? que muito tempo o pai dele contou, já que não alcançou mal, o pai dele contou que ele tinha o porco, aí não tinha nem como derreter a gordura, tinha que sargar o tostinho, né? Na hora de fazer a comida, cortava um pedacinho, fritava pra fazer aquilo. Porque não tinha como, vazia como guardar. Com aquela banha, né? Pois é.
01:33:38 P/1 - Seu Benedito, sabe o que eu queria te perguntar? Quando o senhor passava pelo rio Taquari, como é que ele era?
01:33:46 R - Correntoso. Bárbaro. Viajei muito de lancha aí, né? Só que o povo fala aquilo, mas a natureza, né? Que há muitos anos a gente via que essa coisa ia acontecer, por quê? Se a gente passava assim, ficava olhando, naqueles brejos que tinha aqueles enormes de cerne, de piúva, de gonçalo seco. Quer dizer que lá era uma mata. Porque essas árvores não nascem no brejo, nascem na mata, né? Mas quando o povo não fazia nada, então aconteceu o que aconteceu, né?
01:34:29 P/1 - Foi caindo, né?
01:34:32 R - Foi caindo, pois é. Foi virando assolamento tudo. E um pouco também, que eu falo que aconteceu também, foi os motores, né? Muita onda querendo outro bate e vai desmachando o barranco. Isso foi mais do que todas as coisas. Ninguém não veio falar pra mim que não é que é.
01:34:56 P/1 - E como é que foi contar essa história hoje pra nós? Um pouquinho dessa história hoje pra nós.
01:35:05 R - Como?
01:35:06 P/1 - O que o senhor achou de contar um pouco dessa história?
01:35:10 R - Eu achei que até falei muito, não falei?
01:35:13 P/1 - Falou pouco.
01:35:15 R - Falei bastante.
01:35:18 P/1 - O senhor achou legal?
01:35:21 R - Eu achei, né? Distrai a cabeça da gente, me levantou bastante.
01:35:29 P/1 - E seu Benedito, sabe o que eu ia perguntar pro senhor? O senhor prefere assinar seu nome ou falar que você libera pelo vídeo?
01:35:41 R - Como você acha que eu devo fazer melhor?
01:35:43 P/1 - O que você prefere?
01:35:45 R - Eu não fiz isso aí. Eu não sou bom de caneta mesmo.
01:35:50 P/1 - Tudo bem, então. Eu só queria que você falasse assim. Eu, Benedito, seu nome completo, autorizo esse vídeo.
01:36:00 R - Já posso começar?
01:36:02 P/1 - Pode.
01:36:03 R - Eu, Benedito Valeriano de Arruda, autorizo a esse vídeo.
01:36:12 P/1 - O uso da minha imagem pelo Museu da Pessoa.
01:36:16 R - O uso da minha imagem.
01:36:18 P/1 - Pelo museu da pessoa.
01:36:19 R - Pela museu da pessoa.
01:36:21 P/1 - Muito obrigada, seu Benedito. Foi muito bonito assistir.
01:36:26 R - Será?
01:36:26 P/1 - Lógico que foi! Olha o que é que...
01:36:29 R - Eu não ia contar mais coisa.
01:36:31 P/1 - Você quer contar mais?
01:36:32 R - Não, não. Mas vamos parar, você já está enjoado.
P/1 - Eu não estou enjoada nada (risos).
R - Não, eu ia contar demais coisas que eu já vi das pessoas arrogantes.
(01:36:43) P/1 - Pode contar.
R - Pode?
P/1 - Pode.
R - Portanto, até de um cidadão que ele era comprador de boi aqui na região. Esse era um cidadão que pion faz roda assim, sabe como que é pion, né? Conversa e tal. Esse cidadão descia de avião, passava por aqui por meio de tudo, não olhava nem pra cara de ninguém, né? Era o rei da história, ele. Contar um pouco, e já vou parar só nisso. um cidadão amigo nosso, que eu tenho bastante amigo de patrão, como que é as coisas todas, graças a Deus, várias. Tem gente que não sabe, que não tem, assim, esse conhecimento. Que até, que a gente conversando, de vários acontecimentos que já aconteceram, faz uns quatro anos, mais até. Filhos do meu patrão, veio a fama em Campo Grande, que foram mostrar a fazenda pra um cara de fora pra ir comprar, né, que não deu certo. E aí, então, a gente conversando dessas coisas, assim, lembrando dos paulistas que vinham de lá, de lá de Araratuba, que era o mais que vinha aqui. Onde saiu de um... lembrou de um nome assim, falei, não tá? De Eulipe de Carvalho, né? Falava fino, era brabo, mas era bom de laço e tal, não sei o quê. De uma vez, ele sequestrou um cara lá, porque comprou um gado dele e tava negando pra pagar, né? Sequestrou. Aí ele falou assim pra mim. E você sabe quem que foi o cara que foi lá com... Falar com o Delipe? Foi eu. O nome dele chama até de Sonaor, né? Aí daquilo, gente conversando e tal, fulano comprava gado aqui e tal, e tal. Aí tem um povo que é muito rico, que tem uma fazenda aqui desse povo maia, lembrando, referindo ele. E ele, tão metido que ele era, podia ser a fazenda que fosse. Ele dormia na fazenda só, no hotel, na cidade. Ele foi lá nessa fazenda, pista molhada, ruim que tava, esse é fulano, abriu o tanque de gasolina do avião pra derramar, pra ficar leve, pra sair, se não, não sair. O cara falou, ó, vamos fazer isso, vamos guardar, parada, porra, que derrama, que derrama, derramou. Tá. Aí, Por acaso, falei, perguntei pra ele, falei assim, fulano, tô mais sumido aqui, comprava gado pra toda parte boa e aqui tá. Ele falou, você fala uma coisa, Benedito. Ontem encontrei com ele, me pediu 30 reais emprestado. Você viu como não pode? Não pode, Pedro. Como que é as coisas? E voltando a falar um pouco desse fulano, um amigo meu, que eu estava com um ano e pouco que ele faleceu. Trabalhava igual a gente, então ele ia lá pra Mato Grosso, trabalhava nessa firma da LS, o povo comprava muito gado, né? Também foram muito bons os patrões, né? E, conforme eu estou falando pra você, que não tinha comunicação, era difícil, né? E ele só ficava por lá de lá, puxando um gado até na beira do rio, comprava, trazia. E esse fulano foi com esses povos, uns povos ricos, como que era o sobrenome dele? Aguiar. Lá de São Paulo. Comprava muito gado. O gado que ele tinha combinado lá para comprar. E aí ele viu, sabia, os familiares dele tudo aqui, perto da fazenda desse fulano que ficou pobre, que falam que da cestinha de bolo, né? Foi. Só que esses aguiar também, gente, era rico, mas gente de compreensão, né? Ele chegou lá, tudo sujo, burrinho, de viagem, magrinho e tal, veio querendo conversar. Aí eu perguntei o que é, moço. Ele falou, moço, eu quero falar com ele. Aí eu falei, ô, fulano, ele quer falar com você. Ele respirou, o que vocês querem? Não, que eu moro lá perto de casa, ver se não tem notícia lá da minha pessoa. Não sei, faz tempo que eu não vou pra aquele lado, não sei. Ele ficou sem raça, foi embora, não sabe. O povo me falando pra você, que o povo, esse povo deu a oportunidade que destraviando dinheiro, lágua de mão. Mas ele ficou com aquilo. Com esse fulano, Deus ajudou ele, que Deus ajuda tudo que anda de boa fé, né? Melhorou, melhorou.
R - Vendeu um gado, tava com dinheiro na caixa, bom dinheiro. Aí, Ele sobe, ah, fulano, apareceu um negócio aí pra nós e tal. Ainda ali mexia com a mulher dele. Você me arruma aí, eu vou comprar no evento e vamos partir o louco. Aí disse que ele foi lá dentro e falou com a mulher. Aí a mulher falou, arruma pra ele, fulano. Aí ele arrumou. Sabe quanto que ele devolveu, quanto que ele pagou ele? Nunca morreu, nunca. Você já pensou como que é esse mundo? Isso que eu falei, eu já vi um pouco de cada coisa nessa minha vida, prestando atenção na coisa. E assim, e assim, muitos outros. E tem umas coisas que eu não tenho explicação. Eu conheci também uma pessoa tão boa, bom, mas não sei o que tinha nele que acreditava em tudo. No fim... Olha, tinha até casa na praia. Avião. Tinha tudo, tudo o que você pensava. No fim da vida dele eu pedi pra ser praieiro lá da fazenda onde eu estava. Não tem explicação. Mas então, por hoje chega. Senão você vai passar da hora de almoço e não termina hoje, porque meu assunto não tem fim.
(01:43:28) P/1 - Muito obrigada, Sr. Benedito.
R - Obrigado, senhora.
[Fim da Entrevista]
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