Entrevista de Felipe Santiago, Mestre Felipe de Santo Amaro,
Entrevistado por (P/1) Jonas Samaúma,
Gravado por (P/2) Eder Novaes,
Santo Amaro, 5 de Julho de 2024,
Entrevista n.º: PCSH_HV1403
P/1- Mestre Felipe, muito obrigado por contar a sua entrevista e ia falar pra você se quiser começar com uma ladainha? Começar com uma ladainha? Pra gente começar?
P/1- Pode ser?
{ Ladainha}
R- Salve Deus e salve a pátria, salve todo o redentor
Salve Deus e salve a pátria, salve todo o redentor
Andem salvo os angoleiros que estão neste setor
O mundo de Deus é grande, ele mesmo quem criou
Nós vivemos em cima dele, ora meu Deus, mas não damos o valor.
Também chamo por São Pedro, que é o chaveiro do céu.
São Jerome é o escrivão, e quem pede é São Miguel.
Todos três rogando a Deus.
Com a sua grande fé
Que me livre dessas cobras, meu Deus, para não morder meu pé.
Iêêêêêêêêê
Viva meu mestre
Iêêêêêêêêê
Viva meu mestre
Iêêêêêêêêê
Iêêêêêêêêê, quem me ensinou?
Iêêêêêêêêê, quem me ensinou, camarada?
Iêêêêêêêêê, a capoeira.
Iêêêêêêêêê, a capoeira, camarada.
Iêêêêêêêêê, a malandrade.
Iêêêêêêêêê, a malandrade, camarada.
Iêêêêêêêêê, sagacidade.
Iêêêêêêêêê, sagacidade.
Camarada, viva a todos os mestres.
Viva a todos os mestres, camarada.
P/1- Muito agradecido mestre.
P/1- Essa ladainha, você fez quando? Qual é a história dessa ladainha?
R- Essa ladainha foi das primeiras músicas que eu vi, quando eu comecei a fazer música, essa ladainha foi das primeiras. Então, eu tenho ela assim como o hino da minha cantoria.
R- Aí... o povo gosta muito, na festa de Sabiá mesmo. Sabiá pediu pra... O que eu fui fazer foi quem fez a abertura da festa. Então, ele pediu pra eu cantar essa música.
R- E eu cantei e foi bem aplaudida.
R- Na festa de... Máximo, também, cantei ela também, na festa desse menino de Salvador, eu esqueci o nome dele, porque...
Continuar leituraEntrevista de Felipe Santiago, Mestre Felipe de Santo Amaro,
Entrevistado por (P/1) Jonas Samaúma,
Gravado por (P/2) Eder Novaes,
Santo Amaro, 5 de Julho de 2024,
Entrevista n.º: PCSH_HV1403
P/1- Mestre Felipe, muito obrigado por contar a sua entrevista e ia falar pra você se quiser começar com uma ladainha? Começar com uma ladainha? Pra gente começar?
P/1- Pode ser?
{ Ladainha}
R- Salve Deus e salve a pátria, salve todo o redentor
Salve Deus e salve a pátria, salve todo o redentor
Andem salvo os angoleiros que estão neste setor
O mundo de Deus é grande, ele mesmo quem criou
Nós vivemos em cima dele, ora meu Deus, mas não damos o valor.
Também chamo por São Pedro, que é o chaveiro do céu.
São Jerome é o escrivão, e quem pede é São Miguel.
Todos três rogando a Deus.
Com a sua grande fé
Que me livre dessas cobras, meu Deus, para não morder meu pé.
Iêêêêêêêêê
Viva meu mestre
Iêêêêêêêêê
Viva meu mestre
Iêêêêêêêêê
Iêêêêêêêêê, quem me ensinou?
Iêêêêêêêêê, quem me ensinou, camarada?
Iêêêêêêêêê, a capoeira.
Iêêêêêêêêê, a capoeira, camarada.
Iêêêêêêêêê, a malandrade.
Iêêêêêêêêê, a malandrade, camarada.
Iêêêêêêêêê, sagacidade.
Iêêêêêêêêê, sagacidade.
Camarada, viva a todos os mestres.
Viva a todos os mestres, camarada.
P/1- Muito agradecido mestre.
P/1- Essa ladainha, você fez quando? Qual é a história dessa ladainha?
R- Essa ladainha foi das primeiras músicas que eu vi, quando eu comecei a fazer música, essa ladainha foi das primeiras. Então, eu tenho ela assim como o hino da minha cantoria.
R- Aí... o povo gosta muito, na festa de Sabiá mesmo. Sabiá pediu pra... O que eu fui fazer foi quem fez a abertura da festa. Então, ele pediu pra eu cantar essa música.
R- E eu cantei e foi bem aplaudida.
R- Na festa de... Máximo, também, cantei ela também, na festa desse menino de Salvador, eu esqueci o nome dele, porque ele deu a festa também lá.
R- Também cantei ela, a pedido também. E tem outras, outras...
P/1- O que te inspirou a fazer ela? O que que aconteceu na sua vida que você foi e escreveu ela, fez ela?
R- Ah, fiquei... Pensei assim, de fazer uma música, pra entrar salvando o pessoal. Ele salve Deus, ele salva a pátria, ele salva tudo e redentor, que ele salvou... E aí eu fui procurando a... A... A comunidade adequada e aí fui escrevendo, escrevendo.
P/1- Mestre, o senhor podia... Você sabe como foi a história do seu nascimento? A história de como o senhor nasceu?
R- A história de quando eu nasci?
P/1- É.
P/1- Sua mãe te contou como foi que você nasceu, onde você nasceu, como que...
R- Menino... Como eu nasci, eu não tenho assim a história.
R- Agora, eu nasci em um bairro que se chama Pilar, aqui…. quando você passa aqui, tem umas casas, umas barracas, um bocado de barracas. Aquele trecho ali, na parte de baixo, ali. R- E ali já pertence o Pilar.
R- Nasci, me criei. Ali viviam até um certo tempo.
R- Depois que meu pai morreu, aí foi que eu me separei um pouco da família, mas foi tudo aí do Pilar.
P/1- E do seu... O que você lembra, assim, da sua infância, assim, de você criança? Como era a sua infância? O que você lembra, assim, de quando você era bem criança mesmo?
R- Minha infância...
R- Uma infância que ainda não tinha muita estrutura. Meu pai era uma criação severa, tinha sempre aquela educação em cima do respeito.
R- Que a gente tinha.
R- Então... Tínhamos respeito enorme às pessoas, às pessoas antigas, principalmente se a gente tivesse fazendo uma coisa na rua, assim, e um idoso, ou conhecido ou não conhecido, diz meus pais, e reclamasse com a gente, ó menino, você tá fazendo isso, rapaz? Você tem que brigar, bater do outro. Se o outro é menor do que você, você quer bater, essas coisas.
R- Digamos assim, né? Aí, a gente tinha que baixar a cabeça e _____ . _______ agora, se a pessoa falar isso, você é meu pai? Sempre assim, ela é aquela criação severa mesmo.
R- Então… Depois que... Minha mãe morreu primeiro. Com... Um ano. Dois anos depois, meu pai morreu também.
R- Aí...
R- Aos quinze anos, de quinze pra dezesseis anos, meu pai morreu.
R- Aí pronto.
R- Meus irmãos, eram sete irmãos. Vivo que tinha.
R- Ao todos, foram 18 com a barriga de gêmeos, fazia 20. Mas aí de gêmeos morreram, nasceu e morreu. Mas aí foram morrendo, foram morrendo, então ficaram sete vivos.
R- Quatro homens e três mulheres.
R- Os homens já foram procurando seu destino, procurando família e tal, as mulheres também. Aí eu levei uns tempos sozinho dentro da casa, lá depois eu... Já aos 20, 21 anos, 22 anos aí. Eu arrumei uma crioula aí, a gente se ajuntou, e aí foi que eu saí do Pilar.
R- E aí, fui tocando a minha vida.
R- Aí eu comecei com 15, 16 anos, já comecei entrando na farra com os colegas. Eles eram mais velhos do que eu, mas eu me comportava bem no meio deles.
R- Era farra, era samba de roda. Naquela época que se dava caruru,________ . Sabe o que é? O povo dava e convidava a gente pra fazer samba de roda. A gente tinha um conjuntozinho de corda e couro, cavaquinho, violão.
R- Marcação, repique.
R- E aí, a gente ia tocando.
P/1- E o senhor tocava no samba de roda também?
R- Tocava. Tocava repique. Aí veio quando não tinha a marcação. A marcação de quem tocasse o surdo . Eu pegava e fazia uma marcaçãozinha.
R- Na época tinha carnaval aqui, e tinha uns cinco ou seis clubes. E eu saía em um deles, junto com a turma.
R- Com 18 Anos eu comecei a capoeira.
R- O sinal era que eu comecei em garoto.
R- E desde garoto que eu era fanático pela capoeira. E tinha, ouviu falar no velho Popó? O Popó do Maculelê, ele era capo Maculelê e capoeira, muita capoeira, das antigas mesmo.
R- E a rua que ele morava, aqui na Rua da Linha, era uma rua estreita, ali, e ele treinava os meninos ali mesmo.
R- Naquela época não tinha academia aqui. Treinava os meninos ali.
R- Eu passava, meu pai mandava eu ir na rua, na volta eu passava e ficava olhando. Me chamava, vinha neguinho.
R- O seu pai não briga? não briga não. Todo tímido, todo, vergonhoso.
R- Aí ficou.
R- Aos 18 anos eu comecei, um cidadão, morava em um bairro próximo a mim, que era a ilha. Fica aqui, pilar aqui, a ilha fica aqui mais perto. E aí tinha um pé de mangueira lá no pilar. E a gente sempre ficava ali embaixo, a turma dele, dia de domingo, sentava ali para fazer uma seresta, bater um violão.
R- E às vezes a gente ficava, eu, ele e outro colega. Ali nessa mangueira. E aí ele começava cantando cantigas de capoeira, batendo na mão. Aí ele começou treinando a gente.
R- Era muita capoeira, ele.
R- Angoleiro, ele era de baixinho, mas... Pegava, dava um treino com um, aí revezava. Aquele que saía da roda ia cantar, bater palma, o outro ia treinar.
R- Depois de um treino bom, mesmo que a gente dê, a festa dessa é 13 de maio, aí eu tô olhando a capoeira, ele estava na roda e me chamou para a roda.
R- Aí eu fiz o sinal negativo, ele aí deu risada e aí eu continuo jogando e depois correu a roda.
R- Quando foi passando, fez pausa para o adversário, pegou no meu braço e arrastou.
R- Arrastou.
R- Falou, se cubra. Quando ele disse, se cubra, o rabo de arraia já vinha acompanhando as ________ dele. Ele me abaixou. Quando fui levantando, segundo, abaixei. No terceiro, já veio mais baixo e mais rápido. Aí eu tive que cair na negativa.
R- Aí pronto, o jogo rolou. Eu falei, você está bem, rapaz. Você já brinca em qualquer lugar, mas é vergonha sua. Aí eu comecei. Passado uma meia hora, ele me chamou e já fui por gosto. Aí eu parei porque...
P/1- Quem te chamou? Quem te chamou foi o Popó?
R- Não, não.
R- Esse rapaz que morava aqui, perto do Arlindo, o popó, eu me chamava, mas eu não fui, não, por quê…. com vergonha.
R- Aí eu estava trabalhando em Salvador, só vinha final de semana, aí parei.
R- Com dois anos depois, eu já tava vindo pra casa todos os dias. Aí eu comecei a conviver de popó, o filho desse popó.
R- Comecei com ele e aí fui-me embora. Aí me deixou como capoeirista formado.
P/1- Como é que era o treinamento naquela época, mestre? Como é que eram os treinos?
R- Os treinos? É a mesma coisa, levanto para o pé do berimbau, e faço a saudação e saía na roda jogando, né? Agora, quando eles estavam ensinando, aqueles que estavam ensinando, eles não apelavam sempre àquele jogo. Devagar. E mesmo em festa, que tinha festa no dia de julho, 13 de maio e na festa da purificação. Tinha missa, tinha... Aí tinha a capoeira na praça. Fazia a roda de capoeira. O povo jogava, mas às vezes, assim, saía uma violência, mas não era tão como era antigamente, que contavam, que era brava mesmo.
R- Ainda se via alguma. Mas o jogo era... Legal. Jogava com muito. Tinha capoeirista... No meu tempo, não alcancei mais isso, fazendo isso. Mas tinha capoeirista que jogava com a navalha no dedo do pé. Prendia a navalha no dedo do pé e jogava com ela.
R- Nossa, era muito... muito, muito ______ . O Popó eu via quando ele tava treinando os meninos, nessa época que eu tava garoto, que passava, ficava espiando, eu via.
R- Ele dava um facão a um dos filhos dele ou dos alunos, e mandava, pode bater o facão. Fazia mais com os filhos. Pode bater, velho. Pode dar de pano aí. Como você quiser. Um facão, pá, pá, isso daqui, ali, ali. Depois que ele batia o pé, o facão subia. Na hora que ele batia o pé, o facão subia, dali mesmo o pé ia para os peitos do cara. O cara caía, ele parava o facão, levava e botava lá.
R- Quando era assim, um cacete. O cara tomava aqui, tomava ali, tomava aqui, tomava ali, aqui, aqui. Quando pegava o cacete e tudo, botava no chão. Era muita capoeira mesmo. No decorrer do tempo, a capoeira foi se amassando mais, se educando.
P/1- Naquela época, qual foi a coisa que mais chamava a sua atenção na capoeira? Nessa época, lá atrás, que você via capoeira, bem no começo.
P/1- O que tinha de diferente que hoje não tem? Você contou isso da navalha. Mas o que mais te impressionava na capoeira?
R- O jogo de navalha, eu não cheguei a ver eles jogarem. No meu tempo, quando eu entrei, não já mais, mas... Era um jogo... Eu apreciava e gostava de tudo, porque eu me dedicava muito. Quando eu entrei na capoeira, eu não me exibia.
R- Às vezes eu ia jogar com um que fosse mais velho do que eu no jogo.
R- Eu não me exibia. Às vezes, ele me oferecia golpes, essas coisas e tal. Eu não botava, né? Eu oferecia, mas... às vezes, mandava eu botar o golpe nele, mas eu não gostava de botar o golpe nele. Às vezes, eu oferecia, assim, mas o resto não mais. Gostava que ele me atacasse, pra eu... Me desenvolver, me defender. Pra eu poder preparar bem o meu corpo e... Eu fui levando.
P/1- Eu queria que, mestre, o senhor pudesse contar quem eram os mestres antigos daquela época, quando você começou? Quem eram os mestres mais antigos?
R- Menino, eu já me esqueci do nome dele. Mas o mais antigo mesmo é O Popó, que foi daquela época, mas os outros saíram daqui, mas ele ficou pra Salvador.
R- Popó, o Valdemar, dizem que é filho daqui, mas eu não cheguei a conhecer ele aqui. E a Dendê.
R- Têm uns quatro bons rapazes, que eu perdi o meu nome, que ainda alcancei.
P/1- Mas e mesmo sem o nome, o que o senhor lembra deles, das histórias deles? Você lembra alguma coisa? Conviveu com eles?
R- Não, não tem mais assim na mente.
P/1- O Valdemar você conheceu?
R- O Valdemar, eu não cheguei a conhecer.
P/1- E o mestre Traíra?
R- Traíra também, não conheci, não cheguei a conhecer não. Eu já alcancei, mas não cheguei mesmo. Naquela época eu ainda tava garoto, não tinha o direito de sair pra ir apreciar.
P/1- E o Ferreirinha?
R- O Ferreirinha eu alcancei. A gente ainda fizemos um joguinho bom. Por sinal, foi quem criou... Foi o segundo a criar academia aqui em Santo Amaro.
R- O primeiro foi Amará. E o segundo foi Ferreirinha. Aí me chamava, eu ia lá pra academia dele, dar força. Lá ajudar ele. De mim pra cá foi... Antes de mim, o que eu conheci? O Dendê eu conheci. Era baixinho assim. Mas era o Raio também.
R- Já fiz um joguinho com ele, morava nessa rua aqui. Foi aqui que eu conheci o Teodoro também. Esqueci o nome dele. Trabalhava da Leste também, muita capoeira também. Ele e o filho. Com o filho dele eu ainda fiz um joguinho. Com os outros mais velhos e tudo.
P/1- E como era a sua relação com o seu mestre? O seu mestre era quem mesmo?
R- Era o Vivi de Popó. O filho de Popó. Era muito boa. Era muito boa. Me ensinava legal. Não era... Espancador.
R- Muitos, quando estava ensinando um aluno, aí batia, dizia que estava ensinando bater, era bater jogo. Mas aquilo era... Não era banal. Porque o cara que tá aprendendo, não pode se bater. Você é o mestre. Ele é seu aluno. Tá treinando com você. Ele entrou pra aprender. Porque ele já tá bem desarmado em você aí. Ele vai ficar só correndo, correndo, correndo. E nunca aprende. E fica com medo de se exibir na sua frente.
R- Mas, o jogo era bom, era brilhante.
P/1- Mestre, o senhor… Mas você lembra de alguma coisa que seu mestre falava pra você? Ele falava alguma coisa pra você e te dava conselho? Tinha algum conselho importante que seu mestre dava?
R- Não me lembro de tudo não, mas sempre dava conselho. Apesar que não tinha isso naquela época. Depois da academia, depois que termina a roda, senta todo mundo ali pra bater papo com o mestre e ir. Bater papo com os alunos. Dar o que é bom, tirar o que é ruim. E naquele tempo não tinha, mas apesar do que ele... Depois assim, ele me conversava... Era a idade minha, a mesma idade minha ele. Só que ele aprendeu a capoeira de garoto. Eu quando fui começar, já com 18. E era muita capoeira ele mesmo. E o Popói ensinava mesmo pra valer. Mas alguma coisa assim, você tem que fazer dessa forma.
P/1- Mas teve uma coisa que eu esqueci de perguntar. O senhor chegou a conviver com seus avós, com seu avô, com a sua avó?
R- Não. Conheci... Conheci o avô. Aliás, não cheguei a conhecer meu avô, parte de mãe. Parte de pai, nem se fala. Mas ainda alcancei meu avô, parte de mãe, mas não cheguei a conhecer. Porque ele não morava aqui, morava aí pra fora, aí pra... Numa usina que tem aí, ____________. Morava em... Era a Capanema, que era mais próxima. Que é daqui pra Cachoeira. Mas depois que a capoeira fechou, ele foi para Itapetingui. Mas toda segunda-feira ele vinha fazer feira aqui em Santo Amaro. Então, teve alguns irmãos meus que chegou a conhecer. Minha mãe ia, às vezes ia para a rua e estava aí. Sabia que ele estava aí na feira, se encontrava aí. Apresentava os filhos e tal. Mas... Não fui dado ________.
P/1- A sua família trabalhava com o quê? Trabalhava na roça? O que é que trabalhava a sua família?
R- Hã?
P/1- A sua família trabalhava com o quê?
R- O meu pai trabalhava na sinicata. Tinha a sinicata dos carregadores. Era quem... O açúcar vinha das usinas, chegava aí no pilar. Aí tinha três pontes, assim, pra ter o rio, né? Tinha três pontes. Porque ali embarcava um barco, aqueles veleiros. Vinha, aí atracava ali na ponte. A máquina descia, botava o vagão de açúcar lá embaixo. E aí tinha... O povo do sindicato tirava do... Do vagão e jogava na... Na proa do barco. Agora o pessoal, o povo da estiva, punhava dali e arrumava dentro da lancha. E a estiva trabalhava dentro d'água, na parte d'água, que era... Pertencia à marinha, a estiva.
R- E o sindicato trabalhava em terra. E também tinha o... O Vapu... Vapu _____ das Botas. Que vinha direto de Salvador. Aí... Ficava indo ao Conde. Você conhece esses ______ _______ de baixo? Conhece? Até a caieira? Não. Muito pouco. Pra lá da caíra. Da caíra pra lá era mangue. Agora criou a linha que os bondes iam para pegar o passageiro e as mercadorias. As mercadorias eram o trolho. Mesmo o comprimento do bonde. O bonde para conduzir os pessoal. Era puxada a burro, a duas burros. E o filhote do Popó, aí depois.
P/1- Mestre, como é que era Santo Amaro lá atrás, quando você cresceu? Qual a diferença de Santo Amaro daquela época para Santo Amaro hoje?
R- Santo Amaro... Era uma cidade, era menor, mas era muito animada. Santo Amaro. Tinha pouco trabalho, porque na época existia muita... Era alambique. Que tinha aqui essa casa grande aí mesmo. Quando eu me alcancei, já existia ela aí, já fechada. Então, os mais velhos falavam que aí foi usina, depois passou a ser engenho, e depois passou a ser uma... Uma destilaria de cachaça. Era ela e a outra que tinha de junto, a meleirinha, onde é a garagem de ônibus. A meleirinha, eu ainda trabalhei um pouco na meleirinha. Moía cana e fazia cachaça.
R- Depois, ao invés de ir melhorando, foi piorando, pelo mínimo aqui tinha três fábricas, se fechou. Desempregou muita gente. Tinha a Opalma, a Cobrac e essa daqui que vai pra... Essa aí seguindo pra Cachoeira. Aquela fábrica de papel que tem, depois da pitinga. Então, nessas três fábricas que fechou, desempregou muita gente. Eu trabalhei aqui na meleirinha. Depois, me joguei pra lá, pra baixo, pra Salvador. Depois essa daí abriu, os americanos comprou, abriram uma indústria. Quando eu saí de lá, de Salvador, trabalhar na Sermel, quando eu saí da Sermel, aí entrei, aí trabalhei três anos aí, mais ou menos, quatro. Aí depois saí. Virei, andei aí pelo Norte do Sergipe e... Paraíba. Levei uns seis meses aí por fora. Aí voltei. Tentei me mandar para Salvador de novo. Trabalhar numa empresa também lá no CIA. E dessa daí foi que eu larguei o trabalho. Me aposentei.
P/1-Então, o senhor trabalhava com o quê? Você falou que trabalhava na usina aqui?
R- Trabalhei em duas usinas. Trabalhei na usina Passagem de ajudante. Servente. Depois fui pra Santa Elisa. Quando saí da Passagem fui pra Santa Elisa. Na Santa Elisa, eu estava com 21 ou 22 anos de idade. Na usina, eu entrei como ajudante de caldeireiro. Trabalhei acho que quase um ano ou um ano de ajudante de caldeireiro. E daí fui passando de ajudante de caldeireiro, ajudante de encanador, ajudante de serralheiro, ajudante de soldador, ajudante de eletricista. Aí fui me esbarrar no ferreiro. Trabalhar com o ferreiro, ajudando o ferreiro. Nessa aí foi que eu me especializei. Quando o Mestre saiu, arranjou uma... Numa empresa encostada na Petrobras, aí falou com o mestre, pediu a conta e disse ao mestre, pode deixar o Filipe no meu lugar. Ele fez aquele obstáculo, disse, pode deixar o Filipe no meu lugar, Filipe já é ferreiro. Pode deixar. Aí o mestre deixou. Eu taquei o pau.
P/1- Se especializou como ferreiro. Aí você ficou sendo o mestre do ferreiro.
R- Fui ferreiro, fui. Até quando eu saí daí.
P/1- Até se aposentar?
R- Não. Eu saí de lá. E aí... Quando eu saí da usina, foi quando eu saí da usina, foi que eu trabalhei aqui. Quatro anos. Quando eu saí daí, aí fui lá pra Baixa Sernel, ali no Brasil Gás. Fui para ali. Trabalhei ali, quando voltei, trabalhei numa firma de São Paulo que estava aqui. Aí foi que... Trabalhei uns oito meses aqui, depois ela... Era uma coisa volante, né? A matriz dela era em São Paulo, que era uma empresa de... de energia, né? Instalando energia, puxar daqui pra São Francisco do Conde, São Francisco do Conde para Candeia. Que me falhou agora o termo de explicar. Aí, quando eu saí, levei seis meses por lá, quando eu voltei. Aí foi que eu fui pra essa _______ . Dessa daí foi que trabalhei nove anos, aí quando saí me aposentei.
P/1- O que mais te marcou no seu trabalho mesmo? Tem alguma história que foi marcante pra você no seu trabalho?
R- Não entendi bem.
P/-1 Se teve alguma história, alguma coisa que você viveu importante trabalhando? Algum dia alguma coisa diferente que aconteceu?
R- Não.
39:37
R- Só mesmo em parte de trabalho, mas de outra maneira.
R- Não, porque eu sempre fui uma pessoa amigo, né? Todo mundo gostava de mim. Tanto que, às vezes, os meninos, pra poder fazer uma cerazinha, aí saíam uns dois, três lá no local que eu trabalhava, que era recartilhado.
R- Ia plantar um tempo lá, fazer uma cerazinha. Agora a gente trabalha, né? Porque quando eu cheguei pra lá, aí eu comecei trabalhando, né? Mas eles viram na minha carteira como ajudante de caldeireiro, quando _________ ______ . Foi quando eu entrei logo.
R- Aí trabalhei um tempo, até depois, houve uma obra da Petrobras. Uma peça, tipo um funil. Era dez metros de comprimento. Mas tinha que ser feita em três partes. Então... O chefe geral pegou, fez uma bancada no meio da casa, chapa de uma polegada. Armou o gabarito ali, o caldeireiro, né? O caldeireiro que ia fazer a peça. Armou o gabarito ali, só pra fechar. Pegava a peça, pega a chapa, leva na... Na máquina, pra virar. Virava o... Ficava a caixa. Então ali agora tinha que fechar. Ficava aberto para fechar. O caldeireiro... Trabalhou o chefe geral, vamos dizer, trabalhou o caldeireiro, dois ajudantes, o contramestre e o chefe geral que estava ali contido também.
R- Dava uma saída, coisa mais... Aí, o cara... O meu encarregado saiu de férias. O serviço estava atrasado. Se passasse do prazo, a firma pagava a multa. Então, eles estavam com pressa. Aí, o chefe veio e falou, Filipe, cadê o Daniel? Ele disse, o Daniel tá de férias.
R- Venha cá, rapaz. Se você pegar uma parte dessa, você não faz não pra fechar ela. E o rapaz, sei não, viu? Só vendo. Não quis dizer que não, nem também que fazia. Aí ele disse, não, é fazer que nós estamos apertados aí por esse vício e tal. ´´Cadê o ajudante?" Eu disse, o ajudante tá lá na... Ele levou o emprestado, aí eu vou buscar ele, tá aí você... Vai ajeitar aí... Aí tá... Aí peguei... O cara com a primeira parte, justamente, era a parte maior, né? Que era mais... Já peguei a parte do meio. Já era mais... Mais o tamanho mesmo. Com tanta gente ajudando.
R- E eu só, eu e o ajudante, no chão. Com o cara sementeado, mas acidentado. Aí, eu mandei o rapaz ir na mecenharia, pegar um pedaço de pau lá. A pastrança, e aí tinha a ponte elétrica que pegava as peças, a pá pegou e botou o calceiro, nivelei… e aí, a gente começou trabalhando. Ele disse, daqui a pouco eu venho aqui, ele dá uma força, o chefe. E aí vai batendo e coisa. Deu um soldador pra pontear.
R- Eu peguei de cima pra baixo. No último ponto, a bicha aí quebrou a cabeça. E aí tava com pouca, pá, partia o ponto. Aí foi a hora que ele chegou, já era quatro horas da tarde. Ele olhou e disse... E aí, rapaz, como você não bota o... O sargento, o grande. Ele disse assim, ah, você se esqueceu. Eu disse, de que? Do sargento, rapaz. Eu aí, puxa, me passei mesmo que me esqueci do sargento.
R- É uma peça, uma ferramenta. Ponteava ela de um lado, do outro, e aí .. tinha que dar coisa e ia chegando. Chegou pro lugar, o rapaz ponteou, bem ponteado, legal a coisa. O outro tá lá batendo ainda no primeiro dele. Amanhã você pega o outro, a outra parte. Quando foi no outro dia, eu peguei a outra parte. Quando eu tava no meio da outra parte, foi que o caldeireiro terminou, ele pegou a primeira.
R- Em dois dias, eu fiz duas partes. Ele ia um dia pra fazer uma parte, Foi em dois dias e meio. Aí a turma fez o... Foi aquele comentário, a turma lá comentava. Foi tanto que depois eles queriam me jogar pra... Pra caldeiraria. Eu digo, não, eu vim pra cá pra trabalhar como ferreiro, não foi como caldeireiro.
R- Problema de trabalho.
P/1- Ah, legal a história. Obrigado, mestre.
P/2- Posso?
P/1-Pode.
P/2- Mestre, naquela época, antigamente, quando o senhor começou a jogar capoeira, era proibido jogar capoeira, não era? Tinha algum tipo de restrição da polícia? Quem é que proibia de verdade?
R- Quando eu comecei, já não era mais proibido. A capoeira já era bem educada. Já estava no centro da cidade. Mas, no começo, a capoeira era bem perseguida.
R- Eles faziam a capoeira no mato. A polícia era quem perseguia. A polícia ia a caminho, vivia catando pra ver se pegava.
R- E era tanto que eles, quando estavam jogando, ficava um e vigia, pegava o berimbau e ficava lá distante. Quando avistava a polícia, aí tocava o toque Cavalaria. Aí o de cair, ele avisava e descia, escondia o berimbau dele e vinha também por meio dos outros. Aí escondia o berimbau no mato. Voltava, apanhava os tambores que já estavam guardados ali e começava a fazer samba. A polícia chegava, olhava, olhava e mirava nos matos para ver se não havia nada e ia embora.
R- Quando ia embora, ele retornava, escondia os tambores, pegava o berimbau e começava a tocar de novo. E era assim. Isso aí já foi contado por eles, porque eu não alcancei.
R- Daí ela veio para os bairros. Ainda com a perseguição da polícia.
R- Dos bairros ela veio para as pontas da rua. A polícia daí já perseguindo menos, mas perseguia.
R- Aí da ponta da rua foi que ela passou para o centro, começou fazendo parte das festas. Com a festa da purificação, 13 de maio, ela começou a participar. E aí foi que a polícia deixou de perseguir. Mas ainda assim, tinha uns assim que gostavam …queriam botar uma banca.
R- A gente não tinha academia. O mestre não tinha academia. A gente brincava, morava aqui embaixo também. Aí no asfalto, a gente pegava o... O mata-burro, o acostamento, e aí formava capoeira ali.
R- A pista ficava livre. A gente começava brincando ali e tal.
R- E um dia a gente tá brincando e chegou a polícia todo sábado, todo dia, ela ia fazer, vinha dar, né? Vinha correr, dar, como é que diz? Vinha com a patrulha, né? O sargento, com os soldados. Porque tinha o... O brega era aqui, né? O mulherio. E a casa de mulherio aqui era muito.
R- Eles vinham. E um dia eles... Vieram, um sargento, com mais três soldados, ficou aqui na esquina, tinha um bar na esquina, eles entraram ali e estavam conversando. Desceu um soldado, chegou lá e encontrou, depois aí deu ordem para parar. Mas o rapaz aí disse, não, não pode não, _____.
R- A gente aí voltou, chegou o carro, chamou, falou com o sargento, era conhecido, aí ele falou, esqueci até o nome dele agora. Então, ó, a gente tava brincando ali, falei. A ________ da capoeira, ali, ficou lá. O policial chegou lá. É eles, hein? Sem o nome dele não, ele tá lá mesmo. Aí ele foi, _________ , quando chegou lá.
R- Ô, rapaz, deixa os meninos brincarem. Os meninos são acostumados a brincar aqui. Ninguém bola, ninguém mexe, não. Vambora pra cá, deixa os meninos aí. Aí eles saíram. A gente aí tocou o pau. Aí nunca mais ali.
P/2- Você tinha quantos anos?
R- Hã?
P/2- Isso, você tinha quantos anos?
R- Aí eu já tô já de... Eu já estava com meus 30 anos… já quando aconteceu isso.
P/2- E qual era o motivo que os policiais diziam parar a ordem? Que não podia?
R- _________ dele.
P/2- Por que não podia?
R- Pra botar a banca, né? Ele sabia que tinha aquela fama de primeira, que parava, acabava. ________ , mas ele quebrou a cara. Nunca mais mexeu com a gente. A gente passava, a gente tava lá tocando o pau, a capoeira. Olhava assim, tirava as vistas. Tocava e entrava na casa do mulherio. Porque eles vinham sondar pra evitar, né? Às vezes podia existir briga no movimento de mulher, mulherio, né? Casa de mulherio. Então eles vinham sondar aquela... Aquela _______ . Descia, batia um papo, coisa assim, ia embora. Mas ele, nesse dia, achou de botar uma banca pra poder. Aí quebrou a cara.
P/1- E era só a polícia que tinha esse preconceito com a capoeira, essa questão? Ou aconteciam outras questões?
R- Não, só foi dessa vez que ele fez isso. Ele que se cismou com a cara da gente, eu não sei o que foi. Já se brincava, nessa época já se fazia capoeira na festa, na praça, no 13 de maio. Foi só... _____________ dele.
P/1- O que começou a existir, você lembra, uma diferença entre capoeira angola e regional? Quando você começou já tinha isso é capoeira angola, isso é capoeira regional?
R- Já. A capoeira começou era angola. Só tinha a angola. Daí... E depois que era tanto que a gente tratava, vamos fazer uma capoeira angola, vamos fazer uma roda de capoeira angola, não. Porque só era angola. Vamos fazer uma roda de capoeira, vamos embora. Em tantos lugares, se não tivesse uma árvore, ______ , coisa, é, roubava e fazia. Agora, depois que criou a academia, aí foi que teve aquele destaquezinho de uma pra outra. A capoeira angola e a capoeira regional. A angola era porque foi criada no mato, né? Quando os escravos foram libertados, aí trouxeram para Santo Amaro.
R- Antes mesmo da libertação deles, eles já traziam aqui pra vender. Aí... Que aí eles criaram trabalhando em canavial, na usina, né? Mas, naquele momento, enquanto eles paravam, aí faziam aquele samba maluco e tal, e ficavam sapateando, e dois sapateando, aqueles sapateados doidos e coisa e tal. E daí, um teve a ideia, passou a perna no outro, o outro caiu. Aí, quando o outro levantou, eles deram risada. Aí, quando eles começaram o samba, o outro aí foi e descontou. E aí, quando eu ia pra passar a perna, pulava, já tava... E aí foi... E foi assim que... Que a capoeira nasceu. Quando os escravos se afastaram, o povo aí tomou conta. E aí...
P/2- O senhor conheceu ou teve algum parente que foi um escravo liberto? O senhor conheceu ou teve algum parente que foi um escravo liberto?
R- Não.
P/2- Não? Não conheceu também?
R - Não conheci.
P/1- Essa história, mestre, que o senhor contou, quem que te contou isso, de como surgiu? Essa história que o senhor contou, quem que te contou de como nasceu a capoeira? Como é que você...
R- Os mais velhos.
P/2- O senhor lembra o nome de alguém?
R- Os mais velhos, né? Meu pai, de mais velho, homem que já foi... Já dos avós, dos pais deles. Do povo mais velho que alcançou o movimento. Eu e o garoto, eu tinha aquele povo mais velho, idoso, né? Ele gostava muito de conversar. Pegava uma meia dúzia de garotos para conversar. Contava algumas coisas do passado. Coisas que aconteceu com ele ou aconteceu com alguém. Passava, contava para a gente. Então, a gente ia aguardando aquilo.
R- E aí… Na nossa época, a gente também lançava isso. Às vezes, tinha o caso que as pessoas não acreditavam, a juventude que vinha chegando. Você falava para acontecer isso, isso, isso. Se eu estivesse direto no dicionário. Chegava no dicionário, olhava, não via. Ah, rapaz, isso é o caso da carochinha. Isso não está no dicionário. Agora, eu preciso saber se foi tudo que aconteceu na vida que foi para o dicionário. Será que foi? Muitas coisas que digamos. Seu bisavô ouviu, ou aconteceu com ele, ou viu acontecer com qualquer pessoa. Quando o seu avô já tava... O garotão, o meninão, o rapaz, ele passava para seu avô. Quando o seu pai já tava já... Seu avô passava para seu pai. Aí seu pai aí... Você já tá garotão, ele passava pra você. Você ia dizer que não aconteceu. Porque você não viu, ia dizer que não aconteceu, isso é caso da carochinha. Não é? Havia um caso mesmo acontecido. Mas porque não foi pro dicionário. Aí o povo, a juventude não acreditava.
P/1- Eu ia falar, mestre, se o senhor pudesse cantar aquela música. Eu não vi capoeira nascer Eu não vi capoeira nascer.
R- Eu não vi capoeira nascer, eu vi os mais velhos falarem.
Eu não vi capoeira nascer
Eu vi os mais velhos falar, Capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro
Capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro
Foi os negros africanos
Quando foi recapturado
Trouxeram para a Bahia, para eles trabalhar
Eu não vi capoeira nascer
Eu vi os mais velhos falarem
Capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro
Capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro
Foi na cortagem de cana, e na raçagem dos matos
Eles fizeram uma dança maluca
Criando esse esporte legal
Não vi capoeira nascer
Eu vi os mais velhos falar
Capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro, capoeira nasceu na Bahia
Na cidade de Santo Amaro, Capoeira é um esporte que abalou a nação
Capoeira hoje mora dentro do meu coração
Não vi capoeira nascer, eu vi os mais velhos falar
Capoeira nasceu na Bahia, na cidade de Santo Amaro
Capoeira nasceu na Bahia, na cidade de Santo Amaro.
R- Idalina.
R- Pode continuar? Pode.
Uau, uai, eu quero ver a Idalina
Uau, uai, eu quero ver a Idalina Idalina, minha negra, dona do meu coração
Eu vou lá na casa dela, vou pedir a sua mão
Ah, uai, eu quero ver a Idalina
Oh, ah, uai, eu quero ver a Idalina
Eu indo na casa dela
Levo o berimbau na mão
Se o pai dela não aceitar
Ele me disser que não
Vou jogar uma capoeira
Me tornar um valentão
Eu me tornando um valentão, a coisa vai ser ruim
Vou roubar a Idalina, vou trazer ela pra mim
Aô, aê, eu quero ver a Idalina
Aô, aê, eu quero ver a Idalina.
P/1- Como foi que o senhor fez essas ladainhas que você cantou? Quando foi?
R- A Idalina foi o seguinte, isso era uma música, meu pai, o esporte que ele gostava era samba de estivador. Então tinha a música de Dalina que ele cantava. Eu gostava muito de relembrar ele. Eu treinei para fazer ela no mesmo ritmo, mas não dava, porque o ritmo de samba era um e dela era outro. Então eu tive que modificar algumas coisas.
R- No samba era... Dalina, quando eu morrer, vá na cova me abraçar
Para ver que o seu calor faz minha alma levantar
Ai, Dalina, ai céu, Dalina
Ai, Dalina, ai céu, Dalina
Dalina, quando eu morrer
Dalina, eu vou-me embora
Que a mamãe tá me chamando
A mamãe tem o costume
Chama a gente e vai andando
Ai, Dalina, ai céu, Dalina Ai, Dalina, ai céu, Dalina.
R- Aí eu tô assim, não dava pra fazer desse jeito, aí eu fiz ela.
É de manhã, Idalina tá me chamando
Idalina tem um costume, chama a gente e vai andando
É de manhã, Idalina tá me chamando
Idalina, meu amor, Idalina tá me esperando
R- Aí, fizendo assim, caiu bem na capoeira.
R- Aí, um colega, um camarada meu lá de São Paulo, aí... A gente foi pra uma festa e ele ouviu que teve aqui, viu o cara cantando ela.
R- Aí mandou.
R- O aluno dele estava com o celular. Ele mandou o aluno gravar. O aluno gravou. Ele aí botou no CD. Botou no... Era LP ainda, ele botou no LP.
R- Aí, depois, aí eu… Passando o LP, tinha comprado o LP e passei a música, cantando. Aí eu digo, cabra sem vergonha, o cabra roubou a minha música.
R- Aí ficou passado, aí a gente foi num evento em Espírito Santo, lá, um evento muito grande, foi muita gente, muito mestre daqui da Bahia, de São Paulo. Aí quando terminou o evento, aí botou todo mundo pro hotel pra ir jantar, aí tinha muito mestre, o cara do hotel arrumou as cinco, cinco a seis mesas, tudo unida, instalou as cadeiras, aí eu sentei numa ponta, de lado, na cabeceira, eu sentei de lado. E ele sentou do outro lado da frente a mim.
R- Aí ele falou assim, Felipe, que a gente se dava muito, brincava, como até hoje, se brinca. Eu quero que você me faça uma música sua pra eu botar em meu CD. Aí já tinha mudado de LP para CD. Botei meu CD. Eu digo, qual é, rapaz? É uma música nova que você tem.
R- Aí, já era essa: ´´Eu saí da Bahia``.
R- __________ _________? Era essa a música. Estava nova, estava fazendo sucesso. Aí eu disse, você já roubou uma minha e agora quer roubar outra. Ele disse, eu? Eu disse, você. Qual é? Eu cantei pra ele. Isso é sua, essa música? Ah, é? Eu não sabia. Aí, mesmo assim, eu passei a outra pra ele, documentado em papel, levei do fórum. Assinou e mandei pra ele. Ele disse que não ia cantar o ritmo regional. Eu canto no meu ritmo, você canta no seu, não tem problema. Eu também não. Aí foi onde eu fiz essa outra. O que eu fiz da Idalina. Para ficar no lugar dele. Mas, às vezes, eu canto ela, a música, ela é difícil. E ao mesmo tempo é fácil de fazer. Você faz a música, você faz ela de um tudo e faz de um nada.
P/1- Mas existia mesmo uma Idalina? Existia uma mulher chamada Idalina?
R- Hã?
P/1- Existia uma mulher chamada Idalina que você pensou nela para fazer mesmo?
R- Não, não. Eu fiz pela música de meu pai.
P/1- Ah, pela música dele.
P/1- O mestre, qual foi a primeira vez que o senhor tocou o berimbau? Como que você tocou o berimbau? O primeiro berimbau que você teve? Você poderia contar a sua história com o berimbau?
R- Eu já tinha começado a dar uns toquezinhos com o meu mestre. Depois, que tinha um cidadão, morava nessa avenida aqui também, no _____ , chamava Zeca, já estava ele Zeca Branco. Ele tocava muito berimbau. Foi capoeirista também, deixou. Morava... Aí ele tinha... Abriu a sala. Fechou a sala, fez o corredor direto e de lado a salazinha que botou uma quitandazinha. Ele sempre tinha aquelas cachacinhas conservadas de folha, de raízes, essas coisas.
R- Fazia tirar o gosto de lá e tudo mais.
R- Às vezes eu não estava fazendo nada, aí a galera ficava conversando com ele. Aí ele foi me ensinando uns toque. Disse Felipe, vamos bater umas cordas, vamos. Ele punhava um banco, botava do lado de fora, a gente sentava e aí tocando. E aí ele foi me ensinando. Me ensinou muito tocando.
R- Aí até agora o decorrer, que eu fui perdendo, só trabalhava mais com os principais. A Angola. O jogo de... a Angola, fomento grande e... Esqueci a palavra. Fomento pequeno.
R- Mas eu aprendi, ele sabia muito toque. Sabia 11 toques. Ele fez um, por ele mesmo, fez mais um, fez 12 toques. E eu aprendi um bocado. E eu, depois, perdi tudo, bem pouco.
R- Eu fiquei em _______. Só São Bento grande, São Bento pequeno, Angola, Cavalaria, a morte do Capoeira, Santa Maria. Só um pouquinho assim que eu fiquei.
R_ Quando tem berimbau aí. Às vezes eu penso em pegar, pra dar um toquezinho, para ir. Mas agora com essa doença também, me desanimou tudo. E aí eu... Parei.
P/1- Mestre, você sabe, te contaram como nasceu o berimbau, você sabe como surgiu o berimbau?
R- O berimbau surgiu pelos africanos mesmo. Eles faziam a capoeira, formou a capoeira, mas só de palma. Depois, não sei como foi, que eles tiveram a ideia de fazer uma ferramenta, fazer um instrumento. Foi que tirou, cortou a veiga, tirou o cipó, o cipó do mato, descascou o cipó tudo, e aí fez o berimbau. Começou batendo, mas não deu certo. Depois descobriram a cabaça, é uma que ela não enrama, é o pé. Vem da _______ agora e voltou.
R- Eles descobriram essa cabaça, aí foi que teve a ideia, cortou a boca. Os dois foram, botou uma cordinha de cipó mesmo, ele fez aquela cordinha, botou aí, aí deu som e o instrumento. Daí foi o que foram, melhorando, melhorando.
R- Eu fiz o primeiro berimbau que eu possuí, foi feito, bem feito. Eu e esse Zeca que eu falo, que me ensinou, às vezes a gente saía, tinha um corredor aí pra cima, a gente saía, aí cortava. Não era biriba, era... Tranca-porteira. Conhece a tranca-porteira? Conhece? Dá aqueles ________ . Aí cortava aquelas varas, cortava tudo. Fazia um fogo, sapecava, aí botava lá no canto, deitada. Deixava passar uns 10, 15 dias, punhava, descascava.
R- Aí tava boa, e dá um som maluco. Mas só que ela, com o decorrer do tempo, ela vai ressecando, ressecando. Aí vai estalando, parte dos piaços, quando não sei, coisa aí ela parte. Aí só que a turma virou pra biriba. É biriba, tem o café brabo, que a turma faz.
R- E tem mais outras, mas aí que eles... Mas a turma, mas aqui é biriba.
P/1- O que mais o senhor sabe, assim, sobre a história do berimbau? De como foi sendo feito? Que você falou que foi na palma e tiveram a ideia de fazer, né? E você sabe como surgiram os toques?
R- Não, eu não sei. Isso aí eu não sei dizer não. Sei não.
P/2- Roda tem umas regras de vestimenta, né? Como é que funciona na roda? A roupa que tem que usar? Tem que estar arrumado, não tem que estar arrumado, como é que funciona para essa questão de organização?
R- Eu mesmo, quando comecei, quando comecei, me alcancei, vi antes até de entrar na capoeira, que ficava aí a olhar, era todo mundo de roupa normal, roupa comum.
R- Tanto que, em tempo de festa, a gente vinha de roupa branca, paletó, gravata, até no branco. Aí era famoso. Jogava, não se sujava. E o povo falava. Eu, garoto, ouvia o povo falar muito, mas fulano de tal, capoeirista, que não chamava de mestre ainda, que aqui não tinha. É um capoeirista, um rapaz que joga de terno branco e não se suja nem nada.
R- Puxa, eu ficava naquela confusão na minha cabeça. O capoeirista… ia olhando, vendo o movimento que fazia e a pessoa não se sujava de jeito nenhum.
R- Mas um dia eu observei o cara tá jogando, não estava de paletó, mas tava de calça, camisa branca, toda alva ali. Tá jogando e tá aí, numa passagem, o cara aí tocou as mãos dele e o cara aí parou.
R- Ô, meu irmão, que capoeira é essa sua? Cê não tem mola, não? Não tem junta, não? Me sujando e tal. Aí foi o que eu botei na minha cabeça. Já vi que esse preceito tanto faz do movimento do jogo, como também da educação para jogar.
P/1- O mestre,Como foi que o senhor se formou mestre de capoeira?
R- Menino, olha, que foi o seguinte, quando o meu mestre morreu, eu já estava, um capoeirista já, me tornava como um capoeirista, mas a turma achava que...
R- Então, eu fiquei …. Teve o finado Ferreirinha. Foi o primeiro... Foi o primeiro a criar uma academia aqui.
R- Então, o Fernando Ferreirinha foi o primeiro a criar a academia aqui. Era mais velho do que eu na idade e na capoeira também.
R- Mas, dele pra cá, os outros eram mais novos do que eu. Então, tirando o Ferreirinha, mesmo assim, quando ele criou, ele me chamava pra ir lá dar ajuda a ele. Eu ia, dava ajuda em cantoria, em toque, em jogo mesmo e tal.
R- Uma vez mesmo ele tá tocando, ensinando, o menino tava tocando, um aluno dele, tocando o pandeiro, ele aí disse assim, não é assim que toca o pandeiro? Não é assim que toca, ele já tomou o pandeiro da banda menina e tá... Aí eu achei que estava errado também. Aí eu digo, olha aí, também tá errado. O pandeiro se toca assim. Aí ele lá disse pro menino, tá vendo aí? Tá vendo aí? Alguns outros, ao criar a academia, sempre me procuravam. Eu já tinha mais um.
R- Um jeitinho melhor do que ele, né? Um ________ melhor.
R- Sempre me procurava. O Macaco, o Carcará, a Tia Dó, essa turma tudo. Então, eu... Indicava a eles, então... E eles seguiam. Eu ia dar ajuda também, dar força.
R- E aí… Não cheguei a me formar. Me formei por mim mesmo. Por mim mesmo. E a turma aí passou a me chamar de Mestre, Mestre Filipe, Mestre Filipe e eu.
R- Sempre de acordo com o meu jeito, a minha maneira de ser, de tratá-lo, o nome pegou mesmo. Aí passei a mestre. Agora formei muitos deles aqui. Macaco mesmo. Aí até o livro marca tudo isso. Simônio botou essas histórias todas no livro.
R- Macaco, o mestre dele morreu. Foi aluno de Ferreirinha. Aí saiu de Ferreirinha. Foi pra João. João morreu. Ele aí botou... A academia dele começou trabalhando já como contramestre. Ficou, ficou e eu observei muito lá da... Da ajuda a ele e tal. Dava muito com muita... Dava muita, muita pra ele, muito conforme, muita gestão a ele
R- Aí depois eu vi que ele já tava um cara já competente mesmo, já. Aí fiz uma surpresa aí. Assim mesmo, pra fazer a surpresa ainda procurei, tinha um rapaz aqui, Justino, que trabalhou no NSF.
R- Ele brincava também, a capoeira é muito boa também. Tava com um grupo de sócios, ele e o Álvaro. Aí eu perguntei a ele, falei, Justino, eu queria fazer uma surpresa pra macaco. Ele disse, como filho? Ele falou, eu tô achando a dedicação de macaco muito grande, muito boa.
R- Eu queria fazer uma surpresa, ele dar um cordão branco. Ele vai fazer agora aí o primeiro encontro que ele vai fazer e aproveitar e dar um cordão branco a ele. Aí Justino aí me botou no céu. O Filipe merece, Filipe tava... Aí, quando foi dia sexta-feira à noite, não tinha roda, dia sexta-feira, ou não tinha aula, só era roda. Foi uma roda, eu cheguei, Macaco , eu queria falar com os quatro alunos seus aí, eu vi alguma coisa deles aí que eu não gostei, queria conversar com eles aí.
R- Aí ele disse, não nego, pode pegar, pode chamar aí quem você quiser, pode chamar. Aí eu chamei os dois irmãos dele e mais quatro dos alunos mais velhos. Chamei particularmente, fui lá pro fundo, lá eu... O que eu quero falar com vocês é o seguinte. Eu tô achando a dedicação de Macaco muito boa, mas eu queria fazer uma surpresa a ele. Queria dar um cordão branco a ele. Agradecer a ele e a turma. Principalmente os irmãos. Aí, Bendegó. Você já viu Bendegó? Sabe? Que é irmão de macaco. Aí o senhor deu o cordão. Aí fui pra pegar o outro irmão. Bora aí pra cima. Aí disse... Aí fui pra dizer... Fui pra dizer, eu tranço o cordão. Aí, pronto. Eles trançaram o cordão, coisa e tal. Aí me deu, botei dentro de uma caixa de sapato. Enrolei. Quando foi no dia do evento, aí eu levei a caixa e chamei um aluno dele que tava novo, ele não estava participando, mas foi apreciar. Ele deu pra segurar a caixa. E aí, quando ele fez a roda aberta, quando terminou a roda aí, foi pra fazer a roda dos mestres. Eu disse, ó Macaco, eu queria, nós dois abrir a roda, tá?
R- Então o mestre, bom agora, coisa e tal, e a gente saiu e fizemos um joguinho, coisa e tal. Aí depois, eu parei, Aí eu falo, pessoal, olha, é o seguinte, quem dá gosto, merece gosto, não é? Todo mundo apoiou ele, se a pessoa não dá gosto, é porque não tem gosto. Então, é como o caso aqui do mestre macaco, pela gosto, mas não tem gosto. Aí, tomei a caixa da mão do menino. Quando abri... Depois, até ele me disse, quando eu vim com a caixa, pensou que era um sapato. Aí, quando eu abri, tirei o cordão da caixa, dobrei de doido, segurei assim e saí correndo a roda. A turma tudo, bateu palma. Ele começou a olhar, ficou olhando, as lágrimas começaram a cair.
R- Aí, eu... Aí fui e me amarrei. Fiz mais outro jogo com ele. Aí botei mais meia dúzia de mestres pra fazer um jogo com ele. Foi muito bonito, a turma gostou muito.
R- Depois até um mestre de Alagoinha, estava aí, Zé pretinho. Depois disse, Filipe, tô com 20 anos de capoeira. O primeiro trabalho bonito de capoeira que eu tô vendo é esse aqui. Foi esse aqui. Ele agradecia.
R- E daí, depois teve Adó.
R- Adó treinava com o Carcará, começou com o irmão dele. Mas o irmão viajou para o exterior, ele ficou sozinho aqui.
R- E aí, se encostou em Carcará para poder não perder para vir, para ir de pé, quando tinha bicicleta, tinha de bicicleta. Mas, mesmo assim, Carcará puxava muito quando terminava a aula, eram 10, 11 horas da noite.
R- Ele ia sozinho daqui para São Brás, negócio já estava perigando já. Aí, ele aí, achou que tinha outro colega dele também, que estava também lá, avoando também contratou os dois e botaram um, abriram um grupo lá em São Brás.
R- Como eu pedi à professora, a professora deu à escola e abriu lá. Aí de lá ele, foi que ele foi lá pra cima. Aí do virou ele, o mestre dele, nunca dava, nunca falava em graduação pra ele, me convenceu que ele tava aí pra graduar. Tem três aqui que eu graduei. Macaco, Adó e Dima.
R- Conhece Dima?
P/1- Como foi a graduação do Dima? Quer contar a graduação do Dima, como foi?
R- A de Dima foi que ele aprendeu com um rapaz e foi trabalhar em São Paulo, no Rio, foi no Rio que ele foi trabalhar, e lá se encontrou com um rapaz que era daqui. Ele tinha ido para o Rio e era capoeirista também, todo os dois.
R- Se não, tocava até sem ver o parente, ou toca, se não morreram. Seu primo, o primo já... E lá ele... Fui treinar com o cara, e quando ele resolveu que veio embora, aí já veio já.
R- Chegou aqui e criou a academia. Começando a treinar o pessoal aí. Aí me conversando na situação, aí cheguei também a graduar.. Graduei ele.
P/1- O senhor quer falar sobre alguns desses certificados? O senhor quer trazer alguma história sobre esses títulos que o senhor ganhou? Tem algum que para o senhor foi muito importante? Que o senhor guarda assim.. a história de como foi …
R- Rapaz, todos são importantes. Teve um que eu recebi em São Paulo. Deixa eu ver qual foi dele.
P/2- O da USP? Foi o da USP?
R- Acho que foi esse, parece. A vista não está dando para eu ver direito. Os outros eu conquistei aqui em Salvador.
R- Salvador, aqui mesmo. Agora, esse aqui, Aquele ali. Aquele ali é o mais... O mais forte. É. Aquele ali, né? É. Recebi o título de doutor.
P/2 - Conta pra gente.
R- Hã?
P/1- Conta pra gente como foi.
R- É... Era o seguinte. Foi o seguinte, porque... É como minhas maneiras de ser, né? E... Um pouco andado, conheço uma parte boa do Brasil. Em todos os lugares que eu chego, sou bem chegado, sou bem recebido. Bem tratado. Quando saio, deixo saudade e trago saudade também.
R- E assim… Plantei o terreno, mais ou menos, né? Surgiu essa... Essa... formatura aí, Salvador, de... De... De doutorado. Aí a dona ______ de lá, que conhece Simone, ligou pra Simone, falando com Simone, e tal, desse doutorado que ia sair. Como Simone não me escrevia. Aí, então, o Simone aí me falou de Simone, negócio assim, _____ assim
R- Aí Simone pensou … e coisa e voltou aí. Falou com ela ….eu não vou aceitar não. Eu vou botar meu pai nele. Aí ficou, fizeram aqui. Até esse menino, Limãozinho, conhece? Até Limãozinho, é filho daqui, vai estar em São Paulo, veio de lá pra pegar essa graduação aqui.
R- No fim da conta, no fim da conta, a graduação foi tudo falsa, toda falsa. Muitos pegou as falsas. Mas, com dois meses depois, tem um casal de amigos que vocês devem conhecer, é... Como é o nome dele? Hã? Jean? Jean, foi. Jean e Brisa, a esposa. Que são... Que trabalham na... Trabalhando na universidade, lá, com professores lá e tal. Aí que despertou, ligou pra Simone, falando, e surgiu essa... Essa formatura, que essa é a real mesmo. Eles formam um por ano. Aí falou e aí confirmou. Confirmou e ajeitou eles aí.
R- Ainda levou um tempinho eles ajeitando. Era pra ser lá em Amargosa, mas devido o meu problema é não poder pegar carro pra longe assim. Aí resolveram fazer aqui.
R- Na UFGB também daqui, aí no dia não tinha pra onde correr.
R- Fui lá, foi muito boa, muito bonita, muito legal, o Adó me fez uma surpresa muito boa. Preparou os mestres de capoeira, tudo fadado, com um birimbau. Pra me pegar na entrada, fez o corredor. Passar ali pelo meio. Foi muito boa, muito bonita.
R- Então, todas são boas, todas. Mas aquela de lá foi a melhor. Pra mim, né? Mais forte um pouco. E mais... Pra mim, teve mais um... Uma alegria.
P/1- Mestre, a gente já está finalizando. Eu ia falar para você um pouquinho também da sua família, como é que você constituiu família, contar um pouco do seu casamento, dos seus filhos, dos seus netos, se quiser contar um pouco.
R- Fale de novo aí, que eu pego pouco de ouvido.
P/1- Se você puder contar, mestre, como você constituiu sua família? Como foi que você fez sua família, um pouco dos seus filhos, netos?
R- Rapaz… É… A pessoa que eu andei quebrando a cabeça... É... ______... Assumi a primeira mulher. O tempo não deu certo, aí a gente se separou. Foi a segunda, não deu certo também, a gente se separou. Os terceiros, me engarrafei com a mãe de Simone.
R- Era viúva, ela.
R- E a gente se a juntou.
R- Uma vivência muito boa. Tenho oito filhos. Mas tudo já sobre si, só tinha de restar de menor a Simone e a outra irmã que mora em São Paulo, foi que veio pra ver o poder junto com a mãe dela. E aí, vivemos um tempo bom, mas Deus não quis, levou ela.
R- Então, quando ela morreu, eu ainda falei com elas, as duas meninas. ______ que não foi, por querer botar elas pra fora, porque ele podia ter alguma ideia pra fazer, ou arrumar um emprego, ou qualquer coisa. E ficar se amarrando pela minha causa. Aí eu falei, olha, vocês dois não tô botando vocês pra fora. Por mim, vocês vivem até quando vocês quiserem. Mas, se vocês quiserem arranjar qualquer um compromisso, qualquer um trabalho, eu tô botando. A outra, porque já era ______ de trecho, acostumada a viajar, trabalhou no Rio Grande do Sul, esse lado. Ficou parada, só veio por causa da morte da mãe dela, não respondeu nada.
R- Já a Simone respondeu, ela disse, Ave Maria, seu Filipe, jamais vai te fazer uma ingratidão dessa. Porque ela veio bem garota, ao meu poder, então já estava, já. Quase adulta. E aí... Foi quando eu comecei também, adoecendo.
R- Ela não quis me deixar eu sozinho. Ela ficou cuidando de mim. E daí, de melhorar, piorei. Porque primeiro foi a coluna.
R- Tive problema de coluna. Estava jovem ainda. De vinte e poucos anos. Na usina, trabalhando, pegando um peso. A coluna deu estalo. Pegando uma longarina de 12 metros. Pegando a canga. Pra levar pra dentro da usina. Então, faltou uma pessoa. Aí o mestre mandou me chamar. Quando eu chego, a vaga que ficou pra mim na frente e o meu par, dava quase dois de mim na altura. Tudo descontrolado. Quando a gente acabou de pegar, ele levantou, o lado dele tava mais alto do que o meu. Começou andando, a coluna descendo, descendo, pouco _______ , beliscando a minha mão. Vamos arrear, vamos arrear aqui. Aí eu tomo aí. ___________ . O quê, rapaz? Vambora, rapaz, ainda bem. Vai se escapulir, eu vou soltar. Aí arreou. Uma coisa que fui pra arrear, recebi o estrago. Aí senti a dor dos cunhados. Aí... Aí eu comecei a passar aquela pomada preta, Yodek. Conhece? Boa, boa pra... Mas eu comecei usando, usando, passando. Pronto. Ela ficou boa. Aí eu fiquei... Devagar, devagar, devagar... Aí comecei me espalhando.
R- Em um evento no interior de São Paulo, que eu fui, foii eu primeiro e a esposa de primeiro. Na vinda do local para o aeroporto, foi um carro que veio trazer a gente, um carro grande.
R- Aí a gente entrou no aeroporto. Eu queria vir na frente, por causa do problema da coisa . Mas a mulher de primeiro, era gorda e estava toda abafada. Tive que dar a frente a ela e vir para o fundo. Falei com o cara, meu irmão, no quebra-mola passa devagar aí. Aí foi o mesmo que não falar, né. No quebra-mola os caras passavam, eu subia do banco e descia. Tinha lugar que eu chegava e me calçava. Quando subia eu me calçassia, mas quando o bicho descia, não me governava, descia. Aí cheguei aqui e no outro dia, caí na unha do médico.
R- E daí pra cá que ela começou a me aliviar, aliviava, apertava. De resto, caiu essa artrose e apareceu essa artrose aí. E aí, com isso, ela... Tirou o curso de professora, mas não... Chegou a trabalhar, tirou uma folga aí de uma e tal, mas depois não conseguiu prosseguir, porque... Tirou outro curso também aí, mas... Ela não queria me largar pra ir trabalhar. Ela achou até convite para ir trabalhar. Aí da Prefeitura, de uma coisa da Prefeitura, Secretaria da Prefeitura, a turma convidou ela pra ir trabalhar com ele lá. Mas ela não quis, por causa de mim. E foi quando eu fui... Passei a sentir também problema de pressão, e a minha é baixa,.
R- Por três vezes, faltei pouco pra não cair na rua, pra cair na rua. A pressão me apertou, uma vez eu fiquei vendo as pernas enfraquecer, as vistas rodando e comecei cansando e tal. R- Aí entrei numa loja de 99…. aí entrei assim e fiquei sem poder falar, puxando forte mesmo. Aí a menina, que fica no balcão da recepção, conversando com a outra, que tá no caixa, uma cá, outra lá embaixo, com morrendo de conversar. Aí eu cheguei, me segurei assim, e olhando pra ela, pra ver que elas olhavam pra mim, pra eu pedir uma cadeira pra eu sentar. E ela intestina, já de _____. Mas puxava forte mesmo. Um segundo que eu parasse, eu caía.
R- Aí fui aliviando, aliviando, aliviando, aliviando, aliviando. E saí. Daí pra casa, foi lá na rua direita, daí pra casa eu sentei quatro vezes pelo caminho. Fiquei.
R- Da outra vez fui no banco, no Banco do Brasil, já perto de chegar na caixa. Eu vi as vistas escurecendo, faltando fôlego. Aí eu larguei e saí. Quando começou o muro do hospital, esse hospital daqui de baixo, aí eu pra segurar no… O muro tá lá longe, pra mim… Tá perto de mim.
R- Aí, quando eu vi, foi pegar em meu braço, lá, os taqueceiros. Pegou em meu braço. Tá sentindo alguma coisa, meu velho? Ele disse, rapaz, tô tontozinho aqui, as pernas fracas e tal, e coisa... Aí o outro pegou no outro braço. Aí, pouco, apareceu uma comadre minha. Meu compadre é negócio aqui do escuridão, mas... Aí eles me levaram, eu cheguei no hospital, ele entrou e me botou sentado. O hospital daqui de baixo não tinha... Como não tem... Como é que eu digo? Me esqueço. Atende rápido, atende na hora.
P/2- Emergência.
R- Hã?
P/2- Emergência.
R-Emergência, tinha cortado a emergência. Aí eu fiquei. Quer que leve ele pra Santa Casa?
R- Digo, não, não, me leve pra casa.
R- Eu já sabia que era a pressão. Aí me trouxeram. Chegou aqui, Simone tirou a pressão, tem um aparelho aí que tirou. A pressão estava lá embaixo. E mais duas vezes assim eu fiquei na rua sem saber pra que lado eu ia, que lado é que eu vou pra casa aqui. E com esse negócio de ir pra cá, ela perdeu até a confiança de eu ir na rua sozinho.
R- E depois com esse problema da perna piorou que... Quando eu vou fazer fisioterapia, eu vou de carro.
R- O que eu souber, eu respondo. Agora, o que eu não souber, perdão.
P/1-Mestre, o senhor está com quantos anos?
R-Noventa e sete.
P/1- Noventa e sete. Quantos anos de capoeira?
R- Acho que setenta anos, setenta e poucos.
P/1- Fazer oitenta anos de capoeira.
P/2 - Você pode falar assim? Eu tenho noventa e sete anos e de capoeira oitenta anos. Pra gente registrar você falando isso.
R- Pra eu falar? Isso. Você vai pegar? Eu tenho 97 anos e de capoeira tenho 80 anos.
P/1- Mestre, aí eu queria perguntar, nesses 80 anos de capoeira que você tem, qual foi a coisa assim mais impressionante que você já viu na capoeira?
R- Mais o quê?
P/1- Impressionante, mais marcante.
R-Não tem nem o que dizer, porque eu não me lembro assim de uma coisa a mais.
R- Não sei dizer não. Que é isso, que todos os lugares que eu chego, sempre fui bem chegado, bem recebido, bem tratado, bem... Sempre ajudei por gosto, o que veio da capoeira, qualquer... Qualquer vento, qualquer roda de capoeira, eu vejo qualquer coisa. Eu tenho o direito de falar, chamar e explicar.
R- Não me exibo. Falar, eu chamo o mestre particular e converso com ele. Ele também atende, vai observar. Eu recebi um elogio que daquele eu nunca tinha recebido. Já recebi vários elogios, mas daquele nunca tinha recebido e não recebi mais.
R- Foi em Vila Viçosa. Vem falar? É interior de Minas.
R- De Belo Horizonte pra lá, seis horas, cinco horas de ônibus.
R- E eu recebi um elogio que eu fiquei com vergonha, respondendo com vergonha. A gente saiu daqui e chegamos lá já à noite.
R- Aí no outro dia foi o evento. Já vinha começando já, não era de aula, essas coisas. Aí, quando chegou lá no local, a roda aberta.
R- Quando terminou a roda aberta, o rapaz aí chamou. Eu esqueci até o nome dele. É muito alto, não. É assim da altura desse menino aí.
R- Agora é meio fortinho, mas... Aí disse, mas, Mestre Felipe, a roda agora aí é com o senhor. Vamos contar aí. Tá certo? Aí peguei o gunga e tô jogando.
R- Cantando e tal, e tô mais jogando, então, ali. E tinha um cidadão, o corredor para ir para pegar a cadeira. O coisa foi num local que era ou era clube ou era cinema, um negócio assim. Era entre a parede e as cadeiras, né? E logo perto tinha um cidadão, um fortão, crioulão, sentado ele, a esposa, e um par, um casal de filhos.
R- Assim, 19, um 18, um ,19, assim, sentado. E até de cá tô soltando minha pedagogia.
R- Aí, depois de umas quatro, cinco músicas minhas que eu tinha cantado, aí eu cantei uma de Bimba.
R- Aí… Tô terminando a música de Bimba. Eu vi o cidadão, entrou, saiu, levantando da cadeira e saindo pro corredor. Aí eu olhei assim e vi mas disfarcei. Pensou que ia, vai pro banheiro, né? Despejar a garrafa, assim. Aí tirei as vistas e tô olhando pra roda e cantando e tocando.
R- Aí quando eu terminei a de bimba, que joguei essa música.
Ô, ia, ia, meu senhor mandou chamar. Meu senhor mandou chamar.
R- Aí eu recebi aquela mão em minhas costas. Chia aí, neguinho. Chia aí, pode chiar. Você é gostoso, você é bom, você tem repito, tem ritmo, tem voz, tem o quê, tem compasso, tem não sei o quê.
R- E eu só, obrigado. Quero lhe falar obrigado, e eu com vergonha, rapaz, daquilo. Aí... Comecei. Ele também daí voltou e se sentou lá no local.
R- E deu problema. Isso aí … Tinha é um galego, estava sentado no médio. E aí... Ah, eu também quero cantar. Também quero cantar. Eu também canto. Gosto de cantar. Meu irmão, isso aqui é pra todo mundo. Deu pra você não. Tô fazendo um tempo aqui, mas... Depois vocês podem cantar também pra todo mundo e tal.
R- Aí, continuei. Quando terminei a música, eu botei pra ele. Pronto, agora pode entrar. O cara começou a cantar, só vendo, atrapalhando tudo. O cara é um cara destimido e observador.
R- O cara tava observando tudo, rapaz. Aí deu Iê, parou. Mas, rapaz, você não tem vergonha, rapaz. Não tem vergonha, só faltou dizer que não tinha vergonha na cara. Mas falou assim, já falou tudo. Você não tem vergonha, o rapaz cantando tão bem, agradando a todo mundo. Você pede a cantoria pra fazer uma merda dessa, rapaz? O cara lascou mesmo. Pra fazer uma merda dessa, rapaz? Atrapalhando todo mundo, rapaz. Aí ele parou. Aí tinha o cara do atabaque. Era do Rio. Se chama Casquinha. Até morreu, soube que ele morreu. Cara, muito legal mesmo. Aí eu passei pro Casquinha. Aí o Casquinha, gente ruim também, aí jogou a música.
Massaranduba é madeira de ___
O couro é madeira de ___
É madeira de ___
Massaranduba é madeira de ___
É madeira de ___
Paraíba é madeira de ___ , madeira de ____ , madeira de ______ ...
R- Aí foi botando as madeiras todas boas. Aí, quando terminou as madeiras, jogou pros mestres .
R- Mestre Filipe é madeira de lei.
R- Mestre... Eu me esqueço o nome dele, que era o dono da ordem. É madeira de lei. Mestre Cláudio é madeira de lei. O cara tá inchando que só sabe quando toma porrada.
R- Aí, tocou. Ele aí que fez, botou, tinha um negão. Meia dúzia de negão que estavam lá em pé. Mas o cara sabia que era aluno dele, mas ninguém sabia, eu mesmo não sabia que era aluno dele. Aí ele achou de cá … fez sinal. Os caras aí saíram na roda descascando, batendo forte mesmo. Aí o cara tornou _______ e parou. Outra regulagem em cima do cara. Aí os caras aí, daí começou brincando certo. Mas o cara passou por uma vergonha maluca. Então foi o maior elogio que eu recebi. Foi o ponto que serviu de confusão { risada}.
P/2- Tenho uma curiosidade, mestre, como era a presença de mulheres nas rodas antigamente, quando o seu começou a jogar? Era muito pouca e foi aumentando? Em que momento isso aconteceu? Tinha alguma restrição, proibição?
R- Rapaz… eu ouvia falar, coisa até que eu não alcancei, que a mulher foi uma aluna de besouro. Acompanhava besouro. Na época, chamava Maria... Eu esqueci o sobrenome. Na época não existia moda de calça para mulher, mas ela pegava uma calça de homem e vestia por baixo da saia do vestido. E ao lado de besouro, ela era mulher para capoeira, para briga.
R- Então, a primeira mulher que se vestia na capoeira foi a Maria Homem, que acompanhava a Bisoro. Na época, a mulher não tinha uso de calça para as mulheres, mas ela vestia a calça de um homem por baixo da saia do vestido e era ao lado de Besouro, era mulher pra capoeira, pra briga. Depois surgiu. Aí a Mestre... Daí do Salvador. Que... Pra me lembrar o nome dele, da cidade de Salvador, que morreu, o Mestre...
R- Não, rapaz. Esqueci agora. Então, mas, a mulher não tinha…
R- Não tinha dor nenhuma. A dor da mulher era em casa, na cozinha. E... Nada mais. As professoras naquele tempo que tinham dor, que professoras naquela época eram muito respeitadas. Hoje em dia perderam o respeito. Mas, hoje em dia, depois passou a ser mulher delegada, mulher prefeita, mulher juíza, mulher de tudo na vida.
R-E, aí, por que a mulher não pode ser capoeirista? Tava aquele problema da mulher ser capoeirista, coisa e tal. Por quê? Que a mulher não pode ser capoeirista. Mulher é karatê, é judô, é jiu-jitsu, é boqui, que não pode ser capoeira.
R- Então... Eu acho de acordo. Pelo menos depois que a mulher passou a se envolver na capoeira, —-------- até mais um grupo, não é verdade? Então eu acho de acordo a mulher na capoeira.
P/1- Você lembra a primeira vez que você viu uma mulher na capoeira?
R- Hã?
P/1- Você lembra a primeira vez que você viu uma mulher jogando capoeira?
R- Eu vi aqui. Quando a mulher começou a entrar na capoeira aqui, aí que eu vi. Na primeira vez. Aí, saindo aí pra fora, aí eu vi. Aqui passei a ver em outros lugares também.
P/1- Foi em que época isso, mestre? Foi em que época? Você viu que as mulheres começaram a entrar?
R- Rapaz, eu não sei assim a data de quando eu comecei.
P/1- Mais ou menos assim. Anos 70, anos 80, anos 60.
R- Não lembro.
P/1-Fazer a última pergunta pra gente fechar, tá, mestre? Que faltou e eu... Queria saber o que o senhor lembra, tem de vivência, assim, com a história de Besouro. Como é que o senhor ouvia? O que o senhor podia contar sobre Besouro?
R- Besouro, eu não alcancei Besouro. Agora, o que sei de Besouro, que o mais velho falava. Era brigalhão. Não era justiceiro, era um homem justiceiro. E ele vivia a vida. Teve o caso dele aí da usina.
R- Ele… Tinha essa usina que tem aí. Aí você subindo, sabe a subida que lhe passa São Francisco? Do outro lado, embaixo, onde tem uma chaminé grande, ali era uma usina. Foi nessa que eu trabalhei. E essa usina, na época, era de seu Suverá, chamava-se Suverá.
R- Ele não era nascido ainda. Que era de São Suverá.
R- E o Suverá era muito justiceiro. Era um homem que ele tinha aquela quantidade de homens, uns 10 homens ali. Trabalhava no braçal e tal, mas era um homem ali pra quando ele chamasse, ele tava vindo pra fazer as justiça, dar os recados dele. E, Suverá, o povo trabalhava, pagamento na época era por quinzena. Se trabalhava no dia do pagamento, o pagador, daí ele tá de lado. Fulano de tal, pronto. Ciclano de tal, pronto. Ciclano de tal.
______ de tal. Não veio hoje não.
R- Ele dizia que quebrou pra São Caetano. São Caetano era o padroeiro da usina. Tinha imagem dentro da usina e tinha um milagre fora do campo, terreno da usina mesmo. Aí... E era assim.
R- Segunda-feira, pião ia receber. Quebrou, você não veio no dia. Quebrou. _____ pra São Caetano. E sempre assim. O Besouro trabalhou na primeira, segunda, terceira, quinzena. Não fui.
R- Ouvi lá qualquer coisa que não fui pro trabalho.
R- Segunda-feira ele foi. Aí marcou o ponto. Faz 9 horas ele foi lá pro escritório.
R- Aí fala pro pagador. Pagador, eu vim receber meu dinheiro. Receber seu dinheiro? Sim. Que dinheiro? Dinheiro que eu trabalhei, da quinzena que eu trabalhei. Quebrou para São Caetano. Quebrou pra São Caetano o quê, rapaz? Eu trabalhei. E aí ele começou esquentando, o pagador viu a coisa feia, aí mandou chamar o Suverá, já dando os detalhes.
R- Suverá agarrou os capangas e veio. Quando chega, de faca, facão, estrovenga, pistola, estava o Suverá assim, e o Besouro em pé, na frente dele.
R- Aí, o Suverá deu o sinal, os capangas foram logo rodeando o Besouro. Aí, o que houve? Esse cidadão aí que não veio sábado receber o dinheiro e agora diz que veio pra receber o dinheiro. Ele quer porque quer, entendeu? Ah, moço! Não veio no dia, quebrou para São Caetano. Mas, se é Suverá, o que acontece é que quem trabalhou foi eu, não foi São Caetano, se é Suverá.
R- Mas, moço, é a lei da usina, moço. E aí, começou discutindo, ele agitou, quando Suverá gritou, pega aí, pega o homem. Os caras suspenderam a mão, porque o cara de braço duro. E aí, ele deixou todo mundo hipnotizado, com o braço duro. Aí, puxou o espadinho, tinha um espadinho que ele usava, chamava Costela de Vaca, puxou e aí botou a ponta lá. E agora, Branco, ou tu paga meu dinheiro ou você é o primeiro que vai cair aí. Depois derrubo um por um aí.
R- Paga, paga o dinheiro desse homem, paga, paga. Aí pagou.
R- _________ foi embora. Quando chegou já distante, já a dois quilômetros, ele desfiz da regra e foi embora.
R- Aí não voltou mais. Mas aí ele foi trabalhar em outros lugares. Tem um trapiche aqui, um trapiche de fumo. E por isso que tem o nome Trapiche de Baixo. Ele trabalhou aí, trabalhou embarcado. Andou, virou, foi embarcado nessa outra usina, que fica perto de Candêias. Que a... A... A usina Paranaguá.
R- Aí começou trabalhando. Aí passou a gostar de uma dona. A dona morava no terreno da usina e trabalhava para a usina também. A gente tava a olho de cano. Começou gostando dessa dona e foi. E, ao decorrer do tempo, ele criou confiança na mulher.
R- Todo dia, ele tomava banho de manhã quando saía, pegava o paletó, ia logo no bolso do paletó corrigir. O patoá tava ali, ele vestia, ia embora. Todos os dias assim. Aí ele passou a criar confiança na mulher. E já não corria mais não.
R- Pegava o paletó, vestia e saía. Acontece que a usina lá naquele buraco não tinha distração nenhuma, eles faziam aquele jogo de baralho, dominó. E aí, o filho do doutor Zeca começou brincando no meio deles também. Aí acontece que o Besouro, os ________ se cuidam com o filho do Dr. Zeca. E o filho do Dr. Zeca também passou a brincar com eles também, né? Brincava também ali no meio. Aí o Besouro tirou a espadinha, deu uns panos de facão nele e tal.
R- E daí foi falar com o pai.
R- E acontece que o Dr. Zeca era a mesma coisa que o daí da Santa Elisa.
R- Era o cara também injusticeiro. Injusticeiro, ou justiceiro, que eu já ________
R- É injusticeiro, fazia injustiça.
R- Ele aí, sabendo da fama de besouro que ocorreu na Usina Colônia, anos atrás, não queria botar, o capanga dele também, tinha os capangas. Ele não queria botar em perigo. Aí chegou o que fez, chamou a mulher e acertou com a mulher.
R- Para ela tirar o patuá de besouro, do bolso, quando ele estivesse dormindo. A mulher ficou pensando, ficou entre a cruz e a espada. O patrão, injusticeiro. Besouro, valentão. E aí, ela resolveu ficar do lado do patrão. Aí mandou fazer uma faca de ticu, e aí chamou o rapaz, era um galegão. Chamava amarelo. E botou a faca na mão do cara. Pô, o cara tocava a besoura na hora que saía. Pagava. O cara aí ficou numa moita de banana, com a ______ de banana, na beira da estrada. Logo na saída da... O cara ficou, o Besouro vai, toda a vontade, vestiu paletó, mas não tinha corrido, era paletó aberto. Quando foi passando, o cara já estava preparado, voou de cá na frente de Besouro, enfiou a faca e rastou.
R- Aí o ________ caiu , aí ele botou a mão e tudo, segurou. Aí foi pra moita, entrou no mato. Na mesma moita que o cara tava _______ Besouro, Besouro ficou.
R- E aí, passou a manhã, quase lá no final da manhã foi que o cara foi passando e viu. Aquele gemido, o barulho. Aí o cara entrou, quando chegou lá foi ele. O cara saiu, arranjou um outro colega e arrumou um carro. E foi, pegou ele e levou pra Candeias.
R- Da cidade de Candeias, levou para São Francisco do Conde.
R- Aí foi lá pra São Bento.
R- Era o porto. Aí arrumou a canoa, botou ele na canoa e trouxe aqui pra Santo Amaro. Já isso aí já era às quatro horas da tarde. Chegou lá, só tinha esse hospital.
R- Aí botou o cara, mas por quê? Ninguém, branco nenhum daqui gostava dele, por causa da arruaça dele. Aí botou lá na pedra e fez corpo mole. O resto do sangue acabou de esgotar. O besouro foi embora. E assim, contada pelo mais velho, foi a morte de besouro.
P/1-Nossa.
P/1- Te contavam essa história onde? Nas rodas de capoeira? Te contavam essa história na roda de capoeira?
R- Que eu contava?
P/1-Que te contaram?
R- Não, não. Que eu contava ela na roda de capoeira?
P/1-Não, te contaram ela? Aonde você ouviu?
P/1- A história?
R- Não, não. Não contava, não. Conta-se em particular, tem que levar com a própria turma que me pergunta. É.
P/1- E, mestre, tinha oração para se proteger na roda, assim?
R- Hã?
P/1- Tinha oração para se proteger na roda… de coisa?
R- Não, rapaz. Trata o capoeirista que é mandingueiro. Mas a mandinga do capoeira não é a mandinga desses povos antigos, do campo, que a mandinga desses povos é reza, oração e tal. R- A mandinga do capoeirista, é do jogo, as tapiações, os truques e tal, na roda e tal.
R-Mas o cara é mandingueiro, tem as mandingas e tal, sabe? Vai lá, sai da roda com você, aí você... Eu digo, ó, vai pra lá, aí você vira pra lá, quando você volta aqui, olha pra cá, eu já tô lá do outro lado seu, né? Fica ali. Quando é assim, quando você vem virando, eu boto o dedo, aí você topa o rosto. Então, essas coisas são as mandingas do capoeira.
R- Agora, existia alguns capoeiristas que tinham a mandinga mesmo, como o Besouro mesmo, _______ Besouro, e outros mais. Mas é muito difícil agora.
P/1- Mestre você já passou por algum perigo? Assim alguém vim te atacar? Alguma coisa que você precisou usar capoeira?
R- Na capoeira?
P/1- Não, na rua, assalto, alguma coisa que...
R- Ah, não, não, não. Não? Não, não, nunca.
P/2- Que precisou usar capoeira pra se defender?
R- Não, não.
P/2- Usar capoeira pra se defender?
R- Não, não. Nunca fui brigalhão, não. Nunca briguei, nunca.
P/1- Então pra gente acabar? Começou com uma ladainha, quer acabar com o canto?
R- Acabar com o quê?
P/1- Finalizar com a música?
R- Quer a ladainha ou quer um corrido?
R- Fazer o corrido, depois _____
{ Ladainha}
Sou Guerreiro, sou guerreiro
Sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo fazendo capoeiragem
Sou guerreiro, sou guerreiro
Sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo fazendo capoeiragem
Não carrego instrumento
Também não carrego arma
Uso a arma do corpo
O instrumento do local
Sou guerreiro, sou guerreiro
Sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo fazendo capoeiragem
Sou amigo do povo
Querido da criançada
Em todo lugar que eu chego, deixo a minha identidade
Sou guerreiro, sou guerreiro Sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo
Fazendo capoeiragem
Não gosto de violência
Não carrego falsidade
Nada de capoeira, gosto mesmo é de brincar
Sou guerreiro, sou guerreiro, sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo fazendo capoeiragem
Por isso que o povo diz, por isso que o povo fala
Realmente, meu amigo, você é um guerreiro de fato
Sou guerreiro, sou guerreiro, sou guerreiro de raça
Viajo pelo mundo fazendo capoeiragem.
R- Ia botar a ladainha, mas desisti, botei só o corrido.
P/1- Maravilhoso, muito agradecido mestre!
{ Fim da entrevista}
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