Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Rômulo Fábio Silva Rabelo
Entrevistado por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 01/06/2026
Entrevista n.º: TCP_HV006
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
P1 - Fabão, qual é o seu nome completo, onde você nasceu e que dia foi? Por favor.
R - Meu nome é Rômulo Fábio Silva Rabelo, conhecido Fabão, aqui na região toda. E eu nasci no dia 20/05/1960, aqui na Rua Eduardo Pimentel, antiga Rua dos Padres, ali, que sai aqui na Matriz. Nasci aí, e vivi minha infância, aí. Meus pais, meus irmãos, somos sete irmãos, duas irmãs e cinco irmãos. Aí, convivendo com todos aqui, na época de criança, vivendo sempre aí pelo Córrego Rico. Aí, os pais, às vezes, falam assim, que a gente saía… Eu lembro que nem na escola eu não estava ainda, eu já fugia de casa e ia para tomar banho no córrego. E o pessoal chegava, e para não apanhar, porque os pais passavam a mão assim, e via que você tinha ido tomar banho. A gente passava areia da praia “assim ó”, do córrego, para chegar em casa e eles não ver, né? Que a gente estava fugindo, tomando banho na praia. No Alto do Açude, indo lá pra casa, por ali mesmo. Tomando banho no Alto do Açude. Lá naquele córrego lá do São Domingos, tinha uma cachoeira lá, a gente tomava banho lá. A gente fazia tudo aqui em Paracatu, na época de adolescente, jovens. E a gente gosta muito da área, do turismo, da cultura. Eu sempre sou fã da política pública, não é politicagem partidária. É Política Pública. Que isso que a gente está fazendo aqui, é uma política da cultura, política do turismo. Isso são coisas que envolvem as pessoas, à comunidade, os locais, onde a gente participa. Como eu já participei muito tempo, a gente, meu cunhado, Almir Paraca, que era deputado, foi prefeito de Paracatu. E a gente fez a Rede Mais, que andava Minas Gerais toda, na luta por revitalização das bacias e sub-bacias do Rio São Francisco. Inclusive, a gente criou músicas, a gente ia para os lugares, tocava. Tinha um São Francisco de uns três, quatro metros de altura, com a bacia, com as... Como é que chama aquela árvore? Não é o coqueiro. O Buriti, e os animais. Que meu irmão Marconi fazia, para as pessoas aderirem aos animais da região, né? Aí, a gente andou mais de 60 municípios aí, fazendo essas viagens. Aí, depois veio carnaval, que a gente criou escola de samba aqui em Paracatu. Eu fazia as músicas junto com o Pelezinho, meu amigo. E eu cantava os sambas enredos da nossa escola. Mas aí, começa a vir já a idade, a gente começa a correr. Aí foi criado o Caminho do Sertão, uma parte em cim de uma parte do Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa. Aí comecei a participar, meu cunhado criou junto lá com a turma, e a gente participa dessas coisas culturais. Eu gosto da cultura. Gosto da música. Às vezes a pessoa pergunta: “Você toca?” Toco algumas coisas no violão, eu toco mais, igual a gente tem agora, uma banda que é de samba, “Mistura Brasileira”. E eu toco mais é percussão, certo? E já participei de festivais religiosos, de música, festival da cidade com músicas, a gente participa assim, na luta, na correria. E tudo pelo bem da comunidade, das pessoas. Coisas que falam assim, que são políticas públicas, sobre cultura, turismo, o bem das pessoas, divulgando cada lugar, tem que ser assim. Eu acho que é assim.
P1 - É muito legal você fazer esse resumo Fabão, queria depois, ao longo da entrevista, voltar em cada um desses pontos, dar uma aprofundada. Mas vamos voltar lá para quando você nasceu.
R - Quando eu nasci, eu não lembro, não. Eu lembro muita coisa, até com uns quatro anos de idade, eu lembro, cinco anos.
P1 - Mas te falaram como é que foi? Você nasceu em casa, ou foi em hospital?
R - Foi em casa, que na época, os partos eram feitos em casa. Lá em casa, somente, acho que um dos irmãos, que foi para o hospital, que a mãe foi para o hospital para ter. Todos nascemos em casa. Inclusive, a gente tinha a que a gente chamava de vó. Vó Antonina, que era parteira da época, e a gente chamava ela de vó, Vó Antonina.
P1 - Você conheceu ela?
R - Conheci. Só não conheci mesmo o meu avô paterno. Mas a minha avó paterna, minha avó materna, meu avô materno, todos eu conheci. Só não o conheci porque quando eu nasci, ele já tinha falecido.
P1 - E a família dos seus avós, de parte de mãe, parte de pai, eles faziam o que? vieram de onde? Você sabe?
R - Ó, do meu pai, a mãe veio da região de Juiz de Fora, o meu avô já veio aqui da região de Maravilhas, aqui de Minas Gerais. A minha avó materna é aqui de Paracatu mesmo, das duas famílias de Paracatu. Meu avô, a mesma coisa, materno. São daqui. Aí, gente, viveu aí com as famílias, os primos, amigos, tios, os avós. Como eu disse, só não conheci meu avô paterno, que era o Seu Manoel, eu não conheci. Mas os outros todos eu conheci.
P1 - E você sabe como é que a sua mãe e seu pai se conheceram?
R - Minha mãe trabalhava na educação, e ela estava lá na época de Brasilândia, e meu pai trabalhava no D.E.R, e ela lá, e ele foi atrás dela. Isso ela contava. Ele foi para lá e queria porque queria casar com ela, aí eles começaram. Eles ganharam até uma carona de avião, na época, o Senhor Vevé, que tinha um avião, trouxe eles, se casaram. Aí..
P1 - E trabalhava seu pai no D.E.R, em rodovias e isso?
R - É na parte da rodovia, das estradas. Que depois de muitos anos, que ainda junto com ele, a gente descemos lá, quando estava se criando a rodovia que liga Paracatu-Unaí, aqui por baixo, que ela passava antes no Morro do Ouro, passava por cima lá. Era bom demais rapaz. Eu era moleque, eu já fugia de casa para… Aqui, em frente a Casa de Cultura, aqui era o Colégio Estadual. Aí eu vim, menininho, isso, nem na escola não tava. Vim ver aqui o pessoal ensaiando fanfarra, aqui na porta. E eu tô lá atrás do poste da esquina, assim, quando eu olho para cima, vejo meu pai descendo para o almoço. Descendo do D.E.R. E eu fui escondendo atrás do poste, para ele não me ver, senão ele me mandava embora. Ele passou, ele não me viu. Fui escondendo atrás do poste, assim, fiquei lá. E ele desceu para casa para almoçar. É pertinho, aqui no Santana, aqui.
P1 - E a fanfarra já te chamava a atenção?
R - Chamava. Ixi, coisa que chamava atenção era ver músicas instrumentais. Sempre gostei disso. Meu avô tocava violão. Meu pai, quando eu era menino eu lembro dele tocando gaita, tocava gaita e tal. Meu avô tocava também, cantava. Tem um tio meu, que é o Edson Xandó, ele faz músicas, quem canta as músicas dele é o Amado Batista, aquele Chico Rey e Paraná, já cantaram muitas músicas dele. E os filhos dele, as filhas e o filho, todos cantores também. Tem uma, que é a Priscila, que canta com Amado Batista, viaja direto com ele aí, cantando.
P1 - E me conta uma coisa? Vamos entrar na música. Como é que a música entrava na sua casa? O que vocês ouviam? O que vocês cantavam? Se puder cantar um pouquinho pra gente também.
R - Rapaz, eu gostava muito de ver, a minha mãe cantava… Tem músicas que vêm assim, antigas, que quando canta hoje, eu lembro dela, do meu pai, tudo, assim. Os tios. Eu gosto assim, de música. Não, às vezes, alguma coisa, igual aparece assim como... E tem letras, tem que ter letras, falando as coisas assim. É assim que eu gosto de músicas de verdade, né? Eu também faço músicas. Eu tô até fazendo um livro sobre como se nasceu as ideias de cada música, entendeu? Eu estou criando, para fazer, e até já deu o nome, “Andanças”, “Andanças na vida”. Onde vamos supor, igual o sertão, a gente anda no sertão e tal. Aí, eu criei uma assim: [canta] “Eu sou filho do sertão. Um sertanejo brejeiro. Devagar, seguindo ao longe, no meu caminhar certeiro. Sou um ser tão desprendido. Subo o monte e desço serra, imigrante nessa vida, nos confins da imensa terra. Ser trecheiro é o meu legado, caminheiro desse chão, vivo sempre desligado. Liberei meu coração.” Mais ou menos assim, entendeu? Tem várias outras. Já participei de muitos festivais religiosos.
P1 - E vocês, na casa de vocês, lá dentro de casa, vocês tocavam, vocês ouviam rádio, como é que era?
R - É, a gente às vezes criava uma bateria, alguma coisa assim. Sempre vinham os amigos, como Jeferson Cruz, meu amigo de música, tem aqui o professor Jonathan, tem o Jean, o Rubens. São vários, que vai citar nomes, às vezes, você até esquece de alguns assim. Mas é isso, e a gente sempre criou, gostou de fazer serenatas, de participar dos festivais, criar músicas. É assim, sabe? Em casa, desde menino, a gente canta lá, via minha mãe cantando. Inclusive, eu peguei, tinha uma professora de música… Que mãe encantava, minha avó... Era menininho, sô, fui para Belo Horizonte uma vez, eu e minha irmã e minha avó, nem na escola eu não estava ainda. Devia ter uns quatro anos, por aí. E ela cantava na estrada.
P1 - O que ela cantava, você se lembra de alguma coisa?
R - Ah, aquelas músicas antigas. Para lembrar, assim...
P1 - Não, não tem problema, se não lembrar.
R - Uma hora eu vou lembrando.
P1 - Não, tranquilo, se você lembrar você pede para a gente, pra cantar. Mas me fala um pouquinho das suas primeiras lembranças, Fabão. Se você puxar na memória, o que você lembra assim, das primeiras coisas que você tem na cabeça?
R - Das primeiras coisas que a gente lembra mesmo, assim, da época de criança mesmo, era as folias na praia, no rasgão de Mestre Campos, aqui. A gente furava os barrancos e fazia grutas para esconder lá dentro, brincar. E era isso tudo.
A gente vivia fazendo comédia. Sabe o que é comédia? Quando você entrava para dentro do quintal dos outros para roubar fruta. Porque não falar “roubar”, era comédia. Aí, gente, entrava… Tinha um vizinho, Seu Virgílio Biju, antigo, que tinha uma padaria e tinha uma chácara aqui perto de casa, a gente ia pro quintal dele, fazer umas comédias de laranja, de manga, jabuticaba, de todas as frutas que tinham na época. A gente vivia na... Sabe, não é igual hoje que hoje ficou um tempo mais perigoso, as crianças, tem que tomar cuidado com as crianças, do jeito que tá. Na época, não, criança saía pela rua, jogava futebol na rua, fazia golzinhos, né? Jogava, ia para os córregos tomar banho. Não tinha esses perigos. Tinha assim, briguinha, mas briga de menino. Mas não tinha nada…
P1 - E quem ia com você? Você fala sempre a gente. A gente era quem? Seus primos, amigos?
R - Ó, era tão grande a turma nossa ali na rua, que dava times de futebol assim, para jogar na rua, golzinhos, que dava três, quatro times. Era tanta gente, tanto menino. Nossa, aquela rua nossa era cheia de menino. Aí, chegava gente de fora, mudando. Teve uma turma que morou aqui, lá da Paraíba, sabe? Veio morar vizinhos lá de casa. Tem várias pessoas, de vários locais. Assim, como meus avós paternos não são daqui, né? Então… Mas, é a vida, que a gente… em busca assim, sempre de coisas boas. Eu gosto de coisas boas. Às vezes, uma boa, que pra mim é bom, não é bom para você. Mas, eu não vejo assim… Agora, maltratar as pessoas, eu não gosto, não gosto.
P1 - É onde que era essa casa da sua infância? Como que ela era? Se eu fosse entrar dentro dela agora, como que ela era? Onde que ela era, o endereço?
R - Era aqui na rua… hoje Rua Eduardo Pimentel, mas antes era Rua do Sacramento, depois passou Rua dos Padres, sabe? Eu morava na Rua Eduardo Pimentel, número 203. Lá eu nasci, e depois do ano 2000 a gente mudou de lá, quando meu pai faleceu, a gente mudou. E hoje a casa não é mais nossa. Mas…
P1 - E era todo mundo, todos os seus irmãos, sua mãe e seu pai morando juntos?
R - Todos morando juntos. E ainda tinha uma coisa, a minha mãe acolhia muito as pessoas, igual as meninas, vinham para estudar.
P1 - Muita gente, né?
R - É, como eu estava te falando, a minha mãe acolhia muitas pessoas. Aí, vinha, igual teve uma, que veio para trabalhar na Campo, lá de Coromandel. Aí, uma amiga nossa, ela pediu a minha mãe, ela acolheu, ficou lá em casa um tempo. Aí veio duas lá de Porteirinha, fazer faculdade, nós acolhemos, cedemos um quarto lá para elas. Depois elas se formaram, uma foi morar lá para o norte do país. A outra voltou para a Porteirinha. Tinha umas amigas aqui, que a mãe, o pai, tinham fazenda, ali perto de Guarda-Mor, por ali. Elas ficaram lá em casa, depois os pais mudaram para cá, aí elas foram. E minha mãe sempre acolheu as pessoas. E tem hoje a contadora, que criou pra mim um MEI, sabe? Quando ela falou: “Fábio, não é possível.” A mãe dela, dona Conceição, trabalhava lá em casa. E era menina e tal, e o pai dela abriu um armazém do lado lá de casa, e eles se conheceram, casaram e hoje tá aí.
P1 - E me fala um pouquinho… O nome da sua mãe? O nome do seu pai? Como que eles eram?
R - Minha mãe, Joanita Silva Rabelo. Meu pai, João Pinto Rabelo. Eles eram um casal muito unidos, sabe? Às vezes meu pai, igual, ele trabalhava no DER, como tinha que cuidar da parte das estradas, tudo, ele ficava muito tempo fora, e ela em casa, trabalhando. Era costureira, cozinhava, vendia almoço, inclusive o pessoal do D.E.R., os motoristas, os funcionários, que não tinham casa aqui ainda, almoçavam lá em casa. Então, lá em casa era tipo um restaurante. E a gente aproveitava isso tudo. Um deles foi padrinho da minha irmã Glória, o Joaquim, lá de Porteirinha também. Aí, a coisa assim, a gente conhece as pessoas às vezes lá dentro do Paraguai, rapaz! Quando eu vi, assim, tava eu e o meu meu amigo, ele se escondendo. “O que que foi?” Ele: “Fulano ali, assim.” Conhecendo as pessoas lá dentro do Paraguai, que é aqui de Paracatu, a gente se encontrava lá. Aí, eu estava indo para São Paulo, com a minha irmã, minha sobrinha morava lá, e aí, paramos num pedágio. Quando eu olho assim, eu brinquei com outro rapaz. “Ê Geraldinho!” Até Rabelo também é meu parente. Aí, o namorado da minha sobrinha, que estava do lado. “Ah, Fabão conhece todo mundo, tudo quanto é lugar.” E ele está morando lá em Uberaba, né? Você passa assim, nas estradas… Igual assim, você, sabe? É bom demais você conhecer as pessoas e tratar bem, ali também. Assim, você tem que fazer pelas pessoas o que você quer que façam por você. Então, se você quer se sentir bem, você tem que fazer as pessoas se sentirem bem. E eu gosto disso.
P1 - E você começou a cantar, a cair na música, desde pequeno? Como é que foi isso?
R - É! Aí sempre gostei de cantar. Aí um amigo meu, Delto, a gente era da turma de grupo de jovens, fomos os jovens Vicentinos e tal. Aí, descendo a rua, que ele me falou: “Fabão, estou precisando de uma ajuda sua.” “O que que foi?” “Eu quero criar o Festival da Canção Religiosa aqui em Paracatu e tal, da Igreja Católica. E eu queria que você me ajudasse.” Falei: “Como?” “Participando da coordenação.” Falei: “Não, eu quero participar assim…” Se você participar da coordenação, você puser música, já vem aquela coisa, “não…” “Não, eu quero fazer música. Eu participo fazendo as músicas.” Aí, comecei a criar as músicas religiosas junto com meu amigo Jefferson Cruz, o Eduardo Conceição, também era do grupo de jovens. E a gente ia cantar nos festivais.
P1 - Você começou pela igreja, então.
R - Eu cantava qualquer coisa, mas aí eu já passei a fazer músicas religiosas para participar dos festivais. Inclusive, no ano 2000, eu fiz um CD, com Piola, lá em Belo Horizonte, e a gente criou o CD, as músicas são de autoria minha, do Jefferson, do Eduardo Conceição. Tem uma do meu irmão Marconi, tem uma participação de Glória e Almir, que era minha irmã e meu cunhado, e participaram. E tem uma outra com Antônio, lá do Paracatuzinho, um amigo que trabalhava comigo na Ressolar Pneus. Falei: “Olha, essa aqui, eu fiz a letra, você vai criar a música, vai criar a canção, para a gente participar do festival musical. Foi assim, os parceiros. Eu gosto de fazer parceria. Parceria é bom demais.
P1 - Mas isso começou no grupo de jovens da igreja?
R - Da Igreja Católica.
P1 - Você era adolescente nessa época.
R - Era. Não, adolescente, vinte e poucos anos já. Sou velho.
P1 - Entendi! Você estudou onde, você e seus irmãos, aqui em Paracatu?
R - Estudei no colégio, primeiro foi no... Ó, para você ver como que são as coisas. O Grupo Escolar Doutor Sérgio Ulhoa, era aqui, na Casa de Cultura. Quando eu fui entrar para a escola, ele já mudou lá para a nova sede. Fiz lá o grupo escolar, depois fiz no Estadual, Colégio Estadual, o primeiro grau, o segundo grau, e terminei no Dom Elizeu, o segundo grau, fazendo técnico em Administração de Empresas. Aí, eu fui para Belo Horizonte, falei: “Vou fazer uma faculdade.” Só que eu tinha feito um concurso no D.E.R. Quando eu ia fazer a inscrição lá no cursinho, para fazer o vestibular, me falaram: “Ó, você vai para Paracatu, que vão chamar vocês.” Eu vim para Paracatu esperando, e não me chamaram. Aí, eu fiz o vestibular aqui, na nona época, sobre engenharia biológica. Fazer biologia. E eu passei. O pessoal ainda ficou alegre: “Você vai vir, vai…” Só que aí, eu trabalhava com a minha irmã, ela tinha que ir para Belo Horizonte. Aí não vai dar certo. Eu não fiz minha... Mas tá bom! As coisas... Tem muitas coisas que eu falo assim: “Às vezes a gente vive uma vida, podia ter vivido outra. Mas se não vivesse a vida… Igual, assim, se eu tivesse ido embora, eu estava morando em Belo Horizonte. Meu amigo João Bosco, me chamou: “Vamos montar aqui…” Na época que surgiu os celulares. “Vamos montar.” E montamos uma firma, que aí eu tinha que ir ao Paraguai direto, comprar os aparelhos e trazer pra vender. Aí, se eu fosse fazer um vestibular e passar, eu não ia conhecer a Argentina, não ia conhecer o Paraguai, não ia conhecer vários lugares, né? Então, é assim. São coisas que às vezes você fica assim: eu não pude fazer isso. Mas a vida te mostrou outro lado. E é bom. São coisas que me fizeram crescer, entendeu? Hoje mesmo eu peguei e falei, assim: olha, nessa época da empresa, tiramos as carteiras de motorista. Aí, hoje eu faço o quê? Hoje eu viajo com as pessoas. Já fui em tantos lugares nesse Brasil todo aí, levando as pessoas. E fico aí nessa vida. E canto, e gosto de cantar. É isso.
P1 - Vamos voltar para a igreja. Como foi que você começou a ir para igreja? Qual é a relação que você tem com Deus? Com a Igreja?
R - A igreja eu fui porque os meus pais nos ensinaram, a gente morava perto da matriz aqui, tal. Tinha o Frei Pedro, na época, Frei Bocardo, Frei Vítor, que eram sempre amigos da gente, iam para as roças com a gente, buscar jabuticaba lá no sítio do meu tio. E a gente conviveu. Meu tio, tinha um tio que era um padre, mas assim, ele não era de celebrar missa, ele trabalhava catequizando os índios lá no Paraguai, aquela turma.
E a gente cresceu assim. Só que hoje eu não sigo religiões, eu sigo Deus. Igual uma senhora me perguntou: “Mas você segue qual religião?” “Não, não tenho religião hoje.”
Ela falou: “Você é ateu?” “Não, ateu é que não acredita em Deus. Eu acredito em Deus. E se você me chamar para ir na sua, eu vou. Se o outro me chamar… Eu vou em qualquer uma.” Aí ela falou: “Não, porque eu sou evangélica.” “Se você me chamar, eu vou. Católico me chamar, eu vou. O espírita me chamar, eu vou.” Não tem isso. Eu vou aonde for para falar de Deus e ajudar as pessoas. Eu gosto é de ajudar as pessoas. Eu não tenho essa coisa assim, de... “ah, porque…” Igual eu vejo hoje muito. Muitos hoje estão usando, isso é bíblico. Usando o nome de Deus para se beneficiar em cima dos outros. Aí eu sou contra. Sou contra, pode até me expulsar do lugar. Outra coisa que eu procuro entender, igual, eu vejo assim, sobre a mulher, que a mulher foi criada da costela. Se você for ver o nome no aramaico, “Tsela”. E “Tsela” usa, não é um pedacinho da costela, é um lado, “ao lado do homem”, sabe? É igual, assim, se fala assim: “Nós somos a imagem e semelhança de Deus”. Por que o homem é mais e a mulher é menos? Então, se você for ver o Pai nosso que Jesus orava na língua aramaica, é “Abwoon d'bwashmaya”. Ab, Aba e Woon… A é de aba, woob, de ventre. Pai e mãe do Cosmo. Pai e mãe da vida. Origem nossa. Sabe? Aí as pessoas usam… Aí, eu falo, muitas vezes até mulheres não aceitam isso: “É porque a Bíblia!” Não, porque às vezes, na tradução da Bíblia eles pegam, põe uma coisa para dominar, certo? Dominar. Então, põe o domínio masculino. Não, a mulher e o homem são iguais. Se nós somos imagem e semelhança de Deus, por que o homem é Deus e a mulher é um ser inferior? Não é! Não é! É um igual. Tanto que fala da Tsela, da Tsela, que é traduzido como costela. Tem várias passagens na Bíblia que tem a Arca de Noé, a arca… Aquela arca que sumiu, que nem acha a arca. Aí, em cada lugar tem a palavra Tsela, e é o lado. Deus fala com Noé, “do tal, Tsela.” Você tem que fazer um lado que complementa o outro, a mulher e o homem são complementos um do outro, sabe? Então, como que vai gerar a criação, se só tem um macho? Ou se só têm a fêmea? Então, tem que ter um completando o outro. E por isso que os homens devem respeitar as mulheres, sobretudo. Fala assim: “Porque mulher…” Não, mas a mulher foi criada na época, porque na época que cresceu era aquela coisa de muito pesado pra mulher trabalhar, igual trabalhava naquela época carregando tantas coisas pesadas, e a mulher gerando filhos, como é que ia fazer isso? Tinha que cuidar da casa, fazer um alimento para o marido a hora que chegasse, para os filhos, certo? Então, é isso. É um o complemento do outro. Nós não somos superiores a mulher nenhuma. E nem as mulheres são superiores a nós. Somos iguais. E isso é que tem que haver. Às vezes as pessoas que seguem... “Não, pra mim não tem essa coisa de que o homem é o descendente de Deus superior, não, que criou da costela, não. Criou Tsela, que é o lado. Um lado. É o complemento um do outro. Não é a mulher o omplemento do homem não, os dois se completam, se complementam. Entendeu? É isso.
P1 - Agora me fala das suas primeiras composições. Elas foram nessa época do festival. É isso?
R - Não, mas eu já tinha assim… Já fazia antes e tal. Mas aí, como apareceu o festival religioso. Aí eu comecei a aplicar mais no lado religioso. Mas depois, aí, a gente vai crescendo e vai se desenvolvendo. Aí, foi aparecendo outros lados, não só o lado... Que a gente não tem que viver só o lado religioso. A gente tem que viver é a complementação da sua vida no mundo todo. Aí, como perguntaram pra mim, volto até para o lado religioso. “Qual a religião de Cristo?” Não tinha nenhuma religião. Tanto que os religiosos, chefes da época, é que se implicaram com isso e foram matar ele. Certo? Porque ele mostrava as verdades. A gente tem que entender a verdade que é a nossa vida aqui na terra.
P1 - Mas você lembra de alguma composição que você fez na época, de música religiosa?
R - Lembro, tenho até um CD. Tem uma que eu falo que é assim: “que o ser humano tem o direito de viver, e o ambicioso toma tudo em seu poder.”
Ela é assim: [Canta] “O ser humano tem direito de viver. E o ambicioso toma tudo em seu poder. Milhares de pessoas vivem sempre a mendigar, vivendo pelas ruas sem direito, sem um lar. É hora de gritar pro mundo inteiro ouvir, que é tempo de amar, ainda há tempo pra sorrir. É hora de gritar pro mundo inteiro ouvir, que é tempo de amar, ainda há tempo pra sorrir.” Entendeu? É isso! E outras que eu fiz assim, até gosto, cantei lá para o Dom Leonardo, em homenagem a ele. Nos velórios das amigas, dos amigos, eu gosto de cantar ela. Que ela é assim: [Canta] “Você é uma parte da flor que espalha a semente do amor. Você é um pedaço do céu que lança na terra o seu mel. Não mate nunca essa flor que tem a semente do amor. Não suje nunca esse céu, não torne impuro esse mel. Jesus é raiz dessa flor…” Esqueci… Mas é, sabe… São músicas que eu faço, que essas músicas hoje se chamam Gospel, mas na época, eram músicas religiosas, músicas. Então… Eu não tenho assim, hoje, uma religião. Se me chamar eu vou em qualquer uma, não tenho preconceito contra nenhuma.
P1 - Como é que começou, Fabão, essa coisa do carnaval aqui em Paracatu? O que você viu desde pequeno e o carnaval que você começou a construir também?
R - Aqui em Paracatu tinha o carnaval desde pequeno, tinha o Jóquei Clube, e tinha o Automóvel Clube, onde hoje é a Casa Paracatu. Aí ficava aquela disputa, sabe? Aí, eu lembro que uma vez saiu um bloco do Jockey Clube, subiu passando pela Rua Goiás, e encontrou com o bloco do Automóvel Clube, e começou uma briga, uma discussão. Falei: “Gente, pra quê isso?” Aí descemos. Aí, a ora que você ver a história do carnaval de Paracatu, do Jóquei Clube, que na época não podia pretos e pobres participar, nem chegar na janela para olhar. Tanto isso, que fizeram o filme o S.O.P, o Saca Rolha, antigo. Aí, o seu Luiz de Darilo, que é o pai dos meus amigos, do Lula, do Dário, da Dona Amélia, da Catita, de vários... Que falar todos tabém. Como ele era sanfoneiro na época, ele disputou. Sabe quem passou em Paracatu e disputou com ele? Foi uma disputazinha. É o da sanfona nordestina, Luiz Gonzaga. Luiz Gonzaga passando e eles tocando, aí, uma coisa que ele fez, o Luiz Gonzaga não deu conta, que é tocar o hino nacional com sanfona aqui atrás. Luiz Gonzaga não deu conta. E queria levar ele, mas como ele tinha família, ele sempre lutando pela família, pela comunidade. Aí ele quis criar uma sociedade, um clube, para poder atender. Igual tem a música dele, depois vou cantar para você ver, que ele fez com um parente dele. E ele criou o S.O.P - Sociedade Operária Paracatuense, onde podia entrar, não tinha preto, nem branco, qualquer um podia participar. Era lá no Santana. E foi feito esse filme, vai ser lançado. E na época, o Seu Joaquim, que era o prefeito, até avô do Vasquinho, que foi prefeito aqui, que falou: “Olha, você não pode fazer isso sozinho, você tem que ter uma comunidade, uma turma para fazer uma associação. Aí, ele chamou os parentes, os amigos e criaram a S.O.P. Aí, como dançava muito carnaval e cantava muita [Canta] “Saca, saca, saca rolha.” Aí puseram lá, deram o nome de Saca Rolha. Aí ele até criou a música. [Canta] “S.O.P, nós não temos outro igual. Nós queremos dançar o carnaval, nós queremos dançar o carnaval.” Aí a letra tem uma outra parte que fala: [Canta] “Do cordão dos operários, todos nós somos iguais, não tem preto, não tem branco, todos somos...” É assim. Depois eu pego a letra dela corretamente, cantar para você ver. Então, são as coisas que a gente gosta, é de que o ser humano tem que respeitar um ao outro, na cultura, no turismo. A gente tem que, no turismo, respeitar o ambiente, sabe? Porque o mundo, a gente veio com tudo isso aqui, só que aí a ganância humana vem e começa a desmanchar tudo.
P1 - Agora, o Automóvel Clube, ele era também fechado para pretos ou não?
R - Até que na época que eu lembro já não tinha mais isso, porque aí já podia ir pretos, brancos. Na nossa época, na época minha mesmo, não tinha isso não. Mas antigamente tinha. Isso foi antes, na década de 50, que aí fizeram. Depois… Aí quando criaram a S.O.P, olha para você vê, aí no filme, pediram para eu falar alguma coisa lá no local. Aí, quando eu falei assim… Olha, para você ver que coincidência. O clube S.O.P, que era dos pobres e pretos, fica de frente com o Rosário de São Benedito, que é a igreja também, que só podia ir pretos e pobres, é um de frente para o outro lá. Tanto que um abençoando o outro. São coisas que você pensa assim: “Nossa!” Tem que parar para pensar nas coisas boas da vida, né?
P1 - A sede é o bar, Saca Rolha, é isso?
R - Não, não. Aquele não. O Saca Rolha antigo, era lá onde tem aquela bicicletaria ali e tal. Só que aí o pessoal depois quis homenagear e criou já aqui na parte de cá, o Saca Rolhas lá. Mas não era. Que na verdade era o nome que eles puseram do Saca Rolhas, mas é S.O.P - Sociedade Operária Paracatuense, porque pretos e brancos não podiam. Pretos e pobres não podiam vim… Sabe por que não podia? Tem a Dona Benedita, que é filha do Zé Pipoqueiro, que fazia parte, ela foi olhar na janela do jóquei e os seguranças tiraram ela, que não podia. Eu fiquei sabendo de outra história aqui, da mesma coisa, de um pessoal desses que o Senhor Zoti, Zoti André. O Senhor Zoti André, o irmão dele, a família dele era branca, mas o irmão dele casou com uma negra, preta. Casou com ela e o filho nasceu mais para o lado preto. Aí, ele foi fazer a mesma coisa, não podia. O tio dele com os filhos podia entrar, mas ele não podia nem chegar na janela, porque ele tinha a cor escura. Olha que coisa, que coisa mais besta! Mas é o ser humano, né? Que se acha. Aí, quando a gente vê, depois de muito tempo assim, alguém sofrendo na vida, no final, todo mundo. “Nossa, isso…” Mas vai lá ver. Às vezes uma arrogância dessas, no final… É aquele negócio, você planta tomate, você vai colher tomate, você não planta pimenta e vai colher tomate, não. O que você plantar, você vai colher. É isso.
P1 - E quando você começou a pular carnaval, você foi para qual agremiação? Como é que se fazia o carnaval na época que você começou? Enfim…
R - Aí, assim, a gente pulava carnaval, vinha para a rua Goiás, aí passava os blocos. A gente pulava em vários lugares, isso quando eu era criança. Depois fui crescendo e meu cunhado, e Mauro Lúcio, um amigo que era secretário, na época. Ele falou: “Vamos criar aqui em Paracatu uma escola de samba.” E criou, a do Santana, Boca Preta. Aí a gente saiu, foi Dário, Dário Alegria, que foi jogador de futebol, fizeram a música e nós fomos cantar, e criou-se. Depois desse ano, aí já passou Pelezinho, que veio dar muito… A primeira escola de samba que eu vi desfilar aqui em Paracatu, foi com um senhor que era lá da... Como é que chama aquela? Onde hoje é da Morro Agudo, anexa lá. É lá que criaram, e ele era carioca, e ele criou. E Pelezinho trabalhava com ele e criaram. Aí depois, o Pelezinho veio, participou com essa lá do Santana, aí depois ele ajudou criar a do Alto do Córrego, que era a Arca de Noé. Aí, depois ele falou: “Vou criar um Novo Horizonte.” Falei: “Tô junto!” E criamos a Novo Horizonte. Aí, depois veio o negócio do governo com coisa, e começaram a... Não sei por que que foi, acabaram com as escolas de samba. E era uma coisa que trazia gente, sabe? Já vi gente vindo do Rio de Janeiro para ver os desfiles aqui. Aí, a nossa escola foi convidada para tocar, fazer uma apresentação lá em Uruana de Minas. Aí nós fomos. Quando a gente fez tudo lá, que acabou, que a gente estava saindo, indo embora. O pessoal, “de onde é isso?” Falei: “Paracatu.” “Mentira! A gente achava que só tinha no Rio e em São Paulo.” Entendeu? Mas é porque a televisão sempre mostrou o Rio e São Paulo. Belo Horizonte sempre teve, Paracatu sempre teve, mas não tem essa fama, não tem esse reconhecimento.
P1 - E para quem nunca viu esse carnaval de Paracatu, que também você falou que está um pouco… Esse Paracatu não está tendo mais. Como que era o desfile, as roupas, as músicas, carros? Enfim…
R - Tinha os carros alegóricos, tinha igual às escolas do Rio e de São Paulo, tem as alas tudo, baianas, ala disso… Tinha a ala da capoeira, ala de tudo. Você lembra disso? Lembra, não? Não lembra. Devia… Desse tamanhozão sim. Aí do São Domingos, tudo a gente… Aí tinha todas as alas, tinha que ser completo, igual as escolas do Rio e de São Paulo. Aí tinha a bateria, a dançarina, tinha as meninas, a rainha da bateria, rainha disso, daquilo, da abertura. E eu, o bobo, ia cantar os sambas enredos, tinha que fazer os sambas enredos. E a gente homenageava. Homenageou a Coopervap. Homenageou a primeira vez que foi, Joaquim Barbosa, que é de Paracatu. Fritz, ele foi presidente do STF, e é de Paracatu. Pelezinho, falou: “Vamos fazer uma homenagem a ele.” Fizemos. Tanto que ele não pôde vir. Na época, ele era o presidente do STF, e para ele vir, ele tinha que ficar num lugar separado, protegido pela Força federal. Ele não podia ficar no meio, na época. E é por isso que ele nem veio. Mas era assim. Aí tinha as escolas, eu lembro de umas quatro escolas que tinha aqui, Tinha a do Novo Horizonte, a Arca de Noé, tinha a… Lula criou uma lá do Paracatuzinho. E tinha uma outra que eu não estou lembrado. Eram umas quatro. E era assim, tinha disputa, disputava os desfiles.
P1 - E teve algum desfile, algum samba enredo que mais te marcou? Se puder contar essa história para a gente.
R - Tem muitos, rapaz! A gente tinha também os blocos. E a gente tinha o “Pão Molhado”, que foi meu cunhado, era deputado em Belo Horizonte, aí viu um lá, e quis criar um em Paracatu. Aí veio “Pão Molhado”, depois tinha as… Como é que é? Que os homens vestia de mulher. Até esqueci o nome.
P1 - Caretagem?
R - Não, de blocos de carnaval... “As Bregas”, sabe? Aí depois Jeová Andrade criou o dele, Jefferson criou a “Turma do Beco”. Aí foi criado vários blocos em Paracatu. Silvano criou o “Caminho do Tempo” lá, Silvano Avelar, que a gente participa. Participo com ele no Bloco, participo com ele na Serenata, e a gente faz parte também do Coral Stella Maris, que é o Coral de música no Paracatu, participa. Tudo que falou que cultura, precisou. Uma vez eu estava aqui, aí a Janaína. Janaína? Uma que foi presidente aqui. Ela falou: “Fabão, preciso de uma ajuda sua.” “O que que foi?” É que na época de Marina Cunha, era secretária de Cultura. E aqui era Dona Lana, Presidente da Casa de Cultura, aí a gente busca, na época, era até o presidente Lula, e quem era o ministro da Cultura era o Gilberto Gil. A gente foi lá conversar com o assessor dele, e ele veio fazer… Quando ele chegou aqui, que ele olhou lá pra fara. “Que lugar lindo! Como é que chama isso aqui?” “Isso aqui é o Largo da Jaqueira.” Falou: “Aqui que é o lugar de fazer um carnaval de outrora.” Aí foi criado. Ele falou com Marina. Marina foi e falou com Vasquinho, que era o prefeito na época, minha irmã era vereadora, Glória. Falou: “Não, pode fazer que eu arrumo o dinheiro. Faz o projeto.” E arrumou e criou-se o carnaval de outrora. Aí ela falou: “Fabão, eu estou querendo uma ajuda, que eu quero fazer o “Grito de outrora” aqui. Aí, fizemos a reunião. Fizemos a reunião aqui embaixo. “Qualquer coisa…” Falei: “Não Juliene! Juliene, faz o seguinte: cria o grupo.” Aí criou o grupo no WhatsApp, falei: “Agora a gente tem que fazer um uma chamada.” Aí criei um... como é que fala? Não é um jingle, é essa música.. Não é um samba. De carnaval. Não, não é samba enredo, não. Marchinha. Aí fiz a marchinha daqui, fizemos a chamada, e lotou também. Entendeu? E o Pedro, que é o nosso prefeito atual, que é um fã da cultura, eu gosto demais dele, que ele é um fã da cultura. O Igor esteve aqui, o Igor Diniz. E a gente está aí, precisou pra cultura, nós estamos indo junto.
P1 - Mas vamos voltar, antes de falar do carnaval de outrora, vamos voltar pro carnaval daquela época. Você me conta, tem algum samba enredo que você cantou, você compôs, algum desfile que foi especial por algum motivo? Você me conta essa história?
R - Tem vários. Tem um que assim, até o Urbano de Sá, o irmão dele, era o presidente da Coopervap, aí como a gente tinha feito uma homenagem ao Joaquim Barbosa, o Fritz. Aí, ele pegou e falou: “Ah, Fabão, vamos fazer uma homenagem Coopervap.” “Vamos, ué!” Aí eu liguei para o Pelezinho, que é o presidente, e ele ligou para o irmão dele, que era o presidente da Coopervap. Quando eu estou conversando com o Pelezinho, o Pelezinho. “Fechado!” Falei: “Então está fechado, que aqui também está.” Fechamos, fizemos a homenagem a Coopervap. É bom demais, a gente faz homenagem a tudo. Tem uma que Pelezinho, esse samba é até Pelezinho, fala lá do São Domingos.
P1 - Como é que é?
R - Aí eu tenho que pegar, que tem tempo, viu? Tem tempo, aí eu tenho…
P1 - Tem algum samba enredo que você lembra de cabeça agora, que você cantava na época? Para a gente registrar.
R - Tem, do Novo Horizonte, que até, no último carnaval que teve, ele estava cantando lá com a banda do Tassin, aí o Pelezinho, acompanhando o bloco da Janaína, me pediu: “Fabão, quando a gente estiver chegando lá, você canta um samba da nossa escola, pra gente passar tocando.” Aí cantei, que foi. [Canta] “Eu sou verde e rosa, coração batendo em alto astral. Eu sou Novo horizonte, linda magia que nasceu no carnaval. Eu sempre busco meu novo horizonte…” Aí eu tenho que lembrar a letra, porque tem tempo, né? E outra, sabe que eu fui cantar ela, para lembrar a letra, eu pus meu celular aqui tocando ela e eu cantando ela. Aí o pessoal, “ele é doido?” [Canta] “Na avenida vou extravasar, mostrar um amor que eu sempre sonhei. Novo Horizonte eu sempre vou te amar, pra sempre verde e rosa eu serei. Minha alegria. Eu sou verde rosa. Coração batendo em alto astral. Eu sou Novo Horizonte, uma magia que nasceu no carnaval. Eu sou cor de rosa. Coração batendo em alto astral. Eu sou Novo Horizonte. Linda magia que nasceu no carnaval. Eu sempre busco meu Novo Horizonte, é a luz que brilha no meu coração. É paixão. Contigo nada mais me importa.”
P1 - Tá pegando a letra?
R - Não, é só pra lembrar na hora, porque você cantar sem ela assim… “... um amor que me inspira confiança. A lua e o sol vive a simplicidade. Eu canto e sinto o canto da esperança. Bate no peito…” Esse aqui é do “Pão Molhado”.
P1 - Do bloco, né?
R - Do bloco. [reprodução da canção ao fundo] “tem a massa folhada, amassa tudo, não amassa nada. Olha o namorado aí, gente!
P1 - É o Pau Molhado?
R - Pão. Pão Molhado, não é molhado não. Molhado. Mineiro tem mania de falar ”moiado”. [som ao fundo]: Já Cavaco. Vou mandar para você.
P1 - Manda essas duas.
R - [acompanha cantando a canção que toca ao fundo]: “É meu bem querer singular. Sem você, serei sempre impar, amor. Com você, farei sempre um par. Canta, dança, briga, me abraça…” É tanta que a gente até esquece a letra. [continua cantando] “é um pão.. Eu sempre busco o meu Novo Horizonte, é a luz que brilha no meu coração, é paixão. Contigo nada mais me importa. Você é sempre a minha escolha.”
P1 - Mas me fala, nessa época vocês andavam por onde? Tinha um trajeto?
R - O bloco Pão Moiado, a gente saía… às últimas vezes a gente saia de Santana, só passava por aqui, assim, passava nas avenidas e ia lá para a antiga prefeitura, ali em frente ao fórum, naquela praça e lá terminava, por ali. Agora, as escolas de samba, saía lá por cima do Jóquei Clube e descia a avenida até chegar no mesmo local, aqui na praça, onde tinha o palco dos jurados, das autoridades, dos repórteres, dos homenageados. E parava por ali.
P1 - E qual é a diferença da escola de samba para o bloco?
R - A escola de samba tinha que ter todas as alas, e é samba enredo. Bloco não, pode ter samba enredo, pode ter marchinha, pode ter todos os tipos assim. Às vezes, você canta várias músicas, por causa do tamanho do trajeto. E esse ano mesmo o Bloco do Passeio pelo Tempo, do Silvano, saiu do Santana e veio homenageando o Saca Rolha. E ele fez a música e tal. E os blocos não tinha isso, agora, a escola de samba tinha os desfiles, cada hora da sua escola, às vezes os blocos até se encontravam, sabe? E as escola de samba não, descia uma, depois vinha outra. Ficava todo mundo lá em cima, no pé do Jóquei. Aí, quando era a vez de cada uma… Esse é um desfile mesmo. Agora o bloco já é diferente, as pessoas saem caminhando por qualquer lugar, você que escolhe o local de onde você quer sair, entendeu?
P1 - E como é que foi essa iniciativa do Carnaval de Outrora? Por que era “de outrora”? O que aconteceu?
R - De outrora, porque o pessoal no carnaval de hoje, aqui em Paracatu, eles põem tudo quanto é tipo de música hoje e tal. Aí o pessoal mais antigo quer marchinhas, sambas de raiz, essas coisas. Aí criou-se o carnaval de outrora, inclusive o secretário lá do ministro Gilberto Gil, na época, veio, falou: “Aqui que é o lugar para fazer o carnaval de outrora.” Que é carnaval de marchinhas, de samba raiz, sabe? De coisas antigas. Aí o pessoal fez aqui, lotava, as pessoas. Mas assim, é bom que no carnaval de outrora, como vem as pessoas mais antigas, você não vê muita confusão. E lá em cima, onde é carnaval aberto, qualquer tipo, qualquer música. Aí já tem que ter segurança. Aqui não, aqui já é mais tranquilo. Carnaval de outrora, aqui em Paracatu, é lindo. Estou te convidando aqui, viu? Pra você vir uma vez aí.
P1 - Claro.
R - O pessoal vinha e queria… Já veio gente do Rio de Janeiro, e pedia para desfilar na escola de samba. As pessoas ainda falavam: “Mas isso a gente achava que só tinha no Rio, em São Paulo.” Nem em Belo Horizonte ninguém falava, porque não passava nas televisões.
P1 - E qual é a sua conexão com a Banda Lyra.
R - A Banda Lyra, eu participo da Seresta, de Serenata. E têm a banda Lyra, que é dos instrumentais, das pessoas. Eu participo junto também. A ligação é assim, eu participo, tenho amizade com o pessoal de lá a muitos anos, desde os primeiros. Mas assim, é por causa, às vezes, por causa do trabalho… Eu já até falei com o presidente lá que eu ia lá para participar, mas às vezes eu tenho que viajar, fica difícil.
P1 - Mas você participa da Banda Lyra faz muito tempo já? Como é isso?
R - Ah, tem um tempinho. Não tem muito tempo, assim, não. Fui convidado pelo Silvano, pelo Redelvino, que é meu primo, trabalha lá, ele toca lá, ele é pandeirista, toca instrumental lá. E tem o Jeferson Cruz que toca sopro, né? E tenho vários amigos lá, tal. São, assim, conhecidos, parece nota de R$1,00, todo mundo conhece. [risos]
P1 - Mas a Banda Lyra, só para quem não sabe, vai ver essa entrevista depois. Ela toca o quê? Aonde? Qual é o centro dela?
R - Você fala assim… Tem a Banda Lyra que toca o instrumental, toca em todas as festas, inclusive essa época atrás teve em Belo Horizonte, já foi em Diamantina, tudo, fazendo essas coisas. Agora, a Serenata, que é só nós, aí toca as músicas antigas, escolhe a época, igual, teve o Dia das Mães, aí teve os dias, igual foi do Leonardo, ele é lá de Diamantina, a gente foi convidado, tocou umas músicas que ele gostava muito lá na época de Diamantina. É assim, depende do que for. Igual, agora, dia 12, vai ter a serenata do Dia dos Namorados. Aí tem as músicas que vai. E vai parar aqui na Matriz, onde vai ter a barraquinha de Santo Antônio. A gente vem, para, e canta todo tipo de música. Ainda tem uma que eu fiz até, que foi na época para um samba, foi o último que eu homenageei Paracatu. Eu vou cantar essa para vocês depois. Aí, o prefeito, o pessoal, a Câmara, o prefeito, acabaram com o Carnaval, com as escolas de samba. Mas aí, num dia, no desfile da Fundação Conscienciarte, o Pelezinho me chamou, pediu e eu cantei essa música do Paracatu lá no palco, enquanto o pessoal da bateria da Conscienciarte, da Fundação Conscienciarte passou tocando, pararam, e aí a gente ensaiou, e cantamos juntos lá.
P1 - Você quer cantar? Você está com ela na ponta da língua?
R - E assim: [canta] “Paracatu preserva as suas tradições na alegria dos casos contagiosos. São ricos os passos da nossa história, valores culturais e religiosos. Lembranças felizes do nosso povo. O contar alegre do nosso passado. Como é rica a nossa cultura. A nossa gente apresenta o seu legado. Em Paracatu se dança a caretada, a folia de reis e o maculelê, a tapuiada, e a dança dos pauzinhos, a serenata é coisa linda de se ver. Em Paracatu se dança a caretada, a folia de reis e o maculelê, a capoeira e a dança dos pauzinhos, a tapuiada é coisa linda de se ver. Nossa cidade e os seus casarões, na arquitetura o barroco colonial, com suas ruas, seus becos, suas travessas, mostrando sempre seu acervo principal. E a alma não se entrega à caminhada, a energia que emana do coração, irradia em nosso santuário, com alegria vou cantando meu refrão. Em Paracatu se dança a caretada, a folia de reis e o maculelê, a capoeira, e a dança dos pauzinhos, a tapuiada, é coisa linda de se ver. Em Paracatu se dança a Caretada, a Folia de Reis e o Maculelê, a tapuiada e a dança dos pauzinhos, a serenata é coisa linda de se ver.”
P1 - Nossa! Resumiu a cidade toda nessa letra!
R - A gente espera para fazer um samba enredo para ser a última vez, aí a gente estava até ensaiando, mas aí cortaram as escolas de samba, e não teve. Eu não sei porque. Mas eu conversei com o prefeito Pedro hoje, Pedro Adjuto, e ele falou: “Não Fabião, a minha grande vontade é de voltar com as escolas de samba, com os blocos, com o carnaval com mais força ainda. Era muito bonito. Além de cultura, turismo, que vinha gente, sabe? Depois que acabou as escolas de samba aqui, pessoal que era de Paracatu, mas moravam fora, passou a ir para outros lugares, foram para Pires do Rio, foram para outros lugares, em Goiás, para Belo Horizonte, para outros lugares, porque acabou a tradição das escolas de samba, dos blocos.
P1 - E fala um pouquinho da seresta? Para quem não conhece, o que é a serenata? O que é seresta? De onde é que você acha que veio essa tradição?
R - A tradição da serenata, que antigamente o pessoal gostava muito de cantar Serenata. Você vai para a janela das pessoas e faz uma serenata. A pessoa vem, abre, a noite, a pessoa tá dormindo, abre a janela e vem receber os cantores. Então, isso é a serenata de hoje, que vem daqueles tempos antigos. Aí, a gente sai pelas ruas, e assim, aí tem a diretoria que escolhe as casas onde vão parar, as pessoas que vão ser homenageadas. Aí, a última que teve, a gente saiu lá da Avenida Olegário Maciel, passou na casa da Dona Araci Neiva, depois desceu na Rua da Abadia, parou em duas casas, duas senhoras amigas, antigas amigas que sempre participaram da cultura. Cantamos nas duas casas. E termina aqui no Coreto do Rosário, ali no coreto. O último mesmo, teve até a participação do Coral Stella Maris, do qual a gente faz parte também, entendeu? Serenata é isso, é você agraciar alguém na porta das casas, fazer a serenata na porta das casas. E as pessoas… Nossa, é tanto agradecimento, rapaz! Que é bom demais a música. A música, acho que você sabe, mexe. Você é músico, você toca, mexe com nosso interior, nosso espírito. E todo mundo que gosta de música.
P1 - E tem alguma… Estou pedindo pra você cantar muito. Mas tem alguma serenata que vem na sua cabeça, que você gosta muito de cantar, pelo motivo que for.
R - Rapaz, essa música que eu cantei de Paracatu mesmo, toda vez que termina, pedem para eu cantar ela lá em Paracatu. Cantei aqui na festa de Santo Antônio, aqui no Rosário. Igual nessa última mesmo, que teve no Dia das Mães, aí cantou daquelas de Agnaldo Timóteo. [Canta] “Mamãe, estou tão feliz porque voltei pra você. Alguma coisa me diz, mamãe, que hoje eu volto a viver. Sinto feliz ao teu lado. Viver distante por quê? Mamãe uuu, a solidão foi para sempre embora. Mamãe uuu”. Aí eu esqueci da letra [risos].
P1 - Mas é linda a serenata.
R - Ô, só música bonita que canta. E Silvano tem um que ele fez em homenagem a Paracatu também, a gente canta. Tem várias outras, tem que lembrar, porque são aquelas músicas antigas de serenatas, de seresta, né? É bonito demais esse trabalho.
P1 - Falar em amor, em seresta. O senhor é casado? Tem filhos?
R - Não, sou solteiro. Em casa, lá na família, sou o único que não casou, que não tem filhos. Eu sou eu sozinho. Minha mãe ainda falava assim, já depois de velha, sabe? Eu ajudando a cuidar dela. Eu já vi ela falando com as amigas, Dona Amélia, uma amigona lá, Amélia. Amélia, que é filha de seu Luiz Darilo, né? Aí, ela falava, ela me conta que minha mãe falava assim: “Nossa, Fábio tem que arrumar uma mulher.” Aí eu escutei, falei: “Por que, mãe?” “Não, porque eu estou perto de ir embora.” “Mãe, deixa que eu me cuido. Deixa eu quieto. Deixa eu cuidar da senhora aí.” Só isso. Eu levo, depois de velho, eu levo a minha vida assim… E outra, como eu viajo muito. Levando mulheres… Sabe? As mulheres de amigos, mulheres que me pedem para levar, às vezes, assim, Brasília, para pegar o avião. Eu já fui aqui levar mulheres lá na Bahia, e tudo. Então, às vezes as pessoas, assim, se eu tiver uma mulher. Um dia eu falei com uma, ela chama Tábata. Aí ela pediu para eu levar ela para Brasília, pegar o avião. Aí, quando eu falei: “Vou te esperar na padaria.” Tô na padaria, quando parou um carro assim, bonitão, sabe? Aí desce aquela mulher, trem mais lindo. Falei, assim: “Nossa Senhora, você é bonita demais Tabata!” Ela falou: “Obrigada e tal.” Aí, a gente entrando, ela falou justamente sobre isso. Agora, imagina, eu casado? É a mesma coisa, da minha mulher sair com um homem bonito, eu vou ficar, né? Se fosse a minha mulher, eu ia falar: “Eu vou também! Você não vai sozinha não!” Então, é assim, sabe? Tem umas coisas que… Não sei, eu gosto de estar sozinho. Às vezes eu tenho vontade, assim, ainda vou fazer isso. Eu gosto, eu quero sair para o meio do mato, eu gosto de ficar sozinho.
P1 - E me conta também sobre o Grande Sertão Veredas. Qual é a sua conexão com essa história e como é que essa coisa do Caminho de Sertão?
R - O caminho do sertão foi… Como te falei, criação do meu cunhado, Almir Paraca, que a gente começou fazendo com a Rede Mais, aí ele conheceu o Sagarana, lançou, fez os festivais Sagarana e criou-se o caminho, que sai de Sagarana e vai até a Chapada Gaúcha. São... Fala 190 Km, mas na verdade… Mas quando você chega lá, você caminha os 190 Km, mas quando você chega lá, no último dia, no sábado, você vai lá no Parque Florestal do Grande Sertão Veredas, que é 5 km, você vai e volta, aí dá mais dez, da 200 km. Criou-se o caminho para desenvolvimento local, para mostrar a cultura do local, as pessoas conhecerem a realidade do sertão. O Guimarães Rosa criou o Grande Sertão Veredas justamente para mostrar a realidade do sertão. Aí eu peguei também, e depois veio um pessoal da Bahia, lá de Uauá, na Bahia, até o Canudos. Criou-se lá o Caminho do Umbuzeiro. Aí nós fomos participar, fomos com o pessoal até do Caminho do Sertão, eu, meu irmão João Márcio, Seu Argemiro, uma turma de gente foi no Caminho do Umbuzeiro. Aí, com esse negócio da Globo, lá do Lata Velha, teve a Aline, que é produtora do Huck, Programa do Huck. Aí, ela falou, ela veio para o Caminho do Sertão. Ela falou: “Bom, eu queria participar desse caminho lá na Bahia, mas só que é em março, em março é muito trabalho. Será que não tinha como criar ele, fazer fora de época?” Aí, como estava indo eu e meu irmão, a gente tem um projeto lá de fazer fossas de... as fossas… Não é asséptica, é fossa… Esqueci o nome. Eu vou lembrar, depois eu falo. Aí, a gente foi fazer essas fossas lá na Bahia. A gente conheceu o pessoal no Caminho dos Umbuzeiros, depois eu conversando com ela, falei: “Olha, a aline lá do programa do Huck, tá querendo fazer a caminhada, mas ela não pode em março.” Aí ficamos naquela conversa. Falou assim: “Pois é, mas eu fico com medo da ciumeira de fazer, né?” “Vamos fazer o seguinte, por que você não cria um voltando?” “Fabão do céu, nós já tivemos essa vontade. Aí você faz um que sai do Parque de Canudos.” Que é lá no parque onde teve as batalhas do Antônio Conselheiro com os militares brasileiros. Aí criou-se as Veredas da Resistência, que é ao contrário, saem de Canudos, aí nessa a gente dorme lá no parque, sai de manhã cedo e vai até Uauá, termina em Uauá. Passa nas trilhas onde houve as grandes batalhas de Canudos. Aí ela pegou e topou, e criamos. E agora faço parte também. E pior que assim, tem o Caminho do Sertão em julho aqui, mas tem o de lá também. Aí, como um estava atrapalhando o outro, até porque pessoas… Aí, criou-se uma data separada, bem separada, porque aí dá para as pessoas ir nos dois, entendeu?
P1 - E você, só para entender, as pessoas vão a pé e você acompanha elas, é isso?
R - É, eu vou no suporte. Aqui no Caminho do Sertão eu ia na Kombi, né? E a Kombi assim, no Caminho do Sertão, é assim, tinha o Jefferson Cruz, tem o Lula, que é o Luiz Damasceno, tinha o Zé Augusto no sax, tem o menino de Pelezinho, que é Dalmir. E a gente ia… E assim, os caminhantes estão saindo, a gente tinha a Kombi com o som, e a gente ficava cantando na saída. Aí a gente saía por outro caminho, muitas vezes passava por eles, e ia esperar na chegada. Em cada chegada a gente recebia eles cantando. Aí fez isso e tal, e eu sempre fui dando suporte. Aí foi aí que apareceu a Kombi. Que a Kombi veio com som, a gente levava água, dava suporte às pessoas que às vezes não estavam aguentando caminhar. E na Bahia já fomos lá, foi com uma caminhonete, que até do meu irmão, João Márcio. Aí eu, como a preguiça de andar muito, eu ia dando suporte nos Caminhos, levando a água. Levava cafezinho, dava tudo. E assim, eu passava pelos caminhantes, paro, e as pessoas vem, abastece as garrafas, né? E continua. Eu paro, eles seguem. E daqui a pouco eu vou devagar de novo. Aí chega nos locais onde tem a parada, alguém vai cantar. Eu na época levei o cajon. Aí vamos tocar, vamos junto, vamos fazer bagunça.
P1 - E as paradas que vocês fazem é por conta das partes do Grande Sertão Veredas. As canções também?
R - É! É assim… Hoje tem o projeto, faz o projeto, às vezes em verba de Lei Rouanet, vem verba de... No início, esses… Igual os veículos, que na época, a Kombi, mesmo, Almir Paraca, era deputado, e como um dos criadores, deu essa verba de comprar a Kombi. Foi com a verba dele que a gente comprou, tanto que a Kombi… O pessoal fala, “a Kombi do Fabão”. Ela não é minha, ela é do Instituto Rosáceas, que é a coordenação do Caminho do Sertão, entendeu? E, lá na Bahia tem o Veredas da Resistência, que tem o pessoal lá. E assim, tem verbas, tem os patrocínios, as pessoas que vão caminhar pagam uma cota, né? E tem. Aí, no Caminho, a pessoa tem lugar onde dormir, que dorme nas barracas, leva as barracas, dorme. Aí tem os caminhões que já levam as bagagens, as barracas, e para no local, já chega e monta as barracas, as pessoas dormem. Faz a festança, dorme. O problema do Caminho de Sertão, é que o pessoal fazia assim, quando era 4h já vinha Diana cantando, ai ia acordando todo mundo para sair. Levantava 4h da manhã, para arrumar tudo, guardar as bagagens perto do caminhão, e eles saíam. A gente ia cantando, eles saíam, a gente voltava, ajudava a guardar tudo, e depois saia atrás.
P1 - Você me conta quais são as paradas que vocês fazem no caminho do Grande Sertão Veredas? O que vocês cantam? Se é acompanhando o livro? Enfim, só para a gente entender.
R - Não, assim, igual, a gente cantava música. Até música, a gente lembrava lá, e cantava lá na hora. Aí, eles me pediram, o Sandim, que é ainda pois Sandino, na verdade, o nome dele é Sander, mas chama de Sandim, e agora é Sandino Sertão. Aí pediu para fazer uma música sobre as paradas. E eu fiz a música do Caminho do Sertão, onde tem as paradas. Aí tem uma senhora que a gente para, na Fazenda Menino, da vó Geralda. Aí, para, dorme lá. Ela conta a história do que ela passou. Para você ver como é que são as coisas, depois que essa criação do Caminho do Sertão, olha o tanto que é uma ajuda, que hoje a vó Geralda é conhecida no Brasil todo. Foi na Flic Tiradentes, quando o pessoal foi nos caminhos e estão fazendo a história dela. Aí eu fiz uma música pra ela, essa: [Canta]: “Eu vou na Fazenda Menino, no Cantinho do Sertão. Quero ver a vó Geralda, a dona do meu coração. Eu vou na Fazenda Menino, no cantinho do Sertão. Quero ver a vó Geralda e alegrar meu coração. Eu vou, eu vou, eu vou.” Aí, eu mostrei para um amigo meu, que ele é até lá de… Aquela que tem a ponte no Rio. Niterói. E ele é tocador de rabeca e tal, mandei pra ele. Neste último Caminho do Sertão, eu não fui. E eles mandaram para mim, cantando. Cantou lá na casa dela, essa música. “Olha, Fabão fez para a senhora.” E cantou no final, sabe? Eles mandaram para mim. E depois a Vó Geralda ainda me ligando, agradecendo. Me chama para ir lá. Aí chegou essa Marina, que é da coordenação do filme, o Saca Rolha. Marina falando, conversando. Eu falei: “Marina, como é que é esse negócio de fazer um filme?” “Você quer homenagear alguém aqui?” “Não, eu quero homenagear a Vó Geralda, lá do Caminho do Sertão.” “Dona Geralda da Fazenda Menino?” Falei: “É!” “Você conhece ela?” “Conheço, eu chamo ela de vó.” “Mentira!” Ela falou: “Olha que coincidência, eu estou defendendo uma tese na minha faculdade, que eu estou fazendo um curso, a história da dona Geralda.Inclusive, está indo lá, ela chamou para ir, os alunos da faculdade de jornalismo, que estão lá fazendo a aula com ela. “Para você ver, são meus alunos. E eles ainda falaram: Professora, a senhora tem que estar aqui. Mas eu não posso, eu estou aqui.” Falei: “Não, o dia que você quiser eu te levo lá.” “Você sabe onde é?” “Sei! Eu te levo.” Aí passa um tempo, tem a Alessandra Roscoe, que é escritora, e participa sempre das Fli, né? Aí, eu tô vendo, ela postando no Facebook, ela com a vó Geralda no avião. Eu fui e falei com ela. “Mentira, você conhece ela? Conheci ela no avião, indo para Tiradentes, na FLITI Tiradentes.” Para você vê, como é bom a cultura, como é bom essas coisas. Você conhece gente… Pra você ver, na época que a Juliana Dametto, que é a sobrinha do Guimarães Rosa, queria fazer um documentário sobre a parte do Grande Sertão Veredas, homenagear o tio dela. Aí ela veio, pediu, e participou do Caminho do Sertão. Aí Juliana Dametto, tal, passando… Eu até esqueci o que eu ia falar, tanto assim… Você lembra o que eu estava falando, que eu citei a Juliana Dametto?
P1 - Eu perguntei se as paradas eram por causa do livro.
R - É, é… Aí a Juliana veio, na época, eu ainda falei assim: a sobrinha do Guimarães Rosa! Ainda teve gente que… “Porque era a Globo…” Deixa, vocês querem que o mundo inteiro conheça o projeto do Caminho do Sertão, ou vocês querem fazer politicagem? Isso é política pública, política social, política cultural, ambiental. Aí o pessoal começou. Daí o Paracas falou: “Fecha, fecha.” No que ela veio, veio com ela um escritor que divulga as obras de Guimarães na Europa. Ele é alemão. Ele veio participar, e divulga as histórias de Guimarães Rosa na Europa toda. Entendeu? São coisas assim, que você passa a conhecer as pessoas. E é cultura para gente. Pode ter alguma coisa errada? Tudo bem! Mas o bom é o certo, você escolhe o certo. É igual aqui, a Joana me mandou, tal, falando sobre essa entrevista. Falei: “Ó Joana, na hora!” Para você ver, eu vim, conheci a Joana, conheci você, conheci você. Essa aqui eu nem conheço, né? [risos]. Olha o jeito. Na hora que eu vejo, ela chegou, não falou nada não, chegou com Valdeci, o marido dela, que é meu amigão, do Caminhos do Sertão, da Rede Mais. Aí ele falou: “Ela que vai participar.” “Eu não sabia, porque eu estava esperando a Joana.” Mas é isso, são coisas que nos ensinam. E isso é que nos faz compreender que a vida tem que ser sim de união, de respeito. Respeito um com o outro. “Ah, mas que fulano…” Deixa! Fulano é chato? Você também é. Eu também sou. Tem horas que eu sou chato, não sou? Então. Porque às vezes você tem uma coisa que você acha que você que tem razão, aí você quer mostrar a chatura com os outros. É assim! Pra você ver, você olha uma coisa bonita, igual essa paisagem aqui, olhando vocês, o meu coração engrandece, ter vocês como amigos hoje, entendeu?
P1 - A gente também! Agora, infelizmente, vou ter que ir para última pergunta por causa do nosso tempo, né? Inclusive, nós vamos fazer uma outra entrevista aqui mais tarde. Teria muita coisa para perguntar para você, muito detalhe assim. Mas queria te perguntar, você tem algum sonho hoje na sua vida? Qual seria ele?
R - Viver tudo isso! Meu sonho é viver isso, é viver o que eu vivo, é respeitar as pessoas, gostar das pessoas, gostar da música como gosto, da arte e da cultura, de tudo. Eu quero é viver do jeito que eu possa agradar às pessoas. Eu agradando as pessoas, eu me agrado, sabe? É aquela coisa, quando você agrada uma pessoa, que quando você chega nos lugares, essas pessoas vêm, “Ô Fabão!” Todo mundo fala só isso: Fabão! Eu estava com Ana e o Rubens, e o filhinho deles. Eles são professores aqui na Casa de Cultura, e fazem parte da banda Mistura Brasileira, fazem parte do Coral Stella Maris, fazem parte da Serenata. E a gente, em todo lugar que passa, o menino, “Ah, mãe, o Fabão conhece todo mundo?” [risos]. Lá dentro do Paraguai, que eu olho assim… o pessoal… “A gente conhece, uai!” Tem que conhecer. Passei a conhecer um que sempre pedia a ele para comprar, para ele trazer da Foz do Iguaçu, sempre era o mesmo, chamava, e sempre pedia. Viramos amigos. Até mandei pra você… Esqueci o nome deles, lá da Globo, que até mentiu para mim, fez a entrevista… Falando que queria fazer a entrevista, mentindo sobre o Luciano Huck, sabe? “É o seguinte, eu estou igual a Juliana…” Lizandro. “Estou igual a Juliana Dametto, que eu sou tercerizado pela Globo, quero fazer um projeto igual a ela, em Sagarana. Vai ter uma filmagem lá, que o Caio Blat e a Luísa Arraes, estão fazendo uma nova versão do Grande Sertão Veredas. E eles querem fazer em Sagarana, e precisa de você lá.” Só que eu estava indo lá na Bahia. “Ô, só que tô indo lá na Bahia.” “Não, então na hora que você voltar você avisa. Vou avisar pra eles aqui.” Aí, quando eu cheguei, Almir já falou: “Fabão, pega o carro aí.” Peguei o carro do meu irmão, estava estragada a roda, então é difícil. “Aluga um carro aí.” Eu aluguei um carro, fui, cheguei lá, era para fazer filmagem. Aí falaram: “Você vai ser contratado como contrarregra.” “Não, eu sou a favor das regras.” [risos] Brincando. “Você vai fazer isso aqui para ajudar, eles vão fazer a filmagem de uma parte com Caio Blat e com a Luísa Arraes.” Enquanto a gente está limpando lá, eu estou vendo que eles estão filmando. O Sandino tá limpando. O Sandino só ficava me filmando, eu catando cocô de vaca, para limpar. Aí passa um pouco, chegou o Caio Blat mais a Luisa Arraes. “Eu tô querendo uma água para fazer filmagem.” Levei lá para ele. “Como é que é seu nome?” “Fábio.” Não falei Fabão, não, falei Fábio. Aí eles fizeram lá… Ela fez, e ficou tão bom que ela falou: “Nossa, até o Fabão gostou.” “Uai, eu não falei para ele que eu sou Fabão.” Aí, depois a Aline chegou perto. Deve ter falado com ele. Aí, quando vê, chegou aquele moço, com uma cara... Eu falei: nossa! Chamado de Guel. Falei: “Uai, que pele mais feia do mundo!” Esse pessoal do meio artístico, eles gostam muito de ficar fazendo essas coisas do rosto. E de máscara, com aquele chapeuzinho, e de óculos, e bigodão assim. Não falei nada. Quando chegou perto de mim ficou conversando, foi quando ele pegou e falou: “Você fez o exame de Covid?” “Fiz.” “Você tomou a vacina?” “Tomei!” “Então não precisa de máscara não.” Tirou a máscara, tirou assim. Tirou os óculos. Quando ele tirou os óculos, eu vi aqui a marca da máscara. “Não é você Huck?” “Sou eu. O pessoal está tudo mentindo pra você. Isso aqui tudo é uma coisa sem você saber, para o Lata Velha, vamos levar a Kombi.” E eu tinha visto, eles não deixaram eu sair do local. Eu vi passando um carro, com uma carreta assim, com um negócio. “Uai, estranho.” Lá longe, assim. Aí depois falaram: “A Kombi ali, vamos lá, e tal. E fizemos. Agora, para você vê, são as coisas que eu falo assim, o pessoal não queria nem deixar, na época, a Juliana Dametto vir, por causa da Globo, aquela coisa de politicagem. Eu sempre falo. Aí eu falei com Almir, o Almir falou: “Não, fecha.” Aí ajudamos, eles aceitaram ela vir. Aí depois, tava na pandemia, a Kombi ruim. “Almir, eu vou ver se eu jogo ela no Lata Velha. Aí ele falou: “Vê com a Juliana!” Eu mais Sandino, vimos com a Juliana. Ela falou: “Tá, vou ver se…” Eu fui lá no Rio de Janeiro, na Globo News, encontrei com ela, levei uma Kombizinha que eu fazia, comprava a Kombi e plotava ela assim, que é uma caixinha de som. Levei para ela. E sabe o que é que ela gostou mais? Do que eu levei daqui. Aquela castanhazinha de baru. Passando ali no Pontal, eu comprei umas garrafinhas, falei: “Vou levar!” Levamos. Aí, nossa! Ela avançou nas garrafinhas do baru. [risos] Para você ver como é que são as coisas, é o retorno! Eu ainda falei isso com ela. “Olha o que eu fiz por você, você está fazendo por nós. O que nós fizemos por você.”
P1 - Você falou, tô ficando velho. Mas você se sente velho, Fabão?
R - Não, é o povo que fala: “O senhor.” Tá vendo, eu sou o senhor.
Eu velho? Tô achando é bom demais. Como diz o menino: “É bom demais da conta, sô!” Uai, é doido? Vou onde você quiser, comigo. Saio daqui, vou levando as pessoas em viagens, lá em Água Boa, no Mato Grosso. Depois vou lá no Paraguai. Esses dias eu fui lá em Cascavel buscar um carro com um amigo. Tô velho...[risos] É, mas vai ter uma hora que eu tenho que parar, né?
P1 - Tá certo, obrigado, viu?
R - Nada! Obrigado ocêis, demais.
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