Projeto Turismo Comunitário
Entrevista de Valdete de Fátima Lopes dos Reis Brandão
Entrevistado por Lucas Torigoe, Gabriel Ribeiro e Janaina Moura
Paracatu, 30/05/2026
Entrevista n.º: TCP_HV002
Realizado por Museu da Pessoa
Transcrita por Miriam Allodi
Revisada e editada por Ane Alves
R - Muito prazer que eu tenho de ser entrevistada, fico muito feliz. Agradeço você, agradeço a mineradora, por esse grande trabalho, está contribuindo para Paracatu. E a gente poder estar participando desse trabalho.
P1 - E qual que é o seu nome completo? Onde você nasceu, que dia que foi?
R - Meu nome, eu me chamo Valdete de Fátima Lopes dos Reis Brandão. Nasci em 13/01/1960, em Paracatu. No hospital.
P1 - No Hospital.
R - É, de Paracatu. A minha mãe era Luiza Lopes dos Reis, ela já é falecida. E meu pai é Aureliano Lopes dos Reis. São esses aqui. Meu pai viveu toda a vida aqui nessa Comunidade, São Domingos, Quilombola, São Domingos. E a minha mãe também, eles eram primos, primeiros, e eles tiveram dez filhos. E eu sou a caçula, dos meus irmãos eu sou a caçula. E eu fui assim, muito paparicada, nem sei dizer essa palavra assim, paparicada, carinhosa. Foi assim, bem… Minha mãe me caçulou mesmo, minha mãe e meu pai. Porque às vezes tinha umas coisas que minha mãe não me deixava fazer, os pesados, que antigamente eram coisas pesadas, que minhas irmãs… Por exemplo, minhas irmãs buscavam água no balde, pesados, e eu buscava água também, mas numa vasilha menor. Quando eu ia buscar na maior, a minha mãe brigava com minhas irmãs, porque eu tenho que pegar mais leve. Então, são nessas médias, assim, que me paparicou, sabe? Eu dormia entre mamãe e papai, na cama, dormia junto com eles. Depois que eles carregavam eu, e punham lá na minha cama. Entendeu? Quer dizer, que eu não dormia direto na minha cama, eu tinha que passar por eles, e depois que eles me levavam até lá. Eu já acordava lá na minha cama. E daqui, a gente ia para a cidade, a minha mãe levava a gente a pé, a gente ia a pé, não tinha estrada, era uma poeira danada, não tinha carro. Nós íamos a pé. E aí, minha mãe sempre levava a gente, e levava mais eu, pegava na mão… Por que ela levava mais eu? Eu gostava muito de ir à cidade. Mas ela levava muito eu. E ela me dava muitas coisas. Eu queria ir porque eu queria comer um doce de amendoim, porque às vezes aqui tinha, mas não era aquele doce igual na cidade. Eu queria um sorvete, entendeu? Então eu ia para tomar aquele sorvete lá na cidade. Então, eu sempre fui mais... a palavra paparicada.
P1 - E eles falaram para você como é que foi o dia que você nasceu? A gestação da sua mãe ou não? Como é que foi isso?
R - Eu nasci, eu fui a última, eu fui cesárea. Minha mãe teve dez filhos, comigo, a última, a caçula, já foi uma cesárea, porque eu não nascia. E aqui não tinha essa medicina que tem. Às vezes, as minhas irmãs mais velhas, não, as minhas primas tinham as parteiras. Mas quando eu nasci, eu já nasci no hospital, já tinha enfermeira. Minha mãe foi uma cesariana, eu fui tirada por um médico, ele chamava Fortunato e Doutor Romero Mariano de Almeida. Eles foram os médicos da minha mãe. E a enfermeira Margarida, que cuidou da minha mãe. Todos falecidos, inclusive a minha mãe. A minha mãe viveu 101 anos, e meu pai viveu quase 110 anos. O meu pai, ele viveu aqui, cuidou de nós na agricultura, plantando arroz, bananas, feijão, no quintal, nesse quintal todo aqui, não tinha, assim, divisões, era um quintalão. E um compadre ajudava o outro, e tira-se de mutirão. Mutirão, um cuidando do outro. E o peso era prato, era o prato. Não tinha esses pezinhos, balanças. Pegava mais. E o dinheiro era muito pouco, não rolava dinheiro, a gente vivia mais em troca. Você tinha uma rapadura e eu tinha uma farinha, eu trocava com você. E o nosso café fazia com rapadura, porque o açúcar não tinha. Tinha o açúcar, mas era mais difícil, porque o açúcar, é o açúcar preto, o açúcar hoje que faz o mascavo. Mas a gente tomava mais era café com rapadura. E às vezes, se meu pai não tinha, fazia troca, não tinha dinheiro para comprar.
P1 - E como é que o seu pai, a sua mãe, se conheceram? Conta essa história para mim.
R - A minha mãe, meus avós eram muito severos, meus avós maternos, chamavam Hilário da Costa Pinheiro e a minha avó era Vicência Lopes dos Reis. E antigamente eles eram, assim, muito rígidos, muito severos, assim, não tinha aquela oportunidade, igual hoje tem, de namoro, não. Era mais fechado, eles nem namoravam, só de olhar assim, meu avô falou assim: “É Luiza, você tá gostando de Aureliano, né? Amanhã eu já vou marcar o casamento.” “Ué, já vai marcar o casamento?” “Vou, vocês estão olhando demais uns pelos outros.” E aí, foi lá, assustou, assim, porque já ia casar, né? E aí, marcou casamento, casou, depois que casou é que eles tiveram uma vida íntima, mas depois do casamento. Não teve aquele namoro, aquele noivado, aquela festa. Teve a festa do casamento, mas não teve esse processo, namoro, noivado, não. Já foi no olhar. Que meu avô Hilário mais minha avó Vicência fez o casamento da minha mãe.
P1 - E o seu pai e a sua mãe eles eram parentes, é isso?
R - Aqui no São Domingos, por ser uma comunidade que veio os bandeirantes, Felisberto Caldeira Brant é José Rodrigues Froes, eles vieram através do ouro, que aqui, o São Domingos, é mais velho do que Paracatu. Paracatu hoje tem 227 e aqui tem mais de 300 anos. Então, os bandeirantes deixaram essa terra aqui para cinco famílias, que é a Lopes dos Reis, a Costa Pinheiro, Ferreira Gomes, Ferreira Cotrim e a Ferreira Gomes. Então, nesse deixar, aí foram casando primo com primo, primo com primo. Hoje é que tá, um pouco assim, desmembrado, mas a maioria aqui ainda é primo com primo. Eu não me casei com meu primo, mas tem gente ainda que casa primo com primo. Aqui ainda é família, que é familiar. Inclusive, eu tenho um problema nas pernas, que chama artrose, e lá no médico, eu vou fazer uma prótese, e eles fizeram essa pergunta. Aí eles falaram assim, em relação à família, né? Falou que poderia ser genético, que é quando o sangue do pai e da mãe poderia dar... Era genético. E antigamente… Mas não era bem uma paralisia, porque antigamente tinha muita paralisia, as pessoas nasciam, depois ficavam paralíticos, paralisados. Depois que veio a vacina, o gotinha, que as criancinhas tomam, que terminou, graças a Deus. Mas naquela época, não tinha esta vacina, não tinha. A medicina era bem, bem fracasso, vivia mais dos chás, vivia mais das parteiras, das benzedeiras. Eu mesmo sou benzedeira, que a minha mãe me ensinou. Você benze de quê Valdete? Eu benzo de dor de cabeça, benzo de cobreiro, benzo de vento virado. São doenças que a medicina acha que não tem cura, porque a medicina não acredita, a ciência, não acredita, mas existe sim. Existe. Se você não benzer, você morre.
P1 - Desculpa te interromper, mas o que é cobreiro e vento virado? Para quem não sabe.
R - Cobreiro é uma erupção, um tanto de bolinha, que às vezes você pega por um mijo de uma lagartixa, um leite de um sapo, uma aranha. A pele fica irritada, fica cheio de bolinha. E aí, você, às vezes passa várias pomadas e não melhora, só melhora se for um cobreiro. Quando você tem um, tipo assim, um quebranto. Já ouviu falar? Um quebranto. O que é quebranto? Quebranto, até o pai pode colocar. É muito amor naquela criança, outra pessoa pode colocar também, um quebranto, antes de você brincar com aquela criança, ou seu filho, qualquer um, você tem que lembrar do quebranto, porque os olhos da gente deixam a pessoa quebrantada. Aí deixa a pessoa com diarreia, diarreia faz coco verde, a pessoa fica assustando, assustando, fica mole, fica chorando, fica irritado. A criança fica irritada, aí tem que benzer de quebranto. E antigamente usava demais. E hoje essas benzedeiras já morreram, estão acabando, está tendo extinção de benzeção. E é muito importante que as pessoas valorizem, ensinem, para não acabar.
P1 - De vento virado, o que seria?
R - Vento Virado, você vomita, vomita, e o estômago… Você tem um “espinhelinho" aqui ó, que ela cai. Ela cai e você só faz vomitar. Você tem que suspender, você vai, passa uma faixa. Mas isso aí, também é a fé, é a fé em Deus. Porque quem cuida, quem cura, não é a benzedeira, é as palavras com a fé em Deus e Jesus, e o Espírito Santo, e a Virgem Maria, que é a Mãe de Jesus. Você fala as palavras, e que as pessoas tenham fé e melhora. Agora, se você não tiver fé, você não melhora. Entendeu?
P1 - Eu queria voltar para seu conhecimento de benzedeira, mas me fala um pouquinho ainda da sua família. Você estava falando que todo mundo se casava, e aí, como é que foi criado aqui, então, o Quilombo?
R - Ah, aqui a gente foi criado assim, muito bom, assim, era muito bom, por causa que a gente tinha muita liberdade.
P1 - Desculpa de te interromper de novo, e vamos chegar lá também. Mas queria que você me contasse a história daqui, como é que foi formado? Você estava falando da sua família, né?
R - Aqui foi formado assim, pelos bandeirantes, que aí deixaram as cinco famílias, e aí foram desmembrando, com os ranchos, casava primo com primo, e foram fazendo famílias, foram fazendo casas. Casas que eu falo, rancho, com Coqueiro Indaiá. O Coqueiro Indaiá é uma palmeira que o primeiro escravo deixou aqui, e ele aproveita tudo, tudo se aproveita do coqueiro. E aí, eles foram fazendo famílias, formando famílias assim, depois que fizeram as casas de pau a pique. O que é pau a pique? Faz as casas e põe barro, põe barro. Depois fizeram a de adobe, que é aquela casa, que a Casa Museu é de adobe. Que meu pai deixou essa casa para os netos e os bisnetos. Mas nós morávamos lá, os dez filhos. E era muito bom, porque a gente tinha liberdade, a gente também… Eu estudei no Afonso Arinos, lá na cidade, é uma escola bem antiga. Ia a pé, não tinha transporte nenhum. E a turma daqui ia a pé, aqui não tinha escola. Aqui na minha época, não tinha escola, depois teve a escola. E até hoje não tem escola. Os meninos daqui tinham, mas acabou, os alunos aqui vão para a cidade. Hoje vai ter uma creche e vai ter escola infantil. Não sei se vai construir uma escola mesmo, que aqui precisava de uma escola, mas o número de alunos, não sei se é pouco, porque quis escola, ou se quis creche. Não sei por que optou por creche ou optou… Deve ser porque tinha mais alunos para creche, né? Não para escola. E a escola aqui, por nos ser um quilombo, tem que ser uma escola boa, uma escola quilombola, uma escola de qualidade. Não sei se pode abrir uma escola que não mora aqui, porque nós não queremos qualquer escola, não. Nós queremos uma escola de qualidade.
P1 - Agora, era difícil para você ir andando até a sua escola, dona Valdete, ou não?
R - Não, porque eu não tinha dores nas pernas.
P1 - Nessa época não.
R - Não tinha dores. E eu ia daqui para Afonso Arinos, a gente pegava um paninho, era muita poeira, pano molhado, e quando chegava do outro lado da rodovia, a gente limpava o pé. Porque os alunos lá da cidade, faziam bullying com nós, porque nós éramos preto, cabelo duro, pé empoeirado. Eles malhavam da gente, sabe? Malhavam, era gozavam. Gozação, que fala. Então, a gente levava um paninho para limpar o pé. A gente levava um paninho para limpar o pé. E lá também, lá na escola, tinha assim, era bem bullying mesmo, que o governo dava uniforme para a gente, dava o pano, para a gente fazer o uniforme. E se os pais tinham mais condições, já compravam um pano melhor. Por exemplo, assim, comprava um pano bom, que não desbotava, comprava um tergal, por exemplo, e fazia o uniforme. E a gente ganhava o pano, um pano ruim, e nosso uniforme era desbotado. Só que o nosso pano, nós das famílias fracas, pobres, a gente ganhava esse pano e fazia uniforme. E como a gente não tinha mochila, a gente fazia, a gente não, a minha mãe, no caso, fazia uma capanga. O que é capanga? E um embornal de pano, para colocar os cadernos. A gente usava caderno. E esses cadernos, a gente ganhava, a gente ganhava do governo. O governo dava a gente, caderno, dava lápis, lápis de cor, e a merenda de lá também, a merenda, lá no Afonso Arinos. A primeira diretora minha, lá no Afonso Arinos, foi Dona Eva, não sei mais o sobrenome. Depois mudou para Coaraci da Silva Neiva. Hoje eu nem sei quem é a diretora lá mais. Fiz até o médio, fiz o ensino médio. Fiz lá na escola, aqui em Paracatu, Virgílio de Melo Franco, com a dona.... A diretora era Dona... Ela já faleceu também, era Dona... Como que chamava, gente? A diretora de lá?
P1 - Não tem problema se esquecer, você lembra depois.
R - Aí, esqueci, sei que depois eu lembro. Mas eu fiz o ensino médio, na Escola Polivalente que é Escola Estadual Virgílio de Melo Franco. Ivone é a diretora. Ivone André.
P1 - E você, dos seus irmãos, foi só você que estudou, ou mais irmãos seu estudou?
R - Não, meus irmãos estudaram aqui. A primeira professora… Porque eu sou a mais nova. A primeira professora deles, já vieram para aqui, estudou nas casas, que não tinham escola. Estudou nas casas, era casas tipo, casa de Dona Júlia, casa de Maria Pinheira, casa de Marta Neiva. E quem era a professora deles, era Dona Malfisa, Dona Malfisa, hoje ela ainda é viva, ela alfabetizou os alunos daqui. E eu, Magna e Isabel, que somos mais novas, estudamos lá na cidade. Os mais velhos estudaram aqui.
P1 - E tem alguma professora ou alguma matéria que te marcou mais?
R - Ah, com certeza, né? Hoje tem muita matéria, antigamente era só matemática e português. Hoje tem muita matéria. Hoje tem, “ah, professora de religião,” antigamente não tinha. Professor de Educação Física, não tinha, né? Então, hoje, se eu for falar qual a matéria que eu gostava, se fosse hoje, era Educação Física. Mas como antigamente não... Mas era uma escola em que você aprendia mesmo, você tinha que aprender, chamava assim, os fatos, que é tabuada. A gente tinha que aprender a tabuada do dois até o dez, decorada. Você tinha que decorar, e o professor perguntava, e, se você não soubesse a tabuada, você não ia para o recreio. Era castigo. Você não ia pro recreio. E você tinha que estudar em casa e falar a tabuada, era o dever de casa. E também tinha o português, né? O português. O português também era uma matéria assim, que você além de ter o texto, você ganhava livros e você tinha que ler os livros e interpretar os textos. E também tinha as gramáticas. As gramáticas de antes você tinha que... Eu vou dar para você um exemplo, assim, de gramática, você que é professor, você vai saber. Por exemplo, assim, ó, vou fazer uma frase, tem frases simples e frases compostas. A composta é de duas pessoas, três ou quatro pessoas a mais, são as frases compostas. As simples são de uma pessoa só. Vamos supor… Você é Lucas, né? “Lucas veio ao São Domingos para estudar.” Essa é uma frase simples. Estou certa, professor? Aí, a professora perguntava, escrevia lá. “Lucas veio para o São Domingos, para estudar.” Ponto final. Aí, nós tínhamos que classificar todinha essa frase. Nós tínhamos que saber quem era Lucas. Qual é o verbo? Primeira coisa que ela perguntava, era o verbo. Riscava de baixo, o verbo. Ela explicava: “Lucas foi ao... É “ao”, né? “Ao São de Domingos estudar.” Ela explicava para nós, depois fazia outra frase, e a gente tinha que saber. Primeiro ela explicava, e depois ela fazia de modo diferente para a gente… Se nós aprendemos ou não. Então, por exemplo: o verbo dessa frase… É foi, né? Riscava o foi. Aí, para saber o principal, quem é o principal dessa frase, depois do verbo, era o predicado. Tudo depois do verbo era predicado. Não sei se mudou, porque tudo muda, né? Não sei se mudou o português ainda. E depois, “quem foi ao São Domingos estudar?” “Foi quem?” Pergunto para o verbo. “Quem foi ao São Domingos estudar?” “Foi o Lucas.” É assim ainda? Ela explicava isso, e depois a gente fazia outra frase, aí já era um dever de casa, a gente tinha que fazer em casa, e aí ela corrigia. Se estivesse certo, ela pusesse certo. Se pusesse errado, pusesse errado. E se você não entendeu a matéria, você podia suspender. E elas tinham umas réguas desse tamanho, elas batiam na gente, pinicava, pegava. Hoje não pode, né? Mas era bom. Você sabe porque era bom? Hoje não pode, mas antigamente podia! Se a mãe da gente fosse chamada lá na escola, a gente apanhava quando chegava aqui em casa. Elas não batiam na gente lá não. Mas vamos supor, Dona Luiza, que é minha mãe, ela escrevia um bilhetinho para ir lá, alguma coisa eu fiz lá de errado. Aí mamãe tinha que ir. Enquanto mamãe não fosse lá, eu não entrava na escola. Aí, eu tinha que. Aí, mamãe ia escutar o que a professora ia falar. O que a professora falou de errado lá, comigo. Ela não falava nada comigo lá na escola. Aí, quando eu chegava aqui, eu, ó, apanhava.
P1 - E a senhora como que era aluna? Como que a senhora se portava na época?
R - Mais ou menos.
P1 - Porque mais ou menos, hein?
R - Aí, porque eu sou muito assim, eu gosto muito de conversar, eu gosto assim, muito de... Às vezes, atenção, porque para você estudar, você tem que ter atenção. O professor tá lá explicando, se você não tiver atenção, você não aprende, né? Mas eu era assim, eu era conversadeira, lá no fundão da sala. Que os conversadores ficam no fundão, né professor? A professora está explicando, de costas. “Cala a boca, Valdete!” Ela já sabia minha voz. Mas só que eu conversava, mas na hora da prova, eu fazia a prova. Mas eu colava também. Eu colava. Como é que eu colava? O da frente e o de trás, colega, né? A primeira coisa que eu fazia, era fazer aquilo que eu sabia, aquilo que eu não sabia eu ia deixando para trás. Aí, depois que eu não sabia, aí eu perguntava, perguntava… E a professora assim, em cima, ela pegava uma mesa, e punha uma cadeira, e ficava em cima, assim, olhando tudo. Não passava um mosquito. Era rígido. Para olhar quem estava... Né? Para saber o conhecimento do aluno. E você sabia como eu colava? Eu colava, escrevia, assim ó, o número, passava por detrás, e o coleguinha passava a resposta e eu punha na prova. E acabando, não tirava nota vermelha. Minhas notas eram azul. E também, assim, tinha geografia, tinha história, né? A gente tinha que aprender o hino nacional, chamava moral e cívica. Ainda tem professor, moral e cívica? A gente tinha que aprender moral e cívica. A gente tinha que saber as datas. Hoje está devagar. Eu tenho um neto ali, não sabe nada, não. Olha, ele sabe ler, ele sabe escrever, mas o estudo… Não é culpa do professor, talvez nem do aluno. Mas eu vejo que hoje está muito fraco, assim, primeiro, não pode tomar bomba, o governo não deixa dar uma bomba. Dava bomba. Dá bomba, dá, hoje tem bomba sim, mas tem uma série que não têm bomba. Tem uma série que não têm bomba, não, né? Vai passando, vai jogando o aluno para lá. Antigamente não, todas as séries tinham bomba.
P1 - E você nunca bombou nessa época.
R - Eu nunca bombei porque eu colava, né? Diz que tem uma história assim: “Quem não cola, não sai da escola.”
P1 - E o seu pai e sua mãe, como eles eram? Vamos falar um pouquinho deles. Nessa época que você era criança, adolescente, qual as primeiras memórias que você tem da sua mãe é do seu pai? Se você puder puxar. O jeito deles?
R - Rígidos, rígidos. Mamãe vivia da trança, para ajudar meu pai, para fazer este chapéu. Minha mãe era artesã, as mulheradas daqui tudo era artesã, fazia chapéu. E nós transávamos para ela costurar, para vender, para sustentar. Porque aqui não tinha… A maioria aqui tinha, mas a minoria não tinha. Aí, tinha que vender ou tirar ouro no córrego. Nós vivíamos muito do ouro. Nós aqui éramos pobres também. Todo mundo pobre vivia do ouro e do chapéu. E, às vezes, tinha pessoas que faziam tijolinho, tijolinho, e fazia adobe, adobe, sabe? Mas o que eu lembro muito da minha mãe, minha mãe era mais severa, assim, era mais rígida, ela batia mais. A gente comia, almoçava, assim, não tinha luz, não tinha geladeira, a carne era de sol, carne de sol. Aí, a gente comia, tipo assim, quer ver, uma comida assim, cará, que é arrancado no quintal, ou abóbora do quintal, com carne seca. A carne era comprada lá na cidade, e muito osso, osso carne, tipo assim, pescoço. E cozinhava isso tudo, e colocava na lata de banha, a lata de banha do porco, para não perder, porque não tinha energia, não tinha geladeira. Ali ficava, ali na banha. E quando quisesse comer, a gente era só esquentar. Então, a gente pegava, tinha uma pedra. Tinha uma pedra, não, não era pedra que fala, não, era um socador de tempero, e esse socador de tempero era uma pedra, essa pedra era uma pedra comprida, que ia até no fundo. A gente pegava um socador de tempero, que era pedra, e batia o osso, assim: tac, tac, tac. E chupava aquela banha, aquele óleo do osso. Era uma delícia, carnudo. E a gente comia, ficava satisfeito. E tinha que falar assim: “Deus que ajuda mamãe! Deus que ajuda papai.” Tinha. Ela ensinou a gente a falar isso. Aí, ela falava assim: “Amém! Amém.” Tudo que nós fomos comer, nós tínhamos que agradecer a Deus. Deus e ela. “Deus que ajuda.”
Quando a gente fosse dormir também, à noite, nós tínhamos que dar benção. Bênção, todo mundo dava bênção. “Bênção mamãe, bênção papai, bênção madrinha, bênção, tia.” Era bênção por todo lado. Os mais velhos, você chegava, nós não podíamos estar no meio de vocês, não, dos mais velhos, compadre deles não. Nós ficávamos reservados, nós não podíamos entrar na conversa, só uma olhada assim, deles, e nós já tinha que sair. Nós não podíamos entrar. A prioridade era dos mais velhos, era dos homens. As crianças não tinham prioridade. Primeiro eram os mais velhos, depois as crianças.
P1 - Como é que ela se vestia? O que ela usava para… ?
R - Usavam-se muito anágua, essas roupas transparentes, punham anágua, para dormir, que a gente fala, combinação. Usava muita saia abaixo da canela, tipo essa aqui, ó, abaixo da canela, Não tinha short, não tinha calça, calça comprida, sabe? Era saia e vestido. Quando tinha uma festa, elas pegavam as roupas, elas engomavam com goma, com goma de farinha de mandioca e passava, elas ficavam toda rodada, ficavam lindas. E pegava, tem um pente, pente quente, você conhece? “Tem como você ir lá buscar? Pega o pente lá, por favor.” Nós usávamos um pente quente, que passava no cabelo, que é a chapinha, aí depois nós punha bobs no cabelo, era as festas que nós íamos, e soltava. Mas nós sofria com esse pente, porque se pegasse na testa, era ferida. É um pente que era vermelhinho, na brasa, vermelhinho, na brasa, e punha no cabelo. Usava muito lenço, muito lenço, um turbante, até hoje a gente gosta de lenço. Nós aqui… Eu amo turbante, lenço, acho que é do sangue, né? Aí o pente, aqui a gente colocava na brasa o pente, e passava a gordura do porco, e alisava o cabelo, alisava o cabelo. Isso aqui queimava a gente, passava assim na gente. Isabel que era cabeleireira nossa. E depois a gente punha bobs. Já ouviu falar em bobs? É, enrolava, né? Mas depois que passava um vento, voltava tudo para trás. Por quê? Porque nós tínhamos assim, bullying, com os cabelos. Os cabelos eram só lisos. Quem tinha cabelo liso, quem tinha o olho azul, nossa senhora, estava no charme. É muito preconceito com preto. Eu acho que até hoje tem preconceito, o preto ainda tem preconceito. Assim, antigamente era mais, hoje, graças a Deus, as negradas, nós somos pretos, nós somos acostumados a ter nossos cabelos mais afros, né? Nós não estamos preocupando mais de mexer com isso não. Nem com a da tomada. Nós estamos deixando nosso cabelo duro mesmo. Quando não tá duro, tá de lenço, tá de qualquer coisa, mas é bem afro.
P1 - E que festas são essas que vocês iam? Fazer o que?
R - Festas dançantes, festas dançantes. Todas as festas, todos os santos, aqui tinha festa. E as festas, nós dançávamos. E era de quê? Pandeiro. Pandeiro, sanfona, violão, caixa, e dançava. E tinha um bolero que a gente amava dançar. [Canta] “Está chegando a madrugada, ô, o sereno vem caindo. Está chegando a madrugada, ô, o sereno vem caindo. Cai, cai sereno, devagar, que meu amor está dormindo. Deixa dormir em paz, que uma noite não é nada. Não acorde meu amor sereno da madrugada.” E o cantor ao vivo, não tinha radiola, não tinha, era tudo no gogó, e no violão, sabe? Tinha as pessoas que cantavam, tinha as que tocavam, todas festas… Nós somos católicos, todas as festas, todas as folias, depois tinha festa. E muito biscoito.
P1 - Biscoito de que?
R - Ixi! Pão de queijo, bolo, peta, bolo zumbi. Muita coisa gostosa, muito doce. Doce de laranja da terra, doce de manga, doce de mamão, doce de... Vários doces. De canjica. Era muita fartura, muita fartura. Vinham várias pessoas pra aqui. Você é o festeiro. Vamos supor assim, você é festeiro. Então, todo mundo saía, a folia. A folia para andar, para arrecadar dinheiro e alimentos, para fazer comida na festa sua. E vinha gente de todo lado, a cavalo, amarrava o cavalo e era aquela festa. Com esse som que eu tô falando, cantando! Eu lembro de uma festa muito boa, dos meus sete anos, que a minha irmã fez, minha irmã Bené. Fez, aí veio um cantor formoso, que os filhos deles cantavam, era cantor de Paracatu, chamava, “Os filhos do Senhor Liu”. Mas era forró, e eles vieram. Menino, esse acordeão berrava, e o povo cantava. E minha irmã fez uma torda de palha, sabe? E fez aquele aniversário meu, de sete anos. Eu estava toda linda. Minha irmã Bené, que fez para mim essa festa! E o que nós tomávamos? Não tinha refrigerante não, era café, chá, na xicrinha esmaltada. Primeiro eram os homens, tinha um homem, que se chamava Ezídio, ele é que servia. Servia o lanche, mas tinha educação. Hoje as crianças não têm educação, não. Primeiro eram os homens, colocava a mesa. “Ó, o café dos homens, ó, o café dos homens!” Só homem, as mulheres não iam. Depois, lavava a xícara, e servia as mulheres. “Ó, o café das mulheres, ó, o café das mulheres!” Só mulher, os homens já tinham tomado o café deles. Mas os homens bebiam mais era pinga, era pinga. Era uma pingaiada que tinha! Pinga e vinho. Aqui fazia muita pinga? Tinha, como é que fala, quem faz pinga?
P1 - Oficina?
R - Alambique.
P1 - Canavial.
R - É, que tinha muita cana. Alambique, uma palavra bonita. Que fazia pinga, e pinga boa. E as mulheres bebiam pinga também, ficava toda fogosa, e dançava, e a roda do vestido, e dançava, sabe? Era muito bom. Por último eram as crianças, tadinhas das crianças, mas as crianças comiam também. Mas o homem servia. Depois a minha irmã Isabel, ali ó. [risos] A minha irmã Isabel ali, começou a servir. Depois ela largou. Por que ela largou? Porque a falta de educação era muito grande, as crianças invadiam o café dos homens, invadiam o café das mulheres. Aí, ela pegou e largou. Isabel largou, ela não mais quis servir, continuou Seu Esídio. Mas só que teve uma mudança muito boa, a prioridade agora é das crianças. A prioridade agora, primeiro serve as crianças, tudo é as crianças. As crianças estão no primeiro lugar. Mas foi bom, né? Hoje foi bom, mas no meu tempo não.
P1 - E que dias que era de festa? Era festa de que?
R - A festa de São Domingos, do padroeiro nosso, era em agosto, 8 de agosto. E essa festa era uma festa muito boa. E igual eu estou falando com você, um ano era você o festeiro, outro ano era outro, outro ano era outro, outro ano era outro. E todas essas festas tinham danças e muita fartura. E a gente ficava louquinha para comprar roupa nova. A gente tinha que lascar açafrão, aqui tem açafrão. Você conhece açafrão? E nós tinha que lascar o açafrão, para mamãe vender esse açafrão, para comprar as roupas, um chitão, para fazer os vestidos nossos. Nós íamos toda bonita, pra festa, de trança, ou de cabelo enrolado no bobs, sabe? Nós íamos toda chique. Mamãe, ela era assim, ela fez das tripas ao coração. Ela foi uma boa mãe para nós. E nós também aprendemos muita coisa, muito respeito. Outra coisa que minha mãe ensinou a gente ter, a palavra, chama assim: “O que é seu é seu, o que não é seu não é seu.” Dignidade, a palavra certa. Você ser digno. Se você deixou esse relógio cair, você não viu. Se mamãe soubesse que o relógio era seu, tinha o dever de te entregar. Eu tinha que entregar o seu relógio. Se você é meu vizinho, se sua galinha botasse no meu terreiro, da mamãe, tava aquele tanto de ovo, eu enchia meu colo de ovo, pensando. “A galinha não era minha.” Mamãe falava: “Vai entregar para a comadre Doríca.” Eu tinha que entregar os ovos da comadre. E hoje, hein? Hoje acabou isso, hoje… E a dignidade e o respeito, o moral, né? Antigamente era mais rígido, os pais sabiam educar. Não sei se porque apanhava mais também, né? E tinha respeito.
P1 - É nessa época que você era pequena, aqui já tinha caretagem, alguma outra dança, ou não?
R - Toda a vida aqui tinha caretagem. E eu fui em todas as caretadas, eu era caçula, e mamãe deixava a gente ir nas caretas. Mas se também fizesse alguma coisa errada, mês de junho, é junho. Às vezes, se você fizesse alguma coisa errada, durante o ano, mamãe punha de castigo. “Você não vai na careta.” Aí, a gente não ia na careta. Era castigo. Mas eu participei das caretas. Tem folia, aqui tem folia, tem careta. Só que agora, não tem festas dançantes, de santos mais, os padres tiraram, porque comemora os santos, é a morte dos santos. E nós não sabia não. Tipo, São Domingos, é a morte de São Domingos. O único santo que a gente comemora, é São João Batista, que é 24 de junho, e Natal, que é o dia que Jesus nasce, né? Que é nascimento. O resto tudo é morte, tudo é memória. E a gente fazia a festa das mortes de Cristo, da morte do santo. Aí a Igreja cortou, não tem mais não. Não tem mais festa.
P1 - É a careta, a caretada, o que ela é? Para quem não conhece, como é que você viu ela…
R - A caretada é muito boa! Eu desde criança, eu lembro da careta. A careta, meu pai era careta, meus irmãos foram careta. Só homem. Eram 12, tudo vestido de cavalheiro e 12 vestidos de dama. As damas, era o par, né? Não tem mulher não, a mulher ficava em casa para cozinhar, para eles fazerem, quando eles passassem, tinha fogueira, e aí dançava. Até hoje. Até hoje tem a careta, caretagem. A primeira caretagem foi daqui. Hoje Paracatu está com quatro comunidades que têm a carenagem, mas foi buscar daqui, levou para Paracatu, mas iniciou foi aqui, a caretagem.
P1 - É por que tem máscaras, as cores?
R - É por causa dos escravos, e para não descobrir o rosto, tem as máscaras para não descobrir quem é, quem não é. Aí não descobria quem era você.
P1 - Quem estava dançando.
R - Quem estava dançando, justamente, é por isso. É muito boa a caretagem.
P1 - E você tem alguma caretada especial, que você lembra de coração, assim, algum ano, ou não?
R - Não, eu gosto muito da caretagem, mas porque é na casa da avó da Janaína, que é dona Cristina, porque ela é festeira. O pai dela, o pai de Dona Cristina, era festeiro também, e o pai dela deu essa missão para dona Cristina, que ele era o festeiro, para ela dar continuidade à festa. E aí, lá, os caretas, até hoje, hasteiam a bandeira. E ela tem uma filha que nasceu esse dia, que é a Joana d'Arc. Aí a gente canta parabéns pra Joana d'Arc, dança quase todas as danças, hasteia a bandeira de São João Batista, e muito lanche. E o quintal todo organizado, até hoje é muito, muito bom, muito boa a festa. E lá é um local que todo mundo vai para ver, lá, é no ensaio, no remate. O que é remate? No final da careta, no outro dia, para almoçar. Hoje eu não vou mais nas caretagem, por causa que eu tenho artrose, tenho dificuldade de andar. Mas você sabe o que eu faço? Eu não sou boba, não. Eu vou lá para comer. E lá, Lucas, dança todas as danças. Todas as danças lá dança. E lá e na casa da dona Cristina. Mas aí eu vou lá, vou de carro, vou lá e fico lá, e assisto as danças.
P1 - E vamos falar. Você falou da sua mãe. Vamos falar do seu pai agora, então.
R - Aí, meu pai.
P1 - Como que nessa época você lembra dele? O jeito dele, o cheiro, o jeito que se vestia?
R - Meu pai tem só quatro anos que faleceu. Meu pai é uma maravilha. Inclusive, Lucas, aqui vai ser, em nome de Jesus. Isso aqui é um livro, que vou fazer, “História e Memória do Quilombo São Domingos”. Vou ler uma história do meu pai. Eu posso contar para você, e posso ler para você. Qual que você prefere?
P1 - Você que sabe. Você acha que ler fica mais certeiro?
R - Mais rápido. Ler é mais rápido. Agora, contar… Ele tem muita história.
P1 - Se você quiser, pode contar.
R - Eu vou contar. Meu pai nasceu 16/06/1912. 1912. Ele é de 16 de junho. Quando foi primeiro de junho de 2020, ele faleceu, com quase 110 anos. Não, primeiro de junho, não. Quinze de junho, faltou só 15 dias para ele fazer 110 anos. Meu pai, ele trabalhou muito na lavoura, aqui, tirando ouro. Depois… Aqui, era mais trabalho de enxada mesmo. E aqui era um ajudando o outro, igual eu já falei. Então, ele foi para Cristalina, surgiu o garimpo de Cristalina. Cristalina era Cristal. Aí, ele arrumou três companheiros e foi trabalhar no Cristal, lá em Cristalina. Naquela ponte São Marcos, estava construindo a ponte, era uma pinguela, eles passavam por pinguela. Foram a pé, daqui lá, três dias. O que eles comiam? Açúcar com rapadura. Eles tiraram muito Garimpo, mas eles faziam era trabalhar para os outros. Depois, o garimpo foi ficando escasso… Mas até hoje acho que ainda tem garimpo, mas não pode. Não pode também, né? Não pode tirar o garimpo, o cristal lá em Cristalina. Mas antigamente era muito garimpo. Cristal é uma pedra também preciosa. O nome de Cristalina veio do Cristal, lá em Goiás. Depois ele voltou. Ele sempre vinha e voltava, ajudava mamãe, dava o dinheiro a mamãe, mamãe trançava, mamãe costurava, mamãe tirava ouro, nós ajudávamos mamãe, meus irmãos ajudava mamãe. Meus irmãos já estavam trabalhando, ajudava mamãe, meus irmãos mais velhos. Depois, no ano de 1960, o ano em que eu nasci, surgiu Brasília. Oh, mas quando surgiu Brasília, o povo, “chu”, foi para Brasília. Todo mundo daqui, quase, foi para Brasília. E eu pequena, né? Janeiro, Brasília é de abril, né? Brasília é de abril. Janeiro para abril, quantos meses eu tinha? Quatro meses. Aí meu pai, ó, foi para Brasília. Emprego, né? Melhoras. Mas aqui, o povo daqui, não tinha estudo não, era só mesmo assim… Meu pai, ele era alfabetizado. Ele estudou no Mobral. Já ouviu falar no mobral? Ele estudou Mobral. Ele sabe o nome, e sabia ler e escrever. Porque muita gente não sabia ler, muita gente não sabia escrever. Os mais velhos não sabiam, nem ler e nem escrever. Poucos que sabiam os nomes. E meu pai, não, meu pai sabia ler, sabia escrever o nome dele, porque ele estudou em Brasília o mobral. E nisso ele aprendeu várias, assim, ele não tinha profissão, mas ele fazia… Lá é o ramo de ganhar dinheiro. Lá era fácil de ganhar dinheiro. Juscelino Kubitschek, que é o fundador de Brasília, era amigo dele também. Ele conhecia o Juscelino. Juscelino morreu de acidente, diz que foi acidente, né? Você sabe dessa história do Juscelino Kubitschek de Oliveira. A esposa dele era a Sarah. Hoje nós temos um hospital em homenagem a ele, lá em Brasília, a Sarah, um Hospital Ortopédico, Sarah Kubitschek. E Juscelino, meu pai chegou a ir no enterro de Juscelino. E meu pai ficou lá 20 anos, em Brasília. Mas assim, ele ia, voltava, trazia um dinheirinho pra mamãe, ia, voltava, trazia um dinheirinho pra mamãe. Ele não ficou lá, “tchã”, não. Meu pai morou na Vila do IAPI. Você já ouviu falar nessa Vila do IAPI? Depois da Vila do IAPI, meu pai morou na Ceilândia, Ceilândia Norte, em Brasília. Meu pai ganhou… Lá era só barraco, só tábua. Meu pai morou na QNN, 25, conjunto A, lote 36. Ele ganhou um barraco lá. E queria levar mamãe. Mamãe falou assim: “Capital, hein? Que vuco vuco! Oh meu Deus! Não, para morar lá eu não sei se eu vou, não. Eu vou estudar primeiro, vou lá ver.” E muita gente aqui foi para lá. Muita gente mesmo, porque lá é uma cidade nova e estava no pique do emprego. E construiu também a BR 040, que liga o Rio de Janeiro a Brasília. E foi um movimento muito bom, emprego, né? O povo era só roça, roça, roça, roça. E o pai trabalhou no Cine Karim. Não sei se tem mais. Meu pai ajudou a iniciar, a fazer a Papuda, que é a penitenciária. Hoje ainda tem a penitenciária. Papuda, eram três irmãs, que tinha um papo, um papo que jogava assim, o papo caía nas costas. Você sabia disso? Era de uma fazenda de três irmãs, a terra lá, era Fazendinha. E elas prometeram, quando elas morressem, dariam para o governo, fez o documento. Enquanto elas estivessem vivas, elas ficavam lá, depois elas não tinham dinheiro, não tinham nada. Aí, a última morreu e ficou para o governo. E aí o governo fez a penitenciária. A penitenciária tem esse nome de Papuda através dessas irmãs, dessas fazendinhas. Você sabia disso, Lucas? A Papuda é uma homenagem às irmãs. Aí, meu pai iniciou a base de lá, né? Tudo. Depois, meu pai… Eu sei que ele ficou lá 20 anos. Ia, voltava. Quando ele voltava, Lucas, aqui era uma festa. Meu pai bebia a pinguinha, trazia o meu bode, né Isabel? Trazia o meu bode. E aqui, o povo vinha, o povo vinha pra aqui, era uma alegria. Meu pai era alegre, e dançava. Aí, já tinha radiola. Nós dançávamos, fazia horas dançante. Meu irmão também, pegava, furava o buraco… Tem até ali. Furava o buraco, punha uma pinga de barriga para baixo, para não dar briga. Que quando dava briga aqui, o pau quebrava. E aqui já teve uma briga. Depois eu vou contar para você a briga. Aí, Lucas, nós dançávamos a noite toda, de boa. Quando era domingo, meu pai tinha que ir embora de novo. Domingo, não, na segunda-feira, para trabalhar. Aí, depois ele arrumou um outro trabalho, que ele trabalhou na W3 Sul, Bloco J. W3 Sul, Bloco J. Ele foi aquela pessoa assim, como é que fala? Que cuidava do bloco, que apagava a luz, que entregava….
P1 - Zelador?
R - Zelador. Ele foi zelador. Nesse zelador, ele ficou lá até aposentar. Mudou para aqui de vez. Aí, meu pai era uma gracinha, meu pai estava aposentado, pegava o dinheiro do governo, mas meu pai era danadinho, ele plantava horta, ele vendia cebola. Nós tinha cenoura, sabe? Tudo nós tínhamos, nós não comprava. E ele ajudava, ele cortava lenha, ajudava minha irmãzinha ali, sabe? Fazia tempero, ia para a cidade. Um certo ponto, ele foi ficando mais decadente, mais velho, aí nós não deixamos ele mais ir. Ele era um teimoso, qualquer coisinha, tinha uma dorzinha aqui, ele queria ir para o médico. E ele ia sozinho. E era médico particular, ele não gostava do SUS, não. Ele não gostava do SUS, não, ia particular. “Cadê papai?” Eu ia atrás de papai no São Lucas, ia atrás de papai aqui na Santa Lúcia, que hoje é o CEM. Aí, papai gostava do doutor Romero. Mas ele era assim…. Cuidava da saúde, operou da próstata, sabe? Ele era muito cuidadoso com a saúde dele. Mas só que a gente já não deixou ele ir mais para a cidade, por causa que a cidade foi ficando violenta e a malandragem foi aumentando, e os malandros foram aumentando, os ladrões foram aumentando, aí a gente já não pôde deixar ele ir mais. Ele ficava somente aqui na comunidade. Ia para a missa, entendeu? Ele ia na folia. Mas ir lá na cidade, ele ia com alguém, por causa dessa malandragem. Porque Paracatu está violento. Ainda estava, e está ainda, até hoje.
P1 - E como é que foram os últimos dias dele?
R - Nossa, papai tinha uma cabeça boa. Ele que contava história, ele que contava a história para os alunos. Que aqui virou Casa Museu, que aqui é o ponto de origem. Ele que contava essas histórias, tudo ele que contava. Ele amava aqui cheio de criança, a Guiastur (Associação de Guias de Turismo do Noroeste de Minas), trazia criança para nós. Ele dava bênção, sabe? Ele era muito assim, carismático com as crianças, sabe? “Que dia as crianças vão vir?” Tava com a cabeça boa. No último dia dele, ele morreu em casa. Ele fumava, fumava cachimbo, depois ele passou a fumar fumo na palha de milho. Depois ele pegou, passou a comprar uma folha que tem, acho que é trevo. Tem trevo, aquele papel de trevo, né? Trevo, fumar no trevo. Mas ele fumava. Depois ficou sem poder fumar por causa do pulmão. Aí, a gente ficou várias vezes com ele no hospital, com oxigênio. Mas morrer mesmo, morrer mesmo, ele morreu aqui no terreiro. Recebeu uma turma de turismo de manhã, à tarde Deus levou ele, sabe? Mas ele foi assim, uma pessoa espetacular. Todo mundo amava ele. E ele foi um bom pai também, sabe? Cuidou de mim, eu como caçula. Mas assim, com a morte da minha mãe, ele decaiu mais. Que a minha mãe morreu primeiro. Assim que minha mãe morreu, ele ficou mais frágil, entendeu? Porque eles viveram 82 anos de casados, eles tiveram dez filhos, eles tiveram 21 netos, 16 bisnetos, e 3 tataranetos. Então, foi uma vida assim, muito boa, muito difícil, com muita luta. Mas ele foi homem, homem com H. Ele não deixou os filhos. Criou uma pessoa também, criou filho. Minha mãe criou nosso irmão de coração, que é Jair. Minha mãe criou um. Mas o que ela pôde fazer para esse Jair, ela fez. E nós também, nós gostamos muito dele. É nosso irmão de coração. Meu pai aceitou ele também. Mas até hoje a gente sente muita falta do meu pai.
P1 - E que histórias que ele contava para as crianças? Eram histórias que ele contava para você também, quando você era criança?
R - Ele contava para as crianças… Não, para nós, para mim, mais minhas irmãs, erle contava assim… Que aqui no São Domingos tinha malassombra. Já ouviu falar essa palavra? Nunca viu? Mal assombrados. Malassombrados. Diz que lá na ponte, tinha uma mulher vestida de branco, meia noite, batia a roupa, lavava a roupa lá, pá, pá, na pedra. “Você ouvia papai?” “Via!” Ele falava que via. “Mas quando chegava perto dela, ela vazava.” Então, a gente tinha medo de passar ali na ponte, por causa dessa… Era mal assombrado. E também, assim, a gente brincava muito assim, de roda, de corda, pular corda. Na nossa época. E brincava de roda, e brincava assim, um tanto de gente brincando de roda, nossos primos. A lua clara, clarinha a lua, não tinha energia. Aí nós brincávamos de roda. [Canta] “A rosinha é linda, é linda roseira, entrará na roda, para ficar sozinha. Sozinha eu não fico, e não devo ficar, porque eu tenho o Lucas para ser o meu par. Põe aqui, põe aqui, põe aqui o teu pezinho, bem juntinho, bem juntinho, aqui ao meu. Ao tirar, ao tirar o seu pezinho, um abraço, um abraço, eu te darei.” Nós brincávamos. Nós brincávamos de... Hoje que não pode falar isso mais, mas nós brincávamos assim também, ó, [Canta] “Atirei o pau no gato tô tô, mas o gato tô tô, não morreu reu- reu-reu. Dona Chica ca-ca admirou se-se com o berrô com o berrô que o gato deu. Miau.” Hoje é assim, ó. [Canta] “Não atire o pau no gato tô tô, porque isso sô sô não se faz. Mamãezinha -nha -nha ensinou, não maltrata, não maltrata os animais. Miau!” Hoje é assim, porque não pode os animais ser maltratados. Também a gente brincou muito de baliza. Baliza é umas pedras, você pega as pedras, é um jogo, de baliza. Já ouviu falar? Nunca jogou baliza? Você pega umas pedras. Nós brincávamos de baliza. Janaína sabe o que eu tô falando. Nós brincávamos de baliza. Os homens brincavam de pião. Você conhece pião? Vrum, pião? Brincava de dominó. Essa mangueira aqui tem mais de 100 anos. Nós fazíamos cozinhadinho, brincava de boneca, de pano, nós batizávamos as bonecas, fazia cozinhados. Sabe o que é cozinhados? Comidinha. Nós batizávamos as bonecas, nós tinha nossas comadres, sabe? Então, era muito bom. Não tinha energia, não tinha televisão, não tinha nada, né? E eu acho que é por isso mais que antigamente tinha muita criança, a família era grande, dez filhos, doze filhos, por quê? Uma que não tinha a medicina de ter esses remédios que evita filho, né? Não tinha comprimidos, não tinha injeção, não tinha DIU, não tinha nada, né? Então, aí, as mulheres engravidavam um em cima do outro, um em cima do outro. E também não tinha televisão para ver um pouco as novelas, né? [risos] Mas era bom, porque eram os irmãos unidos. Hoje tá pouca gente, ninguém quer ter filhos. Ninguém quer ter filhos, não, é um, dois, tá bom. Um, dois, tá bom. Mas por causa de quê? Da educação também. Da educação. A educação hoje não está fácil. Eu como avó… Eu tenho seis netos, a minha neta mais velha está com 20 anos, e o mais novo, está com quatro. Então, entre as diferenças de filhos e avó, eu vejo que hoje está pior. Que eu tenho meus filhos, eu tenho três filhos, tem dois homens… Tive gêmeos. Falar um pouquinho do meu casamento. Posso?
P1 - Claro. Você conheceu como, ele?
R - Bom, agora já é meu casamento. Eu me casei no dia 31 de janeiro, eu tenho 40 anos de casado, casei lá no Rosário, na Igreja dos Pretos, com o Frei Pedro. E aí… Como eu conheci o meu namorado? Que aqui tinha umas festas gostosas, lá no São Nicolau, né? E tinha uma música, que a gente dançava antigamente, tinha música lenta. Hoje não tem música lenta mais, não. Tem? Aí, dançávamos música lenta, aquela música gostosa, lenta. Ou namorando, ou sem namorar, existiam as músicas lentas, principalmente as de Roberto Carlos, né? Roberto Carlos estava no auge.
P1 - Tipo, qual? Se você quiser cantar alguma, que você lembra dessa época?
R - De Roberto Carlos? Hum, Roberto Carlos que eu sei, ela era meio... Eu vou cantar uma que meu avô gostava. Só um pedacinho. [Canta] “Tudo que é seu, meu bem, também pertence a mim. Vou dizer agora é tudo, do princípio ao fim. Tudo o que é seu, meu bem, é meu, é meu, é meu, é meu, é meu, é meu. Começar pelos cabelos, até o dedão do pé, é meu, é meu, é meu, é meu, é meu, é meu.” Isso é Roberto Carlos, pode pesquisar aí, que vocês vão achar. “É meu, é meu, é meu.” E várias outras músicas. Aí, a gente se conheceu lá numa festa de São Nicolau, aqui nos Oliveiras. A gente namorou lá, começou lá. E aí, ele veio, pediu a minha mãe, minha mãe deixou. Ele mora no São Sebastião, uma comunidade vizinha aqui. E aí, a gente casou. E aí, eu tive o primeiro filho, meu filho morreu. Era uma filha. E a gente tinha mania de escolher o nome da pessoa antes de nascer. Até hoje é assim, né? Aí eu escolhi, ela chamava Priscila. Mas só que demorou demais nascer. A medicina aqui no hospital, era ruim. Era um hospital estadual, ele não era municipal, era do Estado. E médicos? Nossa Senhora, um clínico geral era para tudo. E quem fez o meu parto, foi a Doutora Érika. Ela já morreu. Coitada da doutora Érika, era para tudo, ela operava, ela fazia isso, ela fazia aquilo. Ela lutou naquele hospital ali, a Doutora Érika. Ela já é falecida. Mas demorou demais nascer o neném. Eu sofri com força. O neném nasceu morto. Nasceu morto, eu fiquei lá, e depois veio aqui para a casa da minha mãe, enterrou, a minha filha. Eu fiquei lá no hospital, internada, depois vim embora para cá, fiquei aqui na casa de minha mãe. Tinha, assim, ó, a mãe é que cuidava da filha, curava o umbigo. Tá entendendo? Aí, depois eu tive os gêmeos. Aí eu tenho dois homens, são Evaldo e Evandro. Aí, meus filhos, hoje, eles têm uns 38 anos, mais ou menos, 38 anos. E eu tiro o chapéu por eles, sou honrada por eles. Um trabalha na Kinross. Não é qualquer um que entra na Kinross não, tá! Entra, entra, mas a Kinross, ela tem um tanto de empreiteiras, mas pra entrar lá na mãe, tem que ser um profissional. Ela dá oportunidade, pelas empreiteiras, mas para entrar lá, meu filho, na mãe. E meu filho trabalha na mãe. E o outro, é hoje… Já passou por várias profissões, hoje ele é o vereador, ta na Câmara. E eu tenho uma filha também, a minha filha se chama Nayane, e ela nasceu, meu presente de Natal. Nasceu dia 24/12/1990. Eu acho que ela tem… Trinta e quantos? 36 anos. Vai fazer agora, 36 anos. E também é uma filha bacana, responsável. Sim, sim. Não, Não. Os filhos dela penam com ela. Na escola. Vai lavar vasilha, vai limpar a casa. O mais velho, agora em junho vai fazer, acho que 15 anos, parece, ou 16, uma coisa assim. E faz tudo. Lava vasilha, limpa a casa, ajuda a mãe a pôr a roupa no arame. Faz tudo. Já está querendo é namorar. Eu falei assim, eu não tô nem aí se quiser namorar, eu tô aqui pra receber meus bisnetos. Mas eu não quero não, tá. Eu quero que estude primeiro. Eu quero que estude, que meus netos estudem para ser algo na vida, para não sofrer. Porque quem não estuda, não faz a cama. Tem que fazer a cama. O que é cama, que eu quero dizer. Vão estudar, ter uma profissão, trabalhar, né? Vamos fazer uma casa, vamos comprar um carro. Vão fazer. Vamos comprar uns móveis, vamos mobiliar a casa. Depois, então, é que vão ter filhos. Agora, você já casa, embarriga, e já vai ficar na casa de mãe. Aí, já é difícil, não é?
P1 - Agora, você e o seu marido, vocês estão aposentados hoje?
R - Não, meu marido não tem idade para aposentar. Ele tem contribuição, mas ele não tem idade. Meu marido é mais novo do que eu.
P1 - Muito tempo?
R - Uns quatro anos. Só que meu marido me deu um trabalho, meu marido bebia umas cachaças brabas. No início. Meu marido bebia, mas dava trabalho para mim. Eu ia largar ele, mas como a minha mãe é muito devota, muito religiosa. Eu sou casada mesmo, na igreja, no cartório, sou casada, bonitinho. Teve festa do meu casamento aqui. Aí, mas minha mãe é muito assim, o que Deus une, nada separa. E minha mãe já assim… Nós fizemos curso também, curso ensina, que não é só flores que tem no casamento. E eu aprendi no curso, e minha mãe também ensinava muito. “Ruim com ele, pior sem ele.” “Ruim com ele, pior sem ele.” Que meu marido é assim, ele bebia, mas ele não me deixava passar fome, ele não me batia. Mas se fosse hoje, já entrava na lei Maria da Penha, entendeu? Se fosse hoje. Porque os homens de hoje não podem fazer muita coisa com mulher não, que nós manda Maria da Penha!
P1 - Mas ele trabalha no quê?
R - Trabalha. Ele trabalhou, garimpou para cuidar desses filhos dele. Pode também! Garimpou para cuidar dos filhos dele, garimpou de duas bicas, para cuidar, para tirar ouro. Porque aqui dava só ouro. Aqui dava só ouro. Aqui não tinha muita indústria. Você é daqui, você sabe. Ele trabalhou na VPA (Vale do Paracatu Bioenergia S/A (VPA Bioenergia), uma indústria de álcool. Ele trabalhou na mãe, Kinross, nos filhotes da Kinross, sabe? Mas só que ele não gosta muito da Kinross, não. Sabe por quê? Ele não estava acostumado. Porque lá é assim, tem a porteira, abre e fecha… Olha a mochila. Abre e fecha. Toda hora quem passar lá, tem que fazer isso, né? É o trabalho dos vigilantes. E aí, ele não gostou, não, deu um problema lá com o vigilante. O vigilante só olhou o número dele assim, o nome dele. Aí, ele trabalha lá mais não.
Mas ele, hoje, ele trabalha na cooperativa. A cooperativa é uma fábrica que tem aqui em Paracatu. E ele já trabalhou na prefeitura também. E ele é lutador. Ele quer aposentar na cooperativa, tem só quatro anos para aposentar. Mas pensa no marido bom que eu tenho, Nossa Senhora!
P1 - Qual o nome dele?
R - Meu marido chama José dos Reis Brandão. Esse Brandão meu aí, é dele.
P1 - A senhora está confortável nesta cadeira, quer trocar?
R - Tô, tô confortável, que aqui é alto. Aí, pensa num marido bom. E ele também… Pensa nuns filhos bons que ele deixou! Esses filhos que ele soube educar, comigo, hoje nós vemos resultado deles. Estudados, trabalham em bons empregos. Ganham mais do que o pai, em relação a dinheiro. Mas não teve tanta oportunidade, o pai não teve oportunidade. Eles tiveram, eles estudaram, eles quiseram estudar. Eles estudaram, também logo depois, foram tirando carteira, foi fazendo isso, fazendo aquilo. Hoje todo mundo tem carteira. Aí, esse que têm carteira, minha filha, é professora, fez faculdade de... Quem é professor, como é que chama?
P1 - Pedagogia?
R - Pedagogia. Ela não é professora, ela não quer ser professora, ela não dá conta de ser professora, porque ela tem criança, ela vê o tanto que a professora quer. Ela tem 13 anos de cooperativa. Então, ela faz o serviço dela na cooperativa, todo o dinheiro da cooperativa passa pela mão dela, ela faz os pacotes, aquele do Banco do Brasil, aquele do banco, não sei de quê, do banco, não sei de quê. A hora que o dinheiro sai, já sai, ó, com a arma, e ela vai atrás, só para... É financeiro. Ela trabalha no financeiro. Sábado, domingo, feriado, nada trabalha. E ela, relativamente, ganha até bem, sabe?
P1 - E a senhora, nesses anos todos, trabalhou no quê?
R - Ah, trabalhei, trabalhei em vários, primeiro ajudei o meu marido a garimpar, tirar ouro. Fiz doces para vender. Trabalhei também na casa de família, trabalhei para ajudar, para criar meus filhos, do lar, trabalho do lar. Depois trabalhei na escola. Depois a minha perna foi piorando e a solução foi chegando, negócio de coisa. “Não, vou tentar aposentar.” E disse que essa doença aposentava… Aí, fiz a papelada, papelada, laudo, laudo, laudo, INSS negando, negando, negando. [risos] Sabe como é que o INSS é, né? Mas graças a Deus, sou aposentada. Graças a Deus, recebo um salário-mínimo e também, tem umas casinhas aí de aluguel que me ajudam muito, na minha renda. E é só eu e meu marido. E meu marido é muito bom, eu nem lá na cidade não vou, nem para pegar o meu dinheiro. Você acredita?
P1 - E conta para a gente como é que se garimpava ouro nessa época? Quando você fazia, ou na época do seu pai, era o que, bateava?
R - É, bateava ou caixoteava. Ou no caixote, você ia lá no córrego, provava, bateava, punha num caixote, lavava. Na bica, também. Tem uma bica. E aqui teve um garimpo muito bom, o garimpo daqui, os córregos daqui, onde tinha cascalho, tinha draga. Você tinha uma draga, eu tinha uma draga, Elson tinha draga, outro tinha uma draga, outro tinha draga. E depois foi proibido. E quando tinha esse garimpo nos córregos, nos córregos, todas as crianças tinham dinheiro, do ouro. Todas as crianças garimpavam. E podia trabalhar de noite, de dia. Aqui era uma maravilha, rolava dinheiro. Mas só que tem uma coisa... Cadê o imposto para a prefeitura? Era clandestino, né? Aí acabou.
No acabar esse garimpo, eu creio também que tem um dedo da Kinross, né? Aí, no acabar o garimpo. Aí, ia garimpando o resto que deixavam, nas cacimbas, ia garimpando. Hoje que não tem quase nada, mas povo lá. Eu acho, não tenho certeza. Mas meu marido não garimpa, não. Mas se puder garimpar… Eu acho que é proibido, mas nós garimpa, quem quiser. Mas está proibido.
P1 - Você pessoalmente chegou a encontrar ouro, muito pouco? O que você sentia quando achava ouro?
R - Bom, ouro é bom, sabe quanto é o grama do ouro hoje?
P1 - Uns R$600,00.
P1 - R$ 700,00
R - R$700,00 um tiquiiiinhoo. Imagina o tanto que a Kinross leva daqui? Mas é profundo, e muito profundo. Eu trabalhei na Kinross também. Eu trabalhei num projeto chamado “Braços Abertos”. Eu não tenho nada que reclamar da Kinross, eu não. Ganhava bem. É como se fosse assim, eu ganhava mais de um salário, como se fosse hoje. O carro me buscava, o carro me levava, o carro buscava, o carro levava, na porta. Eu ajudava lá na sala do técnico de segurança. Você tinha uma botina, você queria trocar botina, tinha que passar por mim, almoxarifado, aí pegava seu número, pegava seus dados, passava por isso. Aí, eu trabalhava na sala de técnica de segurança, eu olhava como os carros estavam dentro da empresa. Tem um quadrado assim, como é que chama? Um quadrado assim, que vê se o seu carro está correndo, se seu carro tá devagar. Como é que chama isso?
P1 - Radar?
R - É um papel. Eu fazia esse papel, tinha que olhar, porque tinha uma meta dentro da empresa que você não pode correr, então passava por mim.
P1 - É um velocímetro.
R - Isso.
R - Mas só que era um projeto, e esse projeto... Aí, voltei para a escola do jeitinho que a Kinross queria. Aí, eu fiz matemática, fiz português, fiz geografia, computação, fiz inglês, porque a Kinross é Inglaterra, do lado da Argentina, né? Mas eu não sou boa de inglês não, sou péssima. Mas tem que passar. E depois, passei pelas aulas, aí que eu fui para a Kinross. Mas eu gosto da Kinross, eu gosto da empresa, eu gosto do trabalho dela. Só que ela tem uma detonação todo dia às 3h30. A gente estudou lá, a gente falava bomba. Agora não é bomba, é detonação. Eu não falo bomba, não. É detonação. Mas quem não gosta dela fala bomba. Eu gosto dela, eu vou falar de uma pessoa que... vou cuspir no prato que eu tô comendo, gente? Eu não posso falar dela não, uai! Os funcionários tudo educados, os gerentes, o gerente geral, naquela época, nem sei quem era mais, eu esqueci. Que muda, né? Os gerais, lá muda. Mas aí tem os chefes, chefes da minha área, que era técnica em segurança.
P1 - Gerente.
R - Gerente. Ninguém é dono de nada, dono lá é do Canadá. Vinham os canadenses. Mas era assim, muito bom, muito tranquilo. Ganhava dinheiro, sabe? Mas só que era um projeto.
P1 - Com o tempo acabou.
R - Acabou. Era só seis meses. Até durou, sabe? E também trabalhei também, não sei se tem ainda, trabalhei na Kinross com monitoramento. O que é monitoramento? Você vai olhar como é que está a água, na minha época, a água, olhar o ar, olhar o sinal da bomba. Porque a bomba estoura truu, sabe? O número. Aí, eu ia saia daqui, ia para a Bela Vista, saía, buscava, levava. Chama monitoramento. Nem sei se existe. Existe ainda, Jean? Eu fui monitora. É monitora. E também gosto dela, que ela tem muito projeto aqui. Esse ano está até meio atrasada, mas ela tem projeto.
P1 - Enfim, você tem ainda essa memória de garimpar, do seu pai, da sua mãe fazendo isso.
R - Tenho a memória. Se tiver uma bateia, eu sei garimpar ainda. Só que eu não dou é conta, mas eu sei garimpar, sei tirar ouro, sei provar. E também, outra coisa que teve que acabar, foi por causa do azougue, o azougue é um veneno, né? Mas naquela época do meu pai, não tinha azougue, era ímã. Você punha no ímã, tirava, saía tudo.
Agora, se não tiver azougue, não junta o ouro. E o azougue é veneno. Prá nós garimpar, se não tiver azougue para juntar… E é difícil achar azougue. É proibido.
P1 - E você achou ouro já?
R - Eu já tirei ouro, já achei ouro, eu já tirei ouro. Eu já.
P1 - E foi na beira do riacho ou você bateu na pedra?
R - Aqui no córrego. No córrego. Esses córregos tudo aqui tinha ouro. Tinha e tem, um pouquinho, mas tem. Era muito bom.
P1 - Mas era fácil ou era difícil tirar?
R - Dinheiro. Cedo, de tarde você tinha dinheiro. Tirava cedo, de tarde você tinha dinheiro. Até hoje. Se eu for no córrego, hoje, agora, se você tirar uma grama de ouro, você pode ir na cidade que você tem dinheiro hoje.
P1 - Mas era difícil ou fácil achar?
R - Hoje tá difícil, né? Hoje tá difícil. Hoje tá difícil, mas antigamente era mais fácil.
P1 - E quando você achava, era pouquinho, era muito? Como é que você fazia…
R - Olha, quando você tira uma grama de ouro, já tá bom demais. Tá bom demais. Mas a gente... Porque bateia, bateando, caixote, a gente tira uma grama, duas gramas. Quando estava bom de ouro, né? Hoje, se você tirar meia grama, já está bom demais. Hoje. Porque o ouro está escasso. Primeiro, nem sei se tem azougue. Eu nem sei se tem azougue. Nem sei se tem azougue.
P1 - Entendi. Queria que você me falasse, que você disse que queria recitar poesias, queria contar histórias de algumas coisas que tem aqui…
R - Ah, a minha poesia. Vou falar do Coqueiro Indaiá. Esse coqueiro, foi o primeiro negro que chegou aqui. Eu sonho do meu livro, ser livro, memórias daqui da nossa comunidade. Vai ter… Eu vou me inscrever para registrar o meu livro, tudo que é do Quilombo, nesse livro tem. São contos, coisas antigas, e eu fiz essa poesia dentro desse livro, tem essa poesia do Coqueiro Indaiá. Homenagem ao Coqueiro Indaiá. O Coqueiro Indaiá… Está lá o coqueiro, tá vendo?
“O Coqueiro Indaiá está bem aqui,
Balança pra lá, balança pra cá.
As folhas do coqueiro Indaiá,
balança pra lá, balança pra cá
olhando para cima,
tem coquinho para dar
esse coquinho faz paçoca, doce para nos alimentar.
Tem conca que serve para enfeitar
e conca que serve para queimar,
O caule do coqueiro bem alto,
como o rei do quilombo que veio alegrar
este lugar.
As palhas, nas festas juninas
temos palhas para enfeitar o nosso arraiá.
Fazendo tudo isso.
Fazendo tudo isso.
Fazendo chapéu de palha
para nos embelezar.
Com o som do vento,
vêm os pássaros,
Tico-tico, João de barro, Sabiá.
De longe vem as araras
azul
para seus ovos chocar.
E o coqueiro vem de braços abertos
para ficar neste lugar.
P1 - Que demais! Isso é como se fosse o seu pai contando, um chapéu?
R - Não, fui eu que fiz mesmo. Não foi meu pai. Meu pai nem ouviu essa história, nem ouviu, nem ouviu esse verso. Foi eu que inventei mesmo. Eu falava uma, mas só que era da minha irmã, minha irmã que falava, só que ela não era dela, e nem era minha.
Era “O ninho”, que a poesia chama. E esse “Ninho”, a autora era Zalina Rolim. A autora que fez essa poesia foi a Zalina Rolim. Aí, dona Irene, a nossa presidente, porque aqui recebe turista, achou melhor não falar ela. Porque como ela já morreu, a autora, às vezes a família dela não ia achar bom, né? Não teve permissão, autorização para falar da poesia. Eu não sei se eu posso falar, mas era assim… Se a família dela ouvir a minha fala, mas eu já não falo ela mais. Mas era assim, ó: “O ninho de tico-tico…” Minha irmã falava isso.
O ninho de tico-tico feito com arte e primor.
Achei no galho mais rico da minha roseira em flor,
entre flores, encoberto.
Ninguém sabe que ela existe.
É preciso olhar de perto
para que a gente avista
e lá no fundo, somente
três ovinhos e nada mais.
Os ovos tão fofos e quentes.
E os ovos tão iguais.
Tive muito cuidado,
não toquei com meu dedinho.
Mamãe disse que é sagrado o ninho dos passarinhos.
R - Zalina Rolim.
P1 - Tem mais alguma que você fez, ou da sua família que vocês recitam também?
R - Não. Eu ainda não. Eu gosto mais… Eu gosto de recitar assim, quando eu gravo mesmo, quando tá na minha memória, eu gosto mais de falar. Eu não gosto de ler. Se eu for pegar meu livro, cadê meu livro? Se eu for pegar meu livro, se eu for pegar, vai ser um livro, né? Se Deus quiser. Se eu for pegar meu livro, aqui tem vários itens só do quilombo, eu vou ler para você. Para mim, não é a mesma coisa de eu chegar e falar. Eu gosto de pôr beleza na fala. Eu gosto de pôr beleza na poesia, é diferente, não é?
P1 - É
R - Eu acho que se eu proclamar com entusiasmo, eu acho mais bonito. Mas vai ter muito o que ler nesse livro, essa história. Mas eu posso inventar ainda outras histórias. Sou boa pra inventar. Sou autor. Autor, não, autora, né? Eu posso fazer mais.
P1 - E a Senhora tem uma boa memória também, né?
R - Eu tento, né? Estou com 66 anos. Eu faço caça palavra. Eu gosto de ler. Eu faço crochê, eu lasco açafrão. Mas sou muito dependente, hoje, sou muito dependente, por causa dessa perna, estou muito dependente. “Por favor, me dá isso. Por favor, me dá aquilo.” Minha irmã briga muito comigo. Mas eu vou fazer minha cirurgia, eu vou ficar boa, vou ficar… Se Deus quiser.
P1 - E a senhora acha que está sentindo o tempo passar ou não?
R - Assim, tá passando, tá passando. Assim, tá passando, passando assim, às vezes até para pior. Uns pontos foram maravilhosos, a tecnologia, foi maravilhoso. Você tá aqui, ó, você tá no outro mundo, você pode usar a internet, online, né? Nós conversamos. Eu estava conversando com você de São Paulo. Que maravilha, né?
Posso conversar em qualquer lugar do mundo, posso chamar você de vídeo, posso fazer uma reunião. Foi maravilhoso. Mas também tem o lado ruim. Tanto ladrão, hein! Entrando nessa internet, roubando, fazendo coisas. Muita coisa também não foi bom. Antigamente era assim, era melhor num ponto, mas o desenvolvimento para mim foi melhor, porque você tem mais acesso às coisas, mais rápido. Você está aqui, logo chama o Uber, o Uber vem... Não precisa de andar pá pá pá pá. Sabe como é que é? Tudo é fácil. Mercado Livre, né? Tudo é fácil. Mas tem que ter também, muita atenção, muita atenção. E também, você também tem que estar aprendendo, cada vez mais vai mudando um pouquinho. Um pouquinho, não, um poucão. Então, você tem que já estar atualizado, você já tem que entrar… O caso meu, ou de outras pessoas da mesma idade. Talvez a sua mãe, sua avó, as suas, né? Os mais velhos, os mais idosos. Também já tem que chegar, já tá… Senão fica para trás, fica para trás. E se ficar para trás, já era. Eu fui na capital, Belo Horizonte, não sei se eu falei com você. Capital. Ai, meu Deus, que tristeza! Ave Maria! Muito, muito… Muito prédio. Ai, se eu ficasse ali, eu dava uma coisa no cérebro, na cabeça. Você mora em um apartamento? Alto? Você mora no baixo? Eu gosto de terra, eu gosto de casa. Muita depressão. Você não está achando que está tendo muita depressão, não? Depois do COVID? Muita depressão, muita doença. E outra coisa também que mudou demais, antigamente não tinha isso não. Esses meninos que são doentes, que têm duas professoras na mesma sala, como é que chama?
P1 - Autismo?
R - Autismo, aqui vê muitos alunos de autismo. Antigamente não tinha muito isso não. Autista. Vem duas professoras, os meninos... Nossa, coitado dos meninos. Coitada da mãe, coitado do professor. Professor precisa... Você tem aluno autista? Está tendo demais? Então, é muito trabalhoso. Eu acho que as mães ficam doidas para levar logo para o professor, para dar uma aliviada.
P1 - Agora, só te perguntar para a gente ir finalizando Dona Valdete. Como é que foi o processo aqui da Casa Museu? Essa coisa de turismo, de estar numa rota?
R - Como virou turismo? Como virou museu? Era aquilo que eu falei bem no início, teve um estudo para saber se aqui era escravo ou não. A irmã de Janaína, Nayara, trabalhava lá com o guia, e trazia os meninos para aqui, trazia os movimentos para aqui, porque foi aqui que descobriu Paracatu. Então, aí ela resolveu. “Ó, tão pegando dinheiro, tá vindo aqui, tá pegando dinheiro, então é melhor vocês se organizarem aí e receber os turistas.” Aí a Guiastur veio, traz os meninos aqui, e nós cobramos, para a manutenção da casa, para a limpeza. E aí, até hoje… Não tinha esses onze pontos. Não tinha os onze pontos. Existiam, mas não tinha os onze pontos. Era só aqui, vinha só aqui. Aí, depois, nós já tínhamos tudo aí. Tudo que tá aí, era nosso. Nós arrumamos só alguma coisa assim, para ficar mais bonito. Tipo assim, essas cabaças pintou, ppp. Deu mais uma organizadinha, né? E começamos a receber os turistas. Agora, o Romário, ele que é responsável de receber, receber os telefonemas e passar para nós o dia que vai vir. Agendar, o agendamento. E tem pessoas que agendam também pelo meu telefone. Que já tem 16 anos que virou.
P1 - E o que tem na casa, dentro da casa?
R - Você não?
P1 - Não. Mas eu acho que é importante você falar para gravar, né?
R - Tudo que está lá são coisas que meu pai deixou. Nós morávamos lá, como eu falei, né? Aquela cama ali é do meu pai. Os retratos em cima da cama, são da nossa família. Aquela mesa lá, são de sementes, sementes que meu pai plantava, tem arroz, tem café, tem mamona, tem baliza, tem biloca. Tem crianças que não conhece, acha que o arroz, não é aquele processo que passa. Acha que é aquele arroz que está lá no mercado. Nós mostramos para eles na palha, o pilão, entendeu? E lá na cozinha, só fogão a lenha, ainda. Até hoje nós usamos fogão a lenha, as panelas de ferro, chaleira, a xicrinha, os pratos esmaltados, sabe? A cabaça, que meu avô guardava o mantimento, da própria roça dele. Uma cabaçona. Era da roça de meu avô. Então são coisas que ainda conservamos, coisas ainda aqui da nossa família. Não tem quase… Os Santos, tudo da nossa família, o oratório. Pouquíssimas coisas que não são nossas, sabe? E as fitas nós pusemos porque nós é a caretagem. É a caretagem. E nós colocamos aquelas bonecas para embelezar, as namoradeiras, né? Você sabe o significado delas?
P1 - Não, conta pra mim.
R - As namoradeiras eram escravas, elas ficavam alí a disposição dos brancos. Para quê? Para fazer sexo com elas. Então são as namoradeiras, isso aí. Aqui em Paracatu mesmo tem, lá na janela. Você foi na Casa da Cultura? Na rua, subindo, assim, tem uma namoradeira. Então, a gente comprou essas namoradeiras. Você vê muito por aí.
P1 - Mas a ideia dos…
R - Embelezar.
P1 - Assim, mas a ideia do museu é que quem vá para um museu aconteça o que com quem vem para cá?
R - Contação de história, rodas de conversa, contação de história, que eu conto, eu sou mestre, eu tenho certificado, que a Kinross também me deu. E eu quero que a Kinross me dê também, que você veio cá, né? E ela é minha amiga também, já falei, que eu gosto da Kinross. Também participei de uma feira da Kinross. “Eu moro aqui, eu compro aqui”, da Kinross. Mas por causa da perna, parei de ir. Nem sei se existe mais.
P1 - Mas agora, quando os alunos vêm para cá, a ideia é o que? É ensinar eles?
R - Eles lancham lá na fábrica de biscoito, e vêm para aqui. O lanche vem para aqui, e lanche lá. A ideia daqui, o que eu ensino aqui, vai depender de cada público. Se for crianças, aí eu falo como eu estou falando com você, como era antigamente, o que aconteceu, como é que nós passávamos antigamente. Igual, eles não sabem nem o que é um arroz, eles não sabem o que que é um café, eles não sabem o que é um pilão. Eles não sabem. Agora, dependendo do outro público, se for um público mais velho, já sabe de tudo, disso que eu tô falando. Aí é outra conversa. Mas eles são apaixonados pelo quintal, pela mangueira, pelas plantas, sabe? Pelo verde, pela natureza. E se for estudante também, eu, dependendo, dou conselhos, falo para eles, assim, o comportamento na sala de aula, que eles estão ali para estudar, que ali vão sair grandes profissionais, naquela turma, que eles estudem mesmo, para fazer o futuro deles. Ali sairão médicos, advogados, juízes, polícia, professores. Para não sofrer, respeito. Falo muito do respeito, respeitar o professor, o diretor. Respeito por qualquer um na rua. “Boa tarde! Bom dia! Boa noite!” Não custa, né? Porque o mundo que a gente está vivendo, ninguém conhece ninguém. Tá. Principalmente com telefone, né? Às vezes, tem uma vasilha para lavar, eu pergunto a ele: quem ajuda a mamãe lavar uma vasilha? Lavar um banheiro? Muitos ajudam, mas muitos não ajudam. Muitos ficam só no telefone, no jogo. Eu falo: “Eu não mexo com jogo, não, pelo amor de Deus!” Eu falo para eles isso. Ensino para eles a realidade da vida. Falo da droga. Falo da droga, porque quem vai para esse caminho não tem volta. Tem é o cemitério ou uma cadeira de roda, ou... Não é bom! Não é bom. E falo da violência da cidade, como é que está a violência da cidade. Falo das dívidas, né? Para não ficar devendo traficante. Falo do vestuário, que tem gente que tem um vestuário, assim, você vai olhando a pessoa, já sabe que não tá com nada. Assim, não tá com nada, assim… Você que é rapazinho, tá procurando um emprego, põe um currículo, na hora da entrevista, você vai ser olhado tudo. Você vai ser olhado tudo. Tudo você vai ser verificado. Agora, você chega lá de boné para trás, chega lá de boné de crochê, chega com um tanto daquelas tatuagens mais loucas. Chega que eu não sei com o quê é que é, com aquele cordão lá embaixo, aquela... Como é que fala? Cordão, não, como é que fala?
P1 - Corrente?
R - Corrente. Aquelas correntes mais loucas. Mesmo que a pessoa não é… Mas os trajes mostram. Então, mesmo… A gente não pode ficar julgando pela aparência. Negócio, às vezes, a gente tem mania de julgar pela aparência, mas é feio, é feio, né? Eu não sei se é porque eu sou careta, tô velha. Calça caindo, sem cinto, lá na bunda, lá no pé aquela calça, aquilo lá não dá não. Pra mim não rola. Se eu fosse uma dona de alguma empresa, eu verificava isso tudo. Mesmo que tenha qualidade, mas eu queria saber. Queria saber. Só de bater o olho na pessoa… Eu colocava isso na ponta da caneta.
P1 - E, Dona Valdete, tem alguma pergunta que eu não fiz para a senhora, que você gostaria de contar algo? Antes da gente ir para as últimas perguntas.
R - Eu fico muito triste com a comunidade aqui, assim, em relação a Kinross, ela não roubou, ela comprou, é dela. Mas eu gostaria muito, nós temos uma represa aqui perto, uma cachoeira linda, que nós tínhamos uma cachoeira, e hoje é da Kinross. Eu gostaria muito mesmo, que é o sonho, não só meu, da comunidade, que essas terras voltassem para nós. Pelo menos essa cachoeirinha ali. Mas é dela, né? Ela comprou.
Mas a alegria nossa era ter essa cachoeira de volta. Mas aí, é dela, ela faz o que ela quer. Respeito muito ela, mas se ela desse, ou vendesse para nós, né? Mas a maior parte da terra aqui é dela. Nós fazemos divisa com ela, com a Kinross. Mas não sei. Não sei se eu vou chegar até lá. Às vezes, para frente, às vezes já até morri. Quem sabe pode acontecer. Mas a comunidade, eu falo em nome da comunidade. Não estou falando do meu nome, não. Em nome da comunidade, é que essa cachoeira voltasse para nós, para a comunidade. Lá não tem água não, mas pelo menos as pedras que a gente ia ver. Seria bom.
P1 - E, além disso, qual é o seu sonho? Se você tem algum sonho pessoal hoje, qual seria ele?
R - Ah, meu sonho pessoal é fazer minha cirurgia, uaí! Minha saúde. Para mim pular este São Domingos todo ainda. Pular corda, jogar baliza, né? Limpar, varrer. Eu não faço nada disso mais, que a perna não deixa. Meu sonho é ter saúde. E vou ter. Em breve vou falar com você. “Lucas, fiz minha cirurgia!” “Tá bem?” “Tô bem, tô isso, isso….” Ora para mim, viu, Lucas.”
P1 - Com certeza.
R - Viu! Viu Janaína!
P1 - E como é que foi contar um pouquinho da sua história hoje?
R - Pra mim foi maravilhoso. Me emocionei várias vezes. Chega a arrepiar. E eu primeiro quero agradecer à mineradora. Porque se não fosse ela, você não estaria aqui, né? Se não fosse os meninos estagiando… Que vocês brilhem nos seus estágios. Parabéns, né? Faz tudo de bom e melhor, que a mineradora vai agradecer mais um funcionário, né? E eu sei que vocês são capazes. O Lucas vai embora e vai deixar com vocês, e vocês vão brilhar nos seus trabalhos. E eu apaixonei, gostei demais. Todas as vezes que vocês precisarem de nós aqui, nós estamos de portas abertas. Muito obrigado! Mas muito obrigado mesmo. E a última palavra vai ser essa, uma palavra de meditação, e vocês vão falar também. Primeiro, vocês vão fechar os olhos, vão pôr a mão no coração, e vai... Pena que a música está atrapalhando. E vai perceber o coração bater. Hoje. Fala. Hoje para mim foi um dia maravilhoso, tudo de bom. Vem a mim. Que eu tenha saúde. Que eu tenha alegria de viver. Eu sou feliz. Eu sou feliz. E eu sou feliz. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. Não deixei cair em tentação, mas livrai-me do mal. Amém. Que Deus leve vocês nas suas casas com muita saúde. E você que vai pegar estrada Lucas, que você chegue na sua casa do mesmo jeito que você chegou aqui. Muito obrigada!
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