Memória de Natal
O Natal não era apenas uma data.
Era um chamado antigo.
Um tempo em que o mundo desacelerava para que o axé da família pudesse se reunir inteiro.
Guardo o Natal entre as lembranças mais solenes da minha vida — aquelas que não envelhecem, porque moram no peito e caminham comigo.
A casa da minha mãe, na Rua Lucinda Ferreira, 253, no Ipiranga, em São Paulo, era pequena no tamanho, mas imensa em fundamento.
Um quarto, sala e cozinha; o banheiro do lado de fora.
E um quintal vasto de barro batido, chão vivo, que guardava pegadas, risos, correria de criança e o peso amoroso dos dias.
Aquele barro não era chão: era memória assentada.
Era ali que a casa respirava, que os passos sabiam onde pisar, que a vida se firmava.
Na sala, a árvore de Natal se erguia como um eixo.
Aos seus pés, os presentes repousavam como oferenda, porque aquele chão era sagrado.
Havia magia dentro daquela casa — magia de afeto, de comida no fogo, de vozes misturadas como reza coletiva.
Entre os dias 15 e 20, acontecia a compra de Natal.
Não era apenas mercado: era preparação de destino.
A casa entendia, antes da gente, que um tempo especial se aproximava.
No dia 23, as aves eram temperadas para dormir no tempero, como pede o respeito ao alimento.
E as sobremesas tomavam conta da casa.
Manjar, mousse, tortas de limão e de morango.
E a salada de frutas — muitaaaaa fruta.
Fruta em abundância, cortada com calma, colorindo bacias grandes,
misturando doce, frescor e promessa de fartura.
Aquela salada não era detalhe:
era axé de prosperidade servido em colheradas generosas.
O ar ficava perfumado e adocicado.
Fecho os olhos e ainda escuto o falatório atravessando os cômodos,
as risadas abrindo caminho,
os passos ligeiros no quintal de barro, acordando o chão.
No dia 24, o sol mal nascia e a casa já estava em movimento.
Havia muito a fazer, porque ceia também é trabalho de amor.
O forno não dava conta, e as aves seguiam para a...
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Memória de Natal
O Natal não era apenas uma data.
Era um chamado antigo.
Um tempo em que o mundo desacelerava para que o axé da família pudesse se reunir inteiro.
Guardo o Natal entre as lembranças mais solenes da minha vida — aquelas que não envelhecem, porque moram no peito e caminham comigo.
A casa da minha mãe, na Rua Lucinda Ferreira, 253, no Ipiranga, em São Paulo, era pequena no tamanho, mas imensa em fundamento.
Um quarto, sala e cozinha; o banheiro do lado de fora.
E um quintal vasto de barro batido, chão vivo, que guardava pegadas, risos, correria de criança e o peso amoroso dos dias.
Aquele barro não era chão: era memória assentada.
Era ali que a casa respirava, que os passos sabiam onde pisar, que a vida se firmava.
Na sala, a árvore de Natal se erguia como um eixo.
Aos seus pés, os presentes repousavam como oferenda, porque aquele chão era sagrado.
Havia magia dentro daquela casa — magia de afeto, de comida no fogo, de vozes misturadas como reza coletiva.
Entre os dias 15 e 20, acontecia a compra de Natal.
Não era apenas mercado: era preparação de destino.
A casa entendia, antes da gente, que um tempo especial se aproximava.
No dia 23, as aves eram temperadas para dormir no tempero, como pede o respeito ao alimento.
E as sobremesas tomavam conta da casa.
Manjar, mousse, tortas de limão e de morango.
E a salada de frutas — muitaaaaa fruta.
Fruta em abundância, cortada com calma, colorindo bacias grandes,
misturando doce, frescor e promessa de fartura.
Aquela salada não era detalhe:
era axé de prosperidade servido em colheradas generosas.
O ar ficava perfumado e adocicado.
Fecho os olhos e ainda escuto o falatório atravessando os cômodos,
as risadas abrindo caminho,
os passos ligeiros no quintal de barro, acordando o chão.
No dia 24, o sol mal nascia e a casa já estava em movimento.
Havia muito a fazer, porque ceia também é trabalho de amor.
O forno não dava conta, e as aves seguiam para a padaria do bairro — ritual coletivo, partilha silenciosa com a vizinhança.
Às 20 horas, a mesa se tornava altar.
Primos, irmãos, tios, amigos.
E no centro daquele mundo estavam meu pai e minha mãe — pilares, guardiões, troncos antigos sustentando o império invisível da família.
O momento maior era o abraço.
O corpo encostado no corpo, o silêncio carregado de bênção.
E a palavra que atravessa o tempo:
“Deus te abençoe, minha filha. Que você realize seus sonhos.”
Ali eu aprendia que Natal é isso.
Não é excesso, não é enfeite.
É retorno ao ninho,
é estar sob a proteção dos mais velhos,
é saber que, mesmo quando o mundo endurece lá fora,
existe um chão de barro, um abraço,
uma mesa farta de frutas,
e uma bênção
que nos mantêm de pé.
Marta de Sàngó
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