Encontro na terra Bororo
Houve um dia em que minha busca por cura me levou a caminhos inesperados. Eu procurava uma anciã indígena, benzedeira na aldeia Bororó (MS), para tratar uma mastite que me afligia. Minha irmã me acompanhou em um trajeto que, eu não sabia, mas mudaria a forma como observo o mundo.
Sob um sol escaldante, em meio à terra que compõem o cotidiano da aldeia, vimos uma idosa indígena caminhando. Oferecemos carona. Logo percebemos, com um aperto no peito, que ela estava alcoolizada (reflexo amargo de como o crescimento exponencial da cidade tem impactado de forma devastadora as comunidades indígenas).
Ela não falava português, mas aceitou o gesto. Foi então que testemunhei o momento que, até hoje, não saiu da minha mente.
Ao entrar no carro, a senhora não se sentou de modo convencional. Ela se colocou de cócoras, com os pés sobre o banco e de costas para o pára-brisa, em uma posição de completo acanhamento e embriaguês. Ali, naquele instante, vi o choque entre dois mundos: o design do carro, feito para a postura passiva e ergonômica da civilização industrial, contra o corpo daquela mulher, cuja memória ancestral ainda buscava a naturalidade da terra e do repouso curvo.
Aquela cena não foi apenas uma curiosidade; foi a materialização de uma dissonância. O carro tornava-se um cenário de estranhamento para quem, até pouco tempo, não precisava de assentos para encontrar o seu lugar no mundo.
Após algum tempo, ela sinalizou uma moradia. Paramos. Do lado de fora, moradores que a negaram como residente, mas a reconheciam na sua condição de errância, entregue ao álcool, apenas observaram.
Segui minha jornada em busca da benzedeira, mas minha mente ficou retida naquele banco. Com o tempo, passei a contar essa história aos meus alunos, não como um fato isolado, mas de modo a enfatizar que há coisas que vivemos que marcam nossa história para sempre.
Às vezes, pergunto-me se ela ainda vive. Como foram seus dias...
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Encontro na terra Bororo
Houve um dia em que minha busca por cura me levou a caminhos inesperados. Eu procurava uma anciã indígena, benzedeira na aldeia Bororó (MS), para tratar uma mastite que me afligia. Minha irmã me acompanhou em um trajeto que, eu não sabia, mas mudaria a forma como observo o mundo.
Sob um sol escaldante, em meio à terra que compõem o cotidiano da aldeia, vimos uma idosa indígena caminhando. Oferecemos carona. Logo percebemos, com um aperto no peito, que ela estava alcoolizada (reflexo amargo de como o crescimento exponencial da cidade tem impactado de forma devastadora as comunidades indígenas).
Ela não falava português, mas aceitou o gesto. Foi então que testemunhei o momento que, até hoje, não saiu da minha mente.
Ao entrar no carro, a senhora não se sentou de modo convencional. Ela se colocou de cócoras, com os pés sobre o banco e de costas para o pára-brisa, em uma posição de completo acanhamento e embriaguês. Ali, naquele instante, vi o choque entre dois mundos: o design do carro, feito para a postura passiva e ergonômica da civilização industrial, contra o corpo daquela mulher, cuja memória ancestral ainda buscava a naturalidade da terra e do repouso curvo.
Aquela cena não foi apenas uma curiosidade; foi a materialização de uma dissonância. O carro tornava-se um cenário de estranhamento para quem, até pouco tempo, não precisava de assentos para encontrar o seu lugar no mundo.
Após algum tempo, ela sinalizou uma moradia. Paramos. Do lado de fora, moradores que a negaram como residente, mas a reconheciam na sua condição de errância, entregue ao álcool, apenas observaram.
Segui minha jornada em busca da benzedeira, mas minha mente ficou retida naquele banco. Com o tempo, passei a contar essa história aos meus alunos, não como um fato isolado, mas de modo a enfatizar que há coisas que vivemos que marcam nossa história para sempre.
Às vezes, pergunto-me se ela ainda vive. Como foram seus dias após aquele encontro? Que outras estradas ela percorreu e quantos outros mundos modernos a forçaram a se curvar de formas que não lhe pertenciam? Essa senhora, cuja identidade talvez nem o tempo tenha preservado, continua sendo, para mim, um lembrete de que a dignidade é o direito de existir.
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