Projeto Diversidade Cultural Capixaba
Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Clemar Viegas Costa, seu Bigode
Entrevistado por Sofia Tapajós e Maria Muriel Fagoto
Vitória, 26 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV002
P/1 - Obrigada, mais uma vez, pelo seu tempo. A gente queria que você começasse falando o seu nome, data e local de nascimento.
R - Meu nome é Clemar Viegas da Costa. Nascido em 15/06/1951. Nascido em Vitória, Espírito Santo.
P/1 - E qual é o nome dos seus pais?
R – Clemendes Viegas da Costa e Djalma Gonçalves da Costa.
P/1 - E o que que você lembra deles?
R - Eu lembro deles é que... que me... eu quando era criança, né? Minha mãe... que morava aqui... era mato puro. Nós viemos e nós fomos os primeiros moradores do bairro de Nazareth. A gente mora aqui há mais de 80 anos. Então, eu me lembro quando eu era criança que mamãe fazia comida, naquele fogão de lenha, né? Aí mandava a gente fazer a fila. “Faz a fila pra comer,” fazia a fila. Aí sempre tem um irmão esperto, que mamãe perdia a conta dos filhos. Quando que dava por... quando tava no meio, o que tinha comido primeiro tinha voltado para fila de novo, ela “Você já comeu?”. “Não, mãe, comi ainda não”. Aquele jeito ali. A gente também tinha... fizemos um poço. Aí começou o pessoal a invadir o bairro, né? Aí nós fizemos um poço no quintal para nós, né, nosso consumo. Aí começou o pessoal a invadir e descobrir que a gente tinha poço no quintal. Aí vieram pedir água a nós, a gente dava água para o pessoal. Aí não deu conta, fizemos outro poço. Aí pessoal fazia fila para pegar água. Tinha bacia. O bairro era... o pessoal vinha tudo pegar água, né? Aí a gente ganhava até dinheiro; carregar água para os outros, cobrava para encher um latão de 12 lata, né? Aí foi desse jeito. Aí a gente foi crescendo nessa vida aí... Aí eu com 10 anos, eu comecei a ver a situação difícil, né? Queria ter... ver as...
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Realização Instituto Museu da Pessoa
Entrevista de Clemar Viegas Costa, seu Bigode
Entrevistado por Sofia Tapajós e Maria Muriel Fagoto
Vitória, 26 de fevereiro de 2026
Código: DCC_HV002
P/1 - Obrigada, mais uma vez, pelo seu tempo. A gente queria que você começasse falando o seu nome, data e local de nascimento.
R - Meu nome é Clemar Viegas da Costa. Nascido em 15/06/1951. Nascido em Vitória, Espírito Santo.
P/1 - E qual é o nome dos seus pais?
R – Clemendes Viegas da Costa e Djalma Gonçalves da Costa.
P/1 - E o que que você lembra deles?
R - Eu lembro deles é que... que me... eu quando era criança, né? Minha mãe... que morava aqui... era mato puro. Nós viemos e nós fomos os primeiros moradores do bairro de Nazareth. A gente mora aqui há mais de 80 anos. Então, eu me lembro quando eu era criança que mamãe fazia comida, naquele fogão de lenha, né? Aí mandava a gente fazer a fila. “Faz a fila pra comer,” fazia a fila. Aí sempre tem um irmão esperto, que mamãe perdia a conta dos filhos. Quando que dava por... quando tava no meio, o que tinha comido primeiro tinha voltado para fila de novo, ela “Você já comeu?”. “Não, mãe, comi ainda não”. Aquele jeito ali. A gente também tinha... fizemos um poço. Aí começou o pessoal a invadir o bairro, né? Aí nós fizemos um poço no quintal para nós, né, nosso consumo. Aí começou o pessoal a invadir e descobrir que a gente tinha poço no quintal. Aí vieram pedir água a nós, a gente dava água para o pessoal. Aí não deu conta, fizemos outro poço. Aí pessoal fazia fila para pegar água. Tinha bacia. O bairro era... o pessoal vinha tudo pegar água, né? Aí a gente ganhava até dinheiro; carregar água para os outros, cobrava para encher um latão de 12 lata, né? Aí foi desse jeito. Aí a gente foi crescendo nessa vida aí... Aí eu com 10 anos, eu comecei a ver a situação difícil, né? Queria ter... ver as coisas. Aí comecei a comprar laranja e vender laranja. Tinha uma serraria na Praia do Suá, e fica logo aqui perto, né? Aí eu comprava a laranja na Vila Rubim e vendia na Praia do Suá. Aí eu vendia a laranja, eu tirava o dinheiro da laranja, vinha para casa com o resto da laranja e jogava de armava dentro de casa e os menino comendo. Aí mamãe: "Meu filho, isso é o seu lucro!”, “que nada, mamãe! Meu lucro que já tirei o dinheiro da laranja, meu negócio é querer chupar laranja, que é difícil para nós. A senhora não pode comprar laranja para ele, para nós, então, agora arrumou um laranjeiro em casa”. Aí comecei vender laranja. Já vendi peixe, já capinei quintal dos outros quando era criança, já... já fui babá de menina lá na Praia do Canto, já fui várias coisas.
P/1 - Você falou desses almoços que sua mãe fazia, você lembra que que ela cozinhava?
R - Ah, ela fazia comida normal, né? Fazia... quando o papai recebia, o papai comprava... Meu pai trabalhava no DNR, que hoje em dia é o DNIT ali embaixo, viu lá, você passou lá, né? E meu pai tava no DNR, quando eles vinha pagar, quando tinha ele tinha pagamento, aí ele fazia compra de... tinha cooperativa, fazia compra, ele comprava carne seca, comprava as coisa, né? Aí pendurava, antigamente tinha um monte de coisa, coisa pendurar carne seca na beira da cozinha pendurada. O negócio é que comprava um fardo de carne seca e aquele monte de menino começar a comer fora hora com farinha. E daqui a pouco “vai devagar, seus vagabundo vão comer feijão com arroz puro agora”.
P/1 - E que que você brincava quando você era criança?
R - Eu brincava com papo de galinha. A mamãe matava galinha e ficava brincando para pegar o papo. Aí pegava o papo de galinha e botava um... Esqueci o nome do negócio da rua, o negócio é que tinha um... fazia um canudo, né? Enfiava no papo da galinha, soprava, enchia, aí fazia bola e jogava na praia, jogava pelada na praia, com o papo de galinha.
P/1 - E com quem que você jogava?
R - Jogava com os irmãos mesmo, né? Aí foi o pessoal morando, também, começou a parecer mais menino, né? Aí a gente brincava. A gente tomava, brincava, na praia, tomando banho. Era muito bacana, muito legal aquele tempo. Tudo bom.
P/1 - E como que era o bairro assim?
R - O bairro quando eu vinha para aqui, o nome era Morro do Contestado. Quando eu vim morar aqui, o... Quem tomava conta aqui era o exército. Aí veio... Aí nós fizemos uma casa de estuque... Né, uma casa de barro, esse negócio, sabe o que é casa de estuque, jogava barro assim, né? Aí eu vou mandar o papai mostrar. “Papai, vou jogar barro aonde?” A hora que botava a cara, jogava... tinha um balde, “filha da mãe!”. Era divertido, era legal. Aí a gente... Aí a gente mora... A gente ficava ali ... onde fizemos a casa de barro. Aí quando começou o pessoal a invadir, aí o Exército veio aqui e proibiu. Ele falou: "Ah, nós vamos derrubar a casa”, tudo com arma na mão, né? E nós ficamos com medo. Aí meu pai falou: "Ó, não sai ninguém dentro de casa não, já servi na guerra de 45, essa porcaria não tem bala não. E se tirar um pingo de sangue no filho meu, aí eu corto vocês tudo na foice”. Aí o meu pai era um mineiro meio doido, né? “Aí então o senhor vai tomar conta do bairro”, “Eu não, como eu preciso, o senhor também precisa. Quem vier pode fazer, eu vou ficar... brigar com ninguém por causa de terra!” Aí começou... Aí começou a aparecer gente invadinhdo. E o antes o morro aqui era Morro do Contestado. Aí o pessoal começaram a invadir, aí começou a vir os fiscal da prefeitura e derrubar... Aí não esqueço até hoje o nome do nome do fiscal, o tal de Nassau. Aí o tal de Nassau derrubou a casa, mataram ele. Aí botaram o apelido: Morro do Contestado, sobe em pé e desce deitado. Aí pararam de derrubar casa, levaram “lá só tem índio, lá eles matam”. Aí o pessoal foi invadindo, né? Aí depois passou o nome do bairro Morro do Bento Ferreira, que é o Bento Ferreira do lado de lá, né? Beira Mar e do lado de lá é Bento Ferreira. Aí colocaram o nome Morro do Bento Ferreira. Aí ficou um bocado de tempo Morro do Bento Ferreira. Aí depois a comunidade aí fez uma igreja lá em cima, né? Igreja católica. Aí colocaram lá, agora vão registrar o nome na prefeitura. Aí botaram bairro Jesus de Nazareth. Aí botou o Jesus no meio, pessoal aquietaram com o nome de Jesus Nazareth. Então é até hoje.
P/1 - E escola, seu Bigode? Você achou chegou aí? Como que era?
R - É, estudei pouco, né? Porque a da da dificuldade de família, né? Que tinha... Antiga... Hoje tá bom demais, eles dão caderno, dão sapato, dão uniforme. Antigamente não dava, né? Então, a gente ia de chinelo de dedo. É, brigar, pegar a sacola de pão de papel, botar os caderno dentro e ia pro colégio. E ia a pé daqui para pro colégio, também. Estudei até o quarto ano. Não deu para estudar mais não, que é o meu negócio é ter que trabalhar para ajudar a criar meus irmão, né? Igual eu falei, que é muito irmão, né? E a vida difícil, então a gente tinha que, aí eu... aí é desse jeito.
P/2 - Você citou sobre os seus irmãos, assim, eu queria saber quantos irmãos que você tinha ou teve.
R - Que tinha?
P/2 - É, quantos irmãos.
R - Era 16. 16 irmãos. Agora morreu um bocado. Aí vai ser o único herdeiro, só tem um uns nove agora.
P/2 - E você falou que você nasceu aqui e seus pais foram os primeiros moradores de Jesus do Nazareth. Mas os seus pais, eles eram daqui, do Espírito Santo?
R - Não, meu pai é de Valadares.
P/2 - Valadares.
R - Mas eles vieram para cá há muito tempo, aí tava trabalhando numa serraria lá na Praia do Suá e a serraria dava a casa, entendeu? Para os funcionários. Então, nós moramos um tempo lá na Praia de Suá, era Serraria Santa Mônica, antigamente. Então, meu pai foi e caiu da... lá tinha um guincho que carregava e pegava as toras e rebocava para lá e para cá e tinha 11 metros de altura. Meu pai foi lá consertar o troço lá em cima, caiu, quebrou 11 costelas. Aí ele não trabalhou mais, depois ele conseguiu o serviço no DNR aqui, né? Aí ele veio trabalhar no DNR.
P/1 - E aí voltando para a escola nesse período, teve alguma professora que te marcou?
R - Dona Dilmar.
P/1 - Por quê?
R - Porque eu era muito bagunceiro. Cheguei em casa pelas orelhas pendurada. Ela pegou minha orelha aqui e arrancou essa ponta aqui e ficou esse ____ pendurada e meu pai: "O que é que você fez? Que que é isso?” Foi a professora que cortou a minha orelha com a unha. “Eu vou lá brigar com ela!” “Não vai brigar não, que a culpa é minha. Eu que fiz bagunça, bati nos amigos dentro da classe e baguncei todo mundo”. E apanhei muito... “Ela tá certa, o errado sou eu. É bom que eu não faço mais”. “Ah, então tá certo. Você tá assumindo a sua dívida”.
P/1 - E que bagunça que você fazia?
R - Brigava dentro da classe. Tinha os moleque que era perturbados, eu dava... toda vida fui meio maluco, né? Eu sou disposto, assim, o cara chegar e não mandar recado, chegar e fazer. Aí eu via os moleque fazendo aquelas bolinha de papel, jogando os outros, eu achava ruim e partia para cima. É, “para de jogar” “achou ruim?” “Achei”. “Então vem cá”, vem, parte para cima aí e ela lá brigava no colégio, pegava pelos cabelos, rebocava, chutava e quebrava a cadeira, a bagunça danada, era muito bagunceiro.
P/1 - E aí depois que você fez até o quarto ano, o que que você fez?
R – O que eu fiz? Eu fiz várias coisas, né?
R - Eu fui ajudante de pintura, eu fui ajudante de pedreiro, já vendi peixe, aí eu fui evoluindo que era só igual jumento, só carregando peso. Eu fui vender peixe, carregando peixe nas costas, vender... já vendi picolé... É, a minha vida foi uma vida sofrida mesmo. Aí depois eu fui para... Aí comecei a descarregar, ajudar os barco ali que é a família grande, né? Eu fui ajudar descarregar, o pessoal encostava o barco lá, eu lavava a tauba e ajudava a descarregar o peixe, né? Aí ele me dava peixe, trazia peixe para casa. Aí um certo tempo eles... Aí eu fui crescendo aquele negócio ali, fiquei invocado, mexendo ali ganhei dinheirinho e estava ali, né? Aí uma época eu quando eu tava com 16 anos, rapaz, o dono do barco me chamou: "Clemar, você quer ir para o mar?" Falei: "Ah, eu quero". Eu via ali o pessoal recebendo dinheiro, um monte de dinheiro danado, que eu nunca tinha visto aquilo. Aí, "Você vai mesmo?” “Vou". “Então, pode trazer essa mochila lá e vamos para o mar, nós vamos viajar amanhã". Aí, eu fui em casa, falei: "Mamãe, eu vou para o mar”. Eu peguei um saco lá, botei roupa dentro do saco. “Que você está fazendo, Clemar?” “Eu vou para o mar”. "Não, meu filho, você não vai não, pelo amor de Deus, você não vai não”, “eu vou". Aí, peguei e fui para o mar. Mas quando eu falo lá, falo na reportagem,_________ temos que dar um conselho para as pessoas sobre desobedecer mãe e pai. Porque eu não obedeci minha mãe. Aí fui para o mar. Aí quando chegou lá no mar, o barco levava 15 dias, o barco quebrou. Aí acabou a água, acabou a comida. Aí nós estávamos bebendo água cheia de ferrugem que é tanque de... tanque de barco que era de ferro, né? Hoje em dia é inox, tem de fibra, já melhorou. Antigamente era de ferro, aí a água fica chega no fundo aquela água enferrujada, né? Aí bebendo aquela água, nós tava lá em Abrolhos já, daqui lá em Abrolhos é umas 24 horas de viagem. Aí nós... Aí quando nós tava... Parece que Deus. Foi de Deus. Aí eu... Aí viu um navio, passava o navio e nós gritava, passava outro gritava, botamos óleo dentro do latão, botamos fogo, aí vinha um navio, _________ fazia um sinal pro navio. Aí pareceu, era o Ana Neri (Ana Neri?), navio de passageiro. Não vi de falar nesse navio mais, já se acabou, aposentou, não sei. Aí o navio foi, encostou perto de nós. Aí deu comida para nós. Aí jogou a corda para amarrar nós. Aí amarrou o barco, né? Aí amarramos o barco, meu Deus do céu. Um bicho desse estava mais com a mão de total na viatura e rebocar um barco aqui de... tinha 16 metros o barco. O navio de 500 metros, falei meu Jesus, pareceu um carrapatinho atrás. Quando ele amarrou o barco que mandou o pessoal todo se segurar, que ele engatou a frente mas foi para o fundo. Aí quando levaram... nossa, aí eu entrei na casa, aí eu subi na casaria, fiquei agarrado na casaria com bujão de gás agarrado lá. Eu falei: "Eu vou ficar aqui não”. Eu fui lá para cima, sempre eu fui mais esperto. Se eu fui na casaria, eu agarrei no nos bujões de gás, fiquei agarrado lá, quando veio o barco afundando assim, boiava. “Mesmo se eu se morrer alguém aqui, eu vou ser o último aqui”. Aí daqui a pouco boiou de novo, mas tinha um cara lá com um facão na mão, qualquer coisa que os barco não se boiasse, não aparecesse, ele cortava a corda e o barco soltava, né? Aí o barco boiou assim, aí ele trouxe nós. Deixou nós em Conceição da Barra. Chegou em Conceição da Barra. Aí ele chamou um cara, foi capitania, comunicou tudo, né? Foi lá, pegaram nós, botaram para dentro de Conceição da Barra. Aí fiquei mais 30 dias lá, que o dono do barco falou: "Ah, você fica aqui, que você é solteiro, e os outros vão embora". Eu fiquei vigiando barco. Aí fiquei lá para consertar o motor, esperando acertar, né? Aí vim embora e mamãe sem comunicação, que não tinha celular, não tinha nada antigamente, né? Mamãe doida comigo, “Cadê Clemar? Cadê Clemar?” e também tinha os pessoal pescador que morava aqui, ______ “Djalma, Clemar tá lá em Conceição da Barra, nós estamos Conceição da Barra”. “Ele tá bem? “Tá. Ele tá lá vigiando o barco lá. O homem deixou ele, que ele é solteiro, nós como tem família, nós viemos embora, ele ficou lá com o dono do barco, ele gosta muito dele, deixou ele lá no barco”. Aí fiquei lá, fiquei aquele monte de dia e depois comecei a pescar de novo. Aí peguei outros barcos, fui pescando, pesquei 25 anos. Já fiquei perdido no mar, dentro de um botinho de um metro. Botinho de um metro, não, botinho tinha uns dois metros, tem um botinho ali que é igualzinho o que a gente trabalhava, levava 35 bote. Aí cada pescador dentro de um bote com a garrafa de água, um garrafão de água, uma cesta de isca, anzol, corda para ancorar, esse negócio. Aí ficava o dia todo, ficava lá. Na hora do almoço 10 horas, o barco ia dar o almoço, passava, você jogava o peixe, pegava o prato de comida, uma garrafa de cerveja e café. Aí me deram um por um. Aí de noite ele vinha de novo, aí à noite a gente enchia uma lata de óleo, de leite ninho, cheio de estopa, botava fogo. Aí é, ele vinha em cima do fogo. Aí quando chovia, não achava. Vez em quando ficava um doido era no mar, não achava mais. Mas eu era mais esperto, já montava junto, ia escurecendo eu já remava lá para beira dos outros. Eu nunca vou sozinho, não. Se eu for, vai mais um bocado junto.
P/1 - E com quem que você aprendeu a pescar?
R - Sozinho, né? Os companheiros, né? Já tinha mar ali, nascido aqui na beira do mar, tinha já tinha já empatava anzol, já pescava berezinho na praia. Entendeu? Então, a gente pescava de linha. Era na mão. Aí, eu aprendi vendo os outros pescadores também fazendo. Eu ficava dentro dos barcos direto, né? Via eles fazendo os aparelho dele lá, como é que faz a pargueira, faz o as jogadas, chumbada, essas coisas tudo fui aprendendo.
P/1 - Que que é pescar de linha?
R - Pescar de linha é... Você usa um bolo de linha, 200 metros de linha de nylon, linha de nylon. Aí você coloca um peso de 1 kg com arco, faz um arco, coloca um peso de 1 kg e pega assim e faz um peso no meio, né? Aí amarra a linha numa ponta e a outra ponta você amarra e jogada (jogada?). Que é um aparelho que a gente faz de anzol quatro, cinco anzol, seis anzol, depende, né? Aí faz a jogada e coloca aí no fundo para pegar o peixe. Aí quando bate no fundo ele levanta duas braças e segura.
P/1 - E que que você pescava? Quais eram os peixes que você mais pescava?
R - Ah, já eu trabalhei em barco só de cação, trabalhei em barco que era peixe geral, igual esse barco que eu trabalhei alí: saioba, badejo, dentão, sirioba, é muito peixe, muita qualidade. Cação, tubarão, essas coisas. Tubarão, cação é tuda a mesma coisa, tem gente que diz cação é cação, tubarão é tubarão. Não, a mesma coisa, cação é porque é pequeno, tubarão porque é grande. E tem várias marcas de tubarão, tem o perigoso, tem o calmo, tem o tigre, tem o cação-tigre, tem cação-martelo, tem cação-ariqui, tem cação-tintureira, tem cação-mangona; variedades.
P/1 – E o que você fazia no seu tempo livre?
R - Meu tempo livre não fazia nada, ficava em casa à toa. Nunca gostei de esportes, essas coisas, né? Chegava a pelada e me ligaram que eu era expulso que eu era de chutar a canela dos outros, mas errava a bola só na canela dos outros. Não deixava jogar não, que era muito bravo.
P/1 - Não saía para festa, para namorar...
R - Não tinha tempo, naquele tempo era muito... Aqui era... Não tinha luz, tudo escuro. Aí depois fiquei rapaz, aí eu ia para os baile, forró, lá pra Reta da Penha, tinha um forró ali na Leitão da Silva, ia para lá. Juntava, chamava os amigos, né? Nós ia para lá. lá. Aí vez em quando vinha sair de lá, quatro, cinco horas da manhã. Antigamente botavam o leite no portão e pão, né? Que o pessoal tinha... Não sei como era aquele negócio era escrito, eu acho, de entregar. Não sei se chegou a ver isso. Eles penduravam no portão da pessoa, do cliente, o saco de pão e o litro de leite. Que era litro de leite de garrafa, né? Aí nós saíamos carregando tudo, ia passando, pegando o pão e o leite. A noite toda no forró!
P/1 - E a aí, quanto tempo você pescou?
R - 25 anos.
P/1 - E teve alguma história marcante, algum momento?
R - Teve, teve, que eu eu fui pro mar. Aí, quando eu cheguei do mar, aí eu... Aí mamãe... Eu cheguei em casa e minha mãe triste no portão ali, né? Falei: "Ô, mãe, que que houve?" E Ah meu filho, seu pai morreu. Falei: "Meu Deus do céu, poxa, que vida minha essa vida minha não tá prestando não." Aí, vai fazer o quê, né? Já morreu. Aí fui para o mar de novo. Demorou mais uns anos, né? Aí cheguei do mar, mamãe falou meu avô morava... O pai de mamãe morava no quintal também com nós, lá no quintal, deixamos fazer uma casinha para eles lá. Mas ah meu pai morreu, seu avô morreu. Sim, mãe então eu só sei... eu vou pro mar agora não, só vou depois que vovó morrer. Você está doido meu filho, sua avó não vai morrer agora não. O quê? Eu duvido, não vai demorar nem um mês. Com 25 dias a velha morreu. Eu que boca de praga. Eu falei: Ah mãe, sabe o os dois velho é muito agarrado, né? Já sabe o sentimento, a pessoa é velho, não aguenta o baque, né? Já sabia que a velha ia. Aí a velha morreu. Aí depois eu casei também, tem outra coisa também que eu casei. Aí eu morava ali também, tem uma casinha verde ali. Aí eu morava ali, deve ter para o meu irmão morar, dei recado para ele lá. Aí eu eu casei, aí a minha mulher ficou grávida, o primeiro filho logo eu fui para o mar, quando eu cheguei a minha mulher triste, na portão ali, “Que que foi, mulher?” Aí, o neném morreu! O neném nasceu morto. Ei, minha filha, não chore por causa disso não, eu tô novo, você não tá nova. A gente faz outro, vamos para lá fazer outro. Eu tô com 20_____ demais, bater e já sai andando o moleque. Você não tem amor não? Amor, eu não vi. Amor, eu tenho amor a você. Você tá viva. Fazer o quê? Não tem como fazer mais nada, né? Quer controlar ela. Que pescador é um bicho meio grosso, igual o igual o roceiro, meio zarro, né? Então eu fui criando aquela bagunça lá, aquelas coisas lá. No mar saía na briga, puxava faca no outro. Eu tenho um monte, tenho marca de facada que o cara me deu para me matar. E viajando para o mar. O cozinheiro me deu uma facada. Aí quando eu... Aí eu fui e meti o pé na, aí levantei o pé, meteu o pé na cara dele, aí a faca pegou aqui, abriu daqui a aqui. Aí o comandante, nós vamos voltar. Não tô mandando você voltar, pode ir embora, aqui eu boto sal vinagre e pronto, sara. Aí ele foi pro mar com uma uma bocona daqui a aqui, tá aberto aqui, tem um talho aqui assim de faca. Aí aquilo inflamou e diacho, tome vinagre e sal até sarar. E lá no mar também disse: "Ah, passei muito sofrimento, no mar também, quando dava dor de dente, hoje em dia eu tô fazendo implante, que eu perdi os dentes. Dava dor de dente, pegava um alicate e arrancava com alicate. Às vezes arrancava o dente que tava doendo, tava perto do outro, arrancava o que tava bom e deixava o que tava doendo, e arrancava o outro. É, igual os animal, não vai... igual índio.
P/1 - Você falou dos seus avós, que lembrança você tem deles?
R - Ah, tem muita lembrança deles, era uns coroa muito bom, né? Porque morreu não, mas era meus velho bom. Mas eu era muito perturbado, desde criança que eu era perturbado, minha avó, minha casa. Antigamente era aquelas casas de tábuas, portas, janelas, né? Aí eu lá, aí uma gretinha nós ia olhando e minha vó tomando banho. Ô Djalma, nome mamãe é Djalma. Ô, Djalma, Clemar tá olhando aqui pela greta. É, “ô, mãe, tem problema não, mãe, que eu sou cego, mas enxergo”. Que eu sou cego de uma vista. É mentira dela, vó, mãe. Eu sou cego, mas enxergo, mas eu vou experimentar, uma coisa para dentro de casa para rir de mim. Esse menino é um cão.
P/1 - E eu só seu avô, como era?
R - Meu avô era caladão, minha avó que era mais brava, minha avó era de boa, até tá.
P/1 - E aí você falou do seu casamento, como que você conheceu sua esposa?
R - A minha esposa eu conheci foi no... que ela veio, ela é de Guaçuí, a mãe dos meus filhos é de Guaçuí, ela veio para cá, sei que diacho que deu que ela gostou de mim, eu nem eu tinha nem farrapo que conversava com ela, ela gostou de mim, aí eu fui, eu sou meio vagabundo, né? Comecei, quero conversar com ela. Mas eu tomava um grau. Aí ela morava na rua de cima ali. Aí comecei a conversar com ela, gostou de mim e sem namorar e o pai dela virou um capeta, que ela tinha um namorado em Guaçuí, tinha vindo para cá há pouco tempo e tinha um namorado em Guaçuí que era fazendeiro. E eu era pescador, que diferença, né? O cara rico lá em Guaçuí. Aí ela falou mas ele é rico, mas eu não gosto dele, eu é negócio de gostar, né? Dinheiro não traz felicidade, né? Aí ela gostou de mim e começamos a namorar. Aí eu um dia eu... Aí ele botava, eu namorava _______na varanda, aí botava o irmão da mulher junto, eu com ela e o moleque na beira vigiando. Meu Deus do céu. Aí a luz acesa na varanda e o cara do lado ainda, o moleque do lado ainda. Praga não dorme não. Aí o meu sogro, uma vez o menino não veio. Aí eu olhei pela greta, o pai dela olhando pra minha cara, dizendo safonada ali, o velho olhando pelo buraco, eu falei: Amanhã vou trazer o arame e vou furar os olhos do seu pai. Faz isso não, nego! Ela me chamava de nego. Faz isso não, nego! Que? Não vou fazer, dengo. Avisa a ele que se eu ver os olhos dele na greta aqui ele vai ficar sem os olhos, eu vou pegar um ___ de arame e furar os dois olhos dele. Aí começamos a namorar, aí o velho vigiando demais, eu vou ensinar esse velho como é que vigia. Ensinar ele, ver se vigia mesmo. Aí ela estudava lá na cidade, né? O colégio de irmã de caridade, esses negócios tinha lá na cidade. Aí marquei com ela. Nega, amanhã você fala lá no colégio. Eu vou lá e pego você e nós vamos dar uma saída aí. Você vai me levar para onde? Como é que não? Vou te matar não. Aí eu saí, aí eu marquei com ela, ela foi, peguei um táxi, lá peguei ela e vim lá para Camburi, um motel é la é em Camburi, levei ela para lá. Infelicidade ou felicidade, não sei, ela engravidou. Eu era pescador, né? Aí fui para o mar, quando cheguei do mar ela tinha... O pai tinha mandado ela embora de casa. Ela tava aí foi para casa da madrinha dela lá em Vila Batista. Deve saber onde é mais ou menos Vila Batista, lá em Vila Velha. Aí fui para lá, fui atrás dela e a madrinha dela gostava de mim também, né? Fiquei de boa lá, conversando com ela, e coisa e tal. E nessa. Aí nessa onda ela engravidou, foi quando ela perdeu a criança também, parece foi quando perdeu a criança. Aí uma vez eu passei também. Aí eu quando eu namorei com ela, também o velho tinha razão, né? Que eu bebia. Aí uma vez eu passei eu passei na porta deles correndo, ele foi e chamou: Vem cá, a Cândida. O nome era a Cândida, né? Ô, Cândida, corre aqui ó, o seu noivo, o que que tá acontecendo aqui. Que ela olhou, eu passei na carreira e um monte de polícia atrás. Eu tinha batido num policial lá em cima, uma confusão desgraçada. Não podia ver polícia, eu gostava de bater em polícia. Cancela alguma coisa. Aí era preso aí o pai... e o tio Dé (tio Dé?) era desembargador mandava me soltar. Aí um dia o delegado: Ó, tô com um homem no hospital, costela quebrada e outro sem dente. Esse sobrinho tem pacto com o demônio. Quando ele bebe ninguém segura ele, é igual sabonete. Aí eu falei. Aí ele falou para ele. Aí ele foi e falou: Ô meu sobrinho, para com isso que o delegado falou que agora te pegar vai prender mais não, vai te matar. Aí fui e larguei de beber. Foi bom.
P/1 - E o dia do casamento como foi? Vocês chegaram a casar?
R - Casar, casamos na igreja bonitinho, fomos na igreja Salesiana aqui na... Vocês já vi? Ali pela avenida Vitória ali? Igreja muito antiga, conhecida, né? Ah, casar, casar bonitinho. Mas eu era tão ignorante que eu não sabia nem como é que fazia. Aí eu cheguei e não vi ela, eu vi que diacho é esse, essa mulher não vai vir e vai me deixar de bobeira aqui. Aí quando... Aí depois ela chegou, ela tava escondida atrás da porta. Aí ela entrou, aí foi dar a mão, aí eu peguei do lado errado, foi dar volta, pisei em cima do vestido dela, vestido cumprir de noiva, né? Aí ela deu um passo à frente, quase que eu caí no chão. Aí eu falei: Ah, se eu caio, você ia ficar sozinha que coisa que eu caia, levantava e saia correndo e largava você aí. Aí casamos direitinho, na igreja, tudo bonitinho. Aí vivemos... Aí eu fiz 41 anos de casado, dia 3 de março, ela faleceu dia 23. Não esqueço até hoje. Que é a mãe de meus filhos que eu tenho. Ela sempre brigava com comigo. É, você quando morrer, você vai deixar um monte de herdeiro atrás, que você é muito vagabundo, você é um safado. Ela tinha um ciúme de mim danado. Mulher bonita, não sei o que que achou em mim. Era uma índia bonita, cabelo comprido, mulherão. É tanto que meus filhos são bonitos, puxasse a mim nascia tudo lixo. Tudo feio que só o cão, não tem beleza não.
P/1 - Qual o nome dela?
R - Cândida. Dona Cândida. Foi ela que me tirou da bebida, fala: "Larga de beber, larga de beber”, entendeu? Então, o que eu tenho hoje. Tudo que eu tenho hoje eu agradeço a Deus e a ela. Que ela é uma mulher muito sábia, entendeu? E mandou eu largar de beber, largar de beber, largar de beber até que um dia eu fui é, vou largar mesmo. Aí eu larguei de beber que a bebida eu era besta. Até hoje, se eu beber eu pago para todo mundo, quero nem conhecer a pessoa, essa aí é minha! aí o cara ia lá receber, vim pagar, e minha conta? Não, Bigode já pagou. Pagava para todo mundo que eu era pescador, ganhava muito dinheiro. Que eu era cozinheiro, era pescador, depois fui o cozinheiro, fui motorista de pesca, depois fui a comandante, que eu não estudo não, mas tenho sabedoria. Eu hoje em dia eu não troco o segundo grau, terceiro grau pelo meu quarto ano. Eu ensino meus netos fazer coisa que “vô, como é que é isso aqui? Vô, como é isso aqui? Eu não sei”. Eu ensino a ele, só que mudou as frações, as coisas, né? As contas, é. Mas eu falo do meu jeito, eles entendem, né? Eu vou falar assim, assim, dá quanto? Às vezes eu tô aqui na cozinha, meu filho fala: Pai, uma pessoa me deu R$ 180, ele tá devendo R$ 180, me deu R$ 500. Quanto tem que dar de troco? R$ 320. Aí ele só, pô, o vô nem pensa para falar o troco. Aí, eles falam as coisas, aí, quando eles estão embaraçados, aí, vai ser muito difícil perguntar as coisas que eu tenho, eu sou muito... Matemática eu sou bom, era bom então em matemática. Eu parei de estudar igual eu tô falando, porque a dificuldade, né, a situação ruim, então eu não tinha como você estudar sem uma roupa, sem nada, então, eu falei: "Não, aí meus irmãos precisando das coisas também, então, eu vou ter que correr a atrás de alguma coisa. Igual eu tava falando da minha esposa, voltando atrás, aí mandou largar de beber. Aí larguei de beber, aí continuando pescando, né? Aí eu fui, aí que chegou em 89, falei: Amor, nego, tem que parar de pescar. As crianças tão crescendo. Os cara e você e não me escuta. Só você mesmo para poder eles ouvir. Aí eu falei: Meu Deus, o que que eu vou fazer? Aí meu irmão tinha um barzinho ali, tem um bar do Alemão lá que tem mais de 50 anos lá de boteco. Aí, eu vou fazer um bar para mim, mas vou fazer um bar diferente. Aí, eu fiz aqui. Aqui era a minha... meu quarto, minha sala, desmanchei, aí peguei meu quarto, joguei para trás. Aí, eu fechei esse essa partezinha aqui, só. É só um bequinho assim, um corredor aqui, ali era o banheiro dos homens e da mulher ali. Aí, comecei fazer, aí eu fiz o bar todo de vidro. Aí, eu era pescador, tinha facilidade, aí eu comprava camarão desse tamanho, camarão de 100 g, cada camarão assim, camarão. Aí fazia camarão frito, não sabia como é que ganhava dinheiro, tinha que comprar um camarão 10 cruzeiro, vendia a 15 cruzeiro, uma bandeja com meio quilo de camarão, aqueles camarão VG o pessoal comprou... Aí começou a falar, o pessoal falando para os outros, ah, ah, Tia Cândida, Tia Cândida, não sei o que, aí pediram para fazer moqueca, ela fez a moqueca e gostaram. Aí começou a fazer moqueca para um, é, filé com fritas, essas coisas de boteco mesmo. Aí começaram a chamar os outros pessoal de fora, ah, não, falaram que a senhora faz a moqueca boa, nós queremos moqueca. Aí ela ia fazer, começou a fazer moqueca, moquequinha para lá, moqueca para cá. Aí foi crescendo, aí começou a vir prefeito, governador, Paulo Hartung, Luiz Paulo, é senador, é juíz, empresário, começou a vir um pessoal, aí eu fui aumentando. Aí fui, desmanchei, aí fui e invadi para cá, aumentei para o lado do mar. Aí quando aumentei aqui, aí eu falei. Veio a. deram parte de mim, pessoal do bairro é fogo, né? Então me denunciaram, tá invadindo na praia. Aí veio meio ambiente. Tudo armado, um monte de homem armado, vieram por... não sabia conhecer o caminho aqui, eles nem conheciam aqui, aí vieram por aqui. Aí eles tudo armado, ah viemos para derrubar isso aqui, eu com a cara cheia de cimento que eu tava enchendo as coluna, né? Aí eu, inclusive eu fiz uma coluna aqui dentro da água, aí veio a capitania. Ei, você não pode fazer troço aí, não. Se eu não posso, lá canal, mas enquanto tiver dando pé, eu vou fazer. Se eu puder fazer outro mais para frente, eu faço. O cara botou o boné na testa e saiu, vamos embora, que esse cara é doido. Aí fiz a... fiz as colunas, os cara vieram para derrubar. Eu falei: Ah, vocês vão derrubar isso aqui não. Por que você fala isso? Quem é você? Eu sou o Bigode. Por que você tá falando isso? Eu tô te avisando que se você derrubar, você vai perder emprego. Que autoridade é você? Você não é nada, você é o quê? Eu sou o Bigode. Tô falando que eu sou o Bigode? Só Bigode, mais nada. Aí... E por que você não quer que derruba? Não quero que é meu, eu não quero que derrube. Já gastei dinheiro, não vou perder não. Aí eu falei: Ó, eu vou quebrar seu galho, vou te dar meia hora, eu vou sair, você me espera meia hora. Daqui a meia hora se não tiver a resposta, aí você pode derrubar. Aí você vai aonde? Não interessa onde eu vou. Só tô avisando para você não perder emprego. Me espera meia hora. Então, tá bom. Então, eu vou dar uma colher de chá para você, aí saí correndo, todo sujo de cimento, fui lá na prefeitura. Na época Paulo Hartung que era o prefeito. Aí fui entrando quando cheguei na porta da prefeitura para entrar, os caras cercaram, me cercaram. Ei, não pode entrar tudo assim, não, todo doido, não. O outro lá gritou lá de trás, lá, o vereador gritou assim: deixa entrar que esse cara é o Bigode. Quer perder o emprego? Aí fui correndo, fui lá no gabinete de Paulo Hartung. Ó, Bigode, tomar um cafezinho... Não sei o que. Que café, pelo amor de Deus! Olhava pra mim eu chega tava espumando o Bigode quase correndo espuma igual siri que tava. Fui correndo, né? Aí, quer café? Não, quero café não. O que que você quer, Bigode? Eu tava tremendo, nervoso. Que que foi, Bigode? Ô, Paulo Hartung é o seguinte, foi um pessoal lá do meio-ambiente para derrubar um... que tô fazendo um puxadinho, que é para vocês mesmo, para atender melhor, mais confortável. Aí tô fazendo um puxadinho lá e eles tão falando, eles foram lá para derrubar. Não, Bigode! Aí ele foi e ligou pro secretário de meio-ambiente. Meio-ambiente: fala com o Bigode para ficar tranquilo, que eu vou mandar aquelas cachorrada sair de lá agora. Aí quando... Aí eu vim embora, que cheguei aqui, aí os cara assim: "Você é um desgraçado! Desgraçado, não, sou abençoado, livrei o emprego de vocês. Ia perder emprego. Como é que você tem conhecimento? Não interessa, mano. Porque esses caras vêm aqui, você quer saber da minha vida agora? Vai embora, rapaz, some daqui. E eu sumo, o pessoal tinha apostado como eu não fazia, apostaram cerveja, ah eu vou passar quatro grades de cerveja como bigode não faz aquilo ali, eu falei: vou dar oito grades de cerveja, eu vou botar tira-gosto de camarão ainda como eu faço. Aí aumentei para cá, botei um telhado, depois tirei o telhado para de lá e fui fazer, tem cinco para andar aí o prédio.
P/1 - Você que fez tudo?
R - É, fiz desde pescaria, fiz tudo. Não tava pescando, então, negócio de pescaria, igual tava antes. Ia sempre um cara “previso”, né? Aí eu falei bem assim: Poxa, eu vou ficar velho, o dinheiro de pesca. Pesca dá dinheiro, mas se eu aposentar, vai ser mixaria, salário mínimo, mais um salário um pouquinho, né? Eu falei: Eu vou fazer umas casa para alugar, porque quando eu ficar velho tem uns aluguelzinho que ajuda, né? Aí comecei a fazer casa para trás lá. Em cima da outra para lá. Depois que eu aumentei para cá, né? Aí fiz as casas para alugar. Aí fiquei de boa. Aí depois que eu aumentei para cá, restaurante, aí ficou foi melhorando.
P/1 - E aí, voltando para sua esposa, você sabe como ela aprendeu a fazer a moqueca?
R - Ah, eu sou cozinheiro. Já nasci cozinheiro, quando minha mãe me ensinou a cozinhar. Nasci na beira da praia. Então, eh... Ela, ela não sabia não, mas ela aprendeu rápido que ela era muito, ela cozinhava bem, né? Então ela gostava de fazer essas coisas. Aí ela aprendeu aí, a gente que é daqui da área, então ela foi praticamente, ela ficou, veio novinha para cá, então ficou junto com o pessoal aqui e aprendeu a fazer a moqueca, né? E eu era pescador e jogava polvo fora. Aí veio um médico aqui, o nome dele é Valmir, dentista. Até da polícia, é dentista da polícia, já tá aposentado. Aí ele falou: Bigode, que era meu cliente ele, vamos fazer um... tem povo aí? Vamos fazer arroz de polvo. Que polvo, você tá doido comer essa porcaria, jogo aquilo fora. Você tá doido, rapaz! Um prato especial daquele. É o melhor prato que tem é polvo. Já arruma o polvo lá que eu vou fazer para... eu vou ensinar como é que faz o arroz de polvo. Aí ele veio e fez o arroz de polvo para mim, né? Ele foi lá para a cozinha fazer. Corta o tempero aí que eu vou fazer. Aí bota o polvo para cozinhar. Botou o polvo para cozinhar. Aí cortou o polvo, fez o arroz de polvo. Aí eu vi ele fazendo, aprendi a fazer arroz de polvo. Mas só que eu não fiz igual o dele. O arroz de polvo dele não foi, não ficou bom. Que ele botou leite, botou um negócio de... coisa de pessoal rico, gosto de cheio de frescagem, né? Ainda mais que ele era meio coisa. Aí eu falei, ó, aí eu não gostei não, vou fazer do meu jeito. Aí eu fui, aí comecei a fazer, a comprar polvo, fazer arroz de polvo, moqueca eu já fazia, né? Aí comecei a fazer arroz de polvo. Aí eu fiz o meu arroz de polvo é diferente do dele, dele ele botou leite, botou não sei o que, botou caroço não sei de que lá, semente meio, cogumelo, botou um... Aí fez aquela mistura, tira o sabor do troço, né? Então polvo é polvo, a salada faz a salada de diferente. Botou cogumelo, botou milho, botou ervilha, botou ah... isso não é arroz de polvo. Isso aí botou o arroz e misturou aquele troço para lá. Aí eu falei, vou fazer arroz do meu jeito. Aí o jeito que eu fiz o pessoal gostava, dele, o dele eu nem fiz, só deixei para ele fazer, que ele chamou uns doutor aí, veio, né? Vem juiz, vem desembargador, trouxe uma turma para comer. Aí ele foi, só deu o polvo e o tempero, aí ele trouxe os vidro de bagulho dele lá, as mistureba dele. E o meu polvo é feito só com tomate, cebola e alho e brócolis. Aí virou arroz, fica bom. Aí agora eu tô, tem um arroz que a gente faz, arroz de polvo com camarão médio, muito bom. Aí o pessoal gosta também. Aí depois eu inventei. Aí tem o arroz PP. Tem um cliente também que inventou tal arroz PP, falou dona Cândida, faz um arroz, faz um arroz para mim aí, um arroz de marisco para mim. Ah, não sei fazer não. Eu falo para a senhora como é que faz. Aí eu quero arroz de marisco, mas com todos os mariscos, quero lagosta, camarão, polvo. Aí tinha tudo aí, né? Aí fizemos o arroz. Aí com lagosta, camarão. Aí ela falou assim: E como que nós vamos botar o nome desse arroz no cardápio? Bota arroz PP. Por quê, PP? Meu nome, Pedro Paulo, vou fazer propaganda. Esse cara... Aí, ele fez propaganda, veio um pessoal de São Paulo, Rio de Janeiro, vinha para cá, eu quero comer arroz PP. Eu quero comer arroz PP, não sei o quê, aí gostaram, começou arroz de PP tá famoso até hoje é conhecido. Tem muita gente que vem cá e procura o tal do arroz PP, né? Aí eu criei outros, mas nós criamos outros pratos, né? Eu criei também a tal da mariscada da casa, que é há pouco tempo foi lançado aí, né? Que é Camarão VG, Lagosta, polvo, siri desfiado e Lula. Aí o pessoal endoida. Bigode, qual o melhor prato? É o meu, né? Qual? Mariscada da casa. Se você achar em algum lugar por aí desse arroz, eu pago a dispensa, pago o vinho para você. É mesmo, Bigode? É, pode ir no melhor restaurante do Brasil que você não acha. Só aqui que tem, exclusivo. Aí o pessoal... A gente faz moqueca e mais tanta coisa, aí tanto que tem mais de 200 opção aí. De gente tirar entradas, né, essas coisas, siri, bolinho de bacalhau, isca de peixe, filé de peixe. É muita... Hoje em dia, dia de domingo aqui é 400 pessoas. Sábado, eu vi aqui é 300. Esse carnaval foi ver mais de 2000 pessoas aqui. Sexta, sábado, domingo, segunda e terça. Mais de 2000 pessoas. Pessoal vem de São Paulo. Aqui vem japonês, americano, vem japonês, vem pessoal até da Arábia Saudita aqui. Veio dois caras aqui, falou que veio me conhecer, da Arábia. Eu disse eu, hein? Aí veio pro hotel, aí falaram com ele o restaurante do Bigode, a vista e não sei o que lá, aí vieram e o cabou e gostaram, tiraram foto comigo, eu fico mais tirando foto. Não trabalho mais. Agora tô... Depois que a mulher morreu, também fiquei meio descontrolado, não... Aí fiquei mais... deixei para os filho, achei um cara que queria arrendar aqui por 50%, falei não. Eu vou ver com meus filhos, se meu filho não quiser eu te dou, porque eu não vou ficar mesmo, isso aqui ainda é muito trabalho, né? Aí eu falei com meus filhos, ó, Carlim (Carlim?), tem um cara que me dá 50% que é que eu vivo... que eu fico só de boa aqui para tirar foto, para receber os cliente, e coisa e tal. Aí, não, pai, nós pega. Então, pega. Aí, eu não vou deixar dar para os meus filhos, pra dar para os outros, né? Aí, eu eles tão aí, tá dando certo, graças a Deus, tá levando aí.
P/1 - Você lembra o primeiro dia do restaurante, do bar? Como foi?
R - Primeiro dia foi igual eu tô falando, foi boteco, né? Então, o pessoal do bairro que vinha. Vendia carne de sol com aipim... Foi um barzinho que eu fiz, até carne seca com aipim, filé com fritas, filé de peixe frito. Então eu vendia essas coisinhas assim, né? Aí eu... Linguiça com aquela... Linguiça calabresa com... misturada com aipim, uma batata, um negócio assim, eu fazia essas coisas, mas fazia no fogão da gente mesmo. Aí depois foi aumentando aí foi teve que mudar o negócio, né? Comprar fogão industrial. E igual hoje em dia tem três fogão de seis boca, e ainda o pessoal ficar doido, não dá conta, né? Que é muito, aí tem oito cozinheiro. Oito na cozinha e 18 garçom nos finais de semana. Que é tenso. Pessoal pega a senha, daqui chega aqui uma hora da tarde tem que pegar a senha para entrar, não tem vaga não. Eu falo que vai abrir, abre 11 horas, 9 horas gente sentada na... o que você tá fazendo aqui? Tô esperando o Bigode abrir, porque parece que tá o telefilme do NPN (?), eu espero agora aguardando os filmes. Aquilo que a prefeitura... Tem que vir aqui 10 horas, 9, 10 horas estão lá sentado na praia ali. Tô fazendo uma horinha aqui, enquanto abre, o Bigode abre. Depois não acha mais lugar para sentar. Vem do Brasil inteiro aqui. Aqui já veio Men at work, vocês já ouviu falar um grupo de rock sueco. Já viu? Falar. Men at work. Que vieram fazer um show no Álvares Cabral e vieram aqui. Man at Work, Marcos Palmeira, Paulo Betti, Eliane Giardini, J. Quest, Marcelo Falcão, Dayane dos Santos, Hans Donner. Ih, mas tanta gente... Aquele cara que trabalha no Domingão do Huck. É nossa (nossa?), o nome dele é Valdir, mas aquele carnavalesco, fortão. Que anda todo cheio de... um coroa já, tá vendo? Esqueci o nome dele. Não sei se é Valdir, Moacyr, sei lá, o nome dele. Aí vem humorista, vem muita gente aqui, é, pessoal ator de novela. O... Aí vem muita aqui, é muito conhecido mesmo. E vem de fora para conhecer aqui. E vem grupos aqui de... vem africano, americano, inglês, francês, japonês, indiano. Não sei nem quantos seguidores eu tenho, não sei se é 75.000 ainda ou aumentou.
P/1 - Você falou dos seus filhos...
R – A Isis Valverde veio aqui com o Marco Buaiz. Aí eu falei até brincando que ia processar ela, que eu não sabia de nada, e tinha um repórter com ela e eu não sabia. Aí ela veio aqui: Ei, Bigode não sei o que, sentando aqui e me chamou. Me chamou para tirar foto com ela, tirei foto com ela, o povo chamava. Ela que me chamou tirar foto. Aí, tiramos as fotos e ela desceu para lancha dela, eu desci atrás. No outro dia o pessoal falou: Bigode você está famoso, vi você na televisão com Isis Valverde e Marco Buaiz. Eu falei: Quem falou com você isso? Eu vi você na televisão. Eu falei: Aquela sacana me filmou e eu não vi. Aí ela queria ficar para vir, amanhã... Bigode, amanhã nós vem de novo, ele: Não, vão para Cabo Frio. Esse Marcos Buaiz é dono do Shopping Vitória, o dono... Você sabe, muito conhecido ele, mesmo negócio de cantor também. Já o Marcelo Falcão liga para mim quando vem. Vem direto aqui, vem... Isis Valverde veio no dia 2 e ele veio no dia 17. Ele vem três vezes por ano aqui. Ele liga para mim, virou cria da casa já. Gente boa aí.
P/1 -Você falou dos seus filhos? Quantos filhos você tem?
R - Quatro. Tinha cinco faleceu um, aí tem quatro. Tem Cleone, Rodrigo, Charles, Sabrina.
P/1 - E como que você se sentiu quando você teve seu primeiro filho?
R - Eu senti bem, né? Foi... Fiquei feliz, que o primeiro nasceu morto, né? Que eu nem vi. Aí nasceu o Cleone. Em 70 e... Casei em 73 e a mulher do... o primeiro que morreu foi quando eu engravidei ela antes de casar, né? Aí Cleone nasceu em 74. Tá com 50, faz 52 anos agora em setembro. Ficou legal, fiquei feliz ter o filho. Aí tenho três homens, e a menina. Sabrina. Que é osso. Sabrina vale por três. Braba.
P/1 - Como que era a relação de vocês, de você com eles quando eles eram crianças?
R - Era boa, era que eu não ficava com eles. Eu não vivia, eu não... Quem sofreu foi a minha mulher. Eu mesmo não, eu mesmo eu ia para o mar, ficava 60 dias fora de casa. Eu ia pescar e na Ilha Trindade, África. Daqui lá é 70 horas de viagem, da Ilha Trindade para África é 12 horas. É divisa de Brasil com a África, né? Aí eu ficava... Eu ia lá fazer pescaria. Na época não tinha comprador de peixe aqui, nós ia vender em Salvador. Ia para Salvador vender. Aí vendia o peixe lá em Salvador, ficava uns oito dias lá, vendia para uma empresa lá, para a (Emendonça?). Depois... Aí eles de lá abastecia, saí lá para Trindade de novo, fazia pescaria para o Rio de Janeiro, passava ali, via minha casa aqui, mas ia para o Rio de Janeiro, vender no Rio. Aí de lá do Rio que a gente descarregava e vinha fazer, aí botava só comprava sardinha, né? Trazia só a isca e dava do Rio para cá que é mais barato. Aí trazia a isca. Aí ficava aqui mais uns 10 dias. Por mar de novo, eu não tinha tempo de ver meus filhos, educar meus filhos, conversar com os filhos, né? Já chegava do mar esgotado, cansado, né? E quando você recria, quando começava a respirar e aí para o mar de novo. Não tinha... Quem criou meus filhos mesmo foi minha esposa, eu mesmo não tive essa vida, esse contato com os filhos permanente, dar todo dia com ele, para explicar, para conversar, né? Então não tive essa sorte de estar com eles.
P/1 - E você em algum momento já levou algum dos seus filhos para pescaria no mar também ou também já ensinou sobre pescar com seus filhos, não só no alto do mar?
R - Cleone. Cleone é igual a mim. Bravo. Ele tava no banco, ele e o Cristiano, que é os dois mais velho que o primeiro que faleceu, o outro que faleceu, né? É, Cleone e Cristiano, mas arrumei serviço pra eles no banco, é porque é menor aprendiz. Aí estavam trabalhando no Banestes. Aí um dia ele foi lá entrou de férias. Aí ele estava de férias, tinha férias deles também, né? O pai eu quero ir para o mar, me leva para o mar. Eu falei assim, eu não, você pra sofrer, você é um garoto novo desse, você tem que estar no banco, meu filho. Lá você... é só você ter que estudar para poder crescer na vida, lá você pode ser um gerente, alguma coisa lá dentro e aqui no mar você vai ser peão toda vida, não vai passar daquilo. Que pode ser o comandante de pesca, mas é pescador, é mestre de barco. É bom que ganha dinheiro, mas não é... não tem o nome. Não tem um nome igual o engenheiro, é um médico, é um advogado, é um juiz, é uma coisa. Então, queria meus filhos fizessem isso. Então, eu até gastei dinheiro com colégio particular, não quiseram. E não tem estudo também não . A sorte deles é porque eu tenho isso aqui que é que o que que é igual um... Ganha bem, né? Mas senão, eles tava tudo lascado aí, que não quiseram estudar. Briguei, eu fiz tudo para eles estudar. Meu filho, agora vou estudar, agora eu tenho condições de pagar o estudo, tem um restaurante, vocês vão estudar, para ser alguém na vida. Aí não quiseram, pagava curso, pra eles abandonavam, não ia, não ia, não ia. Falei, ah não vou ficar pagando, jogando dinheiro fora. Paguei contabilidade para eles, ah pai, tem que comprar um computador, comprei um computador, uma datilografia, comprei. Um dia peguei, fiquei nervoso, joguei pela janela lá de cima na maré. Falei, vocês não quer é nada, vocês não quer nada, só quer ficar dentro de casa ocupando espaço. Aí um dia ele foi lá e pegou essas férias do banco. Rapaz, eu quero, eu vou para o mar. Com quem? Comigo, não! Ah, eu vou... eu vou com o Valdir. Eu. O senhor não quer me levar? Eu já falei com o senhor, o senhor não quer me levar. Eu falei: Eu não quero levar você pra você não sofrer, meu filho. Eu já sofro demais lá e eu já tenho as manha já tenho... Eu sofro, mas eu sei como... Eu aguento a barra e eu sei como funciona o troço. Já entrou o anzol no meu dedo, arrancar o anzol com o carne e tudo para fora, já arranquei dente com alicate e passava o sufoco lá e vencia. Já tava... Na área do brabo. Não vou levar você não. Se você não me levar eu vou com Valdir. Ó, já que você quer se lascar e tem o que você vai sofrer com os outros, eu vou sofrer só comigo. Aí levei ele para o mar. Aí tava de férias, só as férias aí. Vou levar só uma viagem, aí levei ele para o mar. Quando chegamos do mar, vendemos o peixe. Eu dei só meia parte para ele, quando ele viu o dinheiro que ele tinha ganhado é por parte, né? Aí dá 40.000, aí tira 20.000 de despesa, 20.000 divide com os pescadores. Tem o mestre que ganha mais, o outro ganha menos, o motorista, esse negócio tudo por categoria, né? Aí quando ele viu o dinheiro, aí ele disse: Ó, eu não vou para o banco mais não, vou ser pescador". Aí mãe, aqui mãe, esse dinheiro aqui para mim ganhar isso aqui, eu tinha que trabalhar um ano lá no banco para ganhar um dinheiro desse. Eu ganhei isso aqui em 15 dias. Que eu era mestre, eu levei que eu era mestre do barco, já era mestre, né? Aí levei ele. Aí ficou sendo pescador, depois foi ser gelador de peixe, conservar peixe, ele aprendeu. E ele é trabalhador, é meu filho, mas ele é guerreiro. Aí deu certo, ele ficou pescando uns tempos, depois saiu do mar. Aí, graças a Deus, saiu também, né? Aí fui trabalhar em terra, já foi... já trabalhou em taxista, já foi um monte de coisa, foi segurança, trabalhou um monte de coisa, agora tá comigo, que todos eles estão comigo agora.
P/1 – E o restaurante teve algum momento mais difícil, algum período mais complicado?
R - Teve, teve uma época de... Da outra vez que falei com você antes, ali da pandemia, né? A pandemia o pessoal sumiram tudo e eu fiquei em situação de risco, como diz o... É difícil, né? Que a gente comprava as coisas, não vendia, tinha cheque para pagar, antigamente era cheque, dava cheque, né? Aí aquele negócio aí foi diminuindo o cliente foi diminuindo a compra também, para poder controlar as coisas, né? Aí vinha menos gente, mas deu para a gente... passando um sufoco bravo. Foi dois anos, um ano e pouco passando um sufoco. Mas mesmo assim ainda tem uns clientes fiel que vinha assim mesmo, né? Tem uma pessoa que não ligava para negócio de aquele troço que tava morrendo aí, não queria saber, né? Aí vinha, tinha gente que vinha de máscara, tirava a máscara, o pessoal já andava com uma vidrinho de álcool na mão para desinfetar a mão, essas coisas todas, tinha álcool nas mesa também colocava, a pessoa é mais segurança, ver que a gente tava cuidando também, né? Mas graças a Deus eu passei muito aperto mesmo, passei perrengue bravo, mas Deus abençoa que eu cresci de novo. Hoje em dia vem uns empresário aqui: É, Bigode, você tá rico, né? Pois é, eu tô rico, mas se eu contar a minha vida pro carroceiro, até o burro chora. Tem vezes que eu mesmo contando a minha vida, eu choro, que eu lembro tanto que vida brava que eu passei, já passei por trancos e barrancos, já sofri muito, cara.
P/1 - E hoje como que é seu cotidiano?
R - Meu cotidiano hoje é mais é vagabundando, à toa. Eu trabalho uma semana, combinado com os meus filhos, meus filhos deu a ideia de trabalhar dois por semana, aí eu trabalho. Eu fico uma semana aqui e trabalho não, venho aqui e tiro foto. O pessoal quer tirar foto comigo. Aí eles trabalham hoje é Cleone e Rodrigo e é Charles e Rodrigo. Rodrigo não chegou ainda. Vou processar ele. É Charles e Rodrigo hoje. Aí a semana, essa semana. Aí a semana que vem é eu, Cleone e Sabrina. A Sabrina não combina com ninguém. Tem que ter o Cleone que é bravo, aí bate de frente com ela, e ela tem medo dele. Só que ele é grande mesmo. Aí ela tem medo dele, ela só fica com... Tem que... É eu, Cleone e ela. Aí e eu e eu fico mais é e a outra semana sou eu, né? Aí igual eu falei, eu Cleone e ela semana que vem. Mas eu quase não faço, quando tá muita gente, eu dou uma força, eu faço uma coisa e outra, mas o pessoal não deixa eu trabalhar. O cliente chega assim: Ah, o senhor que é o seu Clemar. Quero tirar foto com o senhor, vim aqui tirar foto com o senhor. Você vai tirar foto é para comer. Tirar foto sem gastar nada, não vai não. Não, nós vamos almoçar. Então tá bom. Ah, só pra tirar foto, eu tô aqui, nego esta lá e aí... eu tenho.. que eu boto o mesa lá embaixo. Você viu aqui embaixo não, viu? Que é ... aqui embaixo enche de mesa aí, até a foto, enche de mesa no telhado aí, né? A gente vê essa mesa aí. Aí enche, o garçom vem cá chama: ô Bigode, tem umas mulher te chamando lá embaixo lá. É bonita? É bonita, uma meninona bonita demais. Então eu vou. Aí eu vou lá, eu vou fazer a foto, vou brincando com eles. Aí desço e tiro a foto, subo e tiro foto, mas é esse negócio. Tirando foto, pessoal gosta de tirar foto comigo. Aí tem umas menina bonita, igual você assim, aí chama. Ô Bigode, posso tirar foto com o senhor? Aquela cara de humilde. Menina, e essa humildade pra tirar uma foto com um bicho feio desse, você quer tirar uma foto comigo com essa humildade, pedindo saindo com a humildade! Já vou correndo, menina. Precisa falar, Bigode, vem vai tirar foto comigo, já vou em cima. Olha, não, porque o senhor é é famoso, né, Bigode? Olha, aí é outra conversa, famoso, cheiroso, gostoso e poderoso. Aí elas cai na risada, que eu sou muito moleque, muito brincalhão. Aí o pessoal gosta e o pessoal também, os cliente meu também acha o seguinte, que eu sou o dono de mestre (mestre?). E eu falo com todo mundo, não tem pobre, não tenho rico, eu sento na mesa, eu peço comida dos clientes, quem não me conhece. Peço comida. Aí pedi comida do cara na mesa. Sentei na mesa, aí o cara chegou a se assustar assim: moço, que eu tô cheio de fome, arruma um pratinho de comida para mim. Ah, moço, se se o senhor tivesse falado antes, eu pedia mais um pouquinho e dava para o senhor. Vê se um pessoal aí arruma para o senhor. Não, esses pessoal são muito ignorante, eu não quero não. Aí vou para outra mesa pedir, aí o cara lá chama, veio chamar, fico olhando um pouco assim, o cara chamou a garçonete. Ó, vai lá, faz um prato para aquele moço lá, tá cheio de fome, tá pedindo comida para todo mundo aí. Ele falou comigo, eu fiquei sentido que eu não tinha não podia dar aqui é pouquinho. Aí tá pedindo o outro lá. Ih, aquele lá, aquele cara é doido. Ele é doido? É, ele é o dono. O quê? Chama ele lá, quero pedir perdão, desculpa. Adoro! Cara com essa palhaçada assim, eles fica doido. Tem cliente milionário aí que não sabe ir para casa de tomar vinho, vem de lancha me buscar aqui. Ô Bigode, pescar. Você tá doido, rapaz, tenho alergia à água salgada. Seu filha da mãe, você era pescador, não sei o que. Eu sei que você conhece pesqueiros, eu conheço, conheci, agora não conheço mais não. Graças a Deus, tem muita amizade com juiz, é desembargador, é polícia, é todo lugar que eu vou o pessoal me conhece. Eu fui para Fortaleza, botei um calçãozinho de praia, que eu sou feio para diabo, né? Perna seca, botei um calçãozinho de praia, fui para praia com a mulher toda de bolão. E cara gritando: Ei Bigode! Falei assim, pelo amor de Deus, nem em Fortaleza tenho paz. Cara, eu conheci ela em Fortaleza, cara, é meu cliente, tava lá em... mora lá em Fortaleza. E como é que eu ia acertar logo onde você tá. Logo você aqui. Logo você, vim encontrar você aqui, pelo amor de Deus. Eu não posso ter paz não? Não, Bigode, você tá em casa. Se eu tô em casa, tô indo embora. Tô na praia. Daqui eu vou embora. Não quero aqui não. Daqui a pouco vai aparecer mais gente. É, que fulano de tal mora aqui também. Diz que é mais um motivo em correr. Aí eu já agora faço isso. Aí quando eu viajo para Fortaleza, Recife, já foi três vezes em Recife, Fortaleza, agora vou para o Pará, Salinas. Meu aniversário em junho, aí eu vou lá para Salinas festejar lá meu aniversário. Trabalhei muito agora eu mereço! 76, sabe? 75. Fazer agora em junho, né? Então já sofri muito agora é hora de curtir um pouco.
P/1 - E com quem que você vai viajar?
R - Vou com a minha esposa, terceira agora. Terceira minha esposa. Já tô na terceira. Acho que eu vou para quinta, sexta. Vou pulando, sozinho que eu não fico.
P/1 - E como você conheceu ela?
R - A minha eu conheci ela nova. Eu conheci ela que era aqui do bairro, era daqui ela. Aí ela sumiu daqui, foi trabalhar fora. Aí depois minha mulher morreu, e aí negócio de Facebook esse troço, mexendo com um monte de mulher, que eu sou bem safado, procurando, achava uma, passeava, conhecia, não dava certo, gostava de parangolé, lá fora. Isso aqui eu vou levar boné, lá fora. Aí encontrei com ela, aí mandei a mensagem para ela. É, eu não converso com homem casado não. Toma vergonha na cara. Eu conheço sua esposa, não sei o quê. Falei: Minha filha, minha esposa faleceu. E tem um ano já que ela faleceu. Ah, é verdade? Ela não falou mais comigo não, né? Mas ela tava investigando. Aí perguntou aos pessoal: Não, a dona Cândida morreu mesmo, tem tempo que ela morreu já. Aí que eu fui... Essa é a terceira já, né? A outra não, a outra... Aí eu fui e casei com ela. Ela queria casar que era evangélica, quis casar. Aí casei com ela. Eu moro lá também porque a casa é dela. Que ela não... Eu queria morar aqui, eu tenho 12 casas casa aqui. Então, eu queria morar aqui. Ela não quis morar, não sei porque a minha casa é grande demais. Eu quero meus filhos, tem quatro quarto, duas sala, cozinha, três varanda. Aí, ela... E dois banheiro, ela ficou doida acho por causa disso. A casa dela também não é pequena, não? Ela tem aquela embaixo lá em Novo Horizonte, a casa dela é boa também lá, né? Mas tá lá. Mas tá muito mal ela tadinha, tá ruim. Não sei se vai emplacar 27 não. Já tô com outra na lista.
P/1 - E o bairro aqui mudou muito?
R - Não, o bairro aqui é... depois que eu fiz o restaurante... Isso aqui era meio brabo, né? Depois que eu fiz restaurante, então melhorou muito, porque pessoal vem muita gente de fora e eles não sabem quem que vem, né? Vem polícia, vem juízes, vem de gente aqui, né? Aí aqui ficou tranquilo, aqui o pessoal vem aqui. Vem aqui, fica com medo. Bigode, aqui não é perigoso? Não, perigoso aqui sou eu. Você pode deixar o carro aberto lá, ninguém mexe. Mexe nada, Bigode. E se alguém roubar, se alguém roubar, manda me prender, foi eu que eu mandei roubar. É assim que funciona? Aqui é. Rapaz, sou fundador daqui, eu moro aqui há 76 anos, então quem vai mexer com nada aqui? Graças a Deus nunca deu problema aqui comigo não. Aí o pessoal Bigode, aqui é perigoso? Eu: se fosse perigoso eu não crescia, meu filho, eu fiz do boteco, do boteco tô com restaurante, eu não tenho. E se eu fizer o restaurante daqui na praia, só emendar, se você quiser ir para lá, e vai enchendo, quanto mais aumentar, mais enche, que o pessoal vem de fora, vem tudo para cá, fica. Tem gente que vem aqui e pega a senha para entrar. Eu aí eu fico com pena do pessoal, minha filha, vai no outro. Não, vi. Uai, você que é o Bigode? É sou eu mesmo. Então vem para ver no Bigode, vou em outro? Mas vai demorar. Tem problema não. Eu espero. O senhor me arruma uma cerveja pra tomar aqui em pé mesmo. Aí arrumo. Então eu vou esperar. Agora eu espero mesmo. Eles ficam esperando, mas não vai não. Eles ficam aqui até... Tem gente que fica uma hora esperando na fila aí.
P/1 - Oi?
R - Aí você pergunta como o pessoal vem aqui se de lancha.
P/1 - Então você falou do Pier aqui do lado? Como que foi que vocês construíram?
R - Não, eu fui o... Os clientes pediram para fazer o píer. Aí, aí eu vai ter que fazer um píer aí para a gente encostar lancha, a gente vem de jet-ski, que o estacionamento ficou ruim, aí que fizeram um lugar que estacionava carro, fizeram, o prefeito fez um campo de futebol lá, negócio de área de lazer, né? Aí estreitou o estacionamento. Aí tem a gente deixa carro lá no Bento Ferreira, pro lado de lá, lá do lado do Senac, pro lado de lá, na Beira-Mar e vem a pé. Aí falaram comigo, e eu falei que faz um píer aí para a gente encostar a lancha, vem de lancha, jet-ski, tem muito amigo que tem lancha. A gente vem de lancha. Aí eu falei bom, eu vou, eu vou pensar no seu caso, mas tá difícil, é aqui. É, mas você faz um píer bom. Você vai... Quem vai me ajudar? Aí eles: ah, não, nós ajuda o senhor. Aí foi. Então tá bom, aí chamei o... Aí vou ver, aí demorou um tempo, né? Eu falei: Vamos fazer o píer. Aí eu fui como é que faz... Aí pensei como é que vou fazer o píer, como é que funciona, essas coisas, né? Aí achei um cliente meu aqui falou Bigode, tem que ter um engenheiro naval que só engenheiro naval que pode fazer o desenho para poder fazer o píer. Aí eu falei: Que é esse cara aí? Falaram nome do cara, chama ele lá e me deram o número dele, chamei ele, veio aqui. Aí você tá Bigode, é você que quer fazer um píer? É eu mesmo, quero fazer um píer aqui para encostar lancha e jet-ski, esse negócio. Ele falou: Bigode, mas para fazer esse troço, vou te avisar logo. Para mim fazer o desenho, o croqui, só o risco só do píer é R$ 10.000. E para fazer o píer, você tem que ter autorização de meio ambiente, prefeitura e capitania, porque você... Porque se eu... depois que eu fizer tem que pagar os R$ 10.000. Agora então é melhor você procurar antes saber se tem, se autoriza ou não autoriza. Se não autorizar, então é melhor você não fazer, não adianta fazer o desenho, né? Aí falei, tem que falar com quem? Tem que pedir autorização ao meio-ambiente, prefeitura e capitania. Aí eu peguei o celular assim, aí falei, liguei para a prefeitura. Ô Pazolini tô precisando da licença aí para fazer um píer aqui. Aí ele falou: Ah, Bigode, é nóis. Já já eu mando um pessoal levar pra você a autorização aí. Aí falei tá bom, tchau, obrigado. Aí fui lá pra secretaria de meio ambiente, consegui falar com o secretário. Aí o engenheiro arregalou os olhos. Você não vai lá não, Bigode? Eu vou fazer o que lá, rapaz. Tem uns amigo, eu tenho amigo, tenho conhecido, rapaz, só já tá liberado aí, ó. Aí liguei para capitania, liguei para comandante da capitania. Me deu até o boné aí. Aí eu liguei para o comandante da capitania. Não, Bigode, pode mandar brasa aí. Depois quando tiver pronto depois me avisa que eu vou fazer a vistoria. Aí o engenheiro ficou doido. Ué, Bigode, você não sabia que tinha esse poder todo não!
Eu falei: Graças a Deus, não tem dinheiro, não, mas tem amigo. Ter amigo é... amigo para... o negócio não é ser rei. O negócio ser amigo do rei. Eu não quero ser rei não. Quero ser amigo do rei. Aí eu mandei fazer. Aí arrumaram esse pessoal que faz, procurando um e outro, né? Um começou a fazer, fez porcaria, eu tô mexendo até hoje, tem vezes que eu tenho que reformar a lateral ali dos cano, botaram uns cano vagabundo ali. Aí eu tô querendo botar um uma estrutura mais resistente aqui. Mas a flutuante é bom, aquilo ali é feito de fibra e resina, não é lata, não. Aí é muito bom. Aí o pessoal vem agora com a de lancha, jet-ski ali, né? Ficou bom, ficou legal, mas aí tem uns cara que tem comércio aqui. Eu pedi lá, fui pedir o cara, cara me arruma uns R$ 10.000 aí para me ajudar para fazer o píer lá. Ah, não tem não Bigode, uma maré dessa, não tem condição não. Falei tá bom, mas também não encosta. É meu. Uma vez veio uma lancha aí cheia de gringo. Um cara trouxe, né? Aí veio se encostou ali. Aí veio só na lanchinha, encostou ali para sair. Aí vi o cara vindo com violão nas costas: Ei, você vai para onde? Ah, eu vou lá para o Languinho, então volta na lancha. Sai todo mundo aí, volta. Aí eles pegaram um bote e foram só dando na praia, não sabia nem tiraram o tênis, tiraram roupa, que aí dentro da água foram lá para o Languinho lá, para o outro boteco lá do bairro de lá. Aqui não pode, não pode por quê? Porque é meu, cara, que não é prefeitura que fez não, fui eu que fiz. Gastei foi R$ 180.000 aqui, não é brincadeira não. Aí foram embora.
P/1 - Bigode, e a paisagem aqui do restaurante? Mudou muito?
R - Mudou, é, essa ponte que fizeram aí quando era... eu vi fazer, começar essa ponte, né? Era pescador quando tava fazendo essa ponte aí. Então o pessoal... essa vista é o único restaurante que tem essa vista é o meu. Ninguém tem um restaurante dentro da beira do mar com essa vista. O pessoal fala Ilha das Caieiras, coisa e tal, mas a Ilha das Caieiras não tem essa vista que eu tenho aqui. Aqui é navio que passa, tem esses barcos aí. Tem gente que veio aqui... É preciso tem vezes os cara que eles fazem desenho e levam os riscos e tal e carrega aquele troço, eles olham assim, vai riscando, assim enquanto sai a comida, né? Tem uns cara que vem aqui eu falo: Rapaz, tá me aproveitando na minha área, tem que pagar pedágio. Ai, ai. Bigode, se der certo, eu venho cá te dar um agrado. Então, tá bom. Que essa vista o pessoal fica doido, fica fascinado. Mineiro, então, fica doidinho com os navio quase encostadinho assim, eles fica louco. Tira foto e tudo, né? Igual o píer que eu fiz ali. Aí eu comprei uma namoradeira, coloquei lá no final, a pessoa sentou, o cliente chegar, tira foto, né? A pessoa viu, ah, fica lá vai no píer, tira foto. Pessoal gosta.
P/1 - Você falou que você viu construindo a ponte? Como que foi?
R - Eu vi fazendo a fundação dela, né? Quando começou, que eu era pescador na época, né? Então, passava ali, eu me ____. Cada dia que... ficava 15 dias lá que eu via ter um pedacinho esticando até. Aí vem eles construindo a ponte, que, aí eu achei interessante que a ponte eles colocam uma parte, eles tem uma maca que eles puxam, aí vai andando tipo no trilho assim, aí encosta na outra. Muito interessante, nunca tinha visto aquilo. Mas morreu muita gente ali. Diz que tinha quatro cara embaixo na sapata da ponte, mexendo acertando lá, chegou um caminhão de concreto, encostou e derramou barro. Tem mais que 50 40 50 m de altura ali, desceu lá em cima dos cara aí, vai, vai tirar como? Ficou lá. Morreu muita gente ali e ninguém sabe, não fala. Vez em quando morria desse mar, o pessoal se joga lá de cima se matando, mas que eu vi, vez em quando dá notícia sobre isso, esses cara babaca aí. O inteligente foi o cara bateu com a moto no carro e voou. Bateu o carro, agora fizeram uma ciclovia do lado nas laterais, né? Cara caiu lá em cima da ciclovia.
P/1 - E aí voltando um pouco para você. Você tem netos?
R - Tem bisneto com 12 anos.
P/1 - Bisneto?
R - Tem neto com trinta e 32 anos. Tem três netos com 32. Três com 32 e um com 26. E um bisneto com 12.
P/1 - E o que que mudou na sua vida quando você virou avô?
R - Mudou nada que eles nem fala comigo. Que os netos meu não é... Só tem um que é mais chegado meu que é o filho de Sabrina. Que sempre morou comigo, Sabrina, né? É o que mais agarrado comigo. Mas dos outros é tudo... As meninas aí em bairro assim, como é que é? Pobre é igual um cachorro, faz filho e larga para lá e vai... O bairro aqui é danado, tem menina aí com 16 anos, tem dois filhos. Aí meu filho fez, pegou uma menina, namorou com a menina ali e engravidou a menina. Aí veio cá para rua de cima e engravidou a outra. Pai, Neide (Neide?) está grávida e a filha da Bárbara (Bárbara?) também está grávida também. O que que eu faço? Pega um helicóptero e some, porque esse aí tá fumado, passando por aqui a mulher te cerca, passa ali a outra te cerca. Aí nasceu três de uma e vez três, diferença de seis meses. Aí nasceu os gêmeos de cá, dois gêmeos, e cá nasceu outro. Aí tem Ralf e Vitor e Vinícius, que são gêmeos.
P/1 - Mas aí você falou que tem um neto que mora com você, morou com você?
R - É, mora minha aqui no prédio aqui meu, é filho do Sabrina, Henrique. Tem Henrique e Mirela. Tem... Tenho muito neto, né? Tem Charles, tem três. É, Charles tem três, Rodrigo tem quatro, sete. Cleone eu não sei quantos tem, só tem esses três, mais um ou quatro que eu lembro. Mas hoje tem mais por aí. Tem uma neta que mora na Itália. E Rodrigo, Charles, Sabrina tem dois. Charles três, cinco. Rodrigo quatro, nove. Cleone que eu vejo sempre quatro, 13. Agora não sei o mais por aí. 13 eu tenho mais ou menos na lembrança. E um bisneto.
P/1 - Seu Bigode, você tem algum sonho para o futuro?
R - Não, não. Meu sonho agora é botar na cabeça que caixão não tem gaveta, o negócio é ganhar e gastar. Ganhar e viajar e gastar e pronto, chega. O que tem dá para meus filhos sobreviver, se eles souber controlar, né? Então se eles souber sobreviver dá para eles viver o resto da vida deles, filho, neto, isso aqui é para a vida toda, né? Isso aí é o futuro deles estão aí, né? Então morrer eu morro tranquilo, sei que meus filhos ficaram de boa, tudo bem, né? Mas eu fui pensar em nada não, o negócio agora é viver a vida. Caixão não tem gaveta. Pega avião vou para Nordeste, chegar de Nordeste já tava, já tô com viagem marcada para o Sul. Já tem tem uns cliente me chamar, tão me ligando todo dia para lá para Santa Catarina, outros chamando para o Rio Grande do Sul, para fazer uma feijoada em Santa Catarina, eu tô com um churrasco lá no Rio Grande do Sul. Eu vou lá, eu vou lá. Tem um amigo que me chama, todo dia ele liga para mim, Bigode, eu tô te esperando. Me cobrando direto é que eu vou pra lá. Aí eu tô desse jeito.
P/1 - E pro restaurante, você tem algum sonho?
R - Tive sonho. Ah, a gente, os menino aí que tá aí, a gente pensa em melhorar, né? Fazer alguma coisa, crescer um pouco, mas tô... tem um projeto aí que tá com a prefeitura agora fazer, ela vai bater uma laje aqui 22 m para fora. Aí vai ficar bom, aí a gente fica nesse negócio nessa, se a gente faz ou não faz, né? Que a gente aqui não tem muita opção, né? Para mim... Eu tinha dois andar ali igual eu não falei, né? Ali era um andar de cima e embaixo, então era aqui em cima. Aqui nós abrimos o ano passado. Aí quando caiu a pandemia, veio a pandemia, eu fui e fechei e fiz apartamento, né? Aí não... Aí fiquei só aqui embaixo. Mas tem esse... Aqui mesmo não, mas igual tá esse projeto aí do Cais das Artes ali, né? Tem a cozinha lá e tem o tem vontade de pegar lá. Eu penso em pegar lá, que lá eu sei que lá é boi morto. Lá se Deus abençoar ter essa oportunidade. Vai ter muita gente que vai querer aquilo ali. Pensou lá na beira do mar, a vista pro mar lá passar, aí todo mundo vai querer aquele negócio ali, aí vai ter uma avaliação para ver quem é quem, né? Mas se me der lá eu pego. Agora eu para mim mesmo eu chegar e ficar igual um maluco, não vou. Não vou implorar para me dar aquilo lá não, brigar por causa daquilo, entendeu? Tem gente que briga aqui, é brigar, quer concorrer, quer caramba. Eu já falei, ó. Se tiver umas ideia para mim, já falei com o pessoal lá de dentro lá, e eu nem tinha falado, lá em pessoal lá, de lá mesmo que eu fui ter uma reunião lá, fui lá fazer uma fazer uma visita, né, chamar lá e o pessoal lá de dentro falou: Ei, Bigode, aqui para você, vou te mostrar o seu restaurante. Ela falou que era meu. Vou te mostrar, se Deus abençoe. Se for de ser meu, eu tô aqui. Se não for, tá de boa também, tá tranquilo. Não, você é o primeiro lugar, a oportunidade é sua. Só se você não quiser. Querer, eu quero. Só não vou entrar em confusão, brigar por causa de... Porque não tem esse negócio comigo, de ambição e querer. Quanto mais tem, mais quer. Nunca fui cara assim. Nunca fui desse tipo. Aí a vez a pessoa falou: mas que parece que é doido, esse cara não pensa nas coisas. Aí tem gente que fala assim, minha mulher mesmo fala: É, você fica com dinheiro no bolso, você anda com dinheiro, não sei o que. Minha filha, sou acostumada a andar com dinheiro, não só de agora não. Eu era pescador, eu andava R$ 10.000 por mês, eu andava com, amarrava dinheiro, botava dinheiro dentro da camisa, que o escritório era na Vila Rubim. Você já ouviu falar da Vila Rubim? Você já ouviu falar? Você mora aqui?
P/1 - Eu já morei aqui em Vitória, mas atualmente moro em Vila Velha.
R - Aí já trabalhei na Vila Rubim, ouviu falar. Então, o escritório era na Vila Rubim. Aí eu recebia o dinheiro, eu pegava a camisa aqui, amarrava, subia lá na boca, amarrava e jogava dentro da camisa, não cabia nos bolsos. Ganhava 10, 15 milhões, na época falava milhões na época lá do cruzeiro. Era dinheiro para caramba, né? Eu fiz essa casa, tudo com dinheiro de pescaria, fiz quatro andares. Depois que eu fiz aqui, com dinheiro de restaurante, a parte de cá, né? Mas lá para trás, para cima, fiz com dinheiro de pescaria. Então, aí eu falei: Ah, sou acostumado a andar com dinheiro. Você vai ser roubado. Que nada, roubado! Quem vai me roubar? Aí eu não gosto de mexer com pinga, não gosto de mexer mais com meu negócio mais é de dinheiro. Eu comprei um carro sexta-feira, aí o cara, Bigode, vai pagar como? Dinheiro. O quê? É, brotou uma mixaria lá em casa, vou pagar no dinheiro. Você tá, como é que vai andar com esse dinheiro? Como é que eu vou andar com esse dinheiro? É trazendo, boto na bolsa e trago. E você quer que eu traga aqui? Você vai pegar lá? Eu vou pegar lá, vou arrumar uns três os cara pegam comigo, eu disse: Para que isso, rapaz? Aí ele veio, trouxe três segurança. Eu falei: Cara, para te dar mais segurança, vou te levar lá para o terraço. Eu tenho o terraço quinto andar, né? Levei ele para lá, abri a porta, abri a janela. O cara foi fechou a porta, ele para que fechar essa porta ficando doido, nós estamos no quinto andar aqui, quem vai vir aqui, rapaz? Não, esse aqui... vixe Maria. Falei tá doido, rapaz, ninguém vai te roubar não. Aí fica com medo. A mulher fica doida comigo, eu ando com dinheiro, ela fica doida. Ah, não, se eu fico com menos de mil conto no bolso, eu fico doidinho. Não gosto, não gosto. Mas tem dinheiro no banco também, mas eu não gosto não. Eu vou andar com dinheiro, eu quero comprar um negócio, eu já pago, já saio. Eu nem sou... Não sei nem mexer com pix direito. Negócio de pix, investir, mandar, comprar. Ela que compra lá as coisas pela internet, essas coisas. Não sei mexer com essas coisas, computador, não. Não vale dinheiro o dinheiro vivo.
P/1 - Que que você achou de contar essa história?
R - Achei bacana. Vocês são maravilhosos, também vocês. O modo de vocês chegar, conversar. Então, isso aí cativa muita gente, né? Que tem gente que chega, acho que igual uma igual uma vez. Uma vez é uma pessoa o pessoal da televisão ligaram para mim. Eu tava em casa, igual vocês agora, tava em casa, tô de folga, né? Aí ligaram para mim: É, Bigode? O que foi? Eu tenho uma reunião, eu tenho uma entrevista com você hoje. Que hora? Duas e meia. Que hora agora? Agora duas horas. Minha filha, não, não tem como não. Como é que você vai marcar uma reunião, uma entrevista comigo duas e meia, e é duas horas e eu tô na Serra. Eu vou ter que tomar banho, mudar roupa, até eu vou tomar banho, mudar roupa deu duas e meia. Aí, é diferente. Você tem que agendar. É, Bigode, tem que agendar? Ué, comigo tem que agendar. Não é assim não, chamar e vir assim, na hora assim ele correndo, pá. Não é por aí não. Ela ficou doida, né? Aí fiquei aqui pensando, em Nazaré, vão falar a gente tá lá e tá doido para ser aparecer, né? Aí, ah, então agendar para outro dia. Então, tá, agenda semana que vem, o dia que você quiser, eu vou. Mas tem que marcar, porque senão vai chegar com a pessoa assim, né? De repente, não, sem falar nada de choque, você vai gravar aqui agora. Aí não tem como. Igual vocês falaram, não, se não der hoje, já passa amanhã ou sábado, vou marcar um dia, e tá o horário. Aí sim, a pessoa vai esquematizar, vai ter uma programação, né, certinho. Aí dá para fazer. Eu não esquento de fazer reportagem. Eu já fiz reportagem, eu vi que tem gente de colégio da Ufes, aqueles alunos que faz que quer saber história, que dizer que é para prova, não sei para quê. Ah, seu Bigode, você faz para nós. Aí liga para mim e faço. Ai, que bom. Aí vem, eu brinco, conto a história, eles fica doido, aí vai lá para o colégio e aí a minha neta vai junto com minha turma de dentro da Ufes aí, contando a reportagem, fazendo a reportagem, eles riram, chegaram no colégio e foi o maior show lá e contando a minha história. Para morrer de rir.
P/1 - Tem mais alguma coisa que o senhor acha que ficou de fora? Você quer contar?
R - Acho que não. Acho que foi legal, tá. Não sei se você tiver mais alguma coisa para perguntar, tô à disposição. Quer perguntar mais alguma coisa?
P/1 - É isso, Bigode, super obrigada mais uma vez.
R - Eu que agradeço.
P/1 - Foi ótimo.
—-- FIM DA ENTREVISTA —-
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