Meu nome é Dágma Dantas Alves, tenho 47 anos, sou mãe, avó, mercadológa e advogada. São muitas as histórias que poderia contar , que me mostraram ao longo da vida sobre Direitos Humanos, mas em especial essa que estou contando mudou minha vida, e a maneira de ver o próximo e de finalmente compreender a importância dos Direitos Humanos.
Em 2016 ,após o fim de um casamento de 22 anos, onde entrei muito jovem, com apenas 16 anos, e depois de sofrer todas as formas de violência possíveis, abri um pequeno negócio, para tentar reconstruir a vida e recomeçar, era uma agencia de viagens, e como já trabalhava para meu ex marido ha duas décadas nesses ramo, achei que podia continuar e refazer minha vida, pois desde que casei, era proibida de estudar, de me relacionar com quem quer que seja, fui afastada da minha familia, e vivia num circulo de violência em todos os aspectos, o narcisista tem um perfil bem fácil de ser reconhecido, mas essa percepção tenho hoje, antes não tinha ideia, pois era induzida a acreditar que tudo que acontecia em minha vida, era minha culpa, o ambiente que vivia era muito “moralista”, cheio de regras e desdém por qualquer pessoa que fosse “diferente”, o discurso conservador da igreja era replicado todos os dias, e ensinado a repudiar minorias, sim era bem claro, que grupos diversos eram excluídos e repudiados.
Um dos discursos que o costume me fez replicar era : BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO!
E outros tantos como: se está preso é pq merece, se está lotado cabe mais um, preso tem regalias, preso não tem que ter moleza, e por ai se estendia todo tipo de fala preconceituosa e escarnecedora, e sim, com muita vergonha eu assumo que proferi algumas dessas falas, e humildemente peço desculpas a toda sociedade e a todas as pessoas que diariamente tem seus direitos aviltados. Bem, ao tentar refazer minha, tive o desprazer de continuar sendo perseguida pelo meu agora ex-marido, que buscava de prejudicar de todas as...
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Meu nome é Dágma Dantas Alves, tenho 47 anos, sou mãe, avó, mercadológa e advogada. São muitas as histórias que poderia contar , que me mostraram ao longo da vida sobre Direitos Humanos, mas em especial essa que estou contando mudou minha vida, e a maneira de ver o próximo e de finalmente compreender a importância dos Direitos Humanos.
Em 2016 ,após o fim de um casamento de 22 anos, onde entrei muito jovem, com apenas 16 anos, e depois de sofrer todas as formas de violência possíveis, abri um pequeno negócio, para tentar reconstruir a vida e recomeçar, era uma agencia de viagens, e como já trabalhava para meu ex marido ha duas décadas nesses ramo, achei que podia continuar e refazer minha vida, pois desde que casei, era proibida de estudar, de me relacionar com quem quer que seja, fui afastada da minha familia, e vivia num circulo de violência em todos os aspectos, o narcisista tem um perfil bem fácil de ser reconhecido, mas essa percepção tenho hoje, antes não tinha ideia, pois era induzida a acreditar que tudo que acontecia em minha vida, era minha culpa, o ambiente que vivia era muito “moralista”, cheio de regras e desdém por qualquer pessoa que fosse “diferente”, o discurso conservador da igreja era replicado todos os dias, e ensinado a repudiar minorias, sim era bem claro, que grupos diversos eram excluídos e repudiados.
Um dos discursos que o costume me fez replicar era : BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO!
E outros tantos como: se está preso é pq merece, se está lotado cabe mais um, preso tem regalias, preso não tem que ter moleza, e por ai se estendia todo tipo de fala preconceituosa e escarnecedora, e sim, com muita vergonha eu assumo que proferi algumas dessas falas, e humildemente peço desculpas a toda sociedade e a todas as pessoas que diariamente tem seus direitos aviltados. Bem, ao tentar refazer minha, tive o desprazer de continuar sendo perseguida pelo meu agora ex-marido, que buscava de prejudicar de todas as formas, inclusive cometendo crimes de calunia, difamação e injuria, reiteradas vezes contra mim, e devido a constante perseguição,não consegui trabalhar, manter meu negócio e consequentemente seguir a vida. Escolhi encerrar as atividades e me mudar de cidade, nesse interim, comuniquei aos clientes e aqueles que tinha alguma pendência busquei resolver para que finalizasse a operação de forma correta, contratei um escritório de advocacia para que entrasse em contato com esses clientes e tratasse de cancelamento, reembolso etc.
Me mudei de cidade e achei que a vida voltaria a andar pra frente, passados dois anos, tive um problema com um aparelho de celular perdido, e na epoca era necessário fazer um boletim de ocorrência para registrar a perda e reaver a linha, e tambem por segurança, caso alguém o usasse para aplicar golpes e tudo mais, me dirigi até a Delegacia de Polícia, me apresentei e solicitei a confecção do B.O, nesse interim , me pediram pra aguardar e para minha surpresa recebi uma voz de prisão, isso mesmo, sem saber completamente o que estava ocorrendo fui informada que havia um mandado de prisão preventiva em meu desfavor, e que a ordem estava sendo cumprida, me levaram para uma sala, tomaram de mim o meu celular, me disseram que tinha que repassar todas as senhas, inclusive bancárias e eu não conseguia conceber, entender o que estava acontecendo, eu só obedecia e repetia pra mim mesma: Isso é um mal entendido, logo eles verão que não sou eu!
Em seguida me informaram, que seria submetida a exame de corpo delito e encaminhada ao presidido, pois a delegacia não podia ficar “com preso”, nesse momento eu pedi, por favor, que me explicassem qual motivo de tudo aquilo, um policial respondeu, a senhora tem um mandado de prisão vindo da sua antiga cidade, pois segundo o inquerito policial , a senhora “fugiu” da cidade fazendo muitas vitimas em um golpe de estelionato, la a senhora foi procurada diversas vezes para responder as acusações e como não foi encontrada em nenhum dos endereços, foi pedido a prisão preventiva para que fosse localizado e o processo pudesse seguir o fluxo normal. Nesse momento meu mundo caiu, mas ao mesmo tempo aquela sensação de que havia um equivoco, me trouxe um pouco de alivio, afinal, eu tinha contratado advogados para que cuidassem de tudo e que respondessem por mim e me representassem, mas isso não ocorreu, os advogados simplesmente não apresentaram nenhuma proposta aos clientes,não responderam as informações e intimações e por fim 12 clientes procuraram a policia e denunciaram a agencia pelo crime de estelionato.
Sim, eu agora era uma CRIMINOSA, igualzinho aqueles que eu repudiava. A partir disso, cada desenrolar , cada passo, cada dia era um novo aprendizado, uma nova experiência e sim um novo recomeço, fui encaminhada ao presidio, e como milhares de pessoas inocentes ou não, passei a conhecer a realidade das penitenciárias e do sistema prisional brasileiro. Conheci in loco ,como pessoas são jogadas, esquecidas, desrespeitadas e tem seus direitos totalmente negados, foram 87 dias de prisão, até ter meu alvará de soltura, e foram 87 dias de uma aprendizagem que nenhuma faculdade do mundo consegue passar. Em um desses 87 dias, tendo conseguido um bom convívio com todas as 38 colegas de cela, sim, éramos 39 presas em uma única cela, eu me lembrava constantemente das falas:tem espaço, cabe mais um, ou ainda, se não quisesse estar lá, não cometesse crime, bem uma colega me pediu que eu a ajudasse a escrever uma carta, pois ela não sabia escrever,que ela ditaria a carta e eu escreveria, prontamente eu peguei um caderno que tinha conseguido o direito de entrar e uma caneta , me sentei ao lado dela e esperei que ela me falasse as palavras, imaginando uma carta para sua familia, seus filhos, ou para fazer algum pedido de comida ou itens de higiene pessoal, pois descobrimos que nossos kits de higiene eram “extraviados” pela Diretoria do presidio, que posteriormente viria a ser exonerada, por diversas violações.Ao me posicionar ao lado daquela mulher, homicida, presa por ter esfaqueado seu companheiro após horas apanhando e ter parte do seu corpo queimado por ele, ela disse, escreva exatamente o que vou falar, e começou:
AO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA VARA DAS EXECUÇOÕES PENAIS DA COMARCA DE XXXX-xxx
Aquilo pra mim foi um choque completo, eu fiquei estarrecida, pois ao longo daquela “carta”, ela me ditou uma petição perfeita de um Agravo em execução, pedindo a revisão de sua pena, que ja havia sido cumprida, e ela ja estava ha seis meses aguardando seu alvará se soltura. Eu imaginava, como uma pessoa que não sabe escrever, sabe tanto de lei, de artigos , de dosimetria e principalmente sabia dos seus direitos!!
Redigi aquela petição e tomei a decisão da minha vida:
EU VOU SER ADVOGADA!!
Eu vou sair daqui, estudar, me dedicar, e quando por fim virar advogada, e enquanto eu viver, farei o que for possível para que pessoas como eu, presa injustamente, presos inocentes,pessoas que ja pagaram suas penas, tenham seus direitos enquanto cidadãos, reconhecidos e respeitados. Todos tem Direito a um julgamento justo, a ressocialização, a dignidade enquanto cumprem suas penas, e ao direito de recomeçar suas vidas.
Há um ano, terminei minha faculdade de Direito, prestei o exame da Ordem dos Advogados do Brasil, aguardando no momento em que escrevo esse relato, a expedição de minha carteira profissional.
Essa história aconteceu comigo em 2019, mas o que aprendi e o que mudou dentro de mim e o meu olhar para o próximo, e uma transformação que levarei para toda minha vida. Termino meu relato, fazendo um apelo , para que se alguém ler minha história, que busque também fazer a diferença no meio em que vive, procure orientar, ensinar, divulgar e principalmente respeitar cada ser humano, cada indivíduo em seu direito, e principalmente busque sempre ser uma pessoa melhor.
Dágma Dantas Alves
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