Projeto Memórias das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Wellington Neri da Silva (R1) e Mauro Neri da Silva (R2)
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo, 12 de Maio de 2026
Entrevista n°: RIO_HV002
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada e editado por Levi Andrade
(00:00:25) P/1 - Peço que você se apresente falando seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R1 - Meu nome completo é Wellington Neri da Silva. Eu nasci na cidade de São Paulo e cresci no bairro do Grajaú, mais especificamente no Jardim Lucélia. Apesar de esse território circular por vários bairros, Grajaú, Parelheiros, na Zona Sul principalmente.
(00:01:00) P/1 - Qual é a data do seu nascimento?
R1 - Dia 1º de junho de 1984.
(00:01:07) P/1 - Me conta um pouco o nome dos seus pais.
R1 - Meus pais são Annalícia Gomes Pereira da Silva e Vivaldo Neri da Silva. Bem, cada qual tem a sua história, né? E há um pedaço que eu sei disso. Às vezes eu até fico pensando o quanto eu sei sobre a história deles. Você perguntou e me fez refletir sobre isso também. A da minha mãe, Annalícia, é a filha mais velha da família de uma média de oito ou dez irmãos. Alguns faleceram logo pequenos. Ela vem de uma geração em que havia muito disso. Minha mãe, por ser a mais velha, tem uma personalidade muito forte de cuidadora, de cuidar dos irmãos. Aquela visão da imagem da mãe, que cuida de tudo, de todos, da família. E até hoje, carregando essa função da mais velha, não tem jeito, de cuidar dos mais velhos e dos mais novos. Não para, até hoje. Me ensina um monte de coisa. Acho que cada dia que passa eu percebo isso também, como essas mulheres, como a minha mãe, nos ensina a potência delas. Silvio Vivaldo também é um homem preto, também da Bahia. Ele também teve, assim como minha mãe, uma vida naquele contexto da Bahia e de trabalho muito forte. O pai dele era carpinteiro. Ele também passou a ser carpinteiro, mexer com madeira. Eu...
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Entrevista de Wellington Neri da Silva (R1) e Mauro Neri da Silva (R2)
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo, 12 de Maio de 2026
Entrevista n°: RIO_HV002
Realizada por Museu da Pessoa
Revisada e editado por Levi Andrade
(00:00:25) P/1 - Peço que você se apresente falando seu nome completo, a data e o local de seu nascimento.
R1 - Meu nome completo é Wellington Neri da Silva. Eu nasci na cidade de São Paulo e cresci no bairro do Grajaú, mais especificamente no Jardim Lucélia. Apesar de esse território circular por vários bairros, Grajaú, Parelheiros, na Zona Sul principalmente.
(00:01:00) P/1 - Qual é a data do seu nascimento?
R1 - Dia 1º de junho de 1984.
(00:01:07) P/1 - Me conta um pouco o nome dos seus pais.
R1 - Meus pais são Annalícia Gomes Pereira da Silva e Vivaldo Neri da Silva. Bem, cada qual tem a sua história, né? E há um pedaço que eu sei disso. Às vezes eu até fico pensando o quanto eu sei sobre a história deles. Você perguntou e me fez refletir sobre isso também. A da minha mãe, Annalícia, é a filha mais velha da família de uma média de oito ou dez irmãos. Alguns faleceram logo pequenos. Ela vem de uma geração em que havia muito disso. Minha mãe, por ser a mais velha, tem uma personalidade muito forte de cuidadora, de cuidar dos irmãos. Aquela visão da imagem da mãe, que cuida de tudo, de todos, da família. E até hoje, carregando essa função da mais velha, não tem jeito, de cuidar dos mais velhos e dos mais novos. Não para, até hoje. Me ensina um monte de coisa. Acho que cada dia que passa eu percebo isso também, como essas mulheres, como a minha mãe, nos ensina a potência delas. Silvio Vivaldo também é um homem preto, também da Bahia. Ele também teve, assim como minha mãe, uma vida naquele contexto da Bahia e de trabalho muito forte. O pai dele era carpinteiro. Ele também passou a ser carpinteiro, mexer com madeira. Eu lembro muito dessa memória dele. E da memória do trabalho dele, porque também, como muitos, foi um pai que teve de ficar muito ausente da família para trabalhar. Então eu lembro muito dessa imagem dele chegando tarde da noite, já no final do dia. Essa convivência foi menor, mas havia muita convivência. Enfim, meu pai é uma pessoa também muito honrada, muito especial, como são todos os pais. Também está passando por um processo de aprendizado na vida, como eu. A gente está se redescobrindo homens também, e o quanto a gente precisa aprender. Então são esses dois: dois migrantes nordestinos da Bahia que chegaram a São Paulo no começo dos anos 80. Acho que foi mais ou menos isso.
(00:04:20) P/1 - E você sabe como eles se conheceram?
R1 - Olha, eles já se conheciam lá da Bahia. Eram famílias que, de alguma maneira, tinham... Isso é uma coisa muito interessante. Essas famílias lá também da região se conhecem, têm até laços familiares, coisas assim. Então eles se reencontraram aqui em São Paulo, ambos no mesmo momento. Imagino eu num momento da vida de estar chegando a uma cidade nova. Acho que meu pai chegou um pouco antes. E eu acho que eles se encontraram na turma dessa galera que já se revia aqui. Acho que tinham seus lugares de encontro, de primos, essa coisa de ficar. Acho que foi nesses momentos de reencontros da galera. Eles vão contar uma história mais bonita a partir daí.
(00:05:25) P/1 - E para onde eles vieram quando chegaram a São Paulo? Para que bairro?
R1 - Olha, eles contam uma história de que primeiro moraram, quando casaram e tiveram minha irmã, na região do Jabaquara. Acho que Água Branca foi primeiro, quando eram mais jovens. Aí moraram no Jabaquara, moraram bastante também na casa dos meus tios, da minha tia, aqui no Grajaú, no bairro Jardim São Pedro. Eu lembro muito dessa história de como a família acolhe. A minha tia acolheu outra família, que era a minha família. Eu nem tinha nascido. Então eram meus irmãos, dividindo o mesmo terreno, um quartinho, mais um quartinho. Pelas histórias, ainda com muita precariedade nesse período dos anos 80. Havia muitas crianças. Tinha os meus primos também. Até meus pais conseguirem juntar dinheiro e comprar um terreno aqui. E aí começa essa história: primeiro, num cômodo, cinco pessoas, trabalhando para construir o próximo cômodo e continuar a vida.
(00:06:53) P/1 - Eu queria que você contasse um pouco da relação com seus irmãos, quantos eram, o nome deles, como era a relação de vocês na infância.
R1 - Que oportunidade bonita de lembrar isso também. Somos três irmãos. Agradeço muito por a gente ter vivido esses momentos, que eu consigo falar que a gente teve uma família. Tive a oportunidade de ter uma família de irmãos, mesmo com todas as tretas que a gente sempre tem de irmão. Mas a gente sempre foi muito cúmplice. Eu acho que eu um pouco menos, porque eu era o mais jovem. Meu irmão e minha irmã eram mais velhos e estavam um pouco mais próximos na idade. Então eu passei a integrar um pouco isso. Mas depois, gradativo. Eu era o caçula. Então também há isso, a minha condição de caçula. Desde as coisas legais, a gente cantar junto. Eles inventaram uma musiquinha para mim (entrevistado canta): "Tim cagadinho, ele mora no penico, o penico está sujo, vamos limpar com cocô e xixi". São coisas que ficam na minha memória, das histórias com os irmãos, deles brincar, a gente brincar de várias coisas, acabar a luz, cantar. Muitas coisas. A história com cada um deles também, cada qual de um jeito. Minha irmã, quando eu estava chegando a uma fase mais madura da minha vida, da minha adolescência para a adulta, ela foi para o convento. Então, quando eu mais podia ter trocado com ela, ela foi morar fora. Isso restringiu bastante o nosso contato, mas mesmo assim fortaleceu por tantos outros. Mas já era diferente a relação. Com o meu irmão que ficou, eu acabei estabelecendo ainda mais vínculos e, inclusive, nessa trajetória em que a gente foi introduzido na arte. Primeiro Mauro. Aí a gente passou a ser muito parceiro. Inclusive até hoje a gente ainda é super. Eu sempre, quando as pessoas fazem a pergunta "quem são os seus amigos?", essa pergunta é difícil de resgatar os amigos. O primeiro, não tenho dúvida: meu melhor amigo é meu irmão. Esse é o único que eu acho que eu tenho mais certeza. Tem muitas amizades sim, mas é difícil comparar a amizade que, além de ser irmão, ainda é um amigo. Para o bom e para o mal, porque também as tretas são dobradas.
(00:09:59) P/1 - Eu queria que você me contasse se há alguma festa, alguma comida, algum cheiro que lembre essa infância.
R1 - Olha, sempre vai puxar várias coisas. A minha infância está marcada por várias coisas, como a de todo mundo. Olha, eu lembro muito do universo escolar. Quando a gente começa a lembrar mais, da creche ainda. E da minha relação com o meu nome. Porque desde pequeno meu nome já foi apelido: “Tim”. Eu já me conheci como Tim. Então, havia uma história que eu lembro, sempre me vem isso, da professora me ensinando a escrever meu nome "Wellington". Mas eu já sabia escrever Tim. E as pessoas me chamavam de Tim. Então, eu falava: "Não, professora, meu nome não é esse não. Meu nome é este aqui: T-I-M", do que escreve aquele palavrão de "Wellington", porque era difícil. Então, houve um processo de eu adotar. Eu acho que eu já entendia, mas eu estava sempre negando, como eu ganhei, desde pequeno, o apelido Tim. Então essa memória de escrever o meu nome, Wellington, me lembra muito da minha infância, dessa troca das minhas identidades. E até hoje eu carrego isso comigo, porque, se me perguntam como você se apresenta, qual é o seu nome, como você se chama, eu sempre coloco Wellington Nery, ou Tim. E aí eu acabei usando uma maneira que eu gosto da escrita, do desenho da palavra. Escrever meu nome me dá a oportunidade de vê-lo escrito, de ter uma assinatura. E eu aprendi a gostar. Então eu gosto de vê-lo escrito, mas, falado, quando as pessoas se referem a mim, eu até prefiro que me chamem de Tim. Acho que o Tim cabe bem mais na sonoridade da voz. E o Wellington ficou para a escrita. Mas a gente veio para confundir também. Então, essa coisa das pessoas se identificando... Eu prefiro ouvir "Tim" e escrever "Wellington".
(00:12:29) P/1 - E me conta de onde veio esse nome? Você sabe de onde seus pais o tiraram?
R1 - Também tive de fazer um pouco dessa pesquisa e nunca consegui chegar a um lugar muito concreto, mas é uma explicação mais simples. Havia um boom de nomes com "W": Wesley, Washington. Acho que esses nomes americanizados, que acessam as TVs, a informação, os filmes. Acho que foi desse boom de Wesley, Washington. Minha tia, eu ouvi dizer, falou esse nome, ela gostava. E aí gostaram e ficou Wellington. E depois sofreram para escrever, porque é difícil. Inclusive de falar. As pessoas não conseguiam falar muito bem. Muito menos escrever: W-E-L-L-I-N-G-T-O-N. Passei a minha vida inteira tendo de corrigir, quase um bate-bola, dizendo como se escreve.
(00:13:33) P/1 - E me conta, a gente está nela, mas eu queria saber um pouco da casa da sua infância. Como ela é, se você conseguir descrever para mim.
R1 - Olha, eu estava revendo fotos, inclusive, esses tempos que a gente estava mexendo aqui nas coisas, e vimos esses álbuns de fotos que hoje em dia a gente vê pouco. Então, me voltou um pouco essa memória dessa casa. É uma casa simples e humilde. Lembra muito do chão de terra, da rua, nesse contexto no qual a gente vivia, sem muros. A gente teve sempre essa estrutura de casa sem reboco, essa memória da casa sem reboco. A família junto. Os domingos, aquela coisa de todo mundo junto, dos irmãos. A gente também tinha uma relação com a igreja, íamos muito à missa. Lembro muito dessa coisa de estar junto na missa. Sem dúvida, os natais... Agora estou até meio fugindo da pergunta, talvez. Qual é a memória da…?
(00:14:54) P/1 - Da casa, como era essa casa. Você estava contando mais cedo que era um quarto que foi crescendo.
R1 - Ah, sim. Eu lembro muito mais de fora, porque eu gostava de expandir a rua. Sempre brinquei muito na rua. Mas a casa era isso também, a convivência. As memórias também vão até onde a gente lembra, mas eu lembro de a gente viver num cômodo, dormir todo mundo num cômodo. Acho que havia cozinha, sala, mas o quarto a gente dividia junto. E eu vi esse processo de a gente conseguir um quarto para a gente, com a minha irmã. E ainda era pequeno, era muito pequeno tudo. Hoje, as pessoas chegam à casa onde a gente está aqui e falam: "Nossa, que grande". Não lembro como a gente viveu naquela época. Era um lugar… Bom, as minhas memórias estão muito mais fora. Não sei se é porque a gente tinha um espaço muito amplo fora. Aqui havia áreas muito abertas, havia um campão gigante, muita mata. A gente fazia muita aventura nas trilhas verdes aqui, na floresta. Hoje alguns lugares são parques. A gente viu esse bairro crescendo, então a gente entrou em quase todas essas casas aqui vizinhas. Quando elas eram construídas, a gente brincava dentro das construções. Eu conheço quase todas as casas aqui por dentro da época da construção delas, nas minhas brincadeiras. Fomos crianças muito livres. Salvo alguns momentos em que a gente era livre demais e sofria as consequências por isso. Íamos longe, à represa, campo. Eu gostava de futebol. Havia muito disso.
(00:17:02) P/1 - E o que você gostava de brincar?
R1 - Muitas coisas da infância, a gente passou por todas as coisas de que hoje a gente tem saudosismo: pular corda, esconde-esconde, fazer cabana nas casas aqui. A gente fazia no mato a nossa própria cabana, morava lá praticamente, fazia aniversário dos amigos. Os nossos aniversários aconteciam dentro dessas cabanas que a gente fazia. As crianças, né? Muito futebol. Fui uma criança que esteve nesse universo do futebol demais. Futebol de botão, era viciado, colecionava futebol de botão. Apaixonado pelo Corinthians. A bicicleta também logo. Aprendi na bicicleta da Ceci, uma vizinha. Ela me emprestava, eu fugia, pedia emprestado e devolvia no final da tarde. Aprendi nessa bicicleta. Hoje eu ando bastante de bicicleta, lembro muito dessa lembrança de aprender a andar de bicicleta por causa disso. Mas o futebol foi o principal. Foi a brincadeira que foi levada a sério, querer ser jogador e tentar fazer testes em clubes. Até que eu fui brincar de fazer arte, mas já era mais velho. Trabalho que é bom, nada. Até hoje a gente está brincando.
(00:18:33) P/1 - A arte já existia na sua infância ou como era a sua relação?
R1 - Muito interessante isso, porque eu acho que sim. Havia um primo e meu irmão também. Desde pequeno eles desenhavam muito. Esses dois, Fernando e Mauro. E havia outros amigos do Fernando. Havia outras pessoas ao redor. Minha mãe já era também muito criativa na costura dela. Hoje eu me dou conta, mas eu percebia que já existia uma criatividade ali, inclusive no jeito dela de ser. Ela é uma pessoa empreendedora, sempre criando. Meu pai também, em outro nível, totalmente diferente. Hoje eu percebo isso. Ele fazia móveis, fazia uns banquinhos. Meu avô fazia carrinho de boi. Na época, fazia até uns brinquedos para as crianças. Meu pai fez algumas coisas também, mas ele não seguiu tanto essa parte da criação. Mas como eu comecei a perceber a arte foi a partir do meu primo, que também tocava instrumentos. Eu gostava muito quando ele tocava baixo. Eu lembro até hoje de que eu gostava um pouco de rock, bastante nessa época. E eu lembro dessa comparação: a gente falava "tira o baixo, põe o baixo", a gente percebia as sutilezas da música, o baterista, os solos de guitarra, as nuances da música. Até a gente virar arrogante. Estava começando o axé na época. "Ah, isso não é música". Enfim... Meu irmão, sem dúvida, foi quem começou a estar perto. E ele já desenhando, fui acompanhando a partir dele. Ele já gostava bastante de artes. Então, eu sempre acompanhei isso. Com os amigos dele, ele já discutia filosofia na escola. Eu colava mais perto para perceber eles filosofando, bebendo. Eu também, mais tarde, com os discos dos Pink Floyd, a gente gostava de filosofar. Eu acho que já havia um embrião ali de viver as nuances da vida, da filosofia e da arte. Não sei nem mais qual foi a primeira pergunta que você fez.
(00:21:05) P/1 - Da arte, como ela entrou na sua vida. E eu queria entender também qual era a visão que você tinha do Jardim Lucélia quando você era pequeno. Como era visualmente aqui?
R1 - Um contraste. Há até algumas imagens que permanecem até hoje, mas algumas são mais fortes. As que permanecem até hoje são o contraste da floresta, muito verde, claro que bem menos, rodeado mesmo de bastante mato, verde, e também a ocupação humana. As primeiras casas. Eu percebi o bairro nascendo. Uma casa ali, outra ali, cada vez mais. Lembro muito disso. Então esse vermelho bloco baiano das casas eternamente, aquela estética das casas. Isso foi crescendo bastante. Algumas áreas que eram grandes na época foram meio que abafadas, que estavam muito fortes no nosso imaginário aqui, por exemplo, o Aristocrata Clube, que é um outro lugar que merece uma baita história. Já há um documentário sobre isso, mas vale a pena fazer sempre um viés, talvez, do Museu da Pessoa, fica a dica. É um clube de negros que se fortaleceu no começo dos anos 70. Os negros não podiam frequentar os clubes da elite paulistana. Eles criaram o próprio clube, que era o Aristocrata Clube. Ele era um clube que faz muito parte da nossa memória. A gente pulava o muro para entrar, havia as piscinas. Foi decaindo, tem uma história muito rica. A granja, que era um espaço grande, criava galinha, hoje é um conjunto habitacional, era forte. Essas grandes coisas. O Centro de Promoção Social Bororé, que tem a ver com o Padre José, que é uma liderança, é um abrigo. Esses pequenos focos institucionais, vamos assim dizer, que faziam parte... Eu lembro também muito dos mutirões da época da [Luiza] Erundina. Eu lembro muito dessa luta, de que havia os mutirões, as assembleias do orçamento participativo que minha mãe ia. A gente ia lá, via aquela história das pessoas construindo juntos suas casas. Foi aqui perto. Eu lembro muito dessa infância do Lucélia. É um pedaço daqui do Lucélia que foi feito por mutirões, na época da Erundina. Muitas dessas coisas. A represa, de novo, sempre. A balsa, a gente ia muito para essa região da balsa, depois que eu fui conhecer mais ali, para o lado da Península do Cocais.
(00:24:04) P/1 - E como era a represa nessa época? Qual era a sua relação?
R1 - Não era das mais fortes, porque a represa também oferecia risco para muita gente. E eu moro num lugar que não é tão na margem. Há gente que morava muito na margem, morava mais um pouco para cima. Então não era tão óbvio eu ir para lá sempre. Precisava de algum adulto. Então eu não ia... Fui nas minhas fugidas, que a gente ia. Conheço amigos que já moravam na margem mesmo, tinham uma relação muito mais forte. Mas mesmo assim eu ia com uma certa recorrência. Depois, de bicicleta, ia mais longe ainda, ia para vários outros lugares, atravessava São Bernardo, Terceira Balsa, mais longe. Qual é a relação com a represa aqui? Eu lembro de que às vezes meu pai com os homens iam pescar. A gente ia para lá pescar bastante.
(00:25:14) P/1 - Havia gente que nadava?
R1 - Boa, super! O que as pessoas mais iam fazer era nadar. Inclusive muitas mortes. Muitas. Até hoje. Eu estava falando esses dias com a galera, perguntando essas coisas. A gente foi perdendo a conta de quantos amigos a gente perdeu na infância afogados na represa. Isso também eu vejo que foi criando uma resistência de muitos dos nossos pais, de não ir tanto à represa. Eu acho que isso foi mudando por um tempo. Não é a nossa compreensão, ou a minha compreensão, de como era na época. Mas era uma relação muito boa, de poder ir dar um rolê, vamos para a balsa. Era muito estranho "vamos para a balsa". Havia muita essa curiosidade para a balsa.
(00:26:03) P/1 - E você estava contando que em volta aqui é um bairro cheio de água, de mananciais. Você os enxergava? Era fácil de ver?
R1 - Sim. Super. Desde a represa como as nascentes. Muitas nascentes. Eu lembro de muitas nascentes em que a gente ia beber água. Havia inclusive isso, hoje eu percebo mais, mas era essa coisa do encontro dos montes, dos morros. E como isso tinha água. Então, vários bairros aqui, eu sei onde havia. Hoje eu não sei se há, acho que já cobriram. Mas a gente ia, fazia nossas aventuras. Boa parte das nossas brincadeiras, às vezes com os adultos, às vezes as crianças só, era ir ao mato ver, procurar coisas. Havia gente que caçava até. Não era muito do meu pai, mas havia muita gente que fazia esse tipo de coisa. E a nossa brincadeira era fazer esse tipo de aventura nos matos. E aí ver essa relação com as nascentes e a parte da represa também. E a floresta também, que está aí ainda. Então a gente via bastante essas nascentes que havia aqui e a represa.
(00:27:25) P/1 - E há alguma aventura dessas que você lembra que foi engraçada ou triste? Que você guarde na memória?
R1 - Ah, há. Eu sempre tenho histórias dessas da represa. Lembro dessas tristes, que foram meus amigos. São coisas que às vezes me pegam bastante. Algumas dessas histórias. Mas há... Mais antigas? Deixe-me ver. Há um córrego que está aqui embaixo. Chovia sempre e virava aquela água, piscina de água. Ela já corria água suja naquela época, mas hoje está bem pior. Mas na chuva ela ficava um córrego mais ativo, então a gente entrava nesse córrego e tomava banho. Aqui para baixo você vê um córrego grande. Já corria água lá. Na época em que chovia bastante, ele corria bem grande. Aí a gente ia nadar. Eu lembro muito dessa memória de entrar nesses córregos aqui. Eu acho que era a coisa mais forte disso. E entrar nas represas também, a gente ia em grupo, parecia aqueles caixa-baixa, do [livro] Capitães da Areia. Havia muitas histórias dessas, de cabular aula, de ir à represa. Só que a represa era um lugar perigoso, inóspito. Então tinha mais medo de ir em uma situação como essa. Eu acabei guardando várias memórias mais negativas, talvez, da represa, porque a gente tinha sempre de ir ao lugar do proibido…
P/1 - E do medo.
R1 - …do medo também. E até porque houve situações mesmo de traumas.
(00:29:31) P/1 - E nessa época da infância, você estava contando um pouco do futebol, mas havia alguma profissão? Você sonhava em ser alguma coisa específica?
R1 - Jogador de futebol, claro. Até mesmo porque eu me via naquele lugar, como muitos. Então fui tentar jogar. Joguei no Acadêmicos da Cidade Dutra aqui, joguei no Águia Negra. Fiz uns testes até no Juventus, numa época. Mas aí, logo também, eu me machuquei. Esse lance é muito louco. Desde pequeno, a molecada já não está conseguindo porque já se machuca antes. Meus joelhos começaram a dar mais problemas. Comecei a perceber também que é uma peneira complexa, cheia de contradições, dos QI. Aí fui desgostando. A vida foi chamando, ter de trabalhar cedo. Minha mãe também, sempre na correria. A gente tentava ajudar em casa. E aí foi se perdendo essa coisa com o futebol.
(00:30:42) P/1 - E com quantos anos você começou a trabalhar?
R1 - A gente ajudava sempre a minha mãe. Minha mãe foi feirante, então a gente ia para a feira juntos desde pequeno. Há até uma história que me contam, eu não lembro muito bem, mas meus irmãos sempre me lembram de que a gente ia junto com minha mãe à feira. Ela vendia chuchu. Todo mundo vendendo lá, eu era pequeno, mandavam ajudar também. E aí eu tentei, sou muito tímido. Comecei a gritar "olha o chuchu, o chuchu", e derramei lágrimas, comecei a chorar. Uma mescla de vergonha na hora. Mas isso, na adolescência, eu não sei se tinha uns 14, 15 anos... Era vender ambulante. Eu ia para Santo Amaro. Meus irmãos, meus primos, na época eu vendia pipoca pururuca e sorvete. Depois houve uma galera que começou a vender [balas] Halls, Freegells também. Mas eu fiquei bastante tempo. Meu irmão também ficou. Havia um primo nosso que fez também. Começou pelo nosso primo, que era uma maneira de conseguir uma grana. A gente nunca tinha muitas condições. Foi a primeira vez que eu pude comprar minhas coisas. E eu sempre falava “não é errado não”. Não é que seja indigno, mas me ajudou muito a entender. "Vai, sorvete, sorvete! Aceita, passa!" Essa coisa de se comunicar, de perder... Estar na correria, era divertido. Aí depois, com 13, 14, e aí com 16 anos eu fiz um curso de personalizantes no Azam Camp.
(00:32:46) P/1 - E me conta como foi na escola. Quais são suas lembranças da época da escola?
R1 - A escola puxa o nosso fio condutor da nossa memória. Acho que a minha primeira memória foi quando eu tinha seis, sete anos, para fazer a matrícula. Eu tinha acabado de voltar da Bahia, numa viagem, e fui com a minha tia fazer a matrícula. Eu já tinha feito a matrícula, mas eu fui lá ver as relações, as amizades logo na sequência. Muita coisa. Toda a nossa memória vem da escola. Traumas, muitas amizades. Também vendo como as coisas ao redor crescem, nossas relações, muitas memórias ruins também. Na verdade, a escola desde sempre também é um lugar limitador, que limita bastante. Mas também há muita coisa legal, porque eu gosto de pegar mais as coisas legais, que é conhecer, por exemplo, a professora Villani. Sempre há essas professoras, essas pessoas angelicais que aparecem na nossa vida. E ela foi essa professora que fez a diferença. A professora Vilani, Maria Vilani. Filósofa, poetisa, hoje está aí publicando várias coisas. Você vê como ela é uma pessoa que continua.
(00:34:27) P/1 - Há alguma memória com ela?
R1 - Ela veio à minha casa. Ela veio falar comigo. Na verdade, ela já conheceu o meu irmão também. Ela já conheceu um monte de gente. Mas eu lembro dessa: ela veio à minha casa também. O meu irmão tinha ilustrado um livro dela, veio almoçar aqui. Eu lembro dela... De um dia em que eu não estava bem, ela veio conversar comigo. De perceber que você não está bem. Eu lembro disso até hoje, eu fico emocionado, porque é diferente. A gente tem a mãe, nossa mãe, mas quando você percebe que uma pessoa lhe dá atenção assim... É outra coisa. Ela reconhecer. Eu fico emocionado de falar dela.
(00:35:20) P/1 - E me conta como seguiu a sua vida a partir desse momento em que você termina a escola, começa a trabalhar, já estava trabalhando há um tempo. Como segue sua vida nesse momento?
R1 - É sempre difícil começar de novo, a escola, trabalhar. Eu fui fazer curso profissionalizante e fui trabalhar. Consegui ser office boy interno na empresa e tive sorte, todo mundo trabalhava externamente e eu conseguia porque andava menos e tinha mais relação com as pessoas dentro da empresa. Essas coisas de estudar... Meus pais nunca foram as pessoas que falavam "você tem de fazer uma faculdade", mas eles, de alguma maneira, sempre falaram isso: é preciso valorizar o estudo. Porque hoje eu percebo, tenho várias lembranças de pais que deram alguma liberdade para a gente raciocinar, não tiveram uma pressão, mas sempre nos incentivaram. Então isso nasceu em mim mesmo, de fazer uma faculdade, sair, tentar melhorar. Então eu falei: "Eu quero sair, vou fazer uma faculdade". Estava trabalhando em uma empresa multinacional, e eu queria mostrar serviço. Era uma empresa alemã. Eles viram aquele rapaz trabalhador lá. Me davam aula. Eu chegava mais cedo para ter aula de alemão, conheci muito o pessoal do Departamento de Comércio Exterior e coincidia também com a época da minha juventude, em que eu começava a gostar da diversidade cultural. Já estava iniciado, de alguma maneira, a partida que eu via com o meu irmão e várias coisas. Então eu ouvia muita música, havia um programa chamado Planeta Som da Rádio USP, que era música de todos os povos. No escritório de comércio exterior, eu já estava lá no alemão e fazia curso de inglês. Comecei a fazer curso de inglês. E eu gostava muito, interessava-me muito por culturas. Eu queria ser poliglota. A ideia era conhecer outras línguas, viajar bastante. Mas eu conheci muita cultura nisso. O som da Etiópia, por exemplo, na época em que havia um CD... E eu conhecia a tipografia etíope também. Já fazia um pouco de mistura, porque foi uma época de conflito. Eu segui uma carreira numa empresa, e eu fazia o que já estava incubando ali na minha vida: a arte, principalmente vendo meu irmão, que desde sempre tinha uma pegada de ser artista, de fazer o trabalho de escola dos amigos, de pintar. Comecei a trabalhar com ele fazendo faixa, ajudar a fazer faixa. Era o assistente dele para várias coisas. Crítico: ele fazia os desenhos, eu criticava. "Não gostei, não gostei". Como se ele me ouvisse também. Eu já me sentia algo crítico. E ele, que na verdade era um grande professor, apresentando várias coisas. Então eu vivi uma época de conflitos. Eu andava... Havia um outro artista, inclusive, estou até com a camiseta aqui. As histórias também se atropelam. Que é o Niggaz. Era um outro artista que, após essa minha fase de adolescência e vida adulta, eu trabalhava numa metalúrgica. Tinha virado almoxarife, cresci na empresa… Vou pular um pouco essa parte. Estava podendo estudar, estudava comércio exterior, mas estava cada vez mais me apaixonando pelas artes. Conhecendo outros artistas incríveis, que eram o Niggaz, o grafite. Conhecendo o grafite, porque o Mauro sempre esteve na arte, mas a gente também nunca esteve tão próximo da cultura do grafite. A gente via o Niggaz, o Jerry, alguns grafiteiros aqui, pintando pela rua. E o Mauro, principalmente, que estava mais atento a essas coisas. Mas a gente não conhecia. E o Mauro já tinha uma trajetória de pintor, de artista. Até ele estava fazendo faculdade e a gente conheceu outra galera que era do grafite da rua mesmo, no começo dos anos 2000. Isso foi um choque muito grande, porque a gente começou a aprender muita coisa com eles e acho que havia também um interesse mútuo, porque eles estavam em dois, a gente colava junto, ia para os rolês junto e trocava também a partir da nossa dimensão, da nossa experiência de artes, que era uma outra vivência. Eles já tinham uma conexão com a cidade, então foi uma mistura muito grande. Aí eu mudei da faculdade, larguei o comércio exterior, fui fazer artes plásticas, fui estudar com outros amigos que já estavam lá nas artes. A cabeça começou a mudar. Foi num período dessa transição que eu fiquei deprimido também, porque estava estudando num lugar, a gente querendo encontrar o nosso caminho. Abrir mão de continuar na empresa, pedir demissão. De entender isso. Meu irmão já tinha essa trajetória. Ele também não falava "vai com tudo", mas também não desaprovava. Na verdade, estava muito mais aprovando, mas sem romantizar a lógica, porque era preciso também fazer a coisa acontecer.
(00:41:28) P/1 - E há alguma história desse começo, de quando você entra de cabeça na arte, antes de você sair do emprego, que você lembra com carinho e que foi um momento decisivo na sua trajetória?
R1 - Há alguns. Se descobrir artista é bem louco, porque a gente já está fazendo arte, já gostava muito de arte. Meu irmão já estava também fazendo muito. Mas dois artistas na família é meio difícil. Sempre há aquele conflito: "Putz, será? já tem um artista". E a gente também tem as nossas diferenças. E eu gostava muito de escrever, mas não tinha muito essa coisa de saber desenhar. Então eu apelava para outras coisas, que era fazer desenhos mais abstratos, ter uma estética a partir do campo abstrato da palavra, de misturar a palavra, de fazer personagens um pouco caricatos, que misturavam muito mais a palavra do que a estética de desenhar. Mas conhecendo também o Niggaz e conhecendo a cidade, os becos da Vila Madalena, por exemplo, que o Niggaz me apresentou. E eu já fazia uns desenhos, mas quando eu vi, por exemplo, um desenho de dois artistas que me chamavam a atenção, que eram o Zezão e o Boleta, eu me identifiquei muito e falei: "Se esses caras fazem isso, eu também posso". Porque, para mim, a arte estava muito no lugar da figuração, da imagem. Quando eu vi eles fazendo, eu falei: "Eu posso também. Não, espere aí, eu acho que sou artista também". E comecei a apostar mais nisso. E aí há outras coisas. Não bastava só o ego. E acho que ter esse choque de realidade. Por exemplo, eu já gostava de arte, até estudava um pouco, como qualquer pessoa interessada vai estudar, mas quando eu fui estudar mesmo... E comecei também a dar aula disso. Acho que isso foi o maior aprendizado: o maior aprendiz de fazer grafite estava ensinando. Foi uma baita oportunidade de ensinar. Você tem a responsabilidade de pesquisar mais, de pensar uma maneira de como passar aquilo, como refletir sobre as coisas, sobre a história. Então, dar aula também foi abrindo outras chaves desse processo da criação artística.
(00:44:35) P/1 - E que época foi essa? No início dos anos 2000?
R1 - Dá para marcar mais: 2003 e 2004 foi esse choque de encontros com o Niggaz, até 2002 talvez, acho mais, principalmente 2003, 2002 e 2003, 2004. O início de muitos encontros, muitas coisas acontecendo, eu mudando, conhecendo a galera da poesia, poesia maloqueirista, viajar, Paraty. E eu trabalhava, era o que ganhava uma grana. Consegui fazer muita boemia com isso ainda e ajudar os amigos. Então, esse período foi muito cheio de encontros. Um período muito curto.
(00:45:20) P/1 - Onde você começou a encontrá-los?
R1 - Aqui. Começou aqui no Grajaú. Os meninos eram do [bairro] Eliana. Eu e o Mauro aqui. O Mauro já circulava mais, ele dava aula nos lugares. Ele sempre foi um pouco mais avançado nos contatos. E aí, primeiro nos encontramos aqui na região. Um pouco junto e um pouco misturado. Também com a região da Vila Madalena, a gente frequentou bastante o [programa] Aprendiz depois. O Niggaz também logo faleceu, ele faleceu em 2003. Foi um pouco de tempo, aconteceu muita coisa. E esse período de 2003, 2004, 2005 foi quando a gente começou a entender que isso era uma coisa que a gente queria. Após o falecimento do Nigas, a gente começou a dar mais seriedade. O Niggaz já fazia isso, mas era muito hobby. A gente se colocava muito em risco também. Acho que era uma juventude muito intensa. E aí a gente falou: "Isso não vai dar certo. A gente precisa sobreviver e ser um pouco mais responsável, de se cuidar, cuidar dos outros”. Então, a gente se organizou enquanto coletivo para fazer uma homenagem ao Niggaz. Fizemos o primeiro Encontro Niggaz, em 2004. Isso também teve um movimento de junção com outras pessoas. Eu, particularmente, comecei a me envolver, até mais do que o Mauro, nessa parte com o movimento hip-hop na cena local. Juntos, mas eu comecei a ir mais. O Mauro é muito interessante, logo mais nasce o Imargem, um pouco mais à frente. E isso começa a mudar também, porque o Mauro começou a viajar, foi ser artista pelo mundo afora. E eu fiquei mais aqui no Grajaú, junto com o movimento hip-hop da região, articulando com os artistas, sendo também educador aqui. Mas aí a gente volta, a gente forma o Imargem. Então foi uma época muito louca, porque a gente fez o Encontro Niggaz e juntamos muita gente. Encontramos outras pessoas aqui que já estavam fazendo também. O movimento Hip Hop Grajaú se organizou, passou o Criolo, que é uma pessoa que as pessoas conhecem muito, é um cara que muito esteve presente também nos movimentos de hip-hop aqui da região. Outros tantos. A Casa Equativa era um espaço que a gente ocupava para fazer coisas lá. O espaço que a gente tem hoje, a nossa sede, tem uma história: a gente já tinha umas sementes plantadas lá. Eu já misturei um monte de coisa, mas é porque essa questão do tempo é muito louca. Como as coisas acontecem num espaço de tempo, quanta coisa cabe ali. Imagina agora as informações.
(00:48:56) P/1 - O que eu queria saber é qual era a sua relação com a cidade de um modo geral e com o bairro nessa época em que você começa a se integrar e a trabalhar coletivamente aqui, a participar do coletivo. Como se torna a sua relação tanto com a cidade quanto com o Grajaú?
R1 - Nesse processo de iniciar o olhar para as artes, já havia uma observação para a cidade, porque a gente sempre ia para o centro, já trabalhava em Santo Amaro, que era o nosso centrinho mais perto. Eu ia buscar material para a minha mãe lá no Brás, porque ela trabalhava para comprar roupa. Então a gente tinha uma relação com o centro e eu observava muito a cidade, essa coisa da apreciação desde a escola. A gente falou da memória da escola também. A pichação também é uma coisa que faz parte da cultura da gente, que a gente vai observando os pixadores locais, e observar a cidade, olhando para cima, vendo a pichação. Os pixadores daqui do Grajaú. E aí, junto com os grafiteiros, inclusive o Niggaz e o Gerry, eram grafiteiros que a gente via no centro o grafite deles. E quando a gente começou a ver aqui também mais, a gente achava que eles eram do centro. Então os grafites também eram uma coisa que a gente já observava, porque já gostava um pouco de ver as coisas. E o Mauro comentava também, ele dava alguns passamentos, comentava mais rápido disso. Então a gente já via os trabalhos dos Gêmeos, já identificávamos. Depois, um pouquinho mais adiante, a gente conheceu os meninos e começou a entender esse cenário do grafite. E aí ficou muito mais bucólica a cidade. Eu lembro de ir para a Vila Madalena, mas a gente ia muito para o centro também. Até na relação de ir para outros bairros, porque o grafite... Isso é uma coisa que acontece até hoje, de a gente receber gente de fora e ir para outros lugares. O grafite me fez ir para todas as partes da cidade, do país, até fora. Graças a Deus, consegui até sair, fui para a Colômbia, foi uma oportunidade que tive pela cultura hip-hop, pelo grafite. E fora outros estados. O Mauro nem se fala, acho que ele poderia contar outras histórias de como já circulou o mundo. Então, é uma cultura que circula muito. A cidade é a nossa plataforma de atuação. Então, faz total sentido nós estarmos presentes na cidade. E isso foi começando a se evidenciar nesses fluxos que a gente fazia muito para o centro. Nesses longos trajetos, muitas pessoas a gente conhece, muitas coisas a gente vê e vai criando também acúmulos de alguma expertise. As pessoas falavam da escola da rua, dessa formação. Nós acabamos nos tornando pessoas muito urbanas também, de estudar, fazer faculdade no centro. Então, isso é uma relação. E aqui também, porque aqui também havia uma conexão. Até hoje, por exemplo, a gente estava discutindo nos fóruns de cultura aqui da região. Já existiam outros fóruns, os coletivos de cultura sempre tiveram espaços de encontro, de luta, inclusive, percebendo muito do que a gente conquistou da cultura, das artes, foi produto dessa sociedade civil organizada, dos movimentos de cultura, e estão até hoje aí nas lutas. Então, já existiam movimentos naquela época de encontros. Eu lembro da gente ter um movimento com o Instituto Pólis, que veio fazer um movimento de aglutinar os movimentos sociais para se pensar... sempre havia muitas pautas. A ideia era circular. Isso fez a gente se ligar também com outros movimentos hip-hop lá da Cidade Tiradentes, com os extremos da cidade. Muitas conexões foram feitas a partir do Grajaú e da cidade, nessa discussão do grafite e cidade. Mais para a frente, a gente começou a perceber também, saindo, a gente começa a perceber como o lugar onde a gente está também é um lugar muito ímpar. Está na margem de tudo aquilo que a gente fazia quando era criança, de fazer as trilhas na mata, de nadar na represa, de entender o quanto essa represa, que a gente via sempre como um cenário de natureza, era também uma obra de engenharia e que tinha a ver com essa história dessa cidade que a gente tanto ama e odeia, desse impulsionamento da megalópole paulistana que gera, desde a época da geração dos bondinhos, essa represa também foi feita para gerar energia para esses bondinhos. A história da cidade foi se encontrando com a gente, a gente foi entendendo que faz muito sentido. Se você pegar o perímetro de, sei lá, uma média de 30 quilômetros, 30 quilômetros ao norte, a gente está mais ou menos no centro. 30 quilômetros ao sul, você está no litoral. É quase a mesma distância do perímetro. E a gente começou a perceber que a gente já fez muito isso também. Vamos voltar a estar mais ao sul. E aí a gente começou também a perceber essa cidade para cá.
(00:54:45) P/1 - Eu imagino que sim, mas já existia um significado político nessa ideia de coletividade e do movimento hip-hop daqui? Você estava contando da sociedade civil organizada. Já era uma questão política?
R1 - Sim, acho que a gente está diante da nossa condição, que é o que a gente é. O fato de estar nessa relação de estar na margem tinha de se ver, se encontrar no que podemos fazer juntos. Mas também havia uma dimensão estética, que eu acho essa questão da estética também está conectada com questões políticas. De se identificar com essa cultura da margem, dessa cultura da mata, da represa, das águas. Estar no centro, a gente percebia isso. Inclusive, é muito curiosa essa pergunta, porque a gente frequentava muito o Aprendiz. A gente encontrava muita gente de toda a cidade, de grafite. Era um ponto de encontro de muitos artistas.
(00:56:08) P/1 - E o que era o Aprendiz?
R1 - O Aprendiz era um lugar que incentivava o grafite na cena local. Havia um jornalista chamado Gilberto Dimenstein, e ele, junto com tantas outras pessoas, se juntaram para poder pensar. Acho que havia um lance de bairro educador, e entenderam a arte do grafite como um potencial. Reformaram os becos, lá havia muitos cursos, o Niggaz deu curso de grafite lá. Eles começaram a ver o grafite como esse potencial transformador da cidade, de uma comunidade, por várias vias. Enfim, havia uma valorização ali e a gente ia muito para pegar material, porque lá havia ONG, havia recurso, conseguia apoio da Souvenir, a gente tinha sempre materiais para pintar. E aí a gente percebeu que a gente sempre vinha de bonde do Grajaú. Era uma galera. Então, a gente se identificava. Algumas pessoas falavam "a galera do Grajaú". A gente, às vezes, tinha que se separar em grupos, juntar a galera do Grajaú, porque vinha uma espécie de quase uma família mesmo de umas pessoas, que iam sempre juntas e a gente sempre estava mais junto. E voltava junto para casa, porque tinha de pegar o ônibus. Mais para a frente houve outras pessoas que fizeram até uns documentários sobre a relação dos artistas daqui com as águas. Se você for pegar uma relação da arte da galera aqui do Grajaú com a do outro lado da represa, Jardim Ângela, Capão Redondo, é bem diferente. E assim também a relação com, sei lá, a Zona Norte. O quanto o fator água reflete na nossa opção estética de fazer. A gente falava do "amarelo-gêmeos". Hoje a gente fala do "verde-margem". O nosso logo, Imargem, a gente tem um verde específico, que remete também ao verde que a gente vê no nosso imaginário. Esse imaginário que a gente tem aqui do lugar das torres, da mata, do vermelho bloco baiano. Acho que eu misturei um pouco do campo da estética, porque há uma discussão que depois a gente até se apelidou carinhosamente de "agentes marginais", esses artistas que se encontravam para poder fazer coisas e refletir, pensar, fazer e refletindo. E aí a gente sempre se intitulava também como "autoridades estéticas" daquele lugar, de pensar essa coisa. E algumas vezes até meio... Eu lembro de gente comentando de explorar essa nossa miséria, essa fotografia, porque eu acho que há beleza também.
(00:58:57) P/1 - Eu queria chamar, então, o Mauro para participar dessa conversa e queria que vocês contassem um pouco como surgiu o Imargem e que caminhos ele leva.
R2 - Bom, o Imargem surge... Tem um nome. Surge, acho que, em 2006, me inscrevendo para um edital, mas acho que ele surge até antes de ser denominado. Os primórdios dele vêm com essa nossa experiência de grafite e de educação como arte-educador, isso em 2001, 2002. Em 2004, esse amigo que o Tim citou, o Niggaz, faleceu [na verdade, o entrevistado se corrige: "Em 2003, ele falece"]. E em 2004, a gente passa a fazer encontros em homenagem a ele. Eu acredito que esses encontros em homenagem a ele foram um pouco o primórdio dessa organização coletiva que, mais tarde, em 2006, a gente já fez o encontro de 2004, fizemos por vários anos consecutivos, 13 edições, pulamos algumas, mas foram muitas edições, o que fez o Grajaú se tornar o lugar mais grafitado do mundo. E eu acho que essas reuniões, esses planejamentos, se inscrever em editais, lidar com oficina e com grupos... A gente frequentava lá o Aprendiz, frequentávamos uma oficina que eu dava aula na Casa de Cultura de Interlagos, e lá tivemos a ideia de fazer o Encontro Niggaz. Aí, em 2005, eu viajo para a Itália, fui para um relacionamento, consegui um visto de estudo, e aí, numa dessas vindas, entre 2005 e 2008, eu fiquei indo e vindo várias vezes. Numa dessas vindas, eu fiquei sabendo de um edital estadual, da Secretaria Estadual de Cultura. E aí eu resolvi escrever. Já tínhamos escrito outros editais, inclusive para fazer esse Encontro Niggaz, só que não tínhamos sido contemplados. Em 2006, eu volto para cá com um enorme sentimento de pertencimento, olhar a minha quebrada de fora, perceber as peculiaridades, as características e, sobretudo, ter um parâmetro internacional, percebendo que inclusive há mais diferença entre o centro e a periferia do que entre a Europa e aqui. Então, com a ajuda de alguns colegas, em especial da professora Valéria Lopes, que tinha dado aula para mim na faculdade, para o Fred Riso, eu fiquei sabendo de um edital e estava com uma ideia de fazer um projeto. E aí eles deram uma força na hora de escrever, deram algumas referências, e juntos escrevemos essa primeira versão do projeto. E aí precisava de um nome. A ideia era fazer uma exposição na margem da represa. A ideia era: a gente já fez grafite para caramba, agora vamos dar um passo a mais, além de grafite, vamos fazer umas esculturas, e convidar os colegas grafiteiros para somar, para fazer esses murais, para fazer essas oficinas, para fazer essas esculturas. E aí o projeto foi contemplado. Em janeiro de 2007, a gente começa a fazer essa primeira versão do Projeto Imargem, que foi de janeiro a março. Então eram dez murais, dez esculturas e oficinas. Nesse processo, foi muito legal, muito incrível. O processo também continuou na escrita do catálogo. Então, a gente convidou pessoas para... Na verdade, a professora veio mais tarde, a Valéria, para ajudar a escrever o catálogo. Ela não ajudou a escrever o edital, mas ajudou a escrever o catálogo. Várias outras pessoas se juntaram para fazer o registro. Eu chamei o meu colega Alexandre Órion para fazer o vídeo e o catálogo, e saiu essa parte de um material muito legal. E eu lembro que na época em que a gente inaugurou esse projeto, outros colegas que também tinham sido contemplados nesse mesmo edital ficaram surpresos: "Nossa, o que vocês conseguiram fazer com 30 mil!" Foi um orçamento de 30 mil. A gente fez coisas que, pelo parâmetro que eu estava vendo, as pessoas fizeram com 300 [mil]. A gente conseguiu fazer com 30. E aí, a partir daquele processo, foi a escrita do catálogo. Enfim, ficamos muito entusiasmados. Depois de 2002, que tinha sido um passo importante para mim e para o Tim, essa coisa de se inserir nesse universo do grafite. O ano de 2007 foi muito importante porque a gente realmente deu um salto legal, foi ainda mais multidisciplinar. Eu ainda estava morando fora nesse período, realizei o projeto, voltei para a Itália. E aí, na sequência, o Tim, junto com os colegas, escreveram para outro edital, acho que dessa vez para o VAI, um projeto municipal, e aí passou a ser até mais legal, porque foi mais horizontal, mais multidisciplinar. Enquanto eu estava com foco mais nas artes visuais, eles deram uma abordagem mais de educação, de direitos humanos, mais ambiental, e aí convidaram novamente alguns dos mesmos que tinham participado da primeira edição e outros novos. E aí eu acho que o projeto ganhou realmente uma característica muito mais legal. Inclusive eu fui convidado, ainda morando fora, para participar como artista convidado. Então assim ele começou. A gente se inscrevia cada ano em uns 10 editais, pelo menos um ou dois por ano a gente era contemplado. E assim foi em 2007, 2008, 2009. Pelo menos um edital, uma publicação a gente foi seguindo fazendo. E aí, ganhando notoriedade, até que a gente vazou a margem. O que era um projeto aqui, com esse foco na quebrada do Grajaú, passou a vazar a borda da cidade. E há uma compreensão interessante do Imargem, que vem até com o nome: Imargem foi a junção de palavras e conceitos, da palavra margem e imagem, e desses conceitos: a margem da Billings, a margem da cidade, a margem da sociedade, marginalizados”. E dali o projeto chamado Imargem, o coletivo chamado Agentes Marginais, mas mesmo assim a gente era mais identificado como Coletivo Imargem até hoje. Mas a gente acredita que o Imargem é um movimento, é um projeto, é um conceito, é uma empresa, é uma agência, se tornou uma associação, mas que tem uma ideia de entender a cidade, o planeta, como uma bola verde, uma esfera verde, que as cidades foram feitas quase como feridas, uma ferida cinza nessa mancha verde. Então, na medida em que a cidade cresce, essa ferida vai crescendo. E o Imargem é quase como se fosse uma evolução, uma revolução, que parte a partir das bordas da cidade, como uma cicatrização. Então, vamos primeiro maquiar esse concreto de tinta, de verde, de planta, como uma cicatrização que vem das bordas e vai transformando a cidade novamente em verde, no sentido figurado, literal e não literal também, com essa pretensão de desimpermeabilizar, de maquiar a princípio, maquiando com a arte, mas depois que entre de fato na pele mesmo da cidade esse conceito que privilegia a arte, o verde, e esses conceitos sobretudo ligados à educação e direitos humanos. E assim a gente vem fazendo. É um desafio. O sonho, inclusive, é fazer telhados verdes para que realmente essa impressão aconteça. E a gente vem fazendo, vem conquistando outros espaços, experimentando replicar isso em outros contextos. Inclusive, nessa experiência internacional, experimentei levar esse projeto para lá, mas entendi que os dilemas, as problemáticas eram outras. O Imargem tem muito a ver com o território, tem muito a ver com esse lugar, esse lugar de fala, mas é também esse lugar físico que é, inclusive, atravessar a cidade e perceber a cidade se transformando na medida em que a gente vai adentrando outros fios ao centro, as centralidades. Então, tem sido assim. Acho que o Imargem começou nesse sentido e acredito que ele evoluiu muito. A gente ainda tem muitos desafios. O movimento vem fazendo isso, vazando a margem, saindo só dessa borda, mas com certeza tem essa relação, que é a nossa relação de vida mesmo, porque por mais que a gente já tenha morado em outros lugares. Eu morei fora, já morei no centro, mas a gente continua. É uma relação que é para sempre mesmo, essa relação com o lugar, uma relação afetiva, uma relação também de entender a importância de estar. Porque quem está na periferia, muitas das pessoas que estão na periferia estão no centro também, seja para trabalhar. Então é importante estar na periferia para ter uma compreensão maior da cidade. E entender também que a necessidade também está aqui. As questões mais emergenciais estão aqui. Enfim, estamos fazendo muita coisa. E a pandemia ajudou a gente a perceber também o que realmente importa. O que importa é a vida. E que vidas são essas que estão sendo ceifadas? Que vida importa? Quais vidas importam? Também foi uma reflexão que a gente vem fazendo. Enfim, a partir do Imargem, a gente foi construindo outros projetos, também com essa ideia do neologismo, de inventar nomes. Depois do Imargem veio o cartografite, que também junta nomes e conceitos cartografia e grafite que, propunha um percurso para ver grafite entre a periferia e o centro, mas se desenrolou para questões de legalidade, legitimidade, burocracia, autorização. Mesmo a gente no cartografite sendo contemplado por um edital público, ainda assim havia as contradições de, mesmo com autorização, com recurso, acontecer ainda a criminalização, os apagamentos. Discutia essas contradições que é fazer política pública com o apoio e o não apoio do poder público. Nessas contradições, mais tarde, veio o projeto Infografite que junta esses nomes, informação e grafite, que começou a partir de uma oficina que a gente foi convidado a fazer. Fomos convidados pela revista Vaidapé, e aí a gente pode continuar usando esse nome à vontade. Desde então, há pelo menos uns 10 ou 15 anos, a gente vem fazendo isso também, elaborando, discutindo, definindo e construindo frases curtas, diretas, sobre o que a gente precisa ler. Mesmo antes da pandemia, falávamos muito sobre racismo. Na pandemia, focamos nos cuidados com a vida. E seguimos fazendo, seja com financiamento ou não. São projetos que acontecem meio paralelos. Enfim, tantos outros projetos a gente já abraçou, já acolheu nesses espaços físicos que a gente administra. O Tim pode até falar sobre alguns deles. Um bem bacana, que mostra aqui a camiseta, mostra o logo desse projeto maravilhoso, que é o Navegando nas Artes, que tem um carisma muito legal, que é navegar nas águas da Billings. Antigamente até construímos barcos, barcos à vela. E há velas grafitadas, que são velas grafitadas por artistas que a gente convida. Então tem um carisma muito legal. Acho que é mais um dos projetos que a gente vem fazendo. Mas vários outros acolhemos, outros grupos coletivos para usar, para discutir política pública, seja cultural, relacionado a direitos humanos, educação, questões ambientais. E assim tem sido o Imargem.
(01:13:38) P/1 - E vocês estavam contando sobre essa multidisciplinaridade que acaba tomando o Imargem a partir dos anos seguintes ao início. Eu queria entender um pouco como foram essas questões permeando o Imargem. Por exemplo, a parte ambiental, todas essas questões já eram coisas de que vocês se preocupavam desde o início? Mas como elas foram entrando?
R2 - A gente, desde a nossa vida profissional ligada à arte e à educação, sempre foi convidado por instituições, por indivíduos, para fazer projetos. E a gente tem a sorte de ser convidado e aprender com esses temas. Então, seja a questão ambiental, educacional, direitos humanos, a gente sempre é convidado para colaborar com a nossa expertise, seja com o grafite, seja com a educação, seja articulando território, grupos. Então, tivemos a oportunidade de aprender com esses temas, dos quais não somos especialistas, mas fomos aprendendo ao longo do tempo. E isso foi um privilégio. Fizemos conviver com esses especialistas e aprendemos com eles e os convidamos a somar. E aí a gente tem percebido que, depois de ter feito a primeira edição do Imargem, na hora de contextualizar, a gente foi percebendo o que estava fazendo ali. E uma das coisas que a gente percebeu é que a gente articulava eixos temáticos: arte, meio ambiente e convivência. A arte, que é essa potência da arte, do grafite, com o qual a gente faz, que é a nossa potência, a nossa especialidade. A questão ambiental, porque está nesse contexto ambiental, na margem da Billings, na fronteira entre a área verde e a área habitada, na margem da Mata Atlântica, na área de proteção ambiental. E a convivência, que acho que é um eixo crucial, porque é isso: tudo se dá através da convivência. É na convivência que a gente entende os desafios, entende as nossas virtudes, é na convivência que se passa a transformação. A gente que está há 30 anos fazendo isso, percebe os jovens que foram impactados, que sofreram uma influência direta com isso. E a gente tem de ver que é a convivência. Não adianta vir uma coisa de cima para baixo, propondo uma mudança, se não há um pé ali no lugar, entender de fato as relações humanas, as relações conflituosas entre o ser humano e o ambiente. Então, esses eixos que costuram. A gente pode até citar mais eixos, mas acho que foram os estruturais: arte, meio ambiente e convivência.
R1 - Porém, isso também se desdobra. São eixos que foram norteadores, mas, na prática, a gente foi encontrando, desde a prática das artes mesmo, que a gente já via como condição, nessa relação das artes em relação ao território, que é a arte urbana, com muita força. Aí também logo depois essa questão do meio ambiente foi se traduzindo em práticas com outros parceiros de fazer atividades. Hoje a gente identifica o termo da permacultura, que é de ressignificar os espaços. Nós tivemos que ser muito próximos dos agricultores orgânicos da região e pensar também essa forma de ocupar o solo com a agricultura. Fomos chamando a atenção também para esse eixo da permacultura. Depois, a navegação também veio como uma frente de atuação, porque essa mesma pessoa que ajudou a gente a dar uma olhada no projeto, o Fred, foi quem fundou as primeiras ondas que houve aqui, que é a Vela e Polpa, que era uma onda em que ele era velejador profissional e estudou administração do terceiro setor na Fundação Getúlio Vargas. Então ele fez um projeto na prática que era ensinar a molecada a fazer o barco e a velejar na represa. A gente passou a ser até educadores em algum período nessa instituição, em projetos pontuais. Só que a ação meio que faliu, resumindo a história rápido. E aí a gente, como educadores da galera, via os barcos lá, os jovens que estavam lá. As velas tinham até os logos da Sabesp, que eram os patrocinadores da época. A gente juntou esses jovens, que não eram mais crianças na época, já estavam até velejando em Ilhabela, Guarapiranga. Eles formaram muitos velejadores, até educadores, mas não gestores. A gente se juntou, já havia uma relação de amizade com o espaço, passamos a ocupar esse espaço apelidado de Ateliê da Margem, e somamos com esses outros jovens para rebatizar o nome do projeto como Navegando nas Artes. Então, a gente pintou as velas, fez as velas e agregou nessa relação que hoje entendemos mais, que chamamos de “percursos educadores”, é ter o território como plataforma de conhecimento. Então, essas atividades que a gente já fazia a partir do grafite, que era entender o território na potência da arte, foram potencializadas não só pela permacultura, mas também pela navegação. E a gente já fazia as trilhas com a arte, de ir para o ambiente de mata para poder perceber e ter as nossas sensações e desdobrar isso em arte. Isso passou a ser feito também a partir do barco, depois pela bicicleta. Chamava as Bikes Marginais. São essas frentes que eu estou falando. Então, as artes, a permacultura, a navegação, as bicicletas, que também são as Bikes Marginais para explorar o território a partir desse outro modal, ir mais longe, né? Há um período em que a gente, nesses Agentes Marginais, falava sempre de ocupar, de conhecer a autoridade estética do lugar e conhecer mesmo esses guardiões dessa margem. Nessa península, havia até uma época em que a gente brincava que, de fato, a gente conhecia todas essas bordas das penínsulas. A gente tinha grafite ou circulava por lá, fazia nossos percursos educadores ali e levava nosso educando para conhecer o território. As artes, navegação, permacultura, bicicletas e a alimentação saudável também. Junto com a permacultura elas se abraçam. Isso vem de um olhar que sempre fazíamos as oficinas e as atividades com as pessoas nesses espaços de convivência, formações, encontros, trocas e a alimentação sempre é natural de ter. Só que foi nos incomodando, mais uma pessoa do que outras, o que a gente estava comendo. Então a gente começou a pensar que o alimento poderia ser mais um espaço disparador. Porque já tinha algumas pessoas que já tinham esse acúmulo, então esse alimento passou a ser uma frente de atuação. Tinha algumas pessoas que cozinhavam, tinha as agricultoras, então a gente… Quem puxa mesmo essa frente são as meninas que têm um projeto chamado Cozinha nas Artes, na casinhas. Elas já têm uma visão de preparar esse alimento, não só orgânico, mas de reaproveitamento que envolve não só as mulheres, mas outras pessoas, gerando uma economia para esse grupo de mulheres e alimenta nossas atividades. Nossas atividades são regadas à alimentação, esse momento da alimentação é sagrado. As artes, navegação, as bicicletas e a alimentação saudável são os eixos que hoje o Imargem atua. Depois a gente vai conhecer o espaço também, onde a gente faz as coisas com um monte de gente.
(01:22:22) P/1 - Eu queria que cada um contasse um momento, ou os dois em conjunto elegessem um momento que foi muito marcante para o Imargem, que vocês queiram compartilhar.
R2 - Tiveram os prêmios, as indicações dos prêmios que a gente ganhou. Não tenho muita memória, mas lembro que foi legal. Foram vários: cada evento, cada Encontro Niggaz, que são grandes eventos, que a gente passa cinco semanas trabalhando muito. Tiveram vários “manifestões”, que a gente chama de “manifestões”, que foram marcantes também. Tiveram as perdas também, as perdas dos amigos que se foram.
R1 - Mas é por aí. São muitos pontos. Eu lembro também que a gente fez uma exposição, a Vazão da Margem, na Pinacoteca, foi em 2008. A gente fez uma grande exposição na Pinacoteca [do Estado de São Paulo]. A gente chamou de Vazão da Margem. Para a gente, foi uma conquista muito grande também. As primeiras vezes que alguém tinha pintado as janelas ali, depois todo mundo começou a fazer esse trabalho de pintar as janelas na Pinacoteca. Eu acho que a gente ocupou do lado [da escultura de Victor] Brecheret, com nossas esculturas também, as assemblages. Eu lembro que foi um período em que a gente lançou uns catálogos legais, mas daria para pensar em outros marcos. Eu acho que sempre, no tempo atual, a gente está falando muito sobre essa coisa do território educador. A gente vem fazendo muito isso também, pensar esses eixos que a gente vinha falando da convivência, de pensar o território como território de saúde, de pensar como esse território está localizado na relação com a represa, com a mata, com as pessoas, a ideia de saúde integral, pensar nas acessibilidades, na ideia de inclusão. Acho que isso também é um tema muito recorrente no grupo. Ontem a gente estava numa rede discutindo também a questão dos desafios de uma gestão compartilhada, uma gestão coletiva, pensar novas formas de governança num mundo tão, como a gente fala, maluco.
R2 - O momento da pandemia foi muito marcante também, quando a gente parou as atividades e se focou numa demanda que veio para a gente, que era de assistencialismo, de distribuir comida mesmo. Então, foi um momento muito marcante. Inclusive, o que a gente pôde fazer, seja das manifestações de cartazes com cuidados com a vida, inspirado por outras iniciativas, de colocar água e sabão, espalhar fontes de álcool em gel para as pessoas lavarem a mão. Foi um momento muito marcante também. Acho que a publicação do Niggaz também foi um momento legal.
R1 - Há vários momentos que marcam até hoje: encontrar um homem, uma mulher já adulta, que falou que fez parte de alguma das oficinas que a gente desenvolvia. Isso é muito recorrente. Os professores reconhecem a gente como educador, como uma referência. E a gente ter, sei lá, construído um pedalinho com a galera na represa, feito os murais mapas, a gente faz muitos mapas aqui com a galera, fazer mapa com a galera para eles entenderem o território. Essas memórias são marcadas. A gente tem de falar das cartas que a gente escreveu para nós mesmos 15 anos atrás, que a gente construiu junto com essa galera. Essas memórias dessas pessoas que a gente cruza, que alguns estão hoje trabalhando com cinema, outros já publicaram seus livros, ou estão simplesmente sendo trabalhadores no mercado, em uma empresa, mas que conseguem ter uma percepção de vida, de ser humano, de coletivo, das questões que a gente fala, das questões ambientais, de pertencimento também.
R2 - Também quando vazamos a margem, seja em outras cidades aqui nos estados, até quando a gente apresentou o projeto na Europa, nos Estados Unidos, falar um pouco da nossa experiência, também foi legal. O nosso trabalho chegando mais longe foram momentos marcantes. Acho que há muitos desafios também. Acho que é uma das coisas que marca não só as coisas positivas, mas os desafios também. Esse desafio de ainda estar num misto de amadorismo e de profissionalismo. Esse desafio de até onde uma coisa... Quando o amadorismo é bom e quando o profissionalismo é ruim, quando as coisas se invertem. Então são desafios muito grandes, de fazer a coisa mesmo sem receber. A gente acha que está muito na ponta de entender os desafios de empreender, de conseguir aglutinar gente. Tanta gente que veio, tanta gente que foi, que passou. A gente também exporta. Muitos bons profissionais que hoje estão em carreiras legais aí, Brasil afora, começaram aqui com a gente e nos deixaram por outros caminhos. Então também são coisas que marcam a gente e nos enchem de orgulho.
(01:28:28) P/1 - O que eu queria saber é se esses quadros, essas obras dos rios têm a ver com o Imargem ou é um trabalho pessoal.
R1 - Sem dúvida que isso tem a ver com o Imargem. Essas coisas se misturam muito nessa história com o Imargem. Observar o fluxo das águas vem muito dessa relação, desde o nome do Imargem. Os fluxos e os corpos. Os corpos e a água. Quase todos os mapas, acho que todos, quase todos, obedecem a essa lógica de evidenciar os rios. Eu já fiz de todos, inclusive tenho um monte aqui, fazendo aqui. É uma escolha pela questão das águas, é essa relação de observar os rios por aí afora, percebendo o nosso aqui. A gente falou: "Como não há isso?"
R2 - A relação com a água também. Eu tenho a coincidência de nascer no Dia Internacional da Água. A gente está aqui à margem da Billings, um lugar que representa tanto fascínio e medo ao mesmo tempo, e negava a influência da questão hídrica das águas, da dramaticidade, da melancolia da água, na nossa arte. Desde o início estava representado, seja a textura da água, o reflexo da água, o corpo da água, as cores. Então há uma relação muito forte nesse sentido de interesse mesmo, não só das ruas, mas dos rios também.
(01:30:22) P/1 - A gente falou bastante sobre o sentimento que você tinha e também que você trouxe agora, sobre o sentimento pessoal que vocês tinham em relação à represa, em relação à Billings. Eu queria entender qual é o sentido político e histórico da Billings para a região, se vocês sabem. Qual é a importância da represa para a região, tanto positiva quanto negativamente?
R2 - É um fato: ela tem 101 anos. E parece, para muita gente, que ela sempre existiu, mas ela foi construída. Acho que foi muito negligenciada. Acho que, gradualmente, foi-se percebendo a importância. Aqui no Grajaú, diferente de outras represas, as pessoas mais privilegiadas escolhem morar na margem do lago, da represa. E aqui o movimento foi o contrário: as pessoas mais pobres, os loteamentos irregulares mais baratos eram na margem da represa, porque era ali onde se depositavam os carros roubados, os corpos assassinados, onde as mães temiam que seus filhos morressem afogados, onde se deposita o esgoto. Então é sempre um lugar para onde a gente virou as costas. A maioria das casas são viradas de costas para a represa. E com o passar do tempo, ainda que tardiamente, os do poder público, ou outras iniciativas, vão evidenciando a importância dessa represa. E aí, mais tarde, foi bem coincidente: o Imargem começou essas ações mais ou menos quando começou o programa desse parque linear, que já tem 20 anos, ainda está dando a volta nessa primeira península aqui do Grajaú, ainda não terminou. Então, acho que houve uma astúcia, uma conformação, uma soma de coisas, não foi à toa, não foi só uma coincidência, mas foi essa questão de perceber mesmo o que há ali. As sinalizações marcando primeiro para os gringos. Engraçado que as primeiras sinalizações que havia aqui eram em inglês, curiosamente: Protected Landscape. Uma área, paisagem protegida. A gente nem sabia o que queria dizer, mas eles estavam informando já para o gringo ver que aqui havia essa pelo menos aparente preocupação.
R1 - Mas há uma importância: a Billings ainda fornece água para a região do ABC, acho que todos, se não me engano. Ou uma boa parte de energia. Não sei o quanto ela está ligada, mas ela, resumindo, impulsionou a indústria paulistana com o polo de energia que foi criado a partir de Cubatão. A pesca também tem uma importância muito grande para a cultura. Hoje, estando mais perto da cultura náutica, a gente percebe isso, essa cultura ribeirinha tem muitos povos que estão ali nessa margem, que vivem a partir dessa condição de estar ali na margem. E a gente acaba saindo um pouco disso também, dessa relação. A represa acaba sendo também um espaço que a gente tem para poder discutir mais sobre a questão da água, as questões hídricas da cidade. A represa tem as baixas, e aí você percebe como a cidade toda está carente. Então, de novo, quando a gente faz, a gente chama muito o projeto da Praça de Águas. Isso é um baita disparador para a gente poder falar sobre os desafios climáticos, por exemplo, que a gente está falando. A gente até fez uma oficina de cisterna lá na casinha, essa coisa de reaproveitamento das águas. Ah, pensar também os sistemas de tratamento, os desafios que nós temos. Então, a gente vive falando disso aqui também. Onde estão as estações de tratamento dessa água? Acho que está bem longe daqui, não sei se é para o lado de Guarulhos. Esse aqui é longe daqui. Há umas estações de bombeamento que a Sabesp está fazendo e é muito invisibilizada. Isso eu acho que é uma questão estratégica para não se falar da Billings. Até as pessoas falam muito da Guarapiranga, às vezes, querendo se remeter à Billings. A Guarapiranga é bem menor. Mas a Billings ainda tem uma função que é essa área, esse colchão de isolamento aqui da mata, da Mata Atlântica que há daqui para cá, esse sentido Serra do Mar. Então, ela está toda nessa margem. Os Estados Unidos estão de olho aqui na nossa floresta. Aqui é um ativo importante.
(01:35:56) P/1 - Queria agradecer, Mauro. Muito obrigada. E aí eu queria continuar com o Tim. Pode ficar, fique à vontade para responder também. Eu queria fazer duas perguntas. A primeira delas é: que história a represa conta para vocês?
R1 - Ela tem a história dela. E aí a questão: qual é o pedaço que a gente conhece? E o que a gente entende disso também? Boa pergunta. A história que ela fica para mim, para a gente, é nesse lugar da vida. Desse lugar que a gente teve, de estar aqui morando, percebeu o quanto essa questão desses clichês é importante, a natureza, esse bem finito que nós temos, que é a natureza, a água, por exemplo. Então, eu acho que ela nos traz um alerta muito importante, inclusive em relação às nossas matrizes energéticas. É o que a gente está falando. Então, eu acho que ela nos alerta sobre os desafios que a gente vive atualmente. Eu acho que o recado que ela nos deixa, a história que ela nos deixa, é um pouco dessa. Inclusive até, sei lá, do que a gente está emergindo nessas represas que a gente está fazendo? Quantas coisas estão submersas nessa represa aí também? Desses rios. E essa escolha de se represar alguma coisa. Foi bom? Parece que sim ou não. Dizem que as represas são até de menor impacto. Acho que está no momento de discutir mesmo sobre isso, no mundo discutir sobre as nossas matrizes energéticas, da nossa floresta. Aqui, esses dias apareceu um Saruê. Você via esses bichos um pouco mais adiante, mas é muito mais natural você ver esses animais silvestres aqui no meio do povo depois da construção do Rodoanel, por exemplo. O quanto de história a gente não tem também de animais silvestres invadindo. A história dessa represa nos ensina também que essa ferida está se ampliando. O Imargem está tentando, mas eu acho que é difícil. Acho que o que a gente está tentando é muito mais. Talvez a história que elas deixam é que a gente tem de pensar novas formas de ocupar esse espaço. Um espaço mais harmonioso. Acho que é possível a gente conviver com menos cimento, de repente, pensando em maneiras de cuidar da nossa água, do tratamento do nosso saneamento, da nossa educação também. O território é o que a gente faz. Como a gente pode aprender com essa memória que está aí, esse rio que também está vivo, porque ele também se encontra, ele segue adiante com o Pinheiros, as coisas sobem para o norte, para o noroeste. Então, acho que ela conta essas histórias. E eu acho que, principalmente, fica o alerta do que a gente quer dessa história adiante.
R2 - É a história que a gente quer contar também. É uma história de acesso também. Durante muito tempo, ela nos dividiu, nos distanciou da cidade, seja da região do ABC, seja da região do Campo Limpo e também da cidade. Então, durante muito tempo, ela foi um obstáculo físico que nos manteve distantes geograficamente da cidade. E é isso, hoje a gente almeja usá-la para se deslocar também mais rápido, já se constroem pontes, pensam-se em formas de transporte fluvial. Mas há muitas memórias de gente que se foi, amigos que se foram afogados, projetos lindos que a gente vê refletidos, dos murais que a gente vê refletidos na água. A água sempre foi uma inspiração para a gente ver as artes nos barracos refletidas na água, uma imagem que construiu um pouco desse imaginário, isso que a gente quer ver no Imargem, a imagem da margem. A imagem da margem, essa caricatura, é um barraco grafitado refletido na água.
(01:41:17) P/1 - Que bonito! No Instituto Rios e Ruas, eles trazem um exercício de comunicação com os rios que eles visitam. E eles fizeram essa conversa com a gente e a gente está trazendo para vocês. Então, eu queria saber que mensagem vocês passariam, vocês contariam, deixariam para a represa. Qual mensagem vocês deixariam para os seus filhos?
R2 - Uma mensagem de acesso. Acho que esse é um pouco do nosso principal propósito. O acesso à informação, acesso à educação, o acesso à cidade. Que a Billings também é de todos os cidadãos. Uma mensagem de que aquilo não é mais o porão, não deve ser mais, cada vez menos, o esgoto para o qual a gente vira as costas. E sim um lugar que a gente cuida, que a gente limpa, para mostrar com orgulho. Então é a mensagem de que resista e siga nos agraciando com essa beleza tamanha.
R1 - Fiquei pensando também no lance da água enquanto uma fruição. É uma fruição e fluidez, são duas palavras que combinam com essa ideia. E que fomente essa fruição de vida, de arte e de cultura, porque o lugar que ela passa, ela rega também muita coisa. Eu vejo que o que ela está regando nessa cultura que eu estou presente nessa terra que é chamada Grajaú, muitos frutos vêm nascendo. A gente espera um dia colher esses frutos, porque hoje é tempo mais de regar e ela, sem dúvida, contribui muito. E eu acho que, sei lá, há muito mais gente a romper essas barragens. A questão da barragem bloqueia. Eu fico pensando: como a gente pode também romper essas barragens simbólicas que existem? Porque hoje a gente fala da represa, eu me lembro da EMAE, mas a gente tem de falar disso, eu fico pensando como a gente vai criar, estabelecer um contato com esses órgãos que gerem. Vira uma coisa dura. Eu acho que isso tem de ser mais devolvido às pessoas. E que seja compartilhado com os poderes públicos. Porque hoje ela nos é negado o acesso a falar sobre ela. Imagina pensar em cuidar junto e trazer essa comunidade que vem somando acúmulos para pensar também soluções nesse espaço.
(01:45:02) P/2 - O Mauro trouxe uma reflexão muito bonita sobre como a arte pode ser um mecanismo de maquiar o meio urbano Eu queria entender quando surgiu essa ideia na sua cabeça. Como você pensou nisso? Quando? E a partir disso, como vocês têm atuado no espaço para fazer com que essas cicatrizes sejam maquiadas? Como você enxerga essa maquiagem?
R2 - Acho que o ideal seria que não existissem muros, para não precisar de tanta segregação, tanto isolamento por insegurança. Mas enquanto eles existem, a pintura, a arte, o grafite abrem uma porta, abrem uma janela naquela parede que está segregando, que está impedindo a gente de ver o horizonte, a paisagem. Não que a gente queira voltar a morar em cavernas e não usar paredes, que têm a sua necessidade, mas existe aí um propósito econômico de vender cimento, de impermeabilizar tudo, assim como existe de vender armas. Então, acho que é uma visão um pouco utópica, mas de que está exagerado como está. E aí essa coisa da maquiagem, porque às vezes parecer mais bonito é importante também. Não basta só ser, porque o ser em si, se ele não parece, ele acaba nem sendo direito. Se ele é sem as pessoas perceberem que a coisa está existindo ali, positiva ou não, acho que a imagem, a gente lida com uma coisa também da aparência, não uma aparência mentirosa, mas a aparência que vira história, que vira educação, que vira um registro de que a gente pode partir daí. Surge nesse sentido mesmo, nessa crítica dessa ocupação desordenada, dessa relação conflituosa entre homem e ambiente. Então, primeiro, maquiar, de uma forma criada, já que há aquele muro lá. Criar uma alegria ali, criar uma fantasia.
R1 - Desculpa, a coisa da maquiagem pode ser usada também. A palavra pode ser "pintada". A maquiagem é uma pintura, na verdade. E eu acho que esse é o lugar que a arte ocupa. É uma discussão interessante, que a gente até se pergunta. A arte, muitas vezes, parece que é para quem tem a vida ganha, só para quem se permite contemplar uma arte, quem tem tempo. Então ela é menos importante muitas vezes. Então você vislumbrar a possibilidade de se permitir também, a partir da arte, enxergar possibilidades, enxergar novos horizontes. Às vezes, até eu não gosto muito dessas pessoas, mas enxergar uma cor, as pessoas apelam até para isso. Mas isso é só o primeiro que chega. Porque logo a gente continua nesse eixo da arte e tem a convivência. Porque também é muita pretensão pensar na cura. A ideia da cura talvez seja o ideal, mas eu acho que a cura é do cotidiano…
R2 - Redução de danos.
R1 - …é, há outras coisas nesse meio tempo. Mas eu acho que até a gente chegar, a gente já sonhou muito numa lógica de pensar o bairro educador, essa ideia de conseguir enxergar a potência, fazer do limão a limonada a partir do que existe no contexto. Mas, enquanto isso, a arte vem sendo um pouco essa maneira de pintar esses horizontes.
R2 - Há uma coisa de fato, quando a gente fala em arte, a arte parece uma coisa realmente supérflua e para quem tem a vida ganha. Às vezes a gente troca esse conceito, essa palavra, por informação e educação, que também é o que a gente faz e que está muito ligado, e isso já não é tão supérfluo. Então, quando se fala, estamos mais ligados com algo mais nobre…
R1 - A luta mais nobre.
R2 - …mais prioritária. Então, a gente não está pela arte em si, a gente está pela informação e educação de uma forma artística, mais leve, menos chata, mas com essa prerrogativa prioritária da educação e da informação. Porque quando a gente fala "vamos defender a arte", não há coisa mais importante.
(01:50:21) P/1 - Você estava contando que tem um relacionamento, que é pai. Queria que você contasse dessa parte, se você quiser.
R1 - A coisa mais prazerosa que eu tenho para falar dessa nova vida, que é ter uma filha. Ela tem hoje 4 anos. É uma pessoa incrível com quem eu venho me descobrindo e aprendendo muito. Chama Anin. Anin Niara. Junto com a minha companheira também, que é a Estela. A gente vem aprendendo, está junto. Essa coisa de ver uma criança, educar uma criança, crescer, aprender com ela de novo. É muito prazeroso. Ela está numa fase, inclusive, agora de querer escrever, entender tudo. Toda criança tem curiosidade de aprender tudo, de tomar forma dos desenhos. Ela vai criando as histórias dela. Ela sempre contou muita história para ela mesma, inventa as histórias dela, agora está desenhando, criando os personagens dela. Ver aquele universo... E fora o amor, que é incrível ver isso também acontecendo em família, as pessoas se juntando, todo mundo voltando a ser criança com ela, porque você começa a perceber coisas que, enquanto criança, você não percebe. A gente, enquanto criança, não percebe várias coisas, das coisas mais simples que a vida pode ensinar e que, às vezes, a gente está só vivendo e não consegue pegar. Então acho que isso também me coloca hoje numa condição de ser pai, mas também de me perceber como um homem nesse lugar de pai. Diferente de como meu pai foi. Quais são as informações que eu tenho hoje, o que eu faço com isso, quais são os desafios que o mundo pede para mim. Penso também nos desafios dela. Ela vai ter também os desafios de todos nós para poder criar essa criança. As preocupações da escola, de como isso é. Mas também entregando, eu acho que há um pouco de entender os desprendimentos que a gente precisa ter para viver, ainda mais quando se tem uma filha que não lhe pertence. Mas é isso, muito aprendizado, muita fofura, muito amor.
(01:53:24) P/1 - Inclusive, lembrei agora de uma coisa super importante. A gente começou falando desse lugar aqui como casa, como a primeira casa de vocês, mas ela se transformou também num ateliê. Eu queria que você contasse um pouco desse processo, de como foi se transformando nesse ateliê.
R1 - Muito louco, porque pega desde como a gente cresceu aqui na casa e hoje você vê isso aqui, uma vida meio maluca às vezes. A gente ainda é bem modesto nas nossas práticas aqui. E não faz tanto tempo que a gente começou, acho que nos últimos três anos, mas meus pais não estão mais morando aqui. Mais de cinco anos já, talvez. E gradativamente isso foi tomando forma, mais pessoas vindo. Gente que vai, às vezes eu também estou morando fora, o Mauro às vezes viaja também. Aí vêm outras pessoas de outros estados, de outros países, vêm, ficam aqui, produzem as suas obras aqui. Às vezes a gente vê se transformando com outros tipos de obra, outra bagunça de outras pessoas, mas sempre muito com arte. Teve o trabalho do Caio ali embaixo, com a cultura popular. Ele trabalha com o Boi Caboquinho, de Pernambuco, mais da música. O Uri também, que já vem de Salvador, que tem as suas referências, traz uma pauta sobre pessoas com deficiência, que é uma outra pegada. Cada um vai dando a sua característica. Mas a gente ainda está muito aqui. É o espaço, por exemplo, que a gente consegue também incubar mais os nossos projetos de trabalhos artísticos. Aí eu fico vendo as nossas bagunças, cada tinta que cai no chão, se for a minha, eu lembro: "Ah, isso aqui girou aquele trabalho ali". Eu gosto. Acho que esse espaço, inclusive, vem revezando a sua função social, que é de dar vazão de novo para aquela ideia da palavra fruição, a fluidez artística aqui. Os artistas que ocupam aqui também para poder fazer coisas. Eu acho que é isso.
(01:55:42) P/1 - E o que é importante para você hoje?
R1 - Eu acho que a vida é algo muito importante. A vida vivida aqui agora. Inclusive eu ia falar "ser feliz", ser feliz também é importante demais. Mas nesses momentos tristes, curta também essa parte triste, que é o que nos resta. Aproveite esse tempo, porque é sempre uma inconstante. Tento até curtir rápido para poder passar a outra, não dá para ficar muito tempo deprimido. Nem sempre dá certo. Dias que permanecem mais. Mas eu acho que a meta é tentar ser feliz. É muito doido isso, porque eu já tentei ser mais revolucionário, de tentar querer mudar o mundo. E eu não desisti disso, mas eu acho que tento também agora viver mais um pouco a vida nas micro-revoluções. Beber mais água, conseguir curtir um dia com a minha filha, um bom papo, uma boa conversa. Inclusive cuidar mais dessa minha relação com outros tipos de vida, com a água, estar mais nos rios. Adoro ir aos rios. Há uns rios aqui, fundão, de Marsilac. Às vezes eu posso, eu vou. Ouvir histórias. Eu adoro ouvir as histórias. Acho que é importante ouvir essas histórias de vida. Além de gerar vida, é ouvir histórias de vida, aprender e compartilhar. Há um amigo que fala que quem compartilha cresce. Eu adoro essa ideia também. Viver e deixar viver.
(01:57:46) P/1 - E quais são os seus sonhos?
R1 - É muito louco isso, porque eu já tive tantos sonhos. Boa parte deles eu consegui atingir. Mesmo assim, só dá para dizer que estou numa fase muito feliz, porque boa parte do que eu sempre quis... Não há nada material, é mais de conseguir produzir alguma coisa. Mas há muitos sonhos ainda para serem realizados. Acho que, principalmente no que toca, vejo que posso contribuir nessa relação com a arte, com as minhas relações com as pessoas. Como educador, então fico pensando muito em como a gente pode deixar algum legado de contribuição. Eu acho que a gente está quase para encontrar a fórmula mágica, não sei se da paz, mas de alguma coisa importante. Parece que está sempre quase de alguma coisa, mas falta alguma coisa. Então, o meu sonho é conseguir finalizar esse experimento desse laboratório da vida, conseguir a tal poção mágica que a gente tanto procura. Podem ser várias poções mágicas para promover a vida, para fazer felicidade, alegria, reflexão também, crítica também, que eu adoro criticar as coisas. Meu sonho é também ter sido mais ouvido. Há muitos sonhos. Inclusive elementos externos, para que as pessoas pudessem sofrer menos. Parece que é uma coisa tão simples: combinar, não vamos nos matar. Que ideia maluca é essa de guerra? Umas coisas assim que parecem estar tão ultrapassadas. Mas, ainda continua sendo um sonho, porque parece uma coisa tão simples, parece que está tão perto. De novo, aquele laboratório que parece que está quase ali, de a gente encontrar a fórmula. Então meu sonho está nesse lugar.
(02:00:19) P/1 - E eu queria saber se você tem alguma história que eu não tenha perguntado e que você queira contar.
R1 - Ah, há várias. Várias histórias que você não perguntou e que eu tenho vontade de contar…
(02:00:40) P/1 - Me conta uma.
R1 - …vamos lá. Eu acho que venho percebendo, de novo, nessas histórias, de me perceber um sujeito homem, preto, de quebrada. Toda essa história eu contei um pouco para você aqui. Um pouco, que fala sobre mim. Eu começo a perceber também nessas trajetórias muito mais algumas pessoas, como a minha mãe. Essas mulheres que vieram antes da gente. Há muitas histórias dessas. Todo dia eu conheço uma que eu acho incrível. Poderia ser a história da minha mãe, é uma história muito importante de ser contada. Mas eu acho que há várias mães, várias dessas mulheres. Eu estava esses dias numa biblioteca chamada de Jane Firmino. A de Jane Firmino tem uma história para ser contada. Não é à toa que ganhou o nome de uma biblioteca. No lugar, funciona uma associação puxada só por mulheres. Há a Dona Zilda. E há uma história também que ela contou um pouco lá. Eu falei: "Essa história é importante ser contada". Há várias histórias. Há algumas que já estão sendo contadas também, ainda bem. Mas são histórias que precisam aparecer. Há uma história que talvez vocês até já contaram, que é uma pessoa que eu acho incrível, que é a Gerard Guarani, uma outra mulher incrível aqui da região. Várias. Há as histórias da Dona Maria, que é lá do Gaivotas, uma senhora simples que nem o mundo fala assim. Uma catadora faz mais que o ministro do meio ambiente. Ela é essa catadora que faz isso, que educa uma comunidade. As pessoas veem nela uma referência, mesmo que sem oficializar. Da maneira simples que ela atende as pessoas, que as pessoas têm carinho por ela. Dona Maria da Conceição, uma catadora lá do Jardim Gaivotas.
(02:03:13) P/1 - Tim, como foi contar um pouquinho da sua história hoje para a gente? Um recorte.
R1 - É muito bom contar a nossa história. Eu acho que a gente já teve essa oportunidade de contar algumas vezes. Sempre é diferente. Sempre é muito bom. Sempre a gente conta de uma outra maneira. Sempre a gente revisita lugares nessa história que a gente não sei se nunca visitou, mas visita pouco. Então é muito bom, muito positivo. Eu acredito muito na potência das histórias, das memórias, das pessoas, dos lugares. Eu acho que isso nos deixa maiores como seres, como sociedade, como coletivo. Então, acho que é legal demais contar essas histórias, encontrar várias histórias. Aí você pergunta e eu fico lembrando de outras, como do meu avô Francisco Nery. Um senhor que eu fico fazendo a conta... Sei lá, o pai dele, a mãe dele, ele já estava na escravidão. E aí eu fico pensando: quanta história eu não conheço dele. Francisco Neri é um cara super respeitado, conhecidíssimo na Bahia. Merece um livro, um documentário.
(02:04:44) P/1 - Vocês chegaram a conhecê-lo?
R1 - Sim.
(02:04:47) P/1 - Sua avó também?
R1 - Sim. Uns conviveu mais. Eu sou mais novo e convivi menos. Ainda mais morando na Bahia. Mas por ser um cara também... Nossos avós são pessoas muito queridas, nessas cidades pequenas, que o povo, a região inteira conhece meus avós. Não por ser fazendeiro, mas pela névoa…
(02:05:19) P/1 - Por ser querida.
R1 - …por ser querida.
(02:05:21) P/1 - Então, em meu nome, em nome do Levi, do Ally, do Vitor, do Museu da Pessoa, do Instituto Rios e Ruas, eu agradeço muito a vocês por terem compartilhado um pouco sobre o Imargem e você também sobre sua história de vida. Muito obrigada. Muito bom esse momento. Muito obrigada mesmo.
R1 - Obrigado, vocês. É isso aí.
R2 - Obrigado também.
FIM DA ENTREVISTA
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