Por trinta anos, eu guardei uma parte da minha vida trancada no silêncio. Sofri um abuso na infância e, durante toda a minha juventude e o início da vida adulta, nunca tinha conseguido verbalizar, falar ou dividir essa dor com absolutamente ninguém. O peso de carregar esse segredo sozinho era imenso e, como eu nunca tinha passado por um psicólogo para conversar sobre o assunto, a única válvula de escape que encontrei foi a arte. Um dia, coloquei tudo o que sentia em um poema. Era um texto íntimo, escrito para mim mesmo, que eu acreditava que nunca mostraria para mais ninguém.
A grande virada aconteceu quando decidi frequentar um sarau. Tomado por uma coragem que nem eu mesmo sabia de onde vinha, decidi que era hora de levar aquele papel e ler o meu poema em voz alta. Subir naquele espaço e recitar aquelas linhas foi a primeira vez na vida em que consegui expor o que havia acontecido. Verbalizar o trauma depois de três décadas foi um salto no escuro, mas o que aconteceu em seguida mudou completamente a minha percepção sobre o mundo e sobre as pessoas.
O medo do julgamento deu lugar a uma onda indescritível de afeto e empatia. Vi as pessoas se emocionando na minha frente, o ambiente foi tomado por aplausos e, assim que terminei, muitos vieram me abraçar e conversar comigo. No meio daquele público, uma psicóloga e psicanalista se aproximou e, ao saber que eu jamais havia tido apoio terapêutico para lidar com aquilo, ofereceu-se generosamente para me ajudar.
Aquele sarau não foi apenas um evento cultural; foi o dia em que eu recuperei a minha dignidade e entendi, na pele, o verdadeiro significado dos direitos humanos. Percebi que eles não são apenas conceitos abstratos escritos em tratados distantes. Os direitos humanos ganham vida quando a sociedade se recusa a silenciar a dor, quando ela acolhe uma criança que foi violada e que não deveria ter sido, e quando transforma o espaço coletivo em um lugar de escuta, saúde e...
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Por trinta anos, eu guardei uma parte da minha vida trancada no silêncio. Sofri um abuso na infância e, durante toda a minha juventude e o início da vida adulta, nunca tinha conseguido verbalizar, falar ou dividir essa dor com absolutamente ninguém. O peso de carregar esse segredo sozinho era imenso e, como eu nunca tinha passado por um psicólogo para conversar sobre o assunto, a única válvula de escape que encontrei foi a arte. Um dia, coloquei tudo o que sentia em um poema. Era um texto íntimo, escrito para mim mesmo, que eu acreditava que nunca mostraria para mais ninguém.
A grande virada aconteceu quando decidi frequentar um sarau. Tomado por uma coragem que nem eu mesmo sabia de onde vinha, decidi que era hora de levar aquele papel e ler o meu poema em voz alta. Subir naquele espaço e recitar aquelas linhas foi a primeira vez na vida em que consegui expor o que havia acontecido. Verbalizar o trauma depois de três décadas foi um salto no escuro, mas o que aconteceu em seguida mudou completamente a minha percepção sobre o mundo e sobre as pessoas.
O medo do julgamento deu lugar a uma onda indescritível de afeto e empatia. Vi as pessoas se emocionando na minha frente, o ambiente foi tomado por aplausos e, assim que terminei, muitos vieram me abraçar e conversar comigo. No meio daquele público, uma psicóloga e psicanalista se aproximou e, ao saber que eu jamais havia tido apoio terapêutico para lidar com aquilo, ofereceu-se generosamente para me ajudar.
Aquele sarau não foi apenas um evento cultural; foi o dia em que eu recuperei a minha dignidade e entendi, na pele, o verdadeiro significado dos direitos humanos. Percebi que eles não são apenas conceitos abstratos escritos em tratados distantes. Os direitos humanos ganham vida quando a sociedade se recusa a silenciar a dor, quando ela acolhe uma criança que foi violada e que não deveria ter sido, e quando transforma o espaço coletivo em um lugar de escuta, saúde e proteção. A poesia me deu a voz, mas foi o acolhimento humano que me deu o direito de recomeçar.
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