Meu nome é Cristina e vou contar a história de Aurora e Jorge. Trata-se de uma narrativa que não me pertence. Estas duas pessoas são os pais do meu ex-marido e avôs da minha filha, no entanto, causa-me estranheza chama-los de meus sogros, pois na realidade nunca o foram, apesar de por uma questão jurídica acabarem o sendo, mas nunca os nomeei assim, sempre foram os avós da minha filha, os pais do meu ex-marido ou simplesmente Dona Aurora e Senhor Jorge, afinal, eu nunca os conheci. É uma história de amor feita de cartas, e através delas encontramos atenção, carinho, companheirismo, conversas do dia a dia e muito sofrimento; tudo o que sei destas duas pessoas tão apaixonadas uma pela outra foram através das cartas que li - cartas que remontam o século passado, início dos anos 40 e vão até finais dos anos 60 -, e que me deram a conhecer quem eram Jorge e Aurora, e o profundo amor que os ligavam.
Aurora Campos Rodrigues Costa era dois anos mais velha, (nasceu em 31 de Março de 1920 na Freguesia de Fafe) que Jorge Ferreira Pinto da Costa (nascido na Freguesia de Vitória no Porto, em 02 de Novembro de 1922) e já andava na Faculdade de Farmácia. Jorge, mais jovem, acabará de entrar na Faculdade de Medicina. Não sei ao certo como se conheceram, pois as cartas não esclarecem este momento preciso e, a memória fragmentada do pai da minha filha também não ajudou (estar na Guerra das Colônias em África, ter perdido os pais de forma repentina e a profunda depressão que o acompanhou por anos, associada a forte medicação, deixaram marcas profundas de esquecimento e tristeza).
Sei que ela era de Fafe, ele apesar de ter nascido no Porto, tinha os pais e irmãos vivendo em Lisboa e estudavam na Universidade no Porto. A troca de cartas me chamou a atenção porque apesar de se verem todos os dias, havia a necessidade de trocarem correspondência, de estarem presentes na vida um do outro. Ele escrevia mais do que ela. As férias de verão,...
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Meu nome é Cristina e vou contar a história de Aurora e Jorge. Trata-se de uma narrativa que não me pertence. Estas duas pessoas são os pais do meu ex-marido e avôs da minha filha, no entanto, causa-me estranheza chama-los de meus sogros, pois na realidade nunca o foram, apesar de por uma questão jurídica acabarem o sendo, mas nunca os nomeei assim, sempre foram os avós da minha filha, os pais do meu ex-marido ou simplesmente Dona Aurora e Senhor Jorge, afinal, eu nunca os conheci. É uma história de amor feita de cartas, e através delas encontramos atenção, carinho, companheirismo, conversas do dia a dia e muito sofrimento; tudo o que sei destas duas pessoas tão apaixonadas uma pela outra foram através das cartas que li - cartas que remontam o século passado, início dos anos 40 e vão até finais dos anos 60 -, e que me deram a conhecer quem eram Jorge e Aurora, e o profundo amor que os ligavam.
Aurora Campos Rodrigues Costa era dois anos mais velha, (nasceu em 31 de Março de 1920 na Freguesia de Fafe) que Jorge Ferreira Pinto da Costa (nascido na Freguesia de Vitória no Porto, em 02 de Novembro de 1922) e já andava na Faculdade de Farmácia. Jorge, mais jovem, acabará de entrar na Faculdade de Medicina. Não sei ao certo como se conheceram, pois as cartas não esclarecem este momento preciso e, a memória fragmentada do pai da minha filha também não ajudou (estar na Guerra das Colônias em África, ter perdido os pais de forma repentina e a profunda depressão que o acompanhou por anos, associada a forte medicação, deixaram marcas profundas de esquecimento e tristeza).
Sei que ela era de Fafe, ele apesar de ter nascido no Porto, tinha os pais e irmãos vivendo em Lisboa e estudavam na Universidade no Porto. A troca de cartas me chamou a atenção porque apesar de se verem todos os dias, havia a necessidade de trocarem correspondência, de estarem presentes na vida um do outro. Ele escrevia mais do que ela. As férias de verão, de Páscoa ou de Natal eram permeadas de muitas missivas, muitas vezes duas vezes ao dia e contava pormenores deliciosos e com o evoluir da correspondência, acompanhávamos o crescimento daquela relação, de uma forma de escrever mais séria, para uma narrativa mais doce, com palavras de carinho e demonstração de afeto:
“Porto, 18 de Abril de 1943
Aurora,
(...) Tu também ocupa grande parte do meu tempo, porque não te posso esquecer nem um momento. Estava tão habituado a dar quase todos os dias uma voltinha contigo, que me fazes falta. Depois de amanhã devem estar prontas as fotografias, e logo que te escreva, mando-as; ao menos vejo a tua imagem, mesmo do dia em que te foste embora. De resto, não a esqueci. A minha consolação é que também tu te lembras de mim não, Aurora?”
E o que diziam estas cartas? Falavam de tudo e de nada. Das notas e da necessidade de estudar mais:
“ Porto, 03 de Outubro de 1941.
Aurora,
Cá recebi a tua carta. Fiz ontem à tarde exame prático de Histologia, que me correu muito bem. Disse-lhe o que ele quis, a única coisa em que me enganei, emendei e comecei-lhe a falar no assunto para ele ver que eu sabia. Ficou com cara de quem estava satisfeito, mas a verdade é que deu má informação de mim. Desisti de compreender estas coisas. No fim do exame de dei 20. ao empregado; ficou de me dizer a informação no dia seguinte (hoje). Hoje de manhã lá fui, e ele mostrou-me o papelinho. Fiquei espantado quando vi que dos 14 que entraram, só 2 tinham más informações e eu era um deles. Uma colega que entrou, por exemplo, estendeu-se ?, e tinha boa informação. Não percebo. Ele aprovou à teórica por descargo de consciência e mais nada. Entro na terça-feira.
As matrículas já foram abertas: tens de te matricular dos dias 11 a 14. As minhas são na mesma altura; lá vou eu matricular-me outra vez no 1º ano. Ainda não sabes quando vens? Estou cheio de saudades tuas, morto que venhas. (...)”
(...) das saudades que sentiam um do outro devido à distância:
“Porto, 06 de Outubro de 1941
Aurora:
Cá recebi a tua carta. Fiquei bastante satisfeito por saber em que dia vinhas; andava sempre a pensar nisso, será hoje, será amanhã.
(...) Tenho-me lembrado imensas vezes de ti; cheio de saudades.
Se só vieres na segunda, escreve-me, sim?
Muitas, muitas saudades do teu
Jorge”
(...) e os períodos de interrupção de aulas, de doenças, dos amigos:
“Porto, 18 de Abril de 1943.
Aurora,
Cá recebi a tua carta, que eu esperava com tantas saudades. Fiquei muito satisfeito por saber que a viagem te correu bem e estás boa; e muito satisfeito por descansares depois do almoço. Eu já hoje descansei, deitado, no fim do almoço; e se ontem o não fiz é porque passava por cá o Feijó, mas pouquíssimo tempo estive com ele”
(...), do custo dos livros de medicina, da vida difícil numa cidade onde o frio era intenso e chovia muito, os encontros nos cafés para estudarem, das idas ao cinema, que Jorge muito apreciava:
“Porto, 09 de Outubro de 1941.
Ontem à noite fui ao cinema, pela 1ª vez desde que cheguei. Tive a sorte de ver um filme bastante bom, como não havia visto há muito tempo. Tenho lido os livros que arranjei para ti. Tenho 5 mas só três é que são bons; tenho a certeza de que gostarás; hei-de arranjar-te mais. “
Dos pequenos detalhes que compunham o dia a dia, as cartas fazem um retrato extremamente fiel de como era a vida dessas duas pessoas ao longo dos anos. Os idílicos anos da faculdade terminaram e através das cartas percebemos que Jorge e Aurora decidem formar uma família. Casam-se. Mas Jorge, um médico em início de carreira não consegue montar seu tão desejado consultório e vê-se obrigado a deslocar-se para outra cidade para fazer residência em um hospital e deixa Aurora e um bebê que já vinha a caminho, sozinhos no Porto. Não sabíamos se era menino ou menina, estávamos em 1947 e não havia ecografia, apenas a ternura das palavras, perguntando como estava se comportando o menino, que ela sentia-se cansada, mas estava se alimentando e visitando o médico com regularidade... O menino nasceu: o pai da minha filha.
O dinheiro nunca foi abundante. O continente europeu tinha atravessado um período de guerra, apesar do país não ter participado dela concretamente, eram visíveis as consequências: muita fome, desemprego e insegurança, estavam vivendo um período turbulento com uma ditadura à porta. Mais uma vez é através destas cartas que sentimos a aflição deste casal, com um menino já nos braços e outro a caminho, Jorge decide tentar a sorte em África e parte sozinho, para se estabelecer e depois mandar vir a família: Aurora e os dois meninos, que não fazem diferença de dois anos entre os dois. Partem para o continente africano, mais propriamente Moçambique, Nampula, vão viver no meio do mato, onde um posto médico foi colocado. Jorge era o único médico, e a família eram os únicos brancos em muitos quilômetros. Mas foram felizes. Este é um período onde as cartas sofrem uma paragem. A família estava finalmente reunida.
Infelizmente nem sempre as pessoas bafejadas com os corações mais puros têm a sorte de viverem plenamente a sua vida. Já retornados de África, Aurora, descobre que tem um câncer nos seios, nos dois. Tira-os. A medicina não era tão avançada naquela época e ela sofreu tratamentos horríveis: como andar com um colete de ferro grudado ao corpo, sofreu choques elétricos e até uma lobotomia. Jorge, médico neurologista, nunca se conformou de não ter previsto a doença da mulher (como se isso fosse possível), de não ter percebido os primeiros sinais e se culpava por isso. Mas a história ainda não estava terminada: também a Jorge é diagnosticado um câncer, de pulmão, em estado muito avançado.
Quis o destino que apesar de todo o sofrimento pelo qual passou, Aurora tivesse forças e cuidasse do marido em todo o período de sua doença, sobrevivendo ao marido. Agora outras cartas iriam ilustrar todo este período: as cartas que Aurora trocava com o filho mais velho, longe, na Guerra Colonial, em África, Moçambique. Claro que nunca revelava os momentos dolorosos e de tristeza, tentando dar animo ao filho, que por si só já vivia um pesadelo: ver pessoas morrerem todos os dias ao seu redor; ao mesmo tempo, as pessoas mais queridas de sua vida, pouco a pouco também perdiam a vida. Foram dois anos de sofrimento e em 13 de Julho de 1973, Jorge faleceu. Em 26 de Outubro do mesmo ano, partia Aurora. Apenas pouco mais de dois meses os separam nesta jornada de amor. Estavam mais uma vez unidos.
De todo o conjunto de mais de 500 cartas, todas delicadamente guardadas em dois bonitos pacotes embrulhados em um papel de presente rosa às flores e amarrados por fitas vermelhas, encontramos as cartas quase que intocáveis, pois estavam devidamente dobradas dentro dos envelopes e cada ano está embrulhado em separado em papel kraft, fazendo uma trajetória do relacionamento deste casal que aprendi a amar e a conhecer lendo suas cartas. Por vezes me senti uma invasora: como posso estar a ler cartas de pessoas que não conheci? Que direito tenho eu de invadir a intimidade destas pessoas? Por outro lado, senti que cumpria um papel, o papel de transmitir coisas boas à minha filha que nunca teria o prazer de conhecer pessoas tão especiais, generosas e que se amavam e se respeitavam tão profundamente. Apenas através destas cartas poderia criar uma narrativa e dados históricos de vida para Jorge e Aurora, preservando suas memórias para as gerações vindouras.
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