Carlos Nagib Khalil, nasci no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1952.
Eu me graduei na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão. Após a minha graduação, fiz mestrado e, quando estava concluindo o mestrado, prestei concurso para o Centro de Pesquisas da Petrobras. Passei e fiquei aguardando a chamada. Em pouco tempo, fui chamado pelo Cenpes, onde iniciei o meu trabalho.
Eu praticamente sempre trabalhei na área de Exploração & Produção de petróleo, pela minha formação acadêmica, ligada à área de aditivos químicos, principalmente os aditivos poliméricos. Eu trabalhei, inicialmente, na área de completação de poços de petróleo. A completação é a preparação do poço para a produção. Posteriormente, trabalhei um pouco com engenharia de reservatório, mas voltado para os danos de formação, incrustações, parafinações. Recentemente, o nosso setor foi reestruturado e, no momento, estou trabalhando com escoamento de petróleo, mais especificamente com escoamento de petróleo em águas profundas, onde os desafios tecnológicos são bastante grandes e eu tenho atuado nessa área com bastante intensidade.
A atividade de pesquisa, voltada para a exploração e produção, tem que ter um suporte científico, através de ensaios de laboratório, pesquisa, simulações, que levam a gente a formatar um modelo de desenvolvimento. Como eu tinha dito, por exemplo, produzir petróleo em águas profundas é um desafio muito grande, é o que a gente chama “desafio do próprio ambiente”: são águas profundas, condições de temperatura e pressão bastante elevada, correntezas etc. Então, a gente observa os fenômenos que ocorrem durante o escoamento do petróleo nesse cenário,e transporta esses fenômenos para as condições de laboratório. Uma vez entendidos esses fenômenos, a gente busca soluções. Geralmente, esses fenômenos causam problemas para a produção. Um exemplo típico: quando a gente produz petróleo em...
Continuar leituraCarlos Nagib Khalil, nasci no Rio de Janeiro, em 11 de março de 1952.
Eu me graduei na Universidade Federal do Rio de Janeiro, na Ilha do Fundão. Após a minha graduação, fiz mestrado e, quando estava concluindo o mestrado, prestei concurso para o Centro de Pesquisas da Petrobras. Passei e fiquei aguardando a chamada. Em pouco tempo, fui chamado pelo Cenpes, onde iniciei o meu trabalho.
Eu praticamente sempre trabalhei na área de Exploração & Produção de petróleo, pela minha formação acadêmica, ligada à área de aditivos químicos, principalmente os aditivos poliméricos. Eu trabalhei, inicialmente, na área de completação de poços de petróleo. A completação é a preparação do poço para a produção. Posteriormente, trabalhei um pouco com engenharia de reservatório, mas voltado para os danos de formação, incrustações, parafinações. Recentemente, o nosso setor foi reestruturado e, no momento, estou trabalhando com escoamento de petróleo, mais especificamente com escoamento de petróleo em águas profundas, onde os desafios tecnológicos são bastante grandes e eu tenho atuado nessa área com bastante intensidade.
A atividade de pesquisa, voltada para a exploração e produção, tem que ter um suporte científico, através de ensaios de laboratório, pesquisa, simulações, que levam a gente a formatar um modelo de desenvolvimento. Como eu tinha dito, por exemplo, produzir petróleo em águas profundas é um desafio muito grande, é o que a gente chama “desafio do próprio ambiente”: são águas profundas, condições de temperatura e pressão bastante elevada, correntezas etc. Então, a gente observa os fenômenos que ocorrem durante o escoamento do petróleo nesse cenário,e transporta esses fenômenos para as condições de laboratório. Uma vez entendidos esses fenômenos, a gente busca soluções. Geralmente, esses fenômenos causam problemas para a produção. Um exemplo típico: quando a gente produz petróleo em temperaturas muito baixas, há um fenômeno chamado de parafinação, que corresponde à saída de solução dos compostos parafínicos do petróleo e esses compostos vão se depositando nas paredes do duto; é o equivalente à arteriosclerose no corpo humano, que é a deposição de colesterol na parede das artérias. No oleoduto, acontecem as deposições de parafinas, que reduzem o diâmetro do duto. Então, basicamente, a metodologia que a gente faz é entender como isso acontece no fundo do mar, dentro de um duto. Procuramos entender como isso pode ser evitado ou como pode ser corrigido e a partir daí buscar soluções. Essas soluções são trabalhadas, são ajustadas e, num certo momento, a gente leva essa solução novamente para o campo e começam os ensaios reais. Graças a Deus, eu fiz algumas incursões nessa linha e nós tivemos bons resultados, desenvolvemos uma tecnologia que hoje é consagrada no Brasil. Algumas outras indústrias de petróleo têm buscado essa solução que nós desenvolvemos. Ela é patenteada e, no momento, tem uma aplicação muito nobre, que é a chamada “garantia de escoamento do petróleo em águas profundas”.
Sistema Gerador de Nitrogênio Por volta de 1989, a gente estava trabalhando ainda com um certo grau de novidade, observando todos os fenômenos que aconteciam em águas profundas. À medida que os anos foram passando, a gente foi adquirindo essa experiência e transferindo para as equipes de mar nas plataformas, e o processo foi um pouquinho mais consolidado. Então, é basicamente esse tema. Eu não vou abordar todos, porque acho que cada pesquisador têm uma temática. Sobre a minha temática, que é parafinação, a gente trabalhava muito observando como essa parafina se depositava e como a gente removia. Então, foi essa tecnologia que nós desenvolvemos, chamada de tecnologia SGN - Sistema Gerador de Nitrogênio –, em que a gente remove o depósito formado. Mas, obviamente, a melhor maneira de controlar um processo como esse é prevenir e não necessariamente corrigir, ou seja, os métodos preventivos são mais interessantes do ponto de vista tecnológico do que os métodos corretivos, porque os métodos corretivos são paliativos, você deixa o problema acontecer para remover. Hoje, a tecnologia de remoção, de correção ou de remediação desses problemas está mais ou menos consolidada, mas está sendo substituída, gradualmente, por tecnologias de prevenção. Então, até mesmo na linha de parafina, que é o nosso tema, a gente está fazendo vários estudos de prevenção à deposição de parafina, ou seja, a gente adiciona um aditivo químico. Geralmente, esse aditivo químico é de natureza polimérica e é injetado antes do óleo começar a sofrer esse problema de parafinação. Então, ao invés de sofrer isso, ele tem um preventor e esse fenômeno deixa de ocorrer ou ocorre de maneira, vamos dizer, controlada, não danosa à produção. Eu diria que, nesse tema, a gente está trabalhando de modo preventivo e é o que evolui desde a identificação do problema: passamos pelos métodos corretivos e hoje nós temos os métodos preventivos. E, paralelamente, trabalhamos com os métodos preditivos, ou seja, são aqueles métodos onde a gente prevê se o fenômeno vai ocorrer ou não, independente da solução estabelecida. Eu acho que é uma evolução e a pesquisa ganha maturidade. A gente aprende como é o problema, como corrigir, depois como prevenir e como predizer. Acredito que seja o caminho certo.
O Programa de Capacitação em Águas Profundas tem o objetivo de tornar a Empresa competente e abastecida de tecnologia, para atender à demanda da produção em águas profundas. Esse tema é perfeitamente inerente ao conteúdo do programa, porque, se você não dominar esse fenômenos, não vai ter a capacitação ou a produção em águas profundas. Eu diria que esse sistema está intimamente ligado ao programa do Procap. Há apenas a evolução, a formatação, a abordagem, mas o objetivo final é produção em águas profundas, ou seja, o Procap.
A gente corre o risco de comentar um e esquecer outro projeto, pois eu não tenho a visão tão gerencial de todos os problemas, mas, certamente, destacaria os projetos que estão associados às chamadas barreiras de produtividade. As barreiras são todo e qualquer processo que levam à redução do escoamento do petróleo. Assim como eu tenho estudado o problema de parafinação, existem problemas de incrustação, existem problemas de formação de hidrato, que é uma coisa muito recente, problemas de formação de emulsão, formação de borra. Eu diria que os projetos que visam ao controle dessas barreiras sólidas, que eu citei, têm uma relevância muito grande no contexto do Procap. Logicamente que as questões de instalação e a questão de segurança operacional são importantes, mas essas que dizem respeito ao controle das barreiras são imprescindíveis. Você pode tornar um campo de petróleo inviável à sua produção se não tiver o controle disso. Só para remontar aos anos de 1989, 1990, o Campo de Albacora correu o risco de não ser explorado de maneira comercial ou eficiente por conta de uma dessas barreiras, que era o problema de parafina. E foi nesse momento que a gente teve o melhor sucesso fazendo as intervenções e controlando essa parafina. Se essa parafina não fosse controlada, praticamente, a gente poderia ter que abandonar a produção de um campo gigante, como é o Campo de Albacora. Hoje, o processo está totalmente dominado. Então, a relevância de um projeto está no que ele traz de benefício para o próprio negócio da Empresa. O negócio da Empresa no E&P é produção e exploração em águas profundas, onde é produzida cerca de 80% da produção nacional. Então, ter atenção a esses aspectos é vital para a Empresa.
Operação de limpeza de oleoduto no fundo do mar Eu preferia até destacar um momento que marcou a minha vida: foi quando eu embarquei – o pessoal usa a expressão “embarquei num navio”, como se fosse “embarquei numa furada” – num navio chamado P.P.Moraes. O centro do problema da produção de petróleo era exatamente nesse navio, que estava instalado no Campo de Albacora. Foi a primeira vez que nós fizemos uma operação de limpeza de oleoduto no fundo do mar, a uns 350 metros, mais ou menos, de profundidade. O mar estava com uma agitação muito violenta e seria a primeira vez que faríamos uma operação dessas, que era delicada. Nós preparamos os líquidos, a química que ia envolver a remoção dessas parafinas e injetamos num ponto do oleoduto. Levantamos o oleoduto até a superfície e injetamos um produto químico. Uma hora e meia depois do início do processo, nos certificamos que a resposta estava sendo dada no navio, que estava começando a aumentar a produção. Isso, para mim, realmente foi um marco. Nunca, em lugar nenhum no mundo, tinha sido feita uma operação com esses reagentes, numa condição de mar tão adversa. Fomos os pioneiros. E eu tive a informação do engenheiro de produção do navio sobre o aumento da produção. Quando se faz a remoção dessas barreias, você resgata a produção original do poço e isso foi sinalizado muito rapidamente. E a gente entendeu que tudo aquilo que tínhamos feito no laboratório, tudo aquilo que planejamos, de uma certa maneira, funcionou. Lógico que, dali por diante, a gente fez muitos ajustes, mas aquilo foi um marco e o sucesso nos garantiu a continuidade da pesquisa.
Por incrível que pareça, apesar de estar lotado numa unidade de Exploração & Produção, estou fazendo um projeto muito interessante que remonta também um pouco ao tema da minha tese de mestrado, que é a produção de um bio-combustível a partir de uma oleoginosa brasileira, que no caso é a mamona. Então, é muito interessante a gente estar trabalhando ao mesmo tempo com a produção de petróleo, que é matéria-prima para produção dos combustíveis fósseis, e buscar, alternativamente, fontes renováveis, que podem ser a soja, o girassol e, mais especificamente, como estou estudando, a mamona. A gente quer produzir um produto para substituir parcialmente um diesel de petróleo. A gente está começando a aprender a idéia de conviver por mais tempo com o petróleo; quer dizer, se a gente continuar a produzir e consumir petróleo na velocidade em que estamos, a tendência do esgotamento da indústria de petróleo é muito mais premente. Mas se a gente souber conviver com a produção de combustível fóssil e com a produção de combustíveis renováveis, e o Brasil tem esse potencial imenso, eu acho que a gente vai perdurar mais a indústria de petróleo e sacrificar um pouco menos o ambiente. A gente sabe bem que a queima de combustíveis fósseis tem levado à elevação da concentração de gás carbônico na nossa atmosfera e isso reflete no chamado “efeito estufa”, que, por sua vez, eleva a temperatura global da terra e eleva o nível do mar, além de outras variações climáticas no nosso planeta. A indústria de petróleo tem que ter um pouquinho, ou melhor, tem que ter total responsabilidade em relação ao impacto da atividade de petróleo, não somente de exploração, mas também de refino e de uso dos seus produtos, derivados. A Petrobras está muito madura nisso. Ela abraçou fortemente as energias renováveis: a biomassa, a energia eólica, a energia solar. E isso é o nosso futuro. Eu acho que a perpetuação da nossa Empresa é se transformar numa empresa de energia e não necessariamente ser apenas uma empresa de petróleo. A Empresa de petróleo é o arcabouço, mas daqui para frente a gente vai ter alguns periféricos renováveis.
A demanda dos trabalhos universitários, com as instituições de ensino e de pesquisa, depende muito daquilo que a Petrobras carece. Os convênios com as universidades têm que preencher aquelas lacunas em que a Petrobras está mais carente, não é porque não haja interesse ou porque se trata de um trabalho mais acadêmico. Eu acho que o grande papel da universidade, sem perder o objetivo principal, é o ensino. E a gente também não pode descaracterizar uma universidade para servir unicamente como prestadora de serviço. Ela tem que ser uma instituição de ensino, naquilo que ela tem maior competência, mas pode acrescentar através de convênios com a Petrobras e com outras grandes empresas e atender a essa demanda tecnológica. Particularmente, eu tenho um convívio muito interessante com as universidades. Eu também sou professor universitário – dei aula na UFRJ. Mas eu tenho receio de que a universidade sofra uma descaracterização em busca apenas de prestação de serviço. Eu dou aula na universidade como professor convidado e tenho algumas parcerias com alguns institutos. Sempre tenho o cuidado de que aquilo que eles podem atender é especificamente o que a Petrobras necessita, deseja realizar ou que realmente a competência maior está na universidade. A gente não pode fazer uma inversão desses valores. Eu acho que o Centro de Pesquisas da Petrobras tem que ter um marco, tem que ter uma direção. Existem universidades que estão no entorno, por um acaso, aqui do Centro de Pesquisa. Geograficamente, nós temos o Centro de Pesquisa e temos um entorno, que são o Fundão, a Universidade Rural e a Universidade Federal Fluminense, que podem nos abastecer de tecnologia ou de metodologia, mas elas realmente têm a sua competência já consolidada, não é para fazer pioneirismo. Inclusive, eu dou uma cadeira de mestrado na UFRJ que equivale a polímero na indústria de petróleo. A gente leva para a universidade aquilo que uma indústria de petróleo necessita no tema polímero e o curso de pós-graduação em polímeros começa a fazer uma linha de pesquisa dentro daquela demanda tecnológica. Por incrível que pareça, eu me identifico muito com o tema de polímero, porque foi a minha formação na pós-graduação. E há uma demanda muito grande a respeito de aditivos de natureza polimérica para as atividades da indústria de petróleo. Então, a gente procura fazer esse link, essa ligação com a universidade. A cadeira que eu ministro, anualmente, ajuda um pouco nessa linguagem, nesse entendimento de onde esse polímero entra no processo. Essa aproximação é fundamental, não somente por meio de convênios, mas até no fato de ministrar aulas com a visão da indústria de petróleo e com a competência da universidade naquele tema. Isso é que vai fazer o meio de campo. Eu acho que está sendo muito proveitoso. Nós temos pessoas já formadas, especificamente, na área de polímero. Essa parceria está atendendo espetacularmente bem à demanda da Petrobras no que diz respeito a aditivos como, por exemplo, aquilo que eu comentei sobre o controle da parafina por método preventivo. Um dos métodos preventivos é adicionar polímeros, que evitam que a parafina se deposite, e isso só vai ser entendido no momento em que quem trabalha com polímero entenda como é o fenômeno de parafinação. Essa aproximação pode dar bons resultados também e não apenas convênios isolados: “Oh, toma, faz isso.” Eu acho que tem que ter uma aproximação no dia-a-dia. A rotina tem que ser compartilhada, são parcerias. Não é um balcão de tecnologia: “Toma isso, entrega isso.” Esse dia-a-dia na pesquisa é fundamental tanto para a universidade quanto para uma instituição, uma empresa de petróleo, como a nossa. É perigoso dizer que está 100%, mas eu diria, até onde conheço, até onde tenho participado, que essa parceria está muito bem. Logicamente que alguns ajustes são necessários, mas está indo bem mesmo, melhor do que em qualquer outro momento.
Eu estava no meio de um ensaio quando recebi a ligação de vocês, pedindo para dar essa entrevista. E eu me senti um pouco um bem patrimonial da Empresa. Eu falei: ”Pôxa vida, vou fazer parte da memória da Petrobras.” Isso me emocionou. Eu larguei tudo para vir, porque são 24 anos de Empresa, 24 anos de Cenpes. Eu já percorri boa parte da Petrobras, mesmo trabalhando aqui; embarquei muito, fui em refinaria, fui na floresta Amazônica, fiz operações fora do Brasil, me capacitei em algumas áreas também por conta da Petrobras. Eu realmente me sinto parte da Empresa. Estar aqui falando um pouco da minha experiência foi um presente, sem dúvida.
A Petrobras é uma empresa ímpar, que te dá oportunidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Tenho ministrado aulas na universidade, em pequenos intervalos do meu tempo. Pude embarcar numa plataforma, ir para uma refinaria, ir para um terminal e ainda fazer desenvolver aquele trabalho dentro de um laboratório e transferir esse conhecimento para o operacional. E isso te dá uma experiência profissional muito grande, porque não cabe a um pesquisador ficar apenas num laboratório “engenheirando” ou criando modelos se não colocar aquilo para funcionar na prática. Eu sempre segui essa receita. Eu entrei na Petrobras em 1980 e sempre fiz esse papel de, terminado o trabalho no laboratório, correr para o campo e aplicar. E isso me deu muita experiência. Eu vou não somente conferir, mas realizar a operação. Só que tem um grande problema: quando a gente volta, trazemos outro pedido de solução para um outro problema. Mas isso faz a gente crescer. A gente chega numa plataforma trazendo a solução para um problema, o gerente entende que você foi eficiente naquilo e, de repente, já te liga e pede uma outra coisa parecida ou próxima àquele assunto. Você cresce muito e cria segmentos dentro da própria Empresa. Eu acho que isso é um crescimento profissional muito grande, muito bacana.
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