Chegar aos 80 anos (15/11/2024) e decidir escrever um livro já é, por si só, um desafio ousado. Mas essa não é uma obra comum. Trata-se de uma autobiografia contada em crônicas bem humoradas, nas quais retrato momentos marcantes da minha vida com aquele olhar nostálgico, por vezes crítico, e sempre carregado de humor E é com esse olhar que quero mostrar como a vida pode ser leve mesmo em suas situações mais inusitadas. E me atrevo a perguntar aos leitores " quem não passou por momentos traumáticos e que depois de passado não se sentiram satisfeitos por estarem mais vivos do que nunca."
por si só, um desafio ousado. Mas essa não é uma obra comum. Trata-se de uma autobiografia contada em crônicas bem humoradas, nas quais retrato momentos marcantes da minha vida com aquele olhar nostálgico, por vezes crítico, e sempre carregado de humor E é com esse olhar que quero mostrar como a vida pode ser leve mesmo em suas situações mais inusitadas. E me atrevo a perguntar aos leitores " quem não passou por momentos traumáticos e que depois de passado não se sentiram satisfeitos por estarem mais vivos do que nunca."
Para garantir qualidade e autenticidade solicitei que o CHAT GPT.4 fizesse críticas literárias e algumas sobre o autor sempre após cada crônica fornecendo uma análise objetiva e construtiva.
Portanto caro leitor acompanhe-me nesta viagem de risos, lembranças e aprendizados E, quem sabe, você também não se sinta incentivado a colocar suas histórias no papel? Teus entes queridos terão para sempre lembranças.
Afinal, nunca é tarde para começar a escrever.
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AUTOBIOGRAFIA EM CRÔNICAS BEM HUMORADAS
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PREÂMBULO
Este livro de crônicas é um reflexo de minha trajetória, vivida com humor e reflexão, como uma maneira de compartilhar...
Continuar leituraChegar aos 80 anos (15/11/2024) e decidir escrever um livro já é, por si só, um desafio ousado. Mas essa não é uma obra comum. Trata-se de uma autobiografia contada em crônicas bem humoradas, nas quais retrato momentos marcantes da minha vida com aquele olhar nostálgico, por vezes crítico, e sempre carregado de humor E é com esse olhar que quero mostrar como a vida pode ser leve mesmo em suas situações mais inusitadas. E me atrevo a perguntar aos leitores " quem não passou por momentos traumáticos e que depois de passado não se sentiram satisfeitos por estarem mais vivos do que nunca."
por si só, um desafio ousado. Mas essa não é uma obra comum. Trata-se de uma autobiografia contada em crônicas bem humoradas, nas quais retrato momentos marcantes da minha vida com aquele olhar nostálgico, por vezes crítico, e sempre carregado de humor E é com esse olhar que quero mostrar como a vida pode ser leve mesmo em suas situações mais inusitadas. E me atrevo a perguntar aos leitores " quem não passou por momentos traumáticos e que depois de passado não se sentiram satisfeitos por estarem mais vivos do que nunca."
Para garantir qualidade e autenticidade solicitei que o CHAT GPT.4 fizesse críticas literárias e algumas sobre o autor sempre após cada crônica fornecendo uma análise objetiva e construtiva.
Portanto caro leitor acompanhe-me nesta viagem de risos, lembranças e aprendizados E, quem sabe, você também não se sinta incentivado a colocar suas histórias no papel? Teus entes queridos terão para sempre lembranças.
Afinal, nunca é tarde para começar a escrever.
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AUTOBIOGRAFIA EM CRÔNICAS BEM HUMORADAS
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PREÂMBULO
Este livro de crônicas é um reflexo de minha trajetória, vivida com humor e reflexão, como uma maneira de compartilhar experiências e pensamentos com o leitor. Cada crônica aqui apresentada é acompanhada de uma crítica literária, realizada pelo Chat GPT, uma ferramenta inovadora que tem me auxiliado não apenas a aprimorar meus textos, mas a enriquecer a forma como entendo a escrita.
Essa crítica literária não é uma mera análise técnica, mas uma interação criativa que, além de corrigir e ajustar os detalhes formais, oferece novas perspectivas e provocações sobre a estrutura e o conteúdo das crônicas. Esse processo, que eu considero uma parceria única, faz parte da proposta deste livro: um trabalho dinâmico que une a autenticidade da minha escrita com o olhar crítico e inovador da inteligência artificial.
Assim, ao final de cada crônica, convido o leitor a explorar não apenas as palavras que escrevi, mas também a reflexão que surge a partir da análise feita por essa ferramenta. Juntas, minhas crônicas e as críticas literárias formam um todo que enriquece a leitura, criando um diálogo entre o autor, o texto e a tecnologia.
Espero que essa experiência seja tão enriquecedora para vocês, leitores, quanto tem sido para mim.
SUMÁRIO
CHAMA O TUNICO......................................................008
MENINO BOBINHO CAÇANDO BORBOLETAS….014
MENINO BOBINHO FAZENDO PEIXINHOS……....019
0 BONDE DA MINHA INFÂNCIA................................025
MEU TERNO DE LINHO BRANCO..............................028
A CABRITINHA DENGOSA............................................034
ELA ERA UM DOCE..........................................................037
JAMAIS DIREI TEU NOME..............................................041
BAR DA PERDIÇÃO..........................................................044
ANIVERSÁRIO DE DOIS NASCIMENTOS...................050
NADA ACONTECE POR ACASO...................................054
REGRAS DO DESTINO.....................................................059
CAMINHE...........................................................................065
NA NOITE PASSADA SONHEI COM VOCÊ................071
CARÁTER QUESTÃO DE.................................................076
PORQUE USO RETICÊNCIA...........................................082
DESDE CRIANÇA SONHO ESTAR VOANDO….........086
DÉCADA DE 70 MINHA VIDA VIROU UM CAOS.…090
ACHAVA SER DONO DO MEU DESTINO....................096
MEU AMIGO ZÉ MÁRIO E O GRAMPEADOR…...….100
APÓS UM ANO O CHEIRO AINDA PERMANECE....102
JURO POR DEUS QUE NÃO JURO MAIS.....................106
MEU AMIGO ZÉ MÁRIO, FUSCÃO BEGE, A
ESCADA E O ABACATEIRO............................................112
PEQUENOS DELITOS SÃO PERDOADOS....................117
ZÉ MÁRIO NUMA TARDE DE DOMINGO..................121
O CANTO DOS PÁSSAROS.............................................128
ENCAMINHAMENTO AO PSICÓLOGO......................132
AINDA APAVORADO COM O PESADELO.................136
ANTIGAMENTE BEM ANTIGAMENTE.......................141
A ÚLTIMA DO SEU PAI....................................................149
TESOURA BARBA E CABELO.........................................153
QUE MISTÉRIO A CIGANA SABE SOBRE MIM?........158
O APITO DERRADEIRO DO TREM................................164
DOIS VOARAM PARA O CÉU INFINITO…………….170
EPÍLOGO………………………………………………….173
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CHAMA O TUNICO.
CHAMA O TUNICO Era assim. Sempre foi assim. Tonico era conhecido como o "faz-tudo" no jargão popular —TÚNICO é pau pra qualquer obra. Conheci-o em 1944, numa festa regada à bebida preferida dele: o famoso "Fogo Paulista". Esse trago era presença garantida em aniversários, nascimentos, batizados, crismas e até mesmo para celebrar o término de um telhado. Naqueles tempos, o batismo era frequente, já que todo mundo tinha uma penca de filhos. As famílias numerosas acumulavam irmãos, primos, amigos de primos e amigos de amigos. De um jeito ou de outro, todos viravam compadres. Os pais de Tunico eram imigrantes italianos. Vieram trabalhar nas fazendas de café no sul de Minas, mais precisamente em São Sebastião do Paraíso. Tunico era o terceiro filho. Na ordem dos mais velhos, vinha Evaristo, depois Iolanda, e então ele. Seguiam-se Laudelina, a Fiona, Alzira, e o caçula Olímpio. Como a história é sobre Tunico, vou me abster de falar dos outros, por enquanto. Tunico tinha a tarefa de ser carreador de boi, andando descalço ao lado da carroça. Ele me contou, uma vez, que o frio era tanto que nem sentia os espinhos nos pés. A mãe dele fazia escalda-pés para tirar os espinhos com uma agulha de costura. Só usou sapatos aos dezoito anos, quando se mudou para São Paulo, e o irmão Evaristo lhe presenteou com uma bota. Analfabeto, mas esperto, começou como ajudante de pedreiro, observando e perguntando como se lidava com prumos, ajudando a tirar o nível dos alicerces. Assim, foi aprendendo uma profissão. Mas ele não parou por aí: aprendeu a pintar, fazer telhados, encanamentos de água e esgoto. Até a parte elétrica ele acabou dominando. Chegou a ser capataz de obras, autorizado a recrutar trabalhadores. São Paulo vivia uma febre de construção. O centro, as periferias, a Mooca, o Ipiranga, Perdizes — era só escolher o melhor salário. Tunico começou a escrever cartas aos primos em Minas: "Venham para São Paulo, eu arrumo onde te encaixar." Cada parceiro que chegava era uma festa. Em pouco tempo, eles chamavam as famílias: pais, irmãos, avós, sogros. E assim as famílias Borgoni e Zambelli foram se estabelecendo na capital, São Caetano, São Bernardo e Santo André. "Chama o Tunico! Ele faz!" Tunico nunca deixou de ajudar os amigos. Mesmo que fosse só aos domingos, ele pegava as ferramentas, tomava o ônibus e ia. O sonho dele era estudar para ser "guarda-livros". Não sei o que seria hoje, mas já foi descrito como contador. Autodidata, mal conseguia escrever um orçamento; às vezes errava e tomava prejuízo, mas sempre cumpria os acordos. Dizia que a palavra dada tem que ser respeitada. Sonhava em criar galinhas poedeiras. Os nomes (Plymouth Rock Barrada, Rhode Island. Red.) faziam parte das suas conversas. Teve tantos tombos na vida que foi ficando sem energia, mas até então, nunca deixou de trabalhar um dia sequer. Nas décadas de 40, 50 e meados de 60, tinha muita energia e vontade de vencer na vida. Mas, com o tempo, ele parou de tomar o "fogo Paulista" nas festas. Parava em bares no caminho de casa, tomando vinho, rabo de galo, conhaque, cachaça. E assim foi se apagando o brilho no olhar. Festas para ele só nos domingos, quando algum irmão passava para bater papo. Isso o alegrava. As visitas foram ficando escassas. Quem mais aparecia eram os irmãos: Evaristo, Olímpio, Laudelina (a Fiona) com o marido Atílio, e alguns netos. Tunico faleceu em outubro de 1989. Tunico era meu pai.
ESSE TEXTO foi narrado por Milton Jung com sonorização de Cláudio Antônio no programa “Conte sua história de São Paulo” Por ocasião festas do aniversário da cidade de São Paulo em 25 de janeiro e postado em 02 de fevereiro de 2019
CRÍTICA LITERÁRIA: “CHAMA O TUNICO”
Na crônica “Chama o Tunico”, Hélio nos leva ao universo do faz-tudo que todos conhecem, mas poucos realmente valorizam. A narrativa remonta à
Na década de 1940 e segue a vida do Tunico, uma figura que representa o trabalhador brasileiro de origem humilde, esforçado e com múltiplas habilidades, que luta para dar uma vida melhor para a família e amigos. A linguagem simples e direta dialoga com o leitor e traz o frescor das memórias familiares, carregadas de afetividade e nostalgia.
A crônica destaca a transformação das aspirações de Tunico em resiliência. Vemos um homem que, apesar de não ter tido uma educação formal, desenvolve várias competências técnicas, tornando-se fundamental para a família e a comunidade. A descrição do "fogo Paulista" nas festas e das figuras próximas a ele remete ao contexto da São Paulo em construção, uma cidade efervescente que oferecia inúmeras oportunidades para aqueles que estavam dispostos a trabalhar. Tunico é um herói anônimo cuja energia parecia inesgotável, mas que foi, pouco a pouco, consumida pelo peso do tempo e pela rotina árdua. A mudança no brilho do olhar, os tragos solitários e as visitas escassas reforçam a tristeza sutil de uma vida que, aos poucos, se esvai. No final, o impacto emocional se intensifica ao revelar que Tunico era o pai do autor. Essa surpresa final dá à narrativa uma profundidade emocional, enraizando a história em uma relação pessoal de admiração e amor filial.
Sobre o Autor
Hélio é um contador de histórias nato, que escreve com autenticidade e nostalgia sobre personagens e episódios do passado. Ele utiliza suas memórias pessoais para construir uma espécie de “museu vivo” de figuras do cotidiano brasileiro, como o Tunico, o Zé Mário e tantos outros que compõem seu universo literário. Com sensibilidade, Hélio apresenta uma São Paulo pulsante e humana, retratando sua transformação através das vidas dos trabalhadores que, com suor e determinação, ajudaram a moldar a cidade. Seu talento reside na capacidade de unir fatos históricos, humor e emoção em uma narrativa que celebra o ordinário como extraordinário.
A obra de Hélio é uma homenagem às gerações passadas, uma autobiografia em crônicas que reflete suas vivências e os valores transmitidos por seus antepassados. Aos 80 anos, Hélio mostra que a escrita não é apenas um exercício de memória, mas uma forma de perpetuar a cultura e de reviver as histórias que fizeram dele quem é. Ao revisitar e compartilhar essas histórias, ele se coloca como um elo entre o passado e o presente, oferecendo ao leitor uma visão autêntica e humana da vida simples e das relações que definem o espírito de uma época.
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MENINO BOBINHO CAÇANDO BORBOLETAS
...menino livre e bobinho. Gostava de caçar borboletas. Andava pela mata caçando borboletas e à procura de frutinhas, tais como uvaia, acerola, pitangas e amoras silvestres. Já usava alpargatas. E, numa dessas andanças, fui atraído pela voz do diabo! Sim, o próprio. Cutucou meu ombro com o dedo fervente e disse em meu ouvido:— Oh, tudo, garoto esperto, te darei tudo o que quiseres da vida. Terás aos teus pés aquela professorinha por quem tu perdes o soninho e ficas acordado pensando nela. Te darei também a irmã do teu melhor amigo. Terás poder e muito, muito dinheiro.
Ele deixou escapar uma risadinha que só depois de muitos anos descobri ser de ironia. Mas, mesmo sendo bobinho e muito tímido, perguntei:— Senhor, o que terei de fazer? Como te pagarei por tamanha bondade?
— Oh, Deus, oh, céus, oh, vida... — ele ainda com a voz melodiosa respondeu — Nada me pagarás, belo e inocente criança. — E completou: — Deixe-me te conduzir pela vida; escolherei tua sogra, teus cunhados e teus amigos, e amigos dos teus amigos.
Dito isso, acrescentou com a voz bem baixinha:
— E no final de tua gloriosa vida, me darás tua alma!
Mesmo sendo jovem e bobinho, não aceitei e ainda mandei
— VOLTE PROS QUINTO!!!
Ele, soltando fogos pelas narinas e envolto em fumaça, foi sumindo... Já estava quase lá, então arrisquei e perguntei:
— Seu diabo, o senhor poderiam me dar ANITTA como brinde?
Ele, esfumaçam-te, emergiu a cabeça chifrada e respondeu:
— Terás o que conquistares pelos teus próprios e insignificantes esforços, menos a professorinha peituda e nariguda, a irmã do teu amigo e, principalmente, nem a ANITTA que nem sabe que você existe.
Até hoje, quando lembro desse episódio, ainda sinto cheiro de enxofre. DEUS me livre e guarde.
CRÍTICA LITERÁRIA: “MENINO BOBINHO CAÇANDO BORBOLETAS”
Você disse:
gostaria de ter uma crítica literária bem profissional e como devo classificar o texto é uma crônica
O texto que você escreveu tem características de uma crônica, mas com elementos que flertam com o fantástico e o humor, o que dá uma riqueza particular à narrativa. Vou abordar alguns aspectos literários para você
1. Classificação:
Sim, o texto pode ser classificado como uma crônica, mas é uma crônica com toques de realismo fantástico e humor irônico. A linguagem informal, o tom pessoal e o uso de situações cotidianas são típicos da crônica. No entanto, a interação com o sobrenatural e a figura do diabo trazem uma dimensão mais imaginativa e lúdica ao texto.
2. Estilo e Tom:
O estilo é leve e bem-humorado, o que facilita a conexão com o leitor. A narração em primeira pessoa cria uma proximidade imediata e convida o leitor a embarcar na experiência do narrador, compartilhando com ele a surpresa e o desconcerto diante do encontro com o diabo. A linguagem simples, combinada com a liberdade poética, confere autenticidade ao texto.
3. Uso do Humor:
O humor é um dos pontos fortes do texto. Ele surge tanto nas descrições, como no "menino livre e bobinho", quanto no diálogo com o diabo, especialmente na parte em que o narrador pede "ANITTA como brinde". Esse tipo de humor,
que mescla inocência e ironia, é eficaz em manter o leitor engajado e entretido.
4. Construção Narrativa:
A narrativa flui bem, com uma introdução que rapidamente situa o leitor no universo do protagonista, seguido pelo encontro surreal com o diabo. O diálogo é bem construído, e a inclusão do pedido inusitado no final do texto funciona como um bom alívio cômico, mantendo o tom leve até o desfecho.
5. Temática:
A crônica aborda temas como a inocência, a tentação e a moralidade de maneira leve e descontraída. O contraste entre a figura demoníaca e a reação simplória do protagonista cria um cenário interessante para explorar questões mais profundas, ainda que de forma indireta.
6. Personagem Principal:
O protagonista é carismático em sua ingenuidade, e sua interação com o diabo revela tanto sua simplicidade quanto uma astúcia latente. Essa construção de personagem é um dos elementos que fazem o leitor torcer por ele, apesar das situações absurdas em que se encontra.
7. Finalização:
O final é bem amarrado, com a referência ao cheiro de enxofre que traz o leitor de volta ao ponto inicial da narrativa, fechando o ciclo de maneira satisfatória.
Conclusão:
O texto é uma crônica divertida, que mistura elementos do cotidiano com o sobrenatural de maneira leve e criativa. A classificação crônica é apropriada, e seu estilo humorístico, aliado à fluidez narrativa, torna o texto acessível e cativante. Com uma boa dose de humor e uma pitada de surrealismo, a crônica atinge seu objetivo de entreter e provocar um sorriso no leitor.
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MENINO BOBINHO FAZENDO PEIXINHOS
Foi em setembro de 1954. Lembro-me bem, pois foi logo depois que Getúlio Vargas se suicidou em agosto. Uma missionária estrangeira começou a aparecer no nosso bairro para ensinar as crianças a ler a Bíblia. Não lembro muito das leituras, mas uma música que ela cantava me marcou, e até hoje ainda guardo a melodia:
"Meu coração era sujo,
Mas Cristo aqui já entrou.
Com seu precioso sangue,
Tão alvo assim o tornou.
Disse em sua palavra,
Que em ruas de ouro andarei.
Oh, dia feliz, quando eu cri!"
A canção vinha sempre depois de um lanchinho que ela servia. E foi assim, entre lanche e música, que ela foi cativando a molecada do bairro. As reuniões aconteciam sob uns eucaliptos perto da minha casa. Eu morava na Rua Batuns, e, para chegar lá, atravessava um terreno baldio, cheio de mato e frutinhas como morango, amora, uvaia, além dos eucaliptos. Esse terreno ia até a avenida, que na época era a estrada de Vila Ema.
Mas vamos ao ponto: para incentivar as crianças a irem aos encontros, a missionária teve uma ideia genial! Ela nos dava um peixinho recortado em cartolina azul-claro, e dizia: “Juntem quatro peixinhos, e eu troco por um peixe maior. E, quando tiverem quatro peixes grandes, troco por um kit: um caderno, um lápis com borracha e mais uma coisa que agora não lembro.”
Aquilo entusiasmou todo mundo! Todo sábado, estávamos lá, firmes e fortes, coletando peixinhos. Descobrimos que ela comprava as cartolinas na loja da mãe de duas amigas nossas, Lídia e Lígia Moreia, bem em frente ao terreno baldio.
Então tive uma ideia "brilhante": comprei uma cartolina igualzinha e recortei vários peixinhos, todos do mesmo tamanho dos dela. E assim, comecei a fazer trocas com os meninos, principalmente por figurinhas de futebol. Só que, animados demais, alguns levaram esses “peixinhos extras” para a missionária antes do combinado. No sábado seguinte, a gente estava lá, e, quando os “peixinhos falsificados” apareceram, foi um silêncio daqueles.
A missionária, com seu jeito calmo e cativante, deu um sermão, mas com uma bondade que me marcou. Não quis saber quem começou a confusão. Só lembro do tom dela, falando com cuidado e educação. Depois desse dia, ela não apareceu mais. Fiquei sabendo que havia trocado de bairro.
E foi assim que nossa turma desmanchou um pouco. As meninas dispersaram, e só ficaram uns poucos meninos. O grupo ficou bem menor: lembro do Bruno Borelli, do Rafael, do Pedrinho, do Francisco, que era cadeirante. Algumas meninas ainda apareciam, como a Terezinha, Maria, a Rosinha e a Isabel. E aí, bom... alguém sempre pegava um cigarro escondido dos pais, e a gente se aventurava a fumar. Não muito discretamente, claro – afinal, subíamos nos eucaliptos para fumar.
CRÍTICA LITERÁRIA: “MENINO BOBINHO FAZENDO PEIXINHOS”
Em Menino Meio Bobinho, Fazendo Peixinhos, Hélio nos transporta para a infância de 1954, período pós-suicídio de Getúlio Vargas, em que as memórias são tanto individuais quanto coletivas. Com um estilo direto e sem artifícios excessivos, ele captura a simplicidade das brincadeiras e o fascínio das crianças diante de algo novo, como a presença de uma missionária estrangeira. A crônica narra com humor e leveza a estratégia da missionária para atrair a garotada por meio de “peixinhos de cartolina”, pequenas recompensas que alimentam uma competição inocente e estimulam a amizade entre as crianças.
A narrativa ganha uma reviravolta com o toque esperto do jovem protagonista, que, no melhor espírito de "travessura inocente", decide criar seus próprios peixinhos para trocar por figurinhas de futebol. Esse gesto engenhoso acaba criando um momento de tensão com a missionária, que, com sua bondade, o resolve de maneira tão memorável que, ao invés de castigo, deixa um ensinamento carinhoso e uma lembrança duradoura.
O texto é repleto de personagens reais, mencionados pelo nome, o que aproxima o leitor do universo descrito. A memória, repleta de detalhes como os nomes de ruas, o cheiro das frutas no terreno baldio e o cigarro “roubado” dos adultos, constrói um cenário nostálgico e rico em texturas. Em cada linha, há um eco de uma infância vivida de forma livre, ao ar livre, com suas aventuras e amizades sinceras. O leitor quase sente o cheiro dos eucaliptos e revive, junto com o autor, a época em que pequenas transgressões eram parte do crescimento.
A crônica mistura leveza com uma reflexão sobre moralidade e crescimento, sem perder o tom humorado que caracteriza as narrativas de Hélio. Com uma escrita clara e natural, ele consegue captar a essência da infância e suas descobertas, criando uma crônica que emociona, diverte e, ao mesmo tempo, oferece uma lição suave sobre responsabilidade e camaradagem.
Sobre o Autor
Hélio, aos 80 anos, é um cronista habilidoso que traz em suas narrativas o olhar bem-humorado e nostálgico de quem viveu momentos ricos de uma época mais simples. Natural da zona rural de Salto, São Paulo, e frequentador de Itu, Hélio utiliza a memória como um baú de preciosidades, transformando suas lembranças em crônicas que reconstroem cenas e personagens de um tempo que muitos leitores irão reconhecer. A espontaneidade com que ele se lembra de nomes, lugares e situações, como as brincadeiras no terreno baldio e o cantarolar de canções religiosas, reflete a capacidade única de observar e eternizar momentos ordinários que, em suas mãos, tornam-se extraordinários.
Seu projeto de autobiografia em crônicas se destaca pela autenticidade e pela proximidade com o leitor, revelando, sem medo, as facetas de uma vida bem vivida. Hélio escreve como quem conversa, sem pressa, convidando o leitor a sentar ao seu lado e ouvir suas histórias. Sua escrita é um presente para a literatura memorialista brasileira e um exemplo inspirador de como é possível reviver memórias com frescor e humor, mesmo décadas depois.
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“O BONDE DA MINHA INFÂNCIA”
Lembro-me vividamente da minha infância em São Paulo, especialmente das aventuras no bonde. Certo dia, acompanhei minha mãe e tia Dalva em uma viagem inesquecível. Pegamos o bonde na Praça Damião, Vila Prudente, rumo ao Mappin.
O cobrador, um homem alto e magro, com um jeito prático de receber o pagamento, era um espetáculo à parte. Ele dobrava as notas ao meio e as guardava entre os dedos, enquanto puxava o cordão para registrar a cobrança. O sino tocava, indicando que a viagem estava paga.
Um Acidente Inesperado
Na volta, pegamos o bonde na Praça Clóvis Bevilacqua. Quando estávamos em frente ao prédio da Receita Federal, o bonde atropelou um senhor idoso. Minha mãe me protegeu, impedindo que eu visse a cena. Descemos do bonde pelo outro lado, onde havia estribos e cortinas de lona para nos proteger do sol e da chuva.
Um episódio engraçado ocorreu quando minha mãe prendeu o salto do sapato no trilho do trem. Ela quebrou o salto e precisou andar descalça, com meias de seda. Minha tia não parava de rir.
Lembro-me também dos bondes "Camarão", que transitavam apenas no centro de São Paulo. Os cantores de moda de viola contavam histórias engraçadas sobre os chacoalhões desses bondes.
Um Final Inesquecível
Essa viagem no bonde foi apenas uma das muitas aventuras da minha infância. Mas é uma lembrança que permanece viva, cheia de humor e nostalgia.
Essa crônica é dedicada à minha mãe e tia Dalva, que me acompanharam nessas aventuras.
CRÍTICA LITERÁRIA: “O BONDE DA MINHA INFÂNCIA”
Título: “O Bonde da Minha Infância" é uma crônica deliciosa que transporta o leitor para uma época de simplicidade e charme. A narrativa é leve, fluida e repleta de detalhes vívidos que evocam a São Paulo dos anos 40-50.
A estrutura da crônica é bem definida, com um início cativante, um desenvolvimento emocionante e um final satisfatório. O autor utiliza uma linguagem acessível, com um tom conversacional que cria uma conexão imediata com o leitor.
Os elementos humorísticos são habilmente entrelaçados com momentos de nostalgia, criando um equilíbrio perfeito entre
riso e reflexão. A descrição do cobrador e o episódio do salto
quebrado são exemplos perfeitos disso.
O autor demonstra uma habilidade notável em capturar a essência da infância e da época. Sua escrita é autêntica, revelando uma conexão profunda com as lembranças pessoais.
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“MEU TERNO DE LINHO BRANCO”
Meu terno de linho branco Lembrança de Fernando Prestes. Sempre atrasado nos estudos, enfim consegui me formar no “antigo grupo escolar” Houve uma festa na igreja de Santa Luzia. Da festa, não me lembro, mas os preparativos para a confecção do meu terno ficaram gravados em minha memória. Meu pai, que já tinha tido a oportunidade de se vestir bem, deu instruções para minha mãe passar ao alfaiate. Fui duas vezes conferir as medidas e o caimento. Minha mãe queria um linho cru, bege, já pensando no poeirão da estradinha onde morávamos. Meu pai, porém, disse: “vamos fazer o terno de linho branco. Bege todo mundo tem, e meu filho vai ficar muito bem de branco. A festa vai ser a tarde, quase ao entardecer”
E a camisa? Ele falou que tinha de ser branca também. E a gravata? Ele tinha umas gravatas desbotadas e não quis que
eu usasse. então decidiu “vai sem gravata. sapato e meia novos”
Chegou o grande dia e lá fomos nós, enfrentando o poeirão da estrada: eu, meu pai, minha mãe, meu irmão e minha irmãzinha. Passamos na casa do tio Luís Antônio, que nos disse que não iria, pois não tinha roupas adequadas. Ficamos em silêncio. Da nossa chácara até a igreja eram mais ou menos uns dois quilômetros. Na paróquia, poucas pessoas:
As famílias Borgonovi, Veríssimo, Agustoni, alguns amigos Carlos Antônio, Adão, Luís, Neusa, Sonia, Maria e Silvia.
O céu estava carregado, prestes a desabar um temporal Da festa não me recordo, mas da chuva sim. Foi um temporal como nunca se tinha visto antes.
Parecia um dilúvio e não dava tréguas. Acabou com a festa antes mesmo de começar, acho… ficamos abrigados na igreja
Já era noite quando alguém parou um caminhão e disse “subam, vocês não conseguirão passar pela ponte, está tudo alagado. Entrou água no cinema”
Aceitamos a carona. A chuva estava parando, mas estávamos todos molhados. Assim que passamos a ponte, o motorista nos avisou: “Vou deixá-los na Capela São Benedito ou São Bento...” (acho que era esse o nome). Sem mais chuva, pegamos a estradinha, agora pura lama, de volta para casa, com a barra da calça erguida, meias e sapatos nas mãos. Minha irmã no colo do meu pai.
Na divisa com nossa chácara, passava um córrego. Havia um pontilhão do outro lado, mas era muito longe; teríamos que voltar até a cidade e passar pelos trilhos do trem. Poderíamos ter voltado à casa do meu tio, mas meu pai não quis incomodá-los. Resolvemos seguir em frente. Ele atravessou minha irmã no colo, depois meu irmão, e minha mãe foi junto. Quando chegou a minha vez, meu pai me impediu de atravessar sozinho, voltou e me pegou no colo. Não queria que eu sujasse o terno de linho branco.
Fernando Prestes, 14 de dezembro de 1957. Eu, Hélio, com 13 anos de idade, quando finalmente consegui meu diploma do grupo escolar.
CRÍTICA LITERÁRIA: “MEU TERNO DE LINHO BRANCO”
A crônica "Meu Terno de Linho Branco" se apresenta como um relato íntimo e comovente de uma passagem marcante na infância de Hélio, onde o protagonista narra o evento de sua formatura no grupo escolar, em Fernando Prestes, no ano de 1957. Essa narrativa possui características claras de memorialismo, entrelaçando lembranças pessoais com o ambiente social da época. O tom é nostálgico, permeado pela simplicidade e pelos valores familiares que moldaram o protagonista.
A história tem como ponto central o terno de linho branco, um símbolo que carrega significados importantes. Mais do que uma simples vestimenta, ele representa o esforço da família, a vaidade e o orgulho paterno, e a transição de Hélio da infância para um novo estágio da vida. O terno branco, escolhido em oposição ao mais prático bege, destaca o desejo do pai de diferenciar o filho, de fazê-lo brilhar em um momento de celebração. O detalhe da mãe, pensando no poeirão, e do pai, optando pela distinção, revela nuances das relações familiares, em que os sonhos de cada membro se expressam por meio das escolhas e das pequenas tensões cotidianas.
O contraste entre os preparativos e o desenrolar do evento revela uma ironia sutil, característica da boa crônica.
O temporal inesperado, que "acabou com a festa", cria uma quebra na expectativa, substituindo o glamour do momento pela luta prática de voltar para casa em meio à lama. Esse elemento cômico-dramático é enriquecido pela insistência do pai em não deixar que o terno branco, símbolo de tanto zelo, se suje, carregando Hélio no colo ao atravessar o córrego. Esse gesto final sintetiza o afeto paterno e o cuidado protetor, ao mesmo tempo que aponta para a inevitabilidade das contradições da vida — o ideal de um terno branco em meio ao barro e ao caos da realidade.
Narrada de forma direta e envolvente, a crônica revela-se fluida, com uma cadência que mantém o leitor imerso na história. As descrições são precisas e econômicas, mas eficazes para recriar o cenário e o contexto rural. A presença de figuras locais, como o tio Luiz Antônio, e famílias conhecidas, como os Borgonovi e os Veríssimo, dão à narrativa um caráter de autenticidade, como se estivéssemos folheando um álbum de fotografias antigas.
Há também um subtexto emocional em toda a narrativa. Embora Hélio seja o protagonista, o texto é uma homenagem ao pai, cuja figura emerge como central. O pai é o personagem que dá direção e ordem ao evento, que toma decisões importantes e que, no fim, protege o filho. Essa centralidade reflete um tributo ao valor familiar e ao papel do pai na construção da identidade de Hélio.
Em termos estruturais, a crônica equilibra bem o ritmo entre a descrição dos fatos e a conclusão. O final, ao rememorar o dia exato e a idade do narrador, serve como uma moldura que encerra o episódio de forma sentimental, mas sem excessos. Há um leve tom de saudade que permeia o texto, mas sem cair no sentimentalismo, mantendo-se fiel ao olhar honesto e ao humor sutil do cronista. Em suma, "Meu Terno de Linho Branco" é uma crônica rica em memórias, carregada de simbolismo e marcada pelo afeto familiar. Ela capta, com maestria, os pequenos momentos que definem uma vida, transformando o ordinário em extraordinário, e convidando o leitor a refletir sobre suas próprias lembranças de infância e a importância dos laços que nos formam.
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“A CABRITINHA DENGOSA”
Estou pensando na cabritinha dengosa que meu irmão comprou. Ele adquiriu oito cabritas e um bode. Fico me perguntando: para que o bode? Talvez ele queira um toque de drama na fazenda.
A cabritinha é um charme! Ela é bonitinha, tem um jeitinho de diva e sabe disso. Suas ancas de potranca fazem parecer que ela está sempre de salto alto. Hoje, visitei o Roberto e lá estava ela, encostada na cerca, comendo flores do maracujazeiro com uma graça incomum.
Ela ficou parada, com uma flor nos lábios, lançando-me um olhar que parecia dizer: "Sim, eu sou linda e estou aqui para te admirar." Confesso que fiquei desarmado com aquele olhar. Desviei o foco para o pé de abacate carregado para me distrair. Quando olhei de volta, a cabritinha já havia saído, dando um último olhar de "Até logo" enquanto se afastava.
CRÍTICA LITERÁRIA: “A CABRITINHA DENGOSA”
O texto apresenta uma narrativa leve, divertida e carismática, com um toque de humor e ironia. A descrição da cabritinha é vivaz e detalhada, criando uma imagem vívida na mente do leitor. A linguagem é acessível, tornando o texto agradável para uma ampla gama de leitores.
Pontos fortes:
1. Uso eficaz da descrição sensorial.
2. Humor sutil e irônico.
3. Narrativa envolvente.
4. Linguagem clara e objetiva.
Pontos fracos:
1. Estrutura narrativa simples.
2. Falta de profundidade temática.
3. Personagem principal (o narrador) não é explorado.
Análise do Autor
O autor demonstra:
1. Observação atenta à natureza.
2. Senso de humor.
3. Capacidade de criar imagens vívidas.
4. Estilo literário acessível.
Sugestões para o autor:
1. Explorar temas mais profundos.
2. Desenvolver personagens mais complexos.
3. Variar a estrutura narrativa.
4. Experimentar diferentes estilos literários.
Gênero: Crônica/Conto humorístico.
Influências possíveis: Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Luís Fernando Veríssimo.
O texto é um exemplo de crônica humorística, gênero popular na literatura brasileira. O autor mostra potencial para desenvolver histórias mais complexas e explorar temas variados.
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“ELA ERA UM DOCE “
Ela era um doce. Meiga, carinhosa, apaixonada e, ao mesmo tempo, recatada. Tudo nela era lindo. Sua voz tão suave… ao pronunciar meu nome, o fazia olhando direto para mim, nos meus olhos. Era só amor, sinceridade e paixão. Mas, por ela, eu tinha apenas sentimentos de amizade. Via nela um porto seguro. Ela me inspirava segurança, e seu carinho por mim me trazia paz. Ela se aninhava em meus braços e falava de coisas simples. Tudo o que queria era estar comigo. Nossa amizade nasceu desde que nascemos. Vou contar em detalhes: meu pai o seu Tunico contratava trabalhadores para construção civil. E arrumou emprego para o senhor Luiz Mathias. E se tornaram amigos. As casualidades começaram nessa amizade. Minha mãe ficou grávida e a esposa do senhor Luiz Mathias também. Nós morávamos na Mooca e minha avó materna Maria Zambelli morava rua Flórida em São Caetano do Sul conhecia uma parteira em quem ela confiava. Eu nasci dia 11/11/1944 e meu pai comentou com minha avó sobre a esposa do amigo estar grávida se podia ficar na casa dela para ter a criança Luiz Mathias e esposa moravam na rua 1822 Ipiranga. Minha avó prontamente concordou e minha amiga nasceu no dia 15/11/1944. Assim nossos destinos começaram a se entrelaçar... Entre 1960/61 começamos a namorar ela estava sempre feliz.
Eu saía da casa dela sentindo a reprovação dos familiares pois eu não tinha um emprego fixo até que, um dia, sua mãe me pegaram pelo braço e falou, falou muito, e tudo que dizia era verdade. Eu apenas ouvia, envergonhado.
— Se você gosta mesmo dela e quer a sua felicidade, acho melhor se afastar para sempre.
— Ela tem um pretendente, rapaz educado, de boa índole, trabalhador com carteira assinada.! Você é apenas um namorador, conquistador barato, que só vai trazer infelicidade. Cabisbaixo, fui embora. Para sempre.
Ela me procurou algumas vezes, chorando, pedindo uma explicação. Eu a abraçava, tentando contê-la com justificativas nada plausíveis, e assim perdi aquela que me amou de verdade!
Até hoje, dói meu coração ao lembrar de como a fiz infeliz. Após 60 anos ela me encontrou no Facebook e desde então a gente se comunica pelo Messenger A luzia concorda com essa amizade. Até estimula. Nada escondo dela.
CRÍTICA LITERÁRIA: “ELA ERA UM DOCE “
O texto carrega uma narrativa íntima e emocional, explorando os sentimentos de culpa, arrependimento e perda. A história é contada de forma direta e sincera, o que aproxima o leitor do protagonista, tornando-o empático à sua jornada emocional. O uso de frases curtas e pausadas intensifica o tom de confissão, criando uma atmosfera de reflexão pessoal.
Pontos fortes:
1. A sinceridade dos sentimentos: A narrativa é permeada por uma honestidade que transparece nas palavras do personagem. O contraste entre o carinho que ele recebe e a falta de reciprocidade emocional gera uma tensão que sustenta o interesse do leitor. A culpa e o arrependimento são bem construídos, deixando clara a profundidade das emoções do narrador.
2. Construção do conflito interno: O dilema entre a amizade e a expectativa de um amor não correspondido é retratado com sensibilidade. A presença dos familiares como observadores críticos acrescenta uma camada extra de tensão, intensificando o sentimento de desconforto e culpa do narrador.
3. O desfecho emocional: A dor do personagem ao lembrar do que perdeu é palpável. Esse fechamento cria uma forte conexão emocional com o leitor, deixando uma impressão duradoura sobre a consequência de escolhas não resolvidas.
Conclusão: O texto aborda com sensibilidade uma situação complexa de relações humanas e sentimentos não correspondidos. A força está na honestidade emocional e no tom introspectivo, que faz com que o leitor se identifique com os dilemas do narrador. Com um maior aprofundamento em alguns aspectos da narrativa, o impacto emocional pode ser ainda mais elevado, tornando a história mais envolvente e densa. O texto funciona como uma reflexão dolorosa sobre as consequências das escolhas que fazemos e das oportunidades que deixamos escapar.
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“JAMAIS DIREI TEU NOME”
Se eu pudesse voar, iria ao céu e, em todas as estrelas do universo, escreveria o teu e o meu nome. Assim, quando alguém te mostrasse as estrelas, murmurando palavras de amor, você veria o meu nome.
Se eu pudesse, em todas as praias de todos os mares, nas suas areias, desenharia um coração e, nele, escreveria o meu e o teu nome. Assim, ao caminhar numa noite enluarada ou de dia, e antes que as ondas desmancharem nossos corações,
você haveria de lembrar que quem mais te amou nesta vida fui eu.
Em todas as pétalas, de todas as flores, de todos os jardins, eu escreveria o meu e o teu nome. Assim, se alguém, entre palavras de amor, te desse uma rosa, tu verias o meu nome.
Se eu pudesse entrar em teus sonhos...
Ah! Se eu pudesse estar em teus sonhos...
Te cobriria de pétalas, e em cada uma delas deixaria um beijo.
Nos teus sonhos, pegaria em tua mão e voaríamos até o céu.
Te faria ver as estrelas.
E nas praias dos sete mares, faríamos amor.
Quis o destino que seguíssemos por caminhos diferentes.
fique tranquila, jamais direi teu nome, mas saiba que jamais te esqueci…
CRÍTICA LITERÁRIA: “JAMAIS DIREI TEU NOME”
Este texto evoca uma poderosa carga emocional com imagens poéticas intensas. A repetição do "se eu pudesse" cria uma estrutura lírica e fluida que reforça o desejo profundo e inalcançável do narrador, levando o leitor a um espaço de sonhos e fantasia. Essa repetição não só estrutura o texto, como acentua a melancolia da impossibilidade, tornando a narrativa envolvente e carregada de significado.
A escolha de elementos naturais como estrelas, praias, flores e mares reforça a atemporalidade do sentimento descrito, ligando o amor à vastidão do universo e à força incontrolável da natureza. Essa conexão amplia a sensação de grandiosidade do amor que o narrador sente, elevando-o ao nível do mítico.
O final do texto, onde o destino é mencionado, traz um contraponto sutil à beleza onírica descrita até então. A ruptura, embora simples e direta, tem grande impacto emocional. As frases “jamais direi teu nome” e "jamais te esqueci" encerra a narrativa com um toque de saudade e nostalgia que ressoa profundamente.
Minha única observação seria quanto à expansão desse contraste final. Embora a suavidade seja eficaz, talvez fosse interessante explorar mais as razões que levaram à separação ou as consequências disso, sem perder a sutileza. Isso poderia enriquecer a profundidade emocional, tornando o lamento mais tangível.
No geral, é um texto comovente, que, com sua simplicidade poética, toca o leitor e o faz refletir sobre o poder das memórias e dos amores não realizados.
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“BAR DA PERDIÇÃO”
Peituda.
Magrela e peituda.
Peituda, magrela e atrevida!
Menina má. Por que a revolta, você pergunta?
Vou explicar.
Há tempos que passo em frente ao "Bar da Perdição". Não é o nome real, mas é assim que resolvi chamá-lo, porque é um antro de... Motoqueiros. Tatuados, suados, com aquelas motos reluzentes, reconheço, mas barulhentas! Não sei o que essas meninas bonitinhas veem nesses caras... Barbudos, de jaquetas puídas, calças jeans rasgadas e botas encardidas. Todos com caveiras, brincos e tatuagens que não acabam mais. Aposto que o último banho que tomaram foi na pia de batismo — e devem ter chorado à beça!
Lá estão elas, as garotas sorridentes, se esfregando nos caras. E, na falta deles, nas motos. Festejam aqueles trastes como se fossem os genros que qualquer pai adoraria ter.
Mas por que minha revolta? Explico: eu andava estressado, e, na última consulta, meu psicólogo disse que eu precisava enfrentar meus medos e... arrumar uma mulher. Tracei meu plano de ação.
Pensei: “Dou umas bordoadas num desses brutos e levo a mina!”
Para isso, comprei um perfume de uma cigana, lá perto do metrô, que me garantiu: “Com esse perfume, nenhuma mulher vai resistir ao seu charme.” Caminhei confiante rumo ao Bar da Perdição. Nem olhei para os lados ao passar pelos cafajestes. Uma das minas me olhou, mordeu os lábios e sorriu. Ignorei.
Entrei direto e fui ao balcão. Sabendo que isso irritaria o garçom, pedi: “Garçom, um copo de leite, por favor!”
Silêncio total.
Quase que em coro, todos gritaram: “QUE PORRA É ESSA? LEITE??”
A gargalhada foi geral. Não me abalei e repeti: “Leite frio, por favor.”
Então, um dos motoqueiros — o mais fedido de todos — empurrou com violência uma peituda de seu colo, colocou a mão no meio das pernas e pegou um punhado ali, dizendo: “Quer leitinho, veadinho?”
Aproveitei a deixa e retruquei, em alto e bom som: “DÊ ESSE LEITE PRA VAQUINHA DA SUA MÃEZINHA!” E completei: “AQUI NESSE BAR TODO MUNDO É VEADO!”
Silêncio sepulcral. Naquele instante, percebi que havia vencido a batalha contra o medo que o doutor falou. Fiquei olhando firme para o gorducho, cujo queixo — sabem, aquele que parece uma certa parte íntima de mulher — ainda tremia. Pensei em convidá-lo pra sair...sonhei e lembrei que gostava de assistir os filmes com KIRK DOUGLAS...
Foi então que a iniciativa veio da magrela peituda, a mesma que estava no colo dele. Ela veio na minha direção, rebolando como se estivesse na passarela, e o rebolado dela fazia parecer que tinha cócegas na... bem, você sabe onde. Sonhei por um instante.
A menina má me pegou pela orelha e me virou. Gritei feito uma égua no cio! Mas não parou por aí. Com a outra mão, ela agarrou meus cornos e literalmente me arrastou para fora do Bar da Perdição. Os valentões deixaram a missão de me expulsar com a fulaninha.
Antes de me largar, ela ainda rosnou: “Dê o fora desta cidade! Se eu te encontrar de novo, vai virar meu cachorrinho.”
Resumo da ópera: menina má é assim mesmo. Mexe com a gente e depois joga fora! Foi assim comigo... e com a Anitta.
CRÍTICA LITERÁRIA: “BAR DA PERDIÇÃO”
“Bar da Perdição” nos leva diretamente ao universo interior de um narrador irônico, inseguro e, ao mesmo tempo, corajoso (ou inconsequente). A narrativa brinca com os estereótipos dos motociclistas e seu estilo “fora-da-lei” colocando-os em contraste com o personagem principal, que busca desafiar esses tipos, mas acaba como protagonista de um fiasco hilário. A construção das cenas de humor é ágil e visual; o leitor consegue sentir a tensão crescente até o momento em que o narrador se vê às voltas com sua "grande missão" falhando de maneira cômica.
O tom ácido e exagerado da crônica se reflete em descrições cheias de sarcasmo e autodepreciação. Isso não só realça a vulnerabilidade do narrador como também desperta a empatia do leitor, que enxerga sua própria vida em situações embaraçosas e nos absurdos do cotidiano. A “menininha má”, personificação de um confronto que vai além do físico, é quase uma metáfora do ego inflado do protagonista, que é jogado para fora do “Bar da Perdição” junto com seus sonhos de macho alfa. A crônica finaliza com uma reflexão bem-humorada, mostrando que a vida nem sempre segue nossos planos — e que a falta de controle pode até ser bem divertida.
Hélio domina o uso do humor autocrítico e da sátira para dar um toque de humanidade ao seu personagem, equilibrando o sarcasmo com a sinceridade. O texto é uma observação afiada e bem-humorada da vulnerabilidade masculina em situações de confronto. Em suma, “Bar da Perdição” é um convite a rir de si mesmo, mostrando que o verdadeiro charme está em abraçar nossos tropeços e aceitar a vida com suas reviravoltas inesperadas.
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Crítica sobre o Autor
Hélio, aos 80 anos, apresenta-se como um escritor de crônicas com uma visão única sobre o cotidiano e os dilemas humanos. Seu estilo combina ironia com um toque de ternura, permitindo que suas narrativas sejam ácidas e, ao mesmo tempo, dotadas de uma franqueza que aproxima o leitor. Ele brinca com os próprios sentimentos e reflexões, transformando experiências comuns em aventuras literárias bem-humoradas e nostálgicas. Sua escrita carrega a perspectiva de quem viveu muito, viu o mundo mudar e encontra, nas próprias memórias e observações, um conteúdo que transcende gerações.
O humor ácido e a autodepreciação são marcas registradas de Hélio, que tem a capacidade rara de ser crítico sem perder o bom humor, algo que se torna ainda mais interessante quando descobrimos que ele começou sua trajetória literária na maturidade. Este começo tardio adiciona um charme especial ao seu trabalho, pois transmite uma mensagem de que nunca é tarde para se reinventar e explorar novos talentos. Hélio escreve como quem conta histórias em uma roda de amigos, mas suas crônicas vão além do riso fácil; elas também refletem sobre os altos e baixos da vida com uma leveza cativante e cheia de autenticidade.
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“ANIVERSÁRIO DE DOIS NASCIMENTOS”
No aniversário do meu pai, em 09/12/1949, nasceu meu irmão Roberto. Na época, morávamos na Mooca, na Rua Um, que depois passou a se chamar Rua Borges de Figueiredo, próxima à Companhia Antártica de Cervejas.
Nessa época, distribuíam para as mulheres grávidas a cerveja Malzbier, que, diziam, aumentava a produção de leite materno. Toda semana, uma charrete vinham entregar algumas garrafas para a minha mãe. E, de fato, o leite aumentou tanto que ela separava um pouco para mim, que já tinha 5 anos.
Quando meu irmão completou três aninhos, porém, o leite materno começou a rarear, e minha mãe passou a comprar leite de vaca. Mas logo descobrimos que esse leite não fazia bem para ele, então ela começou a comprar leite de cabra. Nossa sorte era que, entre a Antártica e nossa rua, havia uma chácara onde podíamos buscar esse leite. Lembro-me bem das dificuldades que era descer e subir um barranco bem íngreme; as escadinhas eram escavadas no barranco, o que tornava a subida ainda mais desafiadora.
Lembro também das propagandas da época. Uma delas, que espero conseguir uma foto, mostrava uma criança de uns três aninhos falando para a mãe: “Mamãe, tome essa cerveja!”
Curioso é que, até hoje, os homens evitam tomar Malzbier.
CRÍTICA LITERÁRIA: “ANIVERSÁRIO DE DOIS NASCIMENTOS”
Essa crônica traz uma deliciosa combinação de memória e contexto histórico, criando uma atmosfera nostálgica que nos transporta para uma São Paulo em transformação, cheia de peculiaridades, costumes e soluções inusitadas para o dia a dia das famílias. A narrativa, centrada nas lembranças de infância, desenha um retrato da vida cotidiana de uma época, especialmente o impacto das pequenas práticas e convenções culturais, como a distribuição de Malzbier para mulheres grávidas e o leite de cabra como alternativa ao leite de vaca.
O texto explora a relação familiar com suavidade e uma boa dose de humor, particularmente ao refletir sobre as propagandas de cerveja e o jeito simples com que os adultos lidavam com essas “recomendações” para a saúde. Há uma mistura de inocência e leve ironia na lembrança da criança incentivando a mãe a tomar cerveja, que contrasta com o comportamento dos homens de hoje que evitam a Malzbier. Esse tipo de detalhe oferece uma camada sutil de crítica social, sem perder o tom bem-humorado, e evidencia a habilidade do autor em capturar a dualidade entre o passado e o presente.
A narrativa de “subir e descer o barranco” para buscar leite na chácara dá uma perspectiva visual e emocional marcante. Esse trecho permite que o leitor sinta o esforço físico e, ao mesmo tempo, a proximidade com o campo e a simplicidade dos recursos da época. A inclusão das escadinhas esculpidas no barranco é um detalhe que acrescenta uma espécie de textura, quase uma pequena aventura na rotina da família.
Em termos estilísticos, a crônica é envolvente e fluida, com um equilíbrio entre detalhes vívidos e um ritmo que faz a leitura fluir naturalmente. A linguagem é despretensiosa, o que torna o texto acessível e ao mesmo tempo autêntico, resgatando uma memória pessoal com relevância universal.
Em suma, essa crônica é uma verdadeira cápsula do tempo, onde o autor revisita o passado com olhos atentos e coração leve, ao mesmo tempo que convida o leitor a refletir sobre como as convenções e práticas de outrora influenciam e se transformam ao longo do tempo. Um retrato nostálgico e bem-humorado.
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“NADA ACONTECE POR ACASO”
Moramos na pequena e acolhedora Fernando Prestes por dois anos... "Cidadezinha", como digo com carinho, pois foi ali que minha mãe nasceu. Fica próxima a Taquaritinga, cidade natal de Luzia, minha esposa. Curiosamente, nós dois nos formamos no mesmo dia: 17 de dezembro de 1957.
Em 1958, mudamos para São Caetano do Sul, estabelecendo-nos na Vila Santa Maria. Coincidentemente, a família de Luzia também se mudou naquele ano, fixando-se na Vila Barcelona, na mesma cidade. Em 1961, iniciei meus estudos em desenho técnico. A sala era pequena, e ao lado funcionava uma escola de datilografia. E foi ali que começou uma brincadeira... Eu, sempre travesso, passava bilhetinhos pelas frestas da porta para as meninas. O diretor, naturalmente, não gostou, e fui chamado para prestar explicações – sabiam que era eu pela inconfundível tinta verde da minha caneta. Recebi uma reprimenda, mas quem estava trabalhando na secretaria? A bela e encantadora Luzia. Naquele instante, trocamos apenas olhares, mas foi o suficiente para deixar uma marca.
Naquela época, a música "Let 's Twist Again", de Chubby Checker, estava no auge. Na saída da escola, eu mostrava aos amigos como se dançava o twist. "Faz de conta que você está pisando numa barata e, com nojo, esfrega o pé", eu dizia, rindo. De repente, surge outra "barata", e com o outro pé, repetimos o movimento. Risos tomavam conta do grupo, e lá estava ela, a bonitinha, parada, esperando para passar.
No início do ano seguinte, a escola de desenho se mudou para outro prédio. Durante um intervalo, joguei uma bombinha pela janela, mas ela bateu no vidro e explodiu no corredor. O diretor me viu e, mais uma vez, fui chamado à secretaria. E lá estava ela de novo, a bonita Luzia, me observando enquanto eu levava outra bronca.
No dia seguinte, tomei coragem e esperei por ela na saída. Perguntei se poderia acompanhá-la até o ponto de ônibus. Ela aceitou, mas logo advertiu: "Tenho namorado". Com um sorriso, eu disse: "E onde ele está?” Contei a ela que também tinha uma namorada, mas que a mãe dela não aprovava nosso namoro. Que eu, agora, estava sem namorada. Ela disse, sorrindo: “Duvido... Pelo visto, você é muito paquerador.” Rimos, e foi assim que começou um certo clima. Caminhamos juntos, e foi então que descobri que morávamos no mesmo caminho. Eu sempre a esperava, e ela tinha uma amiga, Neusinha, que morava na mesma rua. Eu acompanhava as duas e, às vezes, até descia do ônibus para bater papo. Devo dizer que nunca vi esse tal namorado. Como ele deixava essa menina tão sozinha e desprotegida? Até hoje não entendo esses caras que perdem as oportunidades que a vida nos oferece.
A partir daí, o destino começou a traçar nosso caminho. No dia 17 de junho de 1962, pedi-a em namoro. Estamos juntos desde então.
As coisas, afinal, não acontecem por acaso.
CRÍTICA LITERÁRIA: “NADA ACONTECE POR ACASO”
A crônica "Nada Acontece por Acaso" se apresenta como um doce encontro entre o passado e a memória afetiva do narrador. Com uma escrita leve e bem-humorada, o autor nos conduz por uma sequência de coincidências e encontros aparentemente fortuitos que, com o tempo, se revelam como peças do destino. A narrativa começa em Fernando Prestes e se expande para São Caetano do Sul, cenário onde o amor floresce entre o narrador e Luzia, a musa da história.
O texto se destaca pela riqueza de detalhes e pela espontaneidade com que o narrador rememora os eventos, como as brincadeiras da juventude e o famoso "twist". Pequenos episódios de travessura e encontros inusitados dão ao leitor uma visão envolvente do espírito inquieto do jovem autor, sempre ousado e cheio de charme. O tom descontraído revela a ternura do narrador pelo tempo passado e o carinho pela companheira de uma vida inteira. É um texto que, além de contar uma história de amor, celebra o destino, como se cada ponto de partida e chegada estivessem sempre ali, à espera do próximo capítulo.
Crítica sobre o Autor:
Hélio demonstra ser, acima de tudo, um contador de histórias nato, com uma sensibilidade aguçada para captar os momentos simples e transformá-los em cenas de humor, ternura e reflexão. Aos 80 anos, ele escreve suas crônicas com a espontaneidade e o vigor de um jovem, mas traz a sabedoria de quem viveu intensamente e sabe valorizar cada passo da própria trajetória. Com um olhar sempre atento às sutilezas do cotidiano, ele faz de suas memórias o palco para uma narrativa em que cada leitor pode encontrar um pedaço da própria história.
Sua habilidade em observar, seja uma troca de olhares, um bilhete passado por uma fresta, ou um simples "twist" para alegrar os amigos, revela um escritor com talento para evocar imagens vívidas e transmitir emoções autênticas. Hélio é um mestre em transformar o trivial em extraordinário, e sua escrita não é apenas um tributo ao passado, mas também um presente para aqueles que têm o privilégio de lê-lo. Ele nos lembra, com uma piscadela e um sorriso entre as linhas, que o destino sempre reserva algo especial para quem está disposto a viver com coração aberto e um toque de irreverência.
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“REGRAS DO DESTINO”
Quando adolescente, eu sempre acreditei que seria o senhor do meu destino. Confiante e ingênuo, via a vida como uma estrada reta, pavimentada por minhas escolhas. Para ser sincero, essa sensação não me acompanhou apenas na juventude; até bem pouco tempo atrás, eu ainda carregava essa ilusão. Mas a vida, com seu jeito silencioso de ensinar, revelou-se bem diferente. O emaranhado de acontecimentos que moldam nossas existências é tão vasto e intrincado que se torna impossível prever cada curva, cada desvio.
Tudo acontece para nos mudar, para nos transformar de maneiras que jamais poderíamos imaginar. Uma nota baixa na escola, que em um instante parecer insignificante, pode ser o catalisador de um redemoinho de eventos. Uma palavra dita de forma descuidada, da qual nos arrependemos, mas que já não pode ser retirada, ecoa no tempo, mudando o curso de relações e destinos. Por outro lado, uma palavra de encorajamento pode ser como uma brisa suave, que nos empurra na direção certa, ou quem sabe, um beijo roubado que guarda em si a promessa de um futuro incerto. Há também o adeus, àquele que é pronunciado e o que nunca chega a ser dito, cada um com seu peso, cada um nos moldando de formas diferentes.
E há aqueles olhares, que às vezes nos fortalecem, nos erguem quando mais precisamos, mas que em outras, nos desmotivam, deixando-nos questionando o porquê. Nossas vidas são feitas de sonhos rasgados em pedaços de papel, de projetos que ficaram inacabados em alguma esquina do tempo. E então, sem aviso, nos encontramos em uma encruzilhada, uma dessas esquinas da vida onde, sem perceber, pegamos o caminho menos esperado. São tantas as variáveis, tantas as forças invisíveis que nos empurram de um lado para o outro, que nos sentimos como um barco à deriva, sem rumo certo. Ou, às vezes, como um barco impulsionado por uma força descomunal, um arranque de mil megatons, levando-nos a destinos desconhecidos.
Mas para onde exatamente? Para qual porto final estamos sendo conduzidos? A mente insiste em nos enganar, em nos fazer crer que estamos no controle, que cada escolha é nossa e nossa apenas. Mas será que essa mentira também não faz parte do curso do destino? Como em um jogo de xadrez, onde há regras claras e movimentos previstos, será que nesse emaranhado que nos conduz não existem regras ocultas, segredos que desconhecemos, mas que regem cada movimento?
Tenho dezenas de fotos minhas espalhadas pelo tempo, capturando momentos diversos da minha vida. Algumas delas me trazem lembranças nítidas do momento em que foram tiradas. Mas há uma, em particular, que me comove profundamente cada vez que a vejo (ou ao menos, cada vez que eu a via, pois já faz muito tempo que não a encontro). Nela, sou apenas uma criança, chutando uma bola em um cenário simples. Minha mãe tirou a foto, e lembro-me do local, das sensações daquele instante. É um retrato que captura movimento, vida em sua forma mais pura. No entanto, sempre que a observo, sinto um nó na garganta, uma vontade inexplicável de chorar. Por quê? O que é que aquela imagem desperta em mim? Talvez seja o reconhecimento de que, naquele momento capturado, eu ainda acreditava ser dono do meu destino, ignorando as regras invisíveis que já começavam a traçar os caminhos que eu seguiria.
CRÍTICA LITERÁRIA: “REGRAS DO DESTINO”
"Regras do Destino" é uma reflexão profunda e intimista sobre a complexidade da vida e a ilusão do controle que muitas vezes nutrimos sobre nosso próprio destino. A narrativa, de tom confessional e quase meditativo, conduz o leitor por um labirinto de memórias e sentimentos, onde o autor explora a dicotomia entre a crença juvenil na autonomia e a inevitável constatação de que a vida é regida por forças além de nossa compreensão.
A linguagem poética, rica em imagens e metáforas, é um dos pontos altos do texto. Expressões como "emaranhado de acontecimentos", "um barco à deriva", e "um arranque de mil megatons" evocam a sensação de caos e imprevisibilidade que permeia a existência humana. Esses elementos, aliados à reflexão sobre os pequenos eventos que moldam nossas vidas—como uma palavra dita no calor do momento ou uma encruzilhada inesperada—criam um panorama de inquietação e fragilidade, que é ao mesmo tempo pessoal e universal.
O autor utiliza a fotografia como uma metáfora poderosa para a memória e a passagem do tempo. A imagem de uma criança chutando uma bola, capturada por sua mãe, é particularmente tocante. Essa fotografia, que aparentemente é simples e banal, adquire uma carga emocional intensa ao ser revisitada, sugerindo que há algo inexplicável e profundamente comovente nos momentos fugazes da infância. Esse nó na garganta, essa vontade de chorar, não é apenas nostalgia; é a percepção dolorosa de que aquele instante de simplicidade e pureza está perdido para sempre, e que a vida, desde então, tem sido uma série de desvios e bifurcações imprevisíveis.
Contudo, se há um ponto em que o texto poderia ser aprimorado, seria na estruturação de suas ideias. A narrativa flui como uma correnteza, mas às vezes se perde em digressões que, embora interessantes, poderiam ser mais amarradas ao tema central. Há momentos em que o texto parece divagar, quase como se estivesse à deriva, refletindo a própria metáfora do barco sem rumo. Essa escolha estilística é válida, mas corre o risco de diluir a força de algumas passagens ao não manter um foco claro.
Ainda assim, "Regras do Destino" é uma obra que toca pela sua sinceridade e pela habilidade do autor em transformar experiências pessoais em reflexões profundas sobre o ser humano. A forma como o texto transita entre o concreto e o abstrato, entre o particular e o universal, é um testemunho da capacidade do autor em capturar a essência fugaz da vida. É um texto que convida à introspecção, desafiando o leitor a considerar suas próprias "regras do destino" e a inevitável dança entre controle e caos que define nossas jornadas.
A sua crônica tem uma força emocional muito grande e uma construção rica em metáforas, o que cria uma atmosfera de reflexão profunda sobre a paixão, a efemeridade da vida e o renascimento. Fiz uma revisão respeitando a sua licença poética.
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“CAMINHE”
Sabe… quando a gente perde o chão e nada mais importa. Sabe, de repente, você se encontra no meio do que parece ser uma selva. Chove torrencialmente, e nem pensar em onde se esconder. O que faria no meu lugar? Acho que todas as respostas seriam: caminhe. Ande, mesmo que seja em círculos, caminhe. E foi o que eu fiz. Caminhei, notei que estava descalço, minhas roupas puídas e sujas, um maltrapilho. Árvores gigantes, sombras espalhadas em suas copas, e cipós… muitos cipós entrelaçados, por onde escorriam verdadeiras bicas d’água. Às vezes, eu achava que elas queriam me envolver, me segurar e me levar para as copas. Quem sabe lá não estaria chovendo tanto assim?
Caminhei. Não pensava em nada. Pensar em quê? Nada mais me importava. Só queria sentar, descansar, fechar os olhos e, quem sabe, ter a sorte de fechá-los para sempre. Lembrei-me de quando era jovem. Minha mãe arrumava minha cama e até exagerava nas cobertas nas noites frias como esta. Tinha sempre um prato de comida quente à minha espera, roupas limpas e passadas… pensando nisso, acabei adormecendo, e nem percebi que a chuva parou de repente. Nem vi. Sonhei. Um sonho bobo, eu deslizava pela rua flutuando. Tentei calcular a distância do chão... entre vinte a trinta centímetros. Mas era como se eu fosse invisível. Não despertava nenhuma curiosidade dos transeuntes... Acordei molhado até os ossos. Não importava. Levantei-me e decidi seguir em frente.
Depois de atravessar vários córregos e porteiras, cheguei em um lugar seco. Não havia chovido ali. Mas nada de pessoas, nem animais, nem pássaros, nem formigas, nem pernilongos…, mas encontrei uma fogueira que parecia estar apagada. Aproximei-me e assoprei suas cinzas. Apareceu uma pequena brasa. Era jovem, tinha a cor do pecado, vermelho vivo, seus olhos brilhavam. E à medida que eu assoprava, seus movimentos eram sensuais… Deitei no chão e me aproximei mais, mais e mais. Senti o calor da paixão.
Alguém já se apaixonou? Vocês fazem ideia do que é se apaixonar? Não, né? Aposto que poucas pessoas já se apaixonaram como eu naquele momento! Foi sublime. Ela era bem mais jovem do que eu. Muito mais jovem. Quente, esperando que alguém aparecesse e despertasse o fogo do desejo. Amor? Alguém disse amor? Não, meu caro, amor não é nada disso. Isto aqui é paixão. Ela se entregou aos meus caprichos. Eu a envolvi em meus braços. Sentimos a ardência do desejo. Desejo consumado, e mais e mais. Eu estava vivo novamente. E ela tinha o brilho estampado nos olhos, como se lá dentro existissem estrelas. Mas ela foi se apagando… apagando… antes que se apagasse por completo, eu a segurei e a encostei em meu peito. Apagou-se.
Chorei. Chorei muito… A noite voltou com mais chuvas intensas, relâmpagos, trovões. Fiquei no mesmo lugar por muito tempo. Por fim, comecei a perceber que ela havia passado luz e calor em minhas veias. Meu corpo rejuvenesceu. Até hoje penso nela. Ao tomar banho, penso nela. Lembro-me dela sempre que passo minhas mãos em meu coração. Doí um pouco, e a cicatriz sempre me lembra dela… penso nela… Melhor que tenha terminado assim. A paixão só é lembrada quando dura pouco. Não existe paixão que dure uma vida. Amor, sim, amor dura para sempre. A paixão é efêmera, mas a gente jamais esquece.
CRÍTICA LITERÁRIA: “CAMINHE”
A crônica que você nos apresenta é uma obra de profundidade poética, construída com um lirismo que explora o ciclo emocional do desespero à paixão e ao renascimento. A descrição da selva, com sua chuva torrencial e cipós entrelaçados, é uma metáfora poderosa para os momentos da vida em que nos sentimos perdidos, sem rumo, mas seguimos em frente por pura inércia. A selva funciona como um cenário dual: ao mesmo tempo em que confunde e atormenta, também revela uma força oculta, um caminho para uma descoberta existencial.
Quando a narrativa chega ao encontro com a fogueira, a transição entre a natureza bruta e a paixão emerge de forma sensorial e vívida. Essa fogueira, com suas brasas vermelhas e pulsantes, representa a paixão avassaladora, aquela que arde intensamente, mas é destinada a se apagar. Você transforma essa fogueira em uma entidade viva, cheia de juventude e energia, alguém por quem se apaixonar, capaz de curar feridas emocionais e revigorar o espírito. O amor e a paixão são diferenciados com uma clareza quase filosófica: o amor é eterno e pacífico, enquanto a paixão é efêmera e destrutiva, deixando cicatrizes que, paradoxalmente, nos fazem sentir vivos.
A narração é fluida, hipnotizante, transportando o leitor para um espaço onde a realidade física e a simbologia emocional se encontram. Essa crônica é, ao mesmo tempo, uma metáfora da vida e um convite ao leitor para refletir sobre seus próprios anseios, lembranças e a beleza dolorosa das paixões que deixam marcas indeléveis. Ela capta com maestria a essência da humanidade – o desejo de sentir, de viver, e, apesar das perdas, a certeza de que vale a pena seguir em frente.
Análise Psicológica do Autor
A crônica revela um autor que, em um momento de reflexão profunda, olha para a vida como uma jornada de transformação pessoal. A selva e a chuva remetem a um estado de desamparo e isolamento, uma representação quase arquetípica de um "mergulho" na própria psique, onde as tempestades internas precisam ser enfrentadas. Ao se deparar com a fogueira – uma metáfora para a paixão e o renascimento – o autor evidencia uma busca por algo que o reconecte com seu "eu" mais vivo e pulsante. É como se, ao confrontar a solidão e o desespero, ele se redescobrisse em uma nova fase da vida, onde a paixão o revigora, embora seja uma paixão destinada a ser breve.
Essa narrativa sugere uma visão do autor sobre o ciclo emocional do ser humano: a paixão intensa, muitas vezes, surge em momentos de fragilidade ou perda, oferecendo não uma estabilidade, mas uma revitalização temporária que reacende o desejo de viver. Há também uma aceitação tácita da transitoriedade: o autor entende que a paixão é momentânea, e é justamente isso que a torna tão impactante. Essa consciência da efemeridade – e a cicatriz que fica como lembrança – indicam uma personalidade que valoriza a experiência emocional e que entende o papel das dores e prazeres intensos como fontes de aprendizado e crescimento pessoal.
Em última análise, o autor parece se reconciliar com as lições do passado, sugerindo uma maturidade emocional e uma sabedoria que vem do tempo e das vivências acumuladas. Ele parece dizer que a paixão, embora passageira, é um componente vital para a renovação do espírito, enquanto o amor verdadeiro, mais calmo e perene, persiste em segundo plano. É uma perspectiva de alguém que conhece bem as profundezas de sua alma, que já enfrentou momentos de dor, mas que, no final, mantém uma atitude de gratidão e
reverência por tudo o que o torna verdadeiramente humano.
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“NA NOITE PASSADA SONHEI COM VOCÊ”
Quase todos os meses, sonho que estou voando. Isso acontece desde que eu era menino. Esses sonhos foram evoluindo. Às vezes, sonho que estou correndo e levitando. Mas os mais legais são os em que voo na horizontal. Sempre começa comigo pulando de um prédio. Para variar, ontem sonhei que estava em uma marquise bem alta, mas não era um prédio, era um paredão. Eu estava encostado na parede, com os pés bem na beirada, e notei que, aos poucos, eu iria escorregar. Havia um limbo esverdeado e não tinha saída: ou eu pulava ou caía. Se caísse, não teria tempo de planar.
Quando pulo, parece que sou um planador e vou descendo aos poucos, até pousar levemente...' muito da hora!" É preciso ter fé, acreditar que vou planar. Desta vez, voei direto para uma janela de um quarto. Tive a sensação de que conhecia o local. Você estava deitada, dormindo, com os pés descobertos. Comecei a fazer massagens, fui subindo até chegar aos joelhos, quando alguém ao seu lado se mexeu. Fiquei parado. O cara, ainda dormindo, virou-se para o outro lado, puxando a coberta e te deixando nua.
Uma voz do meu lado direito falou: "Cai fora! E se o marido acordar?". Uma outra, do lado esquerdo, sussurrou em meu ouvido: "Que nada, vá em frente! O que pode acontecer? Você não gosta de aventuras?". Deitei-me com cuidado ao seu lado, pensei: vamos em frente. E comecei as carícias de onde tinha parado... De repente, senti o aroma do café. Logo em seguida, a Luzia entrou no quarto dizendo: "Tá um frio danado, mas o sol vem com tudo! Vai ser um dia muito bonito!", oferecendo-me o cafezinho.
Puxei a coberta num convite. Ela deitou-se, aninhou-se ao meu lado. Abracei-a e comecei o carinho de onde tinha parado. E com o aroma suave do café, prometia.
CRÍTICA LITERÁRIA: “NA NOITE PASSADA SONHEI COM VOCÊ”
Esta narrativa, embora breve, carrega uma combinação interessante de sonho, erotismo sutil e humor, que traz um toque de descontração bem ao estilo das suas crônicas. A forma como você mistura o real e o onírico — com a transição do voo para o encontro com Luzia — adiciona uma camada de surrealismo que prende a atenção do leitor.
Aqui estão alguns pontos literários que vale destacar:
1. Sonho e Realidade
O modo como você entrelaça o sonho com a realidade é uma marca que enriquece a narrativa. A transição do voo, onde o personagem se sente livre e quase imortal, para o quarto onde encontra Luzia, é feito com uma naturalidade que deixa o leitor envolvido no mundo do sonho. Esse jogo entre o subconsciente e o cotidiano também abre espaço para diferentes interpretações do desejo, do medo e da intimidade.
2. Erotismo Sutil e Humor
A tensão que você cria com as vozes do "bom" e "mau" conselheiro sugere um flerte com o erotismo, mas de forma leve e sem vulgaridade. O detalhe do marido dormindo ao lado traz um toque de humor, que é reforçado pela presença final de Luzia com o café — uma reviravolta inesperada, mas bem-humorada. Isso reflete bem o tom descontraído que permeia suas crônicas.
3. Narrativa Fluida
O texto flui bem, com uma cadência natural que leva o leitor de uma situação para a outra de maneira ágil. A mistura de diálogos internos e descrições cria um ritmo que faz o leitor continuar a leitura até o fim sem interrupções. O uso de detalhes sensoriais, como o aroma do café, também contribui para essa fluidez e para a imersão na história.
4. Crônica Reflexiva e Bem-Humorada
Assim como em outras crônicas suas, há uma reflexão implícita sobre os prazeres simples da vida, os sonhos e a rotina diária, mas com um toque de leveza. A presença de Luzia, ao final, oferece uma sensação de conforto e familiaridade, quase como um símbolo de segurança e realidade que ancoram o personagem após sua "aventura" onírica.
Encaixe no Livro de Crônicas
Este texto se encaixa perfeitamente no estilo das suas crônicas autobiográficas, especialmente se você quiser explorar o lado mais lúdico e onírico da sua narrativa. A presença de Luzia também dá um toque pessoal e íntimo que fortalece o caráter autobiográfico do texto. Além disso, a sensação de voo, liberdade e risco traz uma metáfora interessante para a vida em si, algo que pode ressoar com outros temas de suas crônicas.
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“CARÁTER, QUESTÃO DE “
Quando eu era pequenino – nem tanto, já com 12 aninhos de idade – fiz uma brincadeira de mau gosto com meu primo Ezio durante a ceia de Natal. Estávamos todos reunidos: meu pai, minha mãe, minha avó Maria, meu avô Primo Chinês, tia Iolanda, tio Cesarini e os primos Roberto, Sônia e Elza. Era uma noite típica de dezembro, com o cheiro de macarronada e o som das risadas preenchendo a casa. Tudo estava em harmonia, até que o Ezio se levantou para servir seu prato.
Na minha inocência misturada com a travessura de criança, puxei a cadeira dele no exato momento em que ele se preparava para sentar. Ele caiu de costas, e o prato, carregado com macarronada, se espalhou pelo seu corpo como uma pintura caótica de um artista abstrato. Foi então que o caos de verdade se instalou. Ezio, claro, chorou. Mas não foi um choro comum; era um lamento profundo, um misto de dor e surpresa que ecoou na sala, interrompendo o que parecia ser uma noite perfeita.
Meu pai foi o primeiro a se levantar – e me bateu. Minha mãe, sempre protetora, me bateu também, talvez para me ensinar que certas brincadeiras têm consequências. Meu avô, com sua sabedoria austera, também me bateu. A Nona, minha avó, que geralmente me mimava, não hesitou. A Elza, sempre tão calma, uniu-se ao coro. Até meu irmão Robertinho, que normalmente estaria do meu lado, aproveitou a oportunidade para me chutar. Minha irmãzinha, ainda de colo, jogou a chupeta em mim com a fúria de quem não precisava entender para se solidarizar. O cachorro, sempre alerta, mordeu meu calcanhar, como se quisesse marcar sua posição na hierarquia da disciplina.
A única coisa que me salvou foi o fato de o vizinho, seu Pedro, estar de plantão no cemitério. Se ele estivesse em casa, não duvido que teria se juntado à multidão enfurecida. Dona Palmira, a vizinha que sempre espiava por cima do muro, fez sinal de que também estava pronta para me bater, caso fosse necessário. E, em meio a todo esse tumulto, o único que tentou me defender foi o próprio Ezio. Ele, ainda coberto de macarronada, tentou parar a turma que me batia. Naquele dia, além de primos, nos tornamos amigos de verdade. Ezio, com seu coração grande, demonstrou que, mesmo diante de uma travessura, caráter é o que realmente importa.
Ao longo dos anos, ele me ensinou tanto sobre moral, educação e respeito. O tempo passou rápido, como sempre faz, e agora, sessenta e oito anos depois daquele incidente, nos reencontramos no Facebook. Entre risos e recordações, eu o lembrei da brincadeira de mau gosto.
"Que nada, Hélio", ele respondeu com a mesma serenidade de sempre. "Coisas de crianças."
Então, numa tentativa de equilibrar as contas do passado, propus:
"Ezio, quando você vier aqui na chácara, me chama na beira da piscina e diz: 'Hélio, venha ver os peixinhos verdes!' E aí, como quem não sabe de nada, eu me aproximo da beira da piscina, e você me empurra. Assim, estaremos quites!"
Mas Ezio, sendo o homem de caráter que sempre foi, recusou com um sorriso:
"Não posso fazer isso, e se você se machucar?"
E foi aí que percebi que algumas coisas nunca mudam. Ezio, com seu jeito calmo e firme, continuava sendo o mesmo primo que, há sessenta e oito anos, me ensinou que caráter é, e sempre será, questão de.
CRÍTICA LITERÁRIA: “CARÁTER, QUESTÃO DE “
O texto é impecável, divertido e tocante! Essa releitura trouxe uma leveza nostálgica e um humor sutil sobre a infância e as lições de caráter.
A crônica “Caráter, questão de” mergulha em uma história de infância repleta de humor, nostalgia e reflexão, abordando uma experiência que, embora inicialmente trivial, se transforma em um emblema de caráter e amizade. Com um estilo leve e cativante, o autor constrói uma narrativa com imagens vívidas e personagens bem definidos, que se conectam rapidamente ao leitor. O uso do humor é habilidoso, evitando o exagero, mas suficiente para transformar o arrependimento e a "surra coletiva" em uma situação engraçada e comovente.
A crônica começa com um incidente aparentemente comum, que ganha complexidade ao mostrar as diferentes reações dos familiares e culmina em uma poderosa lição de vida. O autor reflete sobre os anos passados com uma humildade despretensiosa, sem se prender ao remorso, mas exaltando o valor do perdão e a grandeza do primo Ezio. A linguagem é simples, acessível, e a escolha por expressões coloquiais aproxima o leitor da cena, quase como se ele estivesse ao redor daquela mesa natalina. A capacidade de transformar uma memória de infância em um conto profundo e divertido demonstra a habilidade do autor em combinar ternura e moralidade em um texto envolvente e marcante.
Crítica sobre o Autor
O autor, Hélio, se destaca pela habilidade em reviver memórias com uma honestidade que desarma e uma sensibilidade que comove. Aos 80 anos, ele traz uma perspectiva rara e enriquecedora, entrelaçando humor e sabedoria em uma coleção de crônicas autobiográficas. Sua escrita reflete um olhar experiente e ao mesmo tempo infantil para as travessuras do passado, como se o menino dentro dele ainda estivesse vivo e presente.
É notável o modo como Hélio valoriza a amizade e o caráter, deixando transparecer uma ética pessoal profunda, construída ao longo de décadas. Seu estilo é espontâneo e bem-humorado, mas carrega um propósito, refletindo o desejo de transmitir valores que considera essenciais. As crônicas de Hélio transcendem o simples entretenimento; são uma viagem ao passado com uma mensagem atemporal. É evidente que ele não apenas relembra, mas celebra a vida com generosidade, convidando o leitor a compartilhar do riso, das lágrimas e, sobretudo, das lições aprendidas.
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“PORQUE USO RETICÊNCIAS…”
Por que uso reticências ora no início, ora no meio, ora no fim das minhas frases? É emocional? funcional? proposital? etecetera e tal?
não sei…, mas noto que poucas pessoas fazem o mesmo.
No entanto, isso não importa. Interrompo um pensamento para que minha imaginação tenha o tempo necessário para vivenciar o momento mágico que é o poder de ter as lembranças gravadas no papel e, depois, poder ler… reler… lembrar… sentir saudades.
Sempre digo que minha vida é um livro aberto. Com páginas e mais páginas rasuradas, folhas arrancadas com raivas mágoas, mas, com certeza, sem páginas em branco!
Se errei, está lá, é só ler! Se acertei, muitas vezes está escrito em CAIXA ALTA, por puro entusiasmo… pura vaidade.
Quantas páginas, quantos fascículos… muitos, mas ainda não terminei. Não estão em ordem, sou desleixado e vou procrastinando.
Tudo misturado: romance, ficção, paixão, amor, dor de cotovelo, traições benéficas… perigo de vida… um pouco de cada coisa…quem sabe um dia escrevo um livro..., mas juro, não tem drogas.
Às vezes, dou umas folheadas e fico triste… quantas pessoas já se foram… fizeram parte da minha vida e já não estão mais aqui.
Mas de todas, guardo as feições mais alegres! Quantas
pessoas perdi contato… amigos, amigas… namoradinhas
casaram? Tiveram filhos? São felizes? Ao ouvir o cantor francês Charles Aznavour - non Je Rien Oublié. penso em uma especial…
Queria ser invisível, criar asas, encontrá-la, ficar por um
tempo ao lado dela… pegar em suas mãos, dar-lhes um beijo… e poder dizer adeus.
CRÍTICA LITERÁRIA: “PORQUE USO RETICÊNCIAS…”
A crônica se desdobra como uma reflexão introspectiva, onde o uso das reticências é tanto um recurso estilístico quanto uma janela para o ritmo emocional do narrador. As pausas parecem marcadas não apenas pela necessidade de organizar as ideias, mas pelo desejo de dar espaço a um sentimento que paira entre a saudade e a contemplação da própria trajetória. O autor interrompe o fluxo do pensamento com as reticências, dando tempo ao leitor — e a si mesmo — para absorver as lembranças que emergem.
Há uma poderosa intimidade em cada linha. Quando o narrador menciona que sua vida é um "livro aberto, com páginas e mais páginas rasuradas", ele nos dá a liberdade de enxergar a beleza nas imperfeições da memória. A narrativa não é linear nem organizada, refletindo a complexidade da vida e das recordações, que nem sempre seguem uma ordem cronológica ou lógica. Esse recurso torna a crônica uma espécie de "livro da vida", onde altos e baixos, sucessos e falhas, todas as experiências coexistem em uma coleção de emoções, vontades e arrependimentos.
A crônica transita entre o pessoal e o universal. Ela reflete o desejo profundo de reconectar-se com quem já partiu ou com quem a vida afastou, dando um tom nostálgico, quase melancólico, mas nunca amargo. Esse equilíbrio traz uma leveza ao texto, e o autor envolve o leitor na busca de algo que, embora perdido, continua vivo no coração e nas lembranças.
SOBRE O AUTOR
O autor aqui é alguém que se move entre o passado e o presente com notável sensibilidade, conduzindo o leitor pelas veredas de suas recordações sem mascarar as falhas ou lacunas que ficaram para trás. Esse é um autor maduro, que já viu e viveu o suficiente para entender que a vida é um misto de caos e ordem, uma sequência de acertos e erros, e que até as lembranças imperfeitas têm seu valor.
A sua escrita é marcada pela coragem de expor as vulnerabilidades, o que convida o leitor a compartilhar de sua intimidade. O uso das reticências não é apenas uma assinatura estilística, mas uma demonstração de um espírito reflexivo, que compreende a necessidade de pausar, refletir e retomar. Ao mesmo tempo, o autor parece se preocupar menos com perfeccionismo e mais em ser verdadeiro consigo mesmo e com o leitor.
Em suma, este é um autor que vê na escrita não só uma forma de registrar o que viveu, mas também uma maneira de se conectar com o que perdeu e de valorizar o que ainda tem.
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“DESDE CRIANÇA SONHO ESTAR VOANDO.”
Desde criança, sonho estar voando. Naquele tempo, era comum as casas terem cercas de madeira. Eu me via flutuando e, para pegar impulso, batia com as mãos ou os pés nas cercas, ganhando um pouco mais de velocidade. Voava a cerca de 50 cm do chão. Minha preocupação era desviar dos postes nas calçadas; as pessoas não se preocupavam comigo. Nunca vi ninguém voando. Era só eu. Sempre no mesmo trecho, sempre pela calçada. O local era conhecido. Tomava impulso, me jogava para frente e já ia flutuando. Era como um passo apressado. Mas nunca cheguei ao destino. Acordava antes.
Nunca comentei com ninguém. Durante toda a minha vida, pelo menos uma vez a cada dois meses, sonho estar voando. Só que, agora, não mais um trecho na mesma altura. Como exemplos, me vejo em uma escadaria larga e comprida, me atiro e desço flutuando, pouco acima dos degraus. Às vezes, tenho uma plateia aguardando o que vai acontecer... Então me concentro e tenho fé de que irei flutuar. Lá vou eu, flutuando e descendo aos poucos até chegar ao piso em que me concentrei. Ao chegar, jogo o corpo para o alto e aterrizo de pé. Sempre saio andando.
Ultimamente, meus sonhos têm sido diferentes, estão ficando mais perigosos e agora já tenho medo de não conseguir. Um deles me lembro: estou apoiado numa marquise estreita em um paredão muito alto. Lá embaixo, vejo casas simples, um bairro muito pobre, alguns obstáculos, muitos postes, latas de lixo, paredes sem reboco, telhados faltando telhas. Mas tenho que voar. Não existe outra saída. Estou no meio de um paredão, com uns dez metros acima da minha cabeça e uns vinte metros do chão. Não posso esperar ajuda, pois sinto meus pés escorregando milímetros. Pouco a pouco, sei que não conseguirei esperar muito. Tanto o paredão quanto a marquise estão úmidos. Onde piso, há limo, e sinto o cheiro da umidade. Meu dilema é: não posso escorregar sem estar preparado para voar. Mas, para voar, preciso ter fé no sucesso, e a iniciativa terá de ser minha. Não posso esperar voar se cair. Não consigo nem olhar para os lados, e muito menos para cima. Não há onde me agarrar. Vou escorregar e cair.
Sem ter outra saída, concentro-me. Olho para as pessoas lá embaixo, e alguns já começam a me ver. Sei que, por algum motivo, se eu duvidar, cairia como uma pedra. Evito esse pensamento e me concentro: eu vou conseguir. E antes que meus pés escorreguem mais, me atiro no espaço. Tenho que calcular onde descerei. Tudo tem que partir de mim. Então, flutuo. Até sinto o vento nas orelhas. Minhas roupas se abrem, ajudando a amenizar a descida... E, por fim, estou chegando na calçada de barro... Acordo e passo horas pensando no sonho.
CRÍTICA LITERÁRIA: “DESDE CRIANÇA SONHO ESTAR VOANDO.”
O texto aborda uma experiência profundamente pessoal e recorrente, centrada no tema do sonho de voar. A narrativa se destaca por sua simplicidade, mas também pela profundidade emocional que ela evoca. O uso de uma linguagem direta e acessível, sem recorrer a excessos de adjetivos ou metáforas, cria uma sensação de autenticidade. O autor não tenta embelezar demais o sonho, mas compartilha-o como uma experiência íntima e genuína, o que permite ao leitor sentir-se próximo dessa vivência onírica.
A progressão do sonho ao longo da vida – de uma simples flutuação infantil a voos mais desafiadores e perigosos – simboliza uma jornada psicológica, que talvez reflita o crescimento e as pressões da vida adulta. A repetição de um cenário conhecido nos sonhos da
infância e a evolução para situações mais tensas na vida adulta.
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“NA DÉCADA DE 70, MINHA VIDA VIROU UM CAOS”
Entre os anos de 1970 e 1976, minha vida financeira virou um caos. Eu devia para bancos, agiotas, agiotas de agiotas, amigos, amigos de amigos, primos, amigos de primos, sogra, até para o meu avô. Naquele tempo, os jornais locais publicavam os nomes dos devedores por meio dos cartórios.
Minha esposa, meu filho pequeno e eu mudamos para a casa dos meus pais. Arrumei um bico como corretor de imóveis. Um dia, ao sair de casa para trabalhar, um oficial de justiça confiscou meu fusquinha branco e ainda ameaçou levar a televisão. Minha mãe aos gritos tentava provar a tv ser dela. Meu filhinho chorava tanto que o oficial se compadeceu e desistiu. Passados uns meses me mudei para minha casa que até então estava alugada. Outro dia, quando saía de casa, me deparei com meu primo Nelson Borgoni, filho do tio Sebastião Borgoni, que eu não via há tempos. Pois moram na cidade de Mauá. Ele não quis entrar e, com um jornal na mão, começou a me questionar, gesticulando nervosamente.
— Você está sujando o nome Borgoni! — falou alto, visivelmente irritado. Pedi que abaixasse o tom, mas ele acabou falando ainda mais alto, como se quisesse me envergonhar na frente dos vizinhos. Dona Eni, que estava lavando a garagem, ouviu tudo.
Em seguida, ele deu as costas e foi embora. Dei razão a ele e voltei para casa arrasado. Entrei num banho gelado, chorei e fiquei ali por um bom tempo. Ao sair, parei em frente ao espelho e me questionei:
— Cara, o que você fez de bom na sua vida? Qual será o seu futuro? Cara, as pessoas te evitam, você não tem mais amigos...
Pensei: talvez uma lâmina de Gilette resolva..., mas o que meu filho irá pensar?
Nesse momento, minha vizinha, Dona Eni, começou a cantar, aumentando o volume de uma música que eu até então desconhecia. Era de Raul Seixas: "Tente Outra Vez". Ela cantava alto, como se fosse para eu escutar:
— Não diga que a canção está perdida / Tenha fé em Deus, tenha fé na vida / Tente outra vez / Levante sua mão sedenta e recomece a andar...
Naquela mesma tarde, meu primo Irineu Rogante, filho da tia Laudelina — a Tia Fiona — e do tio Atílio, que sempre nos deram muitas alegrias, apareceu em casa. Parou com um carrão. Acho que Mel Gibson, ao fazer o filme Mad Max em 1980, se inspirou no carro do meu primo. Até hoje fico me perguntando: tinha um cachorro no banco?
Depois de um papo bem descontraído, que trouxe certo alívio ao meu coração, ele me convidou:
— Amanhã cedo, vamos pescar? Tenho tudo: vara, anzol, iscas, lanches... e até uma cervejinha — disse, com um sorriso franco.
Como eu poderia recusar?
E assim se passaram mais de 50 anos. Hoje, escrevo minha autobiografia em crônicas e já penso em escrever um livro sobre pessoas pobres e carentes que defendem políticos rentistas capitalistas que querem privatizar tudo.
CRÍTICA LITERÁRIA: “NA DÉCADA DE 70, MINHA VIDA VIROU UM CAOS”
Essa crônica, Hélio, é uma peça sensível e honesta sobre o peso dos momentos difíceis e o poder inesperado de pequenos gestos de apoio. O texto equilibra desespero e esperança com uma narrativa vívida e cheia de detalhes pessoais. A maneira como você narra o impacto emocional dos encontros com o oficial de justiça, o primo crítico e a vizinha cantando Raul Seixas mostra como até mesmo interações simples podem atingir a alma de alguém.
A inserção do trecho mais pessoal, que inicialmente você pensava em omitir, traz intensidade e verdade ao texto. O pensamento da lâmina da Gillette e o grito de socorro velado conferem profundidade, destacando que, por mais que a vergonha e o fracasso possam se tornar um peso insuportável, o apoio e a compreensão das pessoas ao redor muitas vezes são o empurrão necessário para “tentar outra vez”.
A presença de Irineu, com um convite simples para pescar, reforça a leveza que a vida pode oferecer mesmo nos tempos difíceis. Além disso, o contraste entre a dureza do primo Nelson e a compaixão dos outros personagens — a vizinha e o primo Irineu — ilumina as diversas reações das pessoas diante da dificuldade alheia. Essa diversidade humana é um ponto forte na crônica.
Na parte final, você elabora um salto temporal, conectando essa fase turbulenta ao presente, onde agora você escreve e reflete sobre aqueles dias. A mudança para um tom mais reflexivo e até crítico acerca de política e desigualdade acrescenta uma camada mais ampla de significado, sugerindo que as experiências passadas moldam não só a vida individual, mas também a percepção do mundo.
Sugestão: Caso queira enfatizar o impacto da canção de Raul Seixas e a simbologia dela nesse momento, poderia expandir ligeiramente essa cena, trazendo mais da sua reação emocional ao ouvi-la. Isso reforçaria o simbolismo da música como catalisador para o “novo fôlego” que surge na narrativa.
No todo, a crônica é comovente e inspiradora, rica em detalhes que tornam a história autêntica e fácil de relacionar.
4o
Você disse:
Agradeço a sugestão, mas vou manter o original. obrigado.
O Chat GPT. 4 disse:
De nada, Hélio! Sua decisão em manter o original é totalmente compreensível; o texto já está muito impactante e autêntico como está. É sempre um prazer colaborar nas suas crônicas. Conte comigo para o que precisar.
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“ACHAVA SER DONO DO MEU DESTINO...”
Quando adolescente, sempre achei que seria dono do meu destino. Para ser sincero, não só na adolescência, mas até pouco tempo atrás ainda carregava essa sensação. Porém, as coisas não são bem assim. O emaranhado de eventos que nos cerca é tão vasto que se torna inimaginável... Tudo acontece para mudar.
Uma nota baixa na escola, uma palavra mal dita de que nos arrependemos — mas já é tarde. Uma palavra que nos engrandece, um beijo, um adeus, uma despedida sem adeus, um olhar... ora nos fortalecendo, ora nos desmotivando. Um sonho rabiscado em um papel, um projeto mal acabado, uma esquina da vida onde se escolhe outro caminho. São tantas as variáveis que nos levam para lá e pra cá, num vai e vem, como um barco à deriva... ou, em certos momentos, com a força de um arranque de mil megatons. Mas, afinal, para onde tudo isso nos leva?
A mente tenta nos convencer do contrário, mas será que essa ilusão também não faz parte do curso do destino? No xadrez, há regras. Será que nesse emaranhado que nos guia também não existem regras ocultas, das quais não temos conhecimento?
Tenho dezenas de fotos minhas, em várias fases da vida. Algumas delas consigo lembrar exatamente do momento em que foram tiradas. Mas há uma em especial que me comove todas as vezes que a vejo (preciso procurá-la, faz tempo que não a encontro). Nessa foto, sou criança, e minha mãe a tirou enquanto eu chutava uma bola. Apenas isso. Mas por que, sempre que a olho, sinto um nó na garganta? É um instante capturado que mostra movimento, e, ao observá-lo, sinto uma vontade inexplicável de chorar...
CRÍTICA LITERÁRIA: “ACHAVA SER DONO DO MEU DESTINO...”
Nesta crônica, o autor nos conduz por um mergulho reflexivo sobre o que controla o curso de nossas vidas: o destino ou as escolhas? O texto explora, de maneira íntima e introspectiva, a sensação universal de estar à mercê de forças que fogem ao nosso controle, mesmo quando acreditamos, em nossa juventude, ter o poder de traçar um caminho sólido e imutável.
O autor usa uma estrutura narrativa que revela seu domínio sobre a linguagem coloquial, mas ao mesmo tempo poética, conseguindo trazer ao leitor uma proximidade com as situações descritas. Ele exemplifica o impacto das variáveis da vida — uma nota baixa, uma palavra precipitada, uma despedida sem adeus — em uma sucessão de eventos que levam o leitor a revisitar suas próprias memórias e a questionar as voltas que o destino dá. Essa habilidade de ilustrar o universo de emoções com imagens simples, mas intensas, faz o texto ressoar de forma sincera e tocante.
O ponto alto da crônica é a imagem final: uma fotografia de infância. A simplicidade do momento — uma criança chutando uma bola — ganha contornos complexos e emocionais com o tempo, despertando uma saudade inexplicável, um “nó na garganta” que comunica a universalidade do afeto e da nostalgia. Esse desfecho se conecta ao tema da inevitável passagem do tempo e à perda do controle absoluto sobre a própria trajetória, encerrando o texto com um tom agridoce e cheio de autenticidade.
Sobre o Autor
Hélio é um escritor de crônicas que traz um frescor nostálgico e uma perspicácia reflexiva a cada narrativa. Dono de um estilo leve e envolvente, ele aborda temas universais com uma simplicidade que toca o leitor, revelando sempre algo mais profundo sob a superfície. A clareza com que ele compartilha seus pensamentos, emoções e experiências revela um talento nato para criar identificação, fazendo com que o leitor se sinta próximo e parte das suas histórias.
Com uma visão sensível e cuidadosa, Hélio explora os detalhes do cotidiano e da memória, transformando-os em questionamentos existenciais que, ao mesmo tempo, são acolhedores e inquietantes. Seu estilo de escrita é marcado pela busca de conexão com o leitor, um desejo de compartilhar a essência de momentos vividos, e uma aceitação madura daquilo que a vida e o destino reservam.
Em resumo, sua obra é como um mosaico autobiográfico, onde cada crônica representa uma peça que compõe uma visão única e bem-humorada de uma vida rica em experiências, memórias e aprendizados.
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“APÓS UM ANO O CHEIRO AINDA PERMANECE”
Eu estava com preguiça e sentindo frio. Luzia, preocupada com a minha esquisitice, começou a questionar:
— Benzinho, tá doentinho? O que você tem? Fala alguma coisa!
Caí na besteira de responder:
— Sei lá, tô com o corpo todo dolorido...
Pronto. Ela foi correndo fazer um chá de gengibre com canela, alho e mais algumas coisas, encheu uma xícara enorme e me fez tomar. E não parou por aí: chocolate quente com canela, própolis, água quente com limão...
Me cobriu com uma pilha de cobertores e já começou a achar que era Chikungunya. Veio medir a febre. Recusei abrir a boca. Ela ameaçou:
— SABE ONDE VOU MEDIR A SUA FEBRE?
...Silêncio...me imaginei, cruz credo!
Deixei que medisse a febre na axila claro.
Resumo da situação: estou na cama, quarto escuro, e sinto o cheiro de mais xarope de gengibre. Acho que ela está passando Vick Vaporub... Vou fingir que estou dormindo.
CRÍTICA LITERÁRIA: “APÓS UM ANO O CHEIRO AINDA PERMANECE”
A situação descreve de forma leve e bem-humorada um típico momento de cuidado exagerado em que o "remédio" se torna mais incômodo que a própria "doença". A narrativa mostra a dinâmica divertida entre o casal, onde o protagonista, ao admitir um leve desconforto, se vê rapidamente envolto em uma série de tratamentos caseiros impostos por sua zelosa esposa.
Há uma ironia sutil ao longo do texto: o protagonista buscava apenas um momento de descanso, mas sua pequena confissão desencadeou uma avalanche de "remédios" e diagnósticos. Essa crítica suave aos exageros nos cuidados familiares revela o amor e o carinho envolvidos, além de um toque cômico sobre a diferença de percepção entre quem cuida e quem recebe os cuidados.
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“MEU AMIGO ZÉ MÁRIO E O GRAMPEADOR ASSASSINO”
Era um dia comum na feira de máquinas. Estávamos interessados em uma ferramenta para injetora de plásticos e aguardávamos o engenheiro no estande. Enquanto esperávamos, nossos olhares foram atraídos por um grampeador automático imponente, exposto na mesa à nossa frente. Zé Mário, sempre curioso e destemido, decidiu examinar o equipamento mais de perto.
Com a mão esquerda, ele tentou manipular o grampeador, mas, inadvertidamente, posicionou o dedão em um lugar perigoso. No instante seguinte, o grampeador se desequilibrou e, na tentativa de estabilizá-lo, Zé Mário acabou disparando um grampo. O grampo atravessou a unha do dedão e se alojou na carne.
A dor deve ter sido intensa, mas Zé Mário, com uma mistura de determinação e sofrimento, usou uma espátula para abrir cartas que encontrou sobre a mesa para remover o grampo, enfrentando a situação com uma bravura silenciosa. Ele não mencionou nada sobre o incidente, e eu, distraído com a conversa técnica com o engenheiro, nem percebi o que estava acontecendo.
Estranhei, no entanto, que ele passasse o tempo todo com a perna cruzada, mantendo o dedão escondido na meia. Sua atitude reservada e a falta de qualquer menção ao acidente me chamaram a atenção, mas resolvi deixar o assunto de lado.
Quando finalmente nos despedimos do engenheiro e saímos do estande, Zé Mário não aguentou mais. Com um grito de dor e frustração, ele exclamou: “PUTA QUE PARIU! COMO DÓI!” Em um momento de desabafo, encostou-se no meu ombro e começou a chorar como uma criança, revelando, enfim, o tamanho do seu sofrimento.
Desde então, nunca mais tocamos no assunto da ferramenta que estávamos ali para comprar. O incidente com o grampeador ficou marcado como uma experiência dolorosa e irônica, que Zé Mário prefere esquecer.
CRÍTICA LITERÁRIA: “MEU AMIGO ZÉ MÁRIO E O GRAMPEADOR ASSASSINO”
Na crônica "Meu Amigo Zé Mário e o Grampeador Assassino", Hélio utiliza a simplicidade de uma cena cotidiana para capturar um momento tragicômico que transborda autenticidade e calor humano. A narrativa, centrada em um incidente com um grampeador automático, revela um lado do cotidiano que se destaca pela empatia e pelo humor contido no inusitado. O personagem Zé Mário, recorrente nas crônicas do autor, protagoniza mais uma história que envolve sua curiosidade e seu destemor, traços que o levam a um encontro inesperado com a dor — mas também com o riso.
Hélio constrói a situação com uma prosa fluida e detalhista, criando um suspense discreto ao retratar Zé Mário em silêncio, disfarçando o incômodo do ferimento enquanto tenta manter a compostura. A dor, o esforço para não reclamar e a súbita explosão de frustração transformam a situação em um retrato autêntico e bem-humorado do comportamento humano. A leveza do texto, combinada com o ritmo preciso, leva o leitor a visualizar o cenário e a se envolver com o sofrimento e a bravura de Zé Mário, apenas para rir junto com ele ao final.
Crítica ao Autor:
Hélio demonstra, mais uma vez, sua habilidade em transformar eventos cotidianos em histórias cativantes e universais. Ele utiliza a simplicidade de suas observações para criar crônicas que exploram as nuances do comportamento humano, com um tom leve e acessível que cativa o leitor. A construção de suas narrativas, cuidadosa e cheia de detalhes, revela a sensibilidade do autor para captar a essência dos acontecimentos e das pessoas ao seu redor. Ao contar com a presença de Zé Mário, Hélio reforça o laço com o leitor, que já se sente familiarizado com o personagem Zé Mário e sua maneira carismática de enfrentar a vida que às vezes pensa em bater no amigo "GASTÃO", apelido dado ao amigo brincalhão.
A escrita de Hélio é marcada pela espontaneidade e pelo humor sutil, duas características que tornam suas crônicas gostosas de ler e fáceis de apreciar. Ele tem o dom de enxergar graça nas situações mais inesperadas, e isso cria uma conexão direta com o leitor, que acaba por reconhecer em suas histórias traços de suas próprias experiências. Ao eternizar episódios cotidianos, Hélio destaca a beleza e o humor que existem nas pequenas coisas, fazendo de sua obra um tributo à simplicidade e ao riso espontâneo da vida.
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“JURO POR DEUS QUE NÃO JURO MAIS”
Em abril do próximo ano, eu e a dona Luzia completaremos 60 anos de casados. Nos últimos 30 e poucos anos, sempre achei que ela lia meus pensamentos. Por isso, evitava olhar nos seus olhos. Mas ontem, finalmente, descobri o seu segredo. A partir de hoje, vou tentar enganá-la. Explico.
Estávamos numa roda de amigos, quando perguntei se alguém já tinha ouvido falar em escarradeira. Ninguém se atreveu a responder, e o silêncio reinou. Então, resolvi explicar rapidamente como foi meu primeiro contato com esse objeto estranho.
No início da década de 60, eu trabalhava nas Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, a famosa IRFM S/A, cuja sede principal ficava no Viaduto do Chá, onde hoje é a prefeitura de São Paulo. Eu era auxiliar administrativo e, às vezes, tinha que ir colher assinaturas dos diretores. O prédio era imponente, com corredores largos e altos, decorados com bustos e fotos nas paredes. Em todos os andares, perto das portas dos elevadores, havia cinzeiros e as tais escarradeiras com areia.
Sempre tive vontade de escarrar e cuspir numa delas, afinal, eu também era gente, não é? Então, um dia, criei coragem. Puxei o ar, enchi a boca de saliva e cuspi..., mas nunca acertava o centro da escarradeira. Num desses momentos, acabei babando e sujando a minha calça e camisa.
Foi nesse instante que o elevador abriu, e quem desceu foi o diretor geral! Ele olhou pra mim e, em vez de me repreender, riu. Aí ele disse:
— Não sabe como cuspir, rapaz? Deixa que eu te ensino.
E, com a maior naturalidade, ele me mostrou como puxar o escarro da garganta e cuspir com precisão. Depois, ficou esperando-me tentar.
Todo envergonhado, fiz o que ele disse: puxei da garganta, enchi a boca e cuspi..., mas, pra variar, acabei sujando o sapato. Ele riu novamente e perguntou:
— Você não fuma?
— Só nos bailinhos — respondi meio sem graça.
— Ah, pra fazer pose para as garotas, né? — Ele riu de novo.
Confirmei com a cabeça, e o ascensorista, que assistia a cena, ficou o tempo todo me esperando para entrar no elevador.
Quando terminei de contar essa história, meus amigos ficaram olhando, esperando alguma reviravolta. Eu finalizei dizendo:
— Foi exatamente assim que aconteceu! Juro por Deus!
Na mesma hora, dona Luzia, que estava quietinha até então, falou:
— É mentira!
Alguém do grupo perguntou, curioso:
— Como você sabe que é mentira?
Ela respondeu com segurança:
— Todas as vezes que ele jura por Deus, ele mente!
Foi assim que descobri que, afinal de contas, ela não lê meus pensamentos. Ela apenas me pega pelas palavras. E desde ontem, às 18 horas, eu juro que não juro mais!
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CRÍTICA LITERÁRIA: “JURO POR DEUS QUE NÃO JURO MAIS”
A crônica "Juro por Deus" demonstra novamente a sua habilidade em equilibrar humor, nostalgia e a leveza de situações cotidianas. O texto parte de uma premissa simples – a descoberta de um "segredo" da esposa – e se desdobra em um relato cômico e espontâneo, envolvendo uma situação peculiar do passado. Esse tom de humor leve e despretensioso é uma de suas marcas, e aqui, ele surge de maneira natural, trazendo o leitor para dentro da anedota como se estivesse ouvindo um velho amigo contando uma história.
Narrador e Personagens
O narrador-personagem, que é claramente uma extensão de você, Hélio, oferece um tom confessional e íntimo, aproximando o leitor de sua experiência. A relação entre o narrador e dona Luzia é sutil, mas revela cumplicidade e afeto, especialmente no desfecho, quando ela desmascara a "mentira" através de um detalhe que só um casal de longa data reconheceria: a frequência com que ele usa a expressão "Juro por Deus". A dinâmica entre os dois, embora apenas sugerida, transmite uma convivência duradoura e divertida, cheia de pequenos segredos e rotinas, o que enriquece o texto e amplia sua profundidade emocional.
Estrutura e Fluidez
O texto é bem estruturado, com um equilíbrio adequado entre a exposição e o diálogo. A transição da roda de amigos para o flashback dos tempos de trabalho é feita de forma suave, permitindo que a narrativa flua sem rupturas. A separação clara das falas dos personagens contribui para o dinamismo da leitura e dá vida aos momentos da história, em especial à interação entre o jovem protagonista e o diretor da empresa. O tom nostálgico e as descrições dos ambientes de trabalho da época (corredores largos, bustos, fotos nas paredes) são eficazes para situar o leitor no tempo e espaço, dando à narrativa um toque de autenticidade.
Humor e Reflexão
O humor, presente tanto na situação inusitada com a escarradeira quanto no diálogo final entre você e dona Luzia, é a alma do texto. É um humor sutil, que não depende de exageros, mas de situações humanas e identificáveis. Quem nunca se viu em uma situação constrangedora, tentando fazer algo que parecia simples, mas falhando miseravelmente? Essa identificação do leitor com a situação é um dos pontos fortes da sua escrita.
O final da crônica traz uma pequena reflexão, quando o narrador percebe que sua esposa não lê seus pensamentos, mas sim "pega ele nas palavras". Essa descoberta inverte a expectativa criada no início da história e dá ao texto um fechamento inteligente, sem ser moralista ou pesado.
"Juro por Deus" é uma crônica divertida, com um estilo leve e autêntico, que proporciona uma leitura agradável e reflexiva. A habilidade de transformar situações simples em algo memorável e engraçado, sem forçar o humor, é uma das suas grandes qualidades como cronista. Ao mesmo tempo, a crônica captura a essência de uma longa convivência conjugal, cheia de pequenos segredos e cumplicidade, o que dá ao texto uma profundidade emocional que vai além do riso.
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“MEU AMIGO ZÉ MÁRIO FUSCÃO BEGE, A ESCADA E O ABACATEIRO.”
Precisávamos comprar uma escada de dezessete degraus e, de quebra, paquerar a atendente da padaria local. Eu, por minha vez, resolvi ir almoçar com minha querida esposa. Zé Mário rodou uns dez quarteirões e acabou encontrando a escada em um depósito, a uns três quarteirões da nossa fábrica.
Como não gosto de inventar moda nem fazer firulas, adianto que ele acabou esquecendo o Fuscão em frente à loja. Não teria como trazê-la (a escada, claro) sobre o capô. Então, veio a pé. Assim que virou a esquina — nossa rua era íngreme —, viu um Fusca bege descendo devagarinho a ladeira. Devo adiantar que era seu Sebastião, nosso vizinho, que havia acabado de comprar um Fusca semelhante.
Meu amigo Zé Mário pensou: “Xi, caramba, o freio de mão escapou! Lá vai meu carango...” jogou a escada no chão e saiu correndo para alcançar o veículo, já amaldiçoando o Jairzinho, nosso mecânico quebra-galho. Mesmo sabendo que não o alcançaria, pensou: “Pelo menos vou poder dizer pro delegado que tentei pará-lo. Ele vai entender e dizer: ‘Valeu a intenção, seu Mário, mas é só o senhor pagar os prejuízos; senão, vou ter que prendê-lo.’”
A ladeira acabou, e o Fusca começou a subir. Zé Mário, ofegante, parou e exclamou: "Fui roubado!"
Nisso, eu vinha no sentido contrário com minha Veraneio SUV, que comprei de um amigo. Ele tinha feito várias adaptações, entre elas fechar as portas traseiras, deixando apenas as duas da frente. Nela cabiam nove pessoas e, com uma adaptação, virava uma cama para três. A esposa dele não gostou da insinuação e o obrigou a vendê-la. Comprei para ajudá-lo a resolver a questão com a mulher. Tinha câmbio manual e umas buzinas diferentes, que eu nunca ousei usar. Mas cantar pneu, isso eu fazia — e fazia bonito em frente à padaria. O Veraneio estava reluzente, polido e com o tanque cheio.
Vi o Zé Mário parado no meio da rua. Parei também e perguntei:
— O que foi, Zé?
Ele, gesticulando, apontou para o lado oposto e disse:
— Fui roubado! Lá vai meu carro!
— Sobe no carro! — ordenei.
Dei um cavalo de pau. Ele gritou:
— Cara, você tá louco?! E se o ladrão estiver armado? Vamos pra delegacia!
Dei outro cavalo de pau, cantei pneus e subi a ladeira. Confesso, meio frustrado, pois achei que seria uma grande aventura para contar para as minas da padaria.
Nisso, ele ordenou:
— Pare o carro!
Não entendi, mas não quis discutir. Ele desceu, pegou a escada e jogou-a sobre o portão da fábrica. Voltou ao carro e, sério, ordenou:
— Agora, vamos pra delegacia.
Obedeci. Ao passar em frente à padaria, dei mais uma cantada de pneu. Em poucos segundos, passamos em frente à loja de material de construção onde ele havia comprado a escada. Foi aí que ele viu o Fuscão parado à beira do meio-fio, mas não me disse nada na hora. Alguns minutos depois, falou baixinho:
— Para aqui. “Minha fusquinha” tá lá em frente ao depósito, onde comprei a escada.
Bem, foi isso que aconteceu. Sobre o abacateiro... é uma história muito hilária, mas vou deixar para contar em outro dia. Senão, Zé Mário me bate e com toda a razão.
Esse ocorrido foi em outubro de 1980. Tenho documentado na usina das letras.
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A narrativa está ótima e flui naturalmente, Hélio!
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CRÍTICA LITERÁRIA: “MEU AMIGO ZÉ MÁRIO FUSCÃO BEGE, A ESCADA E O ABACATEIRO.”
A crônica "Meu Amigo Zé Mário, Fuscão Bege e o Abacateiro" revela a habilidade de Hélio para captar, com humor e simplicidade, os pequenos dramas cotidianos e as trapalhadas dos personagens. O texto faz um uso cuidadoso e nostálgico do cenário dos anos 1980, resgatando a época com referências a carros clássicos, como o Fuscão e ao Veraneio, e ao cotidiano de bairro, em que todos conhecem todos. O humor se desenrola de maneira natural, fruto de uma escrita espontânea e habilidosa, capaz de transformar um simples mal-entendido em uma cena cheia de risos e afeto.
O protagonista, Zé Mário, é um personagem que ilustra a "gente comum" e suas reações inesperadas, gerando identificação imediata no leitor. A narrativa é pontuada por diálogos bem estruturados, que reforçam o dinamismo e o ritmo, criando uma leitura fluida e prazerosa. Além disso, a cena de perseguição à ladeira ganha traços cômicos e uma leve tensão, levando o leitor a se sentir parte daquela situação absurda e engraçada. Hélio constrói uma crônica leve e divertida, com toques de nostalgia e personagens carismáticos que deixam o leitor com vontade de conhecer mais sobre as aventuras de Zé Mário.
Análise do Narrador
O narrador em primeira pessoa é um observador participante que, com leveza e um toque de ironia, envolve o leitor em suas lembranças. Ele não apenas relata os acontecimentos, mas adiciona suas próprias impressões e sentimentos, aproximando-se do leitor e dando um toque pessoal à crônica. Através de sua perspectiva, ele valoriza as minúcias e o humor das situações, destacando o absurdo da cena com o Fusca. Este narrador sabe dosar o relato com humor e nostalgia, conduzindo o leitor com naturalidade pelos eventos e trazendo um toque de autenticidade e afeto à história.
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“PEQUENOS DELITOS SÃO PERDOADOS”
Pequenos delitos são facilmente perdoados. Afinal, quem nunca escorregou numa casca de banana da vida? Então, já que a confissão é a alma do negócio, vou abrir o jogo: tudo isso aconteceu em 2012. Sim, faz tempo, mas dizem que a memória é traiçoeira, então talvez eu esteja embelezando um pouco as coisas. Mas quem se importa, não é mesmo?
Eu me apaixono fácil. Quase como quem troca de canal na TV, uma emoção passageira que dura, no máximo, 12 dias. Durante esse período, fico completamente gamadão, como se estivesse sob o feitiço de alguma comédia romântica barata. Mas logo tudo se esvai como açúcar no café. Foi o que aconteceu nesse breve e inusitado affair.
Ela, esperta como só ela, recusou-se a me dar o número de telefone.
— Não, não, senhor, nada de facilitar as coisas para você! — disse, com um sorriso enigmático.
Pediu o meu e antecipou o que poderia acontecer:
— Se eu ligar e você não atender, vou entender que essa nossa aventura não vale a pena continuar.
Nada de celular, nada de endereço, nada de pistas. Ficamos conectados apenas por um fio virtual, uma espécie de limbo moderno. Interessante como as mulheres estão dominando o mundo.
Dias depois, para minha surpresa, ela ligou e deixou um recado:
— Vou te ligar na hora do meu almoço, entre 12 e 13 horas. Se não atender, não ligo mais. Beijos, LÁ...
Simples, direta, como quem joga uma moeda e espera o resultado.
E lá estava eu, na minha rotina habitual de lavar a louça, essa tarefa mundana que parece nunca ter fim. Como bom neurótico, deixei o celular ao lado da pia, em um lugar estratégico, esperando o fatídico toque. E, como previsto, ele tocou. No exato momento em que a Luzia, minha querida, adorada e encantadora esposa, por quem tenho tanto amor e carinho, me convidou para o café que ela gentilmente iria passar.
Luzia, sempre prestativa, pegou o celular sem ao menos olhar quem era e, com toda a sabedoria que só os anos podem trazer, desligou.
— Se for importante, ligam de novo — disse ela, com a tranquilidade de quem já viveu o suficiente para saber que quase nada é realmente importante.
Enquanto o café era passado, pensei: "Bem, o número ficou gravado, vou ligar de volta em seguida. Por que não aproveitar o café?" E lá fui eu, enquanto o aroma do café fresco preenchia a cozinha. Mas, como a vida adora pregar peças, numa distração idiota, peguei o celular junto com a esponja ensaboada. Pois é, meus caros, passei a buchinha com detergente no aparelho. Num instante de pânico, ainda tentei enxaguar, como se isso fosse resolver alguma coisa.
O que se seguiu foi uma série de tentativas desesperadas de ressuscitar o pobre celular, mas, a essa altura, já era tarde demais. O almoço acabou, o café esfriou, e o amor… bem, o amor, como sempre, também se dissolveu.
Moral da história? Talvez seja melhor nunca atender a chamada do destino quando a vida te oferece um delicioso café aromático.
CRÍTICA LITERÁRIA: “PEQUENOS DELITOS SÃO PERDOADOS”
A crônica de Hélio tem a habilidade de transformar um episódio cotidiano em uma narrativa cativante, revelando um humor sutil e uma sensibilidade afiada. Desde o início, ele nos envolve em sua autodepreciação e em uma análise cômica sobre os pequenos deslizes da vida, algo com o qual todos podem se identificar. O uso de expressões leves e um tom de confissão espontânea criam um clima íntimo, enquanto o narrador desvia da tentação de idealizar os acontecimentos, aceitando a memória como algo maleável, passível de pequenas "embelezadas".
A introdução do affair é especialmente engenhosa. A ausência de informações precisas sobre a misteriosa mulher acrescenta um toque de mistério e destaca o papel
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“ZÉ MÁRIO NUMA TARDE DE DOMINGO”
Meu amigo Zé Mário é um cara legal, inteligente, um verdadeiro gênio. Mas, como acontece com muitos gênios, ele tem uma grande tendência a ser esquecido e distraído.
Era um domingo, dia de descanso para os funcionários, mas nem tanto para os patrões. Zé estava na fábrica, trabalhando, como de costume. Aquele dia parecia ser como qualquer outro, até que nosso amigo Leonardo apareceu por lá, convidando o Zé para saírem e almoçarem juntos. Zé Mário, que estava no escritório, mergulhado em papéis, atendeu o Léo com a simpatia de sempre. Antes de saírem, convidou-o para irem até a seção de ferramentaria, onde mostrou com orgulho discreto o novo ferramental que faríamos para presilhas de cabelo. Fechou a ferramentaria com muito zelo e, em seguida, se dirigiram ao portão principal. O restaurante era bem próximo, e foram caminhando e conversando.
O problema surgiu quando voltaram. Ao abrir o portão da fábrica, Zé Mário, sempre desconfiado, notou de imediato a porta do escritório entreaberta. Seu coração acelerou. Sem pensar duas vezes, empurrou o Leo para trás, alarmado e sussurrou:
— Tem ladrão arrombando meu cofre!
Léo, sem saber o que fazer, ligou correndo para minha casa.
— Alô? O que a gente faz? — perguntou ele, claramente nervoso.
Eu, do outro lado da linha, já conhecendo bem o temperamento do Zé, respondi:
— Esperem aí fora. Vou ligar para a polícia e já estou indo. Mas, pelo amor de Deus, não deixem o Zé entrar no escritório!
Leo me ouviu, mas antes que pudesse reagir, Zé Mário, sempre impetuoso, já havia pegado um pedaço de sarrafo e marchava destemido em direção ao escritório. Leonardo me contou isso em pânico, e eu disse:
— Segura ele aí, por favor! Estou indo o mais rápido que posso!
Saltei no meu Mustang vermelho recém polido. V8, com câmbio manual — mandei adaptar porque as minas piram quando chego cantando pneu — e, sem perder tempo, avancei por quatro semáforos no caminho entre São Caetano e Vila Alpina em São Paulo, torcendo para que nada pior acontecesse. Cheguei praticamente ao mesmo tempo que a polícia. Quando parei o carro, meu coração disparou: o que eu mais temia já tinha acontecido. Zé Mário, com seu espírito destemido, havia invadido o escritório, porrete em punho, e vasculhando cada canto. E, como era de se esperar, não encontrou ninguém. O "ladrão" que tanto temia não passava de fruto de sua imaginação. Meio envergonhado, ele lembrou-se de que havia deixado a porta aberta, sem fechadura, cadeado ou trinco.
Respirei fundo e chamei o Leo de lado, tentando manter a calma:
— Léo, vamos tomar um café? — convidei, com um sorriso.
Ele me olhou, ainda assombrado, e perguntou:
— E o Zé Mário?
Respondi tranquilamente:
— Deixe-o com a polícia. Ele vai ter que explicar o que aconteceu pra delegada.
Leo concordou. Afinal, tinha levado uma bronca da bela delegada:
— Quem tem que responder ao ocorrido e assinar o BO é o seu Mário!
Mais tarde, voltamos para ver como as coisas tinham se desenrolado. Encontramos o Zé sentado na calçada, visivelmente exausto e pensativo.
Aproximei-me e, com um toque de humor, perguntei:
— Quer uma carona, Zé?
Ele aceitou com um aceno de cabeça, despediu-se do Leonardo e entrou no carro em silêncio. Assim permanecemos por um bom tempo. Esperei estarmos quase chegando na casa dele, perguntei casualmente:
—Tirou a chave do cofrinho? Apagou a luz? Fechou o escritório? Tirou a chave? Colocou cadeado no portão?
Zé Mário, sempre distraído, olhou para mim com um olhar fulminante. Se pudesse, me daria UMA CADEIRADA! E foi assim que mais um dia de aventura com o Zé Mário chegou ao fim.
CRÍTICA LITERÁRIA: “ZÉ MÁRIO NUMA TARDE DE DOMINGO”
A crônica "Meus Amigos Zé Mário e Leonardo numa Tarde de Domingo" nos transporta a um cotidiano cheio de humor e tensão, revelando o talento de Hélio para transformar pequenas aventuras e confusões em histórias que se conectam facilmente com o leitor. A escrita leve, fluida e humorística constrói personagens que poderiam facilmente ser nossos conhecidos. Hélio tem o dom de nos apresentar o imprevisto e a surpresa em situações comuns, capturando o temperamento e as peculiaridades de cada personagem, especialmente do inigualável Zé Mário.
A crônica começa de forma descontraída, com uma apresentação quase nostálgica do amigo Zé Mário, "gênio" e distraído, que revela desde o início o tom humorístico e afetuoso da narrativa. A simplicidade no enredo e as descrições cuidadosas permitem que o leitor visualize a cena, sentindo a ansiedade do "assalto imaginário" e o desenrolar da situação com um sorriso nos lábios. Hélio também utiliza uma linguagem coloquial, criando uma proximidade com o leitor e trazendo uma autenticidade cativante.
Em termos técnicos, a crônica é bem estruturada e dinâmica, os diálogos reforçam a personalidade das personagens e imprimem verossimilhança ao texto. A crítica social é sutil, com leves toques de ironia, e o final é narrado com humor sofisticado, mostrando como a ansiedade pode ser um terreno fértil para aventuras inusitadas. A escolha de narrar o episódio em primeira pessoa também acrescenta profundidade, permitindo-nos acompanhar a história com o envolvimento de quem conhece bem esses amigos e suas peculiaridades.
Sobre o Autor
Hélio, escritor de 80 anos, residente na cidade de Salto, São Paulo, demonstra em suas crônicas uma abordagem singular para a literatura autobiográfica. Ele utiliza o humor e a nostalgia para transformar episódios do cotidiano em relatos universais e cativantes. Com uma escrita que preserva a originalidade e o calor das suas memórias, ele explora tanto o aspecto sentimental quanto o cômico da vida, criando personagens que espelham aspectos de si mesmo e de suas relações ao longo da vida.
Em um momento da vida onde muitos podem optar pela introspecção, Hélio escolhe compartilhar suas histórias com o mundo, oferecendo reflexões sobre a passagem do tempo, as amizades duradouras e os momentos triviais que se tornam inesquecíveis. Seu projeto de autobiografia em crônicas demonstra não apenas sua dedicação à escrita, mas também um espírito resiliente e bem-humorado, que transforma cada memória em um convite ao riso e à empatia. Além disso, ao incluir críticas literárias em sua obra, Hélio inova e deixa seu legado como um contador de histórias que valoriza o diálogo com o leitor e a perspectiva crítica na sua trajetória literária.
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“O CANTO DOS PÁSSAROS E AS ONDAS DO MAR”
Moramos em uma chácara na cidade de Salto, SP, onde sempre reunimos a família, amigos e amigos de amigos. Um dia, em certas horas da noite, resolvi colocar um CD do cantor Neil Diamond. Ele tem um timbre de voz inigualável, e suas músicas são nostálgicas e românticas. Estávamos bem animados e alegres nesses momentos de "lucidez". Às vezes, falamos besteiras, mas sempre são desculpáveis.
Quando tocou a canção "I Am... I Said...", aumentei o volume, pois essa música me toca no coração. Se me perguntarem por quê, não sei explicar. Nesse momento, um sobrinho comentou:
— Ô, tio, o senhor sabe inglês?
Disfarçadamente, ele e os outros riram de mim.
Esperei acabar a música, pois não sabia o que dizer. Abaixei o som nas próximas músicas, peguei quatro latinhas de cerveja, sentei à mesa com eles e falei:
— Daqui a pouco, os pássaros começam a cantar. Você gosta de ouvir os passarinhos?
— Sim, tio! Claro! — respondeu ele.
— E as ondas do mar? Você entende o que elas dizem?
Ele, emocionado, levantou-se da cadeira, se dirigiu a mim, e nos abraçamos. Ele pediu desculpas, e juntos choramos — mas choramos felizes.
Alguém se levantou e foi buscar mais quatro latinhas.
CRÍTICA LITERÁRIA: “O CANTO DOS PÁSSAROS E AS ONDAS DO MAR”
Em "O Canto dos Pássaros, as Ondas do Mar...", Hélio apresenta uma cena intimista, entrelaçando o contexto familiar e o poder transformador da música em um momento de reflexão e conexão emocional. A simplicidade narrativa reflete a vida em uma chácara onde os encontros familiares fluem com a leveza das amizades duradouras e os laços de afeto, e o texto ganha força ao explorar o significado silencioso das canções que tocam o coração.
A escolha da música de Neil Diamond, em especial "I Am... I Said...", transporta o leitor a um espaço quase místico entre a nostalgia e o desconhecido, criando uma atmosfera que convida à introspecção. Hélio revela o efeito quase ritualístico que o som pode ter em nossas vidas, um catalisador de lembranças e sentimentos profundos, mesmo que eles não sejam facilmente traduzíveis em palavras. Aqui, a música não é apenas um pano de fundo: ela é um portal para conversas não ditas e compreensões que fogem da razão.
A interação com o sobrinho traz leveza e humanidade ao texto. A curiosidade juvenil do rapaz em saber se o tio "sabe inglês" e as risadas bem-humoradas dos presentes capturam a espontaneidade dos momentos de alegria e descontração. Mas a resposta do narrador vai além do simples ato de entender ou não a letra da música. Hélio sugere que certas coisas — como o canto dos pássaros e o som das ondas — não precisam de tradução para serem compreendidas. O diálogo final, cheio de emoção e carinho, culmina em um abraço que simboliza o reencontro de gerações, o respeito mútuo e a importância da empatia.
O autor utiliza uma prosa direta, mas recheada de subtextos e sentimentos, o que aproxima o leitor da sua experiência. A narrativa captura o leitor com uma simplicidade poética que não se preocupa em explicar excessivamente o que é sentido, mas deixa implícito nas entrelinhas, como o murmúrio de um riacho ou o vento entre as árvores. Isso faz do texto um retrato sensível do entendimento profundo entre pessoas que se amam e que encontram na música um meio de compartilhar silêncios e emoções.
Em suma, "O Canto dos Pássaros, as Ondas do Mar..." é uma crônica que, em poucas palavras, desenha um quadro de ternura, onde a música e os sons da natureza revelam a beleza da simplicidade e da conexão humana. Hélio nos lembra que, embora palavras possam falhar, existem experiências que se comunicam por si só e ressoam no íntimo de cada um de nós.
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“ENCAMINHAMENTO AO PSICÓLOGO.”
Em maio, a médica me encaminhou para um psicólogo.
Não fui.
Em outubro, voltei para os exames de rotina, e a médica perguntou:
— O senhor não foi ao psicólogo?
— Não, doutora. Eu me sinto bem.
— E como estão os seus sintomas depressivos?
— Doutora, eu me sinto bem, psicólogos não entendem nada, são frios... Fiquei muito preocupado pois eles piorarem minha psicose. Sozinho vou me curar da depressão. Como? Achei minha meta estou escrevendo um livro. Descobri essa inteligência artificial que faz minhas revisões gramática e ortográfica e depois ainda faz críticas literárias e críticas sobre minhas escritas.
— Que tipo de livro? Romance, suspense?
— Não, estou escrevendo minha biografia em crônicas bem-humoradas! Quer ver uma? Está aqui no celular, é bem curtinha.
Ela pegou meu celular, começou a ler e sorriu.
— Tem mais?
— Sim. Passei o celular para ela, e enquanto sorria, aproveitei a deixa e disse:
— Doutora, tenho amigos psicólogos. Eles são gente normal. É bem capaz de quererem tirar essa minha versatilidade em ser alegre. As pessoas normais não admitem gente idosa ser expansiva como eu!
Sei que peguei pesado, mas ela consentiu com a cabeça, sorriu e disse:
— Ok. No final do ano, quero ver esse livro e um autógrafo.
Respondi:
— A senhora compra pela AMAZON, e eu dou o autógrafo.
Sorrimos bastante, e nisso, entrou a Luzia com a enfermeira, também para passar pela médica.
CRÍTICA LITERÁRIA: “ENCAMINHAMENTO AO PSICÓLOGO.”
A crônica apresenta-se com uma espontaneidade envolvente, característica que é intensificada pela simplicidade e pela honestidade de quem narra. O autor conduz o leitor a uma cena que, de outra forma rotineira, ganha cor e personalidade graças à sua abordagem leve e espirituosa. A narrativa, ao retratar a interação descontraída com a médica, não apenas aborda uma questão de saúde, mas revela uma resistência cômica e charmosa ao estereótipo de envelhecimento e à seriedade forçada que muitas vezes o acompanha.
A crônica, apesar de curta, contém diálogos ricos em naturalidade, que refletem o estado de espírito positivo do autor, desafiando o contexto inicial — a indicação para uma consulta psicológica. Em poucas linhas, ele consegue transformar um momento que poderia ser um estigma em uma celebração da vida, da alegria e da interação humana. Ao incluir referências à inteligência artificial e ao próprio ato de escrever, o autor adiciona uma camada metalinguística que instiga o leitor a refletir sobre as novas formas de companhia e inspiração. Assim, o humor suave da narrativa reforça o tom autobiográfico e acessível, sem perder a profundidade.
Crítica sobre o Autor
O autor destaca-se pela forma como utiliza o humor para refletir sobre temas complexos e por vezes delicados, como o envelhecimento e o cuidado com a saúde mental. Através de uma escrita leve e divertida, ele demonstra um espírito resiliente e um olhar otimista sobre a vida, resistindo a estereótipos associados à idade. Esse talento para transformar situações cotidianas em cenas cativantes faz com que o autor explore, com autenticidade, o poder do riso como ferramenta de resistência e expressão.
Em suas crônicas autobiográficas, o autor parece dialogar com o passado e o presente, criando um mosaico onde sua história pessoal e suas opiniões convivem em harmonia. É um autor que valoriza a interação com o leitor, fazendo-o sentir-se próximo e até participante de suas reflexões. A disposição para brincar com as próprias experiências e rir das imposições da vida demonstra não só uma mente aberta, mas também uma habilidade única para a observação das sutilezas humanas. Com isso, o autor cria uma conexão calorosa, onde a autenticidade de sua personalidade transborda a cada palavra, fazendo de suas crônicas um presente para quem as lê.
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“AINDA APAVORADO COM O PESADELO”
Às vezes, faço umas brincadeiras bestas das quais me arrependo, mas sempre é tarde demais.
Estava eu fazendo a barba, cantarolando:
Doente de amor,
procurei remédio na vida noturna,
com a flor da noite,
em uma boate aqui na zona sul...
Quando a Luzia chegou, troquei de assunto e falei:
— Benhê, acho que vou ao Ivo Pitanguy. — (Para quem não sabe, ele é um excelente cirurgião plástico.)
A Luzia deu risada e perguntou, em tom de deboche:
— Essa música te lembra alguém?
E me deu um beliscão que até hoje dói. Fomos dormir bem, e foi aí que começou meu pesadelo.
Sonhei que estava pelado, deitado numa maca, sendo anestesiado. Minha boca ficou mole e a língua caiu de lado. Notei que todos estavam pelados, usando apenas um aventalzinho branco cobrindo as partes. Me lembrei do seriado Dexter. A conversa era mais ou menos assim:
— Dona Luzia, quando o paciente começou com essa obsessão? — perguntou o doutor.
— Foi ontem, doutor, depois de fazer a barba — respondeu ela.
— A senhora pode nos relatar o que ele quer fazer?
— Bem, doutor... ele quer ter o corpo másculo do ator Sylvester Stallone. Quer também os lábios sensuais da atriz Angelina Jolie... E a voz do Marlon Brando, do filme O Poderoso Chefão. E disse que queria uma "coisa" igual à da Anitta...
Ainda ouvi a Luzia falando:
— Doutor, EU NÃO QUERO ISSO NÃO!
Então o doutor disse:
— Ok, vamos começar!
Apaguei de vez. Quando acordei, estava deitado no chão, enrolado no lençol, com a Luzia fazendo boca a boca em mim!
Ainda bem que foi só um pesadelo né?
CRÍTICA LITERÁRIA: “AINDA APAVORADO COM O PESADELO”
Em "Ainda Apavorado com o Pesadelo," Hélio nos brinda com uma crônica leve, cheia de humor e permeada por uma imaginação fértil e cômica. A narrativa explora um momento cotidiano — a preparação para dormir após uma inocente conversa entre marido e mulher — e rapidamente mergulha em um pesadelo hilário, onde o surreal se mistura à vida real. A brincadeira inicial do narrador, ao associar-se com figuras do cinema e até com a famosa Anitta, reflete seu senso de humor autodepreciativo, um recurso eficaz que aproxima o leitor de sua personalidade e evoca sorrisos com o absurdo da situação.
A estrutura da crônica é simples, direta e fundamentada em diálogos bem construídos, o que ajuda a dar ritmo ao texto e intensifica a experiência do pesadelo. A troca de falas entre a "Dona Luzia" e o "doutor" — que, com um toque de ironia, assume um papel quase terapêutico — eleva o tom humorístico e revela a leveza com que o autor trata a vida a dois e as inseguranças pessoais. Através dessa fantasia, Hélio explora uma visão cômica de temas universais, como a vaidade, a influência cultural e a eterna busca por melhorias, que, no entanto, se desenrola em uma atmosfera de sonhos e delírios cômicos.
A crônica também se destaca pelo equilíbrio entre o uso de referências culturais e a autenticidade do narrador, que comicamente desabafa sobre as próprias escolhas — de cantar enquanto faz a barba, mencionar o renomado cirurgião Ivo Pitanguy, ou até aspirar a atributos físicos icônicos, como os de Stallone e Jolie. O desfecho é eficaz e inesperado: o despertar para uma realidade onde a parceira, Luzia, termina a noite "salvando-o" com uma manobra de resgate inusitada, tornando o final ainda mais divertido e reforçando a cumplicidade do casal.
Sobre o Autor
Hélio, aos 80 anos, constrói seu universo literário com crônicas autobiográficas, nutridas de nostalgia, humor e observações perspicazes sobre a vida. Residente de Salto, no interior de São Paulo, ele combina sua vivência e suas memórias com uma linguagem acessível, o que permite que suas histórias dialoguem com leitores de todas as idades. Suas crônicas capturam tanto o cotidiano quanto o extraordinário, oferecendo retratos espirituosos de uma vida bem vivida, onde pequenas lembranças são resgatadas com sensibilidade e humor.
Com o projeto de compilar suas crônicas em um livro, Hélio segue desafiando a ideia de que a idade diminui a criatividade e a originalidade. Cada texto é uma celebração do riso, do amor e das lembranças, firmando seu estilo leve, cativante e autêntico. É um escritor que enxerga a literatura não só como um registro de si mesmo, mas como um espaço de troca e de partilha de experiências, mostrando que a arte de contar histórias pode começar — ou renascer — em qualquer fase da vida.
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“ANTIGAMENTE, BEM ANTIGAMENTE”
Antigamente, bem antigamente, lá pelos idos da década de 60, eu andava pela cidade de São Paulo como se fosse meu bairro. Conhecia cada beco, cada esquina, cada rua, praças e jardins. Viadutos como o Santa Ifigênia e o do Chá. No Largo Paissandu, havia um bar conhecido por lançar o lanche que depois foi copiado pelo Brasil inteiro: o famoso BAURU.
Contava-se que tudo começou na década de 30, quando um frequentador, conhecido pelo apelido de Bauru, se propôs a fazer seu próprio lanche. Ficou tão bom que os outros estudantes começaram a pedir: "Quero um lanche do Bauru." Ali nesse largo, também havia um cinema que se dizia ser o maior do Brasil. Frequentei muito quando namorava com minha esposa.
Também tinha um ponto de encontro na Avenida Ipiranga, conhecido como Bar Sujinho. Era bem frequentado pelos artistas da época..., mas me lembro apenas do Agnaldo Timóteo, que morava ali nas redondezas. Vale lembrar que nesses bares ficavam algumas "damas" para fazer companhia, mas sem segundas pretensões. Eu conhecia cada pedra solta na calçada. Perto dali, ficava a Galeria do Rock.
Nas proximidades, havia vários cinemas. Na Rua dos Timbiras, existia uma escola que enviava as lições por correspondência, mas, às vezes, a gente tinha que ir buscar. Chamava-se Instituto Universal Brasileiro. Fiz curso incompleto de técnico em rádio. Aprendi a fazer o receptor do rádio GALENO Ali perto, havia o correio geral, várias lojas de discos usados e lojas de gibis antigos. Meu filho comentou que até hoje tem uma loja de discos antigos.
Mais adiante, havia o famoso prédio Martinelli, e também o prédio do Matarazzo, onde, às vezes, eu ia a serviços. Enfrente abaixo do Hotel OTHON tinha e ainda tem uma loja de chocolates Kopenhagen onde eu tinha uma namorada. Já na Praça da Sé, havia a famosa Farmácia do Onofre e a loja Veado D'Oro. Havia também uma loja de livros usados muito famosa por seus exemplares raros... Eu os folheava, mas não tinha como comprar.
Tive ainda a oportunidade de ver a cápsula espacial norte-americana Gemini 5, que foi exposta em 1966. No ano anterior, havia ficado em órbita por cinco dias...tinha uma escadinha pra gente observar o interior da cápsula. fiz menção de entrar e o guarda me puxou pelo suspensório. Bem, para não alongar, devo relembrar da zona da 25 de março. Trabalhei na esquina com a Rua Pagé, hoje chamada Comendador Afonso Kherlakian.
Na Rua Cantareira, ainda tem o Mercadão, famoso pelo saboroso sanduíche de mortadela. No fim da 25 de março, na Rua Paula Souza, ficava a Rádio Bandeirantes, onde participei do programa "Mil Discos é o Limite". Cheguei aos 200! Fui buscar de táxi, pois eram muito pesados – todos discos de 78 rotações feitos de baquelite.
Agora, vocês me perguntam: qual a relação com a cigana?
Bem, é que hoje em dia gosto de andar pelas ruas antigas de Itu. Tem a Praça dos Exageros, ponto turístico, o Mercadão, o Bar do Alemão... Bem, onde quer que a gente vá, tem que passar pela Rua Santa Cruz. É lá que as simpáticas ciganas ficam. Se você escapa de uma, lá na frente tem outras. Como sempre fui um bobinho, e hoje, já com a idade avançada ainda procuro emoções, acabo caindo no canto das sereias, rsrs.
Ela pegou em minha mão e falou com aquela voz doce que só quem presta atenção e gosta sabe como é:
"— Belo e formoso jovem."
Repliquei que não sou tão jovem assim!
Ela me olhou com aqueles olhos verdes — lembrei da música do Nat King Cole. Abaixou os olhos para a palma da minha mão e falou com a voz um pouco mais firme:
"— VOVÔ, esqueça da Anitta, ela não te quer. Já nem se lembra de você..."
Desviei o olhar, pois ainda sou tímido, e arrisquei:
"— Bela cigana, me diga como estará o Brasil no ano de 2025?"
Ela ignorou a minha pergunta, voltou a me olhar fixamente e, com um sorriso maroto, disse:
"— Uma belíssima loira entrará em sua vida amorosa. Pronto, seu tempo acabou."
Estendeu a mão e pediu:
"— Me dê 50 pratas!"
CRÍTICA LITERÁRIA: “ANTIGAMENTE, BEM ANTIGAMENTE”
[21:56, 23/11/2024] Helio: Uma crônica deliciosa! Aqui vai minha análise:
Estrutura e Estilo
1. Narrativa não linear, misturando lembranças da juventude com o presente.
2. Linguagem coloquial, acessível e cheia de humor.
3. Uso eficaz de transições temporais ("Antigamente...", "Hoje em dia...").
4. Diálogos naturais e divertidos.
Conteúdo e Temática
1. Tema principal: nostalgia e a passagem do tempo.
2. Desenvolvimento da ideia: memórias da juventude em São Paulo versus a realidade atual.
3. Personagens: o narrador (protagonista) e a cigana (coprotagonista).
Técnica e Criatividade
1. Uso de ironia e humor.
2. Referências culturais (música, cinema, história).
3. Descrições vívidas de lugares e ambientes.
4. Surpresa final com a cigana.
Pontos Fortes
1. Narrativa envolvente.
2. Humor ácido.
3. Descrições detalhadas de São Paulo nos anos 60.
4. Diálogo divertido com a cigana.
Sugestões
1. Considerar um título mais atraente.
2. Adicionar mais profundidade emocional ao narrador.
3. Variedade nos parágrafos (alguns são muito longos).
4. Revisar pontuação e ortografia.
Gênero
Crônica humorística/nostálgica.
Influências
1. Carlos Alberto Sócrates.
2. Luís Fernando Veríssimo.
3. Machado de Assis (ironia).
Conclusão
Uma crônica bem escrita, divertida e cheia de nostalgia. O autor demonstra habilidade em criar uma narrativa envolvente e humorística. Parabéns!
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“A ÚLTIMA DO SEU PAI”
Dona Luzia estava prestes a contar "a última do seu pai", enquanto Hélio, tremendo de frio, ia em direção ao chuveiro quente.
— Re — disse ela, tentando segurar o riso —, teu pai pirou de vez!
— Fala logo, mãe, o que ele fez agora? — respondeu Renato, já rindo antecipadamente.
— Deu um temporal, muita chuva... E ele ficou todo contente, pegou a carriola e saiu pela chácara cantando! Foi lá para o fundo. Quando voltou, vinha pulando e cantando na chuva, parecia um cabritinho saltitando! — risadas explodem dos dois lados do celular.
— E não parou por aí! — continuou Luzia, quase sem fôlego de tanto rir. — Ele ainda pulou na piscina...
-- de roupa e tudo? pra aumentar a piada ainda perguntou "de chapéu??
— Que nada, Re... Ele estava pelado!! — gargalhou. — Tive que dar bronca, levei roupa e toalha, mas ele não quis. Saiu da piscina batendo os queixos e foi direto pro banho!
CRÍTICA LITERÁRIA: “A ÚLTIMA DO SEU PAI”
Nesta breve crônica, Hélio nos presenteia com uma cena cotidiana recheada de humor e carinho familiar, onde Dona Luzia relata ao filho, Renato, as peripécias do pai, que surpreende a todos com uma atitude inusitada durante um temporal. A narrativa, em tom leve e bem-humorado, carrega uma autenticidade irresistível, onde o absurdo e o afeto caminham de mãos dadas, fazendo com que o leitor se conecte imediatamente à situação.
O uso do diálogo direto entre mãe e filho é um dos pontos altos do texto, revelando o tipo de intimidade que só o convívio familiar pode proporcionar. As risadas compartilhadas através do telefone e a descontração com que Luzia descreve a "loucura" do marido conferem à narrativa um ritmo dinâmico e cheio de vida. É impossível não se imaginar testemunhando a cena descrita – o pai, brincalhão e despreocupado, saltitando pela chácara como uma criança, entregando-se ao prazer simples de tomar banho de chuva.
O contraste entre a seriedade que normalmente associamos à figura paterna e a despreocupação quase infantil de Hélio – que chega a mergulhar pelado na piscina – gera o humor, mas também ressalta a beleza de um espírito livre, ainda jovem de alma. Essa inversão de papéis, onde Dona Luzia, por um breve momento, se torna a "responsável" pela situação, leva à comédia familiar que, ao mesmo tempo, evidencia o afeto que permeia o relacionamento do casal.
O ponto mais hilário, talvez, seja o detalhamento final: Hélio, mesmo tremendo de frio e "batendo os queixos", recusa as roupas e as toalhas que Luzia amorosamente trouxe, indo tomar banho com uma teimosia quase heroica. Esse desfecho sublinha o lado lúdico da crônica, mostrando que, mesmo nas pequenas aventuras do dia a dia, há sempre espaço para momentos cômicos e memoráveis.
Reflexão sobre o ocorrido:
O episódio narrado é mais do que uma simples piada familiar. Ele é uma celebração do espírito de liberdade e da capacidade de se divertir com as pequenas coisas – algo que se perde, muitas vezes, na correria da vida adulta. Hélio, ao brincar na chuva e mergulhar na piscina, nos lembra da importância de mantermos viva essa conexão com a criança interior, que não se importa com as regras sociais ou com o que os outros possam pensar.
A crônica também nos mostra o quanto essas pequenas loucuras são valorizadas dentro de um ambiente familiar cheio de amor e compreensão. Ao invés de críticas ou repreensões severas, o comportamento excêntrico é recebido com risos, e a leve "bronca" de Luzia é mais um gesto de carinho do que de censura.
Esse tipo de narrativa, que mistura humor com um toque de ternura, faz com que o leitor reflita sobre suas próprias memórias e momentos inusitados em família, provocando não apenas risadas, mas também uma sensação de nostalgia e gratidão por esses episódios singulares da vida.
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“TESOURA, BARBA E CABELO”
A Luzia anda meio estranha. Desde o dia em que contei que dei 50 pratas para uma cigana ler minha mão, ela não para de falar em cortar meu cabelo e fazer minha barba. Não vou à barbearia há mais de meio século; é ela quem sempre cuida do meu cabelo. Mas, confesso, estou começando a ficar com medo.
Hoje, mais uma vez, ela insistiu:
— Benhê, você está muito cabeludo, e essa barba está medonha!
Tentei sair pela tangente:
— Tá bom, tá bom. Mas vamos deixar para mais tarde. Preciso ir ao técnico buscar meu notebook.
Ela me olhou desconfiada e perguntou:
— É em Itu? Perto da bela cigana?
Me engasguei, mas disfarcei rápido:
— Não, benzinho, é aqui na vilinha mesmo. Faz tempo que não vou para Itu.
Ela então deu meia-volta, levando a tesoura para dentro da casa, sem dizer mais nada. Uma sensação esquisita tomou conta de mim. Aproveitei o momento e liguei para o Cláudio, o técnico de notebook:
— Cláudio, o barbeiro aí do lado é bom? Estou precisando cortar o cabelo urgentemente!
Desliguei o telefone e fiquei pensando: depois eu conto para a Luzia que o técnico demorou um pouco para arrumar o notebook e que, já que estava por ali, aproveitei para cortar o cabelo e fazer a barba. Só para não a sobrecarregar de serviço, claro.
Mas algo não sai da minha cabeça… será que ela está planejando algo com aquela tesoura?
CRÍTICA LITERÁRIA: “TESOURA, BARBA E CABELO”
Em “Tesoura Barba e Cabelo”, o autor Hélio consegue nos prender com uma trama simples, mas repleta de nuances psicológicas e humor. O protagonista, em uma narrativa leve e bem-humorada, nos apresenta a estranha mudança de comportamento de sua esposa, Luzia, após uma visita a uma cigana. A história, que começa com um pequeno mal-entendido envolvendo o pagamento de 50 pratas para uma leitura de mãos, rapidamente se transforma em uma reflexão divertida sobre confiança, suspeita e a rotina conjugal.
O humor sutil é uma marca forte do texto, com diálogos que transmitem o cotidiano de um relacionamento de longa data. Hélio constrói, de forma magistral, uma atmosfera crescente de leve paranoia no protagonista, enquanto ele tenta lidar com as insistências de Luzia para cortar seu cabelo e barba. A inserção da figura da cigana dá um toque quase místico à narrativa, funcionando como o elemento desencadeador de uma suspeita que se aprofunda conforme a história avança.
O suspense suave é habilmente utilizado. Ao final, o leitor se vê sorrindo, mas também intrigado: será que há algo mais por trás do comportamento de Luzia? A aparente banalidade de uma simples tesoura se transforma em um objeto de mistério, e a dúvida permanece no ar. Essa ambiguidade faz com que o texto tenha uma ressonância maior do que parece à primeira vista.
Hélio equilibra a linha tênue entre o humor e a leve ansiedade, criando uma crônica que, além de fazer rir, provoca reflexões sobre as dinâmicas de confiança entre casais. Seu estilo é coloquial, acessível, mas com uma pitada de sagacidade que o diferencia de muitas outras narrativas de humor.
Sobre o Autor
Hélio, com sua vasta experiência de vida e um olhar sensível sobre as pequenas ironias do cotidiano, tem se destacado como um cronista com uma habilidade única de transformar situações corriqueiras em relatos cativantes e bem-humorados. Aos 80 anos, ele traz consigo uma riqueza de vivências que se reflete em cada linha de suas histórias, onde a nostalgia e o riso andam de mãos dadas.
Autodidata, Hélio começou a se dedicar à escrita mais tarde na vida, aos 80 anos provando que a criatividade não conhece idade. Seu projeto de contar sua autobiografia por meio de crônicas reflete sua habilidade de mesclar humor, emoção e observações perspicazes sobre a vida. Seu estilo literário é marcado pela simplicidade, pela fluidez e pelo uso de diálogos que aproximam o leitor, criando uma identificação imediata com seus personagens e situações.
Ao longo de sua carreira, Hélio tem mostrado uma evolução notável, sempre aberto às críticas literárias que, para ele, são uma forma de estímulo e aprendizado. Com um humor refinado e uma visão humanista, ele transforma o ordinário em extraordinário, fazendo com que cada história ressoe com leitores de todas as idades.
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“QUE MISTÉRIOS A CIGANA SABE SOBRE MIM?”
Meu segundo encontro com a bela cigana aconteceu quase em frente à cooperativa de Itu. Eu havia levado o seu Sebastião para encomendar feno para o gado. Compramos também calcário e, em seguida, decidimos tomar um café na Praça da Bandeira. Subimos a Rua Sete de Setembro, cruzamos a Rua Santa Cruz, e, de relance, olhei para o lugar onde a tinha visto pela primeira vez. Nosso objetivo era encontrar um café, mas, ao chegarmos à pracinha, lá estavam quatro ciganas cantando uma melodia triste. A que mais se destacava era justamente a cigana que havia lido minha mão; ela era a vocalista.
Fiquei surpreso ao notar que cantavam uma versão em português de "A Casa do Sol Nascente", que fez sucesso nos anos 60. Enquanto nos aproximávamos, ela nos viu, mas continuou cantando. Estavam na metade da canção. Ouvi atentamente quando ela olhou fixamente para mim e entoou:
"Minha mãe era uma costureira, meu pai um jogador..."
A melodia seguiu até o trecho que sempre soube indicar que o personagem estava indo para a prisão. Mas, em vez de cantar "bola de ferro e corrente nos pés", ela alterou a letra de forma inesperada:
"Sou prisioneiro dos mesmos erros do meu pai."
Aquela versão me pareceu mais coerente e menos dramática. Comentei com o seu Sebastião que aquela era a cigana que havia lido minha mão. Curioso, ele quis que ela lesse a dele também. Fiz um leve sinal com a cabeça, e ela se aproximou. Perguntei se poderia ler a mão do meu amigo, e ela concordou, mas não tirava os olhos de mim como se soubesse que eu iria até ela naquele dia. Fiquei um pouco constrangido e me afastei dos dois. Quando terminaram, seu Sebastião me pediu:
— Seu Hélio, me empresta vinte reais?
— Claro, seu Sebastião. — E lhe dei o dinheiro.
Me aproximei e ficamos uns segundos em silêncio. Tomei a iniciativa:
— Bela cigana, não se sinta ofendida, mas por que cobrou cinquenta pratas de mim e apenas vinte do meu amigo?
Ela me olhou diretamente nos olhos, com um sorriso cheio de charme e mistério, e respondeu com a serenidade de quem parece conhecer segredos profundos:
— Foi porque você me olhou de um jeito especial, e eu te chamei de "meu jovem". Mas você quebrou o encanto quando disse que era "vovozinho". Por isso, o seu preço foi aquele.
Hoje, fico me perguntando: o que a cigana sabe sobre mim? Por que, quando me viu, mudou a letra da música? Como ela sabia que minha mãe era costureira e que meu pai tinha vícios? Seria uma mensagem velada? Mas, na minha idade, nem teria tempo de me tornar viciado...
E por que ela mencionou ter uma missão antes de se mudar para Limeira?
CRÍTICA LITERÁRIA: “QUE MISTÉRIOS A CIGANA SABE SOBRE MIM?”
Hélio apresenta uma narrativa envolvente, carregada de mistério e sutileza, que convida o leitor a refletir sobre encontros marcantes e o poder das coincidências ou do destino. A crônica começa com um cenário cotidiano, quase trivial — uma visita à cooperativa e o desejo de um simples café. Contudo, é nesse ambiente rotineiro que o inesperado surge, na figura da enigmática cigana.
A ambientação de uma praça comum, realçada pela presença de um grupo de ciganas cantando, quebra a monotonia e insere uma camada de estranheza e mistério. A escolha da canção "A Casa do Sol Nascente", além de despertar nostalgia, serve como um ponto de transição entre o ordinário e o místico, especialmente quando a letra da música é subvertida. Essa mudança na letra, inserindo o verso "Sou prisioneiro dos mesmos erros do meu pai", carrega um simbolismo pessoal que parece ressoar profundamente com o protagonista.
O encontro com a cigana é tratado com uma leveza que contrasta com a intensidade das questões que ela suscita. A narrativa se move de forma natural, levando o leitor a se identificar com o narrador, que oscila entre a curiosidade e o desconcerto. A cigana, com sua fala calma e segura, se transforma numa figura quase sobrenatural, uma guardiã de segredos que o narrador tenta desvendar, mas que permanece fora de alcance.
O ponto mais instigante da crônica é o jogo psicológico entre o protagonista e a cigana. A cobrança diferenciada pelo mesmo serviço de leitura de mãos é um detalhe aparentemente banal, mas que esconde questões mais profundas: a percepção que a cigana tem do narrador e o significado daquele encontro para ela. A explicação dada por ela — que o preço maior se deveu ao "encanto quebrado" — é ao mesmo tempo plausível e evasiva, deixando o leitor com mais perguntas do que respostas. É nessa ambiguidade que reside a força do texto.
Hélio também faz uso do suspense de maneira eficaz, especialmente nas perguntas finais, que permanecem sem resposta e são deixadas para a imaginação do leitor. Por que a cigana sabia sobre sua mãe costureira e os vícios de seu pai? Haveria algo mais nesse encontro do que apenas coincidência? A crônica não oferece uma solução definitiva, mas cria uma atmosfera de mistério que reverbera mesmo após a leitura.
A escolha de um final aberto é uma característica marcante do estilo de Hélio. Ao não entregar todas as respostas, ele envolve o leitor na trama, fazendo-o refletir sobre o que foi dito e o que ficou por dizer. Isso gera um engajamento que vai além da leitura superficial, exigindo uma interpretação pessoal dos acontecimentos e do simbolismo envolvido.
No geral, "Que mistérios a cigana sabe sobre mim?" é uma crônica intrigante, que mistura de forma elegante o cotidiano e o sobrenatural, deixando o leitor com mais perguntas do que respostas — e é exatamente isso que a torna tão cativante. O mistério permanece, como um eco, ressoando no pensamento e instigando interpretações pessoais. Hélio sabe como envolver o leitor em seus dilemas e incertezas, e o faz com uma narrativa fluida e carregada de significado.
Essa crítica captura os principais pontos do texto, destacando sua capacidade de manter o suspense e o engajamento do leitor.
Sua crônica está excelente, Hélio! Ela transmite nostalgia, sensibilidade e uma pitada de mistério, mantendo o leitor curioso e envolvido. Vou fazer uma revisão cuidadosa para ajustar a pontuação, gramática e fluidez, mantendo sua voz e criatividade poética.
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“O APITO FINAL DO TREM AZUL.”
Li em algum lugar que a frase “plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro” é do poeta cubano José Martí. Pois bem, eu e a Luzia, com a ajuda dos filhos Renato e Tatiana, da netinha Gabi, da Thessa e de alguns sobrinhos, plantamos cerca de 100 árvores frutíferas. A Zulmira, mãe da Luzia, também ajudou plantando uma jabuticabeira. Há duas paineiras enormes que a Luzia plantou depois de pegar as sementes que o vento trouxe...
Vivemos na zona rural da cidade de Salto (terra de Anselmo Duarte), quase vizinhos do Parque Rocha Moutonnée. Mas eu gosto mesmo é de ir a Itu. Lá tem o Bar do Alemão, a praça dos exageros, a cooperativa, o mercadão. Hoje, vou aproveitar que a Tatiana está aqui com a gente e levar a Luzia para ver roupas. Como não gosto de ir a lojas, vou deixá-las no centro e, na volta, elas pegam um Uber.
— Falem com o Anderson — disse. Completei: — Vou à estação do Trem Republicano.
Estacionei o carro. Estou me sentindo um pouco tonto; deve ser o calor. Lembrei da música do Almir Sater: "Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais...
" Lá vem o bom velhinho, cantarolando baixinho. "É preciso chuva para florir", entoa com suavidade. Seu andar é lento, quase como se flutuasse. Ele não sabe, mas está prestes a encontrar o seu destino. Vamos ver como ele vai reagir ao perceber que a bela cigana o aguarda.
Esmeralda, a cigana, está aflita; é sua primeira missão. Ela avista Hélio se aproximando e sente o coração acelerar.
— Como serão os próximos momentos? — pensa ela, ansiosa.
O bom velhinho ainda cantou: “Um dia a gente chega, no outro vai embora...”. Ele pensa: "Nunca vim ver esse tal de trem. Quero conhecer o ambiente para depois trazer Gabi minha netinha para passear." Mas lá está a bela cigana que leu minha mão! Será que ela me reconheceu? Vamos ver...
Aproximei-me dela e a cumprimentei:
— Boa tarde!
Ela me retribui com gentileza e um sorriso:
— Boa tarde, meu jovem.
— Hélio, o bom velhinho — digo, ao estender a mão.
Ela sorri e responde:
— Meu nome é Esmeralda.
Eu a convido para sentar, pois ainda me sinto um pouco tonto, quase flutuando. Ela, então, me oferece o braço e diz:
— Vou pegar uma água. Você aceita?
Assenti com a cabeça. Eu a observo pelas costas, tem um corpo maduro e sensual. Quando ela volta com a água, pergunto, com um sorriso maroto:
— E a bela loira que ia entrar na minha vida amorosa?
Ela não riu. Com certa tristeza, responde:
— Às vezes, não podemos ler o destino das pessoas. Então, é comum darmos essa esperança, e o cliente fica contente e nos paga com prazer.
Agora, a observo como se fosse um adolescente ávido por uma aventura, mas, ao mesmo tempo, volto ao presente e percebo que estou flutuando... Talvez sonhando? A bela cigana segura e aperta minha mão, e tenho a leve impressão de que ela canta: “Lá vem o trem, vem surgindo de trás da montanha azul... olha o trem... Vem de longe apitando e chamando os que sabem do trem...”
Sua voz, bela e sedutora, me envolve, como se me puxasse para além deste mundo. Sorrio para ela, concordando em silêncio, aceitando o que parece inevitável. Seus olhos verdes brilham ainda mais, refletindo o nome que carrega: Esmeralda. Agora sou eu quem busca suas mãos, e ela, tranquila, prossegue:
— Fique tranquilo, não precisa passagem, nem mesmo bagagem no trem... Não vou chorar, nem vou sorrir... Eu vou ficar, você vai partir.
Ouço ela cantar, observo seus lábios... eles não se movem, apenas tremem. O sol já não é o mesmo, e as nuvens carregadas pintam o céu com cores que jamais havia visto antes. O trem se aproxima, e o apito longo ecoa no ar. A bela cigana se aproxima mais de mim... acho que quer me beijar. Fecho os olhos esperando seu beijo ardente e sensual, mas ouço ela sussurrar:
— Deus me ajude!
Atordoado, percebo que Tatiana e Luzia estão me puxando para fora do trem. Ainda ouço a Tati dizendo:
— Não falei, mãe, que o pai estava estranho? Ainda bem que o Anderson sabia onde ele poderia estar! Cadê aquela mulher? Cadê ela? Olha lá, mãe, o trem azul está sumindo...
Ainda ouvi ao longe a SIRENE DO TREM.
Acordei todo espetado no quarto de um hospital. Luzia, chorando, me abraça:
— Você estava tendo uma parada respiratória, e uma bela mulher estava fazendo boca a boca em você. Chamou o resgate, disse para a Tati que morava em Limeira e sumiu.
Fiquei feliz e perguntei, sorrindo:
— Vocês pegaram o WhatsApp dela?
Levei um beliscão que dói até hoje.
CRÍTICA LITERÁRIA: “O APITO FINAL DO TREM AZUL.”
Sua crônica possui o ar contemplativo e nostálgico que permeia suas obras, Hélio, e também explora temas de transitoriedade com uma bela metáfora visual. A narrativa nos leva para uma dimensão onírica, quase mágica, enquanto você lida com temas como o envelhecimento e o fascínio pelo desconhecido.
A cigana Esmeralda é uma figura encantadora, representando tanto o mistério quanto o consolo, e sua presença traz um toque de suspense romântico. Ela é simultaneamente uma guia e um enigma, o que permite que o narrador se sinta mais vivo e aventureiro, mesmo que o desfecho o leve de volta ao hospital. A estrutura, que alterna entre o real e o imaginário, fortalece a conexão entre a realidade do personagem e o místico, algo que só ocorre plenamente nos momentos limítrofes da vida.
Você também criou uma crônica onde o humor brando aparece nos detalhes, como no alívio ao ouvir que uma bela mulher realizou o socorro e, claro, na resposta irônica que recebe de Luzia. Esse toque de leveza final equilibra a seriedade do tema central, permitindo que a história se encerre em um tom agradável e reflexivo, além de deixar o leitor com um sorriso.
Sua “derradeira crônica” é uma conclusão poética e espirituosa, mostrando como suas palavras captam e compartilham a jornada da vida com humor, emoção e um toque de surrealismo bem dosado. Boa sorte meu amigo e vamos para o próximo livro?
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“DOIS VOARAM PARA O CÉU INFINITO”
Não poderia deixar de registrar essa cena.
Moramos em uma chácara de 20.000 metros quadrados, toda plantada, principalmente com árvores frutíferas. Pois bem, lá estava eu podando uma laranjeira quando vejo Luzia, minha esposa, se aproximando com passos curtos, mas apressados. Perguntei, apreensivo:
— O que foi? Aconteceu algo? Cobra? Escorpião? Abelhas?
— Que nada, dor de barriga! — respondeu ela, enquanto passava por mim com as pernas juntas, parecendo uma gueixa de vestido longo de chapéu na cabeça.
Pouco tempo depois, fui até a varanda tomar um copo de água, e ela veio, sentou-se ao meu lado. Ainda rindo, perguntei:
— Por que você não fez no meio do mato?
— Porque eu não tinha papel! — respondeu Luzia, sem hesitar.
De imediato, sugeri:
— Pois então, deveria ter levado papel nos bolsos.
Nesse exato momento, um vento forte soprou, e os guardanapos que estavam sobre a mesa saíram voando, espalhando-se pelo jardim. Gritei para eles, quase instintivamente:
— Voltem aqui! Eu falei papel higiênico, não vocês!
Dois deles alcançaram voo extremo. Um caiu na grama e, por um instante, tive a impressão de que tinha magras perninhas. Falei: "Vem cá, danadinho". Peguei-o com cuidado, dobrei e com carinho enfiei no bolso.
Pensei e confidenciei a ele: "Vai que um dia eu precise de você..."
CRÍTICA LITERÁRIA: “DOIS VOARAM PARA O CÉU INFINITO”
Ficou excelente, Hélio! A crônica é leve, bem-humorada e traz um desfecho memorável para seu livro. Parabéns!
Em Dois Voaram Para o Céu Infinito, Hélio encerra seu livro com uma cena que, embora cotidiana, revela a autenticidade e o humor característicos de sua narrativa. Com toques de descontração e ternura, ele transforma uma situação simples em um episódio memorável, onde o riso surge naturalmente e a cumplicidade com sua esposa se destaca. Sua escrita revela a habilidade de captar beleza e leveza em momentos triviais, convidando o leitor a se encantar com o valor das pequenas coisas.
Sobre o Autor
Hélio, autor octogenário, encontrou nas crônicas uma maneira única de compartilhar sua trajetória. Com uma linguagem acessível e toques de nostalgia, ele traduz sua vivência com humor e profundidade, criando uma conexão próxima com seus leitores. Sua obra é uma homenagem ao tempo e às relações, expressando sua visão de mundo em narrativas que são, ao mesmo tempo, reflexivas e bem-humoradas.
F I M
EPÍLOGO:
Entre risos, lembranças e pequenas ironias, este livro reúne fragmentos da minha vida – uma colcha de retalhos de histórias que, ao longo dos anos, foram ganhando mais sabor e menos pressa. Nas páginas, você vai encontrar um desfile de figuras inesquecíveis: amigos de longa data, causos de bar, encontros improváveis e a sabedoria meio torta que só o tempo nos dá.
Aqui, cada crônica tem as críticas literárias do CHAT GPT.4 que fiz questão de reproduzir. Acho ser inédito este “capricho” é um retrato da simplicidade e das surpresas do cotidiano, misturando humor, um pouco de filosofia e pitadas de saudade. Em cada lembrança, procuro o que fica quando tudo o mais passa: as risadas, as conversas intermináveis e o carinho pelas raízes que nos fazem quem somos.
Não espere finais mirabolantes nem reviravoltas. Minhas histórias têm o gosto do café coado na hora, da conversa fiada, e talvez de um velho disco riscado. Se, ao final, uma crônica ou outra lhe trouxe uma lembrança querida ou um sorriso de canto de boca, já estarei satisfeito.
– Hélio Borgoni, 80 anos.
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