# As palavras que nunca faltaram
Quando eu era menina, tudo parecia muito grande. Minha casa parecia imensa. Minha cama parecia enorme.
Sabe... eu não conseguia entender por que quase sempre estava sozinha. E, para falar a verdade, isso não me incomodava. A solidão era o meu porto seguro.
Havia um lugar onde eu gostava de ficar: a lavanderia, no fundo da casa. Eu podia passar horas ali. Brincava sozinha, inventava histórias, conversava com personagens que só existiam na minha imaginação. O tempo deixava de existir.
Minha irmã mais velha insistia para que eu fosse brincar com as outras crianças da rua. Dizia que eu precisava sair de casa, fazer amigos, participar das brincadeiras.
Sinceramente, aquilo era um sacrifício.
Eu não queria estar com ninguém além de mim mesma. Não era tristeza. Eu simplesmente me sentia bem sozinha. As brincadeiras em grupo pareciam exigir um esforço que eu não sabia explicar.
Foi quando conheci Jamille.
Disseram que ela não ouvia. Que não falava. Eu não entendia muito bem o que aquilo significava. Só sabia que ela era diferente aos olhos das outras pessoas.
Para mim, isso nunca fez diferença.
O som que saía da boca dela era diferente. Às vezes, aqueles sons pareciam formar palavras. Outras vezes, eram apenas sons que eu não sabia interpretar.
Quando eu falava, Jamille olhava atentamente para a minha boca. Era assim que entendia o que eu dizia. Naquela época, eu não sabia que aquilo se chamava leitura labial. Eu apenas sabia que, de algum jeito, nós conseguíamos conversar.
Sempre que era possível, estávamos juntas.
As outras crianças brincavam conosco. Pelo menos era isso que eu acreditava.
Eu só não entendia por que, no jogo de queimada, eu e Jamille éramos sempre o alvo das boladas. No vôlei, quase nunca éramos escolhidas para o time. No futebol, eu mal tocava na bola. O que eu mais ouvia eram gritos.
Naquela época, eu não sabia se aquilo fazia parte da...
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# As palavras que nunca faltaram
Quando eu era menina, tudo parecia muito grande. Minha casa parecia imensa. Minha cama parecia enorme.
Sabe... eu não conseguia entender por que quase sempre estava sozinha. E, para falar a verdade, isso não me incomodava. A solidão era o meu porto seguro.
Havia um lugar onde eu gostava de ficar: a lavanderia, no fundo da casa. Eu podia passar horas ali. Brincava sozinha, inventava histórias, conversava com personagens que só existiam na minha imaginação. O tempo deixava de existir.
Minha irmã mais velha insistia para que eu fosse brincar com as outras crianças da rua. Dizia que eu precisava sair de casa, fazer amigos, participar das brincadeiras.
Sinceramente, aquilo era um sacrifício.
Eu não queria estar com ninguém além de mim mesma. Não era tristeza. Eu simplesmente me sentia bem sozinha. As brincadeiras em grupo pareciam exigir um esforço que eu não sabia explicar.
Foi quando conheci Jamille.
Disseram que ela não ouvia. Que não falava. Eu não entendia muito bem o que aquilo significava. Só sabia que ela era diferente aos olhos das outras pessoas.
Para mim, isso nunca fez diferença.
O som que saía da boca dela era diferente. Às vezes, aqueles sons pareciam formar palavras. Outras vezes, eram apenas sons que eu não sabia interpretar.
Quando eu falava, Jamille olhava atentamente para a minha boca. Era assim que entendia o que eu dizia. Naquela época, eu não sabia que aquilo se chamava leitura labial. Eu apenas sabia que, de algum jeito, nós conseguíamos conversar.
Sempre que era possível, estávamos juntas.
As outras crianças brincavam conosco. Pelo menos era isso que eu acreditava.
Eu só não entendia por que, no jogo de queimada, eu e Jamille éramos sempre o alvo das boladas. No vôlei, quase nunca éramos escolhidas para o time. No futebol, eu mal tocava na bola. O que eu mais ouvia eram gritos.
Naquela época, eu não sabia se aquilo fazia parte da brincadeira ou se existia alguma coisa que eu ainda não conseguia entender. Eu apenas sentia que havia uma distância entre nós e as outras crianças. Uma distância que ninguém explicava.
Jamille seguia ao meu lado. E isso bastava.
Eu ia para a escola. Ela não.
Eu não entendia por quê.
Na escola, eu voltava a ficar sozinha. Era uma menina quieta. Enquanto as outras crianças conversavam no recreio, eu preferia observar.
As lições estavam sempre feitas. Minhas notas eram boas.
Havia apenas uma matéria que parecia falar uma língua que eu não conhecia: a matemática.
Mamãe pedia ao meu irmão que me ensinasse. Ele era bom com os números. Sentava ao meu lado, tentava explicar de um jeito, depois de outro. No fim, sempre dizia:
— Eu não sei por que você não entende. É tão fácil.
Eu também não sabia.
Os números pareciam escapar de mim, enquanto as palavras sempre me encontravam.
O tempo foi passando.
Descobri que Jamille era uma pessoa surda e que provavelmente nunca falaria como as outras pessoas.
Isso não mudou absolutamente nada.
Ela continuava sendo minha amiga.
Até que um dia ela não apareceu para me chamar.
Esperei naquele dia. E no outro também.
Foi então que me contaram que Jamille tinha ido morar com outros parentes. Disseram que ela não tinha mãe e que era criada por uma tia. Também ouvi que ajudava nos afazeres da casa e cuidava dos oito filhos da tia, todos mais velhos do que ela. Quando começou a crescer e a despertar para a adolescência, disseram que já não era mais bem-vinda naquela casa.
Nunca soube exatamente o que aconteceu.
Só sei que minha primeira amiga desapareceu da minha vida.
Não houve despedida.
Durante muitos anos, pensei nela.
A vida seguiu.
Muitos anos depois, nos encontramos novamente.
Jamille já era uma mulher. Ao seu lado estava sua filha, uma menina linda de sete anos.
Foi naquele reencontro que caiu a ficha sobre a surdez dela. Na infância, ela nunca foi "a menina surda". Era apenas a Jamille, minha amiga.
Ao mesmo tempo, eu também começava a compreender a mim mesma.
Descobri que sou uma pessoa autista.
Muitas lembranças da infância passaram a fazer sentido. O silêncio que eu tanto procurava. A dificuldade em entender as regras invisíveis das relações. O conforto de brincar sozinha. O esforço para participar das brincadeiras. A sensação de enxergar o mundo de um jeito diferente.
Percebi, então, que talvez fosse por isso que nossa amizade tivesse sido tão natural.
Jamille aprendia a conversar olhando para a minha boca.
Eu aprendia a conversar tentando entender um mundo que parecia falar uma língua diferente da minha.
Nenhuma de nós exigia que a outra mudasse.
Nós apenas nos encontrávamos.
Hoje penso que minha primeira amizade nasceu justamente entre duas meninas que, cada uma à sua maneira, viviam o mundo por um caminho diferente.
E talvez seja por isso que, tantos anos depois, ainda me emociono ao lembrar dela.
Porque antes de descobrir que ela era surda, e antes de descobrir que eu era autista, nós apenas éramos duas crianças que encontraram uma na outra um lugar de pertencimento.
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