As máscaras
Caminhamos todos mascarados. Vamos pelo mundo levando as nossas aparências e escondendo o quanto podemos, o que somos. Uns se mascaram de bons e praticam atos de piedade; outros de cruéis e, de tanto desejarem parecer implacáveis, acabam adquirindo a própria natureza, o que ostentam. Alguns tomam a feição de homens de Estado, a máscara de estadistas, e vão impondo aos crédulos as suas razões e as suas leis. Estes últimos, nas horas de solidão e de consciência, riem-se do efeito que provocam. Alguns desses mascarados se sentem felizes porque alcançaram os seus desígnios, outros experimentam o terror de serem, descobertos.
Há poltrões que se fantasiam de valentes e põe máscaras na voz que exibem, imperativa e densa de ameaças. Há ambiciosos que se valem da máscara do desinteresse, da cortesia modesta, e tudo aceitam como se pusessem aos ombros a cruz do maior sacrifício. Dissimulam a alegria das conquistas, com gemidos e tristeza nos olhos. Mas por detrás da máscara, brilham lhes os olhos da cobiça satisfeita.
Há os mascarados lúcidos. Sabem que compuseram uma certa e especial feição e cuidam que a hipocrisia não lhes caia do rosto. Outros, porém, não sabem que caminham de máscaras afiveladas e se surpreendem quando, diante do espelho, se dão conta de que não exibem a fisionomia verdadeira.
Os que vivem longamente mudam não raro de máscara. Há, porém, velhos mascarados que não mudaram jamais. Passam a vida espelhando, no rosto, as mesmas coisas, e acabam sempre com grandes dificuldades para se livrar da face falsa - na hora em que é preciso expor o rosto original ao Pai desta misteriosa criação a que pertencemos. Então as velhas máscaras custam a se despregar, e é uma operação, não raro dolorosa, para a alma que hesita em saber onde está sua verdade.
Há máscaras inocentes, de raparigas tão cheias de graça que parecem refletir o azul do céu - e que, no entanto, escondem paisagens perturbadas...
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As máscaras
Caminhamos todos mascarados. Vamos pelo mundo levando as nossas aparências e escondendo o quanto podemos, o que somos. Uns se mascaram de bons e praticam atos de piedade; outros de cruéis e, de tanto desejarem parecer implacáveis, acabam adquirindo a própria natureza, o que ostentam. Alguns tomam a feição de homens de Estado, a máscara de estadistas, e vão impondo aos crédulos as suas razões e as suas leis. Estes últimos, nas horas de solidão e de consciência, riem-se do efeito que provocam. Alguns desses mascarados se sentem felizes porque alcançaram os seus desígnios, outros experimentam o terror de serem, descobertos.
Há poltrões que se fantasiam de valentes e põe máscaras na voz que exibem, imperativa e densa de ameaças. Há ambiciosos que se valem da máscara do desinteresse, da cortesia modesta, e tudo aceitam como se pusessem aos ombros a cruz do maior sacrifício. Dissimulam a alegria das conquistas, com gemidos e tristeza nos olhos. Mas por detrás da máscara, brilham lhes os olhos da cobiça satisfeita.
Há os mascarados lúcidos. Sabem que compuseram uma certa e especial feição e cuidam que a hipocrisia não lhes caia do rosto. Outros, porém, não sabem que caminham de máscaras afiveladas e se surpreendem quando, diante do espelho, se dão conta de que não exibem a fisionomia verdadeira.
Os que vivem longamente mudam não raro de máscara. Há, porém, velhos mascarados que não mudaram jamais. Passam a vida espelhando, no rosto, as mesmas coisas, e acabam sempre com grandes dificuldades para se livrar da face falsa - na hora em que é preciso expor o rosto original ao Pai desta misteriosa criação a que pertencemos. Então as velhas máscaras custam a se despregar, e é uma operação, não raro dolorosa, para a alma que hesita em saber onde está sua verdade.
Há máscaras inocentes, de raparigas tão cheias de graça que parecem refletir o azul do céu - e que, no entanto, escondem paisagens perturbadas e inquietas. Há máscaras de êxtase, máscaras de amor, máscaras de vingança, máscaras de tranquila indiferença. máscaras de tristeza. Tudo está mascarado sobre a face da terra, Deus meu! "Larvatus prodeo" , escreveu Descartes, numa das páginas de suas " Cogitationes". Mascarado avanço.
Mas há, também, alguns raros seres que exibem suas faces verdadeiras diante do mundo. Pertencem `a raça dos que se conservam inocentes através dos anos, inocentes penetram na velhice e inocentes devolvem a alma que Deus lhes deu. originalmente inocente. Passeiam e avançam, pela vida afora, expostos e desabrigados. Riem e cantam, agitam-se, transportam-se , envolvem-se em viagens e amores, oferecendo o segredo de sua verdadeira natureza aos olhos descrentes e cínicos. Nesses puros é que o olhar dos lúcidos e desabusados creem descobrir, imediatamente, as máscaras.
A multidão de mascarados se sente surpresa e ofendida quando distingue uma face intocada, um par de olhos autênticos, um sorriso vivo e espontâneo. Não raro, assistimos a uma perseguição: os falsos olhos se entreolham, se falam, combinam, trocam indagações, e acabam exigindo o martírio, a condenação do falso mascarado, que se mostra tal como Deus o fez.
Mascarado avanço. Esse que segue pela vida, mascarado, o que deseja, de fato, é proteger-se das intempéries, das agressões, do frio, das más intenções alheias.
A hora de tomar a máscara e caminhar é a hora da perda da inocência. Só na infância e na morte todos os homens trazem o rosto autêntico e descoberto.
Antologia de Prosa Rio de Janeiro. Letras e Artes 1964.
Augusto Frederico Schmidt.
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