Projeto Memórias das Águas: Rios e Ruas
Entrevista de Dawn Margaret Fleming
Entrevistado por Bruna Oliveira (P/1) e Levi Andrade (P/2)
São Paulo e Collingwood, Ontário, Canadá, 14 de Maio de 2026.
Entrevista n.º: RIO_HV008
Realizada por Museu da Pessoa
Transcrição por Adyel Beatriz
Revisada e editado por Levi Andrade
[00:32] P/1 – Para começar, peço que você se apresente, falando seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.
R – Meu nome é Dawn Margaret Fleming e nasci no dia 25 de junho de 1973 em Londres, na Inglaterra.
[01:00] P/1 – Me conte o nome dos seus pais.
R – Meu pai se chama Roland William Fleming e minha mãe se chama Anne Catherine Fleming — ela tinha um sobrenome diferente antes de casar.
[01:16] P/1 – Como você os descreveria?
R – São pessoas amorosas, corajosas, com espírito de aventura e abertura e com um olhar muito coletivo, de criar comunidade em qualquer lugar onde ficassem ou morassem. Muito fiéis a esse propósito de contribuir para as coisas, criativos, muito bons com mão na massa, de fazer coisas.
[02:18] P/1 – Você sabe como eles se conheceram?
R – A história que ouvi mais — e nem sempre a história que a família conta é necessariamente a verdadeira, mas é a que ela assume como verdadeira — é que eles se conheceram muito jovens, com 14 e 16 anos, na praia. Imagina, na Irlanda, ninguém pensa em praia, mas aparentemente foi assim.
[02:54] P/1 – Com o que trabalhavam eles?
R – Minha mãe era professora de educação física e meu pai começou muito jovem como segurança num banco. Não terminou o ensino médio, não foi para a faculdade. Foi o início. Acho que ele queria fazer outra coisa, mas às vezes não é o que a gente quer — às vezes é o que é possível, e foi assim que começou.
[03:40] P/1 – Você mencionou que eles eram inventivos, que tinham a mão na massa. O que vem nessa memória?
R – Muitas memórias vêm de fazer coisas — de costurar, de construir, de montar, de ter zero e depois ter algo. Isso se conecta com meu pai, com os dois: são pessoas que têm visão, visão de possibilidades, não só do que existe na sua frente. A trajetória do meu pai, em termos de profissão, foi muito longe, muito além do que ninguém poderia ter imaginado naquela época. Teve uma carreira incrível na liderança de muitas coisas e, entre aspas, subiu para ter um impacto muito grande na cultura e na economia aqui na América do Norte. Até entrou em alguns livros sobre essa jornada. De um início muito diferente do lugar onde terminou — de crescer, de ampliar. Isso se conecta com essa coisa que você perguntou, sobre ser criativo, inventar algo. Quando criança, sempre havia algo acontecendo no quintal. Meu avô era carpinteiro, construía casas. Minhas avós eram muito boas com a mão, fazendo roupas. Minha mãe se tornou costureira e fazia ternos para mulher, vestidos de casamento, de um nível incrível. Sempre trabalhando com a mão, fazendo comida, pão, geleias, plantando, colhendo. Então acho que isso é muito presente para mim quando penso neles, quando lembro de como era minha infância.
[06:25] P/1 – Você chegou a conhecer seus avós?
R – Sim. Naquela época era muito caro — especialmente para telefonar entre Canadá e Irlanda, onde moravam meus avós. As visitas eram muito espaçadas, muito especiais. Quando eu era bem pequena, meus pais tinham gravações em cassete com as vozes dos meus avós respondendo perguntas. Eu pegava o microfone — lembro muito bem o formato do microfone — e eles diziam: ‘Pergunta para sua avó como ela está’. Então vinha a gravação respondendo. E eu acreditava que estava conversando, porque era muito caro usar o telefone. Ainda é difícil entender hoje, com todas essas tecnologias que são, entre aspas, de graça. Mas era assim. As visitas tinham muito de comida, cheiro, flores, texturas. E uma riqueza de raiz para mim que dava sentido aos meus pais. Porque me tornei cidadã do Canadá com 11 anos — viemos como migrantes. Ninguém na minha família, dos meus pais e do meu irmão, nasceu no Canadá. Foi um caso de aventura, de assumir riscos e de manter algo fiel aos valores, independentemente de qual parte do mundo. Então, sim, essas visitas às casas dos meus avós deixaram essas memórias — e foram poucas.
[08:45] P/1 – Você falou dos cheiros. Havia uma comida, um cheiro, uma festa que lembre essa infância?
R – Com eles, naquela parte — muito batata. Batata é o arroz com feijão dos irlandeses. Muita batata e muita torta, torta de maçã. Há esses cheiros. O cheiro da manteiga para fazer a massa das tortas. E um tipo de mingau com aveia feito com leite — um leite que vinha da vaca que morava três casas à direita, sabe? De ir lá e pegar aquele leite e ver a gordura em cima. Essas são as memórias da infância muito pequena que se conectam com a Irlanda, onde meus pais nasceram e se conheceram.
[10:00] P/1 – Você tem irmãos?
R – Tenho um irmão, com dois anos e meio a mais do que eu. Só nós dois. Mas fiquei sabendo recentemente, porque alguém da família da parte do meu pai começou a fazer aquela árvore genealógica — é isso? —, e eu descobrir que meu avô era um de mais de dez irmãos. Fico pensando: como pode mudar. Acho que isso acontece muito no Brasil também: duas, três gerações antes, as famílias eram muito grandes. Hoje é menos comum. E dois dos irmãos também morreram crianças — ter essa perda dentro de uma família era muito comum com tantos filhos. Mas da minha parte, sim, tenho um irmão, eu e ele.
[11:11] P/1 – Como era a relação de vocês na infância?
R – Eu o admirava muito. Ele é muito inteligente — a cabeça dele é uma coisa incrível. Eu queria ser igual a ele. Só que, em determinado momento, na parte social — sou uma pessoa muito sociável, gosto de estar com pessoas, conversar — eu percebi que ele é mais introvertido. Comecei a adotar uma postura de: 'A minha força é assim e a sua é assim'. Respeitando. Na adolescência, claro, algumas brigas. Ele é muito grande também — a pessoa mais alta que já conheci, tem dois metros. Foi uma fase curta de não se dar bem, e somos grandes amigos agora. Muito divertidos. Compartilhamos o humor. Bom humor seria outra qualidade dos meus pais — essa coisa de brincar. Então ele tem isso muito presente, e as piadas são muito fáceis. É fácil dar um sorriso quando penso nele.
[12:50] P/1 – Qual é o nome dele?
R – Mark. M-A-R-K. Meus pais nos deram nomes curtos, que ninguém pudesse transformar em apelido, porque os dois tinham nomes um pouco maiores e cada um recebia muito apelido e não gostavam. Então escolheram nomes de uma só sílaba. No geral deu certo — só que quando morei um tempo em Londres como adulta, um amigo colocou 'y' no final do meu nome. Minha mãe falou: 'Até agora conseguimos, agora vem isso'. Mas sim, nomes curtos. Por isso ganhamos esses nomes.
[13:41] P/1 – Me conta um pouco da casa e da rua onde você passou sua infância. Já era no Canadá?
R – Sim. Era muito boa, a rua era muito boa para andar de bicicleta, porque tinha muita subida, descida, muita árvore. Era um lugar muito seguro. Desde jovem eu tinha muita independência para andar sozinha. Gosto de curva — a rua tinha muita curva e não tinha saída. Então quem entrava normalmente morava ali. Não havia muito movimento, dava para brincar na rua com as amigas e os amigos. Havia um tipo de árvore — em inglês se chama silver birch — cujo tronco tem aquela casca branca, quase prateada, que sai como folhas de papel. Uma coisa linda. Tinha uma dessas árvores na frente da nossa casa. Era um lugar muito gostoso, com horta, com espaço para brincar, livre. Com estações muito fortes — muita neve, folhas que mudam de cor, muita coisa nascendo na primavera e muito calor no verão. Essa imagem de que o Canadá é só frio não é verdade — tem tudo das estações. Memórias boas da minha infância.
[15:38] P/1 – Já era nessa cidade em que você está hoje?
R – Não. Fica umas duas horas daqui. Perto de Toronto — que é a cidade que as pessoas conhecem — ao lado de uma cidade chamada Mississauga, e havia um rio perto de lá que se chamava Credit River. Havia um porto pequeno ali — Port Credit. Para quem não conhece essa parte do Canadá, há cinco lagos chamados The Great Lakes [os Grandes Lagos], e Toronto e a cidade onde cresci ficam na beira do Lago Ontário. Esses cinco lagos juntos formam o maior corpo de água doce do mundo. Alguns deles são maiores do que países pequenos — parecem o mar. Então há muito rio que deságua no lago, e esse elemento é muito forte na cultura local. O Credit River ficava perto de casa. Íamos muito fazer piquenique na beira. Muito, muito. E congelava no inverno, então dava para usar patins no rio e sentir essa mudança na qualidade da água — de água correndo e fluindo, com uma parte congelando e uma parte embaixo ainda correndo. É muito bonito. Tenho colegas aqui que pescam no gelo nos rios e nos lagos. Acho que culturalmente é muito distante do Brasil — essa relação com rios no Brasil é outra, que não envolve gelo. Mas foi o primeiro rio que lembro.
[18:14] P/1 – Queria que você contasse um pouco mais sobre essa relação cultural com os rios da sua infância — e também a relação que seus pais tinham com eles.
R – Muitos rios se tornam um tipo de fronteira — por bem e por ruim. Essas fronteiras às vezes são fonte de disputa por recursos ou por território. Aquele lado do rio é um lugar desejável, esse lado não. Em muitos lugares há esse aspecto de fronteira com o rio, que é uma ilusão que só com o tempo fui entendendo. O rio não é um estado fixo, não é um muro, não é algo concreto ou tangível. O rio não é tão tangível — se move, perpetua, traz uma presença constante com esse movimento. A cabeça explode um pouco tentando dar palavras para isso. Essa relação com o rio — acho que minha apreciação, com maturidade, aumentou. E essa apreciação altera a maneira como busco e resgato minhas memórias iniciais dos rios. Lembro muito de pontes. Em Dublin — onde minha mãe cresceu, meu pai é um pouco mais ao sul na Irlanda — o rio se chama Liffey. Não havia tantas pontes, porque construir ponte é caro. Havia algumas pontes principais e outras só para pedestres. E essa coisa de qual lado do rio você morava, naquela época, significava algo em termos econômicos, de privilégio, de desejo, de mito. O lado norte ou o lado sul — hoje em dia essa distinção não existe tanto, mas tenho memórias dessas falas, de 'mora no lado norte do rio', 'mora no lado sul', e fui aprendendo que embutido nisso havia algum tipo de comentário sobre quem era aquela pessoa, quais oportunidades tinha, qual o valor do território. Tem muito mais nuance nisso, mas entra na fala popular das pessoas. Lembro de atravessar o rio quando criança e pensar: 'Estou indo para o outro lado, como vai ser o mundo aqui?' Criava um estado de atenção diferente, uma expectativa. Se fosse só uma rua, acho que não teria o mesmo impacto. O rio parece mais potente com isso. E como disse, nem sempre para o bem — às vezes com preconceitos muito fortes. Tenho essas memórias de atravessar muito o Rio Liffey. E no Canadá, de me relacionar mais na prática — com os pés, com as mãos, com o corpo — com o Credit River, perto de casa. Essa aproximação com a natureza desde criança também vinha de fazer muito camping, de acampar com barraca. Não era nada estranho falar: 'Esse fim de semana vamos levar a barraca para tal lugar e fazer uma fogueira'. E sempre havia água perto — água correndo. Tem muita abundância de água nessa região. Então essa exposição corporal com a água desde jovem vai infiltrando a percepção e o olhar do mundo. E há muitos rios que cruzam a história, ainda mais com essa ligação entre culturas na jornada da vida entre países. A Irlanda foi aquela fonte. Mas eu nasci em Londres — tenho memórias de ter ido para lá quando criança, porque os voos internacionais sempre faziam escala em Londres antes de ir para a Irlanda. A Irlanda ficava como um pensamento depois — isso tem toda uma história política, mas é outro assunto. E o rio no centro da cidade de Londres — que continua fora da cidade também —, o Tâmisa [Thames]. Uma dama hiperespiritual, sabe? Uma grandeza naquele rio que eu sentia. Outra relação do que com o Liffey de Dublin. A largura dos dois rios, no centro das cidades, é parecida — não é uma questão de escala, mas uma personalidade dada ao rio que mudava minha experiência de atravessá-lo. Como criança, nunca descia para poder tocar, sentir, curtir. Foi já adulta que consegui isso — morei um tempo em Londres, muitos anos, como adulta. Aí comecei a entender como é o Thames mais de perto. Então não é necessariamente a largura nem a escala, mas a maneira que você consegue interagir com o rio — isso é que vai ter o maior impacto nas suas percepções do que ele significa para a vida e para o entorno…
[26:04] P/1 – Fiquei pensando que é um pouco sobre como a cidade percebe o rio, como cria uma arquitetura em relação a ele, e isso impacta como as pessoas vivem aquele rio.
R – … sim. Quando há densidade, tantos lugares que crescem e se tornam cidades se posicionam por necessidade usando o rio como recurso — despejando tudo nele, pedindo tudo dele, usando o rio para o transporte de mercadorias, de seres humanos, pedindo serviço do rio. Veio uma memória agora: quando casei — sou casada com brasileiro — fomos para Salvador e, por acaso, chegamos no dia de Iemanjá [festa em homenagem à orixá das águas, celebrada no dia 2 de fevereiro]. Estou pensando nessa parte cultural da relação com a água, de criar e manter tradições que envolvem outro tipo de interação com o rio — que vai além da natureza, do 'vamos curtir a natureza'. Reconhecer e viver e passar tradições que mexem com a cultura. Acho isso incrível. E penso em como isso poderia ser diferente também na cidade de São Paulo. Nossa celebração nos nossos rios em São Paulo — há muito para ampliar. Está melhorando, mas poderia ser muito diferente, muito. Tenho o privilégio de poder trabalhar e criar com pessoas que estão querendo fazer isso, que estão dedicando suas vidas para isso. E requer muito mais pessoas, mais energia investida, para criar uma ligação que vá além do raciocínio — porque nossa beleza como seres humanos e como comunidades e culturas está nessa expressão que não é tão linear. E a água permite isso, permite essa abertura para se expressar. É uma condutora muito fina e muito elegante. Acho que essa possibilidade em São Paulo é muito grande ainda.
[29:58] P/1 – Queria saber quais eram suas brincadeiras favoritas, o que você gostava de fazer quando era pequena.
R – Andar de bicicleta. Quando era muito pequena — acho que uns 7 anos —, ganhei um rádio AM, desses só com AM, sem FM, a pilha. Era laranja, muito feio, mas muito vibrante, com preto na frente, para colocar na bicicleta. Ganhei de um Papai Noel numa festa. Aquilo transformou minha vida — conseguia andar de bicicleta sozinha ouvindo música. Adorava ficar pendurada em árvore, escalar árvore, brincar com lama. Havia um tipo de inseto, peludo, que aqui no Brasil dizem que não pode tocar porque queima — mas onde cresci, não queimava. Então eu gostava muito de brincar com insetos. Ficava muito tempo no jardim, na horta. Montei um hospital de minhocas, porque pela cor achava que estavam doentes. Cavava para encontrar minhocas, colocava todas no hospital — um cantinho que eu havia preparado. Depois voltava mais tarde e falava: 'Nossa, todas saíram, estão bem'. Era o meu raciocínio de minhoca. Brincando com a terra, coisas assim. Andar de bicicleta com música. Não pensava num brinquedo específico — é mais uma sensação de curiosidade, terra, mão, brincando ao ar livre. Brincadeira livre.
[32:34] P/1 – Havia alguma coisa que você queria ser quando crescesse?
R – Muitas coisas. E muitas coisas que envolviam viagem. Reflito a época em que era impossível visitar os parentes na Irlanda e na Inglaterra — ou só de vez em quando conseguíamos ir. Então entendi que era muito caro viajar. Pensei em trabalhar num avião — ser aquela pessoa que atende as pessoas, para ir a outro lugar no fim do dia. Não tanto pelo serviço em si. E sempre havia uma coisa de poder assumir outras personalidades. Gostava dessa ideia — faz parte da curiosidade de como são as pessoas diferentes e o que seria ser uma pessoa diferente. Quando fiquei um pouco maior, achava muito charmoso quando as pessoas falavam que conheciam um arquiteto. Achei super chique. Não sei por quê — hoje conheço vários e são pessoas interessantes, uma profissão interessante. Mas não sei se era a noção de criar mundos também. Não conhecia arquitetura pessoalmente, então era algo que admirava, mas nunca achava que seria arquiteta. Associava um certo mistério ao arquiteto.
[35:00] P/1 – Como foi o momento da escola para você?
R – A escola foi um lugar confortável para mim. Sei isso agora que tenho filhos e vejo como é para jovens hoje. Para mim foi muito tranquila a experiência, tirando alguns poucos momentos com pessoas difíceis — essas coisas de querer dominar o outro, ser cruel. Passei por isso em alguns momentos, mas no geral não foi algo constante. Acho que tive sorte também: podia ir à escola sozinha, de bicicleta, sem depender de carro. Muitos amigos. Escola pública e muito boa. Tenho amigos de hoje que conheci ainda no que seria o sétimo ano aqui. Amizades até hoje. Ía bem na escola e a parte social eu gostava muito. Hoje estou curtindo isso ao ver minha filha, que tem 13 anos — ouço as histórias do que é o sétimo e o oitavo ano, o que ela faz, e fico lembrando muito da minha experiência escolar através das experiências novas dela. Acho que é bom não ter muita restrição nessa fase, poder sair um pouco do certinho. Sou uma pessoa de procurar prazer nos processos. E acho que tem que cultivar essa noção de brincar. Fico muito frustrada quando ouço direcionamentos como: 'Agora está no primeiro ano, agora tem um pouco mais de estrutura; agora está no sexto, agora está ficando mais sério'. Mas por quê? Por que não podemos continuar com o espírito de brincar mesmo para aprender? É a melhor forma de aprender. Parece uma coisa muito idealista, mas não acho que seja. Então talvez por isso eu buscava brincar um pouco ainda dentro das restrições que chegavam naturalmente dentro do sistema de educação — para continuar com aquele espírito que acho um espírito humano, de brincar. Não é só de crianças.
[38:55] P/1 – Havia algum professor ou alguma matéria que traga uma memória afetiva?
R – Havia um professor — tive sorte de tê-lo ainda no décimo primeiro ano, antes de terminar o ensino médio — que dava aula de filosofia e política naquela idade. Achei incrível, porque sempre fui mais forte em literatura, mas pensar sobre política de forma filosófica e abrir isso para jovens daquela idade foi incrível. Lembro muito das aulas dele. E havia um professor de teatro que permitia explorar literatura assumindo as personagens dos livros. Escolhi um autor que havia falecido recentemente e assumi o papel da viúva dele, falando sobre ele no funeral. Como é bom poder se colocar com a voz do outro para abrir o entendimento de uma obra. Então vêm muito essas reflexões — curtir perguntas e a qualidade da pergunta, e o quanto isso abre. Gosto de ficar nesse lugar. Acho que reflete o que faço hoje, que já tocava algo em mim quando era jovem.
[41:23] P/1 – Me conta como foi sua adolescência. Você gostava de brincar com os limites da escola, mas como era a sua juventude, o que gostava de fazer, como se divertia?
R – Fazia muitas das minhas próprias roupas quando era adolescente — criei uma pequena marca de roupa com uma amiga. A gente desenhava e costurava roupa. Gostava de não seguir necessariamente a moda da época, de buscar referências da moda antiga e colocar dentro da minha aparência. Curtia ficar um pouco nas bordas das tendências, com algo um pouco diferente. Encontrei a minha turma. Sou uma pessoa que gosta de andar em vários círculos — tinha amigas que estão até hoje na minha vida. Mas sempre circulei por vários grupinhos. Tocava clarinete, então tinha amigos da música, amigos de uma orquestra e de uma banda. Tinha os amigos do teatro. Às vezes cruzavam, às vezes não. Tentava ser uma pessoa boa em esporte também, mas não era muito boa. Sempre conseguia me classificar no time, mas no limite — sabe aquele time B, que tem um extra que entra se não houver alguém no B? Eu era aquela pessoa. Mas praticava bastante: badminton, remo. Não era boa em nada, mas tentava. A escola fazia separação de turmas por nível — o geral, o avançado, o enhanced [reforçado], que atendia pessoas com outro jeito de pensar. Então eu tinha amigos daquele grupo também. Circulava muito e acho que isso fomentava minha curiosidade pelas pessoas. Não gostava de me sentir limitada numa panelinha. Gostava de ter tempo sozinha para ler, para escrever — tinha um diário. Música, muita música.
[45:18] P/1 – Em algum momento você sonhava que o teatro e a música virariam algo mais na fase adulta?
R – Tinha esse desejo, sim. Me enquadrava naquele mundo. Gostava de aprender, mas com a música fui percebendo que não era boa o suficiente — que você começa a perceber: 'Não, ela que é boa, e você está acompanhando com muito esforço'. Foi assim com a música para mim. Amo, tocava bem, mas não era aquele 5% que vai para o mundo com isso como profissão. Então entendi e falei: 'O teatro é o lugar certo para mim'. Fui fazer teatro na faculdade. Fez sentido.
[46:41] P/1 – Assim que saiu da escola foi para a faculdade?
R – Não. Eu havia pulado um ano na escola — fui do primeiro direto para o segundo, e quando foi o primeiro dia do terceiro ano, eu não estava nas listas. Eles me disseram: 'Você está no quarto ano'. De repente eu havia pulado, sem que eu soubesse. Nunca perguntei aos meus pais como adulta por que não me avisaram. Então eu sempre era a pessoa mais jovem da minha turma. Falei: 'Vou reequilibrar isso — vou terminar o ensino médio e depois fazer uma pausa, para começar a faculdade na idade certa'. Comecei a trabalhar com 13 anos, depois da escola e no fim de semana, e fui guardando o dinheiro. Me tornei vegetariana com 14 anos, mas trabalhava no balcão de frios. As pessoas me perguntavam sobre o salame, o peru defumado, e eu inventava para vender. Aprendi muito sobre essa dinâmica comercial. Com todo o dinheiro guardado, já tinha meu lugar garantido na faculdade, mas pedi para entrar no ano seguinte. Então, com 18 anos, peguei nove meses e fui viajar pela Europa sozinha. Sem celular — de três em três semanas ligava para meus pais de um telefone público, com moedas, e falava: 'Estou bem'. Escrevi cartas postais. Fiz uma rota para conhecer alguns países. Foi extraordinário. Foi uma experiência de vida — entendi: 'É assim que sou, de querer realmente conhecer e viver outras coisas'. Depois voltei e fui para a faculdade, sempre indo longe da família, longe da minha base. Temos uma família amorosa — não era porque queria fugir. E acho que provavelmente saber que sempre há um lugar me acolhendo na volta faz você se sentir confiante para ir para o mundo. Fui para o outro lado do país, para a costa leste, para a faculdade.
[50:50] P/1 – Antes de ir para a faculdade, nesse período de viagem, qual foi a reação dos seus pais? Eles apoiaram?
R – Sim. Acho que deu um pouco de medo, provavelmente. Agora que penso — será que terei a mesma abertura para dizer 'Sim, pode ir, filha'? Espero que sim. A intenção inicial era ir com uma amiga, mas muito perto do prazo ela desistiu do plano. Foi um momento crítico: 'Será que vou?' Conversei com os meus pais e eles disseram: 'Acreditamos em você. Você fez tudo isso para ir, então você vai'. Deram apoio. Aprendi muito a fazer mala — chegar, sair, aquela sensação de escolher o que leva, entender o que cabe na mala, a ordem das coisas. Como temos isso dentro de casa? Muitas malas ao longo dos anos. É simbólico para mim também. Faço parte de uma companhia de teatro e dança que se chama Artesãos do Corpo, em São Paulo. Temos um trabalho que faz uma investigação sobre raízes, sobre como é morar longe das raízes, com provocações para as pessoas poderem falar sobre isso, e a gente cria um trabalho na base disso. Para mim essa parte de montar mala, de escolher o que vem ou vai, como aquelas distâncias e retornos vão testando a força da sua raiz — é muito forte, muito visual para mim. Sinto isso.
[53:28] P/1 – Nessa viagem pela Europa, havia uma experiência marcante desses nove meses? Um momento decisivo, uma memória bonita, triste, o que você quiser contar.
R – Há algumas memórias mais difíceis. Enfrentei situações que me davam medo e precisei mesmo assim tomar decisões. Isso foi formando uma confiança e provavelmente uma camada de proteção um pouco mais forte — você vai aprendendo a se proteger melhor, emocional e fisicamente. Fiz um experimento de aprender a falar uma frase — a mesma frase — em cada língua dos países que visitava. Era uma frase inútil, mas percebi que essa frase inútil abria conversas de forma inesperada. Era: 'Eu não tenho migalhas de pão no meu rosto'. Aprendi a dizer isso em várias línguas. Sem Google Tradutor, sem nada. Abriu conversas. Criar uma intenção de caminho e fazer adaptações conforme o momento — isso aconteceu muito. E aprender a ficar sozinha. Formar amizades rapidamente e também aprender a dizer: 'Agora eu vou para lá' — sem culpa, sem responsabilidade pelo outro quando se sabe que precisa ir. Aprendi isso nessa viagem. E muita diversão, muita beleza, muito teatro assistido em vários países, em outras línguas, outras culturas.
[56:53] P/1 – Eu ia perguntar se o teatro havia ficado de lado nesse período.
R – Não, não ficou. Foi mais como espectadora — ficando na plateia, apreciando. E ao ar livre em lugares inesperados, porque o Canadá é um país com construções relativamente novas em comparação às da Europa. Ver construções de milhares de anos antes, ir para a Grécia e andar onde se leu sobre isso numa peça escrita três, quatro mil anos atrás — passar pelos mesmos lugares foi impactante.
[58:12] P/1 – Como foi esse momento de entrar na faculdade na idade mais equilibrada com as outras pessoas?
R – Infelizmente, no primeiro dia, minha mãe me levou até lá e no carro eu olhava todo mundo e pensava: 'Mas nossa, todo mundo é muito jovem'. Me achava super madura, experiente, porque havia passado aquele ano viajando. Depois vi que as pessoas tinham saído do ensino médio e ido direto para lá, e estavam fazendo coisas que eu achava ridículas — imagina, eu não sabia de nada, mas achava que sabia tudo. Foi outra lição. Minha mãe me deu algumas boas palavras: 'Tira isso da sua cabeça, menina. Você é uma de milhões. Respira fundo, vai lá, vai dar certo'. Me deu uma reorganizada na perspectiva, foi necessária. Havia passado tanto tempo sozinha que não estava muito pronta para seguir a estrutura da faculdade depois de ter sido diretora da minha própria jornada nesses nove meses. Foi um pouco difícil a adaptação. Mas depois foi. Estava fazendo teatro, fiz amizades maravilhosas, me apaixonei pela primeira vez também de verdade. Que coisa linda saber o que é isso — sentir amor. E a cidade onde fiz faculdade ficava na costa extremo-leste do Canadá, onde a maré é a mais alta do mundo, muito dramática. Tinha terra vermelha, extremamente linda, numa cidadezinha de três mil pessoas. Escolhi ir para um lugar pequeno e isso também me fez bem — diminuir um pouco o mundo, aprofundar na aprendizagem e nas relações. Foram quatro anos lá, muito bons.
[01:01:25] P/1 – Como seguiu sua vida a partir dessa formação no teatro?
R – Comecei a trabalhar durante a faculdade com teatro, na parte de gestão de teatros. E aprendi também algo que não sei qual é a palavra em português — você tem uma peça que vai fazer trinta apresentações, a companhia está fazendo três ou quatro peças ao mesmo tempo, e cada intérprete está com vários papéis. Então há uma companhia reserva: as pessoas mais novas que assumem vários papéis nas peças precisam estudar e aprender todos, ficando prontas para um dia serem chamadas. Essa experiência foi muito boa — entender a dimensão disso sem a pressão de 'vai ser você todo dia', mas ficando pronta para ser chamada em qualquer momento. Foi uma ótima aprendizagem, jovem aprendiz mesmo na companhia de teatro. Na sequência comecei a atuar com eles. E depois veio aquela coisa de 'está na hora de voltar para as raízes, para a Irlanda'. Estava indo bem o início da carreira como atriz no Canadá — daí falei: 'Não, acho que quero morar na Irlanda'. Fui para lá por três anos. Construí uma vida no outro lado do Rio Liffey, no lado norte. Simbólico. Morei lá, comecei a entender melhor os parentes, nossa história como família, a cultura da Irlanda. Foi uma chamada cultural muito forte para ir morar lá. Criei uma companhia de teatro, fiz muito trabalho temporário porque tudo era muito instável. Sabia digitar bem no teclado e era assim que ganhava dinheiro quando não estava fazendo peça — trabalho temporário, naquele tempo chamado Kelly Girls: um banco de talentos de pessoas que sabiam digitar. Aprendi novamente a construir uma vida em outro lugar. Anos bons. Muitos tournées na Irlanda, muitas amizades. E o teatro sempre esteve junto, presente. E foi nessa época que me reaproximei dos meus avós — consegui, como adulta, passar tempo com os avós do lado do meu pai que ainda estavam vivos. Isso foi muito especial, outra perspectiva. Ouvi muitas histórias que quando criança não chegam a você. Concretizou algo que era só parte de histórias e tornou algo meu mesmo. As relações se aprofundaram — estava brotando experiências minhas próprias naquela terra. É o único lugar onde, quando piso na Irlanda e chego, falo: 'Eu sou daqui'. Ultrapassa gerações, é uma coisa maior. Senti muito que pertencia àquele lugar. Hoje, todo dia em São Paulo, as pessoas me perguntam: 'Você é de onde?' Todo dia. Comecei a dizer: 'Ah, da Rua Jaguaribe' — porque cansei de responder, porque não sou muito de um lugar nem de outro. Nasci num lugar, cresci em outro, a família em outro. Ninguém está interessado em tudo isso. Então qual é uma resposta que vai fechar a conversa? Porque normalmente quando a pessoa faz essa pergunta, não é porque quer saber — é um tipo de: 'o que é essa estranha aqui? por que está aqui?'. Então agora digo: 'Ah, sou da Rua Jaguaribe'. Pronto.
[01:07:21] P/1 – Você disse que os avós contavam histórias que foram se materializando como sua identidade. Você lembra de alguma história deles?
R – Há toda uma série de mitos da Irlanda muito fortes, que aparecem também nas esculturas da cidade. Mitos de transformação — sempre há isso nos mitos, não é? Vários mundos: o mundo dos deuses, o mundo dos seres humanos, as criaturas que vêm do submundo. E essas transformações entre as três camadas: o ar, a terra, a água — e o que está embaixo. Histórias de crianças que se transformam em aves, de punição e liberdade. A Irlanda tem uma história política muito conturbada, para falar de forma sucinta. Uma coisa que eu não entendia quando era criança — minha percepção foi se abrindo — era essa divisão entre protestantes e católicos na Irlanda. Minha família se encaixava mais na parte protestante. E quando criança, você acha que todo mundo é igual a você. Então, quando falavam da divisão na Irlanda entre protestantes e católicos, eu achava que a maior parte do país era protestante. Quando fui morar lá, entendi: não, era o contrário. Fui reformulando e reentendendo todas aquelas histórias, entendendo as sutilezas de região, de sotaque. A Irlanda cabe na região metropolitana de São Paulo — o país é muito pequeno. Mas a variação geográfica e linguística em trinta quilômetros é muito grande. Fui aprendendo a respeitar e manter a curiosidade com essas variações, também porque fazíamos várias tournées — indo a vilarejo muito pequeno, montando a peça lá, ouvindo e trocando histórias sobre momentos delicados da história da Irlanda, coisas cruéis que aconteceram com mulheres, com bebês não bem-vindos, o poder da Igreja. Trocar essas histórias com respeito foi impactante. Uma vez fomos para o norte do país, que é o Northern Ireland [Irlanda do Norte] — outro país, não é a República. Tenho parte da família da minha mãe de lá. Usei um sotaque do norte da Irlanda nessa peça — não é fácil, mas consegui. Um grande amigo meu, de Belfast, foi assistir a peça com os pais. Depois ele veio me dizer: 'Dawn, meus pais achavam que você era daqui'. Falei: 'Cheguei. Se não tiver mais nada, cheguei — porque aquele sotaque eu consegui'. Outra coisa que lembro daquela época na Irlanda: não sabia nada de vida no campo, de pessoas que trabalham com isso como profissão. Conheci uma amiga cuja família criava ovelhas. Perguntei a ela: 'Quantas?' E ela disse: 'Dawn, você nunca vai perguntar para uma família quantas ovelhas tem — é como perguntar quanto tem na conta do banco'. Aprendi: são nuances de cultura, de fazer uma pergunta que não pressupõe nada. Isso fica comigo como aprendizado.
[01:13:21] P/1 – Em que momento você saiu de lá?
R – Percebi que queria mais diferença. Naquela época a Irlanda estava muito focada em contar histórias regionais e micro-regionais, e eu, com sotaque canadense, não estava conseguindo penetrar para trabalhar mais com teatro. Então fui para Londres e morei onze anos lá, construindo uma nova vida. Com teatro também — criei outra companhia —, e daí comecei a trabalhar com apoio a pessoas em processos criativos, dando aulas de teatro para crianças, usando o teatro como ferramenta social de transformação e entendendo como um processo lúdico e criativo pode abrir e aumentar habilidades em outras áreas. Muitos anos naquele equilíbrio em Londres — trabalho de consultoria, apoio a outros, e minha própria prática. Morei onze anos em Londres e depois vim para o Brasil, onde já são quinze anos.
[01:15:10] P/1 – Antes de ir para essa experiência em Londres, você falou que foi morar do outro lado do Rio Liffey. Quando você era pequena, morava de um lado e visitava seus avós do outro. O rio mudou para você? Era outra visão?
R – Mudou a perspectiva — não era tão bem delineado como eu imaginava. Acho que é uma lição de vida muito simples quando você se coloca em outro lugar, com outra perspectiva, você amplia o seu entendimento. Só. Parece simples, mas às vezes tem que fazer de verdade, fisicamente. Mesmo hoje no meu trabalho, quando me sinto bloqueada, falo: 'Como posso me colocar em outra perspectiva?' Às vezes literalmente mudo de lugar onde estou trabalhando. Aquela pequena mudança de perspectiva realmente amplia. E também consegui redimensionar algumas das histórias que entrei como criança como história popular, em vez de verdade. E daí você descobre mais camadas da família — o que não se falava antes. Que moravam nesse lado do Rio numa outra época, porque aquela parte do norte do Rio era mais desejável, só que mudou por causa das questões políticas da Irlanda, que infiltravam tudo. Até vi com meus próprios olhos uma casa que meu avô construiu lá para ele e minha avó quando se casaram, no início da vida como casal. Não sabia disso antes de morar naquele lado. E naquele lado do rio fica a fábrica da Guinness [cerveja escura irlandesa], com o cheiro do grão que manda um cheiro muito particular e permanece. Permanece lá.
[01:18:38] P/1 – Me conta como foi essa decisão de ampliar o teatro, de fazê-lo se transformar em outras áreas, e o que você estava vivendo na sua vida pessoal em Londres nesse momento.
R – Havia amor também — um aspecto importante. E, às vezes, não foi uma decisão de 'quero aplicar essas habilidades'. Foi uma coisa de sobrevivência, de oportunidade. A oportunidade chegava e havia alguma coisa ali, e eu precisava pagar o aluguel. Fui assim, pagando a vida, igual a todo mundo. Conseguia manter maneiras de ter renda, aproveitando minhas habilidades. Aos poucos as oportunidades foram se abrindo — alguém perguntava: 'O que você acha?', você respondia, e a pessoa falava: 'Então vamos'. Vai criando oportunidade também. E havia o elemento de ir em tour e depois voltar para aquelas agências de trabalho temporário. Numa dessas, uma mulher me disse: 'A próxima vez que você voltar de um tour, não vá para a agência — me liga'. Foi um momento em que senti que ela confiava em mim e abriu muitas portas. Uma mulher dando oportunidade a outra mulher. A gente era muito diferente, mas foi ótimo. Acho que essa coisa de apreciar e buscar diferença ela captou algo em mim aí. Muita amizade naqueles anos, muitos anos difíceis também. A cidade exige muito — parecido com São Paulo nesse sentido. Tem que ter energia para responder à cidade. E andava muito de bicicleta, na chuva. Usava muito salto também de bicicleta — hoje entendo que não foi tão bem para os pés. Qualquer pessoa jovem que queira andar de bicicleta com salto: melhor optar por tênis. Aos poucos fui entendendo que precisava de outra aventura. E daí vem o Brasil.
[01:22:28] P/1 – Como veio essa decisão? Havia algo que te chamava para cá?
R – Amor. Foi amor. Aquela velha história bonita. Conheci quem é meu marido hoje quando estava morando em Londres. Fui passar um fim de semana em Paris com uma amiga que estava trabalhando por lá. Ela me disse: 'Dawn, venho trabalhar em Paris ou em Roma — quer me encontrar onde?' Calculei que era mais barato ir de trem de Londres para Paris. Então fui ficar no hotel que o trabalho dela estava pagando e conheci meu marido numa noite que fomos ouvir música num bar de jazz em Paris. Ele não era francês — eu achava que era, porque a gente conversava em francês. Daí ele foi contando: 'Não, sou brasileiro'. Falei: 'Brasileiro? Como? Não falo português, não entendo nada do Brasil, nada'. Depois de alguns anos ele decidiu voltar para o Brasil — estava estudando em Paris — e perguntou: 'O que você acha, quer morar no Brasil?' E depois de um tempo eu disse: 'Sim'.
[01:24:40] P/1 – Vieram para São Paulo?
R – Sim, ele é daqui. Voltou antes de mim, se estabeleceu com o trabalho e um lugar para morar. Eu estava morando sozinha há um bom tempo e precisava de uma estrutura mínima. Quando ele montou isso, eu vim. Mas não foi fácil — não falava nada de português, não entendia nada. Estava pronta para uma aventura, mas nunca tinha seguido ninguém para lugar nenhum. Ir para um lugar com esse amor no centro — precisei logo encontrar minha identidade além do relacionamento. Não é adequado — e é uma pressão enorme para a outra pessoa sustentar toda a presença de alguém num país diferente, sem entender nada. O primeiro ano foi muito difícil. Não tinha direito de trabalhar, não tinha CPF. Toda a identidade de quem eu sou precisava ser montada de novo — encontrar minha linguagem, meu humor, minha natureza em culturas muito diferentes. E não é uma cultura no Brasil, são muitas culturas. Fiz muito esforço para conseguir me identificar e me relacionar com um grão de verdade na minha fala com os outros. Foi muito trabalho. E depois começou a contornar.
[01:27:20] P/1 – O que veio primeiro — o trabalho como intérprete ou o trabalho com a Waterlution?
R – O primeiro trabalho que veio foi procriar. Os primeiros anos nasceram nossos filhos. A gente mudou de cidade — fomos morar no Rio. Estava tentando entender como trabalhar, ter filhos e falar a língua. Fiz muito trabalho voluntário no início. Aos poucos comecei a buscar oportunidades e falei: 'Vou investigar os mitos de água do Brasil para começar a entender um lugar, para começar o trabalho com a Water Illusion'. Começamos mesmo o trabalho da Water Illusion no Brasil em 2015 — o ano em que nasceu nosso segundo filho. Logo na sequência passei por uma fase de saúde muito difícil. Vários momentos ao longo de muitos anos — todo mundo vive tudo: doença, nascimento, morte, projetos, novidades, assim que a vida vai. Mas encontrei os Artesãos faz uns oito anos. Isso foi uma mudança muito grande na minha vida — começar a atuar nesse sentido, as duas partes da minha atuação começarem a se unir. E conquistando pessoas novas no campo da água — são pessoas legais. Quando comecei a ser colocada na frente de grupos liderando coisas, muitos dos que encontrei lá são amigos até hoje e continuamos com projetos juntos. O pessoal de Rios e Ruas — lembro da primeira vez que ouvi o nome deles, e até hoje são colegas. Muito rico. Uma coisa muito interessante: a ligação entre o trabalho dos Artesãos e o trabalho da água veio através do José Bueno [Fundador dos Rios e Ruas]. A companhia estava investigando práticas e cultura japonesas para a criação. Naquela época faziam um trabalho com vários mestres. Além de tudo o que ele faz, José Bueno também é mestre de aikido e fazia oficinas com a companhia antes da minha época. Eu o conheci através das águas e depois entrei na companhia sem saber dessa conexão anterior. Quando descobrimos, falamos: 'Então já existia essa conexão através da água antes de a gente saber'. Foi muito especial.
[01:31:44] P/1 – Quando você contou que começou a pesquisar sobre as águas aqui, de onde veio essa ideia?
R – Em 2010, entre morar em Londres e morar no Brasil, passei três ou quatro meses no Canadá aguardando que meu marido — namorado naquela época — se estabelecesse aqui. A fundadora da Waterlution me convidou: 'Você está no Canadá, você tem feito todas essas coisas na Inglaterra e na Irlanda — vem, estamos fazendo esse programa pela primeira vez'. Trabalhei pela primeira vez com a Waterlution em 2010. Vi naquele trabalho a importância das histórias das águas locais para fomentar uma conexão com o território. Isso ficou comigo. Depois de chegar no Brasil, depois de nascerem os filhos, depois de tudo que houve, falei: 'Vamos aplicar o mesmo processo no Brasil'. Começamos a pesquisar. Aqui tem muito. Mesmo uma pesquisa rápida você encontra isso em qualquer cultura. As coisas começam a fazer sentido — nossas partes mais sensíveis, quando olhamos histórias e tradições ligadas à água, nos levam a outro nível de conexão com as pessoas. Foi assim que começamos. A experiência de 2010 me inspirou. Conversei com a diretora da Waterlution e falei: 'E se a gente fizer algo aqui no Brasil?' Pessoas já estavam se articulando, juntei-me a elas e começamos a sonhar juntos o que seria possível — aquelas histórias como base para os processos de engajamento com o público. Até hoje um dos objetivos da Waterlution é usar processos criativos para engajar pessoas com a água, de qualquer maneira. É transversal.
[01:34:49] P/1 – Quais são os seus rios aqui, desde que você chegou?
R – Fico frustrada às vezes com o gênero na língua portuguesa — amo falar português, acho uma língua linda, mas o fato de que o substantivo tem gênero me incomoda às vezes. Por que 'mestre'? Por que 'o rio'? Mas os grandes rios, os grandes mestres para mim aqui são o Pinheiros e o Tietê, com certeza, porque já atuei em projetos em prol desses rios com vários parceiros. São os mais evidentes e, infelizmente, ainda definem a maneira que as pessoas se conectam com a água na cidade de São Paulo — tirando todos os exemplos que sabemos que existem por iniciativa de parceiros como o Rios e Ruas e outros. Moro na região da Consolação, Vila Buarque, Santa Cecília, e o Rio Anhanguera passa por lá; e corro no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga [conhecido como Parque do Estado], passo perto do Sesc-Consolação, e toda a parte do Vale do Anhangabaú — essas são as mais presentes também nas histórias. Fizemos vários programas ao longo dos anos no Brasil entrevistando pessoas, dando espaço para contar sobre iniciativas com os rios invisíveis da cidade de São Paulo. Às vezes acho melhor não citar nomes porque começo a citar exemplos e fico com aquela culpa de ter esquecido alguém. Mas o espaço para quem está trabalhando em prol das águas e dos rios tem que aumentar. Você viu aquela iniciativa de colocar, em vez do nome da rua, o nome do rio que passa ali embaixo? São mudanças de linguagem, pequenos festivais culturais em prol das águas — além de todas as partes técnicas, de legislação. Mas para as pessoas, elas precisam se entender em relação a algo para lutar por algo. Quando está invisível, as pessoas não conseguem ter uma conexão. E sem conexão não vão lutar em defesa de nada. E há outro aspecto muito forte no trabalho da Waterlution: a igualdade de gênero dentro da governança da água, em relação à segurança hídrica e climática. Ao longo desses anos, especialmente depois de me tornar mãe, aprofundei a percepção da importância da voz e da liderança da mulher quando tratamos de algo que, quando falta, quando há insegurança, quem mais é afetada são as mulheres e as pessoas mais vulneráveis — justamente as mais subrepresentadas na tomada de decisão sobre essas questões. Trabalhamos muito com esse olhar — como criar mecanismos para que mulheres e outras pessoas sub-representadas nesses lugares de tomada de decisão possam aumentar sua voz, sua confiança, sua expressividade, para que se coloquem como atores visíveis e tomadores de decisão. Esse trabalho pulsa muito forte em mim.
[01:40:16] P/1 – Você percebe que a mentalidade das pessoas nos projetos que participou acabou mudando, de uma simples identificação com os rios para lutar em prol deles? Houve essa mudança?
R – Sim, sem dúvida. E isso às vezes é muito gratificante e ao mesmo tempo muito frustrante — porque está comprovado. Não precisa mais de case, não precisa mais de piloto. Funciona. Ponto final. Funciona. Então por que não pode ser adotado para que todas as pessoas no ensino médio tenham essa oportunidade? Por que não há educação de água, saneamento e higiene embutida em qualquer serviço, como política pública de engajamento e de construção de valor para o cidadão? Falamos muito em alfabetização — número e letra. E se houvesse uma alfabetização que considerasse a água? Com isso embutido? Essa possibilidade de ensino com prioridades transversais muda a cultura, muda o valor que as pessoas têm por aquele bem. É muito gostoso de ver: o jovem de 14 anos, a mulher de 55 — qualquer pessoa, quando aquilo acende — fala: 'Oh, isso me pertence'. Não é algo separado. Trabalhamos também com processos de percepção das águas internas com as águas externas e o fluxo entre essas águas. Para quem nunca falou sobre isso, parece estranho. Mas não é — é muito elementar, simples e elegante ao mesmo tempo. Trabalhamos não só em São Paulo, mas em outros lugares também. Recebi um relato sobre um projeto que fizemos em Pernambuco — o rio é o Capibaribe. Fiquei feliz porque falei o nome certo do rio, que por anos eu confundia com 'capivara'. Via como um programa de oito ou dez meses, trabalhando com a voz de mulheres, pode mudar política pública — sobre limpeza de caixa d'água, sobre tomada de decisão, ocupando espaço. Trabalhando com dança para chegar a mudanças de políticas públicas. Parece loucura, mas funciona. Adoro isso.
[01:44:42] P/1 – Queria que você contasse um pouco sobre alguns dos projetos que vocês desenvolveram.
R – Vou contar sobre dois. Primeiro, o Passos d'Água — um projeto feito em parceria, primeiro no Rio de Janeiro e depois na cidade de São Paulo e na região metropolitana, seguindo os três níveis do Tietê: baixo, médio e alto. O Passos d'Água trabalha com jovens de 12 a 15 anos — sétimo e oitavo ano. Abre os olhos dos jovens para enxergar a crise climática e a insegurança hídrica na jornada de casa para a escola. Começa com um mapa afetivo desse espaço, ensinando como abrir o olhar para ver esses desafios. Aos poucos chega-se a uma parte de cocriação: com conhecimento técnico, como chegar a projetos que olhem para aqueles desafios. Os jovens cocriam soluções e apresentam maquetes. Acreditamos muito nessa ligação entre mão e cabeça — fazendo a maquete, você tira a ideia e a desenvolve ao mesmo tempo. Trabalhando em grupos, montando maquetes e apresentando seus projetos como final da jornada de despertar a possibilidade de ser ator de mudança. O Passos d'Água foi feito em parceria com o Sesc, em várias unidades que seguem o Rio Tietê. Com centenas de jovens. Fizemos duas edições, fomos muito longe com isso. Outro projeto: uma parceria com o Ipesa [Instituto de Pesquisa Social e Ambiental], com fundo proveniente do SOS Mata Atlântica em parceria com a Heineken. A Heineken fez um floating bar [bar flutuante] no Rio Pinheiros, e o lucro que veio daquilo foi para o SOS Mata Atlântica, que lançou um edital. A gente respondeu com o Ipesa e com o Parque da Joia [reserva ambiental no Butantã]. Criamos um projeto de educação para a Escola Estadual Butantã [escola estadual próxima ao Parque da Joia] — um processo de ensino técnico: como medir a qualidade da água, como conhecer os rios e as águas por perto, observar o clima, observar os desafios da água do território, para se tornarem agentes de mudança. Os jovens também fizeram maquetes. O projeto terminou com um festival no Parque da Joia, que todo ano acontece lá. É um lugar incrível, ponto de junção de vários projetos — agrofloresta, permacultura, festival. Todo mundo deveria ir. Fica perto do CEU Butantã. E fizemos cinco edições do Water Innovation Lab [laboratório de inovação em água] no Brasil ao longo de cinco anos, em territórios diversos, juntando jovens para imersões, mentoria e cocriação de projetos. Fizemos também projetos de aceleração de startups para o setor de saneamento, projetos para mulheres no Nordeste, e projetos com uma aldeia Guarani perto de Itapiraí, trabalhando com capacitação dos jovens e implantação de soluções baseadas na natureza para melhorar a qualidade da água lá. Vários lugares no Brasil. E volto para a parte mais holística: você deve ter visto aquele aplicativo onde você pode deixar uma gota de água entrar num rio e seguir qual caminho ela vai percorrer até desaguar no mar — acho que se chama River Runner. Aquela água é aquela água — a água que circula. Estamos falando de rios de São Paulo, mas vejo de uma forma maior, com esse movimento da água.
[01:51:08] P/1 – Que história o Rio Tietê e o Rio Pinheiros contam para você?
R – O que me veio, quando você fez essa pergunta, foi a voz do nosso amigo muito querido, o cantor Vitor Quinjo — ele e o parceiro Eduardo Colombo, dançarino incrível, são uma dupla criativa muito potente. Eles têm uma canção chamada Vem pro Rio, muito ligada ao Rio Tietê. O que me veio como resposta foi a voz deles, esse pedido dos rios para se aproximar — 'Vem, vem, sabe?' Acho que isso é a coisa mais profunda e ao mesmo tempo mais simples, que é constante. Às vezes você vai ouvindo uma expressão por muitos anos sem parar para pensar por quê. E de repente entende algo. Lembro que isso aconteceu comigo com a palavra cowboy — nunca havia parado para pensar. Um dia percebi: mas por que cowboy anda de cavalo? Aí caiu a ficha: é porque em cima do cavalo eles mandam nas vacas. Simples e um pouco ridículo também. Mas é um exemplo de quando algo acende — I got it. E lembro também quando percebi de forma muito mais ampla, no meu corpo — sendo o corpo algo muito transitório e impermanente —, que quando vamos a uma cachoeira e ficamos maravilhados com aquela água caindo, ficamos embaixo e sentimos toda aquela potência. E mesmo quando o rio anda de forma muito devagar, muito delicada — aquela água passou. Passou. Quando não estamos lá vendo, está passando. E antes de qualquer construção, já estava passando. Sem o nosso olhar, estava passando. Essa coisa do que está constantemente em processo de transformação é um entendimento muito grande e muito simples — uma criança de quatro anos entende de forma muito simples. Mas com o tempo fui entendendo de forma muito mais profunda. Não sei como, mas estou entendendo mais agora.
[01:55:31] P/1 – Queria te perguntar sobre a relação entre o que você desenvolve nos trabalhos dos Artesãos do Corpo e o trabalho com as águas.
R – Existe, e existe não de forma explícita — não é 'vamos por água na próxima criação'. A diretora da companhia, Mirtes Calheiros, traz temas para explorar e valoriza muito o olhar único de cada um de nós. A visão dela de criação é através do olhar único de cada pessoa da companhia — não uma coreografia fixa onde não importa quem você é. A companhia tem mais de vinte e cinco anos, eu tenho uma história relativamente curta com a companhia, oito anos. Em muitas das criações a água aparece. Não é surpresa, porque é essencial para a nossa expressão. Da minha parte, várias cenas: com copo de água em cima do piano, com uma boneca feita de gelo que vai derretendo enquanto interage com memórias, com percepções distorcidas através da água em reflexo, com bonecos de baleias feitos de material reciclado, com imagens do mar, com areia. Tanta presença e ausência da água nos trabalhos. Não busco mais tentar entender a divisão entre os meus trabalhos — faz sentido na íntegra. É a água. Acho que é isso.
[01:59:10] P/1 – Você está hoje no Canadá, perto de um rio. Queria que você contasse um pouco sobre sua relação com esse rio e que mensagem você gostaria de deixar para ele.
R – O rio perto do qual moro se chama Rio Bonito, o Pretty River. Consigo ir lá em menos de cinco minutos de bicicleta, colocar a mão e os pés nele. Engraçado — quando você perguntou qual a mensagem que gostaria de deixar, veio um ritmo de samba na minha cabeça. Acho que é a pulsação de tudo que aprendi sobre água no Brasil. Ando com meus filhos perto desse rio e não tivemos essa experiência na cidade de São Paulo de poder ir lá em pouco tempo, de bicicleta, em qualquer hora, para tocar nele. Tem sabe aquela expressão de 'deixar os cotovelos para fora para não deixar ninguém muito perto de você'? É um pouco isso — de manter a largura dela, dessa água, desse rio, com essa — porque tem muita curva, incrivelmente lindo nesse rio. E de manter a grandeza para que possamos andar, tocar, andar de bicicleta com curva. Acho que é isso que quero falar para esse rio agora.
[02:01:27] P/1 – Como é seu dia a dia hoje?
R – Estou trabalhando com um projeto com jovens focado em resiliência climática no Canadá — jovens de 18 a 30 anos do país inteiro — e estou conseguindo ver muito do país também com encontros. Um tipo de Water Innovation Lab. Vejo como é possível criar e viver essa aventura em outro local. Estou de volta ao Canadá, só que com meus filhos — que são filhos brasileiros, com uma mescla de culturas muito rica. É quase uma segunda imigração para o Canadá: chegar depois de quinze anos no Brasil, com filhos que nasceram no Brasil, com uma volta que traz muita transformação e outras identidades junto. Isso está presente em tudo que faço aqui. Há momentos em que me sinto muito em casa. E outros em que vejo que o Canadá mudou muito — o olhar e o cuidado que estão acontecendo aqui em relação ao reconhecimento dos povos originários são muito fortes e muito bons. Em cada encontro, qualquer que seja, há o reconhecimento do território: de quem é aquele território, qual a fala, qual a nação. Mesmo online isso acontece. Isso muda a percepção e amplia o respeito. Espero que chegue logo ao Brasil também. E no dia a dia estou muito próxima dos meus pais agora. Acho que estamos chegando ao fim da conversa, mas essa decisão de morar nesse lugar é para ficar perto deles novamente, depois de trinta anos longe. É muito especial ver essa troca das gerações de forma muito simples — com um chá, com bicicleta, com uma distância curta. Estou me sentindo um pouco mais em casa também, encontrando minha turma de teatro e dança.
[02:04:38] P/1 – Tenho mais três perguntas. Como foi se tornar mãe? Pode contar também o nome dos seus filhos.
R – A linguagem para a mãe que engravida depois dos 35 é muito negativa. Fiquei muito feliz de engravidar com quase quarenta anos — mas eles chamaram de 'gravidez geriátrica'. É assim que chamam, acima de 35 anos. Achei muito peculiar e triste. A gravidez e o tornar-me mãe foi tudo no Brasil. Tive a honra de participar de um filme sobre estrangeiros no Brasil, quando estava grávida da nossa filha. O filme termina com essa possibilidade de uma próxima geração. Muito especial ter esse momento marcado dentro de um olhar cinematográfico também. Só tenho experiência de ser mãe no Brasil. Aprendi a ser mãe no Brasil. É incrível, é difícil, é incrível. Acho que o universo e o mistério do universo no micro existem na maternidade. E é uma viagem que gosto. Sinto muito o privilégio de ter tido dois filhos, de formas muito diferentes de gravidez e de parto, enfrentando muita resistência com a maneira que queria ter tudo isso. Apoio muito as mulheres que querem ter liberdade e um parto digno com escolhas. Isso continua sendo uma luta no Brasil — está melhorando, mas ainda está difícil.
[02:07:56] P/1 – O que é importante para você hoje?
R – Saúde, conectividade, espaço para criação e diálogo — diálogo respeitoso. É importante para mim. Pensando nas várias frentes de trabalho e também no diálogo com as próximas gerações, de convidar trocas abertas e genuínas. E digo saúde porque minha família ri de mim por isso, mas quando acontece qualquer coisa — febre, bateu a perna, ficou estressado —, a primeira coisa que falo é: 'Vamos pegar uma água'. É o remédio automático, e acho que deve ter algo verdadeiro nisso.
[02:10:10] P/1 – Quais são os seus sonhos?
R – Um dos meus sonhos é não perder a capacidade de imaginar e poder continuar criando no mundo. Não penso tanto em 'quero muito ir para tal lugar' — embora haja lugares que quero conhecer, como os Lençóis Maranhenses e as águas da Amazônia. Mas acho que desejos são diferentes de sonhos, para mim. Um sonho seria que essa possibilidade de respirar fundo e imaginar fosse possível não só para meus filhos, mas para muito mais gerações e com muito mais expressividade das pessoas durante a vida. Vem assim o sonho — é mais de poder imaginar, de continuar imaginando para poder continuar criando. Admiro as pessoas que têm uma relação muito forte com um território, que têm um sonho muito concreto. Penso no pessoal do Parque da Joia — se perguntássemos a eles, talvez dissessem: 'Sonho que esse parque se torne uma referência'. Um sonho mais tangível, mais concreto. Acho que isso vem de uma conexão muito firme com um território. O meu sonho talvez reflita a minha trajetória, que perpassa vários territórios.
[02:12:56] P/1 – Tem alguma pergunta que não te fiz que você queira contar?
R – Não. Você é muito boa de perguntas — ninguém nunca me perguntou tanta coisa na minha vida. Sou muito boa de fazer perguntas — meus amigos e colegas às vezes saem um pouco frustrados porque em conversas eu falei pouco e fiz tantas perguntas que eles dominaram a conversa. Mas onde me sinto confortável é fazendo perguntas, puxando conversas através da escuta. Então foi um exercício muito desafiador ficar respondendo sem fazer perguntas. Não tenho nada mais a acrescentar.
[02:14:15] P/1 – A última pergunta: como foi contar um pouco dessa história hoje para o Museu da Pessoa, o que você sentiu?
R – Não sei quem vai querer ouvir isso — sinceramente. Me coloquei respondendo para você abertamente, com vontade. Não tenho muita expectativa. Não entendo muito bem quem é que vai parar para ouvir, mas se alguém chegar ao fim, eu agradeço a quem chegou ao fim para ouvir. É uma honra. Conheço o trabalho do Museu da Pessoa em vários momentos ao longo dos meus anos em São Paulo e no Brasil, por vários motivos, e não acreditei quando veio o convite para contar a minha história, para fazer parte desse acervo. Me sinto muito honrada, porque de certa forma é um reconhecimento de que pertenço a um lugar também. Esse lugar onde cheguei sem identidade própria — isso é uma honra muito especial. Então é um agradecimento, e um pouco de exposição e vulnerabilidade também de ter falado tanto, sabendo que foi um convite mesmo para falar. Agradeço.
[02:15:50] P/1 – Em nome do Museu da Pessoa, em meu nome, em nome do Levi, agradeço muito por essa oportunidade de te ouvir, por esse desprendimento em contar essa história e essa vontade. Gostei muito de ouvir essa história. Obrigada por ter contado, por ter sentido essa confiança em contar. Muito obrigada por confiar sua história ao Museu da Pessoa.
R – Obrigada.
FIM DA ENTREVISTA
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